aquário, peixes

A hora da virada

Paisagem com queda de Ícaro (1560) | Pieter Brueghel

Lembro de quando vi o dia raiar pela primeira vez. Bom, talvez eu já tivesse visto antes, mas não com a mesma consciência e expectativa. Eu devia estar com cinco ou seis anos, havia chegado em casa de uma festa por volta das quatro da madrugada – era a primeira vez que ficava acordado até tão tarde –, e decidi que ia fazer um esforço para não dormir antes do sol nascer. O engraçado é que por algo motivo eu acreditava que isso acontecia de uma hora para a outra; tipo, que as luzes do céu literalmente se acendiam de repente. Aí fui para a janela, para ficar de tocaia, para estar lá no instante exato do súbito desanoitecimento. Calculei que seria às seis horas em ponto, mas podia ser antes, talvez às cinco e quarenta e cinco. Quando chegou a hora, foi decepcionante descobrir que o dia ficava claro mais ou menos do mesmo jeito que ficava escuro mesmo: aos poucos, e sem nenhum dramático instante de iluminação da abóbada celeste.

Essa recordação me voltou esses dias, ao ler sobre o suposto início da Era de Aquário. Digo “suposto” não porque questione o advento em si, mas sim a ideia de que possamos determinar onde ele começa. Pois, até onde entendo, a sucessão de era zodiacais acompanha a precessão dos equinócios, causada pela leve inclinação do eixo de rotação da Terra, que em cerca de 26.000 anos realiza uma volta completa, alterando a cada dois mil e tantos anos as constelações que acompanham os solstícios e equinócios, mas sem que exista uma definição clara sobre quando uma constelação substitui a outra no rodízio.

É verdade que as constelações já são desenhos que nós mesmos criamos, e que nada nos impediria de traçar seus limites no horizonte com a mais absoluta exatidão, assim como foi feito com as regiões celestes que determinam a passagem do Sol de um signo para o outro, durante seus ciclos anuais. Mas não consta que isso tenha sido feito, de modo que, no pé em que as coisas estão, o fim da Era de Peixes e o começo da Era da Aquário só podem ser compreendidos como um processo que leva muitos anos, talvez séculos, para se completar. Em tempo: a precessão dos equinócios acontece no sentido inverso do verificado nos movimentos do Sol e outros astros em torno da faixa zodiacal. Sendo assim, a Era de Aquário vem depois da Era de Peixes, que por sua vez sucedeu a Era de Áries, e por aí vai.

Por outro lado, não há dúvidas de que estamos num momento de passagem. Torna-se natural procurar o evento que vai significar o ponto de inflexão. Muita gente fez isso recentemente com a Grande Conjunção de Júpiter e Saturno em Aquário, sabendo que não se tratava do tiro de largada para novos tempos, mas prevendo que num futuro talvez não muito distante a veremos como a linha traçada entre uma época e outra. É uma aposta semelhante à de quem situa o início da Era de Aquário no ingresso de Plutão nesse signo em 2023/24, ou de quem mobiliza todo esse conjunto de trânsitos planetários para dizer que podemos até estar vivendo um lento amanhecer, porém mais cedo ou mais tarde as coisas vão clarear de vez. Nesse sentido, quem diria, os astrólogos se assemelham a Eric Hobsbawn, o historiador que dividiu os séculos em “eras” – das revoluções, dos impérios, dos extremos – sem respeitar as divisões cronológicas mais evidentes, mas se atendo a episódios significativos que marcam grandes mudanças conjunturais, para com eles estabelecer fortes marcos de periodização.

A diferença é que a astrologia nesse caso trabalha com milênios, o que torna tudo um pouco mais abstrato e um pouco mais divertido. Tem também o fato de que astrólogos, como são metidos a saber o futuro, estão inclinados a descobrir seus indícios no presente, desvendando pistas do porvir como quem desenterra ossos soterrados de civilizações antigas, numa espécie de arqueologia às avessas, cujas grandes descobertas são sementes e não ruínas. Em resumo, e para ser mais exato, a astrologia funciona em uma temporalidade diferente da concepção linear que desfia causas e efeitos de acontecimentos, e trata da sincronia entre movimentos da história humana e dos símbolos criados durante a própria história humana (pela consciência humana) para representar a si própria. Nesse sentido, ela implica uma correlação dinâmica e simpática de todas as coisas do cosmos, incluindo pessoas, épocas e constelações.

Voltando então à questão dos primórdios da era de Peixes. Faz sentido pensar que suas primeiras luzes tenham raiado ali por volta do século V a.c., quando coexistiram sobre a Terra, por um breve lapso de tempo, novas referências espirituais como o Buda, Lao-Tsé e Confúncio. Talvez Sócrates possa ser incluído no pacote. Pois em todos esses casos estamos tratando de mestres cujos ensinamentos se voltaram para a cura da alma humana e sua libertação do sofrimento aparentemente inescapável dessa vida, seja através do despertar (Buda), seja através da aquiescência com o curso natural das coisas (Lao-Tsé), seja através do respeito aos rituais sagrados que governam a sociedade (Confúncio, embora neste caso a ênfase esteja no rito e não no sacro, o que confere ao confucionismo um teor mais virginiano, formando um contrapeso oposto e complementar às imprecisões piscianas do taoísmo de Lao-Tsé).

