astros, touro

Botando a Culpa no Signo

É óbvio que a astrologia ajuda e ajuda muito e ajuda muita gente em muita coisa nessa vida, mas por via das dúvidas ainda vou escrever um livro intitulado Botando a Culpa no Signo: um Guia Prático e Rápido para mostrar como e por quê. Agora, astrologia demais às vezes atrapalha, e vou dar um exemplo agorinha mesmo de como isso acontece para vocês. Semanas atrás, eu vinha querendo juntar com mais três casais de amigos na parte aberta da garagem aqui do prédio para cantar os parabéns para o Gabriel, meu filho geminiano e entusiasmado, que aos dois anos de idade praticamente nunca viu esse time de tios do tipo pandêmico mais recluso e cuidadoso; pensei que eu e o Tiago (meu filho capricorniano e gastronômico) podíamos fazer umas comidinhas de festa junina e uma panela de carne cozida que ia ficar de bom tamanho, o importante mesmo era a gente se encontrar. Mas aí fui ver meus trânsitos astrológicos para o dia em que ia acontecer o convescote, e tinha uma quadratura de Urano em Touro em trânsito com minha Ceres em Aquário, sendo que Urano tem a ver com amigos, Ceres tem a ver com comida (para quem quiser saber mais sobre ela tem um texto aqui), quadratura é um aspecto difícil, então Urano em quadratura com Ceres = Situação Difícil Envolvendo Amigos e Comida. Decidi não fazer nada na cozinha para evitar esse desgaste a mais, afinal a vida já anda complicada que chega sem a gente ter uma pilha extra de louça para lavar na segunda-feira. Acontece que marcamos um vinho na pracinha, e depois começou a ventar muito na pracinha, aí viemos aqui para a garagem, depois de mais de ano sem se ver ao vivo, imaginem se alguém queria ir embora. Mas comida? Zero, fora uns queijinhos que depois das sete já não enganavam mais ninguém. Fiquei incomodado, claro, tenho Ceres em Aquário na casa 4, sendo que Aquário é regido por Urano e tem a ver com amigos também, enquanto a casa 4 é literalmente a casa da gente mesmo, então Ceres em Aquário na casa 4 = Um Sujeito Que Gosta de Alimentar os Amigos Quando Eles Vão Na Casa Dele (como se não bastasse, sou mineiro, faço questão). Pois bem. De repente, lá estávamos nós, com conversa animada, vinho sobrando, garagem liberada, mas sem nadinha para comer nem a expectativa de um jantar, quando alguém deu a ideia de que a gente podia pedir uma pizza. Nada mais natural e prático: houve comentários de aprovação, certo clamor de expectativa, íntimas especulações sobre estabelecimentos e sabores, até que todas atenções se voltaram para mim, que na condição de anfitrião deveria referendar o pedido com uma protocolar palavra de estímulo. Acontece que aí eu lembrei que esse negócio de amigos e comida podia muito bem dar ruim nesse dia, e que eu já tinha decidido cancelar todo planejamento anterior com o propósito de evitar esse problema, e imaginei que uma simples pizza encomendada na melhor das intenções podia muito bem vir acompanhada dos transtornos mais imprevistos (a literatura está cheia desses casos), e lembrei também que eu já estava conciliado com a ideia de simplesmente driblar a tal quadratura matando meus amigos de fome, então de um jeito não tão ostensivo, mas não menos desajeitado e certamente não menos convicto que esse, disse algo como NADA DISSO VOCÊS ESTÃO DOIDOS NINGUÉM VAI PEDIR PIZZA AQUI HOJE NÃO. Segue-se certo silêncio constrangido, eles talvez imaginando que eu devo ter lá meus motivos, eu muito convicto que de tinha que barrar aquela iniciativa ensandecida, resultando que todo mundo meio que resolveu pedir sua pizza em separado no caminho de volta para casa, e o encontro foi encerrado logo em seguida em um clima de desânimo e afobamento. Agora vejam bem: acordei hoje sem pilha de louça extra para lavar, sem conta extra na mercearia para pagar, sem desgaste com os vizinhos por causa da ocupação da garagem até mais tarde, porém ao mesmo tempo acordei me sentindo