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O retorno de Tchekhov

“Se quiser a minha vida, venha e leve-a”. Esta é a frase que Nina faz chegar a Trigórin no terceiro ato de A Gaivota. Trata-se de uma peça do escritor russo Anton Tchekhov, que teve uma importante reestreia em 17 de dezembro de 1898, após uma primeira temporada de pouco êxito em São Petersburgo; de modo que o autor, então morador de uma área rural, ficou feliz em fazer uma viagem curta para ter a oportunidade de assisti-la em sua versão moscovita e mais bem-sucedida. A passagem de Anton pela cidade, no entanto, foi marcada por um outro evento menos comentado dos registros da história literária. No mesmo dia em que assistiu a peça, ele se encontrou, em uma estação de trem, pela última vez, com Lydia Avilova. Anos antes, ela lhe enviara uma mensagem de conteúdo idêntico e por meio parecido ao utilizado por Nina no espetáculo. Agora, eles despediam-se um do outro em uma plataforma enevoada e gélida, enquanto ele via se afastar para sempre aquela que havia sido o grande amor da sua vida.

A cena traz toda a melancolia que podemos esperar do encerramento de uma relação intensa e intermitente, feita de momentos apaixonados e longos intervalos de distanciamento. Segundo o biógrafo David Magarshack, Tchekhov chegou ainda a cogitar que aquela história tivesse um final semelhante ao de “Sobre o amor” (um dos tantos contos que escreveu inspirado, ao menos em parte, por sua relação com Avilova), no qual há um beijo no desfecho. Mas Lydia permanecia casada, e além disso estava acompanhada de dois de seus três filhos na estação de trem. Ela sabia bem que o tempo deles tinha passado, que suas chances de ficarem juntos – se é que existiram – tinham sido desperdiçadas, quando ela se arriscou-se ao enviar para ele aquela mensagem, por exemplo, e ficou aguardando uma resposta que não veio. Ou seja: um beijo, àquela altura, seria um motivo de embaraço e desgosto, talvez até mesmo um gesto de desespero.

Ainda assim, é um pouco triste imaginá-los renunciando definitivamente às possibilidades que uma sentiram existir para ambos. Tchekhov e Avilova haviam se conhecido dez anos antes, na casa de um irmão do marido dela. Ela faria o seguinte relato sobre essa ocasião, no livro Tchekhov em Minha Vida (ela viria a ser também uma escritora conhecida no âmbito russo): “Como é difícil às vezes explicar ou mesmo perceber o significado de um acontecimento… Na verdade, nada aconteceu. Nós simplesmente olhamos um nos olhos do outro. E, ao mesmo tempo, quantas coisas havia naquele olhar que trocamos! Eu senti como se algo estivesse explodindo dentro de mim, como se um foguete tivesse sido lançado naquele momento, triunfante e cheio de energia. Tenho certeza de que Tchekhov sentia o mesmo, e nós olhamos um para o outro, surpresos e felizes”.

Sim, de fato: como é difícil explicar ou mesmo perceber o significado de um acontecimento. E quantas coisas pode haver em um só olhar. No caso dos dois, quando a gente acompanha os movimentos seguintes, a impressão é de que naquele instante – naquele foguete – em que “nada aconteceu”, já estavam implícitos os dez anos seguintes, em que eles não teriam um segundo de sossego na vida, porque se amavam, porque queriam estar juntos, porque precisavam ficar juntos, e quando, no entanto, não podiam ficar juntos, porque não havia como, não havia onde, não havia com que desculpa, não havia com que dinheiro; só havia o porquê.

É mesmo impossível não pensar nos finais alternativos que essa história poderia ter tido. A obra de Tchekhov, como comentei, está cheia deles. O próprio “A Dama do Cachorrinho”, um dos mais belos e conhecidos contos de todos os tempos, oferece algo nesse sentido, quando os protagonistas, ambos casados com outras pessoas, e ambos apaixonados um pelo outro, após muitos desencontros e hesitações, se veem afinal recusando qualquer outro caminho que não fosse sua parceria, mas ao mesmo tempo não conseguem se desvencilhar das amarras matrimoniais e sociais que lhe estão impostas (pelos costumes, pela moral, pela igreja, pelas circunstâncias financeiras).

“Tornava-se evidente para ambos que o fim ainda estava distante e que o mais difícil e complexo apenas se iniciava”, assim termina o conto. Anton e Lydia provavelmente sentiram isso em algum momento de seu relacionamento, essa solidariedade imiscuída na paixão (“amavam-se como gente próxima e querida, como dois termos amigos, como marido e mulher”, diz ainda o narrador do conto), porém, no mais das vezes, se desentenderam e desencontraram. Quando ela estava disposta a romper seu casamento e arriscar tudo com ele, ele normalmente dava para trás. Quando era ele que a procurava, ela não sentia confiança suficiente, ou já tinha se desiludido demais para deixar-se levar pelo entusiasmo.

As coisas para ele eram mais simples, certamente. Não era ele quem tinha toda uma vida pela frente para ser visto como a mulher divorciada e que largou o pai de seus filhos para viver uma aventura com um escritor. Em se tratando de adultério, aliás, cabe lembrar que havia então na Rússia uma elevadíssima autoridade literária, intelectual e religiosa, que já havia proferido uma sentença bastante clara a respeito de mulheres inconstantes que viviam casos extraconjugais. Estou me referindo a Leon Tolstói, estou me referindo a Anna Karenina. Não vou dar spoiler, mas vai lá ler o livro para ver como é que a história acaba.

O detalhe interessante, aí, é que não apenas Lydia estava condicionada em suas decisões e hesitações por esse tipo de ambiente, em que a figura de Tolstói sobressaía em toda sua magnitude e imponência. A psique de Tchekhov, em certo sentido, era inclusive mais vulnerável às suas pregações, pois, quando conheceu Lydia, ele próprio era um seguidor do tolstoísmo. Sim, isso existia na época: uma doutrina que defendia a retomada de valores camponeses e de uma vida comunitária simples, em contraste com a decadência dos sentimentos citadinos e suas sofisticadas tramas amorosas. No caso de Tchekhov, a pregação acontecia inclusive no âmbito doméstico, onde sua posição de arrimo de família, no convívio com irmãos alcóolatras e um pai cronicamente desempregado, lhe dava o crédito moral de que precisava para lançar os mais rígidos julgamentos no mundo ao redor.

Justiça seja feita, contudo: Tolstói era um escritor tão incrível que conseguia intercalar em suas imensas parábolas alguns dos mais perfeitos parágrafos da literatura, e as construía como quem ergue o que hoje são para nós algumas esplêndidas catedrais góticas (já não importa para que elas foram erguidas, o importante é que foram, e agora podem ser admiradas). Apenas com o tempo ele se restringiu ao papel do profeta e do patriarca que recebia os discípulos em sua célebre fazenda. Mas foi já quando as coisas estavam avançando nesse sentido que Tchekhov entrou em contato com suas ideias, de modo que, quando estava com vinte e poucos anos, passou por uma espécie de conversão religiosa, cujos traços são bastante perceptíveis em sua obra de juventude.

A obra precoce de Tchekhov, aquela que ele escreveu até os 30 anos, tem, portanto, duas facetas principais. A primeira são os contos brevíssimos e de natureza humorística que ele escrevia para ganhar dinheiro em publicações semanais, e que lhe rendiam o suficiente não apenas para seu sustento, mas também para o da família, acrescidos aos ganhos com a carreira médica. Na segunda categoria, estão as narrativas pedagógicas com que ele ilustrava o pensamento de seu mestre ilustre, Leon Tolstói, tal como em “O sapateiro e força maligna”, publicado em 1888, ou seja, quando ele estava com 28 anos.

Esse é o contexto que precisamos ter em mente para tentar entender a primeira reação de Anton ao encontro com Lydia. Permitir-se aquela paixão significaria para ele perder não somente o controle de si, mas também abandonar um terreno duramente conquistado durante os anos anteriores, tanto no que se refere à conduta ética que costumava ostentar, tanto no que trata da trajetória profissional e intelectual que vinha seguindo. Não que esse caminho e essa conduta estivessem lhe proporcionando muitas alegrias; muito pelo contrário, ele reclamava bastante de tudo o que sentia estar em desacordo com seus ideais. Mas era um lugar que ele já conhecia, que havia construído para si com esforço, e onde ele podia se sentir um adulto sério em com um propósito definido na vida.

