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O fim está próximo

O Sol ingressa em Capricórnio por volta do dia 22 de dezembro de cada ano. Para os romanos, essa era a época das Saturnálias: uma semana de festa, com comida e bebida à vontade, em que a autoridade era subvertida, a ordem social era suspensa e identidades eram alteradas. No dia 24, trocavam-se presentes. O cristianismo situou seu principal feriado próximo a esta data porque seria impossível abolir a celebração popular, então era melhor cooptá-la. Já os puritanos ingleses depois rebelaram-se contra a missa de Cristo, a Christ Mass, e Cromwell chegou a aboli-la, argumentando com certa razão de que não passava de uma orgia pagã com um verniz cristianizado.

As Saturnálias começavam sob a regência de Júpiter, e terminavam sob a de Saturno. Portanto, acompanhavam a passagem do bastão de Sagitário para o signo da Cabra. Faz sentido: um último período de licenciosidade e abundância antes do início de uma época de restrições, com a perspectiva de futuros constrangimentos motivando toda uma semana de excessos. Mas Capricórnio não precisa ser visto como um arquétipo tão árido. Após o momento sagitariano do zodíaco, ele trata, sim, da necessidade de alcançar certo equilíbrio, através de ações responsáveis e intervenções consequentes no mundo. Porém o tipo de ajuste que está em jogo agora pode ter uma importante dimensão espiritual, e é bom ter isso em mente nessa passagem de 2019 para 2020, quando a coisa toda ganhará outras proporções.

Agora, o ingresso do Sol em Capricórnio o levará de encontro a Júpiter, Saturno, Plutão e Ceres. Por volta do dia 10 de janeiro, quase todos esses astros (com o acréscimo de Mercúrio) estarão alinhados com exatidão em 20º de Capricórnio, o mesmo grau onde acontecerá então um eclipse lunar em Câncer – portanto em oposição ao aglomerado capricorniano. Quem tiver planetas no mapa natal em torno de 20º de Capricórnio, Câncer, Áries ou Libra tende a sentir o fenômeno com mais impacto. Isso vale, por exemplo, para quem está por volta dos 40 anos agora, e tem Plutão nessa região do signo de Libra, ou para quem faz aniversário por volta dos dias 09 de abril, 11 de julho, 13 de outubro e 10 de janeiro mesmo. Mas esses trânsitos têm força suficiente para ter repercussão na vida de todo mundo.

Esse é inclusive o tipo de configuração que em outros momentos seria o suficiente para criar a expectativa pela vinda do Anticristo, bastando para isso a conjunção de Saturno e Plutão que irá se consumar. A propósito, a última vez que essa conjunção aconteceu em Capricórnio foi em 1517, um mês depois de Martinho Lutero afixar suas 95 teses na igreja do castelo de Wittenberg, portanto em perfeita sincronicidade com o início da reforma protestante (que pode ser vista como um ajuste de grandes proporções diante do momento de excessos na Igreja Católica). Se os astrólogos da época soubessem a respeito de Plutão e seus demônios, isso acrescentaria um elemento talvez decisivo nas muitas polêmicas em torno do mapa de Lutero. Mas o sistema solar ia só até Saturno mesmo, o que já era o suficiente para que se chegasse a previsões bastante precisas a respeito do Apocalipse.

No entanto, é para o plano individual, para nossa experiência diária, para a mente e o espírito de cada um de nós, que, na minha opinião, todas as nossas atenções e cuidados devem estar voltados nas próximas semanas. O conjunto de trânsitos e aspectos que vão se suceder a partir da Lua Nova e do eclipse solar do dia 26 de dezembro não são o fim do mundo – e acho até que farão desse intervalo um momento de rara oportunidade para retomarmos o prumo que foi perdido nos últimos anos. É sobretudo isso que estará em jogo nesse início de 2020, creio eu: uma chance de recomeçar a partir de novas bases. E esse recomeço passa por uma definição final a respeito daquilo que não nos serve mais, e que continua fazendo parte de nossas vidas por força do hábito ou de uma exaustiva e esgotada insistência.

Isso pode acontecer em diferentes áreas da experiência, variando de acordo com o arquétipo solar e outros componentes do mapa individual. Libra, por exemplo, pode viver esse tipo de definição em relação à família, e nesse caso, curiosamente, toda essa energia no eixo Câncer-Capricórnio, tão familiar e apegado às tradições, servirá para ceifar de vez aquilo que se desgastou e vem capengando no âmbito das relações familiares. Para todos os signos, porém, esse deve ser um momento para dar um fim efetivo ao que já está acabado. Até porque, a essa altura, o que está acabado já vem acabando há tempos, e nesse processo de lento acabar-se está acabando com nossa paz de espírito e nossa saúde mental.

É disso que estou falando quando me refiro à energia que haverá disponível agora para retomarmos um certo equilíbrio. Tenho visto muita gente vivendo o desespero da tentativa de preservar o que já está findo ou remediar o que não tem conserto. Nisso, ganham em volume e estridência as discussões que parecem se dar em um mundo anterior à queda, porque presumem proximidades onde há distâncias, ou parecem querer restaurar o paraíso perdido, nem que seja na marra e na base do murro. O momento que vamos viver agora é de reconhecimento que nada disso tem volta. O que pode ser uma coisa triste, mas a essa altura creio que para muitos de a percepção virá com uma boa dose de alívio.

