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Bons ventos

[Desenho: Bia Callegari]

Os arquétipos astrológicos contam muitas histórias, e uma delas é a que se narra a partir da sucessão dos signos fixos no zodíaco. Ela começa com a energia impessoal de Touro: força de sustentação dos ciclos da natureza, feita de momentos de esforço consistente e descanso merecido, onde acontecem as renovações regulares com as quais o corpo se confunde com cosmos. Touro é aquilo que garante o crescer e o florescer periódico das plantas, e aceita com dignidade seu perecimento, porque entende que ali já está contida a semente de um reinício. Touro é a constância da vida e da morte, repetindo-se indefinidamente. Não estamos falando necessariamente de uma vida ou de uma morte quando falamos de Touro.

Uma vida acontece quando um eu se isola e se reconhece nesse processo. A esse eu chamamos também de Sol, que resplandece em sua permanente juventude, independente de tudo e ao mesmo tempo centro de todas as coisas. Um centro. A energia que emana do Sol é a energia que emana de Leão, cuja vitalidade desconhece os ciclos do tempo orgânico e terreno, e se esbanja no derramar-se inesgotável do verão como se não houvesse amanhã. Porém sabemos que há, por mais distante que possa ser. Sabemos que o inverno há de vir e que o próprio Sol um dia vai acabar, porque sua vida é um evento no universo, ou melhor, um evento do universo, como todos nós somos. Algo que se destaca a ganha existência própria apenas por um instante, ainda que nesse instante exista algo de eterno – como as estrelas que brilham no céu noturno mesmo depois de terem se apagado.

De modo que a verdadeira consciência da finitude do corpo e da noite da alma se dá no âmbito de Escorpião. Essa consciência por si mesma causa transformações que não estavam no roteiro leonino. Escorpião é a descoberta de uma fissura, uma feiura, uma falha, na superfície brilhante de si enquanto Sol, e a prospecção das profundidades ocultas que agora pedem para ser integradas à personalidade. Esse processo exige a morte do eu que havia antes. Uma morte. Ela se dá em uma catarse, em uma espécie de gozo, que significa a dispersão de energias longamente represadas. Em Escorpião acontece o encerramento abrupto de uma história que por muito tempo se demorou nesse fim – e quando ele chega nunca é simples ou fácil, mas é sempre uma forma explosiva de cura e de libertação.

Enfim, atravessada a crise, a força dos fixos torna-se novamente impessoal, porém agora não mais atrelada aos ritmos do corpo, que já foi delimitado, dilacerado e curado. Aquário é a luz que brilha quando todas essas energias se dissipam no céu, como se fossem vento; é a matéria que se deixa e dissolver e espalhar quando atinge a perfeição provisória do círculo; é a libertação dos limites da forma, com a consciência do espaço ilimitado. Aquário percebe que todos os sóis do universo coabitam um mesmo espaço, e nele nascem e nele morrem nos mais diferentes formatos e tamanhos, sendo que juntos formam uma rede de sóis interligados onde todos brilham juntos e nenhum deles está no centro.

Júpiter acabou de ingressar em Aquário, onde vai permanecer por cerca de um ano; Saturno já está lá há alguns dias, e fica durante dois anos e alguns meses; em 2023, Plutão chega para uma estadia de mais de uma década. Cada vez mais essas energias tão terrenas ou telúricas vão ganhar ares aquarianos, e a capacidade de disseminar-se em todos os recantos do cosmos sem ter origem em nenhum deles especificamente. Que esses bons ventos nos levem.

touro

Sem esperança nem desespero

O cambista (1627) | Rembrandt

Existem diferentes caminhos para falar do zodíaco a partir da obra de William Shakespeare. A gente pode até brincar de separar as peças dele por signo, tamanha é a riqueza de suas tramas e a diversidade de seus personagens. Sonho de uma Noite de Verão, por exemplo, é uma peça pisciana; Hamlet tem alguma coisa de Sagitário, o Próspero de A Tempestade lembra Capricórnio, algumas comédias são bem librianas, e outras participam do arquétipo de Gêmeos. É claro que cada texto deve ter lá seu mapa com todas as nuances possíveis, e eu diria que Rei Lear, por exemplo, deve ter o Sol em Leão na casa 12, em quadratura com um Marte em Escorpião na 09 e talvez Vênus e Urano conjuntos sobre o Ascendente. Mas quando vamos falar do próprio autor não há como fugir do fato histórico fundamental com que nos deparamos em uma simples conferência na Wikipedia. Shakespeare era de Touro.

Tenho que confessar que isso é para mim motivo de um leve desconcerto. Shakespeare foi um autor que conseguiu transitar por diferentes modos narrativos, parecia mudar de ideia toda hora em suas visões de mundo e da humanidade, e tampouco nos legou um conjunto consistente de proposições a respeito do que quer que seja. Touro, por sua vez, não é conhecido por sua flexibilidade, costuma manter-se firme em um ponto de vista, e tem na constância uma de suas grandes virtudes. Um autor taurino que não surpreende por ser taurino, por exemplo, é o israelense Amós Oz. Afinal, por mais inteligente e talentoso que seja, Oz parece ter escrito basicamente o mesmo romance de umas dez maneiras diferentes. O pragmatismo pacifista e o bom senso com que ele sustenta suas posições políticas só reforçam esse ponto.

Já no caso do dramaturgo inglês, estamos diante de um aparente paradoxo. Sua obra artística é o contrário da insistência em um conjunto reduzido de temas e tipos, e não me lembro de qualquer característica evidente que remeta àquela predisposição ao monótono. Uma solução para o impasse é simplesmente dizer que a astrologia não tem fundamento algum, que esse negócio de signo não existe, por isso a discrepância; outra resposta é afirmar que a astrologia vai muito além do signo solar. Como não estou contente com nenhuma das duas, cabe-me defender a causa da taurinice shakespeariana.

De modo que vocês podem ficar tranquilos: não vou apelar para casas ou quadraturas ou asteroides para explicar a obra de Shakespeare por critérios astrológicos. Talvez fizesse isso em outro contexto, mas neste proponho-me a tarefa mais difícil de reduzi-la à expressão do um único arquétipo, ao invés de recorrer a um conjunto maior de planetas e pontos de seu mapa. A propósito, existe um asteroide chamado Shakespeare, o número 2985 segundo a Nasa, de modo que todo mundo tem Shakespeare no mapa. Em último caso, poderíamos até falar de Shakespeare a partir do Shakespeare de Shakespeare (em Aquário). No entanto, o procedimento nos enredaria num buraco de minhoca astrológico do qual não sairíamos sem graves sequelas para a tessitura do espaço-tempo.

Ficamos com a questão do signo solar, portanto. O primeiro problema que se apresenta é de como um taurino pôde escrever peças tão diferentes entre si e ter sido tão igualmente sensacional na comédia e na tragédia. A resposta mais imediata seria: para ganhar dinheiro. Este diagnóstico crítico seria consequência de uma abominável caricatura de Touro, mas eu não o descartaria de imediato. Shakespeare, de fato, ganhou muito dinheiro com as peças que escreveu. O historiador Stephen Greenblatt calcula que no fim da vida ele possuía investimentos suficientes para se aposentar na condição de cavalheiro, e inclusive identifica em diferentes momentos da obra shakespeariana os ecos de um “sonho de reabilitação”, financeira e social, que remeteriam sempre o episódio da falência de seu pai, um comerciante de luvas e objetos de couro cuja derrocada deixou a família no vermelho por logos anos.

Greenblatt argumenta que as necessidades materiais foram um forte estímulo para que Shakespeare estudasse o mercado teatral para obter êxitos de público com suas peças. Nesse sentido, e curiosamente, ele seria séculos depois ecoado por Anton Tchekhov, um autor russo que ganhou dinheiro com seus contos e sustentou a família com suas peças, tendo praticado a medicina por hobby durante boa parte da vida. Mas Tchekhov era aquariano, e não serve como referência comparativa nas demais questões que levantamos.  Quem também era taurino e ganhou uma grana com literatura foi o francês Honoré de Balzac – que, aliás, escreveu um dos parágrafos mais sensacionais sobre comida da história da literatura mundial.

