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Pobre Touro

Alexander Millar [https://alexandermillar.com]

Dia desses estava pensando em como Touro tem alguma coisa a ver com algumas das mais longas e lentas canções do Bob Dylan, aquelas em que um refrão monótono se repete incansável e interminavelmente, intercalando-se com extensas enumerações de cenas ou alegorias, e, por estranho que possa parecer, isso é das coisas mais lindas deste mundo. “Sad eyed lady of the lowlands” é um ótimo exemplo, e talvez esses olhos tristes tenham alguma relação com o olhar da Vênus, lânguido e distante; “Desolation Row” é outro, e há algo de desoladamente belo no arquétipo taurino também. Porém era “Workingman’s blues #2″ que eu estava ouvindo quando a ligação me ocorreu – então provavelmente não era só a beleza ou a tristeza que estava em jogo nessa relação, era a pobreza também. O curioso é que Touro costuma ser associado à riqueza, à opulência e ao luxo, ou ao menos ao desejo de obtê-los. Mas, quando repasso aqui de cabeça os taurinos que conheço, me restam poucas dúvidas: Touro é sempre meio proletário.

Não se assustem, queridos. Não estou dizendo que vocês estão condenados a uma vida de esforços mal remunerados. A questão é que, no repertório de imagens e narrativas associados ao arquétipo, encontramos mais elementos vinculados à falta do que à abundância de recursos. Ou melhor, encontramos sempre alguma associação entre a carência e a disponibilidade, assim como o Amor, no Banquete de Platão, surge nas palavras de Sócrates como o filho de Poros e Penia, ou seja, da pobreza e do recurso, e portanto “é sempre pobre, e está longe de ser delicado e belo, como a maioria imagina, mas é duro, seco, descalço e sem lar”, porém é também “corajoso, decidido e enérgico” na busca do que é belo e bom.

Corajoso, decidido, enérgico, sim – mas sobretudo obstinado, de um modo inclusive calmo, quase que resignado com a própria obstinação, quando se trata do amor taurino. Se Touro é o operário do zodíaco, ele é antes disso o tecelão, dedicado ao artesanato das coisas belas e boas, que requerem tempo, paciência e infinitas repetições para ficarem prontas. Antes de ser o tecelão, é o camponês, que conhece o tempo da terra, está integrado aos grandes ciclos do cosmos através dos movimentos cíclicos mais imediatos da matéria orgânica, e entende com o próprio corpo o que o universo faz, percebendo com os ciclos do corpo aquilo que o universo é.

Por essas e por outras é que Ceres, a deusa romana da agricultura, tornou-se uma forte candidata à regência do signo. Falei sobre isso aqui. Mas aceitaria de bom grado a regência de Vênus se ela incluir a figura de Hefesto, seu marido, deus da metalurgia, patrono dos ferreiros e carpinteiros, cuja oficina só produzia os mais perfeitos objetos, e que ensinou o artesanato aos humanos. Hefesto nasceu tão feio que sua mãe o lançou das alturas do Olimpo para livrar-se do embaraço daquele filho lamentável; com a queda, além de feio, tornou-se manco. De que modo ele ainda chega a se casar com Afrodite é outra história; o fato é que também nesse par repercute a dinâmica do luxo e da pobreza, ou do excesso e da falta de atrativos, que encontramos em vários aspectos do arquétipo de Touro.

Pobre Touro; parece que aquela rejeição de Hefesto pela mãe está na base de sua experiência arquetípica; além de proletário, acho que todo taurino é meio órfão também. Conheço taurinos que dariam ótimos personagens de Dickens, e mesmo quando dinheiro não é um problema existe algo de abandonado em seu olhar, algo de carente, destituído de beleza inclusive, e por isso mesmo belo, da maneira como é belo o Amor, ao desejar a beleza que não possui. Touro é filho da pobreza e do recurso, conhece a riqueza e a deseja, mas se anseia por ela é exatamente porque não a tem, como explicou Sócrates. Ou, como explicou Karl Marx, um taurino célebre, os operários não têm pátria – mas nada impede que sonhem com aquilo que nunca tiveram, exatamente porque nunca tiveram, e porque nunca virão a ter.