Amigos já me perguntaram umas duas ou três vezes, meio à brinca e meio a sério, se com esse encontro tão exato de tantos planetas e um eclipse ainda por cima o mundo finalmente acaba, depois de tantas previsões infundadas. Minha resposta tem sido que o mundo já acabou, e que agora nós estamos na expectativa é dele recomeçar. Mas, quando digo isso, penso sobretudo nas experiências individuais que estão implicadas na ideia de “mundo”: é o mundo de cada um de nós, pelo menos um aspecto importante dele, que vai encarar de vez a finitude no começo de 2020, para abrir espaço para que tudo comece de novo nessa área da vida. Então, para que isso se execute, será mesmo bem-vinda uma boa dose de energia capricorniana.

Isso, em primeiro lugar, porque Capricórnio sabe traçar limites como nenhum outro signo. Capricórnio tolera muita coisa, suporta o que der e vier, mas tem sempre um “alto lá” para quem se exceder nas liberdades com a cabra – até porque ela entende que certas coisas são inegociáveis. Em segundo lugar, Capricórnio é um tipo que conhece o silêncio, convive bem com a solidão, e acredito que boas doses de silêncio e solidão vão ser importantes nesse processo. Conjunções planetárias são fenômeno cuja sincronicidade experimentamos com nosso corpo e coração inteiros, de acordo com sentimentos que vêm de dentro, sem necessariamente serem acionados por acontecimentos externos. Mas, para vivê-los, a gente precisa deixar que elas aconteçam em nós.

Passadas as festividades natalinas, portanto, virá o tempo de preparação para essa virada significativa, muito mais significativa que a virada de ano. Terminadas as Saturnálias, será tempo de entender o que mais tem que findar. Repito que a transição tem um forte componente espiritual, apesar de tratar também de fatos concretos e realidades duras da vida. A Lua Nova do dia 26 será um belo e harmonioso impulso para o instante mais denso que há de chegar uma quinzena depois. Quem tiver um pouco de senso usará essa largada para colocar-se em posição de escuta em relação às próprias emoções e aos próprios pensamentos, pois são eles que trarão as respostas que cada um de nós aguarda, e os gestos com que vamos delimitar o primeiro dia do resto de nossas vidas. Finalmente: nós já estamos esperando isso há algum tempo.

Para terminar, lembrei de um poema de Leonard Cohen, intitulado “Discussão”, cujos primeiros versos dizem: “Você talvez seja uma pessoa que gosta de discutir com a Eternidade”. Da maneira como o poema se desenvolve, entendo esse ‘discutir com a Eternidade’ como uma discussão com finitude e com a morte. De um modo ou de outro, todos nós discutimos com a morte, tentamos confrontá-la, expressamos nossa contrariedade em relação a ela, ou diante do fato de que as coisas acabam (assim como o amor acaba, no texto de Paulo Mendes Campos). Mas chega o momento em que perdemos nossas forças para continuar essa discussão, percebemos que não há como vencê-la, e com isso – quem diria – a vida se renova e segue adiante.

Acho que esse momento vai chegar pra muita gente em breve. Da maneira como as coisas estão se arranjando no céu, vejo Plutão como o agente da finitude e da morte que estamos confrontando há algum tempo. O Sol, a Lua Cheia eclipsada e os demais planetas que vão se reunir em torno dela me parecem ter vindo para encerrar essa briga, não necessariamente pacificando os ânimos, mas silenciando-os o suficiente para que entendam: já não há pelo quê brigar. As coisas se moveram e se transformaram a ponto de terem desfeito o próprio mundo onde a briga começou. A partir daqui a história é outra, e qual será nós não sabemos – mas tenho esperança de que, também em breve, a gente saberá por onde começá-la. Feliz 2020 para todos nós.


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Inferno astral

Down By Law/ Dir. Jim Jarmusch

Esses dias me perguntaram sobre o “inferno astral”. Vou deixar aqui minhas impressões a respeito. Há quem entenda que ele acontece durante a passagem do Sol pelo signo anterior ao da pessoa (agora que o Sol está em Leão, por exemplo, seria o inferno astral dos virginianos). Mas é possível também senti-lo nas semanas que antecedem nosso aniversário, mesmo que o Sol tenha já ingressado no nosso signo (tecnicamente, nesse momento o Sol em trânsito está em relação balsâmica com o Sol natal do indivíduo). De um jeito ou de outro, e deixando de lado os detalhes, a lógica é que nessa etapa ficamos mais sujeitos a forças que não podemos controlar, sem a energia necessária para confrontá-las, ou inseguros em relação ao caminho a seguir. Ou seja, um período de confusão e incerteza, que antecede o início de um novo ciclo, como a hora mais escura da madrugada que precede o nascer do sol.

Em todas as suas concepções, o inferno astral está de algum modo vinculado à décima-segunda casa do zodíaco, associada ao signo de Peixes. Trata-se de uma casa que remete ao sacrifício do ego, a uma entrega (ainda que temporária) do indivíduo a instâncias que ele desconhece e que trabalham nos bastidores de sua psique. Em seus aspectos considerados infernais, a casa 12 é lugar de instituições como hospitais, sanatórios, prisões e inclusive monastérios, onde a pessoa se encontra sujeita a forças maiores, renunciando à sua vontade para entregá-la a médicos, à lei ou a Deus. E a experiência da casa 12 pode ser mesmo infernal, sobretudo quando a dissipação do ego através de álcool e drogas exige uma internação forçada, a restrição da liberdade se dá através de ‘forças maiores’ representadas pela autoridade do Estado, ou a entrada em um convento implica uma renúncia à vida mundana motivada pelo desespero existencial.