Sócrates, nessa linha de raciocínio, estaria mais inclinado a performar aquele lado “só sei que nada sei” do arquétipo de Peixes, por vezes também manifestado com uma autêntica confusão mental, na linha do “gente me explica que que tá acontecendo” – mas que nunca deixa de nos fazer suspeitar a existência de uma enorme sabedoria por trás dessa afirmação de dúvida e desconhecimento. Ele tem também em comum com outros líderes espirituais o fato de não ter deixado uma obra escrita de próprio punho. Há quem afirme que isso se deve à máxima arquetipicamente pisciana de que o amor verdadeiro não deixa rastros; as más línguas vão dizer que está mais para falta de senso prático ou preguiça mesmo.

No entanto, ainda estava por acontecer o episódio que iria declarar oficialmente aberta a temporada do “ama a teu próximo como a ti mesmo, ainda eu isso às vezes te faças parecer meio trouxa”. Foi com o nascimento e a palavra de Cristo que a Era de Peixes deixou para trás os tempos da brutalidade ariana daquele Jeová impaciente que criou o mundo em seis dias e fustigou as criaturas que ousaram duvidar do seu poder. Agora, as coisas iam ser diferentes, anunciaram os cronistas mais crédulos: o amor incondicional do divino pela criatura humana estava garantido pela experiência da encarnação, e o sofrimento dilacerante nesse mundo teria como contrapeso a promessa de um retorno ao lar. Nesse aspecto, a Era de Peixes pode ser compreendida também como a Era das Grandes Ilusões, embora fique sempre a suspeita de que os verdadeiros iludidos somos nós, que dizemos encarar a realidade, enquanto Peixes parece de fato conhecer algo que está por trás ou além do real: é a própria realidade cruel do mundo que para Peixes não passa de um sonho.

De um jeito ou de outro, seria possível detectar indícios significativos do começo de uma era pisciana cerca de dois mil anos atrás. Isso retrospectivamente, é claro. Pois o que fiquei me perguntando esses dias foi até que ponto estes marcos temporais puderem ser percebidos na época como sinais da aurora novos tempos. É verdade que, no caso de Jesus Cristo, pelo menos doze indivíduos acreditaram de largada nos despropósitos que de repente ele disparou a dizer; e o que realmente impressiona nesse caso é a fama que eles adquiriram depois como pessoas muito lúcidas e respeitáveis, se você parar para pensar na desconfiada recepção que esses marginais receberam na época. Certo também que Buda arregimentou um séquito razoável ainda em vida, que Lao-Tsé não foi um completo desconhecido, e que Confúncio chegou a ter um cargo de ministro em um grande reino da região da China. Mas nenhum deles deixou de parecer um doido sectário aos olhos de vários de seus contemporâneos; por outro lado, a Damares Silva também tem um cargo de ministra na república que hoje se supõe ser o Brasil, e nem por isso tem gente dizendo que a Era de Aquário vai começar numa goiabeira.

Justiça seja feita, porém. Dois mil anos atrás, segundo a lenda pelo menos, foram três astrólogos persas que cruzaram meio mundo carregando uns presentinhos mirrados (mas cheios de carga simbólica) para o menino pobre que nasceu num presépio da Judeia, e que viria a ganhar celebridade mundial como o ser mais pisciano que já esteve entre nós. Eles podem muito bem ter sido guiados por um fenômeno semelhante ao que se verificou recentemente no céu, se estiver certa a associação da Estrela de Belém com a Grande Conjunção periódica de Júpiter e Saturno, que se repetiu em dezembro de 2020. Fica assim reforçada a hipótese de que a era aquariana está começando agora, ou está dando as caras definitivamente, assim como a de Peixes teria ganhado novo fôlego quando surgiu aquele peculiar objeto brilhando no céu da Antiguidade.

Vai saber. Todas as possibilidades estão em aberto. Esse é meu ponto. Mas, se a era de Aquário está mesmo começando agora, é possível que seus representantes estejam mais inclinados a dar um fim nessa história de ficar esperando o Reino dos Céus; talvez considerem o tal amor incondicional uma conversa mole para entorpecer as massas com esplêndidas e infundadas esperanças. Como Prometeu, esses novos arautos serão filhos rebeldes dos deuses, com um intelecto fortalecido e voltado para a emancipação humana, não criaturas dóceis de afetos delicados que vão se deixar abater por dúvidas e inseguranças sentimentais. Serão contra qualquer tipo de autoridade, e talvez já tenham feito dispersar mesmo os apóstolos que começaram a acreditar em tudo o que dizem como se fosse a revelação da palavra divina. Talvez nem sejam pessoas humanas, mas uma outra forma de inteligência, vinda de outra galáxia, fazendo-se passar por um de nós, pelo menos até a gente começar a acostumar com as ideias incomuns e dádivas extraordinárias que trouxeram para nós.

Em se tratando de Aquário, afinal, as maiores chances são de que algo muito diferente do que imaginamos venha um dia a ser identificado como esse evento transformador. Talvez não tenhamos condições agora de entender exatamente o quê, por mais que o fato esteja se passando ao nosso lado. Somos um pouco como o camponês em “Paisagem com Queda de Ícaro”, a pintura de Pieter Brueghel descrita em um poema de W. H. Auden. Reparem que, por mais que um episódio de ressonância mítica seja o tema da tela, ele segue seu trabalho de maneira impassível, assim como o “delicado barco de luxo que devia ter visto / algo surpreendente, um rapaz caindo do céu / precisava ir a alguma parte e continuou calmamente a velejar” (na tradução de José Paulo Paes).

Pois bem. Ícaros talvez estejam caindo do céu e mártires talvez estejam nascendo ao nosso redor nesse exato momento. Mas é bem possível que a gente na verdade precise ser um pouco mais como o camponês de Brueghel e o navio de Auden nesse momento. Forçar a vista em busca de evidência de que uma nova era ou mesmo um ano novo muito diferente anterior estão se aproximando pode nos deixar cegos para as necessidades mais imediatas do leme ou da lavoura. Não vamos mudar as estações de ano por decreto, elas tampouco se alternam de um dia para o outro, a não ser em nossos calendários e folhinhas que num só puxão fazem um dia substituir o outro. A essa altura, e gente aprendeu que não é assim que as coisas acontecem.

