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O fracasso segundo Quíron

A educação de Aquiles (c. 1690) | Pierre Puget

“Você tem que amar antes”. Lembro do soco no estômago que senti ao ler essa frase. Eu estava na época começando a dar aulas em uma universidade, e, jovem professor doutor com um punhado de autores na ponta da língua, esperava ser admirado pelos meus alunos. Mais que isso: eu esperava ser amado por eles, como consequência da admiração talvez; e não entendia porque isso não acontecia, porque eu os sentia distantes, desconfiados, desconfortáveis. Então, de repente, lendo por acaso aquele conto de Harold Brodkey (“State of Grace”, em First Love and other sorrows), percebi que eu mesmo nunca tinha demonstrado carinho por meus alunos, nem admiração, nem preocupação, ocupado que estava em exibir meus títulos e conhecimentos eruditos. Percebi que estava fazendo tudo errado se o que eu queria era amor. “Você tem que amar antes, estúpido. Você tem que amar antes”.

Desde então, às vezes me lembro desse instante, sobretudo quando Quíron aparece na minha vida, através de um encontro com o arquétipo, trânsitos astrológicos, consultas, leituras e tal.  Aí recentemente me peguei tentando entender o que uma coisa tem a ver com a outra. Aconteceu depois que tive notícias que remetem a um bairro de subúrbio onde passei parte de minha infância e adolescência. Era um desses lugares baldios onde a pobreza não é o suficiente para levar ninguém ao desespero, mas é o bastante para causar uma vaga desesperança, na coexistência de jovens desocupados e tios bêbados, adultos desempregados e idosos tristes – e onde, por mais que exista uma memória de bons tempos passados, com frequência paira uma penosa sensação de fracasso no ar.

Como dói, às vezes, quando tenho notícias desse lugar. É aquela dor que costumamos associar ao mito de Quíron – incurável, permanente, ferida aberta que remédio algum vai inibir. E, ainda assim, volta e meia percebo como tanta coisa na minha vida foi voltada para uma tentativa de curá-la. Todas as vezes que entendi uma conquista profissional como um sucesso capaz de aliviar minhas tristezas, ou que confiei no dinheiro como único recurso para me sentir menos vulnerável, acho que estava querendo de algum modo superar o medo de ficar estagnado em um dos fins de tarde mormacentos que vivi ali, sem outra perspectiva para a noite que não fosse continuar perambulando por lá.

Acredito que, de um jeito ou de outro, todo mundo sabe bem do que estou falando. Todo mundo tem um bairro pobre pra chamar de seu. Às vezes ele vai estar no carinho minguado que recebemos de um de nossos pais, mesmo quando o dinheiro nunca faltou; às vezes vai estar na pouca inteligência e cultura que parecia existir em casa, mesmo quando não faltava afeto. Curiosamente, é aí que passamos uma vida tentando encontrar nos relacionamentos a segurança que nosso pai nunca deu, ou acumulando títulos e reputação e publicações acadêmicas em currículos intermináveis, e isso quando não saímos enumerando autores e obras diante de alunos intimidados, na expectativa de que eles enfim vão nos render as homenagens que a vida nos tem negado.

Então: esse bairro pobre, esse território de nossa psique que é atravessado por uma sensação de irremediável carência ou insegurança, é regido por Quíron. Não estou falando dos pântanos sombrios onde sofremos e cometemos os mais graves abusos – esse é o Hades de Plutão –, nem da pista de obstáculos e contrariedades que nos levam a algum tipo de sucesso – essa é a órbita de Saturno. Estou falando de um lugar que é exposto o suficiente para tentarmos escondê-lo através do acúmulo de emplastros, mas profundo o bastante para tornar um fiasco todos esses esforços. O fracasso segundo Quíron, então, é condição necessária para aceitarmos aquilo que em nós não tem conserto, quando percebemos que a maquiagem fica pior que a cicatriz, e que o problema talvez esteja na vontade de consertá-la.

Acho que associo isso tudo àquele início de minha atividade como docente por dois motivos. O primeiro é porque o Quíron da lenda era um professor, tutor de Aquiles e outros belos heróis, mas ele próprio destituído de beleza e heroísmo. Assim, se o Amor, segundo Sócrates, é aquele que busca o que não tem, e deseja o que não é, por sua vez Quíron é capaz de conceder o que nunca obteve, e distribuir o que nunca recebeu. Imagino, aliás, que essa seja uma das definições da docência, assim como é das artes terapêuticas, na medida em que o professor deseja que seus alunos obtenham sucessos e conquistas que ele mesmo nunca alcançou, e pode tornar-se uma figura essencial nesse processo.

O segundo motivo, menos evidente, porém mais decisivo, e relacionado a este último, está provavelmente no fato de que Quíron só encontra algum tipo de cura para si quando entende que vai ter que curar os outros antes. Para quem quiser um relato mais completo dessa história, fiz em outra postagem, está aqui. E o fato é que também como professor, como professor doutor, como professor doutor na universidade, talvez eu estivesse querendo mostrar aos meus amigos e aos tios bêbados lá do bairro que eu consegui sair para o mundo e me tornei uma espécie de sucesso. Queria sua estima, seu respeito, seu amor, como quis a dos primeiros alunos que tive na universidade. E fiz de tudo para conseguir isso, menos o que seria mais óbvio, menos o que seria mais fácil, que seria demonstrar minha estima e meu respeito primeiro.