Estou me referindo à descrição do restaurante Flicoteaux, no início da segunda parte de As Ilusões Perdidas, um romance inigualável quando se trata da representação dos perrengues amorosos, financeiros e culinários de um jovem interiorano em Paris. Seu protagonista, Lucien de Rubempré, está sempre endividado, enrolado e atarantado com as exigências materiais impostas à vida de um cavalheiro nos círculos elegantes onde transita. Às vezes, está faminto também, e por isso vai sorrateiramente ao Flicoteaux. Lá, tal como anunciado no boca-a-boca dos estudantes, os cartazes prometem e os garçons entregam refeições bem servidas, sem comedimento no tamanho dos potes de molhos e das cestas de pães, ainda que com zelo comedido no que se refere à qualidade dos ingredientes (ao contrário do que acontece em tantos bistrôs de Paris), fazendo de simples e pura quantidade o grande atrativo do lendário muquifo balzaquiano.

Mas Balzac não ficou só na representação dos insucessos deste ou daquele rapaz ambicioso. Estamos, mais uma vez, diante de um escritor taurino cujo espectro de representações da experiência humana atinge extremos bem distanciados, tanto em suas diferentes obras como também em questão de alguns minutos ou poucas páginas de um mesmo livro, nos quais vamos com frequência do sucesso à derrocada e da derrocada para a humilhação e da humilhação para a sorte grande, numa espécie de montanha russa que não parece ter nenhuma regularidade. Cabe observar, por outro lado, que, quando Balzac optou por dar um nome ao conjunto da grande maioria de seus escritos, esse nome foi A Comédia Humana. Portanto, creio eu, é no cômico que devemos buscar o pano de fundo sobre o qual se dão as intensas variações de humor, enredo e fortuna dos personagens de Balzac; ele é o que parece permanecer, apesar de todas as mudanças verificadas.

Vou argumentar que com Shakespeare acontece algo semelhante. Mas antes é preciso enfatizar que a comédia (e o modo cômico de ver o mundo) não tem necessariamente como ponto de partida uma inclinação para o riso e para a hilaridade. Ela pode surgir também de um bom e sólido commom sense, ou seja, uma segurança íntima e inalienável quanto à ação mais sensata em uma determinada situação, tão forte que parece decorrer não apenas de um conhecimento de códigos sociais, mas de um contato silencioso com própria natureza e seus ritmos permanentes. Isso quem tem é Touro, e sobre esse lado mais misterioso do arquétipo já escrevi com mais delongas em outra postagem (essa aqui). O ponto agora é que, embora a comédia seja assunto do âmbito do eixo Gêmeos-Sagitário, é em Touro que ela encontra sua base. É a partir dali que se expande em direção ao infinito.

Dante Alighieri, por exemplo, era geminiano. A gente supõe que ele escreveu a Divina Comédia com base no fato de que existe algo de engraçado no fato das pessoas serem condenadas a todo tipo de sofrimento no Inferno, e para Gêmeos isso pode mesmo fazer sentido. Porém, segundo o crítico Erich Auerbach, Dante não apenas foi responsável pela primeira grande obra em língua vulgar na tradição literária europeia, como também teve sua sensibilidade moldada pela cultura popular da época imediatamente anterior, quando os chamados mistérios medievais davam corpo às histórias bíblicas, trazendo-as para o cotidiano mais simples de camponeses e artesãos. Em uma análise na mesma linha, Auerbach afirma que Dante seria inimaginável sem a existência prévia de um São Francisco de Assis, líder do mais conhecido movimento de back to basics da doutrina cristã, cujo signo não sei, mas que, em suas relações imediatas com o mundo natural e o planeta Terra, foi sem dúvida alguma o mais taurino de todos os santos.

O que quero pontuar aqui é que aquele bom e velho senso comum presume certa simplicidade para servir como fundamento de uma visão cômico-cósmica da existência. Indispensável para conseguirmos ver o mundo como uma nau de loucos, ele não é exatamente o decoro das classes médias letradas e seus manuais de etiqueta, mas a convicção do trabalhador de que a vida não precisa ser mais do que um emprego honesto e um bom prato de comida, ou a certeza do camponês de que há o tempo da colheita e o tempo da semeadura. A partir daí, todo o resto é motivo de riso. A obra de Shakespeare está repleta de passagens nesse sentido, passagens tipicamente tauríneas, como no famoso diálogo entre os dois coveiros que preparam tumba de Ofélia. Fico com a impressão de que, se for para encontrar uma unidade na imensa variedade de suas peças, esse seria um bom caminho.

Stephen Greenblatt parece concordar comigo. Ele termina seu Will in the World (intitulado no Brasil Como Shakespeare se tornou Shakespeare, pela Cia. das Letras) com um capítulo chamado “O triunfo do cotidiano”, onde afirma que “Shakespare foi fascinado por ambientações exóticas, culturas arcaicas e personagens transcendentes, porém sua imaginação estava intimamente ligada ao familiar e ao íntimo. Ou melhor, ele adorava revelar a presença do comum em meio ao extraordinário (…) A imaginação de Shakespeare nunca adentrou os salões da metafísica, fechando as portas ao corriqueiro”. Ou seja, mesmo em seus voos mais altos ele nunca abandonou uma postura pé-no-chão, capaz de perceber o risível em quem anda com a cabeça nas nuvens, e trazer de volta à Terra aquele que se acreditaram ultrapassar os limites deste mundo.

Ao mesmo tempo, Greenblatt dá a entender durante todo o livro (ele mesmo feito de nuances e variações ensaísticas) que seu objeto de estudos nunca deixou de ser o filho do luveiro falido, que buscou no teatro não somente um de veículo para seus talentos artísticos, mas também um meio de vida, que tornasse possível fazê-lo recuperar a estabilidade perdida na juventude. É aqui que o arquétipo e o estereótipo de Touro se encontram. Pois acredito que, por um lado, a dedicação ao trabalho e a produtividade de Shakespeare no ofício da dramaturgia implicam aquela intimidade com os ritmos da natureza, e que suas incontáveis variações de estilo e de tema só foram possíveis por causa de uma cadência criativa permanente, cujas oscilações e preguiças ele sabia respeitar como só os taurinos sabem. Por outro lado, esse é justamente o ritmo de trabalho que o mantém a salvo das intensas flutuações da fortuna, uma necessidade para quem precisa entregar o trabalho no prazo e garantir o ganha-pão.

Lembro então de uma frase da escritora dinamarquesa Karen Blixen (que era de Áries, mas tinha a Lua e Mercúrio em Touro), quando ela disse que tentava “escrever um pouco todo dia, sem esperança e sem desespero”. Creio que essa é uma fórmula bastante correta e previsível para distinguir o tipo de passo que se espera de escritores taurinos, pelas razões expostas; curiosamente, ela me parece apropriada para descrever também autores de grandes obras cômicas. Nesse caso, estou tratando a comédia como algo capaz de englobar o trágico, um pouco como Joseph Campbell, em O Herói das Mil Faces, onde se lê que “a tragédia é o estilhaçar das formas e de nosso apego às formas, enquanto a comédia, livre e despreocupada, trata da indestrutível alegria da vida invencível”. Uma alegria e uma vida, portanto, que estão por trás das formas individuais que a tragédia vê sendo destruídas, e que as sustentam de maneira incansável e consistente. Como a linha do baixo se oculta sob as variações do grave numa canção, sem nunca deixar de estar lá.

Já o comentarista Northrop Frye lembra que as comédias de Shakespeare nunca perdem totalmente o vínculo com os festivais aos quais o termo komos faz referência. Ele se refere a ritos com que a restituição da fertilidade é aguardada e favorecida no início da primavera, o que torna os casamentos e finais felizes das narrativas cômicas um símbolo do florescimento anual que a natureza nunca deixa de garantir, desde que seu tempo seja respeitado. O “triunfo do tempo”, aliás, é o título do capítulo a esse respeito em A Natural Perspective: the development of shakespearean comedy and romance, que Frye publicou em 1965. Ele mostra que, implicado no prazer com os momentos de felicidade e abundância onde terminam as comédias, está a tristeza com os momentos de luto e de escassez em que elas se iniciam. O tempo sempre triunfa em reverter uma coisa em seu contrário, de tal maneira que sob essas mudanças se instala algo de invariável, que é ele próprio, o tempo.

