aquário, áries, capricórnio, libra, peixes, sagitário, touro, virgem

O lugar bom

Essa postagem é para quem assistiu ou está assistindo The Good Place, a série da NBC que estreou em 2016 e terminou em 2020 (tem na Netflix). Vi o último episódio esses dias, e série tem esse negócio de a gente ficar com saudade dos personagens. Então – prometo não estragar o final para ninguém, pelo menos não para quem já passou da primeira temporada – me deu vontade de explorar um pouco mais a brincadeira dos signos com eles. A propósito, já mencionei o Michael (Ted Danson) em um texto sobre Capricórnio, e indiquei a Eleonor (Kristen Bell) para o Oscar do zodíaco que propus uma vez aqui, na categoria Personagem de Áries. A essa altura, estou convencido de que ela merece o prêmio.

Isso porque ela é uma ariana que vai ficando mais suave no decorrer da série, menos tensionada no confronto com o mundo, e, por mais que esse seja um caminho esperado em uma narrativa cômica convencional, ela nos convence de que isso é possível. Não é só porque aprende a falar palavrões com certa civilidade (tipo “holy fork!”, eventualmente traduzido por “fruta que caiu!”); ela faz com que seja verossímil uma heroína de Áries do bem, na medida do possível, é claro. De todas as transformações que vemos no decorrer das temporadas, para mim a dela é a mais notável. Não quer dizer que fique menos ariana, pois conheço muita gente desse signo que já parte desse lugar em que o restante da humanidade não é visto apenas como uma ameaça, e sabe que dá até para conviver com gente, às vezes até gosta. Em se tratando de Áries, já é bastante coisa.

Chidi (William Harper), por sua vez, é o clássico libriano que precisa aprender a tomar decisões. Não por acaso é o par oposto-complementar de Eleonor. Mas acho interessante que seja um filósofo. É comum as pessoas acharem Libra um signo romântico, mas a gente sabe como eles conseguem ser incrivelmente frios e cerebrais. Falta-lhes o fogo das paixões leoninas, o poço dos sentimentos escorpiônicos, a sensibilidade ao ambiente de Touro ou Virgem. É lógico que nessa perspectiva falta um traço de Libra também todos os outros arquétipos, e falta mesmo. Sobretudo quando a gente conhece um libriano que, não obstante sua librianice, e inclusive por causa dela, sabe decidir que sobremesa escolher depois de colocar todas as opções na balança.

Jason Mendoza (Manny Jacinto) é um caso singular. Peixes, sem dúvida. O interessante é que ele é pisciano tanto em sua versão de mentirinha quanto depois que ficamos sabendo quem ele realmente é após os episódios iniciais da série. Nesse caso acho que não conta como spoiler porque a coisa se revela logo ali no segundo ou terceiro capítulo: ele passa de um monge tibetano de olhos puxados que vive à base de meditação e água fresca para um morador da Flórida de origem filipina de olhos puxados que vive à base de todo tipo de porcaria e pequenos roubos de gasolina. Embora o monge seja um personagem típico do arquétipo de Peixes, a versão verdadeira de Jason é até mais pisciana que a outra.

O legal é que ele não deixa nunca de ser um personagem ingênuo e encantador. Avoado, iludido, totalmente incapaz para os assuntos práticos da vida, mas nunca menos “espiritualizado” que sua versão monástica, mesmo quando se lembra do dia que passou atirando em ratos no lixão de Jacksonville com um primo de Blake Bortles. Porque ele espera ser aceito pelo mundo da mesma maneira como o aceita, e representa o papel do bobo em tudo o que tem de plena receptividade e espelhamento do mundo ao redor. Além de ser engraçado, é claro. Tem uma cena, por exemplo, em que está todo mundo dando opinião ao mesmo tempo sobre algum problema, aí ele entra e dispara a falar um monte de coisas nada a ver. Quando perguntam o que deu nele, responde: “Sei lá, estava todo mundo falando junto achei que era para eu falar também”. Tipicamente pisciano.

Quanto à Tahani (Jameela Jamil), aí já fico na dúvida. Ela tem a rivalidade geminiana pela atenção dos pais com a irmã, mas não tem agilidade de raciocínio de Gêmeos; participa do encanto leonino com o universo das celebridades, mas falta-lhe magnetismo e confiança para ser ela própria uma Leoa. No final das contas, fico achando que é de um signo de Terra. Mas nesse caso estou disposto a aceitar ajuda, então se alguém aí tiver um opinião a respeito pode falar. Vejam só que coisa bizarra estou me tornando: uma capricorniano que admite que não sabe uma coisa e até pede conselho pros outros. Tipo o Michael.