mal e provavelmente muito pior do que se tivesse pilha de louça conta vizinhos e tudo o mais, e sabe por quê? Porque eu me tornei O AMIGO QUE NÂO DEIXOU OS AMIGOS PEDIREM UMA PIZZA, sim, eu fiz isso, e basicamente porque não-sei-o-quê estava fazendo sabe-se-lá-qual-aspecto com o-esse-nunca-ouvi-falar em algum lugar a milhões de quilômetros de nosso planetinha azul. Sim, eu me tornei essa pessoa, e como se não bastasse havia dois taurinos entre os amigos esfomeados, cuja amizade me parece agora perdida para sempre e com justa causa. Então estou escrevendo esse texto em parte para me justificar com eles, explicando, se aceitarem me escutar, que eu posso até ser O MALUCO DOS SIGNOS, e posso ser inclusive O MALUCO QUE FAZ OU DEIXA DE FAZER AS COISAS POR CAUSA DO MAPA ASTRAL, mas que eu não sou nem quero nunca ser O AMIGO QUE NÃO DEIXA AS PESSOAS PEDIREM UMA PIZZA, porque isso é uma coisa horrível e imperdoável e crime de prescrição não prevista no código penal. Estou escrevendo também para me redimir de ter dado um mau exemplo de uso dos saberes astrológicos, porque sempre digo que quando você vê um aspecto difícil no seu mapa a melhor coisa que você tem a fazer a aceitar os impulsos e vontades com que você vai criar condições para a referida encrenca se manifestar (esses impulsos e vontades vão acontecer, acredite, como quando você meio que do nada decide fazer uma refeição para os amigos e servi-la na garagem do seu prédio). Então, se aparece uma oposição de Plutão com sua Vênus e você sente aquela atração inexplicável por uma criatura misteriosa que muito provavelmente vai te colocar em encrenca, vai com cuidado, mas vai sim, porque essas coisas têm o hábito de nos dar uma rasteira pelos flancos quando a você tenta se esquivar delas fingindo que não está nem aí. Eu por exemplo, que fiz o que pude para afugentar os maus espíritos que assombravam a questão dos amigos e comidas ontem, acabei exatamente por isso perdendo para sempre amizades muito estimadas, ao tentar escapar das armadilhas que ameaçavam meu bem-estar dominical. Tudo o que fiz para evitar a catástrofe acabou me enredando mais na armadilha onde acabei me afundando de um jeito ou de outro. Sabem Édipo Rei? Então, mais ou menos por aí, com a diferença que no caso Édipo não se tem notícia na história de amigos taurinos querendo pedir uma pizza, de modo que minha tragédia é muito maior. Mas eu não devia reclamar, porque vivo repetindo que é melhor você viver o sofrimento de uma situação do que viver o sofrimento de tentar evitá-la e não conseguir, sendo que uma situação necessária vai encontrar um jeito de se fazer acontecer (acho que foi o Jung que disse isso, se não disse devia ter dito, é o tipo de coisa que o Jung diria). Então, se eu tivesse feito as comidinhas e a carne cozida talvez tivesse sim me metido em algum tipo de enrascada cansativa e estressante, mas seria agora um ser exausto e estressado com muito mais respeito por mim mesmo. É aquela história, casa de ferreiro espeto de pau, no caso um espetinho nu sem nem uma tira de alcatra ou um pedaço de abobrinha para enganar a fome. Por outro lado, espero que esse texto seja o suficiente para explicar meu comportamento mórbido e errático de ontem, fazendo de um jeito enviesado já agora o que eu disse que ia fazer depois, já que querendo ou não acabei usando o negócio dos signos para mostrar meu arrependimento e pelo menos tentar conquistar de volta a estima perdida. Sigam-me para mais dicas de como colocar a culpa nos astros, aliás estou pensando inclusive em montar um serviço de atendimento particular nessa área, não é pouca coisa o que tenho a oferecer. Fez bobagem? Converse com a gente que temos uma desculpa. Traiu? Só pode ser o ingresso de Marte na sua casa 3. Atraso na entrega no trabalho? Mercúrio retrógrado, professor, aqui o parecer de uma firma especializada. Magoou? Pode deixar que a gente explica.

