astros

A curva do medo

Quillebouf, Foz do Sena (1833) | J. M. W. Turner

Essa semana comecei um grupo de estudos online sobre o papel de imagens e narrativas arquetípicas na psique humana de acordo com o pensamento de C. G. Jung. Há algo de voluntarioso e desajeitado nessas inciativas que nós professores universitários temos tomado agora para manter uma dinâmica interpessoal e intelectual; há algo de reconfortante, também. O contato que fiz com meus alunos foi breve, pontuado por falhas técnicas e ruídos estranhos, mas foi efetivo e teve seus bons momentos. Escolhi o tema deliberadamente para o período de confinamento, pois ele me parece abrir uma janela para vastos horizontes subjetivos inexplorados, expandindo nosso cosmos interior num momento em que a vida objetiva está tão confinada e empobrecida.

Por alguns instantes, foi possível esquecermos das limitações que a distância impõe, para encontrarmos pontos de contato e de encontro, talvez inclusive pontos de contato e encontro que não teriam sido identificados em uma aula presencial. Pois essas sessões virtuais de maneira alguma se equivalem à rotina acadêmica dos encontros reais. Por um lado, são incapazes de substituir o vínculo e a relação de confiança que são criados entre professores e alunos em sala de aula (de minha parte, não vejo a hora de poder voltar para o trabalho no campus). Por outro lado, as sessões virtuais talvez ofereçam algo de diferente em relação àquilo que estamos acostumados em nossas interações, então é hora de descobrirmos o quê.

A propósito, uma das coisas que os smartphones e a internet banda larga me trouxeram – e pelas quais sou imensamente grato – são os longos áudios de palestras do Alan Watts que estão disponíveis no Youtube. Watts, vale mencionar, foi um pesquisador de escolas filosóficas orientais como o Zen e o Taoísmo. Durante os anos 1960 e 70, era convidado com frequência para dar conferências a partir de suas experiências e leituras, e teve também programas dedicados ao assunto no rádio e na televisão. Ele se definia como um spiritual entertainer, o que de forma alguma soava como um epíteto depreciativo. Suas falas têm um embalo de raro poder hipnótico; elas podem ser tão tranquilizadoras, tanto no conteúdo quanto na forma, que eventualmente lembram algumas peças para piano de Eric Satie. Fica a recomendação para quem está buscando distrações para a quarentena. Vou deixar uns links no final do texto.

A título de curiosidade: Watts é mencionado no final do filme Her, de Spike Jonze (aquele em que o Joaquin Phoenix se apaixona pela voz de sua assistente virtual) como um filósofo que habita o mesmo universo paralelo de onde surge Samantha, a personagem de Scarlett Johansson. Através de sua voz, ele realmente se tornou uma presença na internet como poucas outros filósofos conseguem ser, e ganhou uma espécie de sobrevida que seus livros provavelmente não lhe teriam outorgado.   

Então: Alan Watts e C. G. Jung foram amigos, além de compartilharem o interesse pela história das religiões e pelas mitologias de diferentes povos. Aí, durante o encontro virtual do grupo de estudos – é sobre isso que quero falar, é sobre isso que é esse texto –,  me lembrei da bela palestra em que Watts descreve seu amigo Jung como uma pessoa que se sentia “à vontade consigo mesma”, inclusive com seus defeitos, inseguranças e falhas de caráter, o que fazia com que outras pessoas se sentissem à vontade em sua presença. O ato de não julgar a si mesmo de maneira rigorosa se refletia no modo como seus visitantes tampouco se sentiam julgados dessa forma.

Percebam: trata-se da dinâmica da projeção, porém nesse caso com um viés positivo. Ao invés de projetar no outro o que sentia existir de indesejável ou vil em sua personalidade, convertendo isso em motivo de desprezo ou denúncia, Jung reconhecia esses traços como seus, e os incorporava ao próprio comportamento até com certa malícia, com uma espécie de sorriso maroto por saber-se tão errado e lascivo como qualquer outra pessoa nesse mundo, por mais que fosse considerado um indivíduo extraordinário. Essa objetividade na aceitação dos próprios defeitos, por sua vez, tornava seus visitantes e pacientes confortáveis mesmo diante de um homem que respeitavam tanto, e cujo julgamento teriam temido até se verem em sua presença. De maneira mais ou menos consciente, eles percebiam como e por que esse temor havia sido infundado. Então, permitiam-se a mesma autoaceitação que Jung se permitia e inclusive exibia com certa graça.