“Neither hope, nor despair”: essa foi também, vale acrescentar, a fórmula que a filósofa feminista Donna Haraway encontrou para propor uma atitude frente ao pesadelo de uma tragédia climática em um de seus últimos trabalhos. O feminismo e o taurinismo têm vínculos que se explicam pelo próprio arquétipo, e Haraway pode até não ser taurina, mas o título de seu livro é. Staying with the Trouble dá uma boa ideia de como um realismo pragmático pode se articular com uma agenda ecológica pé-no-chão, que busca eficácia mesmo diante de um cenário apocalíptico, até porque o medo do apocalipse é uma questão de ponto de vista. “Nem a esperança nem o desespero” – ela afirma – “estão sintonizados com os sentidos, com a matéria consciente, com os rebentos da terra em sua massiva coexistência”. Ou seja: o cosmos e a Terra não padecem de preocupação nem de entusiasmo com o destino da humanidade, não porque sejamos desimportantes, mas porque tais sentimentos não estão entre seus hábitos. E os hábitos do cosmos e da Terra são os hábitos do tempo, que por sua vez são os hábitos de Touro, se quisermos encontrá-los em sua manifestação entre os humanos.

Nesse sentido, enfim, a própria fertilidade criativa de Shakespeare ao longo dos anos seria taurina em sua constância, fazendo do ritmo de trabalho que ele conseguiu manter a base sobre a qual surgiriam suas criações e improvisações mercuriais. Não que ele estivesse preocupado com a salvação do planeta, dadas suas aflições mais imediatas com o orçamento doméstico; mas, ao conceder sua atenção ao que é mais simples e concreto, Touro sem querer acaba se salvando de uma série de complicações desnecessárias, pelo menos do ponto de vista das necessidades do corpo, que precisa sempre cuidar antes daquilo que está ao alcance da mão. Shakespeare, de fato, nunca adentrou os portões da metafísica, mas ficou na entrada cobrando o ingresso de quem queria entrar. E, ao cuidar de seus negócios com eficácia, ele deu um bom exemplo de como devemos nos portar diante da catástrofe: sem esperança, sem desespero, e sem nunca esquecer de separar uns trocados para nos dias difíceis ir jantar no Flicoteaux.

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O lugar bom

Essa postagem é para quem assistiu ou está assistindo The Good Place, a série da NBC que estreou em 2016 e terminou em 2020 (tem na Netflix). Vi o último episódio esses dias, e série tem esse negócio de a gente ficar com saudade dos personagens. Então – prometo não estragar o final para ninguém, pelo menos não para quem já passou da primeira temporada – me deu vontade de explorar um pouco mais a brincadeira dos signos com eles. A propósito, já mencionei o Michael (Ted Danson) em um texto sobre Capricórnio, e indiquei a Eleonor (Kristen Bell) para o Oscar do zodíaco que propus uma vez aqui, na categoria Personagem de Áries. A essa altura, estou convencido de que ela merece o prêmio.

Isso porque ela é uma ariana que vai ficando mais suave no decorrer da série, menos tensionada no confronto com o mundo, e, por mais que esse seja um caminho esperado em uma narrativa cômica convencional, ela nos convence de que isso é possível. Não é só porque aprende a falar palavrões com certa civilidade (tipo “holy fork!”, eventualmente traduzido por “fruta que caiu!”); ela faz com que seja verossímil uma heroína de Áries do bem, na medida do possível, é claro. De todas as transformações que vemos no decorrer das temporadas, para mim a dela é a mais notável. Não quer dizer que fique menos ariana, pois conheço muita gente desse signo que já parte desse lugar em que o restante da humanidade não é visto apenas como uma ameaça, e sabe que dá até para conviver com gente, às vezes até gosta. Em se tratando de Áries, já é bastante coisa.

Chidi (William Harper), por sua vez, é o clássico libriano que precisa aprender a tomar decisões. Não por acaso é o par oposto-complementar de Eleonor. Mas acho interessante que seja um filósofo. É comum as pessoas acharem Libra um signo romântico, mas a gente sabe como eles conseguem ser incrivelmente frios e cerebrais. Falta-lhes o fogo das paixões leoninas, o poço dos sentimentos escorpiônicos, a sensibilidade ao ambiente de Touro ou Virgem. É lógico que nessa perspectiva falta um traço de Libra também todos os outros arquétipos, e falta mesmo. Sobretudo quando a gente conhece um libriano que, não obstante sua librianice, e inclusive por causa dela, sabe decidir que sobremesa escolher depois de colocar todas as opções na balança.

Jason Mendoza (Manny Jacinto) é um caso singular. Peixes, sem dúvida. O interessante é que ele é pisciano tanto em sua versão de mentirinha quanto depois que ficamos sabendo quem ele realmente é após os episódios iniciais da série. Nesse caso acho que não conta como spoiler porque a coisa se revela logo ali no segundo ou terceiro capítulo: ele passa de um monge tibetano de olhos puxados que vive à base de meditação e água fresca para um morador da Flórida de origem filipina de olhos puxados que vive à base de todo tipo de porcaria e pequenos roubos de gasolina. Embora o monge seja um personagem típico do arquétipo de Peixes, a versão verdadeira de Jason é até mais pisciana que a outra.

O legal é que ele não deixa nunca de ser um personagem ingênuo e encantador. Avoado, iludido, totalmente incapaz para os assuntos práticos da vida, mas nunca menos “espiritualizado” que sua versão monástica, mesmo quando se lembra do dia que passou atirando em ratos no lixão de Jacksonville com um primo de Blake Bortles. Porque ele espera ser aceito pelo mundo da mesma maneira como o aceita, e representa o papel do bobo em tudo o que tem de plena receptividade e espelhamento do mundo ao redor. Além de ser engraçado, é claro. Tem uma cena, por exemplo, em que está todo mundo dando opinião ao mesmo tempo sobre algum problema, aí ele entra e dispara a falar um monte de coisas nada a ver. Quando perguntam o que deu nele, responde: “Sei lá, estava todo mundo falando junto achei que era para eu falar também”. Tipicamente pisciano.

Quanto à Tahani (Jameela Jamil), aí já fico na dúvida. Ela tem a rivalidade geminiana pela atenção dos pais com a irmã, mas não tem agilidade de raciocínio de Gêmeos; participa do encanto leonino com o universo das celebridades, mas falta-lhe magnetismo e confiança para ser ela própria uma Leoa. No final das contas, fico achando que é de um signo de Terra. Mas nesse caso estou disposto a aceitar ajuda, então se alguém aí tiver um opinião a respeito pode falar. Vejam só que coisa bizarra estou me tornando: uma capricorniano que admite que não sabe uma coisa e até pede conselho pros outros. Tipo o Michael.

Voltando então rapidamente ao Michael: o engraçado é que, além de ser uma figura evidentemente capricorniana em sua função de gerenciar a coisa toda e saber tudo a respeito de tudo, ele a princípio tem ainda aquele traço de Capricórnio que não aceita a necessidade de ajuda. Precisa estar sempre no controle, sem precisar nem do palpite de mais ninguém. É lógico que isso já vai mudando a partir da segunda temporada, vai ficando mais claro como na verdade tudo o que ele precisa (e no fundo quer) é assumir a forma falível e imperfeita dos humanos. É muito exaustivo isso de se responsabilizar pelo universo o tempo inteiro. Algo semelhante poderia ser dito de muitos capricornianos. 

E tem a Janet (D’Arcy Carden), é claro. A Janet é um caso à parte. Aí eu perguntei pro pessoal da internet qual é o signo da Janet, e a resposta que mais me apareceu foi Virgem. Eu respeito essa posição e até entendo. Ela tem um gestual contido e um jeito de se vestir que são bem virginianos. Ela presta um serviço inestimável, aparece sempre que alguém precisa de alguma coisa, é uma funcionária exemplar do cosmos e e nem humana ela é. Pra muita gente, isso é mais que suficiente para cravar: virginiana.