Voltando então rapidamente ao Michael: o engraçado é que, além de ser uma figura evidentemente capricorniana em sua função de gerenciar a coisa toda e saber tudo a respeito de tudo, ele a princípio tem ainda aquele traço de Capricórnio que não aceita a necessidade de ajuda. Precisa estar sempre no controle, sem precisar nem do palpite de mais ninguém. É lógico que isso já vai mudando a partir da segunda temporada, vai ficando mais claro como na verdade tudo o que ele precisa (e no fundo quer) é assumir a forma falível e imperfeita dos humanos. É muito exaustivo isso de se responsabilizar pelo universo o tempo inteiro. Algo semelhante poderia ser dito de muitos capricornianos. 

E tem a Janet (D’Arcy Carden), é claro. A Janet é um caso à parte. Aí eu perguntei pro pessoal da internet qual é o signo da Janet, e a resposta que mais me apareceu foi Virgem. Eu respeito essa posição e até entendo. Ela tem um gestual contido e um jeito de se vestir que são bem virginianos. Ela presta um serviço inestimável, aparece sempre que alguém precisa de alguma coisa, é uma funcionária exemplar do cosmos e e nem humana ela é. Pra muita gente, isso é mais que suficiente para cravar: virginiana.

Mas eu sou Capricórnio com ascendente em Escorpião, então quando peço conselho ou palpite pros outros vocês podem suspeitar que é só jogo de cena. Já formei minha opinião há tempos e nada me fará arredar dela. Acho que os gestos controlados e aparentemente metódicos da Janet têm mais a ver com fato de que ela não tem muita familiaridade com a forma humana que assumiu. Aí vocês precisam que considerar que, quando a gente fala que Virgem não é muito humano, isso é mais num nível metafórico; é lógico que não é literal. Tem só um signo que corresponde a essa característica sem precisar de licença poética. Tem só um signo de gente que veio de outras galáxias e está ainda se acostumando a viver entre nós.

Pois então: Aquário. Em primeiro lugar, exatamente por isso, porque nem humana ela é. Digo isso na certeza de que os aquarianos queridos do meu coração vão entender como um elogio: tipo, você nem é humano, você é uma Janet. E, como se não bastasse, ela é capaz de prover os humanos com aquilo que normalmente é reservado aos deuses, como fez Prometeu, protagonista do mito mais significativamente aquariano. O fato de que vai acabar se apaixonando por uma pessoa de carne e osso, e conhecer um pouco mais os desejos do corpo que a princípio lhe é estranho – isso também acontece com frequência no âmbito do arquétipo de Aquário. E a maneira como a mente dela se conecta como uma espécie de supercomputador a tudo o que acontece no universo só me faz ter mais certeza do meu ponto.

Para terminar, ufa, tem a série como um todo. Estreou em 19 de setembro de 2016. Essa sim é, portanto, virginiana. Para mim faz sentido: a narrativa costuma ser até bem metódica em sua sobreposição de universos como se fossem bonecas russas, mesmo quando flerta com o caos. Agora, eu apostaria que existe alguma coisa ali que articula muito bem Sagitário e Touro. Talvez a Lua no primeiro, o ascendente no outro. Pois o pano de fundo é sagitariano, de modo que toda a brincadeira é organizada em torno de uma indagação sobre o sentido da vida e a finalidade da existência. Ela pode não alcançar muita profundidade nesse sentido; mas isso, pelo menos para mim, não é necessariamente uma falha ou deficiência. É aí que entra a perspectiva taurina.

Pois, no final das contas, após as milhões de referências a Kant e Heidegger e Pascal, a série acaba recorrendo ao pensamento oriental para dar uma última resposta provisória ao enigma do existir. Sobre esse aspecto dos últimos episódios, sem entregar o enredo, vou me permitir uma pincelada, até porque o recurso é mais que previsível, e não apenas pelo andamento da série, mas pela própria linguagem seriada de que ela é um bom exemplo. A ideia de que o “fim” pode ser infinitamente postergado para uma outra temporada – e de que podem existir mundos infinitos dentro de infinitos mundos – faz, curiosamente, com que o momento presente seja mais valorizado. Se a própria morte não é conclusão de um processo, mas faz parte de um conjunto incessante de ciclos, não tem porque você se afligir com uma finitude ilusória, e você pode muito bem encontrar o infinito que existe contido no agora.