Acho que estamos sentindo falta desse tipo de troca. Acho que algo assim pode ser possível agora, em que estamos todos tão igualmente desorientados e surpreendidos pelas circunstâncias. Infelizmente, parece que as redes sociais tendem a favorecer justamente o inverso, com a acusação rápida e o juízo sumário sobre as vilezas e deslizes dos outros ganhando proeminência, enquanto só aumenta o nossa desconforto na presença (ainda que virtual) de pessoas que sequer respeitamos, mas que ainda assim tememos,  porque parecem dotadas de convicções capazes de destruir reputações e carreiras, na mesma medida em que parecem cem por cento convictas da própria perfeição e santidade (parecem; é justamente o contrário).

Por outro lado, o fenômeno tem um componente sócio-histórico já conhecido que não passou desapercebido por Jung. Segundo o médico suíço, as condições de emergência do nazifascismo incluíram uma sociedade insegura e totalmente desconfortável na própria pele, que precisou encontrar um bode expiatório no qual seria projetado todo o mal existente no mundo, de tal maneira que sua eliminação fizesse restar somente as “pessoas de bem”. Assim, um vago mal-estar ganhava forma na figura de supostos monstros criados pela necessidade extirpar a incerteza que brotava em cada indivíduo. Estes então se aferravam desesperadamente aos simulacros de virtudes que exibiam, de modo que a percepção do diferente o reduzia à expressão de tudo o que é impuro, defeituoso e indigno de existir.

Há diferenças, evidentemente, na situação daquela época e na de agora. Mas há semelhanças também. E creio que elas estão menos nos acontecimentos em si do que nos sentimentos que fazem emergir. Em uma palavra: medo. As grandes crises econômicas e as pandemias, bem como as crises decorrentes de pandemias e as pandemias disseminadas em meio às crises, terão sempre como fatores comuns as emoções muito primárias que estimulam, com destaque para a incerteza e a insegurança que disseminam. Falo isso de uma posição relativamente confortável, de maneira alguma imune às consequências econômicas e ao risco de perder familiares queridos para a doença, porém com alguma possibilidade de atravessar o pior sem me ver totalmente destituído de recursos para enfrentá-lo.

E, ainda assim, estou com medo, medo suficiente para que tenha se tornado uma companhia constante, e uma companhia que preciso aceitar não apenas em seus aspectos inocentes, mas também no comportamento egoísta de autoproteção que é capaz de gerar. Porque a alternativa a reconhecer meu próprio egoísmo é projetá-lo outros, acusando-os de estarem ocupados somente com a própria segurança e bem-estar (como às vezes devem estar mesmo, como eu às vezes estou), adicionando injúria ao desespero, e fazendo com se sintam duplamente mal consigo mesmos. Dá para ver então como isso facilmente se reverte numa espécie de batata quente, pela maneira como essas acusações serão passadas adiante, ou retornadas para mim em dobro.

É verdade que épocas assim favorecem também comportamentos solidários e compreensivos. Mas, infelizmente, sabemos que momentos de grande ansiedade podem reverter-se nos períodos mais sombrios da história. Isso pode estar relacionado não apenas ao medo em si, e às reações mais ostensivas que favorece, mas também à dinâmica mais sutil pela qual ele se transforma em perseguição de um outro que passa a encarnar os sentimentos brutos rejeitados pela sociedade. Além disso, com a parte de nós mesmos que abriga aquelas virtudes (a solidariedade e a compreensão), temos certa facilidade de conviver, para não dizer certo gosto, na medida em que favorecem a autoestima e a aprovação das pessoas próximas. O difícil é encarar a outra parte (a que é covarde, insegura, medrosa), e não apenas aceitá-la, como também acolhê-la.

A situação me lembra um personagem de Hilda Hilst, Isaiah o matemático, que precisa acolher um porco que do nada lhe aparece em meio à limpidez do laboratório, desajeitado, gordo, temeroso, carente, parecendo enfermo inclusive. “Não é doença, Karl, é medo”, Isaiah então se lembra de sua mãe falando dele próprio, com ternura, com o pai. “Sempre de alguma coisa temos medo”.

