astros

O Sol e a Sombra

Pinterest

“O Sol é o único objeto natural que não conhece dilema íntimo”. Lembrei dessa definição de C. G. Jung diante do resultado da enquete que fiz aqui sobre quem seria o grande vilão do zodíaco. Nada a ver com o primeiro lugar que Gêmeos conquistou, com folga até, pois esse título era aguardado e não surpreendeu ninguém. A gente sabe que Gêmeos é o signo mais de boa que tem, a gente sabe que é o que menos leva a sério esse tipo de brincadeira. Então, na hora de brincar sobre quem é o maior vilão do zodíaco, a gente vai lá e vota em Gêmeos, nem que seja só para dar aquela zoada básica em quem vai saber zoar de volta.

Tampouco o que me chamou no resultado foram o segundo ou terceiro colocados. Foi o último. Porque lá atrás, com um votinho apenas, destacou-se, por contraste, a lamentável performance leonina. Confesso que esperava mais; até entendo, por exemplo, que Touro tenha sido deixado no fim da fila também; mas o fato de Leão não ter ganhado nem de Touro é algo a se observar. Fiquei até curioso de saber quem foi a alma que remou contra a corrente e encontrou motivos para cravar o voto solitário. No fim das contas, Leão ganhou uma espécie de título também: o de signo menos demonizado do zodíaco.

O engraçado é que conheço gente que tem uma preguiça enorme de Leão e de suas vaidades, caprichos, exuberâncias. Mas acho que até essas pessoas, na hora de escolher um vilão zodiacal, acabaram escolhendo outro signo, porque por algum motivo não tem graça implicar com leoninos. Eles realmente não vão ligar muito, vão no máximo dar aquela olhadela para baixo e notar meio que de passagem nossas diversões bobas e levemente ridículas, mas não o suficiente para merecer um comentário. Em seguida, vão voltar para o que estavam fazendo antes.

Porque Leão é isso: esse envolvimento autossuficiente naquilo que se está fazendo, esse prazer desinteressado naquilo que se está criando. Por isso, o jogo, a arte e a brincadeira se alojam no arquétipo leonino. É verdade que, como disse antes, a brincadeira tem uma dimensão geminiana também, mas nesse caso estamos falando mais propriamente dos jogos e truques com a linguagem que fazem a gente suspeitar que existe algo de irremediavelmente encapetado em Gêmeos. Já em Leão, reina a inocência dos divertimentos infantis.

É essa inocência que no trecho de Jung aparece como um “desconhecimento de dilemas íntimos”, onde a “discrepância que se apoderou da alma humana pode se desfazer harmoniosamente”. Porque o Sol é o regente de Leão. Jung, a propósito, era leonino também. Curiosamente, o conceito de sombra é fundamental em sua obra: um aspecto desconhecido ou oculto da personalidade, rejeitado pelo ego por não se adequar a expectativas e valores sociais, e passível de um trabalho que o incorpore à consciência através da psicoterapia.

Acontece que o Sol não tem sombra, literalmente falando. Pois como poderia ter uma sombra, o Sol? Algo semelhante acontece no arquétipo de Leão: é feito de pura luz, e se compraz em queimar suas energias infindáveis, ao mesmo tempo generoso e indiferente aos seres que estão em volta. Agora, antes que se dê a entender que estou livrando a cara dos leoninos de quaisquer acusações de vilania, duas ressalvas. A primeira, mais óbvia, é que justamente por ser assim, Leão pode se tornar particularmente cego para as próprias falhas.

Pois, sim, o Sol desconhece dilemas e harmoniza discrepâncias – mas só mesmo ele, o Sol, faz isso. Nós somos apenas humanos recorrendo a alguns símbolos para tentar entender melhor o que somos e o que nos acontece. Aquele entre nós que realmente se acreditar em posse de atributos solares será como o Rei que já não escuta senão elogios para si próprio. A propósito, a figura do Rei se encontra no arquétipo de Leão, não apenas em seus aspectos luminosos, mas nos sombrios também.