Buda, como já disse aqui vez ou outra, para todos os efeitos era taurino. Seu aniversário é comemorado no dia 07 de maio. Isso para mim está relacionado não apenas à paciência e à perseverança, mas também à capacidade que Touro tem de aproveitar as coisas boas da vida. Digo, aquelas coisas materiais e momentâneas mesmo, como uma boa refeição, um bom vinho, uma boa companhia ou a simples possibilidade de respirar fundo um ar puro e tranquilo. É por isso que para mim a série termina onde começa a grande lição de Touro para nós. Que é um pouco a lição de Buda também. Não saia daí. Respire. Aproveite a vida. Aproveite o momento. O lugar bom é onde você está.

Todos os signos

Estatísticas

Agradeço a todo mundo que atendeu ao meu apelo para contar o ascendente pelas redes sociais. Agora enfim tenho uma amostra considerável para oferecer minha contribuição ao desenvolvimento da ciência astrológica com o máximo rigor metodológico. Em seguida, apresento alguns dados do DATAGUS acompanhados das respectivas análises qualitativas:

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em ÁRIES foi de 5,8% do total. Porém, sabe-se que a conclusão da amostragem não corresponde à realidade. Tem muita gente com ascendente em Áries que já não está em rede social nenhuma. Saíram fora dessa.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em TOURO foi de 8,33333%. Foi o único signo cujo número correspondeu a exatamente 1/12 do total. O pessoal de ascendente em Touro é objetivo. Quando a gente pergunta o ascendente eles respondem “Touro”, e mantêm-se impassíveis, como que esperando a gente dizer alguma coisa a respeito. Mas nessas horas costumo perceber lá no fundo de seus olhos um desconcertante lampejo de sarcasmo.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em GÊMEOS foi de 8,8% do total. Desses, quase metade respondeu “Gêmeos kkkkkkkkk”. Deve ser divertido ter o ascendente em Gêmeos.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em CÂNCER foi de 7,5% do total. Infelizmente, nenhum deles me convidou para tomar um café e comer um bolinho na casa deles. Tomar café e comer bolinho na casa do ascendente em Câncer é especial. Convida aí, pessoal, que eu aceito.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em LEÃO foi de 12,3% do total. Outro número que com certeza não corresponde à realidade. Ter ascendente em Leão é o máximo. Tem gente que diz só pra aparecer.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em VIRGEM foi de 10,3% do total. É um número alto, mas possivelmente correspondente ao número de indivíduos vivos com este ascendente. Mesmo o pessoal com a Lua em Peixes ou Marte em Gêmeos uma hora resolve fazer tudo certinho e manter uma rotina saudável, se tiver o ascendente em Virgem. O percentual se explica pela longevidade.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em LIBRA de foi 8,6% do total. Uma breve análise das fotos de perfil confirma a fama desse ascendente. Ô gente bonita, meu Deus.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em ESCORPIÃO foi de 4,2% do total. O índice extremamente baixo é fácil de explicar. Um ascendente em Escorpião não vai sair contando isso por aí (eu, por exemplo, não conto). A propósito, 100% dos indivíduos que responderam com “quero ver vc adivinhar” tinham ascendente em Escorpião. Já três indivíduos perguntaram se isso de ter ascendente em Escorpião é grave. Dois deles, anonimamente.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em SAGITÁRIO foi de 8,0% do total. Metade desses já sabia tudo sobre ter ascendente em Sagitário. A outra metade pediu bibliografia.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em CAPRICÓRNIO foi de 6,9% do total. Aqui também acho que há uma distorção. Muitos não responderam a pesquisa porque estavam trabalhando em um projeto. Ascendente em Capricórnio está sempre trabalhando em um projeto.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em AQUÁRIO foi de 9,1% do total. Aqui temos um caso muito singular, mesmo para meu círculo de conhecidos: dois a cada três desses indivíduos são estudantes de humanos. Ops, de humanas. Mas faz sentido. Sempre tenho a sensação de que Aquário é gente de outros planetas que resolveu passar um tempo na Terra por algum motivo. No caso do ascendente agora está claro. Vieram nos pesquisar.

Enfim, o número de indivíduos que declararam ter ascendente em PEIXES foi de 6,4% do total. Aqui acontece algo aparecido com o ascendente em Áries. A diferença é que o ascendente em Peixes não está fora só das redes sociais. Ele está a caminho de estar fora da sociedade mesmo. Faz muito bem.