Voltando então à ocasião do primeiro encontro. De imediato, tomado por sensações que não se encaixavam bem no papel de um tolstoísta digno e respeitável (a atração por uma mulher casada), ele recusou os próprios sentimentos. Porém, entrou em um período de enorme inquietude. Por um lado, não conseguia simplesmente fazer a vida voltar a um estado anterior; por outro, não conseguia dar nenhum passo adiante. Foi uma crise de proporções inéditas em sua personalidade e valores, até porque havia fracassado na escrita de um romance, gênero no qual ele precisaria ter sucesso para que suas conquistas literárias correspondessem à estatura ética que almejava. “Tudo o que escrevi até agora é apenas lixo em comparação com o que gostaria de ter escrito”, ele afirmou a seu editor em 1888. Bom, ele estava chegando aos trinta anos nessa época. Quem conhece Saturno e seus retornos sabe bem do que ele está falando.

No entanto, em meio à turbulência, ele acabou, sim, tomando uma decisão. Não exatamente uma decisão apaixonada, e é aqui que eu queria chegar, desde o começo: ele optou por renovar seu compromisso com ideais de transformação social, ao fazer uma viagem de longo prazo a Sacalina, uma ilha na Sibéria usada para o exílio de condenados pela justiça russa. O pretexto era de estudar as condições de vida na ilha (o livro resultante da viagem saiu no Brasil pela Todavia, recentemente). E, se é verdade que o gesto estava de acordo com a atitude científica e reformadora que Tchekhov vinha adotando diante das mazelas sociais da Rússia, parece-me que estava de acordo até demais. Não dá para descartar um componente saturnino enviesado, de sacrifício e repressão de qualquer possibilidade de alegria. Sacalina e Lydia eram os polos opostos de um eixo em que de um lado estava o moralismo de Tolstói, e de outro estava seu desejo e seu afeto individual. Tchekhov dobrou a aposta no primeiro.

Sei que tem gente aí agora perguntando: ok, Gustavo, até agora tudo certo, mas e o signo? E o signo, Gustavo? Primeiramente, vale ressaltar que estamos falando de um aquariano, o que, por questões técnicas, costuma ser motivo de disputa. Sim, Tchekhov nasceu no dia 16 de janeiro de 1860, e sim, é fácil relacionar seu realismo eventualmente resignado ao arquétipo de Capricórnio. Porém, singularidades do calendário russo no século XIX fizeram com que ele estivesse, por assim dizer, doze dias atrás do nosso, de modo que Tchekhov teria nascido quando o Sol estava em Aquário: os doodles do Google estão aí sempre no dia 29 de janeiro para não me deixar mentir.

Mas queria dar ênfase a outro ponto, no que se refere ao zodíaco. Pois, até aqui, estivemos o tempo todo tratando de uma fase da vida do escritor russo em que podemos reconhecer semelhanças com uma fase de nossas vidas quando, depois de 28 ou 29 primaveras, o inverno de uma experiência de autoquestionamento, bastante incisiva, costuma pedir ajustes e revisões em nosso comportamento. Nesse caso, o signo de Saturno no mapa de Tchekhov assume grande importância, assim como acontece com o signo de Saturno nos nossos mapas, uma vez que a Saturno (incluindo o signo e a casa onde está situado) relacionamos esse tipo de crise e seu desenlace. Pois bem: Tchekhov tinha Saturno em Leão.

Leão é o signo oposto complementar de Aquário. Nessa balança, se de um lado estão o impulso reformador, um comportamento mais cerebral e científico, e uma grande capacidade dedicação à coletividade e ao mesmo à humanidade como um todo, do outro estão o prazer com a vida, um espírito criativo e artístico, e a busca da autossatisfação, que se reverte em uma generosa capacidade de satisfazer. Ou seja: onde Aquário é trabalho, Leão é brinquedo, e onde Leão é desejo, Aquário é propósito. Nós todos temos ambos os signos em nossos mapas pessoais; a questão é onde, e como.

Então, podemos presumir que o aspecto leonino da personalidade de Tchekhov estava atravessado pela presença de Saturno na região de sua psique mais diretamente vinculada a atender suas vontades individuais. Funciona assim: onde nosso senhor dos anéis se situa, haverá normalmente uma espécie de atrofia das qualidades daquele arquétipo, que vai durar pelo menos até por volta dos 30 anos, quando a execução de um ciclo saturnino completo na vida do indivíduo torna possível (ou demanda) que essas qualidades sejam despertadas. Existe uma alternativa a esse padrão, que é o exagero ostensivo e forçado dos comportamentos associados ao signo de Saturno (o Saturno em Libra com uma vida amorosa agitada e vazia, o Saturno em Capricórnio com conquistas profissionais precoces até demais, por exemplo). No entanto, o mais comum é as coisas se passarem como se passaram com Tchekhov: as qualidades e comportamentos do signo oposto ganham destaque na primeira parte da vida, e o retorno de Saturno se torna um intenso puxão do outro lado da balança, chamando a pessoa a viver algo que ela negligenciou ou negou antes.

Nesse sentido, a posição do Saturno tchekhoviano é particularmente incômoda. Pois se, por um lado, Saturno se sente em casa em Aquário, signo do que é o regente tradicional (e onde se encontra no momento), por outro lado, sua força restritiva será mais desconfortável no signo de Leão. E, no entanto, será aceita, com a desculpa ou a justificativa de que o prazer e a alegria são sentimentos egoístas, que não correspondem às necessidades mais imediatas da sociedade, ou argumento parecido. Saturno em Leão (ou Saturno na casa 5) pode muito bem abrir mão de viver a própria vida amorosa em favor de algum ideal, de algum projeto, de algum bem maior coletivo, e pode também repetir esse gesto quando sentir uma íntima ameaça a essa persona trabalhosamente criada. Ou seja: ele pode até mesmo fazer uma viagem a uma ilha na Sibéria, se for para negar a si mesmo o que mais profundamente deseja e precisa.  

NO entanto, isso não quer dizer que Saturno seja mais fácil de lidar quando está em outra posição no mapa. Saturno é sempre Saturno. Reparem, por exemplo, em como o caso de Anton Tchekhov se parece com o de Franz Kafka, que, no momento exato da completude de um ciclo de Saturno em sua vida, encontrava-se massacrado por obrigações prosaicas e tarefas rotineiras de seu emprego burocrático. Mais de uma vez, expressou seu fastio com essa condição, que o impedia de escrever (Saturno em Gêmeos); mas, na hora de fazer uma mudança, escolheu acumular obrigações ainda mais fastidiosas ao seu cotidiano, tornando-se sócio de uma fábrica de amianto, dobrando a aposta nos flagelos que o oprimiam, e, por consequência, se vendo ainda mais enredado em tudo em que o impedia de avançar na vida (o que, no caso de Kafka, se confundia com fazer literatura).

Nada com que a gente não consiga se identificar, em pelo menos uma área da vida, em pelo menos uma época da existência: esse apego insistente no sofrimento, essa estranha luxúria da infelicidade. Todos temos Saturno no mapa, e com ele essa capacidade de tomar decisões que reforçam padrões de conduta, mesmo quando sua rigidez se torna um risco iminente ao próprio fluxo vital que nos alimenta.  Como disse o Felipe Charbel em uma resenha recente sobre os diários de Kafka, todo mundo tem sua versão da fábrica de amianto, “uma situação de desconforto que era melhor ter evitado, mas na qual nos envolvemos como resultado de uma escolha absurda, a pior decisão possível em um momento crucial da vida”. Acrescento: todos nós temos uma viagem a Sacalina.

Mas talvez a gente precise mesmo dobrar a aposta em algo que não faz mais sentido para descobrir o que faz. Talvez a gente só se disponha a realmente romper as amarras quando elas ficam apertadas no nível do irrespirável. Talvez o sapo proverbial, que se deixa morrer na água fervida lentamente, só consiga encontrar as forças necessárias para se libertar da fervura se for colocado numa panela de pressão. É justamente isso que o retorno de Saturno é: uma panela de pressão, na qual a fervura já não pode ser ignorada, e cujo chiado permanecerá em nossa cabeça enquanto não encontrarmos uma verdadeira saída para nossos dilemas, ao invés de simplesmente aumentar o fogo, como se isso fosse resolver alguma coisa (no caso do sapo astrológico, posso adiantar que ele encontra força e inteligência para isso em Urano; escrevi sobre isso em mais detalhes aqui).