Há um cansaço nessa faixa do zodíaco que pode levar à capitulação. O desejo de ‘entregar tudo’ e não fazer mais nada é real e intenso. Isso se manifesta de diferentes maneiras na trajetória de um indivíduo, e aquilo que conhecemos como ‘inferno astral’ seria apenas uma versão mais previsível e regular dessa experiência, porém não menos palpável para quem a está vivenciando (pela lógica de sua definição, é possível também atravessar “infernos astrais” em outras épocas da vida e do ano, não necessariamente sincronizadas com nosso aniversário, mas aí você precisa de um astrólogo profissional para identificá-las). Muitas vezes tudo o que esse período requer é paciência para aguardar a restauração de forças e a abertura do horizonte. Parece que a gente até sabe disso lá no fundo: retrospectivamente, sobretudo, a gente depois entendendo assim o que estava aconteceu. O difícil é aguentar a ansiedade e o medo de que a situação vá durar para sempre, enquanto ela está acontecendo.

Por outro lado, partindo desse mesmo ponto podemos concluir que todo inferno astral é uma oportunidade que temos para viver as experiências da casa 12 (e de Peixes) em um viés mais positivo. A entrega e a renúncia podem ser um momento de descanso, de abrir mão do controle e permitir o curso natural das coisas, incluindo aí o legítimo exercício da preguiça. Reparem, a casa 12 é uma casa cujos personagens – o louco, o monge, o doente – não trabalham; curtir um inferno astral é, por assim dizer, curtir uma febrinha; trata-se de permitir que um processo de recuperação e de cura se dê a seu tempo, sem a exaustiva interferência de nosso desassossego.

E, dependendo do caso, podemos incluir aí até uma experiência mística de dissipação do ego no cosmos, de perda das definições e limites que separam mundo interior e exterior. Isso vai acontecer ou não dependendo das tais forças maiores, aquelas sobre as quais não temos controle algum, e portanto não é uma experiência que dependa de uma decisão nossa (por mais que a gente possa tentar induzi-la através da meditação ou do uso de narcóticos). Quando acontece, porém, temos um momento que não é de restrição da liberdade, mas sim de autêntica libertação, na medida em que percebemos como o ego não deixa de ser uma espécie de prisão, onde estamos provisoriamente encapsulados.

Em dimensões variáveis, estamos sempre falando de um possível descanso do trabalho de ser humano e ficar tomando decisões o tempo inteiro. Dito isso, parece-me que o interesse na ideia de inferno astral cresce em períodos como esse, em que vivemos uma espécie de inferno astral coletivo, simbolizado pela maneira como Saturno e Plutão estão se relacionando no céu desse ano de 2019. Já expus minhas observações sobre esse trânsito em mais detalhes aqui e aqui; porém, não é demais reforçar que dificilmente (de um ponto de vista astrológico, pelo menos) esse seja um ano de definições e decisões que venham a perdurar, que tenham consistência para isso. No mínimo, podemos dizer agora que quem está confuso não está só. Nessa perspectiva, estaríamos em compasso de espera, sem condições de ver um palmo além do nariz, e por ora mal nos movimentando em meio a uma terrível neblina.

Enfim, isso condiz com a sensação de que nosso cotidiano político se tornou um macabro baile de máscaras onde figuram os mais deploráveis personagens, uma hora do pesadelo povoada de assombrações criadas nos bastidores de nossa psique coletiva. A boa notícia nesse caso seria a de que esses personagens não vieram para ficar, de que eles não têm consistência para isso, de que são oportunistas se aproveitando de um momento de enorme indefinição e ansiedade social. Quanto aos personagens que vão surgir e se estabelecer depois deles, isso já é uma outra história. Que, por definição, não pode ser contada agora, no meio dessa neblina infernal, e a essa hora da madrugada.

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A oposição de Júpiter

Esses dias publiquei aqui textos sobre trânsitos que antecedem idades redondas (o retorno de Saturno para os trinta anos, a quadratura de Plutão para os quarenta), e fiquei pensando se haveria algo equivalente antes dos vinte. Acho que há. Ali por volta dos dezoito anos todos vivemos uma oposição de Júpiter, que vai acontecer regularmente de tempos em tempos na sequência, mas que nessa época tende a ser mais importante e acentuada, demonstrando uma evidente sincronia com experiências comuns – mas nem por isso ordinárias – dessa etapa da vida.

Talvez eu tenha pensado especificamente em Júpiter por causa do Antes do Amanhecer, que, junto com os outros dois filmes da trilogia que se seguiu, pode muito bem representar as três etapas a que estou me referindo. O primeiro filme é a história de um casal que se conhece em um trem durante uma viagem, e os outros são os desdobramentos de sua relação nas décadas posteriores. Acho o procedimento seriado interessante, e gostei do segundo filme também, postei uma foto dele junto com o texto sobre o retorno de Saturno. Mas é no primeiro mesmo que está o grande feito do diretor, na minha opinião, pois ali ele conseguiu representar uma a experiência de modo quase arquetípico mesmo, inclusive correndo o risco de cair no estereótipo.

Mas isso aqui não é crítica de cinema. Júpiter, portanto. Está relacionado a todo tipo de expansão, de projeção para além dos limites conhecidos, e por isso sua associação direta com o tema da viagem. É verdade que nem todos os jovens realizarão uma viagem decisiva ou importante nessa época da vida, mas algum tipo de acontecimento ou mudança costuma sempre trazer uma ampliação equivalente de horizontes – com frequência através do conhecimento e da educação superior, que são os outros temas jupiterianos por excelência.  