Proibiu de pedir uma pizza? Eu prometo: trago o amigo taurino de volta em três dias!

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A época das transformações

“Tenho 36”. A fala encerra Frankie and Johnny, uma peça de Terrence McNally adaptada para o cinema em uma produção de 1991 com Michelle Pfeiffer e Al Pacino. O número faz referência à idade da personagem de Pfeiffer, e preciso de umas pinceladas de contexto para justificar a citação. O dia está nascendo lá fora; eles estão no apartamento dela, onde passaram a noite discutindo e brigando; junto com o nascer do sol surge um momento de conciliação, que aparece por si mesmo, seguindo os ritmos da vida e dos relacionamentos em seus turbulentos inícios. Trata-se de uma comédia romântica, afinal. Clair de Lune, de Debussy, está tocando no rádio. Ela pergunta, “pro que der e vier?”, e ele responde, “pro que der e vier”. Ela: “Tenho 36”.

Dá para imaginar que é um momento feliz no filme. Porém, seria mais adequado caracterizá-lo como um momento de paz e tranquilidade, seguindo a sugestão da trilha sonora. Há também um toque agridoce de melancolia, que está tanto na música como na paleta de cores do amanhecer, e não retira do instante seu frescor, porém lhe confere indícios de maturidade. Ela tem trinta e seis anos, portanto: já não é exatamente uma garota, viveu perdas e desilusões. Sabe como os sonhos de sua juventude estavam em desacordo com a realidade, e provavelmente decidiu viver a realidade mesmo assim, mas tem horas que dá vontade de desistir de tudo: dos sonhos, da vida, da realidade. É isso que ela quase faz quando percebe algumas condições da história de amor que está começando. Quase.

Astrologicamente, estamos falando de alguém que, mesmo em meio ao entusiasmo do começo de uma paixão, acabou de viver um desafio saturnino. Acontece com todo mundo: após a crise que chega pouco antes dos trinta, Saturno dá as caras mais uma vez cerca de sete anos depois, em uma quadratura que põe à prova o que foi conquistado antes em termos de compreensão de si e do mundo. Desse ponto de vista, há de fato um potencial recomeço, ou pelo menos a chance de uma renovação dos votos de confiança que a vida e o real às vezes exigem nessa época, seja em nossas experiências afetivas, seja em nossas experiências familiares, seja em nossas trajetórias profissionais. O filme trata um pouco disso.

No entanto, queria falar hoje sobre o que vem a seguir. Queria falar sobre o que acontece depois do fim desse filme. Pois, sendo uma comédia romântica de matizes realistas e amadurecidos, ela termina com uma versão um pouco diferente do “e foram felizes para sempre” da fábula; algo como “e foram felizes na medida do possível”, ou “e foram razoavelmente felizes por um bom tempo”, ou “e ficaram felizes por uns dias e depois voltaram a brigar por causa de outro assunto, e aí resolveram esse assunto também, mas aí ele ficou emprego, a mãe dela ficou muito doente, eles perderam um bebê, e ficou difícil ser feliz de novo”. De um jeito ou de outro, está claro que o momento de paz e tranquilidade que presenciamos foi apenas um momento – e que logo as coisas vão ficar complicadas novamente.

É sobre isso que eu quero falar: sobre como as coisas sempre ficam complicadas novamente, inclusive mais complicadas do que eram antes. Até porque essa percepção dá um novo tipo de valor aos momentos em que tudo se simplifica e alcança uma síntese evidente e provisória (em uma decisão, em uma canção, em um gesto). Para desenvolver esse ponto, em se tratando de movimentos planetários, não basta termos os trânsitos de Saturno como referência, pois, pasmem, Saturno não complica as coisas o suficiente: está entre os chamados “planetas sociais”, que regem a relação entre indivíduo e sociedade, e não alcançam nem os territórios mais obscuros da psique nem as vastidões menos exploradas do cosmos. É aí que entram Urano, Netuno e Plutão, justamente os planetas com que nos acostumamos a conviver dos 36 anos em diante.