A propósito, dos 1,7% que responderam “ih não lembro”, presume -se que a maioria tenha ascendente em Peixes.

Por enquanto é isso. Estaremos em contínuo trabalho de processamento e análise das informações. A qualquer momento pode sair um novo relatório. Mais uma vez obrigado.

Todos os signos

Como morrem os signos

O Sétimo Selo, dir. Ingmar Bergman (1957)

Áries morre no calor do combate. Nem chega a ver o rosto da morte. Não sofre por antecipação: o golpe é fatal, súbito e exato.

Touro vê a morte de longe, depois vê a morte chegando, e vai se aproximando dela, até que se encontram. Nada altera seu caminho.

Gêmeos pode até aceitar a morte, só queria ter uma conversa com ela antes: “Isso de morrer, precisa mesmo?”, “esse seu trabalho, é meio pesado né?”, “lá pra onde a gente vai, tem internet?”

Câncer odeia a morte. Queria que ela morresse. Mas ia ficar triste se morresse mesmo.

Leão desafia a morte. Não tem chance de vencê-la, mas faz parecer que tem. Sua morte é uma derrota, mas uma derrota trágica, bela e gloriosa.

A morte de Virgem é um rito. Ela é recebida em um lugar adequado e com os utensílios corretos. Até para morrer existe um jeito certo.

Libra também conversa com a morte, e começa tentando fazê-la mudar de ideia. Depois aceita que a morte é inevitável. Acaba concordando com ela em inúmeros outros assuntos também.

Escorpião morre várias vezes na vida. Tantas que faz amizade com a morte. É com carinho que a recebe na última visita. “Vem cá minha velha”, diz, cheio de intimidades.

Sagitário tem uma teoria a respeito da morte, e vai explicá-la para a morte quando a morte chegar. Vai ser a maior viagem, mas a morte vai achar interessante e vai ouvir até o fim.

Capricórnio respeita a morte, sabe que ela está aí há muito tempo. Morrer é uma coisa que todo mundo faz, não vai ser ele que vai inventar moda do contrário.

Aquário recebe a morte como um convite para entrar em um clube, tipo ingressar em uma associação: “Tô nessa, quero participar também”. Mas Aquário pode sentir exatamente o contrário, a morte como oportunidade de deixar de participar do clube dos vivos: “enfim”, diz, “tire-me daqui”.

Peixes se rende à morte como se rende ao sono, deixa que ela leve peça por peça, entrega os pontos. E, se tem alguém que consegue enganar a morte, esse alguém é Peixes, quando finge que está jogando para vencer, e na verdade não está nem prestando atenção no placar do jogo.

sagitário

Sagitário não faz sentido

Sagitário é a constelação que está alinhada com o centro da Via Láctea, da perspectiva da Terra. Às vezes me pego pensando se isso tem algum significado. Parece fazer sentido que a seta do centauro esteja apontada para a fonte emissora de ondas de rádio situado no núcleo galáctico, que foi adequadamente chamada de Sagittarius A* pelo astrônomo Robert Brown (a fonte de rádio era ‘excitante’, e o asterisco é usado para indicar átomos em estado de excitação).

Parece fazer sentido. Não dá para saber se faz mesmo – mas o interessante é que a questão, ela própria, é sagitariana. A busca pelo significado das coisas e de suas relações encontra-se nesse arquétipo, com ênfase na procura e na exploração, não necessariamente nos próprios significados já obtidos. O sagitariano que alcance um ponto de vista privilegiado no alto de uma montanha vai sempre querer chegar ao cume da montanha seguinte, continuando o movimento que foi tão revitalizante da primeira vez. O que ‘faz sentido’ é a busca pelo sentido, e pela visão mais abrangente do mundo ao redor.

Há quem diga que o ser humano foi uma maneira que o universo encontrou de contemplar a si mesmo. Já no caso da mente sagitariana, creio que foi uma maneira que o universo encontrou de significar a si mesmo, criando relações onde há distâncias, depois que tudo se espalhou em um imenso e vertiginoso carrossel de estrelas, galáxias e planetas. Isso presume um movimento constante de ampliação do conhecimento disponível. A contemplação pura e simples não basta – haverá sempre algo além do que a vista alcança, mas que o corpo e o espírito podem ainda conquistar.