Em outras palavras. Talvez a fábrica de amianto tenha sido indispensável para que, pouco tempo depois de se meter nessa enrascada (que lhe tomava ainda mais tempo e energia), Kafka virasse uma noite escrevendo O Veredito, que viria a ser conhecido o primeiro texto importante de sua obra. A propósito, esse é um ponto importante em que a astrologia e a psicologia de C. G. Jung (com sua atenção a narrativas e processos arquetípicos) se encontram: em ambos os casos, as coisas acontecem “em direção a”, com uma finalidade, que pode ser deduzida da natureza dos arquétipos e astros em questão, mesmo quando tratamos de movimentos aparentemente contrários ao desenlace da história. No final das contas, percebemos que eles fazem parte essencial da narrativa, que cumpriram um papel importante nela.

Nessa perspectiva, Kafka não seria Kafka sem sua fábrica de amianto, Tchekhov não seria Tchekhov sem a viagem a Sacalina. Em seu caso, o absurdo da escolha e o desconforto da situação foram bem descritas em suas reações à realidade da ilha siberiana – de cheiros desagradáveis e oficiais corruptos, de barracos insalubres e crianças maltrapilhas, onde as eventuais festividades eram tristes e até mesmo as cartas de amor eram “repulsivas”. É verdade que, com o relato onde estão estes registros, a viagem cumpriu o objetivo de revelar uma realidade ignorada em Moscou e São Petersburgo, e assim a dimensão mais aquariana e política do gesto não foi totalmente desperdiçada, por mais que o mero desgosto domine algumas passagens do livro. É também verdade que essa era apenas a intenção mais visível do ato, sendo que próprio Tchekhov o atribuiu à relação nascente com Lydia, em uma carta a Helen Lintrayov: “Eu simplesmente tinha que fugir a todo custo. Fugi de sensações muito fortes como um covarde foge do campo de batalha”.

No próprio relato da viagem, por outro lado, surge já uma nova faceta do escritor. Há trechos em que Tchekhov abandona o olhar moralista e científico, ou meramente desaprovador, em favor de uma visão mais compadecida e compreensiva da condição humana, a partir do que viu na ilha. Nesse ponto, ele percebe como seria despropositada seria a ideia de converter os condenados de Sacalina a uma doutrina absolutamente distante de seu cotidiano. Nesse momento, ele, através de suas palavras, concede aos seus ‘personagens’ um pouco do calor humano que lhes era negado tanto por seus carrascos quanto por seus supostos redentores, e abandona o posto do missionário que levava a palavra de Tolstói para as criaturas perdidas naquele rincão nos escanteios do mundo, começando então a falar com a voz de Anton Tchekhov, na qual sobressaía uma visão mais empática, que não deixa de ser uma expressão de Aquário, porém mais amadurecida e calejada pelas maldades deste mundo.

De modo que, em retrospectiva, a viagem a Sacalina veio a ocupar um lugar importante na trajetória pessoal de Tchekhov, embora no sentido contrário ao de suas motivações iniciais. Um forte indício disso é o fato de que, logo após o retorno da ilha, seu primeiro movimento foi ir atrás de Lydia em São Petersburgo, declarando-se então pela primeira vez para ela, que já havia demonstrado antes disposição para renunciar a tudo para ficar com ele. Mas a essa altura era ela que já não sentia ter forças para tanto, e começaram aí os muitos anos de desencontros e hesitações, incluindo uma ocasião na qual conseguiram ficar juntos e sozinhos, mas foram surpreendidos pela visita inesperada de dois amigos, bem como o episódio em que, tomada por uma onda de paixão em confiança, Lydia enviou a Tchekhov um exemplar dos Contos Reunidos dele, com um bilhete: “Página 267, linhas 6 e 7”. A referência era a um trecho onde se lia: “Se quiser a minha vida, venha e leve-a”.

Porém, quando essa mensagem o alcançou, Tchekhov estava já acometido por uma enfermidade que, a longo prazo, viria a ser fatal, e não podia ir buscar a vida que ela lhe oferecera. Mas a transformou em ótima literatura. É importante então notar que nenhum dos tristes desdobramentos dessa história elimina a importância criativa e vital da mudança ocorrida em 1890, quando Tchekhov retorna da viagem. Podem reparar: a partir daí, as parábolas moralizantes passam a ser substituídas por narrativas em que a percepção da fragilidade da condição humana ocupa um papel central, em momento algum ultrapassado pelo julgamento sumário. As infinitas e ao mesmo tampo tão precisas nuances entre o trágico e o cômico de que talvez ele foi capaz surgiram aí. O Tchekhov que a gente mais conhece e mais estima como escritor aparece nesse momento, após o encontro com Lydia, após a viagem a Sacalina, após o retorno de Saturno.

Ou, como afirma David Magarschack, para encerrar: “A viagem em si mesma, que desconcerta seus biógrafos como desconcertou sua família e amigos, permanece um completo mistério a não ser que, como observa um recente estudioso russo, ela tenha se dado ‘por uma profunda razão pessoal’. E esta razão apenas poderia ser seu amor por uma mulher jovem e casada, que ele escondeu de todos como sempre escondia seus sentimentos íntimos do resto do mundo; pois, durante a fase tolstoiniana de sua vida, Tchekhov apenas poderia encarar uma situação como aquela com desgosto e repulsa. Como seu amor por Lydia era muito forte para ser controlado, ele resolveu fazer uma longa e árdua viagem para curá-lo. Mas o grande paradoxo é que a viagem a Sacalina produziu o efeito oposto: ela não o curou de seu amor – ela o curou de suas obsessões tolstoinianas”.

Ou, traduzindo para termos zodiacais: ela não matou o Leão que ele descobriu existir dentro de si, e sim deu a ele o alimento que vinha sendo negado. O covarde que fugiu do campo de batalha voltou cavalgando a fera selvagem da paixão que o afugentara. Nascia assim o autor de algumas das mais belas – e tristes, e difíceis – histórias de amor que conhecemos. O Saturno de Tchekhov nunca deixou de estar lá, em Leão, e haveria sempre uma espécie de sombra (realista, resignada) em sua visão do destino dos apaixonados. Porém, para que as histórias de amor simplesmente comecem, é preciso uma boa dose de otimismo e entusiasmo leonino na história. Acho que foi isso que Tchekhov sentiu ao voltar da ilha e procurar Lydia naquele ano. Por um momento ele foi puro gosto pela aventura amorosa, desejo de conquista, afirmação da vida, brilho no olhar. Se terminasse aqui (e por que não terminá-la?) essa história teria sem dúvida um final feliz. Ou, pelo menos, um final aberto, no qual pudéssemos intuir uma chance de felicidade.

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A época das transformações

“Tenho 36”. A fala encerra Frankie and Johnny, uma peça de Terrence McNally adaptada para o cinema em uma produção de 1991 com Michelle Pfeiffer e Al Pacino. O número faz referência à idade da personagem de Pfeiffer, e preciso de umas pinceladas de contexto para justificar a citação. O dia está nascendo lá fora; eles estão no apartamento dela, onde passaram a noite discutindo e brigando; junto com o nascer do sol surge um momento de conciliação, que aparece por si mesmo, seguindo os ritmos da vida e dos relacionamentos em seus turbulentos inícios. Trata-se de uma comédia romântica, afinal. Clair de Lune, de Debussy, está tocando no rádio. Ela pergunta, “pro que der e vier?”, e ele responde, “pro que der e vier”. Ela: “Tenho 36”.

Dá para imaginar que é um momento feliz no filme. Porém, seria mais adequado caracterizá-lo como um momento de paz e tranquilidade, seguindo a sugestão da trilha sonora. Há também um toque agridoce de melancolia, que está tanto na música como na paleta de cores do amanhecer, e não retira do instante seu frescor, porém lhe confere indícios de maturidade. Ela tem trinta e seis anos, portanto: já não é exatamente uma garota, viveu perdas e desilusões. Sabe como os sonhos de sua juventude estavam em desacordo com a realidade, e provavelmente decidiu viver a realidade mesmo assim, mas tem horas que dá vontade de desistir de tudo: dos sonhos, da vida, da realidade. É isso que ela quase faz quando percebe algumas condições da história de amor que está começando. Quase.