Tenho 41. Gosto de observar como esses planetas se manifestam nas leituras que faço. Uma das razões pelas quais eles se tornaram importantes para mim é bastante previsível: seus trânsitos foram muito perceptíveis na minha trajetória individual. Até certa idade, eu estava de fato aprendendo a manejar habilidades e limitações mais diretamente associados aos planetas pessoais e sociais (com ênfase, é claro, para o retorno de Saturno e seus desdobramentos). Então veio o retorno do Nodo Norte, que já era uma novidade, sobre a qual escrevi nessa outra postagem; mas foi na sequência, durante os trinta e tantos e depois, que uma sucessão de trânsitos regulares (aqueles que todos nós vivemos mais ou menos na mesma idade) se mostraram capazes de abalar de maneira mais decisiva e transformadora minha forma de entender e agir no mundo.

Supõe-se que as conquistas de um retorno de Saturno bem vivenciado – com suas crises, rupturas e mudanças de rumo – a essa altura estarão consolidadas, para que você consiga enfrentar esses outros desafios em diferentes recortes da existência. E é verdade, é um pouco assim mesmo que acontece, como se você tivesse passado de fase na vida, contando com mais força e mais recursos, mas também podendo aguardar novas pelejas. Por outro lado, seria um equívoco tratar esses obstáculos apenas como “maiores” que os anteriores – eles são de outra natureza, e não aceitam as mesmas soluções que encontramos antes. Redefinem mais do que imaginamos existir para ser redefinido, desconstruindo crenças e certezas que nós nem sabíamos que estavam lá.

Já escrevi uma postagem específica sobre a quadratura de Plutão, que ocorre nessa época. Tenho ascendente em Escorpião, e considero Plutão meu regente, daí o interesse específico nesse trânsito. Os outros são a quadratura de Netuno e a oposição de Urano. Dependendo do seu mapa, um deles pode se tornar mais relevante, e é possível e provável também que você seja apresentado em diferentes momentos da vida às exigências desses “deuses de transformação”, para usar uma expressão de Howard Sasportas; há quem chegue aos 30 já bastante escolado em suas angústias e reviravoltas. Mas, como já dei a entender, não pretendo me estender aqui nas repercussões isoladas ou individuais de Urano, Netuno e Plutão, e sim nas implicações de aparecerem um atrás do outro durante uma época específica e alargada da vida de todos nós.

Em tempo: essa é uma época particularmente fértil para o trabalho psicanalítico ou outras formas de terapia. Isso me faz lembrar uma frase de Carl Jung, segundo a qual até os 40 anos o que vivemos é a “luta pela sobrevivência”: só depois de encerrar esse ciclo estamos em condições de saber quem realmente somos, o que realmente queremos, e quais arquétipos estamos destinados a encenar de maneira genuína em nossas vidas. Entendam esse número de maneira abrangente, considerando que o processo pode se estender ate os quarenta a poucos, e você tem uma consonância nem um pouco surpreendente entre conclusões da astrologia psicológica e do pensamento junguiano. Num caso como no outro, o ponto de partida é a sensação de terra arrasada que enfrentamos diante de alguns desses terremotos da meia-idade, em que forças além do nosso controle e da nossa consciência entram em ação de um modo inesperado, e precisamente quando, segundo padrões e expectativas sociais, deveríamos enfim “estar no controle” das nossas vidas e “conscientes” do que somos e queremos. Aliás, esse foi o período da vida Jung em que, após entrar em confronto aberto com Freud – algo que seria determinante em sua trajetória -, ele passou pelas crises e transformações registradas no chamado Livro Vermelho, uma obra de caráter diarístico e autobiográfico, pouco compreensível teoricamente ou como guia para o trabalho psicológico, mas repleta de alusões a uma intensa metamorfose pela qual estaria passando seu autor.