Mas eu sou Capricórnio com ascendente em Escorpião, então quando peço conselho ou palpite pros outros vocês podem suspeitar que é só jogo de cena. Já formei minha opinião há tempos e nada me fará arredar dela. Acho que os gestos controlados e aparentemente metódicos da Janet têm mais a ver com fato de que ela não tem muita familiaridade com a forma humana que assumiu. Aí vocês precisam que considerar que, quando a gente fala que Virgem não é muito humano, isso é mais num nível metafórico; é lógico que não é literal. Tem só um signo que corresponde a essa característica sem precisar de licença poética. Tem só um signo de gente que veio de outras galáxias e está ainda se acostumando a viver entre nós.

Pois então: Aquário. Em primeiro lugar, exatamente por isso, porque nem humana ela é. Digo isso na certeza de que os aquarianos queridos do meu coração vão entender como um elogio: tipo, você nem é humano, você é uma Janet. E, como se não bastasse, ela é capaz de prover os humanos com aquilo que normalmente é reservado aos deuses, como fez Prometeu, protagonista do mito mais significativamente aquariano. O fato de que vai acabar se apaixonando por uma pessoa de carne e osso, e conhecer um pouco mais os desejos do corpo que a princípio lhe é estranho – isso também acontece com frequência no âmbito do arquétipo de Aquário. E a maneira como a mente dela se conecta como uma espécie de supercomputador a tudo o que acontece no universo só me faz ter mais certeza do meu ponto.

Para terminar, ufa, tem a série como um todo. Estreou em 19 de setembro de 2016. Essa sim é, portanto, virginiana. Para mim faz sentido: a narrativa costuma ser até bem metódica em sua sobreposição de universos como se fossem bonecas russas, mesmo quando flerta com o caos. Agora, eu apostaria que existe alguma coisa ali que articula muito bem Sagitário e Touro. Talvez a Lua no primeiro, o ascendente no outro. Pois o pano de fundo é sagitariano, de modo que toda a brincadeira é organizada em torno de uma indagação sobre o sentido da vida e a finalidade da existência. Ela pode não alcançar muita profundidade nesse sentido; mas isso, pelo menos para mim, não é necessariamente uma falha ou deficiência. É aí que entra a perspectiva taurina.

Pois, no final das contas, após as milhões de referências a Kant e Heidegger e Pascal, a série acaba recorrendo ao pensamento oriental para dar uma última resposta provisória ao enigma do existir. Sobre esse aspecto dos últimos episódios, sem entregar o enredo, vou me permitir uma pincelada, até porque o recurso é mais que previsível, e não apenas pelo andamento da série, mas pela própria linguagem seriada de que ela é um bom exemplo. A ideia de que o “fim” pode ser infinitamente postergado para uma outra temporada – e de que podem existir mundos infinitos dentro de infinitos mundos – faz, curiosamente, com que o momento presente seja mais valorizado. Se a própria morte não é conclusão de um processo, mas faz parte de um conjunto incessante de ciclos, não tem porque você se afligir com uma finitude ilusória, e você pode muito bem encontrar o infinito que existe contido no agora.

Buda, como já disse aqui vez ou outra, para todos os efeitos era taurino. Seu aniversário é comemorado no dia 07 de maio. Isso para mim está relacionado não apenas à paciência e à perseverança, mas também à capacidade que Touro tem de aproveitar as coisas boas da vida. Digo, aquelas coisas materiais e momentâneas mesmo, como uma boa refeição, um bom vinho, uma boa companhia ou a simples possibilidade de respirar fundo um ar puro e tranquilo. É por isso que para mim a série termina onde começa a grande lição de Touro para nós. Que é um pouco a lição de Buda também. Não saia daí. Respire. Aproveite a vida. Aproveite o momento. O lugar bom é onde você está.

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Dr. Sigmund de sapatos novos

Em suas memórias, o médico suíço e leonino Carl Gustav Jung trata da ruptura de sua amizade com o neurologista austríaco e taurino Sigmund Freud como uma experiência muito difícil e dolorosa. Jung e Freud entraram mais abertamente em conflito em torno de 1910, por causa de divergências na evolução do pensamento de ambos, e sobretudo por aquilo que Freud considerava uma excessiva inclinação para o “ocultismo” nos estudos de seu discípulo. Tauríneamente, Freud não arredou um dedo da convicção nos sólidos postulados científicos sobre os quais procurava erigir a psicanálise; Jung, por sua vez, afirmou que, na época do desentendimento, sentiu-se tão perdido que não encontrou alternativa a não ser buscar nas imagens de seu próprio inconsciente alguma saída para a crise.

Então teria se fixado em uma memória de sua infância, de quando estava com 11 ou 12 anos, e se dedicava apaixonadamente a brinquedos de construção. O impulso criativo reanimaria seu espírito adulto, na medida em que ele retomou a atividade lúdica, saindo para catar conchas e outros materiais de manhã e separando um tempo para utilizá-los nos intervalos do trabalho no hospital. “Mal terminado o almoço, ‘brincava’ até o momento em que os doentes começavam a chegar; à tarde, se meu trabalho estivesse terminado a tempo, voltava às construções. Com isso meus pensamentos se tornavam claros e conseguia apreender de modo mais preciso fantasias das quais até então tivera apenas um vago pressentimento”.

Esse recurso ao potencial terapêutico da brincadeira, da criatividade, do jogo e do ócio não é apenas uma característica de Leão; é também uma marca daquele tempo. Roger Caillois, em Os Jogos e os Homens, observa que as primeiras miniaturas de carros foram produzidas por operários de fábricas automotivas em que a divisão do trabalho não lhes permitia acompanhar o processo de produção do começo ao fim. Assim, chegando em casa, eles podiam reassumir o controle de todas as fases da composição de um artefato, nem que fosse como um hobby compensatório, e conseguindo com isso restituir a si mesmos uma relação artesanal com a inteireza do objeto.

Mas o arquétipo de Leão de fato atualizou esse impulso de formas diferentes através dos séculos. Cada texto que começo e termino para esse blogue, por exemplo, é uma espécie de jogo em que me envolvo com prazer e incerteza, sem saber ao certo de onde estou partindo nem onde vou chegar, mas sentindo que algo de esclarecedor – para mim pelo menos, espero que para vocês também – se realiza no percurso.

Nunca sei exatamente de onde vai surgir a peça com que começarei a montar cada texto. Nessa semana, por exemplo, ela apareceu na leitura desse trecho autobiográfico de Jung. Aí me ocorreu que é meio engraçado que ele e Freud tenham sido ambos de signos fixos (Touro e Leão), os quais existem em uma relação tensa e produtiva. Mas reparei em seguida que a coisa não para por aí: Freud tinha o ascendente em Escorpião, e Jung em Aquário, ambos no signo oposto complementar de seus signos solares. Isso quer dizer, basicamente, que a cruz dos quatro signos fixos esteve envolvida nas aproximações e afastamentos entre os dois grandes pensadores da psicologia no século XX. Opa, pensei: tem jogo aí.

Acho que em ambos os casos o signo solar aparece como a base da personalidade, e o ascendente refere-se à contribuição que ofereceram em suas obras. No caso de Freud, o vínculo com Escorpião é mais que evidente: de Totem e Tabu a Moisés e o Monoteísmo, desenvolve-se um concentrado esforço arqueológico em que são desenterrados os ossos de crimes antigos (o assassinato do pai pela horda primitiva, o assassinato de Moisés pelas tribos do êxodo), que teriam correlações exatas em episódios de cada trajetória individual, habitando os subterrâneos do inconsciente. Os sentimentos de inadequação, culpa, remorso ou angústia que surgem da repressão dessas memórias podem então ter sua origem identificada. Com isso, torna-se possível e necessário encarar os demônios ocultos na psique, para alcançar a lucidez após um intenso mergulho nas profundezas do passado.