Astrologicamente, estamos falando de alguém que, mesmo em meio ao entusiasmo do começo de uma paixão, acabou de viver um desafio saturnino. Acontece com todo mundo: após a crise que chega pouco antes dos trinta, Saturno dá as caras mais uma vez cerca de sete anos depois, em uma quadratura que põe à prova o que foi conquistado antes em termos de compreensão de si e do mundo. Desse ponto de vista, há de fato um potencial recomeço, ou pelo menos a chance de uma renovação dos votos de confiança que a vida e o real às vezes exigem nessa época, seja em nossas experiências afetivas, seja em nossas experiências familiares, seja em nossas trajetórias profissionais. O filme trata um pouco disso.

No entanto, queria falar hoje sobre o que vem a seguir. Queria falar sobre o que acontece depois do fim desse filme. Pois, sendo uma comédia romântica de matizes realistas e amadurecidos, ela termina com uma versão um pouco diferente do “e foram felizes para sempre” da fábula; algo como “e foram felizes na medida do possível”, ou “e foram razoavelmente felizes por um bom tempo”, ou “e ficaram felizes por uns dias e depois voltaram a brigar por causa de outro assunto, e aí resolveram esse assunto também, mas aí ele ficou emprego, a mãe dela ficou muito doente, eles perderam um bebê, e ficou difícil ser feliz de novo”. De um jeito ou de outro, está claro que o momento de paz e tranquilidade que presenciamos foi apenas um momento – e que logo as coisas vão ficar complicadas novamente.

É sobre isso que eu quero falar: sobre como as coisas sempre ficam complicadas novamente, inclusive mais complicadas do que eram antes. Até porque essa percepção dá um novo tipo de valor aos momentos em que tudo se simplifica e alcança uma síntese evidente e provisória (em uma decisão, em uma canção, em um gesto). Para desenvolver esse ponto, em se tratando de movimentos planetários, não basta termos os trânsitos de Saturno como referência, pois, pasmem, Saturno não complica as coisas o suficiente: está entre os chamados “planetas sociais”, que regem a relação entre indivíduo e sociedade, e não alcançam nem os territórios mais obscuros da psique nem as vastidões menos exploradas do cosmos. É aí que entram Urano, Netuno e Plutão, justamente os planetas com que nos acostumamos a conviver dos 36 anos em diante.

Tenho 41. Gosto de observar como esses planetas se manifestam nas leituras que faço. Uma das razões pelas quais eles se tornaram importantes para mim é bastante previsível: seus trânsitos foram muito perceptíveis na minha trajetória individual. Até certa idade, eu estava de fato aprendendo a manejar habilidades e limitações mais diretamente associados aos planetas pessoais e sociais (com ênfase, é claro, para o retorno de Saturno e seus desdobramentos). Então veio o retorno do Nodo Norte, que já era uma novidade, sobre a qual escrevi nessa outra postagem; mas foi na sequência, durante os trinta e tantos e depois, que uma sucessão de trânsitos regulares (aqueles que todos nós vivemos mais ou menos na mesma idade) se mostraram capazes de abalar de maneira mais decisiva e transformadora minha forma de entender e agir no mundo.

Supõe-se que as conquistas de um retorno de Saturno bem vivenciado – com suas crises, rupturas e mudanças de rumo – a essa altura estarão consolidadas, para que você consiga enfrentar esses outros desafios em diferentes recortes da existência. E é verdade, é um pouco assim mesmo que acontece, como se você tivesse passado de fase na vida, contando com mais força e mais recursos, mas também podendo aguardar novas pelejas. Por outro lado, seria um equívoco tratar esses obstáculos apenas como “maiores” que os anteriores – eles são de outra natureza, e não aceitam as mesmas soluções que encontramos antes. Redefinem mais do que imaginamos existir para ser redefinido, desconstruindo crenças e certezas que nós nem sabíamos que estavam lá.

Já escrevi uma postagem específica sobre a quadratura de Plutão, que ocorre nessa época. Tenho ascendente em Escorpião, e considero Plutão meu regente, daí o interesse específico nesse trânsito. Os outros são a quadratura de Netuno e a oposição de Urano. Dependendo do seu mapa, um deles pode se tornar mais relevante, e é possível e provável também que você seja apresentado em diferentes momentos da vida às exigências desses “deuses de transformação”, para usar uma expressão de Howard Sasportas; há quem chegue aos 30 já bastante escolado em suas angústias e reviravoltas. Mas, como já dei a entender, não pretendo me estender aqui nas repercussões isoladas ou individuais de Urano, Netuno e Plutão, e sim nas implicações de aparecerem um atrás do outro durante uma época específica e alargada da vida de todos nós.

Em tempo: essa é uma época particularmente fértil para o trabalho psicanalítico ou outras formas de terapia. Isso me faz lembrar uma frase de Carl Jung, segundo a qual até os 40 anos o que vivemos é a “luta pela sobrevivência”: só depois de encerrar esse ciclo estamos em condições de saber quem realmente somos, o que realmente queremos, e quais arquétipos estamos destinados a encenar de maneira genuína em nossas vidas. Entendam esse número de maneira abrangente, considerando que o processo pode se estender ate os quarenta a poucos, e você tem uma consonância nem um pouco surpreendente entre conclusões da astrologia psicológica e do pensamento junguiano. Num caso como no outro, o ponto de partida é a sensação de terra arrasada que enfrentamos diante de alguns desses terremotos da meia-idade, em que forças além do nosso controle e da nossa consciência entram em ação de um modo inesperado, e precisamente quando, segundo padrões e expectativas sociais, deveríamos enfim “estar no controle” das nossas vidas e “conscientes” do que somos e queremos. Aliás, esse foi o período da vida Jung em que, após entrar em confronto aberto com Freud – algo que seria determinante em sua trajetória -, ele passou pelas crises e transformações registradas no chamado Livro Vermelho, uma obra de caráter diarístico e autobiográfico, pouco compreensível teoricamente ou como guia para o trabalho psicológico, mas repleta de alusões a uma intensa metamorfose pela qual estaria passando seu autor.

Talvez, então, a luta pela sobrevivência termine não por causa da garantia da sobrevivência, e sim pela experiência da mortalidade, que muitas vezes aparece para nós em trânsitos plutônicos; e descobrir quem realmente somos seja antes consequência do desengano do que motivo de entusiasmo, tal como sentimos diante de algumas manifestações de Netuno. Mas não digo isso para desanimar ninguém, porque após esses solavancos sempre conhecemos algum tipo de serenidade ou segurança ou alegria que desconhecíamos antes, e eles na verdade abrem espaço para novidades onde víamos um futuro já definido. Ou seja: sobre a terra revirada pela passagem dos planetas transpessoais, é possível plantar novas sementes cujos frutos até então sequer sabíamos existir, e muito menos esperávamos saborear.

Esse resultado depende de certa aquiescência, embora ela não necessariamente aconteça sem luta. Posso falar do “meu” Sol em Capricórnio, do “meu” ascendente em Escorpião, da “minha” Vênus em Sagitário e talvez até do “meu” Saturno em Virgem, mas quando se trata de Urano, Netuno e Plutão, sinto que sou eu que sou deles, não o contrário. Tal sensação compromete talvez mais do que gostaria meu senso de autonomia e individualidade, mas apenas num primeiro momento; num segundo, sinto que a própria lógica de separação entre uma parte do cosmos que é minha e outra qual pertenço está equivocada, e que sou uma manifestação singular dele inteiro – uma manifestação que posso conhecer melhor através destes símbolos.