Talvez, então, a luta pela sobrevivência termine não por causa da garantia da sobrevivência, e sim pela experiência da mortalidade, que muitas vezes aparece para nós em trânsitos plutônicos; e descobrir quem realmente somos seja antes consequência do desengano do que motivo de entusiasmo, tal como sentimos diante de algumas manifestações de Netuno. Mas não digo isso para desanimar ninguém, porque após esses solavancos sempre conhecemos algum tipo de serenidade ou segurança ou alegria que desconhecíamos antes, e eles na verdade abrem espaço para novidades onde víamos um futuro já definido. Ou seja: sobre a terra revirada pela passagem dos planetas transpessoais, é possível plantar novas sementes cujos frutos até então sequer sabíamos existir, e muito menos esperávamos saborear.

Esse resultado depende de certa aquiescência, embora ela não necessariamente aconteça sem luta. Posso falar do “meu” Sol em Capricórnio, do “meu” ascendente em Escorpião, da “minha” Vênus em Sagitário e talvez até do “meu” Saturno em Virgem, mas quando se trata de Urano, Netuno e Plutão, sinto que sou eu que sou deles, não o contrário. Tal sensação compromete talvez mais do que gostaria meu senso de autonomia e individualidade, mas apenas num primeiro momento; num segundo, sinto que a própria lógica de separação entre uma parte do cosmos que é minha e outra qual pertenço está equivocada, e que sou uma manifestação singular dele inteiro – uma manifestação que posso conhecer melhor através destes símbolos.

Os planetas transpessoais, portanto, me parecem servir ao autoconhecimento tanto quanto os outros. Mas, nesse caso, algo maior que meu ego está conhecendo a si mesmo. Por outro lado, acho difícil que esses astros e as energias que eles representam venham a ser tornar realmente conhecidos por nós tão cedo; no máximo, ganhamos alguma intimidade com eles, mas ainda assim eles vão preservar algo de intimidador. Eles desorganizam muita coisa que estava pretensamente dominado por uma razão apenas pretensamente amadurecida; e tudo o que trazem é relativamente novo, tanto para a astrologia quanto para humanidade, que só veio a conhecê-los e investigá-los a partir do final do século XVIII.

De modo que me parecem fundamentais à prática astrológica exatamente por serem pouco compreendidos, ao mesmo tempo em que sua ação estranha ou inesperada tem o poder de colocar em cheque nossas crenças e convicções. Aqui peço licença para uma breve digressão ilustrativa, pois dá para explicar melhor esse ponto recorrendo à história de Johannes Kepler, o jovem astrólogo e astrônomo que, no final do século XVI, após muito trabalho, esforço e tentativas frustradas, acreditou ter descoberto a estrutura geométrica do universo. Marcelo Gleiser faz uma relato completo desse processo em Criação Imperfeita: cosmo, vida e o código oculto da natureza. Segundo Gleiser, ao observar as distâncias entre os planetas – Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter e Saturno –, Kepler concluiu enfim que elas podiam ser explicadas com um modelo baseado nos cinco sólidos perfeitos, os chamados sólidos platônicos: cubo, pirâmide, octaedro, dodecaedro e icosaedro. Encaixados um dentro do outro, como em uma boneca russa, faziam com que as esferas imaginárias situadas entre os sólidos correspondessem com exatidão às distâncias entre as órbitas dos planetas, e dos planetas em relação ao Sol.

A coisa toda parecia fazer muito sentido. Mas as coisas eram mais complicadas do que ele imaginava. Pois, com o tempo, após a morte de Kepler, outros planetas foram sendo identificados: Netuno, Urano, Plutão. E suas posições e movimentos nem de longe se encaixavam no modelo kepleriano, ou em alguma versão alternativa dele. Cada vez mais, nenhuma ordem, nenhuma razão pareciam dar forma sequer ao restrito aglomerado de esferas que nossos telescópios alcançavam. E mais ainda: muitos outros aglomerados, incontáveis outros sistemas foram sendo localizados nos observatórios, em uma estonteante proliferação de pontos de luz rodeados por parceiros de diferentes tamanhos, trajetórias e composições, talvez vinculados por forças obscuras e secretas, mas sem qualquer lógica que lhes determinasse a tessitura.