Tudo converge para o Complexo de Édipo, também um assassino de seu pai, ao mesmo tempo detetive e criminoso, cujo expurgo de Tebas revela-se necessário para a regeneração da cidade. Aqui uma importante diferença entre as obras de Freud e Jung pode ser notada, pois no segundo caso há uma profusão de arquétipos, narrativas e símbolos que nunca se deixam reduzir a uma única história. Assim, enquanto Escorpião tende à obsessiva e quase paranoica busca de vestígios capazes de reafirmar o ponto central de suas investigações, Aquário abre mão do “uno” em favor do “múltiplo”, observando e afirmando diferenças ex-cêntricas onde outros vêm similaridades.

A ênfase no caráter sexual da libido, a propósito, não deixa de ser um componente escorpiônico das lições de Freud. Também aqui ele e Jung divergiram frontalmente da maneira como Escorpião e Aquário divergem no zodíaco. Pois o primeiro é uma força corporal, intensa, concentrada, enquanto o segundo é um arquétipo que se dispersa no ar em uma complexíssima profusão de relações em rede. Jung considerava a ênfase de Freud nas pulsões sexuais uma inclinação “reducionista”, na medida em que designava uma só fonte como energia motriz de todos os esforços e humanos. Ele acreditava que o impulso criativo, por exemplo, existia por si mesmo, e não como um excedente de desejos reprimidos.

Curiosamente, portanto, embora Jung fosse o ”ocultista” da relação, havia algo na ciência de Freud em que ele detectava uma obsessão compulsiva com o tema do sexo e da autoridade paterna. Não é incomum que Aquário veja Escorpião por esse prisma, no qual se ressalta sua perspectiva desencarnada, indiferente em relação aos instintos primitivos que lhe parecem vis ou demasiadamente humanos. Mas isso envolve também a dimensão iluminista e prometeica do arquétipo aquariano, na medida em que busca alçar o humano para além de seus limites usuais. Desse modo, e mais uma vez curiosamente, as Luzes estão do lado de Jung, embora Freud fosse o cientista da relação.

Acontece que Jung também se outorgava esse título, tinha apreço por ele, porém entendendo a ciência de um modo mais heterodoxo. De ambos, se não me engano, foi quem acompanhou mais de perto as inovações da Teoria da Relatividade e e Física Quântica, sem deixar escapar as relações da cosmovisão que essas novidades ofereciam com elementos das religiões orientais. Freud, enquanto isso, manteve-se centrado na tradição judaico-cristã, ferozmente dedicado ao problema de Deus, ou ao problema do Pai.

Enfim, Jung roubou o fogo de seu próprio Sol leonino para levá-lo aos homens através de seu ascendente aquariano; Freud manteve-se até o fim da vida irremovível do caminho em que Touro o havia situado, porém correndo riscos e desencavando desejos que apenas são aceitos e reconhecidos quando acionamos o tipo de coragem que reside no arquétipo de Escorpião. Da tensão produtiva desses cruzamentos, ambos descobriram razões que reforçaram suas crenças e os mantiveram em suas trajetórias, que, antinômicas como são, não deixam de se complementar (caberia ainda mencionara os aspectos complementares das noções de inconsciente individual e inconsciente coletivo, que estão mais propriamente atreladas aos arquétipos de Escorpião e de Peixes, tal como já comentei aqui).

Resta saber como Freud terá reagido à ruptura que levou Jung aos brinquedos de construção. Algo pode ser deduzido da correspondência entre ambos – ele alegou ter sido “despojado da autoridade paterna” de que o próprio jovem Jung o investira anos antes –, mas acho que nesse caso ele deve também ter buscado no seu Sol taurino algum tipo de conforto. No mínimo, deve ter se recostado em uma poltrona aconchegante, procurando quem sabe um bom lugar pra ler um livro, sem outro propósito além dar maciez à sua tristeza. Freud, é bom lembrar, fez o caminho de volta de Escorpião a Touro (dos mistérios ocultos à verdades elementares) quando lhe perguntaram insidiosamente a respeito de seu prazer com o fumo: “Às vezes, um charuto é apenas um charuto”.

O que então me vem à mente é uma tela do pintor Konstatin Christoff que vi em uma exposição no Palácio das Artes de Belo Horizonte muitos anos atrás. Ela se chamava “Dr. Sigmund de sapatos novos” – e mostrava um Freud felizão e sorridente com um novo par de sapatos brilhosos que teria comprado. O efeito da pintura estava na associação de uma figura tão imponente e misteriosa como a de Freud com alegria de ter comprado um par de sapatos novos. É como imaginar Escorpião contente diante de um belo prato de macarronada.

Ou seja, talvez tenha sido assim que ele lidou com a perda da amizade do discípulo: como um bom e velho taurino. Talvez a materialidade das coisas e as sensações que elas provocam não tenham deixado nunca de ser para ele uma espécie de refúgio em tempos de crise, a base de sua existência e sua personalidade, o ponto central e solar a partir do qual irradiou seu brilho para as regiões sombrias da alma humana. Assim como a criatividade e os jogos foram para Jung.

Só queria ainda acrescentar que Konstantin Christoff foi um artista búlgaro que, aos nove anos de idade, foi parar com a família em Montes Claros, no norte de Minas Gerais. Formado em Medicina pela UFMG, trabalhou como cirurgião-geral a vida inteira, mas nunca abandonou a pintura, além de ter publicado várias ilustrações na imprensa brasileira. Mais um médico artista, portanto. Descobri isso agora, ao fazer a pesquisa para tentar descobrir a imagem do quadro de Freud com sapatos novos. É engraçado o tipo de coisa que descubro e que encontro ao juntar as peças para esses jogos que vou montando aqui.

Mas infelizmente não encontrei a imagem, então terei que pedir um esforço da imaginação de vocês para terminar. Visualizem aí, com candura, sem maldade: Dr. Sigmund. Uma poltrona confortável. Pernas cruzadas. Sorrisão na cara. Charutão na mão. Sapatos novos.

touro

Touro é um mistério

Tarsila do Amaral | Paisagem com Touro (1925)

“La casa de Astérion” é um conto do escritor argentino Jorge Luis Borges em que o Minotauro faz o relato de seus dias no interior do labirinto na ilha de Creta, enquanto aguarda a chegada de um herói que o virá redimir. Ele fala de suas rotinas, afazeres, apetites; é honesto, afável, simplório até; está longe da figura do monstro devorador de donzelas que seria assassinado por Teseu. No entanto, terminada a história, sentimos que algo de sua experiência nos escapou, no mesmo instante em que foi revelado. De modo que, por mais generoso que tenha sido o relato, o Minotauro permanece um mistério.

Acho que algo semelhante pode ser dito a respeito de Touro. Por um lado, é um signo que aceita simplificações, e tem um aspecto pragmático, que não reclama de ser reduzido aos nossos assuntos mais palpáveis: comida, sexo, dinheiro. A besta mitológica que está por trás do arquétipo ganha assim ares bastante terrenos. No entanto, uma vez alcançada a matéria bruta de nossos apetites mundanos, descobrimos que eles mesmos contêm algo de misterioso, ou melhor: que eles mesmos são misteriosos. Não sabemos de onde vem essa vontade de comer, de foder, de viver. Nem precisamos saber, é verdade, mas isso não torna o assunto menos enigmático. 

Todo signo sabe de algo que os outros não sabem. Mas acho que Touro tem a peculiaridade de saber algo muito simples que ele próprio não entende direito, ou talvez não possa verbalizar, por ser algo que existia antes do verbo. Exatamente por isso, é silenciosamente obstinado: não saberia explicar porque faz o que faz, mas isso nem de longe é motivo para deixar de fazer. Talvez você já tenha estado diante de um taurino que tomou uma decisão, e talvez você tenha considerado essa decisão um equívoco, e talvez tenha tentado dissuadi-lo de agir assim. Lembra de como o taurino parecia até estar te escutando enquanto você falava, e depois fez o que tinha decidido fazer de qualquer jeito? Pois é.

Enquanto a gente fala, Touro aproveita o tempo para se entreter com as sensações que o motivam a agir, e que são motivos mais fortes do que quaisquer argumentos. Enquanto a gente argumenta, ele entra em contato com o fato de que certas coisas simplesmente precisam ter andamento, porque as forças primitivas que o movem assim decidiram. O que a gente vê em seu rosto é só a superfície serena de convicções tão profundas quanto a certeza de que a gente precisa comer quando está com fome, e dormir quando está com sono. Touro é uma espécie de energia, de élan vital, de força motriz do universo. No entanto, por mais que isso possa parecer algo de outro mundo, nenhum outro signo é mais dessa Terra.  