Sempre de alguma coisa temos medo. Nosso corpo em particular está sempre atento para um conjunto enorme de ameaças com que a espécie humana não se acostumou muito bem a conviver. A analogia do porco com o corpo me parece imediata, e a relação porco-corpo-medo também; creio que Jung a teria aprovado a ideia do porco como imagem arquetípica, que remete aos instintos corporais mais básicos, mais inclinados a reações que consideramos vis e pouco iluminadas. Diante de um vírus então, essa ameaça tão poderosamente invisível, mais do nunca de alguma coisa temos medo. E temos medo de nós mesmos também, das nossas reações e sentimentos diante de uma catástrofe humanitária, temos medo de não sermos suficientemente humanos para enfrentá-la, temos medo da nossa mesquinhez e de nosso egoísmo. A parte suja que existe em nós parece prestes a vir à tona. Pois bem: se vier, aceite-a.

Aceite-a, porque aceitá-la significa interromper o mecanismo que a reproduz exponencialmente. Aceitá-la significa mantê-la dentro dos limites bastante razoáveis em que ela existe dentro de você, que deve ser uma pessoa bem capaz de egoísmos e generosidades, como a maioria das outras também é. Nada impede que a virtude e o vício coexistam e se alternem no comportamento de uma pessoa. Agora, caso você vire o rosto para o próprio egoísmo, fatalmente ele será projetado nos outros, que vão reagir acusando-o de ser o verdadeiro culpado, o verdadeiro mesquinho, ou buscando outros bodes expiatórios para a extirpar o medo que sentem, que assim vai só crescendo a cada indivíduo que dá sua contribuição para  afastá-lo de si. Em resumo, aceite seus sentimentos, porque aceitá-los é achatar a curva do medo.

Achatar a curva do medo é, basicamente, sentir medo, e buscar algum tipo de conciliação com a parte de nós que preferimos nem ver. Tudo isso traz à tona mais uma vez a figura de Quíron, o xamã ferido, o hierofante do tarô mitológico, o centauro ao mesmo sábio e vil que foi o tutor de Aquiles na mitologia grega. Quíron era vítima de um profundo senso de inadequação com o qual precisou aprender a conviver; era capaz das mais torpes baixezas, por sentir-se excluído da sociedade humana, e também das mais altas bondades. Não vou me estender nesse ponto porque já me estendi bastante nos outros, e já tratei de Quíron com mais detalhes em outras postagens (aqui, e também aqui, por exemplo).

Enfim, me lembrei dele novamente sobretudo porque a descrição que Alan Watts oferece de Jung é bastante quironiana, como acréscimo do sorriso suavemente perverso com que ele demonstrava conviver com as próprias perversões. Acredito que toda época encontra em alguns arquétipos de chance de ganhar consciência simbólica de certas virtudes e de certas falhas que a atravessam. A figura de Quíron tem a vantagem de que não apenas certas virtudes e falhas, como também essa ambivalência. Talvez tê-la mais uma vez à mão nos ajude a perceber que é possível sentir a ferida sem revertê-la em motivo de perseguição e ódio. Muito do que teremos com que lidar agora diz respeito a esses sentimentos. Ou, como diria a mãe de Isaiah: não é doença, Carl. É medo.  


PS: neste canal aqui você encontra uma boa coleção de gravações das palestras de Alan Watts; estão em inglês, mas pelo menos a dicção dele é clara e pausada o suficiente para permitir a compreensão de um ouvinte pouco adaptado. A palestra que mencionei sobre C. G. Jung é essa aqui.

astros

O fracasso segundo Quíron

Edward Hopper | Automat (1927)

“Você tem que amar antes”. Lembro do soco no estômago que senti ao ler essa frase. Eu estava na época começando a dar aulas em uma universidade, e, jovem professor doutor com um punhado de autores na ponta da língua, esperava ser admirado pelos meus alunos. Mais que isso: eu esperava ser amado por eles, como consequência da admiração talvez; e não entendia porque isso não acontecia, porque eu os sentia distantes, desconfiados, desconfortáveis. Então, de repente, lendo por acaso aquele conto de Harold Brodkey (“State of Grace”, em First Love and other sorrows), percebi que eu mesmo nunca tinha demonstrado carinho por meus alunos, nem admiração, nem preocupação, ocupado que estava em exibir meus títulos e conhecimentos eruditos. Percebi que estava fazendo tudo errado se o que eu queria era amor. “Você tem que amar antes, estúpido. Você tem que amar antes”.