A outra ressalva é a de que, de certo modo, o Sol recebeu todos os votos da enquete. Porque aquilo que reconhecemos como nosso signo ou o signo de nossos amigos e conhecidos é na verdade o signo solar de cada um de nós. Vejam só que maravilha essa virada de jogo: o regente leonino passa assim em um só golpe da última para uma primeira e invencível colocação. Porém, se o que a gente entende como o signo das pessoas é o fogo que elas queimam, de maneira alguma isso serve como síntese das qualidades que estão em jogo em um mapa astrológico natal.

O Sol, decerto, é parte importante dessa brincadeira, e sobretudo uma parte evidente, que se expõe ao escrutínio público, e por isso se torna a maneira como identificamos vilões e heróis no zodíaco. Nesse sentido, não surpreende que as pessoas tenham o hábito de tatuar na pele símbolos de seus signos solares. Nosso Sol é algo de que a gente se orgulha, e não precisa nem ser um Sol em Leão. Pode ser um Solzinho em Virgem, mais humilde mesmo. Mesmo os geminianos, por mais que possam participar de nossos rituais de avacalhação de seu signo, no final das contas acham o máximo ser de Gêmeos.

Aproveitando, uma vez escrevi aqui um texto sobre o ascendente e prometi que depois explicaria como entendo que se dá a relação entre o signo ascendente e a aparência física das pessoas. Essa é uma boa oportunidade. O símbolo do ascendente não é algo que a gente tatua na pele porque o ascendente é a própria pele. Melhor dizendo: é nossa aparência, da maneira como a produzimos e expomos sem maiores cálculos e ponderações, do mesmo modo como a gente realiza outras atividades corporais de maneira impensada, como bater o coração e correr o sangue pelas veias.

Sim, isso são coisas que a gente faz, embora não sejam coisas que a gente decide fazer. Passarinho não decide voar porque acaba de nascer: de repente ele vai lá e voa. Por isso o ascendente é uma energia que vibra em nós de maneira positiva, espontânea, natural, como uma árvore produzindo seus frutos, porque produzir seus frutos é algo que a árvore faz. É a maneira como lhe coube participar dessa imensa dança que é o universo, sem que em momento algum ela tenha que ter deliberado a respeito.

No caso de nós humanos, as coisas são mais complicadas, é claro. No entanto, vez ou outra elas são simples assim. Quando isso acontece, presenciamos os arquétipos zodiacais agindo com inteireza: não sem dilemas íntimos, mas os aceitando com menos dificuldade, e não sem manifestar sua sombra, mas ficando à vontade com ela. Isso acontece através do ascendente, e se ele se torna mais identificável em nosso comportamento em algum momento da vida, isso é um bom sinal, de que estamos nos preocupando menos com o escrutínio público e as expectativas sociais – e por isso mesmo, às vezes, recebendo um retorno muito mais positivo do ambiente imediato.

Mas no geral o que fazemos é tentar articular as energias mais contraditórias, tal como se apresentam nos signos solares, lunares e em todos os demais planetas do horóscopo. O zodíaco, portanto, não tem um grande vilão, e todos nós de uma maneira ou de outra mobilizamos todos os arquétipos em uma combinação única e irrepetível de suas cumplicidades e conflitos. “As forças psíquicas não têm uma direção única e muitas vezes se dirigem umas contra as outras”, escreveu também Jung em outra formulação que cabe bem aqui.

Então: algumas colisões são simples, e podem se reduzir aos humores variáveis de um dia. Outras são mais complicadas e podem levar uma vida que chegar a bom termo, como por exemplo a das forças psíquicas que chamamos de Sol, Lua, Vênus, Marte, Saturno, Ascendente, etc., tal como aparecem em nosso mapa natal. Pois tudo isso compõe essa magnífica mandala que todo mundo carrega consigo, com as linhas rajadas que nela se entrecruzam tecendo em nós uma complexa rede de relações que aos poucos a gente vai entendendo melhor – desde o começo de tudo. E também, é claro, desde o nosso nascimento.

leão

Dies Solis

Foto: Kedar Misani

Hoje é domingo, ‘dies solis’, dia do Sol, regente leonino. Domingo pode ser o mais excitante e o mais previsível de todos os dias. De forma semelhante, acho que o Sol é ao mesmo tempo o mais especial e o mais ordinário dos astros. Especial por sua posição de centralidade, sua visibilidade evidente, sua plena soberba diante dos corpos celestes ao redor. Ordinário porque é feito basicamente de luz, e luz é algo que existe por todos os cantos, é aquilo que produz todas as coisas. Afinal, como disse Goethe, como nosso olho reconheceria o Sol se ele mesmo não fosse solar?