“Calma. Só aos poucos é que o escuro fica claro”, escreveu Guimarães Rosa. Também de Rosa: “Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo”. Vai ver que os milagres são tímidos, a ponto de se retraírem quando tentamos expô-los à força, ou quando ficamos tempo demais na moita encarando uma paisagem, à espera de surpreendê-los. Ainda assim, nada impede que sigamos observando o amanhecer pela janela, não com a expectativa de que ele vá acontecer de uma só vez e de repente, mas sabendo que ele não deixa de ser milagroso só porque acontece todos os dias, de um modo sempre meio casual e previsível. A próxima virada do ano tampouco trará esse momento de iluminação que tanto aguardamos, mas respire, mantenha a calma, continue tocando o barco, e perceba. Pode ser que já tenha uma luzinha aparecendo ali por trás da montanha. Daqui a pouco aparece outra. Um tom diferente de azul, pelo menos. Depois fica mais claro acolá. Sim, é assim que o dia amanhece.

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Inferno astral

Down By Law/ Dir. Jim Jarmusch

Esses dias me perguntaram sobre o “inferno astral”. Vou deixar aqui minhas impressões a respeito. Há quem entenda que ele acontece durante a passagem do Sol pelo signo anterior ao da pessoa (quando o Sol está em Leão, por exemplo, seria o inferno astral dos virginianos). Mas é possível também senti-lo nas semanas que antecedem nosso aniversário, mesmo que o Sol tenha já ingressado no nosso signo (tecnicamente, nesse momento o Sol em trânsito está em relação balsâmica com o Sol natal do indivíduo). De um jeito ou de outro, e deixando de lado os detalhes, a lógica é que nessa etapa ficamos mais sujeitos a forças que não podemos controlar, sem a energia necessária para confrontá-las, ou inseguros em relação ao caminho a seguir. Ou seja, um período de confusão e incerteza, que antecede o início de um novo ciclo, como a hora mais escura da madrugada que precede o nascer do sol.

Em todas as suas concepções, o inferno astral está de algum modo vinculado à décima-segunda casa do zodíaco, associada ao signo de Peixes. Relaciona-se, portanto, ao sacrifício do ego, e a uma entrega (ainda que temporária) do indivíduo a instâncias que ele desconhece e que trabalham nos bastidores de sua psique. Peixes é o arquétipo onde estão alojadas instituições como hospitais, sanatórios, prisões e inclusive monastérios, onde a pessoa se encontra sujeita a forças maiores, renunciando à sua vontade para entregá-la a médicos, à lei ou a Deus. E a experiência pisciana (ou da casa 12 do mapa de um indivíduo) pode ser mesmo infernal, sobretudo quando a dissipação do ego através de álcool e drogas exige uma internação forçada, a restrição da liberdade se dá através de ‘forças maiores’ representadas pela autoridade do Estado, ou a entrada em um convento implica uma renúncia à vida mundana motivada pelo desespero existencial.

Há um cansaço nessa faixa do zodíaco que pode levar à capitulação. O desejo de ‘entregar tudo’ e não fazer mais nada é real e intenso. Isso se manifesta de diferentes maneiras, e aquilo que conhecemos como ‘inferno astral’ seria apenas uma versão mais previsível e regular dessa experiência, porém não menos palpável para quem a está vivenciando (pela lógica da definição apresentei lá no começo, é possível também atravessar ‘infernos astrais’ em outras épocas da vida e do ano, não necessariamente sincronizadas com nosso aniversário, mas aí você precisa de um astrólogo profissional para identificá-las). Muitas vezes tudo o que esse período requer é paciência para aguardar a restauração de forças e a abertura do horizonte. Parece que a gente até sabe disso lá no fundo; retrospectivamente, sobretudo, a gente depois acaba entendendo dessa maneira o que aconteceu. O difícil é aguentar a ansiedade e o medo de que a situação vá durar para sempre, enquanto ela está acontecendo.

Por outro lado, partindo desse mesmo ponto podemos concluir que todo inferno astral é uma oportunidade que temos para viver as experiências da casa 12 (e de Peixes) em um viés mais positivo. A entrega e a renúncia podem ser um momento de descanso, de abrir mão do controle e permitir o curso natural das coisas, incluindo aí o legítimo exercício da preguiça. Reparem, a casa 12 é uma casa cujos personagens – o louco, o monge, o doente – não trabalham; curtir um inferno astral é, por assim dizer, curtir uma febrinha; trata-se de permitir que um processo de recuperação e de cura se dê a seu tempo, sem a exaustiva interferência de nosso desassossego.

E, dependendo do caso, podemos incluir aí até uma experiência mística de dissipação do ego no cosmos, de perda das definições e limites que separam mundo interior e exterior. Isso vai acontecer ou não dependendo das tais forças maiores, aquelas sobre as quais não temos controle algum, e, portanto, não é uma experiência que dependa de uma decisão nossa (por mais que a gente possa tentar induzi-la através da meditação ou do uso de narcóticos). Quando acontece, porém, temos um momento que não é de restrição da liberdade, mas sim de autêntica libertação, na medida em que percebemos como o ego não deixa de ser uma espécie de prisão, onde estamos provisoriamente encapsulados.