Como se sabe, taurinos são materialistas, mas existe um sentimentalismo que é especificamente taurino, ou pelo menos que alguns taurinos sugerem em seu modo de olhar. Existe um blues por trás desses olhos – repetitivo, por vezes até monótono, porém bonito em sua simplicidade e brandura, decidido em sua paciência e obstinação. Há algo em Touro que me faz imaginar crepúsculos em subúrbios manufatureiros, o fim de uma longa jornada de trabalho digno, a exaustão recompensada com um belo prato de comida. Mas é claro que isso não deixa de ser uma nostalgia utópica e sentimental, que inclui noites em casas rústicas com quintais e galinheiros, de quando havia galos, noites e quintais.

Aliás, e enfim, para quem pegou a citação, vale notar que Belchior foi um cantor definitivamente taurino, nem sei quando ele nasceu mas já não importa, existe uma relação entre Belchior e Touro. Há algo em Touro que lembra aquele rapaz latino-americano, sem dinheiro no bolso, sem parentes importantes e vindo do interior. Há também sempre algo em Touro que diz, de modo realista e pragmático, mas sem perder a ternura jamais: minha alucinação é suportar o dia a dia, e meu delírio é a experiência de coisas reais.

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Taurinos do mundo, uni-vos

Taurinos do mundo, uni-vos! Li que estão querendo devolver a Plutão o título de planeta. Acho justo, mas desde que ele carregue consigo uma nova geração de colegas. Pois o rebaixamento de Plutão em 2006 teve ao menos um bom efeito: a promoção de Ceres, um enorme corpo celeste do cinturão de Kuiper, que na mesma época passou a ter ambições planetárias.

Vocês, como Virgem, também estão há tempos aguardando um planeta para chamar de seu. Ceres pode muito bem ser esse planeta. Vênus, a atual regente, enjeitada para o signo, está sempre muito ocupada com Libra, e no final das contas o negócio de vocês não é cooperação, harmonia e beleza; o negócio de vocês é comida. Não me entendam mal. Vocês só precisam de uma história que conceda dignidade mítica aos aspectos mais caricatos da pessoa taurínea.

O que não falta a Ceres é dignidade. Ela foi a deusa da agricultura, mãe de Perséfone, raptada por Hades (ele mesmo, Plutão). Ao perder a filha, passou a negligenciar o plantio e as colheitas, recusando-se obstinadamente a trabalhar – contra todos os apelos de um mundo faminto e estéril – enquanto não fosse ouvida em seu lamento. Até que Zeus fez um pacto com Hades, de modo que Perséfone passasse seis meses por ano no submundo e outros seis meses sobre a terra. O pacto deu certo, até porque Perséfone acabou gostando de ser a rainha dos infernos durante o outono e o inverno, reemergindo ciclicamente para felicidade da mãe na primavera e no verão.

Notem como estão aí não apenas o tema da comida (a agricultura, as colheitas, os cereais), como também o dos ciclos de escassez e abundância (relacionados não apenas às estações, mas também ao dinheiro, ao salário, aos recursos que entram e saem todo mês). Mas, acima de tudo, estão aí a constância, a teimosia, a justa obstinação – e a capacidade de não arredar o pé enquanto as coisas não forem feitas do seu jeito.

Então, mesmo que Vênus mantenha a regência de Touro, precisamos de Ceres para compreender melhor seu arquétipo, que é inclusive o oposto complementar de Escorpião (o dos infernos, esse mesmo, regido por Plutão). Há um elemento trágico que interage aí com o bom senso e a constância, e cria uma balança peculiar entre esses dois signos. Interesante pensar como Ceres e Plutão chegaram a um acordo, e imaginar que Touro e Escorpião têm algumas negociações a fazer também.

Portanto, taurinos, não aceitem que Ceres fique novamente relegada a segundo plano. Palavra de ordem: todo mundo vai ser planeta ou ninguém vai ser planeta. Eu, se fosse vocês, fazia até greve de fome se necessário.