Desde então, às vezes me lembro desse instante, sobretudo quando Quíron aparece na minha vida, através de um encontro com o arquétipo, trânsitos astrológicos, consultas, leituras e tal.  Aí recentemente me peguei tentando entender o que uma coisa tem a ver com a outra. Aconteceu depois que tive notícias que remetem a um bairro de subúrbio onde passei parte de minha infância e adolescência. Era um desses lugares baldios onde a pobreza não é o suficiente para levar ninguém ao desespero, mas é o bastante para causar uma vaga desesperança, na coexistência de jovens desocupados e tios bêbados, adultos desempregados e idosos tristes – e onde, por mais que exista uma memória de bons tempos passados, com frequência paira uma penosa sensação de fracasso no ar.

Como dói, às vezes, quando tenho notícias desse lugar. É aquela dor que costumamos associar ao mito de Quíron – incurável, permanente, ferida aberta que remédio algum vai inibir. E, ainda assim, volta e meia percebo como tanta coisa na minha vida foi voltada para uma tentativa de curá-la. Todas as vezes que entendi uma conquista profissional como um sucesso capaz de aliviar minhas tristezas, ou que confiei no dinheiro como único recurso para me sentir menos vulnerável, acho que estava querendo de algum modo superar o medo de ficar estagnado em um dos fins de tarde mormacentos que vivi ali, sem outra perspectiva para a noite que não fosse continuar perambulando por lá.

Acredito que, de um jeito ou de outro, todo mundo sabe bem do que estou falando. Todo mundo tem um bairro pobre pra chamar de seu. Às vezes ele vai estar no carinho minguado que recebemos de um de nossos pais, mesmo quando o dinheiro nunca faltou; às vezes vai estar na pouca inteligência e cultura que parecia existir em casa, mesmo quando não faltava afeto. Curiosamente, é aí que passamos uma vida tentando encontrar nos relacionamentos a segurança que nosso pai nunca deu, ou acumulando títulos e reputação e publicações acadêmicas em currículos intermináveis – isso quando não saímos enumerando autores e obras diante de alunos intimidados, na expectativa de que eles enfim vão nos render as homenagens que a vida nos tem negado.

Então: esse bairro pobre, esse território de nossa psique que é atravessado por uma sensação de irremediável carência ou insegurança, é regido por Quíron. Não estou falando dos pântanos sombrios onde sofremos e cometemos os mais graves abusos – esse é o Hades de Plutão –, nem da pista de obstáculos e contrariedades que nos levam a algum tipo de sucesso – essa é a órbita de Saturno. Estou falando de um lugar que é exposto o suficiente para tentarmos escondê-lo através do acúmulo de emplastros, mas profundo o bastante para tornar um fiasco todos esses esforços. O fracasso segundo Quíron, então, é condição necessária para aceitarmos aquilo que em nós não tem conserto, quando percebemos que a maquiagem fica pior que a cicatriz, e que o problema talvez esteja na vontade de consertá-la.

Acho que associo isso tudo àquele início de minha atividade como docente por dois motivos. O primeiro é porque o Quíron da lenda era um professor, tutor de Aquiles e outros belos heróis, mas ele próprio destituído de beleza e heroísmo. Assim, se o Amor, segundo Sócrates, é aquele que busca o que não tem, e deseja o que não é, por sua vez Quíron é capaz de conceder o que nunca obteve, e distribuir o que nunca recebeu. Imagino, aliás, que essa seja uma das definições da docência, assim como é das artes terapêuticas, na medida em que o professor deseja que seus alunos obtenham sucessos e conquistas que ele mesmo nunca alcançou, e pode tornar-se uma figura essencial nesse processo.

O segundo motivo, menos evidente, porém mais decisivo, e relacionado a este último, está provavelmente no fato de que Quíron só encontra algum tipo de cura para si quando entende que vai ter que curar os outros antes. Para quem quiser um relato mais completo dessa história, fiz em outra postagem, está aqui. E o fato é que também como professor, como professor doutor, como professor doutor na universidade, talvez eu estivesse querendo mostrar aos meus amigos e aos tios bêbados lá do bairro que eu consegui sair para o mundo e me tornei uma espécie de sucesso. Queria sua estima, seu respeito, seu amor, como quis a dos primeiros alunos que tive na universidade. E fiz de tudo para conseguir isso, menos o que seria mais óbvio, menos o que seria mais fácil, que seria demonstrar minha estima e meu respeito primeiro.