Sou professor universitário, e, talvez por gostar de assistir essa expansão, gosto de dar aulas no primeiro período. Tenho alunos mais velhos também, gosto de ter, mas existe algo de singular na situação de quem entra na universidade por volta dos vinte anos. É um enorme conjunto de mudanças para o qual a vida universitária é não somente um ambiente propício como também uma espécie de símbolo, que aponta justamente para a ‘ampliação’ – do conhecimento, do círculo social, muitas vezes do próprio universo geográfico do aluno. ‘Ir para a universidade’ nunca é só ir para a universidade. É ir para um outro mundo, e muitas vezes ir para o mundo, no contraste com a limitação das fronteiras antes conhecidas.

A experiência, é claro, conhece variações, e implica frustrações, dúvidas, medos. Mas de modo geral não há mudança maior do que aquela verificada entre o começo e o fim do semestre de uma turma de primeiro período. Não estamos falando só da libertação de uma fase embaraçosa da adolescência (o fim do ensino médio pode ser sentido assim), mas sobretudo da percepção de que de fato existe algo além dos muros da escola a ser desbravado e conquistado. Não se trata apenas de romper com um passado morto, mas também de criar uma visão vívida do futuro, por mais imprecisa que ainda possa ser.

É também verdade que nem todo mundo encontrará essa ampliação de horizontes na universidade, e além da viagem há ainda outras possibilidades. Mas felizmente a educação superior tornou-se mais acessível entre nós. Pensando nisso, me ocorreu agora que, embora todos os signos tenham motivos de sobra para estar enfastiados com o atual governo – os capricornianos pela incompetência, os virginianos pela bagunça, os librianos pela vulgaridade, etc etc –, os alvos primordiais parecem estar nos arquétipos de Leão e Sagitário. No primeiro caso, por conta da evidente repulsa pelo princípio do prazer, que se manifesta e atualiza na rejeição ao mundo artístico. No segundo caso, pela repulsa ao conhecimento, e particularmente pelos ataques à educação superior.

De modo que esta pode ser uma época histórica particularmente difícil para se ter 18, 19, vinte anos. É uma etapa da vida em que a gente costuma ficar pleno de futuro, até bêbado de futuro, tamanhas são as novidades que surgem e possibilidades que se abrem, todas elas contendo promessas variadas, que vão se sucedendo e sobrepondo. No entanto, temos aí gente empenhada em realizar uma espécie de bloqueio do futuro, de maneira ostensivamente contrária ao prazer e ao conhecimento, por motivos pessoais mesquinhos. Felizmente, eu diria, por motivos pessoais mesquinhos, pois são os que têm menos fôlego para o longo prazo.

Talvez eu esteja pensando nisso tudo também porque tenho um filho chegando nessa idade. Então, Tiago, se você estiver lendo, não desanime, como espero que meus alunos mais jovens não desanimem. As promessas que Júpiter é capaz de proporcionar continuarão sendo muito maiores do que isso que está aí. Se vão se realizar ou não é outra história; elas não existem exatamente para serem concretizadas, mas para injetar ânimo e entusiasmo em projetos que podem até ficar no meio do caminho. Pois a primeira metade do caminho basta para alimentarem a sensação de que a vida vale a pena, e essa sensação é propósito suficiente para sua existência provisória.

There’s nothing that keeps its promise, “não há nada que cumpra sua promessa”: lembrei dessa frase que abre o Teatro de Sabbath do Philip Roth enquanto pensava em Júpiter. Philip Roth é um autor jupiteriano, por sinal: dado a excessos, tagarela, expansivo, e por isso mesmo capaz de atingir mares nunca antes navegados (chequei aqui agora, pisciano com ascendente em Sagitário). Pensei duas vezes antes de incluir a frase nesse texto; não é o tipo de notícia que você quer dar para jovens empolgados com o futuro. Mas, na segunda vez, pensei assim: eles não se importam.

Eles não se importam. Tenho alunos que ao ouvir isso jamais ficariam lamentando o descumprimento iminente de suas expectativas. Eles iriam querer saber quem é esse Philip Roth, o que foi que ele escreveu, o que está traduzido, e talvez se animassem com a ideia de estudar mais inglês para conhecer a parte da obra dele que não está editada aqui, e assim quem sabe conhecer outros autores também, e um dia talvez fazer um doutorado em uma universidade americana sobre isso, ou então aproveitar o conhecimento da língua para realizar um trabalho voluntário em outro continente – ou então aprender não só inglês mas também italiano para ler Dante no original e russo para ler Dostoievski, e aí terminando o Dostoievski talvez escrever um romance em português mesmo porém em um português que ninguém nunca viu igual, talvez sobre as experiências de uma viagem ao redor do mundo, incluindo a história da pessoa que conheceram em um trem e depois passaram uma noite com ela em Viena ou em Istambul ou em Guadalajara.

A oposição de Júpiter é isso aí. Não há nada que seja capaz de conter suas promessas, nada mesmo, nem as ironias de velhos escritores geniais, nem as mesquinharias de governantes ao mesmo tempo jovens e decrépitos. E, se o futuro precisa ser reconquistado nas ruas, se for preciso marchar para reclamá-lo, que seja assim. Há toda uma geração de jovens que pode encontrar suas esperanças nesse gesto, e com isso, de quebra, criar a promessa de outros amanhãs para todos nós.

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A quadratura de Plutão

Stranger Things (2016)

Alguns trânsitos astrológicos importantes acontecem para todo mundo mais ou menos na mesma idade. Assim como os trinta anos costumam coincidir com últimos ajustes e redefinições do retorno de Saturno, aos quarenta estamos lidando com o que ficou da quadratura de Plutão. Trata-se de um aspecto que nada tem de ordinário, mesmo sendo comum. Costuma acontecer em momentos variáveis a partir dos 37 anos, por conta do ritmo um pouco menos regular da órbita plutônica.

