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Prepare seu coração

Uma vez um amigo me disse que o mais desesperador de discutir assuntos filosóficos comigo era que, se me pediam para definir um conceito, eu respondia descrevendo a cena de um filme. Nunca perdi essa mania de me expressar por metáforas; só perdi as esperanças de conseguir elaborar sínteses objetivas e transparentes. Daí meu interesse por linguagens simbólicas, como a astrologia, por exemplo: porque aí estamos tratando de signos que por definição escapam à mortificante ação dos verbetes enciclopédicos, convidando sempre ao acréscimo de novas camadas de significado, sem nunca alcançar a pretensa estabilidade das linguagens conceituais.

Estive pensando nisso por causa da temporada que se aproxima de Vênus em retrogradação. Pois, por mais que eu pense em uma definição possível desse trânsito, só me ocorre a possibilidade descrevê-lo com canções. Tudo bem que (ao menos em parte) esse recurso se deve à preguiça do blogueiro na hora de redigir um texto de antemão fadado ao insucesso, fato que de resto não deveria legitimar a preguiça, uma vez que todos os textos dedicados à compreensão desses assuntos estão em alguma medida destinados ao fracasso. A verdade é que, por um lado, nós nunca chegamos a nenhuma conclusão satisfatória nesses casos; por outro, isso nunca nos impediu de tentar.

Mas, no caso de Vênus, o discurso em prosa me parece particularmente inepto para tratar de suas nuances e sutilezas. No caso de Vênus retrógrada, então, é enorme o risco dessa prosa assumir um aspecto errático e desajeitado, mimetizando o que há de desencontrado no próprio símbolo, e fazendo um esforço tolo para tentar dizer algo que está mais que satisfatoriamente expresso em dois ou três versos populares. Por isso, para tentar escrever sobre o tema – que será predominante no céu até o fim de janeiro de 2022 –, acabei montando uma playlist dedicada à deusa em seu momento retrô. Duas ou três canções da lista fazem referência aos afetos nostálgicos que podem emergir dessa configuração, mas as outras parecem tratar de algo ao mesmo tempo mais básico e mais complicado.

Como as faixas foram selecionadas um tanto intuitivamente, para mim mesmo faz sentido agora recorrer a elas para entender algo a mais sobre do que estamos falando quando falamos em Vênus Rx. Uma recorrência é o tema da traição, mas o que está em jogo não é a traição em si mesma, e sim os sentimentos ambíguos e intrincados que antecedem e sobretudo se seguem ao fato, incluindo as imensas complicações do manejo de uma relação que se pretende manter após o leite derramado. Vênus retrógrada lança luz sobre o que há de mais complexo nos relacionamentos, e, com alguma frequência, isso se reverte ou se expressa na participação de uma terceira pessoa. O caso novelesco nem precisa ser recente para ganhar atenções nesse tipo de trânsito; há um sabor de “vale a pena ver de novo” na história, ou então um eco de pontas soltas do passado.

Outra constante é o tema dos términos e separações. Às vezes, ele se articula com a atmosfera lamentosa em que surge a vaga noção de que as coisas poderiam ter assumido outro rumo, não fosse aquela palavra fora de hora, aquele gesto fora de contexto, aquela faca fora do lugar. Às vezes, a tudo isso se soma o desejo e até mesmo a ação no sentido de recuperar o que foi perdido, e ao tema do término se soma o do reencontro, talvez para uma despedida mais apropriada, para uma separação mais definitiva, uma estocada mais contundente. O fato é que Vênus retrógrada pode literalmente dar longos passos em direção ao passado – sobretudo em algum aspecto do a lua, sobretudo se tiver relação com Câncer – para tentar restituir os laços desfeitos. Se vai conseguir é outra história, e pode ser que ela acabe dando uma volta a mais no parafuso dos corações solitários, mas ela precisa tentar.

Por outro lado, existe também a percepção de que o que está quebrado não tem mais conserto. Ela pode tanto surgir da voz transtornada de quem recapitula a cena da injúria (“Uns dias”), do fastio de quem estava carregando o piano da relação e não está dando conta mais do peso (“It’s not you, it’s me”), do reconhecimento tranquilo de que simplesmente já não há o que possa ser feito (“Don´t think twice, it’s alright”), ou mesmo da declaração peremptória de que eu não tenho conserto (“You know I’m no good”). Quando Vênus estaciona no céu, sobretudo, nos momentos que antecedem e sucedem a volta (e em particular nessa conjunção com Plutão de agora), é possível lançar um longo e penetrante olhar para aquilo que parece capenga, ou defeituoso, ou destruído, em um relacionamento. Se há alguma chance de restauro, ela vai aparecer aí. Se não, a possibilidade de passar o pano e seguir adiante cede diante da própria profundidade da fissura, e a verdade aparece, doa a quem doer.