Touro é um mistério, portanto, que se manifesta naquilo que é ordinário (o extraordinário é do âmbito de Escorpião, seu oposto complementar). De modo semelhante, os chamados mistérios medievais eram encenações simples e populares em que as imagens mais elevadas do cristianismo ganhavam corpo por intermédio de companhias teatrais de artesãos e camponeses, que as adaptavam de acordo com suas realidades materiais e cotidianas. Aliás, a cena da Natividade, muito comum nessas quermesses, com seus pacíficos boizinhos e bezerros rodeando o milagroso rebento de Maria, é a cena mais prosaica da história de Cristo – e é uma cena muito taurina.

Já os festivais gregos intitulados Misteria eram dedicados a Deméter, uma versão humanizada de Gaia, a mãe Terra, e mais amplamente àquilo que Goethe chamou que “segredo público sagrado”, isto é, a natureza. Pois a natureza é de conhecimento comum e está disponível ao olhar de todos; porém, ela parece guardar um segredo que todos nós sentimos des-conhecer, como se um finíssimo véu a cobrisse, mesmo diante de suas paisagens e criaturas mais vulgares, ou sobretudo diante delas. O culto ao segredo que existe nos ciclos mais previsíveis do mundo natural parece existir desde que existe a humanidade, ou pelo menos desde a taurinidade existe. Touro é a expressão de verdades muito básicas – e ao mesmo tempo seu encobrimento.

Conheço taurinos que reagiriam com certo fastio diante dessas digressões: não complica, a gente é simples mesmo, não estamos escondendo nada. Sim, eu sei: comer, foder, viver. Maravilha. Não disse que não existe simplicidade aí. Mas se, por um lado, o simples se opõe ao complicado, por outro não exclui o maravilhoso. Um pouco como na história do discípulo que perguntou ao mestre qual seria o sentido da vida. O mestre ergueu os braços, um pouco escandalizado com a pergunta, e disse: “Mas eu não estou te escondendo nada!”. O rapaz ficou sem entender, e deixou pra lá. Dias depois, ele e o mestre estavam caminhando no campo. Céu azul, vento fresco, barulho de água. O rapaz comentou como o dia estava bonito e agradável. O mestre: “Viu como não estou te escondendo nada?”

É possível maravilhar-se com as coisas mais imediatas e terrenas. Para todos os efeitos, Buda era taurino, a propósito. O aniversário do príncipe Sidarta Gautama é comemorado no fim de abril. Que ele tenha aquele jeitão satisfeito e rechonchudo talvez não seja uma mera coincidência, afinal. Mas, sério: aquele sorriso, o sorriso do Buda, aquele sorriso satisfeito do Buda, aquele sorriso rechonchudo do Buda, é disso que estou falando no final das contas. Nunca me pareceu coisa de quem evadiu do plano físico para algum tipo de dimensão espiritual impalpável com algum nome exótico em japonês. Não: o Buda ri daquele jeito porque está ali em seu corpo e só ali em seu corpo e em nenhum outro lugar. Parece que acabou de limpar um belíssimo prato de arroz. E no entanto, apesar disso, ou por causa disso mesmo, seu sorriso permanece um enigma.

Isso me faz lembrar a história de um monge que, quando perguntado sobre o que é o Zen, respondeu: “Quando estamos sentados, estamos sentados. Quando estamos em pé, estamos em pé. Quando estamos comendo, estamos comendo”. Percebam: não tem nada de muito complicado para se interpretar nessas frases. Elas não estão aludindo a algum tipo de segredo inacessível para nós. Elas são o que são. E no entanto, não deixam de soar um pouco inesperadas. É mais ou menos como se perguntássemos aos céus qual é a realidade fundamental do cosmos, e um boi ao nosso lado respondesse com um mugido. Seria uma resposta adequada, simples, direta, creio que bastante correta até. E ainda assim nos deixaria um pouco perplexos, e ainda assim ficaríamos desconcertados.

Em resumo, Touro é um mugido. E eu não acredito que escrevi um texto inteiro para chegar a uma conclusão assim, quem sabe até levemente ofensiva. Talvez eu mesmo esteja tentando criar algum tipo de desconcerto, e imitar o tom de benevolente sarcasmo que costumo perceber por trás do sorriso tauríneo, assim como percebo no sorriso do Buda – um sarcasmo tão sutil que me parece vir de profundezas anteriores ao verbo e ao próprio sorriso, e que me causa uma fascinada perplexidade. Não, eu nunca vou conseguir imitar esse sorriso. Mas me contento bastante em ser aquele que o vê aqui do lado de fora. Acho que o sorriso de Touro é uma espécie de segredo público sagrado. Assim como a natureza. E comer, foder, viver. Enfim, todas essas coisas que são comuns até não poder mais – e que, por outro lado, talvez sejam exatamente as coisas que a gente vai encontrar como solução para o enigma da esfinge, após todos nossos esforços para chegar ao centro do labirinto.

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Quatro casamentos e um funeral

[Marc Chagall | As luzes do casamento (1945)]

No dia em que eu defender minha tese no Instituto Hogwarts de Altos Estudos Astrológicos, ela provavelmente vai se chamar Da Natureza do Escorpião: um estudo comparativo do mais capetudo arquétipo do zodíaco. A seguir, algumas anotações também sobre Touro, Câncer e Libra, para o capítulo 7, “A questão do casamento”.

TOURO: A questão do casamento surge em Touro. Mas não é ainda um problema cultural intrincado, talvez nem seja exatamente uma “questão”. A união é assunto de subsistência, tem um vínculo imediato com ritmos naturais de reprodução, e envolve um tipo de sensualidade imediatamente vinculada às necessidades e preferências do corpo. Sexo taurino é sexo simples e gostoso. Taurino é o casamento camponês de Levin e Kitty com que Tolstoi encerra o Anna Karenina. Mas simplicidade não significa escassez. O banquete da casamento como celebração da fertilidade do solo e da abundância dos frutos da terra é um fenômeno que acontece no arquétipo de Touro.

CÂNCER: Em Câncer, o casamento ganha uma dimensão social. Envolve não apenas os noivos como também a família, a aldeia, a comunidade. Marc Chagall era canceriano. Suas pinturas de casamentos têm uma ambientação com elementos piscianos, um clima de sonho, mas não deixam de nunca de evocar as tradições da aldeia eslava ou balcânica. Em Câncer, o casamento acontece não apenas na aldeia, mas é algo que acontece à aldeia como um todo. Nesse sentido, casamentos não são apenas uniões e constituição de novas famílias, mas também separações nos lares de que se despedem os noivos. E esse é um dos motivos pelos quais casamentos são felizes e tristes ao mesmo tempo; seu aspecto sentimental é arquetipicamente canceriano.

LIBRA: Em Libra o casamento é o triunfo da inteligência e da diplomacia humanas na resolução de conflitos. Aquilo que Northrop Frye chamou de “predominância do princípio de sociabilidade” ao tratar das comédias de Shakespeare, que geralmente terminam em casamentos. Assim como os casamentos de Chagall compõe-se de Peixes + Câncer, Sonho de uma noite de verão, a comédia shakespereana mais onírica, é Libra + Peixes. Tão destituída de elementos terrenos que praticamente se desprende do solo, porém ainda dependente de algum grau de estratégia para chegar a um final feliz. Qualquer comédia romântica tem um forte componente libriano, é claro. Ao mesmo tempo, em Libra o casamento é um contrato, que prevê equidade e equilíbrio.

ESCORPIÃO: Em Escorpião o casamento não é uma necessidade, não é uma celebração, não é um contrato: é uma morte. Confunde-se com a união sexual, a “pequena morte” do orgasmo, que o simboliza e sacramenta. Mas não é o sexo reprodutivo ou mesmo o sexo gostoso de Touro: trata-se de uma fusão transformadora radical que se dá por trás dos panos, por meio da liberação de energias represadas por um longo tempo. O bom senso taurino, a comunalidade canceriana e a justiça libriana não dão as caras. O que acontece aqui pode muito bem ser bizarro, isolado e desigual.