O Sol, então, não é exatamente uma ‘coisa’, um objeto separado dos demais; é uma concentração de energia, do ‘ânimo’ que existe em todo o resto. E ânimo é uma palavra leonina, junto com prazer, paixão, brilho. Em Leão está a possibilidade de que tudo o que a gente faz seja feito com gosto, com deleite: pode ser jogo, pode ser trabalho, pode ser luta, pode ser preguiça. Leão é ao mesmo tempo mais e menos que um arquétipo; mais porque seus limites são indefiníveis como os do Sol, e menos pelo mesmo motivo, uma vez que isso faz dele um princípio animador presente em tudo e em todos.

Curiosamente, é mesmo difícil identificar mitos e narrativas que correspondam ao signo. Nada parece dar conta, e tudo vai um pouco além, como se qualquer história implicasse uma restrição ou uma ampliação indesejada. Há a imagem do Rei, assim como a do próprio Leão, mas elas podem muito bem permanecer intocadas em sua pureza por quaisquer outras especificações e detalhes. São o que são, se bastam, assim como o Apolo grego ficou conhecido não por suas complexidades, mas pela síntese de vitalidade e beleza que era capaz de oferecer num só olhar.

Há complexidades na alma leonina, é claro; seu orgulho não passa ileso por este mundo; o Rei às vezes reage a desatenções e contrariedades de um jeito meio exagerado; sua generosidade pode ser também acima do comum. Mas a alma – ‘anima’ – de todos nós contém esse elemento solar de um jeito ou de outro. O que chamamos de nosso ‘signo’, a propósito, é o nosso signo solar: a maneira como o Sol se manifesta em nós, de um jeito mais ostensivo e evidente, mais generoso mesmo, que os outros astros, e portanto de um jeito mais claramente identificável.

Assim, da mesma forma como a alma leonina contém outros astros – e sombras – misturados à sua luz, cada um de nós tem em si uma fonte especial de ânimo para realizar as mais distintas atividades: jogo, trabalho, luta, preguiça. O Sol em Capricórnio, por exemplo, é o Sol aparecendo em forma de cabra. O Sol em Áries é o Sol em forma de Carneiro. O Sol existe na casca no Escorpião, na pele do Sagitário, nos pratos da balança, nadando como um peixe. Em cada um desses disfarces ele encontra prazer, em cada uma dessas formas ele se exibe com gosto.

Porque pode ser trabalho, pode ser preguiça, pode ser luta, mas jogo sempre é. Lembrando que Leão é também o lugar da performance cênica. O Sol então brinca de ser cada uma dessas coisas, se diverte assumindo cada uma dessas personalidades, e, quando espera o aplauso no final, é porque o aplauso renova o ânimo, lava a alma, recompõe o combustível que queimou. Prazer, paixão, gosto: tudo isso gasta energia. Não é pedir demais que a gente devolva um pouco de energia ao Sol.

E, no final das contas, é tudo uma coisa só – aquele que aplaude e aquele que é aplaudido. Se o olhar humano foi uma maneira que o universo encontrou de contemplar a si mesmo, foi também uma maneira que encontrou de admirar a si mesmo. E, portanto, ele deve se considerar admirável, mas isso é só consequência da delícia que ele já sentia antes ao brincar e dançar sozinho, sem ninguém vendo, por puro deleite com as próprias habilidades.

Lembro de um professor de filosofia dizendo uma vez que a grande questão é porque existe algo, ao invés de nada. A resposta leonina para esta questão é: as coisas existem porque gostam de existir. O Ser sente prazer em Ser. O resto é silêncio. Ou melhor, é a música que toca em cada um de nós para que sejamos assim também.