Há motivos para que essa passagem seja menos comentada. Plutão é um agente incorporado à prática astrológica há não muito tempo, está ainda sendo estudado e conhecido, e além disso trata por definição de temas ocultos e tabus. Então, mesmo entre profissionais do aconselhamento, há aqueles que não se dispõem a perscrutar as profundidades psicológicas que alcança. Isso pode acontecer por diferenças de abordagem e de comportamento pessoal, naturalmente, mas desconfio que há também aí uma reticência diante da ameaça que ele representa para panaceias disseminadas no meio astrológico, como o ‘pensamento positivo’ e o autoconhecimento.

Pois em Plutão encontramos as mais diferentes formas de expressão do trágico, que não poderiam ser evitadas nem com todo o pensamento positivo do mundo. Do mesmo modo, não há autoconhecimento que nos prepare para suas pancadas nem antecipe nossas reações diante delas. Em maior ou menor grau, dependendo de outros fatores, a quadratura de Plutão é um desses momentos em que nos deparamos com as forças do inevitável, que nos deixam sem ação e sem recursos. E isso com frequência estará relacionado muito literalmente aos temas de sua área de atuação: a morte, o dinheiro e o sexo.

O que vou dizer a respeito é baseado em experiências pessoais, em relatos que escutei e em algumas leituras. Em termos gerais, o que mais se percebe é algum tipo de experiência da mortalidade e de limitações absolutamente intransponíveis, seja através da doença de alguém querido, do término de um relacionamento desgastado, do fracasso definitivo de algum projeto, ou do abandono doloroso de um sonho ou aspiração. As especificações dependem muito da posição de Plutão no mapa natal da pessoa, mas, de um jeito ou de outro – e ao contrário do retorno de Saturno, que comporta redefinições moduladas e algum controle consciente do processo –, neste caso estamos diante de uma exigência de absoluta rendição, em que alguma coisa era e de repente não é mais.

Não há como ensinar nem aprender essa experiência. Não há nem como repeti-la, assim como não há morte que seja igual a outra. A própria revolta com que aí enfrentamos as injustiças da vida e do cosmos não é exatamente um aprendizado; é, antes, uma espécie de caminho para o necessário esgotamento de nossas forças. No entanto, isso não quer dizer que este tipo de trânsito deixe apenas destruição no seu rastro. Ele é, sim, destrutivo, mas com frequência o que aniquila são as mais rígidas carcaças que utilizamos para ingressar na vida adulta.

Em um tipo de experiência, pelo menos, isso me parece bastante óbvio. Ela merece umas palavrinhas a mais para ser tratada com cuidado. Não é das mais fáceis, nem das mais evidentes no âmbito público, mas tem uma recorrência que justifica a menção. Falo de pessoas que, durante o trânsito, desenterram memórias reprimidas de atos de abuso ou violência sofridos durante a infância. Reúnem-se aí vários elementos da crise plutônica: a exposição de algo soterrado, a crise diante de forças maiores que nos tomam de assalto, o retorno investigativo à cena de um crime, e a revolta desesperada com algo – um passado – que não se pode mudar.

Talvez a própria tomada de consciência de Plutão e suas energias ou influências pelas últimas gerações tenha favorecido essa dinâmica. Porém, isso não quer dizer que crianças não fossem igualmente vítimas de toda forma de violência antes. Aliás, o tema nos remete à própria história do rapto de Perséfone por Hades, o Plutão da mitologia grega, que em um ato disruptivo a levou para o submundo e a violentou quando era apenas uma menina.

Como a história prossegue a partir daí é uma outra história; o gesto tem força arquetípica em si mesmo, e toda criança vítima de abuso e violência é de certa forma Perséfone no momento em que o solo se abre sob seus pés. Outras tradições conhecem mitos semelhantes, com algumas variações, mas a agressão sempre acontece em um lugar oculto e subterrâneo. E assim permanece na consciência das crianças que são abusadas, seja pela repressão das lembranças, seja pela maneira como o mundo adulto as faz questionar os próprios sentidos e percepções, de maneira mais ou menos perversa.

De um jeito ou de outro, certa inconsciência e ocultamento do passado parecem necessários para os primeiros passos do indivíduo na maturidade. É como se algo lhe dissesse: “Não, não vai dar para lidar com isso agora; você precisa estudar, arrumar um emprego, ser uma pessoa ‘normal’; deixa pra outra hora, não mexe nisso aí, fique com a história que te contaram sobre o que aconteceu ou deixou de acontecer, vai ser melhor assim”.

E assim se criam as carcaças da identidade que se sobrepõem àquilo que uma pessoa pode ter de mais definidor de sua experiência do mundo adulto. Tornamo-nos engenheiros, médicos, professores, pais, mães – e nos esquecemos de que somos Perséfone. Até que o Plutão conhecido na infância reapareça quando menos imaginamos, quando acreditamos que estamos a salvo não apenas de sua ação como também de sua lembrança. Só que agora, mesmo que iniciando uma crise, mesmo que desenterrando ossos, ele surge não mais como um fator de violação, mas como um agente de cura.

Pode ser difícil, quase impossível reconhecê-lo assim. Mas a questão do reconhecimento, aqui, é fundamental. Pois, junto com a memória de cenas e acontecimentos, ele traz à tona a reparação da confiança de em algum momento perdemos em nossos sentidos e percepções, e no estabelecimento da verdade de um modo geral. Ele se apresenta e diz: “Sim, eu existo; fui eu mesmo que você viu quando era pequeno; não acredite nas lendas que te contaram sobre mim; eu sou a violência, eu sou a morte, eu sou a crueldade, essas coisas existem no mundo e você as conhece bem desde cedo; não deixe ninguém tirar isso de você.”