Os planetas transpessoais, portanto, me parecem servir ao autoconhecimento tanto quanto os outros. Mas, nesse caso, algo maior que meu ego está conhecendo a si mesmo. Por outro lado, acho difícil que esses astros e as energias que eles representam venham a ser tornar realmente conhecidos por nós tão cedo; no máximo, ganhamos alguma intimidade com eles, mas ainda assim eles vão preservar algo de intimidador. Eles desorganizam muita coisa que estava pretensamente dominado por uma razão apenas pretensamente amadurecida; e tudo o que trazem é relativamente novo, tanto para a astrologia quanto para humanidade, que só veio a conhecê-los e investigá-los a partir do final do século XVIII.

De modo que me parecem fundamentais à prática astrológica exatamente por serem pouco compreendidos, ao mesmo tempo em que sua ação estranha ou inesperada tem o poder de colocar em cheque nossas crenças e convicções. Aqui peço licença para uma breve digressão ilustrativa, pois dá para explicar melhor esse ponto recorrendo à história de Johannes Kepler, o jovem astrólogo e astrônomo que, no final do século XVI, após muito trabalho, esforço e tentativas frustradas, acreditou ter descoberto a estrutura geométrica do universo. Marcelo Gleiser faz uma relato completo desse processo em Criação Imperfeita: cosmo, vida e o código oculto da natureza. Segundo Gleiser, ao observar as distâncias entre os planetas – Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter e Saturno –, Kepler concluiu enfim que elas podiam ser explicadas com um modelo baseado nos cinco sólidos perfeitos, os chamados sólidos platônicos: cubo, pirâmide, octaedro, dodecaedro e icosaedro. Encaixados um dentro do outro, como em uma boneca russa, faziam com que as esferas imaginárias situadas entre os sólidos correspondessem com exatidão às distâncias entre as órbitas dos planetas, e dos planetas em relação ao Sol.

A coisa toda parecia fazer muito sentido. Mas as coisas eram mais complicadas do que ele imaginava. Pois, com o tempo, após a morte de Kepler, outros planetas foram sendo identificados: Netuno, Urano, Plutão. E suas posições e movimentos nem de longe se encaixavam no modelo kepleriano, ou em alguma versão alternativa dele. Cada vez mais, nenhuma ordem, nenhuma razão pareciam dar forma sequer ao restrito aglomerado de esferas que nossos telescópios alcançavam. E mais ainda: muitos outros aglomerados, incontáveis outros sistemas foram sendo localizados nos observatórios, em uma estonteante proliferação de pontos de luz rodeados por parceiros de diferentes tamanhos, trajetórias e composições, talvez vinculados por forças obscuras e secretas, mas sem qualquer lógica que lhes determinasse a tessitura.

Kepler, vale ressaltar, afirmou ter encontrado a solução para a ordem subjacente às posições planetárias com uma epifania, que lhe teria ocorrido durante uma aula na qual demonstrava a conjunção periódica de Júpiter e Saturno no zodíaco. Na época esses eram os dois grandes protagonistas astrológicos – tendo sido apontados inclusive como símbolos para o nascimento ao anticristo –, e parece natural que Kepler os tenha envolvido na história da publicação do Mysterium Cosmographicum, o livro no qual expunha sua descoberta. Depois, ele viria a ser celebrizado como um dos primeiros cientistas a reforçar o modelo copernicano, e por ter exposto o movimento elíptico das órbitas planetárias, quando ainda se acreditava que eram circulares. Mas, como disse, a perfeita simetria que ele havia identificado na configuração do sistema solar era o resultado de uma visão provisória e fragmentada do universo, que depois seria redefinida pelo avanço das técnicas de prospecção espacial.

Em resumo: as coisas são sempre mais complicadas que a gente imagina. A astrologia, a meu ver está aí para referendar essa afirmativa, e não o contrário. Lembro-me então de uma entrevista com o diretor teatral Peter Brook em que ele dizia que “Deus é o desconcerto das consciências humanas”. A astrologia pode não trabalhar com a ideia de um único Deus, mas certamente aciona símbolos e ideias que se assemelham a deuses e deusas, sendo que no caso dos planetas transpessoais estamos sem dúvida diante de potências desconcertantes, poderosas e enigmáticas, que foram capazes de desmontar logo de saída um dos mais engenhosos e harmônicos sistemas astronômicos de que se tem notícia.

Mas acredito também que temos não apenas a necessidade, como também uma oportunidade valiosa de de contar com companhia de figuras tão ilustres em nossa jornada, durante o período que vai dos trinta e tantos até os quarenta e poucos. Sim, eu sei, na hora que o bicho pega dá vontade de mandar tais figuras ilustres para os infernos de onde vieram. Acontece que, se você sente que quer voltar no tempo, é exatamente porque o tempo passou, e você já percebeu que a realidade não se encaixa em seus esquemas. Então o melhor que você tem a fazer é mesmo aceitar e receber bem essas divindades, abrindo espaço na casa para que elas se acomodem, por maior que seja o transtorno que a princípio possam causar.

Agora, uma última observação. Nada disso refuta a paz e tranquilidade que podemos sentir, por exemplo, ao ouvir uma interpretação de Clair de Lune de Debussy sendo dedilhada no piano ao longe, ou percebendo bem dentro de nós uma fonte da mais serena convicção de que as coisas no final das contas são simples, muito simples, por mais que a gente insista em complicá-las. É uma percepção que pode surgir a qualquer momento da vida, independente da idade, e creio que ela será igualmente correta em todas as suas manifestações, em todos os lugares e pessoas. Talvez o próprio Kepler tenha sentido algo semelhante, por exemplo enquanto tentava compreender a distância entre o Sol e a Terra, e percebendo de repente que não havia distância alguma, porque a luz que ele usava para suas medições era a presença imediata do próprio Sol.

Enfim, por mais complexas que sejam as coisas, desde cedo a gente não apenas entende como também sente que é tudo uma coisa só. O que a gente aprende com o tempo é que esses momentos especiais são momentos, e que exatamente por isso são tão preciosos. Eles emergem entre uma época de complicações e outra, sem nunca criar as bases para um permanente estado de beatitude, que tampouco será alcançado com a maturidade ou o envelhecimento, mas com a forte implicação de que por trás de tudo existe uma canção sendo tocada pelas cordas do cosmos, simples o bastante para resumir tudo em poucas e pausadas notas. Que venham, portanto, os planetas e seus trânsitos e avacalhações dos esquemas que montamos para dar conta da existência: serão bem-vindos nesse sentido. Mas saibamos também que às vezes tudo se resume mesmo à luz da lua e a Debussy, a uma frase serena ou a uma sensação de pertencimento ao mundo e aos cosmos, porque às vezes isso é tudo o que precisamos saber.

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“Testes”

Foto: Byron Harmon / Whyte Museum of the Canadian Rockies

De restrições e provações esta vida está cheia, mas nem tudo é uma etapa em um processo de autoconhecimento ou amadurecimento ou superação. Algumas coisas são só encheção de saco mesmo; outras são obstáculos que não precisam necessariamente ser contornados ou compreendidos, estão ali apenas para serem aceitos. E, em meio a tantas variantes de fenômenos que exigem tanto de nossa paciência, ou simplesmente acabam com ela, há que se encontrar formas de diferenciá-los de maneira criativa. Há que se gastar algum tempo representando-os em suas particularidades. Por exemplo:

Tem aquela história de um rapaz que queria muito receber os ensinamentos de determinado guru, e para isso subiu com esforço a montanha íngreme que levava até ele. Chegando lá, o guru disse com rispidez: “Vá embora, não tenho nada a lhe ensinar!”. E o rapaz não teve opção senão ir embora mesmo. Mas, chegando no pé da montanha, olhou para trás, e viu que o guru lhe fazia sinais para eu voltasse. Ele pensou: “Ah, essa desse ser uma daquelas situações em que o mestre impõe dificuldades ao discípulo para testar sua resistência e determinação”. Resolveu voltar, e usou suas últimas forças para subir a montanha novamente. Chegando lá o guru disse: “E mais uma coisa: não me volte mais aqui com esses disparates sobre ‘testes’!”.