Em Libra, a propósito, a união presume certa distância, capaz de resguardar o casamento dos riscos da indistinção entre o eu e o outro. Em Escorpião assume-se esse risco. O casamento libriano requer qualidades que atribuímos à amizade, como a admiração mútua e o respeito; o casamento escorpiônico pode prescindir delas. Um amigo uma vez me disse que “o casamento é a relação mais promíscua que existe”. Dá para entender bem essa frase se pensarmos no casamento em Escorpião, não exatamente por causa do sexo, mas por causa do tipo de fusão (e confusão) emocional da intimidade monogâmica, da permissividade afetiva gerada pelo convívio cotidiano. O fim de todos os limites do respeito e da moralidade podem ser experimentados através do casamento. Naturalmente, o ideal é que não seja assim, ou que os limites da moralidade sejam rompidos entre quatro paredes de formas mais renovadoras e catárticas.

Mas o fato é que atitudes e sentimentos normalmente considerados indesejáveis encontram seu lugar no mundo no arquétipo de Escorpião. Acho que fiquei com vontade de fazer essas anotações depois que outro dia li o seguinte nas reflexões diárias um astrólogo que admiro: “Não se permita o exercício da maldade, a não ser que seja por vingança”. Tive que ler duas vezes antes de pensar: ah, é claro, a lua está em Escorpião. Em Escorpião vingança pode, tem justificativa cósmica e licença poética. Por causa da história da fusão e da confusão. Ódio também é ok, às vezes. Mau humor nem se fala: o mau humor é totalmente permitido quando as coisas estão em Escorpião.

O fascinante nesse signo é como o certo se torna errado e o errado, certo. Quanto a parcerias e casamentos, cada um é de um jeito e todos têm um pouco de todos os tipos. Comida, sexo, comunhão e equilíbrio são sempre importantes. Mas existe sempre algo estranho que foge à nossa visão ordinária de como as coisas são ou devem ser. Esse algo é fundamental.

Todos os signos

Estatísticas

Agradeço a todo mundo que atendeu ao meu apelo para contar o ascendente pelas redes sociais. Agora enfim tenho uma amostra considerável para oferecer minha contribuição ao desenvolvimento da ciência astrológica com o máximo rigor metodológico. Em seguida, apresento alguns dados do DATAGUS acompanhados das respectivas análises qualitativas:

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em ÁRIES foi de 5,8% do total. Porém, sabe-se que a conclusão da amostragem não corresponde à realidade. Tem muita gente com ascendente em Áries que já não está em rede social nenhuma. Saíram fora dessa.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em TOURO foi de 8,33333%. Foi o único signo cujo número correspondeu a exatamente 1/12 do total. O pessoal de ascendente em Touro é objetivo. Quando a gente pergunta o ascendente eles respondem “Touro”, e mantêm-se impassíveis, como que esperando a gente dizer alguma coisa a respeito. Mas nessas horas costumo perceber lá no fundo de seus olhos um desconcertante lampejo de sarcasmo.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em GÊMEOS foi de 8,8% do total. Desses, quase metade respondeu “Gêmeos kkkkkkkkk”. Deve ser divertido ter o ascendente em Gêmeos.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em CÂNCER foi de 7,5% do total. Infelizmente, nenhum deles me convidou para tomar um café e comer um bolinho na casa deles. Tomar café e comer bolinho na casa do ascendente em Câncer é especial. Convida aí, pessoal, que eu aceito.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em LEÃO foi de 12,3% do total. Outro número que com certeza não corresponde à realidade. Ter ascendente em Leão é o máximo. Tem gente que diz só pra aparecer.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em VIRGEM foi de 10,3% do total. É um número alto, mas possivelmente correspondente ao número de indivíduos vivos com este ascendente. Mesmo o pessoal com a Lua em Peixes ou Marte em Gêmeos uma hora resolve fazer tudo certinho e manter uma rotina saudável, se tiver o ascendente em Virgem. O percentual se explica pela longevidade.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em LIBRA de foi 8,6% do total. Uma breve análise das fotos de perfil confirma a fama desse ascendente. Ô gente bonita, meu Deus.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em ESCORPIÃO foi de 4,2% do total. O índice extremamente baixo é fácil de explicar. Um ascendente em Escorpião não vai sair contando isso por aí (eu, por exemplo, não conto). A propósito, 100% dos indivíduos que responderam com “quero ver vc adivinhar” tinham ascendente em Escorpião. Já três indivíduos perguntaram se isso de ter ascendente em Escorpião é grave. Dois deles, anonimamente.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em SAGITÁRIO foi de 8,0% do total. Metade desses já sabia tudo sobre ter ascendente em Sagitário. A outra metade pediu bibliografia.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em CAPRICÓRNIO foi de 6,9% do total. Aqui também acho que há uma distorção. Muitos não responderam a pesquisa porque estavam trabalhando em um projeto. Ascendente em Capricórnio está sempre trabalhando em um projeto.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em AQUÁRIO foi de 9,1% do total. Aqui temos um caso muito singular, mesmo para meu círculo de conhecidos: dois a cada três desses indivíduos são estudantes de humanos. Ops, de humanas. Mas faz sentido. Sempre tenho a sensação de que Aquário é gente de outros planetas que resolveu passar um tempo na Terra por algum motivo. No caso do ascendente agora está claro. Vieram nos pesquisar.

Enfim, o número de indivíduos que declararam ter ascendente em PEIXES foi de 6,4% do total. Aqui acontece algo aparecido com o ascendente em Áries. A diferença é que o ascendente em Peixes não está fora só das redes sociais. Ele está a caminho de estar fora da sociedade mesmo. Faz muito bem.

A propósito, dos 1,7% que responderam “ih não lembro”, presume -se que a maioria tenha ascendente em Peixes.

Por enquanto é isso. Estaremos em contínuo trabalho de processamento e análise das informações. A qualquer momento pode sair um novo relatório. Mais uma vez obrigado.

Todos os signos

Como morrem os signos

O Sétimo Selo, dir. Ingmar Bergman (1957)

Áries morre no calor do combate. Nem chega a ver o rosto da morte. Não sofre por antecipação: o golpe é fatal, súbito e exato.

Touro vê a morte de longe, depois vê a morte chegando, e vai se aproximando dela, até que se encontram. Nada altera seu caminho.

Gêmeos pode até aceitar a morte, só queria ter uma conversa com ela antes: “Isso de morrer, precisa mesmo?”, “esse seu trabalho, é meio pesado né?”, “lá pra onde a gente vai, tem internet?”

Câncer odeia a morte. Queria que ela morresse. Mas ia ficar triste se morresse mesmo.

Leão desafia a morte. Não tem chance de vencê-la, mas faz parecer que tem. Sua morte é uma derrota, mas uma derrota trágica, bela e gloriosa.

A morte de Virgem é um rito. Ela é recebida em um lugar adequado e com os utensílios corretos. Até para morrer existe um jeito certo.

Libra também conversa com a morte, e começa tentando fazê-la mudar de ideia. Depois aceita que a morte é inevitável. Acaba concordando com ela em inúmeros outros assuntos também.

Escorpião morre várias vezes na vida. Tantas que faz amizade com a morte. É com carinho que a recebe na última visita. “Vem cá minha velha”, diz, cheio de intimidades.

Sagitário tem uma teoria a respeito da morte, e vai explicá-la para a morte quando a morte chegar. Vai ser a maior viagem, mas a morte vai achar interessante e vai ouvir até o fim.

Capricórnio respeita a morte, sabe que ela está aí há muito tempo. Morrer é uma coisa que todo mundo faz, não vai ser ele que vai inventar moda do contrário.

Aquário recebe a morte como um convite para entrar em um clube, tipo ingressar em uma associação: “Tô nessa, quero participar também”. Mas Aquário pode sentir exatamente o contrário, a morte como oportunidade de deixar de participar do clube dos vivos: “enfim”, diz, “tire-me daqui”.