Plutão não tem culpa de nada, no final das contas. É uma maneira que encontramos para simbolizar algumas experiências indesejáveis, embora o verbo ‘encontrar’ nesse caso tenha algumas sutilezas interessantes, assim como ‘indesejável’ é um adjetivo que merece algumas nuances. Pois, se a morte é indesejável, muito mais seria uma vida individual que não acabasse nunca. Enquanto o sexo, em si mesmo, está longe de ser indesejável, e em algumas de suas expressões mais regeneradoras e transcendentes encontram-se também sob a regência de Plutão.

Enfim, para aqueles que já passaram por suas quadraturas pessoais, ou por outro trânsito mais intenso de Plutão em outro momento da vida, e se depararam aí com algumas assombrações bastante reais, fica aqui meu carinho. Pois há quem chegando aos quarenta terá uma primeira experiência mais impactante da finitude e da fragilidade humana; mas há também os precisam despertar em si a criança que conheceu o inferno, sabe que conheceu, e consegue descrevê-lo em detalhes. Para estes, recomendo que reconheçam essa parte de sua identidade e não permitam que as fotos dessa viagem ao submundo sejam novamente soterradas sob fotos de viagens à Disney ou a Cabo Frio. Com a quadratura de Plutão, a cura está na rememoração do inferno mesmo, não na lembrança destes paraísos artificiais.

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O retorno de Saturno

Before Sunset (2004)

Esses dias escrevi sobre o lado infantil do arquétipo geminiano, que pode ser associado à leveza de Mercúrio. Mas é interessante pensar também em como esses símbolos e planetas aéreos têm um papel em assuntos considerados mais ‘pesados’ da vida. Urano, o regente de Aquário, por exemplo, tem fama de favorecer comportamentos erráticos e súbitas alterações de rumo, porém é uma força essencial em processos de amadurecimento individuais. O interessante aqui é que normalmente atribuímos ‘maturidade’ a Saturno ou a comportamentos e atitudes saturninas (ou capricornianas, por assim dizer), quando isso pode ser indício de extrema insegurança e de apego a sinais exteriores de realização ou sucesso.

É o caso de questionar o que significa ser adulto em nossa sociedade. Não faltam exemplos de gente que se apressa em conquistar esse estatuto, para deixar para trás uma adolescência constrangedora ou uma infância triste, buscando a nova condição através de uma carreira, de um casamento, de um título. Vale tanto para jovens advogados e até mesmo deputados que são crianças tolas vestindo ternos caros – e que, para nosso pânico, podem permanecer assim pelo resto da vida –, quanto para hipsters empreendedores que conseguem manter uma irônica aura juvenil em seus apartamentos descolados. Vale para muitos jovens escritores e artistas, também.

O famoso retorno de Saturno é então oportunidade de reavaliar tudo o que foi ‘conquistado’ até os 28 ou 29 anos de idade, e perceber que entendemos tudo errado. Ou pelo menos uma parte importante. O motivo pelo qual escolhemos uma determinada profissão pode ter sido simplesmente agradar o papai, o motivo pelo qual nos casamos cedo pode ter sido simplesmente nos livrar da mamãe, o motivo pelo qual nunca deixamos a casa ou a cidade de papai e mamãe pode ser um senso de dever deturpado e cômodo. Tudo isso faz parte do processo, e assim Saturno vai construindo seu caminho em nossa vida através de expectativas e condicionamentos, contando com nossa insegura anuência, e colocando tudo sob uma nova luz quando volta ao ponto de partida, dizendo: vê, já é um avanço, isso é tudo o que você não é.

O problema é que a essa altura muita coisa já aparece sob o aspecto das ‘responsabilidades’ e da suposta ‘consistência’ da vida adulta. Ou então é difícil abrir mão do que foi obtido tanto esforço. Quem sente que chegou nessa parte da vida sem ter alcançado muita coisa pode estar em uma posição até melhor do que quem tem muito a ‘perder’. E, sim, temos compromissos com a família, a sociedade, os amigos, mas não há nada aí que seja incompatível com o compromisso que temos com o destino. Muito pelo contrário. Os advogados e médicos e engenheiros que insistem em uma carreira escolhida por força das circunstâncias e das próprias incertezas são aqueles que jamais terão maturidade para exercê-la. Quem se dedica a cuidar dos pais ou permanece em um relacionamento por obrigação não é mais adulto por isso; só é mais infeliz.

Mas, para quem acata o amadurecimento que Saturno traz através da destituição de quaisquer sinais de amadurecimento, há uma boa notícia. É aqui que Urano entra na história. Porque, junto com o retorno de Saturno, geralmente vivemos um aspecto de Urano que em sua energia súbita e libertadora traz fortes intuições do compromisso com o destino. Não é necessariamente uma definição. Pode ser só coragem para abandonar de vez as máscaras acumuladas. É uma licença para agirmos de forma errática e imprevista, ou seja, para ser adulto mesmo, confrontando expectativas e circunstâncias. A família, a sociedade e os amigos podem até ficar meio chocados a princípio, mas a longo prazo eles agradecem.