Acho que qualquer um de nós já passou por alguma situação em que algo parecia exigir somente um pouco mais de esforço, paciência ou maturidade para consumar-se, e no final das contas não era para ser mesmo. Ou, pelo menos, não era para continuar sendo. Está bem representada aí a diferença na pedagogia de dois grandes ‘mestres’ astrológicos: Saturno e Plutão. Saturno tem um viés mais convencional, rigoroso porém recompensador, exigindo esforços e realizando testes que favoreçam nosso amadurecimento; Plutão é aquele que traça uma linha intransponível diante da qual qualquer insistência é inútil. Pela maneira como ambos andam se relacionando no céu ultimamente, fica difícil saber qual é qual nas manifestações com que nos deparamos aqui na Terra. Que coisas na vida estão apenas precisando de um pouco mais de trabalho. Que coisas estão precisando da mais completa aceitação.

Mas a partir de agora, e nos próximos meses, acredito que isso vai ficar mais claro. Ou pelo menos espero. Ultimamente tenho reclamado muito de algumas pessoas, comportamentos, circunstâncias. E até acredito que o mau humor é parte importante da existência, mas reclamações repetitivas sobre o mesmo assunto podem indicar que estamos insistindo onde o que se requer é desistência. Desistir das coisas é bom, dá um certo barato, pode ser feito com certa leveza, ou beleza, inclusive. Aí esses dias me apareceu a lembrança da citação de uma entrevista que o Leonard Cohen deu pouco antes de morrer. Nela, ele dizia que não deveríamos nunca “reclamar casualmente”. E que, se for para lamentar a inevitável derrota final de nos aguarda a todos, que isso seja feito com beleza e dignidade.

Tenho lamentado muito casualmente, de coisas que que provavelmente não são nenhum tipo de teste ou provação pela qual eu tenha que passar em meu percurso cármico sobre a Terra. Ou talvez sejam, mas se forem não é reclamando que vou resolver o assunto. Saturno, como disse, exige trabalho, dedicação, paciência. Já Plutão diz respeito à inevitável derrota final que nos aguarda a todos, e às derrotas pontuais que exigem nossa absoluta capitulação no decorrer da vida, diante das quais os lamentos precisam ter um quê de coro trágico, para fazer justiça ao massacre de nossas vastas esperanças.

Até janeiro de 2020 ambos estarão ainda se confundindo, nos últimos passos de uma dança desastrada que enfim está chegando a uma conclusão parcial, e é possível que por essa época realizem uma fusão completa, no momento da derrocada final de edificações que levaram muito tempo para ser erigidas. Pelo menos isso abrirá espaço para que algo de realmente novo seja construído no lugar. Vale tanto para alguns aspectos da experiência coletiva quanto em alguns desdobramentos de histórias pessoais. De modo que, agora, o que desejo a cada um de nós nesse meio tempo é uma variação da oração da serenidade. Uma que diria assim, “Deus me dê perseverança para insistir naquilo que requer minha insistência, falta de saco para desistir daquilo que requer minha desistência – e sabedoria para perceber a diferença”.

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Beleza dura

Foto: Henri Cartier-Bresson

De tempos em tempos Vênus e Saturno se relacionam no céu dando sequência a uma negociação complicada. O espírito que aspira à beleza e pretende realizá-la no plano físico precisa se entender com as restrições da matéria. O amante que deseja o encontro precisa respeitar os ciclos de aproximações e afastamentos, deixando o pêndulo dos encontros pender para a solidão.

Vênus é a regente de Libra, que busca a conciliação e a harmonia nas relações, mesmo que à custa de definições permanentes. Saturno rege Capricórnio, que busca definições permanentes, mesmo quando isso tem um custo para as relações. A possibilidade de uma beleza duradoura ou de acordos consistentes nasce da interação desses dois vetores a princípio contraditórios. Mas pode ser que o resultado desse contato seja também certa tristeza mesmo.

Nesses casos, é válida a consciência da lei do esforço reverso. Se lutamos contra um sentimento indesejado, ele se fortalece; se aquiescemos, a seu tempo, ele passa. A aquiescência é venusiana; o tempo, saturnino. Vênus e Saturno trabalham bem juntos desde que a gente permita que eles trabalhem. É engraçado isso do ser humano de achar que pode escolher os sentimentos que tem.

Qualquer projeto de longo prazo evolui nessas oscilações entre a angústia e a esperança. Não há obra de arte que seja concluída sem uma mistura de felicidade e resignação. Vênus e Saturno trabalharam juntos toda vez que um escultor enfrentou as restrições da matéria para encontrar a beleza que existe na pedra. Mas sem a dureza da pedra não haveria beleza nenhuma, apenas uma vaga ideia do que a beleza é ou poderia ser.

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A quadratura de Plutão

Stranger Things (2016)

Alguns trânsitos astrológicos importantes acontecem para todo mundo mais ou menos na mesma idade. Assim como os trinta anos costumam coincidir com últimos ajustes e redefinições do retorno de Saturno, aos quarenta estamos lidando com o que ficou da quadratura de Plutão. Trata-se de um aspecto que nada tem de ordinário, mesmo sendo comum. Costuma acontecer em momentos variáveis a partir dos 37 anos, por conta do ritmo um pouco menos regular da órbita plutônica.

Há motivos para que essa passagem seja menos comentada. Plutão é um agente incorporado à prática astrológica há não muito tempo, está ainda sendo estudado e conhecido, e além disso trata por definição de temas ocultos e tabus. Então, mesmo entre profissionais do aconselhamento, há aqueles que não se dispõem a perscrutar as profundidades psicológicas que alcança. Isso pode acontecer por diferenças de abordagem e de comportamento pessoal, naturalmente, mas desconfio que há também aí uma reticência diante da ameaça que ele representa para panaceias disseminadas no meio astrológico, como o ‘pensamento positivo’ e o autoconhecimento.

Pois em Plutão encontramos as mais diferentes formas de expressão do trágico, que não poderiam ser evitadas nem com todo o pensamento positivo do mundo. Do mesmo modo, não há autoconhecimento que nos prepare para suas pancadas nem antecipe nossas reações diante delas. Em maior ou menor grau, dependendo de outros fatores, a quadratura de Plutão é um desses momentos em que nos deparamos com as forças do inevitável, que nos deixam sem ação e sem recursos. E isso com frequência estará relacionado muito literalmente aos temas de sua área de atuação: a morte, o dinheiro e o sexo.

O que vou dizer a respeito é baseado em experiências pessoais, em relatos que escutei e em algumas leituras. Em termos gerais, o que mais se percebe é algum tipo de experiência da mortalidade e de limitações absolutamente intransponíveis, seja através da doença de alguém querido, do término de um relacionamento desgastado, do fracasso definitivo de algum projeto, ou do abandono doloroso de um sonho ou aspiração. As especificações dependem muito da posição de Plutão no mapa natal da pessoa, mas, de um jeito ou de outro – e ao contrário do retorno de Saturno, que comporta redefinições moduladas e algum controle consciente do processo –, neste caso estamos diante de uma exigência de absoluta rendição, em que alguma coisa era e de repente não é mais.

Não há como ensinar nem aprender essa experiência. Não há nem como repeti-la, assim como não há morte que seja igual a outra. A própria revolta com que aí enfrentamos as injustiças da vida e do cosmos não é exatamente um aprendizado; é, antes, uma espécie de caminho para o necessário esgotamento de nossas forças. No entanto, isso não quer dizer que este tipo de trânsito deixe apenas destruição no seu rastro. Ele é, sim, destrutivo, mas com frequência o que aniquila são as mais rígidas carcaças que utilizamos para ingressar na vida adulta.

Em um tipo de experiência, pelo menos, isso me parece bastante óbvio. Ela merece umas palavrinhas a mais para ser tratada com cuidado. Não é das mais fáceis, nem das mais evidentes no âmbito público, mas tem uma recorrência que justifica a menção. Falo de pessoas que, durante o trânsito, desenterram memórias reprimidas de atos de abuso ou violência sofridos durante a infância. Reúnem-se aí vários elementos da crise plutônica: a exposição de algo soterrado, a crise diante de forças maiores que nos tomam de assalto, o retorno investigativo à cena de um crime, e a revolta desesperada com algo – um passado – que não se pode mudar.

Talvez a própria tomada de consciência de Plutão e suas energias ou influências pelas últimas gerações tenha favorecido essa dinâmica. Porém, isso não quer dizer que crianças não fossem igualmente vítimas de toda forma de violência antes. Aliás, o tema nos remete à própria história do rapto de Perséfone por Hades, o Plutão da mitologia grega, que em um ato disruptivo a levou para o submundo e a violentou quando era apenas uma menina.