Por isso, em Sagitário, há também quem viaje compulsivamente, quem leia compulsivamente, quem discuta compulsivamente, sempre em busca do conhecimento, da expansão e da excitação que essas experiências oferecem. No entanto, onde de fato há uma dinâmica compulsiva, existe o risco de que ela se sobreponha a uma ‘falta de sentido’ da vida que precisa ser experimentada de vez em quando. Nem tudo precisa ter um significado, nem tudo precisa ter um motivo, nem tudo precisa ter um propósito. Às vezes respiramos o ar da montanha só por respirar.

Acho que por isso existe uma relação de Sagitário com a depressão, ou com a sensação aguda de que as coisas no mundo ‘perderam o sentido’. Pode parecer estranho, em se tratando de um arquétipo tão carismático e luminoso, mas uma coisa tem a ver com a outra. Não é que sagitarianos sejam mais deprimidos; é que os temas que surgem em seu espectro criam condições para essa experiência, e que em Sagitário (ou, com frequência, em trânsitos difíceis na casa 9 de um mapa astrológico) ela segue uma dinâmica específica.

Pensemos, por exemplo, em como as viagens internacionais são um tema sagitariano. É comum que as pessoas tenham agudas crises de depressão justamente durante viagens internacionais. De repente, nada faz sentido: essas ruas, essa língua, essas pessoas.  Justamente quando o mundo se expande criando a possibilidade de inúmeras novas conexões, tudo parece desconectado, e a gente parece desconectado do mundo, transformado em um amontoado de coisas sem razão e sem propósito.

São episódios difíceis inclusive por seu caráter totalmente inesperado. Todos os arquétipos de fogo podem estar relacionados à depressão (em Áries está a energia vital, em Leão está o prazer com a vida); mas é em Sagitário que a última fronteira da motivação para a existência parece ser atingida, e dá-se o golpe fatal no ânimo e na alma, pois envolve a questão do sentido. Por outro lado, sagitarianos são particularmente capazes de se recuperar gloriosamente desses episódios, ressurgindo com esplendor como se nada tivesse acontecido. Ou melhor: como se o nada tivesse acontecido. Porque é por aí mesmo, o nada aconteceu.

Estamos falando de um momento vazio, em que prevaleceu uma sensação hamletiana, de que “vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, sem sentido algum”. Uma espécie de intervalo do não-ser entre dois momentos de ser. Ao contrário, por exemplo, das crises de Escorpião, que implicam morte, transformação e renascimento (em Escorpião a crise tem um propósito, ela própria é dotada de sentido), aqui estamos diante de algo como um vagalume que volta brilhar com a mesma luz após um instante de escuridão. Um super-vagalume, é verdade; um vagalume sagitariano.

Sua luz é como as ondas de rádio que chegam até nós desde o centro galáctico: atinge as maiores lonjuras. Por outro lado, ele pode aprender com outros arquétipos a obter algo mais do ambiente imediato. Sagitário é capaz de recorrer aos mais sofisticados sistemas filosóficos para entender algo que esteve disponível aqui o tempo inteiro, ou de viajar até a Ásia para descobrir aquilo que o jardineiro no quintal do vizinho pode estar dizendo ao assoviar uma melodia simples.  

Um momento vazio pode ser um momento do vazio: um instante em que as necessidades de ação e de motivação estão suspensas, e a respiração basta, e a vida é vivida, sem que ninguém se pergunte se ela faz sentido ou não. Ninguém precisa ir até o Himalaia para saber isso. Nós que aqui estamos tal como aqui vivemos podemos não ser plenos de significados, tampouco significados nos faltam; ninguém precisa conquistar o mundo ou desbravar as galáxias que restam quando tudo o que se precisa está ao alcance da mão.

Enfim, estamos agora nos aproximando de uma lua nova em Sagitário. Isso quer dizer que ela estará em breve se alinhando com a Terra, com o Sol e com o Centro Galáctico. Não que isso faça algum sentido, pelo menos não a princípio, antes de colocarmos a pergunta e dela criar um desejo de sentido onde antes havia apenas uma configuração geométrica. Por outro lado, não custa lembrar que o sistema solar como um todo também se move ao redor do centro a uma velocidade de 828.000 km/h, e a própria galáxia se desloca ao se afastar das demais com a expansão do universo, sem falar na rotação da terra sob nossos pés, e que isso não precisa fazer sentido algum: é apenas algo que acontece, da forma mais esplendorosa que você possa imaginar. Mas no fundo nós sabemos disso, quer dizer, nós participamos disso, porque é isso que estamos fazendo exatamente agora. Voamos no espaço acompanhando todos esses movimentos e não lhes oferecemos resistência alguma. Nem pensamos a respeito. A gente é todo mundo zen e nem sabe.