Peixes se rende à morte como se rende ao sono, deixa que ela leve peça por peça, entrega os pontos. E, se tem alguém que consegue enganar a morte, esse alguém é Peixes, quando finge que está jogando para vencer, e na verdade não está nem prestando atenção no placar do jogo.

touro

Pobre Touro

Alexander Millar [https://alexandermillar.com]

Dia desses estava pensando em como Touro tem alguma coisa a ver com algumas das mais longas e lentas canções do Bob Dylan, aquelas em que um refrão monótono se repete incansável e interminavelmente, intercalando-se com extensas enumerações de cenas ou alegorias, e, por estranho que possa parecer, isso é das coisas mais lindas deste mundo. “Sad eyed lady of the lowlands” é um ótimo exemplo, e talvez esses olhos tristes tenham alguma relação com o olhar da Vênus, lânguido e distante; “Desolation Row” é outro, e há algo de desoladamente belo no arquétipo taurino também. Porém era “Workingman’s blues #2″ que eu estava ouvindo quando a ligação me ocorreu – então provavelmente não era só a beleza ou a tristeza que estava em jogo nessa relação, era a pobreza também. O curioso é que Touro costuma ser associado à riqueza, à opulência e ao luxo, ou ao menos ao desejo de obtê-los. Mas, quando repasso aqui de cabeça os taurinos que conheço, me restam poucas dúvidas: Touro é sempre meio proletário.

Não se assustem, queridos. Não estou dizendo que vocês estão condenados a uma vida de esforços mal remunerados. A questão é que, no repertório de imagens e narrativas associados ao arquétipo, encontramos mais elementos vinculados à falta do que à abundância de recursos. Ou melhor, encontramos sempre alguma associação entre a carência e a disponibilidade, assim como o Amor, no Banquete de Platão, surge nas palavras de Sócrates como o filho de Poros e Penia, ou seja, da pobreza e do recurso, e portanto “é sempre pobre, e está longe de ser delicado e belo, como a maioria imagina, mas é duro, seco, descalço e sem lar”, porém é também “corajoso, decidido e enérgico” na busca do que é belo e bom.

Corajoso, decidido, enérgico, sim – mas sobretudo obstinado, de um modo inclusive calmo, quase que resignado com a própria obstinação, quando se trata do amor taurino. Se Touro é o operário do zodíaco, ele é antes disso o tecelão, dedicado ao artesanato das coisas belas e boas, que requerem tempo, paciência e infinitas repetições para ficarem prontas. Antes de ser o tecelão, é o camponês, que conhece o tempo da terra, está integrado aos grandes ciclos do cosmos através dos movimentos cíclicos mais imediatos da matéria orgânica, e entende com o próprio corpo o que o universo faz, percebendo com os ciclos do corpo aquilo que o universo é.

Por essas e por outras é que Ceres, a deusa romana da agricultura, tornou-se uma forte candidata à regência do signo. Falei sobre isso aqui. Mas aceitaria de bom grado a regência de Vênus se ela incluir a figura de Hefesto, seu marido, deus da metalurgia, patrono dos ferreiros e carpinteiros, cuja oficina só produzia os mais perfeitos objetos, e que ensinou o artesanato aos humanos. Hefesto nasceu tão feio que sua mãe o lançou das alturas do Olimpo para livrar-se do embaraço daquele filho lamentável; com a queda, além de feio, tornou-se manco. De que modo ele ainda chega a se casar com Afrodite é outra história; o fato é que também nesse par repercute a dinâmica do luxo e da pobreza, ou do excesso e da falta de atrativos, que encontramos em vários aspectos do arquétipo de Touro.

Pobre Touro; parece que aquela rejeição de Hefesto pela mãe está na base de sua experiência arquetípica; além de proletário, acho que todo taurino é meio órfão também. Conheço taurinos que dariam ótimos personagens de Dickens, e mesmo quando dinheiro não é um problema existe algo de abandonado em seu olhar, algo de carente, destituído de beleza inclusive, e por isso mesmo belo, da maneira como é belo o Amor, ao desejar a beleza que não possui. Touro é filho da pobreza e do recurso, conhece a riqueza e a deseja, mas se anseia por ela é exatamente porque não a tem, como explicou Sócrates. Ou, como explicou Karl Marx, um taurino célebre, os operários não têm pátria – mas nada impede que sonhem com aquilo que nunca tiveram, exatamente porque nunca tiveram, e porque nunca virão a ter.

Como se sabe, taurinos são materialistas, mas existe um sentimentalismo que é especificamente taurino, ou pelo menos que alguns taurinos sugerem em seu modo de olhar. Existe um blues por trás desses olhos – repetitivo, por vezes até monótono, porém bonito em sua simplicidade e brandura, decidido em sua paciência e obstinação. Há algo em Touro que me faz imaginar crepúsculos em subúrbios manufatureiros, o fim de uma longa jornada de trabalho digno, a exaustão recompensada com um belo prato de comida. Mas é claro que isso não deixa de ser uma nostalgia utópica e sentimental, que inclui noites em casas rústicas com quintais e galinheiros, de quando havia galos, noites e quintais.

Aliás, e enfim, para quem pegou a citação, vale notar que Belchior foi um cantor definitivamente taurino, nem sei quando ele nasceu mas já não importa, existe uma relação entre Belchior e Touro. Há algo em Touro que lembra aquele rapaz latino-americano, sem dinheiro no bolso, sem parentes importantes e vindo do interior. Há também sempre algo em Touro que diz, de modo realista e pragmático, mas sem perder a ternura jamais: minha alucinação é suportar o dia a dia, e meu delírio é a experiência de coisas reais.

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Taurinos do mundo, uni-vos

Taurinos do mundo, uni-vos! Li que estão querendo devolver a Plutão o título de planeta. Acho justo, mas desde que ele carregue consigo uma nova geração de colegas. Pois o rebaixamento de Plutão em 2006 teve ao menos um bom efeito: a promoção de Ceres, um enorme corpo celeste do cinturão de Kuiper, que na mesma época passou a ter ambições planetárias.

Vocês, como Virgem, também estão há tempos aguardando um planeta para chamar de seu. Ceres pode muito bem ser esse planeta. Vênus, a atual regente, enjeitada para o signo, está sempre muito ocupada com Libra, e no final das contas o negócio de vocês não é cooperação, harmonia e beleza; o negócio de vocês é comida. Não me entendam mal. Vocês só precisam de uma história que conceda dignidade mítica aos aspectos mais caricatos da pessoa taurínea.

O que não falta a Ceres é dignidade. Ela foi a deusa da agricultura, mãe de Perséfone, raptada por Hades (ele mesmo, Plutão). Ao perder a filha, passou a negligenciar o plantio e as colheitas, recusando-se obstinadamente a trabalhar – contra todos os apelos de um mundo faminto e estéril – enquanto não fosse ouvida em seu lamento. Até que Zeus fez um pacto com Hades, de modo que Perséfone passasse seis meses por ano no submundo e outros seis meses sobre a terra. O pacto deu certo, até porque Perséfone acabou gostando de ser a rainha dos infernos durante o outono e o inverno, reemergindo ciclicamente para felicidade da mãe na primavera e no verão.

Notem como estão aí não apenas o tema da comida (a agricultura, as colheitas, os cereais), como também o dos ciclos de escassez e abundância (relacionados não apenas às estações, mas também ao dinheiro, ao salário, aos recursos que entram e saem todo mês). Mas, acima de tudo, estão aí a constância, a teimosia, a justa obstinação – e a capacidade de não arredar o pé enquanto as coisas não forem feitas do seu jeito.

Então, mesmo que Vênus mantenha a regência de Touro, precisamos de Ceres para compreender melhor seu arquétipo, que é inclusive o oposto complementar de Escorpião (o dos infernos, esse mesmo, regido por Plutão). Há um elemento trágico que interage aí com o bom senso e a constância, e cria uma balança peculiar entre esses dois signos. Interesante pensar como Ceres e Plutão chegaram a um acordo, e imaginar que Touro e Escorpião têm algumas negociações a fazer também.

Portanto, taurinos, não aceitem que Ceres fique novamente relegada a segundo plano. Palavra de ordem: todo mundo vai ser planeta ou ninguém vai ser planeta. Eu, se fosse vocês, fazia até greve de fome se necessário.