Como a história prossegue a partir daí é uma outra história; o gesto tem força arquetípica em si mesmo, e toda criança vítima de abuso e violência é de certa forma Perséfone no momento em que o solo se abre sob seus pés. Outras tradições conhecem mitos semelhantes, com algumas variações, mas a agressão sempre acontece em um lugar oculto e subterrâneo. E assim permanece na consciência das crianças que são abusadas, seja pela repressão das lembranças, seja pela maneira como o mundo adulto as faz questionar os próprios sentidos e percepções, de maneira mais ou menos perversa.

De um jeito ou de outro, certa inconsciência e ocultamento do passado parecem necessários para os primeiros passos do indivíduo na maturidade. É como se algo lhe dissesse: “Não, não vai dar para lidar com isso agora; você precisa estudar, arrumar um emprego, ser uma pessoa ‘normal’; deixa pra outra hora, não mexe nisso aí, fique com a história que te contaram sobre o que aconteceu ou deixou de acontecer, vai ser melhor assim”.

E assim se criam as carcaças da identidade que se sobrepõem àquilo que uma pessoa pode ter de mais definidor de sua experiência do mundo adulto. Tornamo-nos engenheiros, médicos, professores, pais, mães – e nos esquecemos de que somos Perséfone. Até que o Plutão conhecido na infância reapareça quando menos imaginamos, quando acreditamos que estamos a salvo não apenas de sua ação como também de sua lembrança. Só que agora, mesmo que iniciando uma crise, mesmo que desenterrando ossos, ele surge não mais como um fator de violação, mas como um agente de cura.

Pode ser difícil, quase impossível reconhecê-lo assim. Mas a questão do reconhecimento, aqui, é fundamental. Pois, junto com a memória de cenas e acontecimentos, ele traz à tona a reparação da confiança de em algum momento perdemos em nossos sentidos e percepções, e no estabelecimento da verdade de um modo geral. Ele se apresenta e diz: “Sim, eu existo; fui eu mesmo que você viu quando era pequeno; não acredite nas lendas que te contaram sobre mim; eu sou a violência, eu sou a morte, eu sou a crueldade, essas coisas existem no mundo e você as conhece bem desde cedo; não deixe ninguém tirar isso de você.”

Plutão não tem culpa de nada, no final das contas. É uma maneira que encontramos para simbolizar algumas experiências indesejáveis, embora o verbo ‘encontrar’ nesse caso tenha algumas sutilezas interessantes, assim como ‘indesejável’ é um adjetivo que merece algumas nuances. Pois, se a morte é indesejável, muito mais seria uma vida individual que não acabasse nunca. Enquanto o sexo, em si mesmo, está longe de ser indesejável, e em algumas de suas expressões mais regeneradoras e transcendentes encontram-se também sob a regência de Plutão.

Enfim, para aqueles que já passaram por suas quadraturas pessoais, ou por outro trânsito mais intenso de Plutão em outro momento da vida, e se depararam aí com algumas assombrações bastante reais, fica aqui meu carinho. Pois há quem chegando aos quarenta terá uma primeira experiência mais impactante da finitude e da fragilidade humana; mas há também os precisam despertar em si a criança que conheceu o inferno, sabe que conheceu, e consegue descrevê-lo em detalhes. Para estes, recomendo que reconheçam essa parte de sua identidade e não permitam que as fotos dessa viagem ao submundo sejam novamente soterradas sob fotos de viagens à Disney ou a Cabo Frio. Com a quadratura de Plutão, a cura está na rememoração do inferno mesmo, não na lembrança destes paraísos artificiais.

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O retorno de Saturno

Before Sunset (2004)

Esses dias escrevi sobre o lado infantil do arquétipo geminiano, que pode ser associado à leveza de Mercúrio. Mas é interessante pensar também em como esses símbolos e planetas aéreos têm um papel em assuntos considerados mais ‘pesados’ da vida. Urano, o regente de Aquário, por exemplo, tem fama de favorecer comportamentos erráticos e súbitas alterações de rumo, porém é uma força essencial em processos de amadurecimento individuais. O interessante aqui é que normalmente atribuímos ‘maturidade’ a Saturno ou a comportamentos e atitudes saturninas (ou capricornianas, por assim dizer), quando isso pode ser indício de extrema insegurança e de apego a sinais exteriores de realização ou sucesso.

É o caso de questionar o que significa ser adulto em nossa sociedade. Não faltam exemplos de gente que se apressa em conquistar esse estatuto, para deixar para trás uma adolescência constrangedora ou uma infância triste, buscando a nova condição através de uma carreira, de um casamento, de um título. Vale tanto para jovens advogados e até mesmo deputados que são crianças tolas vestindo ternos caros – e que, para nosso pânico, podem permanecer assim pelo resto da vida –, quanto para hipsters empreendedores que conseguem manter uma irônica aura juvenil em seus apartamentos descolados. Vale para muitos jovens escritores e artistas, também.

O famoso retorno de Saturno é então oportunidade de reavaliar tudo o que foi ‘conquistado’ até os 28 ou 29 anos de idade, e perceber que entendemos tudo errado. Ou pelo menos uma parte importante. O motivo pelo qual escolhemos uma determinada profissão pode ter sido simplesmente agradar o papai, o motivo pelo qual nos casamos cedo pode ter sido simplesmente nos livrar da mamãe, o motivo pelo qual nunca deixamos a casa ou a cidade de papai e mamãe pode ser um senso de dever deturpado e cômodo. Tudo isso faz parte do processo, e assim Saturno vai construindo seu caminho em nossa vida através de expectativas e condicionamentos, contando com nossa insegura anuência, e colocando tudo sob uma nova luz quando volta ao ponto de partida, dizendo: vê, já é um avanço, isso é tudo o que você não é.

O problema é que a essa altura muita coisa já aparece sob o aspecto das ‘responsabilidades’ e da suposta ‘consistência’ da vida adulta. Ou então é difícil abrir mão do que foi obtido tanto esforço. Quem sente que chegou nessa parte da vida sem ter alcançado muita coisa pode estar em uma posição até melhor do que quem tem muito a ‘perder’. E, sim, temos compromissos com a família, a sociedade, os amigos, mas não há nada aí que seja incompatível com o compromisso que temos com o destino. Muito pelo contrário. Os advogados e médicos e engenheiros que insistem em uma carreira escolhida por força das circunstâncias e das próprias incertezas são aqueles que jamais terão maturidade para exercê-la. Quem se dedica a cuidar dos pais ou permanece em um relacionamento por obrigação não é mais adulto por isso; só é mais infeliz.

Mas, para quem acata o amadurecimento que Saturno traz através da destituição de quaisquer sinais de amadurecimento, há uma boa notícia. É aqui que Urano entra na história. Porque, junto com o retorno de Saturno, geralmente vivemos um aspecto de Urano que em sua energia súbita e libertadora traz fortes intuições do compromisso com o destino. Não é necessariamente uma definição. Pode ser só coragem para abandonar de vez as máscaras acumuladas. É uma licença para agirmos de forma errática e imprevista, ou seja, para ser adulto mesmo, confrontando expectativas e circunstâncias. A família, a sociedade e os amigos podem até ficar meio chocados a princípio, mas a longo prazo eles agradecem.

Jung disse que o livre-arbítrio é a habilidade de fazermos com satisfação aquilo que temos que fazer de qualquer jeito. Um dos problemas de interpretação dessa frase é confundirmos essa ‘satisfação’ com uma heroica ou estoica aceitação de responsabilidades e deveres. Saturno é bem capaz de fazer isso – e há momentos em que isso é necessário – mas a verdadeira liberdade nunca é uma adequação voluntária a condições externas. Tampouco é um exercício da vontade individual desconectada de quaisquer outras circunstâncias. A verdadeira liberdade é uraniana. Ser adulto é ser livre, não para a gente ser o quiser, para sermos de acordo com algo em nós que sabe o que a gente é. Esse algo é o universo.