Sim, eu os estimava, os tios bêbados inclusive, caso contrário não buscaria sua admiração. Mas ao querer que me admirassem por conta de meus supostos sucessos, e por ter traçado um caminho de vida tão distante (à primeira vista) do deles, eu podia muito bem estar dando a entender que os considerava fracassados, e que meus êxitos redimiriam o bairro inteiro de alguma forma. Que ilusão. A propósito, todos nós temos riquezas genuínas, que podem ser exibidas sem fazer ninguém se sentir mal. Mas, se a ostentação dos recursos obtidos para ocultar a percepção de uma falta gera desconforto, é porque sentimentos reprimidos de inferioridade criam desejos mal disfarçados de superioridade, capazes de manifestar-se de maneiras insidiosamente cruéis. Com tristeza, a gente tem que registrar que a atividade docente é terreno fértil para isso também.

Enfim, melhor ficar com a falta mesmo, melhor ficar com a ferida, melhor ficar com a derrota que nos aguarda de todo modo. Não porque ostentá-la nos tornará merecedores de carinho e atenção, mas porque aceitá-la é criar tempo e energia para outras coisas mais importantes, como amar e admirar as pessoas que amamos e respeitamos. E, se fizermos essas coisas antes, quem sabe de repente os outros assuntos estarão resolvidos, assim como a ferida de Quíron às vezes deixava de doer, sobretudo quando ele estava cuidando dos outros. Talvez desse modo a gente encontre o remédio que estava buscando, e cuja própria busca em algum momento nos afastou da cura, que estava desde o começo ao alcance da mão.

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Sobre Quíron

[Quíron, Peleus e Aquiles / Golden Porch: a book of Greek Fairy Tales / Flickr]

O pessoal lá na firma sabe que se me pedem para falar em Quíron é senta que lá vem a história. Se não pedem também. Tem de tudo nesse mundo: tem o maluco que gosta de falar de carros, tem o que gosta de falar de futebol, tem o que gosta de falar de Quíron. Tenho aqui uns três pequenos textos a respeito, esses dias me deu vontade de escrever mais um. Este é o primeiro, introdutório. Na sequência vou publicando os outros.

Trata-se de um asteroide com uma órbita meio estranha entre Saturno e Urano. Há quem o considere um cometa incomum. É um pouco como se fizesse a conexão entre Capricórnio e Aquário, porque da cabra ele retém o lado solitário e competente, mas acrescentando um comportamento excêntrico, marginal. É também um potencial regente de Virgem, por conta de suas funções de cura, atreladas a uma profunda consciência de imperfeições pessoais.

O Quíron mitológico foi um centauro, meio cavalo e meio humano, tutor de Aquiles, que um dia se feriu com uma flechada na perna. Aí ele passou a estudar todo tipo de tratamentos e remédios para sua ferida, mas nunca conseguiu saná-la. Por outro lado, percebeu que o conhecimento adquirido, embora não servisse a ele próprio, servia para curar os outros. Assim passou a ser conhecido como o xamã ferido, “the wounded healer” (aquele que, apesar da fratura exposta e incurável em seu corpo, torna-se capaz de curar).

Quíron é regente dos terapeutas. Ao menos daqueles que não ocultam as próprias tristezas e frustrações, não se apresentam como pessoas bem resolvidas e iluminadas. Aliás, todo tipo de aconselhamento pessoal – inclusive o astrológico – incorpora o arquétipo quironiano, na medida em que pressupõe uma pessoa cheia de medos e incertezas tratando das incertezas e medos de outra pessoa.

Trânsitos de Quíron podem inclusive trazer o instante de reconhecimento que uma antiga mágoa continuará nos acompanhando por toda a vida. Ou seja, uma mágoa que se tornará nossa companheira. Quando a manifestação de Quíron interfere na aparência de uma pessoa (Quíron na casa 1, por exemplo), temos alguém com uma cicatriz ou uma mancha aparente no rosto, ou um evidente senso de inadequação física, que termina sendo parte indistinguível de sua imagem.

O arquétipo tem ainda um monte de outras expressões, muitas delas inesperadas. Mas uma delas em particular acho muito bonita. É episódica: diz respeito a acontecimentos pontuais, às vezes corriqueiros, às vezes transformadores. Acontece quando, diante de um impasse em nossas vidas, de repente nos deparamos com o conselho ou a orientação mais acertada vinda de uma fonte imprevista, de aparência excêntrica ou traços marginais, que do nada aparece com a solução ou a advertência de que estávamos precisando, e depois some de novo.

Conselho quironiano: fiquem atentos às mensagens que chegam através de gente “doida”, gente bêbada, gente ferrada na vida. Eles podem não ter o remédio para os próprios problemas, mas têm algo de valioso a oferecer para todos nós.