Dito isso, parece-me que o interesse na ideia de inferno astral cresce em períodos como esse, em que vivemos uma espécie de inferno astral coletivo. Pelo menos podemos dizer que quem está confuso não está só. Estamos todos em compasso de espera, sem condições de ver um palmo além do nariz, e mal nos movimentando em meio a uma terrível neblina. Se isso é o fim ou um começo, ou ambas as coisas, só quando chegarmos um pouco adiante será possível dizer.

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A oposição de Júpiter

Before Sunrise (1995) | Dir. Richard Linklater

Esses dias publiquei aqui textos sobre trânsitos que antecedem idades redondas (o retorno de Saturno para os trinta anos, a quadratura de Plutão para quem está chegando aos quarenta), e fiquei pensando se haveria algo equivalente antes dos vinte. Acho que há. Ali por volta dos dezoito anos todos vivemos uma oposição de Júpiter, que vai acontecer regularmente de tempos em tempos na sequência, mas que nessa época tende a ser mais importante e acentuada, demonstrando uma evidente sincronia com experiências comuns – mas nem por isso ordinárias – dessa etapa da vida.

Talvez eu tenha pensado especificamente em Júpiter por causa do Antes do Amanhecer, um filme que me diz muito sobre esse momento, e que, junto com os outros dois filmes da trilogia que se seguiu, pode muito bem representar as três etapas a que estou me referindo. O primeiro filme é a história de um casal que se conhece em um trem durante uma viagem, e os outros são os desdobramentos de sua relação nas décadas posteriores. Acho o procedimento seriado interessante, e gostei do segundo filme também. Mas é no primeiro mesmo que está o grande feito do diretor, na minha opinião, pois ali ele conseguiu representar uma a experiência de modo quase arquetípico mesmo, inclusive correndo o risco de cair no estereótipo.

Júpiter, portanto. Está relacionado a todo tipo de expansão, de projeção para além dos limites conhecidos, e por isso sua associação direta com o tema da viagem. É verdade que nem todos os jovens realizarão uma viagem decisiva ou importante nessa época da vida, mas algum tipo de acontecimento ou mudança costuma sempre trazer uma ampliação equivalente de horizontes – com frequência através do conhecimento e da educação superior, que são os outros temas jupiterianos por excelência.  

Sou professor universitário, e, talvez por gostar de assistir essa expansão, gosto de dar aulas no primeiro período. Tenho alunos mais velhos também, gosto de ter, mas existe algo de singular na situação de quem entra na universidade por volta dos vinte anos. É um enorme conjunto de mudanças para o qual a vida universitária é não somente um ambiente propício como também uma espécie de símbolo, que aponta justamente para a ‘ampliação’ – do conhecimento, do círculo social, muitas vezes do próprio universo geográfico do aluno. ‘Ir para a universidade’ nunca é só ir para a universidade. É ir para um outro mundo, e muitas vezes ir para o mundo, no contraste com a limitação das fronteiras antes conhecidas.

A experiência, é claro, conhece variações, e implica frustrações, dúvidas, medos. Mas de modo geral não há mudança maior do que aquela verificada entre o começo e o fim do semestre de uma turma de primeiro período. Não estamos falando só da libertação de uma fase embaraçosa da adolescência (o fim do ensino médio pode ser sentido assim), mas sobretudo da percepção de que de fato existe algo além dos muros da escola a ser desbravado e conquistado. Não se trata apenas de romper com um passado morto, mas também de criar uma visão vívida do futuro, por mais imprecisa que ainda possa ser.

É também verdade que nem todo mundo encontrará essa ampliação de horizontes na universidade, e além da viagem há ainda outras possibilidades. Mas felizmente a educação superior tornou-se mais acessível aqui no Brasil. Pensando nisso, me ocorreu agora que, embora todos os signos tenham motivos de sobra para estar enfastiados com o atual governo – os capricornianos pela incompetência, os virginianos pela bagunça, os librianos pela vulgaridade, etc etc –, os alvos primordiais parecem estar nos arquétipos de fogo: Áries, Leão e Sagitário. Os impulsos para a liberdade, para o prazer e para o conhecimento parecem inclusive ser vítimas preferenciais de toda a onda reacionária recente no mundo.

De modo que esta pode ser uma época histórica particularmente difícil para se ter 18, 19, vinte anos. É uma etapa da vida em que a gente costuma ficar pleno de futuro, até bêbado de futuro, tamanhas são as novidades que surgem e possibilidades que se abrem, todas elas contendo promessas variadas, que vão se sucedendo e sobrepondo. No entanto, temos aí gente empenhada em realizar uma espécie de bloqueio do futuro, de maneira ostensivamente contrária à liberdade, ao prazer e ao conhecimento, por motivos pessoais mesquinhos inclusive. Mas estes felizmente são os que têm menos fôlego para o longo prazo.

Talvez eu esteja pensando nisso tudo também porque tenho um filho chegando nessa idade. Então, Tiago, se você estiver lendo, não desanime, como espero que meus alunos mais jovens não desanimem. As promessas que Júpiter é capaz de proporcionar continuarão sendo muito maiores do que isso que está aí. Se vão se realizar ou não é outra história; elas não existem exatamente para serem concretizadas, mas para injetar ânimo e entusiasmo em projetos que podem até ficar no meio do caminho. Pois a primeira metade do caminho basta para alimentarem a sensação de que a vida vale a pena, e essa sensação é propósito suficiente para sua existência provisória.

There’s nothing that keeps its promise, “não há nada que cumpra sua promessa”: lembrei dessa frase que abre o Teatro de Sabbath do Philip Roth enquanto pensava em Júpiter. Philip Roth é um autor jupiteriano, por sinal: dado a excessos, tagarela, expansivo, e por isso mesmo capaz de atingir mares nunca antes navegados (chequei aqui agora, pisciano com ascendente em Sagitário). Pensei duas vezes antes de incluir a frase nesse texto; não é o tipo de notícia que você quer dar para jovens empolgados com o futuro. Mas, na segunda vez, pensei assim: eles não se importam.