astros

A oposição de Júpiter

Before Sunrise (1995) | Dir. Richard Linklater

Esses dias publiquei aqui textos sobre trânsitos que antecedem idades redondas (o retorno de Saturno para os trinta anos, a quadratura de Plutão para quem está chegando aos quarenta), e fiquei pensando se haveria algo equivalente antes dos vinte. Acho que há. Ali por volta dos dezoito anos todos vivemos uma oposição de Júpiter, que vai acontecer regularmente de tempos em tempos na sequência, mas que nessa época tende a ser mais importante e acentuada, demonstrando uma evidente sincronia com experiências comuns – mas nem por isso ordinárias – dessa etapa da vida.

Talvez eu tenha pensado especificamente em Júpiter por causa do Antes do Amanhecer, um filme que me diz muito sobre esse momento, e que, junto com os outros dois filmes da trilogia que se seguiu, pode muito bem representar as três etapas a que estou me referindo. O primeiro filme é a história de um casal que se conhece em um trem durante uma viagem, e os outros são os desdobramentos de sua relação nas décadas posteriores. Acho o procedimento seriado interessante, e gostei do segundo filme também. Mas é no primeiro mesmo que está o grande feito do diretor, na minha opinião, pois ali ele conseguiu representar uma a experiência de modo quase arquetípico mesmo, inclusive correndo o risco de cair no estereótipo.

Júpiter, portanto. Está relacionado a todo tipo de expansão, de projeção para além dos limites conhecidos, e por isso sua associação direta com o tema da viagem. É verdade que nem todos os jovens realizarão uma viagem decisiva ou importante nessa época da vida, mas algum tipo de acontecimento ou mudança costuma sempre trazer uma ampliação equivalente de horizontes – com frequência através do conhecimento e da educação superior, que são os outros temas jupiterianos por excelência.  

Sou professor universitário, e, talvez por gostar de assistir essa expansão, gosto de dar aulas no primeiro período. Tenho alunos mais velhos também, gosto de ter, mas existe algo de singular na situação de quem entra na universidade por volta dos vinte anos. É um enorme conjunto de mudanças para o qual a vida universitária é não somente um ambiente propício como também uma espécie de símbolo, que aponta justamente para a ‘ampliação’ – do conhecimento, do círculo social, muitas vezes do próprio universo geográfico do aluno. ‘Ir para a universidade’ nunca é só ir para a universidade. É ir para um outro mundo, e muitas vezes ir para o mundo, no contraste com a limitação das fronteiras antes conhecidas.

A experiência, é claro, conhece variações, e implica frustrações, dúvidas, medos. Mas de modo geral não há mudança maior do que aquela verificada entre o começo e o fim do semestre de uma turma de primeiro período. Não estamos falando só da libertação de uma fase embaraçosa da adolescência (o fim do ensino médio pode ser sentido assim), mas sobretudo da percepção de que de fato existe algo além dos muros da escola a ser desbravado e conquistado. Não se trata apenas de romper com um passado morto, mas também de criar uma visão vívida do futuro, por mais imprecisa que ainda possa ser.

É também verdade que nem todo mundo encontrará essa ampliação de horizontes na universidade, e além da viagem há ainda outras possibilidades. Mas felizmente a educação superior tornou-se mais acessível aqui no Brasil. Pensando nisso, me ocorreu agora que, embora todos os signos tenham motivos de sobra para estar enfastiados com o atual governo – os capricornianos pela incompetência, os virginianos pela bagunça, os librianos pela vulgaridade, etc etc –, os alvos primordiais parecem estar nos arquétipos de fogo: Áries, Leão e Sagitário. Os impulsos para a liberdade, para o prazer e para o conhecimento parecem inclusive ser vítimas preferenciais de toda a onda reacionária recente no mundo.

De modo que esta pode ser uma época histórica particularmente difícil para se ter 18, 19, vinte anos. É uma etapa da vida em que a gente costuma ficar pleno de futuro, até bêbado de futuro, tamanhas são as novidades que surgem e possibilidades que se abrem, todas elas contendo promessas variadas, que vão se sucedendo e sobrepondo. No entanto, temos aí gente empenhada em realizar uma espécie de bloqueio do futuro, de maneira ostensivamente contrária à liberdade, ao prazer e ao conhecimento, por motivos pessoais mesquinhos inclusive. Mas estes felizmente são os que têm menos fôlego para o longo prazo.