Percebe-se, ainda, que no conjunto das canções há um componente de tristeza e um componente de malícia, um traço de luxúria e boas doses de carência, uma força de atração e inclinações ao distanciamento, decisões irrevogáveis e as mais hesitantes súplicas. Não saberia explicar direito como esses fatores se articulam em torno de um só trânsito e um só símbolo, mas acho que as canções conseguem, e elas estão aí para isso. Vênus, de saída, já proporciona a convivência diplomática entre opostos, ou certo equilíbrio na balança dos paradoxos com que todos nós precisamos conviver – então não é de se estranhar que, quando sua manifestação se torna mais perceptível, essa capacidade se mostre mais aguda. Embora isso aconteça também nos instantes em que ela surge através de uma falha, de um erro, de um imprevisto – o que é sempre uma oportunidade para renovar seus dons por meio de um improviso certeiro.

Enfim, se me pedirem para explicar Vênus retrógrada, eu acho que recorreria também a um romance. Seria o Passagem para a Índia do britânico E. M. Forster, especialmente através da leitura que Kenneth Burke fez do livro em um ensaio intitulado “Social Comedy and Cosmic Mistery”. Para o crítico, nas falhas de comunicação que atravessam a trama, e também nos equívocos que atravessam todas as relações do romance, se revela a possibilidade de que algo mais – um mistério – possa estar por atrás de toda a parafernália dos códigos e ritos que povoam sua superfície, e são frequentemente desrespeitados, por falta de tato ou de atenção com os sentimentos em jogo. Mas esse mistério requer esses erros para aparecer, e os improvisos que são capazes de revertê-los não existiriam de outro modo, ou seja: o gesto retificador carregado de verdadeiro afeto depende de alguma forma de rompimento para fazer valer sua força e sua sempre inédita vitalidade.

Essa é a mensagem que tenho para todo mundo que vai meter os pés pelas mãos nos relacionamentos durante os próximos dois meses mais ou menos. Lembrem-se de que poucas coisas nesse mundo são ao mesmo tempo tão sagradas e tão profanas quanto o amor – aliás, não conheço nada que seja capaz de acolher expressões tão extremas de opostos eventualmente inconciliáveis. Deve ser por isso que nos permitimos ser tão ridículos em nossas paixões, deve ser por isso que as cartas de amor são inerentemente patéticas – porque está garantido que neste movimento elas serão, igualmente, o exato oposto. Talvez no fundo a gente sinta até que essa relação é inversamente proporcional, e que, quanto mais risíveis forem as paixões, quanto mais abobalhadas forem as cartas, mais elas terão de mistério cósmico e profundidade ontológica. Mas eu não sei expressar essa ambivalência sem recair numa linguagem truncada, que mutuamente exclui esses vetores, o do mais terreno e o do mais elevado. Quem sabe fazer isso é Bruno & Marrone.

Enfim, se nossos relacionamentos são o ponto onde o cósmico e o mundano mais claramente se encontram, às vezes essas duas coisas virão juntas, mas com frequência serão também separadas para que a gente perceba sua interdependência. Existe algo de infinitamente engraçado nessa dinâmica, onde a solidão carente de um indivíduo adormecido no banco da praça é também uma ameaça de esgarçamento a todo o tecido do universo; e existe algo de sublime também, pois aí está a chance de sua reconstituição. Mas só mesmo um bom refrão é capaz de expressar a capacidade venusiana de sintetizar contraposições, porque um bom refrão é sempre falta e preenchimento, convicção e dúvida, esperança e lamento. Preparem-se para viver tudo isso ao mesmo tempo nas próximas semanas. E façam suas playlists. A minha está aqui.

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Beleza dura

Foto: Henri Cartier-Bresson

De tempos em tempos Vênus e Saturno se relacionam no céu dando sequência a uma negociação complicada. O espírito que aspira à beleza e pretende realizá-la no plano físico precisa se entender com as restrições da matéria. O amante que deseja o encontro precisa respeitar os ciclos de aproximações e afastamentos, deixando o pêndulo dos encontros pender para a solidão.

Vênus é a regente de Libra, que busca a conciliação e a harmonia nas relações, mesmo que à custa de definições permanentes. Saturno rege Capricórnio, que busca definições permanentes, mesmo quando isso tem um custo para as relações. A possibilidade de uma beleza duradoura ou de acordos consistentes nasce da interação desses dois vetores a princípio contraditórios. Mas pode ser que o resultado desse contato seja também certa tristeza mesmo.

Nesses casos, é válida a consciência da lei do esforço reverso. Se lutamos contra um sentimento indesejado, ele se fortalece; se aquiescemos, a seu tempo, ele passa. A aquiescência é venusiana; o tempo, saturnino. Vênus e Saturno trabalham bem juntos desde que a gente permita que eles trabalhem. É engraçado isso do ser humano de achar que pode escolher os sentimentos que tem.

Qualquer projeto de longo prazo evolui nessas oscilações entre a angústia e a esperança. Não há obra de arte que seja concluída sem uma mistura de felicidade e resignação. Vênus e Saturno trabalharam juntos toda vez que um escultor enfrentou as restrições da matéria para encontrar a beleza que existe na pedra. Mas sem a dureza da pedra não haveria beleza nenhuma, apenas uma vaga ideia do que a beleza é ou poderia ser.