Eles não se importam. Tenho alunos que ao ouvir isso jamais ficariam lamentando o descumprimento iminente de suas expectativas. Eles iriam querer saber quem é esse Philip Roth, o que foi que ele escreveu, o que está traduzido, e talvez se animassem com a ideia de estudar mais inglês para conhecer a parte da obra dele que não está editada aqui, e assim quem sabe conhecer outros autores também, e um dia talvez fazer um doutorado em uma universidade americana sobre isso, ou então aproveitar o conhecimento da língua para realizar um trabalho voluntário em outro continente – ou então aprender não só inglês mas também italiano para ler Dante no original e russo para ler Dostoievski, e aí terminando o Dostoievski talvez escrever um romance em português mesmo porém em um português que ninguém nunca viu igual, talvez sobre as experiências de uma viagem ao redor do mundo, incluindo a história da pessoa que conheceram em um trem e depois passaram uma noite com ela em Viena ou em Istambul ou em Guadalajara.

A oposição de Júpiter é isso aí. Não há nada que seja capaz de conter suas promessas, nada mesmo, nem as ironias de velhos escritores geniais, nem as mesquinharias de estúpidos governantes. Sair de casa, viajar, conhecer o mundo, conhecer o mundo para além das fronteiras do bairro, conhecer os livros que trazem o mundo para dentro de nossa casa: tudo isso contém em si uma semente de mudanças cuja dimensão concreta é a princípio a que menos importa. A injeção de ânimo e otimismo de que precisamos pode estar nesses gestos, e através deles podemos talvez recuperar muito do prazer e da liberdade perdidos. E então perceberemos que nada disso na verdade foi perdido em momento algum, e que nosso fogo continua aí, aguardando essas faíscas, para se reacender.

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A quadratura de Plutão

Stranger Things (2016)

Alguns trânsitos astrológicos importantes acontecem para todo mundo mais ou menos na mesma idade. Assim como os trinta anos costumam coincidir com últimos ajustes e redefinições do retorno de Saturno, aos quarenta estamos lidando com o que ficou da quadratura de Plutão. Trata-se de um aspecto que nada tem de ordinário, mesmo sendo comum. Costuma acontecer em momentos variáveis a partir dos 37 anos, por conta do ritmo um pouco menos regular da órbita plutônica.

Há motivos para que essa passagem seja menos comentada. Plutão é um agente incorporado à prática astrológica há não muito tempo, está ainda sendo estudado e conhecido, e além disso trata por definição de temas ocultos e tabus. Então, mesmo entre profissionais do aconselhamento, há aqueles que não se dispõem a perscrutar as profundidades psicológicas que alcança. Isso pode acontecer por diferenças de abordagem e de comportamento pessoal, naturalmente, mas desconfio que há também aí uma reticência diante da ameaça que ele representa para panaceias disseminadas no meio astrológico, como o ‘pensamento positivo’ e o autoconhecimento.

Pois em Plutão encontramos as mais diferentes formas de expressão do trágico, que não poderiam ser evitadas nem com todo o pensamento positivo do mundo. Do mesmo modo, não há autoconhecimento que nos prepare para suas pancadas nem antecipe nossas reações diante delas. Em maior ou menor grau, dependendo de outros fatores, a quadratura de Plutão é um desses momentos em que nos deparamos com as forças do inevitável, que nos deixam sem ação e sem recursos. E isso com frequência estará relacionado muito literalmente aos temas de sua área de atuação: a morte, o dinheiro e o sexo.

O que vou dizer a respeito é baseado em experiências pessoais, em relatos que escutei e em algumas leituras. Em termos gerais, o que mais se percebe é algum tipo de experiência da mortalidade e de limitações absolutamente intransponíveis, seja através da doença de alguém querido, do término de um relacionamento desgastado, do fracasso definitivo de algum projeto, ou do abandono doloroso de um sonho ou aspiração. As especificações dependem muito da posição de Plutão no mapa natal da pessoa, mas, de um jeito ou de outro – e ao contrário do retorno de Saturno, que comporta redefinições moduladas e algum controle consciente do processo –, neste caso estamos diante de uma exigência de absoluta rendição, em que alguma coisa era e de repente não é mais.

Não há como ensinar nem aprender essa experiência. Não há nem como repeti-la, assim como não há morte que seja igual a outra. A própria revolta com que aí enfrentamos as injustiças da vida e do cosmos não é exatamente um aprendizado; é, antes, uma espécie de caminho para o necessário esgotamento de nossas forças. No entanto, isso não quer dizer que este tipo de trânsito deixe apenas destruição no seu rastro. Ele é, sim, destrutivo, mas com frequência o que aniquila são as mais rígidas carcaças que utilizamos para ingressar na vida adulta.

Em um tipo de experiência, pelo menos, isso me parece bastante óbvio. Ela merece umas palavrinhas a mais para ser tratada com cuidado. Não é das mais fáceis, nem das mais evidentes no âmbito público, mas tem uma recorrência que justifica a menção. Falo de pessoas que, durante o trânsito, desenterram memórias reprimidas de atos de abuso ou violência sofridos durante a infância. Reúnem-se aí vários elementos da crise plutônica: a exposição de algo soterrado, a crise diante de forças maiores que nos tomam de assalto, o retorno investigativo à cena de um crime, e a revolta desesperada com algo – um passado – que não se pode mudar.