Kepler, vale ressaltar, afirmou ter encontrado a solução para a ordem subjacente às posições planetárias com uma epifania, que lhe teria ocorrido durante uma aula na qual demonstrava a conjunção periódica de Júpiter e Saturno no zodíaco. Na época esses eram os dois grandes protagonistas astrológicos – tendo sido apontados inclusive como símbolos para o nascimento ao anticristo –, e parece natural que Kepler os tenha envolvido na história da publicação do Mysterium Cosmographicum, o livro no qual expunha sua descoberta. Depois, ele viria a ser celebrizado como um dos primeiros cientistas a reforçar o modelo copernicano, e por ter exposto o movimento elíptico das órbitas planetárias, quando ainda se acreditava que eram circulares. Mas, como disse, a perfeita simetria que ele havia identificado na configuração do sistema solar era o resultado de uma visão provisória e fragmentada do universo, que depois seria redefinida pelo avanço das técnicas de prospecção espacial.

Em resumo: as coisas são sempre mais complicadas que a gente imagina. A astrologia, a meu ver está aí para referendar essa afirmativa, e não o contrário. Lembro-me então de uma entrevista com o diretor teatral Peter Brook em que ele dizia que “Deus é o desconcerto das consciências humanas”. A astrologia pode não trabalhar com a ideia de um único Deus, mas certamente aciona símbolos e ideias que se assemelham a deuses e deusas, sendo que no caso dos planetas transpessoais estamos sem dúvida diante de potências desconcertantes, poderosas e enigmáticas, que foram capazes de desmontar logo de saída um dos mais engenhosos e harmônicos sistemas astronômicos de que se tem notícia.

Mas acredito também que temos não apenas a necessidade, como também uma oportunidade valiosa de de contar com companhia de figuras tão ilustres em nossa jornada, durante o período que vai dos trinta e tantos até os quarenta e poucos. Sim, eu sei, na hora que o bicho pega dá vontade de mandar tais figuras ilustres para os infernos de onde vieram. Acontece que, se você sente que quer voltar no tempo, é exatamente porque o tempo passou, e você já percebeu que a realidade não se encaixa em seus esquemas. Então o melhor que você tem a fazer é mesmo aceitar e receber bem essas divindades, abrindo espaço na casa para que elas se acomodem, por maior que seja o transtorno que a princípio possam causar.

Agora, uma última observação. Nada disso refuta a paz e tranquilidade que podemos sentir, por exemplo, ao ouvir uma interpretação de Clair de Lune de Debussy sendo dedilhada no piano ao longe, ou percebendo bem dentro de nós uma fonte da mais serena convicção de que as coisas no final das contas são simples, muito simples, por mais que a gente insista em complicá-las. É uma percepção que pode surgir a qualquer momento da vida, independente da idade, e creio que ela será igualmente correta em todas as suas manifestações, em todos os lugares e pessoas. Talvez o próprio Kepler tenha sentido algo semelhante, por exemplo enquanto tentava compreender a distância entre o Sol e a Terra, e percebendo de repente que não havia distância alguma, porque a luz que ele usava para suas medições era a presença imediata do próprio Sol.

Enfim, por mais complexas que sejam as coisas, desde cedo a gente não apenas entende como também sente que é tudo uma coisa só. O que a gente aprende com o tempo é que esses momentos especiais são momentos, e que exatamente por isso são tão preciosos. Eles emergem entre uma época de complicações e outra, sem nunca criar as bases para um permanente estado de beatitude, que tampouco será alcançado com a maturidade ou o envelhecimento, mas com a forte implicação de que por trás de tudo existe uma canção sendo tocada pelas cordas do cosmos, simples o bastante para resumir tudo em poucas e pausadas notas. Que venham, portanto, os planetas e seus trânsitos e avacalhações dos esquemas que montamos para dar conta da existência: serão bem-vindos nesse sentido. Mas saibamos também que às vezes tudo se resume mesmo à luz da lua e a Debussy, a uma frase serena ou a uma sensação de pertencimento ao mundo e aos cosmos, porque às vezes isso é tudo o que precisamos saber.