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Sobre filhos e planetas

Rembrandt von Rijn

Entre idas e vindas, Saturno e Plutão estão em 2019 se ajustando para sua conjunção em janeiro de 2020, e por conta desse aspecto o ano astrológico corrente é considerado uma preparação para o próximo. Não faltam bons comentários na rede a respeito; com os planetas em questão, é natural que a apreensão e o medo apareçam em muitas dessas leituras. Mas a conjunção é um aspecto muitas vezes enganador nos pressentimentos e presságios que proporciona. É nesse ponto que eu gostaria de acrescentar uma palavrinha.

Uma conjunção estabelece uma fase nova na relação entre dois planetas. É o início de algo inédito, como a Lua Nova é um início em outra escala (a Lua Nova é uma conjunção da Lua e do Sol). A oposição, nessa lógica, é equivalente à Lua Cheia, quando a Lua e o Sol estão frente a frente no céu. Geralmente, no plano individual, não é difícil perceber como as luas cheias são pontos culminantes de processos já em curso, e como as luas novas se apresentam como o impulso para um começo que estava pouco claro antes de seu advento. No plano coletivo as coisas se complicam um pouco mais, mas não deixa de ser útil usar as fases lunares como referência.

Desse ponto de vista, estamos no período balsâmico da relação entre Saturno e Plutão: o momento mais escuro da madrugada antes do amanhecer, no ano que vem. É verdade que, em se tratando desses dois, é difícil imaginar um despertar tranquilo e luminoso, mas – isso é importante – talvez a mudança seja o suficiente para desmascarar os monstros que povoam essa etapa da noite, fazendo-os perder força à luz do dia. Quem sabe assim se dissipem os demônios subalternos que hoje nos aparecem como se fossem reais em nossos pesadelos, e como se fossem pesadelos em nossa realidade.

Até lá, a apreensão e o medo têm tudo para continuar por aí. A boa notícia é que têm tudo para estar errados, senão no diagnóstico de nossas circunstâncias atuais, ao menos no prognóstico de nossas circunstâncias futuras. E a gente sabe como essa questão do prognóstico é determinante na dinâmica da apreensão e do medo, como muitas vezes é ela que torna o presente insuportável. Mesmo quem tem a mais absoluta certeza de que é impossível prever o futuro costuma prever o futuro o tempo inteiro, elaborando cenários miseráveis, catastróficos, com frequência no mais completo prejuízo de sua própria saúde mental.

E, se tem uma coisa que aprendi com a astrologia, como já tinha aprendido com a história, é que é impossível a gente prever o futuro. Ou, ao menos, que é muito difícil, sobretudo em momentos como esse de agora, em que nada do futuro se apresenta a nós. Períodos de acentuada incerteza, de um ponto de vista astrológico, são períodos de incerteza acentuada também para os astrólogos, que compartilham o cosmos com seus ouvintes e leitores. Nós não temos como nos colocar de fora do que descrevemos.

Portanto, nós não temos nunca como estar totalmente certos de nossas projeções do futuro; mas nós podemos estar mais errados do que o normal. Isso é uma premissa importante tanto para lidar com tendências catastrofistas, quanto para evitarmos falsas esperanças, forjadas no âmago do desespero. Eu mesmo me peguei agora pensando se o que vejo de positivo nessa virada do ano que vem não teria a ver com o fato de que meu filho canceriano está para nascer agora. Isto é, se não estaria buscando uma justificativa para, como se diz por aí, colocar mais gente no mundo (digo “meu filho canceriano” porque já tenho um filho capricorniano, e se pudesse tinha um de cada; aliás, Gabriel, se você vier geminiano, papai vai te amar do mesmo jeito tá? Papai promete).

Mas então: será que não estou falando em um “amanhecer”, em um “despertar”, mesmo que com todas as ressalvas, porque há algo parecido para acontecer aqui em casa por agora? Será que não estou vendo uma possível luz no âmbito coletivo onde o que tenho é iminência de um “dar à luz” mais individual? Talvez. Mas aí resolvi olhar no que estava acontecendo quando o Tiago, meu outro filho, nasceu, dezessete anos e meio atrás. Era 2001; Saturno e Plutão estavam justamente realizando uma oposição entre si, que, como as conjunções, só acontecem de 40 em 40 anos; mas com aquele caráter de culminação, de clímax, e de ruptura, que dá um aspecto de “lua cheia” às oposições entre os planetas.

Era 2001, e agora me lembro como foi assistir o ataque suicida às torres gêmeas quando poucos meses depois ia assistir tão de perto a chegada de alguém no mundo. Lembro da consternação, da perplexidade, do susto. Lembro que por um instante nada do que estava vivendo naquele momento fez muito sentido, e que a imagem do futuro de repente se tornou para mim algo completamente apocalíptico e tenebroso.

Mas lembro também que poucos dias depois estava pensando em outra coisa. E depois em outra. E depois em outra. Talvez algumas dessas outras coisas tenham sido também previsões meio sombrias sobre meu futuro individual, profissional, afetivo. Outras certamente foram projeções entusiásticas de meu futuro individual, profissional, afetivo. Tal como as imaginava, nenhuma delas se realizou.

Se fosse astrólogo na época, provavelmente eu teria olhado para essa difícil oposição entre Saturno e Plutão como um fator importante do mundo em que meu filho ia viver. E era, mas nem de longe era definidora desse mundo, e muito menos do mundo dele, o mundo que nasceu junto com ele, o mundo que existe através dos olhos dele. Era um mundo também de milhares de outros aspectos, trânsitos e planetas, para ficar só na riqueza dos fatores astrológicos que conhecemos, e que podem nos fazer esquecer amanhã mesmo aquilo que hoje nos parece tão tenso e difícil.

Ainda bem que eu não era astrólogo na época, pois talvez ainda não tivesse maturidade suficiente para entender isso, talvez me perguntasse ao olhar para os trânsitos do momento: filho numa hora dessas? Ainda bem que eu não era astrólogo, era só um pouco irresponsável, abençoadamente irresponsável, considerando a companhia incrível que tive nesses últimos dezoito anos, e que continuo tendo, agora que Saturno e Plutão vão se encontrar e reiniciar seu ciclo, e que vou ter essa outra alegria em meio às incertezas de um presente também inquietante.

Em certo sentido – em um sentido astrológico – trata-se, agora, de um presente até mais inquietante, porém mais inquietante exatamente por não termos nenhuma ideia do que está acontecendo, quando do futuro só podemos afirmar que nada será do jeito que a gente imagina. O problema é que ainda assim a gente imagina, e com frequência imagina o pior, com base em um presente que pode ser tudo menos sólido e consistente.

A outra coisa importante que aprendi com a astrologia (reforçando mais uma vez o que tinha aprendido com a história) é que as coisas mudam, e que nossas ideias do futuro mudam junto com as coisas. A gente tem dias bons, dias ruins e dias médios, inclusive para prever o futuro. O bom dos dias ruins é que logo a gente está pensando em outra coisa. E depois em outra. E depois em outra.

Que o Gabi venha com todas as conjunções, oposições, trígonos, quadraturas, sesqui-quadraturas, inconjuntos e paralelos que ele tem direito. Uma coisa é garantida: não vai dar par saber a pessoa maravilhosa que ele vai ser através de seu mapa natal. Vai ser só vendo mesmo, disso eu tenho certeza.

PS: o Gabriel nasceu às 00h06m do dia 19 de junho de 2019, com a Lua em Capricórnio, o Sol em Gêmeos e o Ascendente em Áries (sobre o nascimento e o ascendente falei um pouco mais aqui). Estou escrevendo esse pós-escrito no dia em que ele completa seis meses. A primeira coisa que me chamou a atenção em seu mapa foi que os três componentes principais são um rearranjo dos mesmos signos que figuram no mapa do irmão, que daqui a três dias completará dezoito anos, e que tem a Lua em Áries (exatamente no mesmo ponto onde está ascendente do Gabriel), Sol em Capricórnio e Ascendente em Gêmeos. Segundo uma análise combinatória elementar, devo ter mais sete filhos para completar todas as combinações possíveis desses três signos. Mas acho que vou precisar de mais umas três vidas pra isso.

Ah, e sim: o Gabi acabou se apressando um pouquinho, nasceu antes do previsto, mas quando deu vontade nele, e correu tudo muito bem, como escrevi nas postagem sobre seu nascimento. Veio geminiano. E a essa altura eu já não amo ele “de mesmo jeito” por causa disso – amo muito, mas muito mais.