Talvez a própria tomada de consciência de Plutão e suas energias ou influências pelas últimas gerações tenha favorecido essa dinâmica. Porém, isso não quer dizer que crianças não fossem igualmente vítimas de toda forma de violência antes. Aliás, o tema nos remete à própria história do rapto de Perséfone por Hades, o Plutão da mitologia grega, que em um ato disruptivo a levou para o submundo e a violentou quando era apenas uma menina.

Como a história prossegue a partir daí é uma outra história; o gesto tem força arquetípica em si mesmo, e toda criança vítima de abuso e violência é de certa forma Perséfone no momento em que o solo se abre sob seus pés. Outras tradições conhecem mitos semelhantes, com algumas variações, mas a agressão sempre acontece em um lugar oculto e subterrâneo. E assim permanece na consciência das crianças que são abusadas, seja pela repressão das lembranças, seja pela maneira como o mundo adulto as faz questionar os próprios sentidos e percepções, de maneira mais ou menos perversa.

De um jeito ou de outro, certa inconsciência e ocultamento do passado parecem necessários para os primeiros passos do indivíduo na maturidade. É como se algo lhe dissesse: “Não, não vai dar para lidar com isso agora; você precisa estudar, arrumar um emprego, ser uma pessoa ‘normal’; deixa pra outra hora, não mexe nisso aí, fique com a história que te contaram sobre o que aconteceu ou deixou de acontecer, vai ser melhor assim”.

E assim se criam as carcaças da identidade que se sobrepõem àquilo que uma pessoa pode ter de mais definidor de sua experiência do mundo adulto. Tornamo-nos engenheiros, médicos, professores, pais, mães – e nos esquecemos de que somos Perséfone. Até que o Plutão conhecido na infância reapareça quando menos imaginamos, quando acreditamos que estamos a salvo não apenas de sua ação como também de sua lembrança. Só que agora, mesmo que iniciando uma crise, mesmo que desenterrando ossos, ele surge não mais como um fator de violação, mas como um agente de cura.

Pode ser difícil, quase impossível reconhecê-lo assim. Mas a questão do reconhecimento, aqui, é fundamental. Pois, junto com a memória de cenas e acontecimentos, ele traz à tona a reparação da confiança de em algum momento perdemos em nossos sentidos e percepções, e no estabelecimento da verdade de um modo geral. Ele se apresenta e diz: “Sim, eu existo; fui eu mesmo que você viu quando era pequeno; não acredite nas lendas que te contaram sobre mim; eu sou a violência, eu sou a morte, eu sou a crueldade, essas coisas existem no mundo e você as conhece bem desde cedo; não deixe ninguém tirar isso de você.”

Plutão não tem culpa de nada, no final das contas. É uma maneira que encontramos para simbolizar algumas experiências indesejáveis, embora o verbo ‘encontrar’ nesse caso tenha algumas sutilezas interessantes, assim como ‘indesejável’ é um adjetivo que merece algumas nuances. Pois, se a morte é indesejável, muito mais seria uma vida individual que não acabasse nunca. Enquanto o sexo, em si mesmo, está longe de ser indesejável, e em algumas de suas expressões mais regeneradoras e transcendentes encontram-se também sob a regência de Plutão.

Enfim, para aqueles que já passaram por suas quadraturas pessoais, ou por outro trânsito mais intenso de Plutão em outro momento da vida, e se depararam aí com algumas assombrações bastante reais, fica aqui meu carinho. Pois há quem chegando aos quarenta terá uma primeira experiência mais impactante da finitude e da fragilidade humana; mas há também os precisam despertar em si a criança que conheceu o inferno, sabe que conheceu, e consegue descrevê-lo em detalhes. Para estes, recomendo que reconheçam essa parte de sua identidade e não permitam que as fotos dessa viagem ao submundo sejam novamente soterradas sob fotos de viagens à Disney ou a Cabo Frio. Com a quadratura de Plutão, a cura está na rememoração do inferno mesmo, não na lembrança destes paraísos artificiais.

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O retorno de Saturno

Before Sunset (2004)

Esses dias escrevi sobre o lado infantil do arquétipo geminiano, que pode ser associado à leveza de Mercúrio. Mas é interessante pensar também em como esses símbolos e planetas aéreos têm um papel em assuntos considerados mais ‘pesados’ da vida. Urano, o regente de Aquário, por exemplo, tem fama de favorecer comportamentos erráticos e súbitas alterações de rumo, porém é uma força essencial em processos de amadurecimento individuais. O interessante aqui é que normalmente atribuímos ‘maturidade’ a Saturno ou a comportamentos e atitudes saturninas (ou capricornianas, por assim dizer), quando isso pode ser indício de extrema insegurança e de apego a sinais exteriores de realização ou sucesso.

É o caso de questionar o que significa ser adulto em nossa sociedade. Não faltam exemplos de gente que se apressa em conquistar esse estatuto, para deixar para trás uma adolescência constrangedora ou uma infância triste, buscando a nova condição através de uma carreira, de um casamento, de um título. Vale tanto para jovens advogados e até mesmo deputados que são crianças tolas vestindo ternos caros – e que, para nosso pânico, podem permanecer assim pelo resto da vida –, quanto para hipsters empreendedores que conseguem manter uma irônica aura juvenil em seus apartamentos descolados. Vale para muitos jovens escritores e artistas, também.