Talvez eu esteja pensando nisso tudo também porque tenho um filho chegando nessa idade. Então, Tiago, se você estiver lendo, não desanime, como espero que meus alunos mais jovens não desanimem. As promessas que Júpiter é capaz de proporcionar continuarão sendo muito maiores do que isso que está aí. Se vão se realizar ou não é outra história; elas não existem exatamente para serem concretizadas, mas para injetar ânimo e entusiasmo em projetos que podem até ficar no meio do caminho. Pois a primeira metade do caminho basta para alimentarem a sensação de que a vida vale a pena, e essa sensação é propósito suficiente para sua existência provisória.

There’s nothing that keeps its promise, “não há nada que cumpra sua promessa”: lembrei dessa frase que abre o Teatro de Sabbath do Philip Roth enquanto pensava em Júpiter. Philip Roth é um autor jupiteriano, por sinal: dado a excessos, tagarela, expansivo, e por isso mesmo capaz de atingir mares nunca antes navegados (chequei aqui agora, pisciano com ascendente em Sagitário). Pensei duas vezes antes de incluir a frase nesse texto; não é o tipo de notícia que você quer dar para jovens empolgados com o futuro. Mas, na segunda vez, pensei assim: eles não se importam.

Eles não se importam. Tenho alunos que ao ouvir isso jamais ficariam lamentando o descumprimento iminente de suas expectativas. Eles iriam querer saber quem é esse Philip Roth, o que foi que ele escreveu, o que está traduzido, e talvez se animassem com a ideia de estudar mais inglês para conhecer a parte da obra dele que não está editada aqui, e assim quem sabe conhecer outros autores também, e um dia talvez fazer um doutorado em uma universidade americana sobre isso, ou então aproveitar o conhecimento da língua para realizar um trabalho voluntário em outro continente – ou então aprender não só inglês mas também italiano para ler Dante no original e russo para ler Dostoievski, e aí terminando o Dostoievski talvez escrever um romance em português mesmo porém em um português que ninguém nunca viu igual, talvez sobre as experiências de uma viagem ao redor do mundo, incluindo a história da pessoa que conheceram em um trem e depois passaram uma noite com ela em Viena ou em Istambul ou em Guadalajara.

A oposição de Júpiter é isso aí. Não há nada que seja capaz de conter suas promessas, nada mesmo, nem as ironias de velhos escritores geniais, nem as mesquinharias de estúpidos governantes. Sair de casa, viajar, conhecer o mundo, conhecer o mundo para além das fronteiras do bairro, conhecer os livros que trazem o mundo para dentro de nossa casa: tudo isso contém em si uma semente de mudanças cuja dimensão concreta é a princípio a que menos importa. A injeção de ânimo e otimismo de que precisamos pode estar nesses gestos, e através deles podemos talvez recuperar muito do prazer e da liberdade perdidos. E então perceberemos que nada disso na verdade foi perdido em momento algum, e que nosso fogo continua aí, aguardando essas faíscas, para se reacender.

gêmeos, sagitário

O riso e o escárnio

Gêmeos e Sagitário. Dos signos mutáveis, os que mais obviamente implicam movimento estão neste eixo de opostos complementares. Gêmeos é o arquétipo das viagens curtas, do pensamento rápido e da curiosidade inconstante. Sagitário diz respeito a longas distâncias, longas argumentações, ao engajamento em um propósito e ao entusiasmo com suas chances de sucesso. Num caso, o raciocínio analítico decompõe o mundo nas peças de um jogo ou de um brinquedo, fazendo com que a pessoa seja capaz de reinventá-lo em mil formas tão diferentes quanto provisórias. No outro, existe o desejo por uma síntese final e absoluta, por uma definição que não está disponível de imediato, e que precisa ser procurada em peregrinações mundo afora (ou jornadas noite adentro, através do estudo e dos livros).

O contraste faz lembrar um texto que eu e um amigo geminiano traduzimos muitos anos atrás, chamado “A Flexibilidade do Self na Literatura do Renascimento”. O autor, Thomas Greene, investiga como teria surgido entre indivíduos renascentistas uma ambição por elevar o próprio homem à condição divina, em movimentos verticais, voltados para o alto, para o céu, para o absoluto, onde estaria o mais completo entendimento dos mecanismos da criação. Ao mesmo tempo, ele assinala como não deixou de haver na época uma mobilidade de tipo horizontal, de maior desenvoltura e habilidade prática para resolver e aprontar encrencas pontuais, capaz de brincar com a vida de modo menos sério.