Sim, eu os estimava, os tios bêbados inclusive – caso contrário não buscaria sua admiração. Mas ao querer que me amassem através da consideração de meus sucessos, eu podia muito bem estar dando a entender que os considerava fracassados. A propósito, todos nós temos riquezas genuínas, que podem ser exibidas sem fazer ninguém se sentir mal. Mas, se a ostentação dos recursos obtidos para ocultar a percepção de uma falta gera desconforto, é porque sentimentos reprimidos de inferioridade criam desejos reprimidos de superioridade, capazes de manifestar-se de maneiras insidiosamente cruéis. Com tristeza, a gente tem que registrar que a atividade docente é terreno fértil para isso também.

Melhor ficar com a falta mesmo, melhor ficar com a ferida, melhor ficar com a derrota que nos aguarda de todo modo. Não porque ostentá-la nos tornará merecedores de carinho e atenção, mas porque aceitá-la é criar tempo e energia para outras coisas mais importantes, como amar e admirar as pessoas que amamos e respeitamos. E, se fizermos essas coisas antes, quem sabe de repente os outros assuntos estarão resolvidos. Sem a gente nem perceber.

astros

Sobre Quíron

[Quíron, Peleus e Aquiles / Golden Porch: a book of Greek Fairy Tales / Flickr]

O pessoal lá na firma sabe que se me pedem para falar em Quíron é senta que lá vem a história. Se não pedem também. Tem de tudo nesse mundo: tem o maluco que gosta de falar de carros, tem o que gosta de falar de futebol, tem o que gosta de falar de Quíron. Tenho aqui uns três pequenos textos a respeito, esses dias me deu vontade de escrever mais um. Este é o primeiro, introdutório. Na sequência vou publicando os outros.

Trata-se de um asteroide com uma órbita meio estranha entre Saturno e Urano. Há quem o considere um cometa incomum. É um pouco como se fizesse a conexão entre Capricórnio e Aquário, porque da cabra ele retém o lado solitário e competente, mas acrescentando um comportamento excêntrico, marginal. É também um potencial regente de Virgem, por conta de suas funções de cura, atreladas a uma profunda consciência de imperfeições pessoais.

O Quíron mitológico foi um centauro, meio cavalo e meio humano, tutor de Aquiles, que um dia se feriu com uma flechada na perna. Aí ele passou a estudar todo tipo de tratamentos e remédios para sua ferida, mas nunca conseguiu saná-la. Por outro lado, percebeu que o conhecimento adquirido, embora não servisse a ele próprio, servia para curar os outros. Assim passou a ser conhecido como o xamã ferido, “the wounded healer” (aquele que, apesar da fratura exposta e incurável em seu corpo, torna-se capaz de curar).

Quíron é regente dos terapeutas. Ao menos daqueles que não ocultam as próprias tristezas e frustrações, não se apresentam como pessoas bem resolvidas e iluminadas. Aliás, todo tipo de aconselhamento pessoal – inclusive o astrológico – incorpora o arquétipo quironiano, na medida em que pressupõe uma pessoa cheia de medos e incertezas tratando das incertezas e medos de outra pessoa.

Trânsitos de Quíron podem inclusive trazer o instante de reconhecimento que uma antiga mágoa continuará nos acompanhando por toda a vida. Ou seja, uma mágoa que se tornará nossa companheira. Quando a manifestação de Quíron interfere na aparência de uma pessoa (Quíron na casa 1, por exemplo), temos alguém com uma cicatriz ou uma mancha aparente no rosto, ou um evidente senso de inadequação física, que termina sendo parte indistinguível de sua imagem.

O arquétipo tem ainda um monte de outras expressões, muitas delas inesperadas. Mas uma delas em particular acho muito bonita. É episódica: diz respeito a acontecimentos pontuais, às vezes corriqueiros, às vezes transformadores. Acontece quando, diante de um impasse em nossas vidas, de repente nos deparamos com o conselho ou a orientação mais acertada vinda de uma fonte imprevista, de aparência excêntrica ou traços marginais, que do nada aparece com a solução ou a advertência de que estávamos precisando, e depois some de novo.

Conselho quironiano: fiquem atentos às mensagens que chegam através de gente “doida”, gente bêbada, gente ferrada na vida. Eles podem não ter o remédio para os próprios problemas, mas têm algo de valioso a oferecer para todos nós.