O famoso retorno de Saturno é então oportunidade de reavaliar tudo o que foi ‘conquistado’ até os 28 ou 29 anos de idade, e perceber que entendemos tudo errado. Ou pelo menos uma parte importante. O motivo pelo qual escolhemos uma determinada profissão pode ter sido simplesmente agradar o papai, o motivo pelo qual nos casamos cedo pode ter sido simplesmente nos livrar da mamãe, o motivo pelo qual nunca deixamos a casa ou a cidade de papai e mamãe pode ser um senso de dever deturpado e cômodo. Tudo isso faz parte do processo, e assim Saturno vai construindo seu caminho em nossa vida através de expectativas e condicionamentos, contando com nossa insegura anuência, e colocando tudo sob uma nova luz quando volta ao ponto de partida, dizendo: vê, já é um avanço, isso é tudo o que você não é.

O problema é que a essa altura muita coisa já aparece sob o aspecto das ‘responsabilidades’ e da suposta ‘consistência’ da vida adulta. Ou então é difícil abrir mão do que foi obtido tanto esforço. Quem sente que chegou nessa parte da vida sem ter alcançado muita coisa pode estar em uma posição até melhor do que quem tem muito a ‘perder’. E, sim, temos compromissos com a família, a sociedade, os amigos, mas não há nada aí que seja incompatível com o compromisso que temos com o destino. Muito pelo contrário. Os advogados e médicos e engenheiros que insistem em uma carreira escolhida por força das circunstâncias e das próprias incertezas são aqueles que jamais terão maturidade para exercê-la. Quem se dedica a cuidar dos pais ou permanece em um relacionamento por obrigação não é mais adulto por isso; só é mais infeliz.

Mas, para quem acata o amadurecimento que Saturno traz através da destituição de quaisquer sinais de amadurecimento, há uma boa notícia. É aqui que Urano entra na história. Porque, junto com o retorno de Saturno, geralmente vivemos um aspecto de Urano que em sua energia súbita e libertadora traz fortes intuições do compromisso com o destino. Não é necessariamente uma definição. Pode ser só coragem para abandonar de vez as máscaras acumuladas. É uma licença para agirmos de forma errática e imprevista, ou seja, para ser adulto mesmo, confrontando expectativas e circunstâncias. A família, a sociedade e os amigos podem até ficar meio chocados a princípio, mas a longo prazo eles agradecem.

Jung disse que o livre-arbítrio é a habilidade de fazermos com satisfação aquilo que temos que fazer de qualquer jeito. Um dos problemas de interpretação dessa frase é confundirmos essa ‘satisfação’ com uma heroica ou estoica aceitação de responsabilidades e deveres. Saturno é bem capaz de fazer isso – e há momentos em que isso é necessário – mas a verdadeira liberdade nunca é uma adequação voluntária a condições externas. Tampouco é um exercício da vontade individual desconectada de quaisquer outras circunstâncias. A verdadeira liberdade é uraniana. Ser adulto é ser livre, não para a gente ser o quiser, para sermos de acordo com algo em nós que sabe o que a gente é. Esse algo é o universo.

astros

Sobre filhos e planetas

Rembrandt von Rijn

Entre idas e vindas, Saturno e Plutão estão em 2019 se ajustando para sua conjunção em janeiro de 2020, e por conta desse aspecto o ano astrológico corrente é considerado uma preparação para o próximo. Não faltam bons comentários na rede a respeito; com os planetas em questão, é natural que a apreensão e o medo apareçam em muitas dessas leituras. Mas a conjunção é um aspecto muitas vezes enganador nos pressentimentos e presságios que proporciona. É nesse ponto que eu gostaria de acrescentar uma palavrinha.

Uma conjunção estabelece uma fase nova na relação entre dois planetas. É o início de algo inédito, como a Lua Nova é um início em outra escala (a Lua Nova é uma conjunção da Lua e do Sol). A oposição, nessa lógica, é equivalente à Lua Cheia, quando a Lua e o Sol estão frente a frente no céu. Geralmente, no plano individual, não é difícil perceber como as luas cheias são pontos culminantes de processos já em curso, e como as luas novas se apresentam como o impulso para um começo que estava pouco claro antes de seu advento. No plano coletivo as coisas se complicam um pouco mais, mas não deixa de ser útil usar as fases lunares como referência.

Desse ponto de vista, estamos no período balsâmico da relação entre Saturno e Plutão: o momento mais escuro da madrugada antes do amanhecer, no ano que vem. É verdade que, em se tratando desses dois, é difícil imaginar um despertar tranquilo e luminoso, mas – isso é importante – talvez a mudança seja o suficiente para desmascarar os monstros que povoam essa etapa da noite, fazendo-os perder força à luz do dia. Quem sabe assim se dissipem os demônios subalternos que hoje nos aparecem como se fossem reais em nossos pesadelos, e como se fossem pesadelos em nossa realidade.

Até lá, a apreensão e o medo têm tudo para continuar por aí. A boa notícia é que têm tudo para estar errados, senão no diagnóstico de nossas circunstâncias atuais, ao menos no prognóstico de nossas circunstâncias futuras. E a gente sabe como essa questão do prognóstico é determinante na dinâmica da apreensão e do medo, como muitas vezes é ela que torna o presente insuportável. Mesmo quem tem a mais absoluta certeza de que é impossível prever o futuro costuma prever o futuro o tempo inteiro, elaborando cenários miseráveis, catastróficos, com frequência no mais completo prejuízo de sua própria saúde mental.

E, se tem uma coisa que aprendi com a astrologia, como já tinha aprendido com a história, é que é impossível a gente prever o futuro. Ou, ao menos, que é muito difícil, sobretudo em momentos como esse de agora, em que nada do futuro se apresenta a nós. Períodos de acentuada incerteza, de um ponto de vista astrológico, são períodos de incerteza acentuada também para os astrólogos, que compartilham o cosmos com seus ouvintes e leitores. Nós não temos como nos colocar de fora do que descrevemos.