Greene associa esse comportamento às heroínas das comédias de Shakespeare, ao talento que tinham para ocupar diferentes papéis em uma trama, fazendo-se passar pelo que não eram. Podemos também vê-lo na imagem do Malandro, do Trickster e do Coringa (“why so serious?”), que pode ser qualquer personagem do baralho, e ao mesmo tempo não é nenhum (sem identidade pessoal alguma para desenvolver, mas movimentando-se lateralmente com total liberdade). Assim, tudo indica que nosso riso mais cotidiano tem a ver com a percepção do múltiplo e do relativo – enquanto na possibilidade do absoluto e da realização de feitos extraordinários está um prazer de outra natureza, mais entusiástico e elevado. No entanto, já presenciei gargalhadas sagitarianas tão épicas quanto destruidoras de quaisquer certezas e convicções, e fico pensando que tipo de desconstrução entra em jogo nesse caso.

A propósito, nossa época reviveu uma busca renascentista: a do Desenho Inteligente do Cosmos, ou da Teoria de Tudo. O Grande Colisor de Hádrons de Genebra está envolvido nisso e é uma extravagante e sagitariana estrutura voltada para o conhecimento dos fundamentos dos cosmos. Por mais que tudo se justifique em nome da ciência, um empreendimento dessa dimensão não teria sido realizado se não houvesse em sua origem desejos e anseios de outra natureza. O mundo foi geminianamente decomposto em minúsculas pecinhas, mas para que em seguida se anunciasse com estrondo a descoberta de uma pecinha especial: o Bóson de Higgs, a “partícula de Deus”, em torno da qual tudo se reuniria novamente.

No entanto, alguns desdobramentos subsequentes da investigação ameaçam jogar por terra todas as conquistas anteriores, no que se refere à revelação de um universo de leis inteligentes e articuladas (tem um ótimo documentário sobre isso na Netflix, “Particle Fever”). Cientistas que passaram uma vida criando modelos em que todas as peças do cosmos encaixariam de novo em uma imagem coerente estão se defrontando com evidências e resultados contraditórios, que não se adequam à suas expectativas e podem inclusive enterrá-las para sempre. Uma possível explicação para o fracasso desses modelos é a hipótese de que vivemos em um universo entre muitos outros, que não seria o resultado de um desenho inteligente, mas de um conjunto de felizes acasos. De modo que, onde eles vêm o uno, existe o múltiplo, e por isso, de onde esperam números absolutos, tudo o que recebem são variáveis relativas ao ambiente em que se encontram. Nasceu assim a hipótese do multiverso.

A divulgação desses resultados foi motivo de intensas crises existenciais por parte alguns pesquisadores, que vinham nutrindo um incontido entusiasmo com as chances de sucesso que vislumbraram. Mas será que não podemos receber a notícia desses fenomenais reveses também com um trovejante e jupiteriano riso, estrondoso, libertador? O múltiplo e o relativo não são igualmente engraçados nessa escala? Não é divertida em um nível intergaláctico a ideia de termos não um, mas múltiplos universos, cada um com seu jeitão e suas manias?

Acho que os sagitarianos, pelo menos, sabem que sim. Acho que a gargalhada sagitariana pode muito bem ser essa gargalhada cósmica diante da futilidade dos mais elevados esforços. Pois a gargalhada sagitariana, em qualquer manifestação ou momento, não é simplesmente um riso diante das patetices do dia-a-dia; é uma espécie de prazenteiro escárnio niilista diante do vislumbre de uma derrota final e redentora, que nos salva de nossas limitadas ambições terrenas, e nos coloca de volta no caminho de uma busca que só faz sentido se não tiver chance de terminar, porque haverá sempre novos caminhos a desbravar e novos universos a descobrir.

Já no âmbito geminiano, por outro lado, talvez isso nos faça descobrir que há algo de solene na impermanência. Que as inúmeras variações das formas do mundo não são apenas divertidas: são também o que temos de mais verdadeiro. Deste modo, será possível descobrir a verdade naquilo que temos de mais próximo e disponível. Sagitário e Gêmeos, afinal, são arquétipos que envolvem as figuras do professor e do aluno, e neles é possível atualizar a máxima zen que trata das relações entre mestre e discípulo: diante de assuntos sagrados, dê uma gargalhada; diante de assuntos cotidianos, sorria, e perceba, o sagrado está aí.