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O retorno de Saturno

Before Sunset (2004)

Esses dias escrevi sobre o lado infantil do arquétipo geminiano, que pode ser associado à leveza de Mercúrio. Mas é interessante pensar também em como esses símbolos e planetas aéreos têm um papel em assuntos considerados mais ‘pesados’ da vida. Urano, o regente de Aquário, por exemplo, tem fama de favorecer comportamentos erráticos e súbitas alterações de rumo, porém é uma força essencial em processos de amadurecimento individuais. O interessante aqui é que normalmente atribuímos ‘maturidade’ a Saturno ou a comportamentos e atitudes saturninas (ou capricornianas, por assim dizer), quando isso pode ser indício de extrema insegurança e de apego a sinais exteriores de realização ou sucesso.

É o caso de questionar o que significa ser adulto em nossa sociedade. Não faltam exemplos de gente que se apressa em conquistar esse estatuto, para deixar para trás uma adolescência constrangedora ou uma infância triste, buscando a nova condição através de uma carreira, de um casamento, de um título. Vale tanto para jovens advogados e até mesmo deputados que são crianças tolas vestindo ternos caros – e que, para nosso pânico, podem permanecer assim pelo resto da vida –, quanto para hipsters empreendedores que conseguem manter uma irônica aura juvenil em seus apartamentos descolados. Vale para muitos jovens escritores e artistas, também.

O famoso retorno de Saturno é então oportunidade de reavaliar tudo o que foi ‘conquistado’ até os 28 ou 29 anos de idade, e perceber que entendemos tudo errado. Ou pelo menos uma parte importante. O motivo pelo qual escolhemos uma determinada profissão pode ter sido simplesmente agradar o papai, o motivo pelo qual nos casamos cedo pode ter sido simplesmente nos livrar da mamãe, o motivo pelo qual nunca deixamos a casa ou a cidade de papai e mamãe pode ser um senso de dever deturpado e cômodo. Tudo isso faz parte do processo, e assim Saturno vai construindo seu caminho em nossa vida através de expectativas e condicionamentos, contando com nossa insegura anuência, e colocando tudo sob uma nova luz quando volta ao ponto de partida, dizendo: vê, já é um avanço, isso é tudo o que você não é.

O problema é que a essa altura muita coisa já aparece sob o aspecto das ‘responsabilidades’ e da suposta ‘consistência’ da vida adulta. Ou então é difícil abrir mão do que foi obtido tanto esforço. Quem sente que chegou nessa parte da vida sem ter alcançado muita coisa pode estar em uma posição até melhor do que quem tem muito a ‘perder’. E, sim, temos compromissos com a família, a sociedade, os amigos, mas não há nada aí que seja incompatível com o compromisso que temos com o destino. Muito pelo contrário. Os advogados e médicos e engenheiros que insistem em uma carreira escolhida por força das circunstâncias e das próprias incertezas são aqueles que jamais terão maturidade para exercê-la. Quem se dedica a cuidar dos pais ou permanece em um relacionamento por obrigação não é mais adulto por isso; só é mais infeliz.

Mas, para quem acata o amadurecimento que Saturno traz através da destituição de quaisquer sinais de amadurecimento, há uma boa notícia. É aqui que Urano entra na história. Porque, junto com o retorno de Saturno, geralmente vivemos um aspecto de Urano que em sua energia súbita e libertadora traz fortes intuições do compromisso com o destino. Não é necessariamente uma definição. Pode ser só coragem para abandonar de vez as máscaras acumuladas. É uma licença para agirmos de forma errática e imprevista, ou seja, para ser adulto mesmo, confrontando expectativas e circunstâncias. A família, a sociedade e os amigos podem até ficar meio chocados a princípio, mas a longo prazo eles agradecem.

Jung disse que o livre-arbítrio é a habilidade de fazermos com satisfação aquilo que temos que fazer de qualquer jeito. Um dos problemas de interpretação dessa frase é confundirmos essa ‘satisfação’ com uma heroica ou estoica aceitação de responsabilidades e deveres. Saturno é bem capaz de fazer isso – e há momentos em que isso é necessário – mas a verdadeira liberdade nunca é uma adequação voluntária a condições externas. Tampouco é um exercício da vontade individual desconectada de quaisquer outras circunstâncias. A verdadeira liberdade é uraniana. Ser adulto é ser livre, não para a gente ser o quiser, para sermos de acordo com algo em nós que sabe o que a gente é. Esse algo é o universo.