Jung disse que o livre-arbítrio é a habilidade de fazermos com satisfação aquilo que temos que fazer de qualquer jeito. Um dos problemas de interpretação dessa frase é confundirmos essa ‘satisfação’ com uma heroica ou estoica aceitação de responsabilidades e deveres. Saturno é bem capaz de fazer isso – e há momentos em que isso é necessário – mas a verdadeira liberdade nunca é uma adequação voluntária a condições externas. Tampouco é um exercício da vontade individual desconectada de quaisquer outras circunstâncias. A verdadeira liberdade é uraniana. Ser adulto é ser livre, não para a gente ser o quiser, para sermos de acordo com algo em nós que sabe o que a gente é. Esse algo é o universo.

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De paredes e esgotos

Hoje de manhã de repente me vi quase que literalmente metendo a mão na merda para resolver o problema de um entupimento aqui em casa. Vênus, em um setor que para os capricornianos está relacionado a assuntos domésticos, estava em quadratura com Plutão, que tem uma relação natural com esgotos e dejetos. Poucos dias atrás a quadratura foi entre Vênus e Saturno, e aí a questão foram erros e atrasos em um mobiliário que encomendamos com um marceneiro. É possível que vocês tenham sentido essa sequência de frustrações em algum aspecto da vida, em alguns casos com motivos reais de desespero, muito mais impactantes que esses contratempos do meu relato. E é possível que tudo isso esteja relacionado à conjunção entre Saturno e Plutão que está se formando para o ano que vem.

Falei desse aspecto com mais cuidado aqui. Agora só queria comentar algo que me ocorreu hoje enquanto lidava com a questão da privada entupida (dizem que é fácil reconhecer um astrólogo: é aquele que olha pro relógio quando o avião está caindo, para saber o momento exato da catástrofe; não sei se chegaria a tanto, mas sou do tipo que faz reflexões sobre a posição dos astros enquanto se debruça na mais desconfortável e deselegante posição sobre o vaso sanitário do banheiro dos fundos; nessas horas acho que colocar a culpa no signo é pouco, a gente tem que colocar a culpa nos trânsitos e aspectos também).

Mas enfim: pensei em como Saturno tem mesmo a ver não só com os móveis fundamentais de uma residência, mas também com paredes e o piso, com a estrutura da casa, enquanto Plutão corre de forma menos evidente pelos encanamentos. Pensei que esse trânsito de 2019 é como a história de uma casa em que as paredes velhas vão cedendo e as tábuas carcomidas vão mostrando como os esgotos estão abertos e fedendo sob o piso. A questão aí é que não basta reconstruir as estruturas mais aparentes e botar a merda de volta onde a gente não conseguia vê-la – vai ser preciso lidar com o esgoto mesmo antes de tudo, em meio a um ambiente insalubre e aos odores fétidos. Até porque, ao que tudo indica agora, as coisas já estavam arrebentando por trás das paredes há um bom tempo.

astros

Sobre filhos e planetas

Rembrandt von Rijn

Entre idas e vindas, Saturno e Plutão estão em 2019 se ajustando para sua conjunção em janeiro de 2020, e por conta desse aspecto o ano astrológico corrente é considerado uma preparação para o próximo. Não faltam bons comentários na rede a respeito; com os planetas em questão, é natural que a apreensão e o medo apareçam em muitas dessas leituras. Mas a conjunção é um aspecto muitas vezes enganador nos pressentimentos e presságios que proporciona. É nesse ponto que eu gostaria de acrescentar uma palavrinha.

Uma conjunção estabelece uma fase nova na relação entre dois planetas. É o início de algo inédito, como a Lua Nova é um início em outra escala (a Lua Nova é uma conjunção da Lua e do Sol). A oposição, nessa lógica, é equivalente à Lua Cheia, quando a Lua e o Sol estão frente a frente no céu. Geralmente, no plano individual, não é difícil perceber como as luas cheias são pontos culminantes de processos já em curso, e como as luas novas se apresentam como o impulso para um começo que estava pouco claro antes de seu advento. No plano coletivo as coisas se complicam um pouco mais, mas não deixa de ser útil usar as fases lunares como referência.

Desse ponto de vista, estamos no período balsâmico da relação entre Saturno e Plutão: o momento mais escuro da madrugada antes do amanhecer, no ano que vem. É verdade que, em se tratando desses dois, é difícil imaginar um despertar tranquilo e luminoso, mas – isso é importante – talvez a mudança seja o suficiente para desmascarar os monstros que povoam essa etapa da noite, fazendo-os perder força à luz do dia. Quem sabe assim se dissipem os demônios subalternos que hoje nos aparecem como se fossem reais em nossos pesadelos, e como se fossem pesadelos em nossa realidade.

Até lá, a apreensão e o medo têm tudo para continuar por aí. A boa notícia é que têm tudo para estar errados, senão no diagnóstico de nossas circunstâncias atuais, ao menos no prognóstico de nossas circunstâncias futuras. E a gente sabe como essa questão do prognóstico é determinante na dinâmica da apreensão e do medo, como muitas vezes é ela que torna o presente insuportável. Mesmo quem tem a mais absoluta certeza de que é impossível prever o futuro costuma prever o futuro o tempo inteiro, elaborando cenários miseráveis, catastróficos, com frequência no mais completo prejuízo de sua própria saúde mental.

E, se tem uma coisa que aprendi com a astrologia, como já tinha aprendido com a história, é que é impossível a gente prever o futuro. Ou, ao menos, que é muito difícil, sobretudo em momentos como esse de agora, em que nada do futuro se apresenta a nós. Períodos de acentuada incerteza, de um ponto de vista astrológico, são períodos de incerteza acentuada também para os astrólogos, que compartilham o cosmos com seus ouvintes e leitores. Nós não temos como nos colocar de fora do que descrevemos.