Portanto, nós não temos nunca como estar totalmente certos de nossas projeções do futuro; mas nós podemos estar mais errados do que o normal. Isso é uma premissa importante tanto para lidar com tendências catastrofistas, quanto para evitarmos falsas esperanças, forjadas no âmago do desespero. Eu mesmo me peguei agora pensando se o que vejo de positivo nessa virada do ano que vem não teria a ver com o fato de que meu filho canceriano está para nascer agora. Isto é, se não estaria buscando uma justificativa para, como se diz por aí, colocar mais gente no mundo (digo “meu filho canceriano” porque já tenho um filho capricorniano, e se pudesse tinha um de cada; aliás, Gabriel, se você vier geminiano, papai vai te amar do mesmo jeito tá? Papai promete).

Mas então: será que não estou falando em um “amanhecer”, em um “despertar”, mesmo que com todas as ressalvas, porque há algo parecido para acontecer aqui em casa por agora? Será que não estou vendo uma possível luz no âmbito coletivo onde o que tenho é iminência de um “dar à luz” mais individual? Talvez. Mas aí resolvi olhar no que estava acontecendo quando o Tiago, meu outro filho, nasceu, dezessete anos e meio atrás. Era 2001; Saturno e Plutão estavam justamente realizando uma oposição entre si, que, como as conjunções, só acontecem de 40 em 40 anos; mas com aquele caráter de culminação, de clímax, e de ruptura, que dá um aspecto de “lua cheia” às oposições entre os planetas.

Era 2001, e agora me lembro como foi assistir o ataque suicida às torres gêmeas quando poucos meses depois ia assistir tão de perto a chegada de alguém no mundo. Lembro da consternação, da perplexidade, do susto. Lembro que por um instante nada do que estava vivendo naquele momento fez muito sentido, e que a imagem do futuro de repente se tornou para mim algo completamente apocalíptico e tenebroso.

Mas lembro também que poucos dias depois estava pensando em outra coisa. E depois em outra. E depois em outra. Talvez algumas dessas outras coisas tenham sido também previsões meio sombrias sobre meu futuro individual, profissional, afetivo. Outras certamente foram projeções entusiásticas de meu futuro individual, profissional, afetivo. Tal como as imaginava, nenhuma delas se realizou.

Se fosse astrólogo na época, provavelmente eu teria olhado para essa difícil oposição entre Saturno e Plutão como um fator importante do mundo em que meu filho ia viver. E era, mas nem de longe era definidora desse mundo, e muito menos do mundo dele, o mundo que nasceu junto com ele, o mundo que existe através dos olhos dele. Era um mundo também de milhares de outros aspectos, trânsitos e planetas, para ficar só na riqueza dos fatores astrológicos que conhecemos, e que podem nos fazer esquecer amanhã mesmo aquilo que hoje nos parece tão tenso e difícil.

Ainda bem que eu não era astrólogo na época, pois talvez ainda não tivesse maturidade suficiente para entender isso, talvez me perguntasse ao olhar para os trânsitos do momento: filho numa hora dessas? Ainda bem que eu não era astrólogo, era só um pouco irresponsável, abençoadamente irresponsável, considerando a companhia incrível que tive nesses últimos dezoito anos, e que continuo tendo, agora que Saturno e Plutão vão se encontrar e reiniciar seu ciclo, e que vou ter essa outra alegria em meio às incertezas de um presente também inquietante.

Em certo sentido – em um sentido astrológico – trata-se, agora, de um presente até mais inquietante, porém mais inquietante exatamente por não termos nenhuma ideia do que está acontecendo, quando do futuro só podemos afirmar que nada será do jeito que a gente imagina. O problema é que ainda assim a gente imagina, e com frequência imagina o pior, com base em um presente que pode ser tudo menos sólido e consistente.

A outra coisa importante que aprendi com a astrologia (reforçando mais uma vez o que tinha aprendido com a história) é que as coisas mudam, e que nossas ideias do futuro mudam junto com as coisas. A gente tem dias bons, dias ruins e dias médios, inclusive para prever o futuro. O bom dos dias ruins é que logo a gente está pensando em outra coisa. E depois em outra. E depois em outra.

Que o Gabi venha com todas as conjunções, oposições, trígonos, quadraturas, sesqui-quadraturas, inconjuntos e paralelos que ele tem direito. Uma coisa é garantida: não vai dar par saber a pessoa maravilhosa que ele vai ser através de seu mapa natal. Vai ser só vendo mesmo, disso eu tenho certeza.

PS: o Gabriel nasceu às 00h06m do dia 19 de junho de 2019, com a Lua em Capricórnio, o Sol em Gêmeos e o Ascendente em Áries (sobre o nascimento e o ascendente falei um pouco mais aqui). Estou escrevendo esse pós-escrito no dia em que ele completa seis meses. A primeira coisa que me chamou a atenção em seu mapa foi que os três componentes principais são um rearranjo dos mesmos signos que figuram no mapa do irmão, que daqui a três dias completará dezoito anos, e que tem a Lua em Áries (exatamente no mesmo ponto onde está ascendente do Gabriel), Sol em Capricórnio e Ascendente em Gêmeos. Segundo uma análise combinatória elementar, devo ter mais sete filhos para completar todas as combinações possíveis desses três signos. Mas acho que vou precisar de mais umas três vidas pra isso.

Ah, e sim: o Gabi acabou se apressando um pouquinho, nasceu antes do previsto, mas quando deu vontade nele, e correu tudo muito bem, como escrevi nas postagem sobre seu nascimento. Veio geminiano. E a essa altura eu já não amo ele “de mesmo jeito” por causa disso – amo muito, mas muito mais.