Portanto, nós não temos nunca como estar totalmente certos de nossas projeções do futuro; mas nós podemos estar mais errados do que o normal. Isso é uma premissa importante tanto para lidar com tendências catastrofistas, quanto para evitarmos falsas esperanças, forjadas no âmago do desespero. Eu mesmo me peguei agora pensando se o que vejo de positivo nessa virada do ano que vem não teria a ver com o fato de que meu filho canceriano está para nascer agora. Isto é, se não estaria buscando uma justificativa para, como se diz por aí, colocar mais gente no mundo (digo “meu filho canceriano” porque já tenho um filho capricorniano, e se pudesse tinha um de cada; aliás, Gabriel, se você vier geminiano, papai vai te amar do mesmo jeito tá? Papai promete).

Mas então: será que não estou falando em um “amanhecer”, em um “despertar”, mesmo que com todas as ressalvas, porque há algo parecido para acontecer aqui em casa por agora? Será que não estou vendo uma possível luz no âmbito coletivo onde o que tenho é iminência de um “dar à luz” mais individual? Talvez. Mas aí resolvi olhar no que estava acontecendo quando o Tiago, meu outro filho, nasceu, dezessete anos e meio atrás. Era 2001; Saturno e Plutão estavam justamente realizando uma oposição entre si, que, como as conjunções, só acontecem de 40 em 40 anos; mas com aquele caráter de culminação, de clímax, e de ruptura, que dá um aspecto de “lua cheia” às oposições entre os planetas.

Era 2001, e agora me lembro como foi assistir o ataque suicida às torres gêmeas quando poucos meses depois ia assistir tão de perto a chegada de alguém no mundo. Lembro da consternação, da perplexidade, do susto. Lembro que por um instante nada do que estava vivendo naquele momento fez muito sentido, e que a imagem do futuro de repente se tornou para mim algo completamente apocalíptico e tenebroso.

Mas lembro também que poucos dias depois estava pensando em outra coisa. E depois em outra. E depois em outra. Talvez algumas dessas outras coisas tenham sido também previsões meio sombrias sobre meu futuro individual, profissional, afetivo. Outras certamente foram projeções entusiásticas de meu futuro individual, profissional, afetivo. Tal como as imaginava, nenhuma delas se realizou.

Se fosse astrólogo na época, provavelmente eu teria olhado para essa difícil oposição entre Saturno e Plutão como um fator importante do mundo em que meu filho ia viver. E era, mas nem de longe era definidora desse mundo, e muito menos do mundo dele, o mundo que nasceu junto com ele, o mundo que existe através dos olhos dele. Era um mundo também de milhares de outros aspectos, trânsitos e planetas, para ficar só na riqueza dos fatores astrológicos que conhecemos, e que podem nos fazer esquecer amanhã mesmo aquilo que hoje nos parece tão tenso e difícil.

Ainda bem que eu não era astrólogo na época, pois talvez ainda não tivesse maturidade suficiente para entender isso, talvez me perguntasse ao olhar para os trânsitos do momento: filho numa hora dessas? Ainda bem que eu não era astrólogo, era só um pouco irresponsável, abençoadamente irresponsável, considerando a companhia incrível que tive nesses últimos dezoito anos, e que continuo tendo, agora que Saturno e Plutão vão se encontrar e reiniciar seu ciclo, e que vou ter essa outra alegria em meio às incertezas de um presente também inquietante.

Em certo sentido – em um sentido astrológico – trata-se, agora, de um presente até mais inquietante, porém mais inquietante exatamente por não termos nenhuma ideia do que está acontecendo, quando do futuro só podemos afirmar que nada será do jeito que a gente imagina. O problema é que ainda assim a gente imagina, e com frequência imagina o pior, com base em um presente que pode ser tudo menos sólido e consistente.

A outra coisa importante que aprendi com a astrologia (reforçando mais uma vez o que tinha aprendido com a história) é que as coisas mudam, e que nossas ideias do futuro mudam junto com as coisas. A gente tem dias bons, dias ruins e dias médios, inclusive para prever o futuro. O bom dos dias ruins é que logo a gente está pensando em outra coisa. E depois em outra. E depois em outra.

Que o Gabi venha com todas as conjunções, oposições, trígonos, quadraturas, sesqui-quadraturas, inconjuntos e paralelos que ele tem direito. Uma coisa é garantida: não vai dar par saber a pessoa maravilhosa que ele vai ser através de seu mapa natal. Vai ser só vendo mesmo, disso eu tenho certeza.

PS: o Gabriel nasceu às 00h06m do dia 19 de junho de 2019, com a Lua em Capricórnio, o Sol em Gêmeos e o Ascendente em Áries (sobre o nascimento e o ascendente falei um pouco mais aqui). Estou escrevendo esse pós-escrito no dia em que ele completa seis meses. A primeira coisa que me chamou a atenção em seu mapa foi que os três componentes principais são um rearranjo dos mesmos signos que figuram no mapa do irmão, que daqui a três dias completará dezoito anos, e que tem a Lua em Áries (exatamente no mesmo ponto onde está ascendente do Gabriel), Sol em Capricórnio e Ascendente em Gêmeos. Segundo uma análise combinatória elementar, devo ter mais sete filhos para completar todas as combinações possíveis desses três signos. Mas acho que vou precisar de mais umas três vidas pra isso.

Ah, e sim: o Gabi acabou se apressando um pouquinho, nasceu antes do previsto, mas quando deu vontade nele, e correu tudo muito bem, como escrevi nas postagem sobre seu nascimento. Veio geminiano. E a essa altura eu já não amo ele “de mesmo jeito” por causa disso – amo muito, mas muito mais.