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Escrito nas estrelas

Existe um filme dos anos 1990 em que Deus aparece para os personagens através de um grande painel luminoso de beira de estrada. Eu me lembro de pouca coisa desse filme; sei que era com a Sarah Jessica Parker e com o Steve Martin, e que Deus aparecia para eles através de um grande painel luminoso de beira de estrada. O engraçado disso era a maneira escancarada e nada enigmática com que Ele se comunicava, sendo ao mesmo tempo capaz de passar totalmente desapercebido (porque, né, quem ia acreditar que era o Próprio se manifestando ali em letras garrafais, ao lado das varandas de um motel ferrado nos arredores de Los Angeles). A razão pela qual me lembrei agora desse filme e dessas cenas é a mesma que me fez ter vontade de deixar aqui mais algumas observações sobre os trânsitos astrológicos de 2020.

Para ser direto, até porque esse texto é um também um pouco sobre como as mensagens do cosmos podem ser claras, luminosas e garrafais, eu diria que Deus pode estar se comunicando com cada um de nós exatamente assim nesse início de ano. Está se expressando de maneira inequívoca, grosseira, até escrachada, porém por meio de artifícios tão ostensivos que por isso mesmo podem não parecer, digamos assim, divinos. Nós esperamos de Deus que se comporte com certa dignidade, que respeite o decoro do cargo, que mantenha um mínimo de compostura – não que nos jogue verdades na cara como uma tia bêbada que perdeu a paciência com as sutilezas da família na ceia de natal. Jesus Cristo, por exemplo, trouxe sua palavra através de delicadas e elegantes parábolas, e inclusive recusou lançar mão de quaisquer recursos cênicos milagrosos para provar seu poder e aumentar seu rebanho.

Agora, já que Jesus entrou na história, é bom deixar claro de que tipo de deus estou falando. E o deus de que estou falando atende pelo nome de Plutão, ou Hades, o soberano dos infernos na mitologia grega, e que na astrologia responde pelas camadas mais profundas da psique, por nossa relação com a mortalidade, e pelos comportamentos mais desviantes ou abusivos do ser humano. De modo que é uma mensagem vinda lá de baixo, de um lugar para onde normalmente não queremos olhar, sobre assuntos que normalmente não queremos remexer, que está sendo enunciada, sublinhada, destacada, gritada, berrada e balida para muita gente esses dias. O fato de ser uma mensagem possivelmente indesejada não a torna menos bem-vinda, e talvez ela esteja recebendo esse tratamento agora exatamente para que a gente enfim a aceite, e, com isso, a vida possa seguir adiante.

De um ponto de vista técnico, a percepção condiz com o significativo conjunto de planetas que está formando um quase inédito alinhamento em torno de Plutão até meados de janeiro de 2020. Vale notar que o fenômeno inclui Mercúrio, o mensageiro dos deuses, também aquele que fazia a ligação do plano terreno com o submundo – e, portanto, em sua aparente superficialidade, um agente fundamental da sincronia entre fenômenos psíquicos profundos e as vastas dimensões astrais. Mas creio que todos os integrantes da trupe estarão cada um à sua maneira enfatizando uma verdade que já está aí há algum tempo, mas que podemos ter tentado evitar de todo jeito até agora. Não mais: é a definitiva consciência dessa mensagem, por mais difícil que seja, que vai nos permitir começar de novo e voltar ao jogo em 2020.

É também disso que estava falando quando disse na última postagem que “o fim está próximo”. O fim é essa consciência de algo não tem mais jeito, não tem conserto, não tem remédio, nem nunca teve, na verdade. Ou, como descreveu a psicóloga e astróloga Liz Greene: “Plutão, ao que parece, rege aquilo que não muda nem vai mudar. Essa é uma questão particularmente dolorosa na época das terapias de autoajuda e da disseminada crença de que podemos ser o que quisermos (…) É irônico, e paradoxal, que a genuína aceitação do imutável seja a chave para transformações profundas na psique humana. Essa ironia de fato não parece ser comunicável a não ser nas chamas da vida. Então ela permanece um segredo, não porque ninguém irá contá-la, mas porque ninguém vai acreditar nela, a não ser que tenha sobrevivido ao fogo.”

Greene acrescenta ainda: “Terapias e meditações e dietas e encontros não têm efeito aqui; e a decisão não é mais sobre a coisa certa a se fazer, mas se devo sacrificar o braço direito ou o esquerdo”. Nesse ponto imagino a impotência que ela mesma deve ter sentido como psicóloga para ajudar seus clientes a contornar crises dessa natureza, diante da ineficácia de seus recursos e técnicas e truques terapêuticos. Estamos falando, por exemplo, do momento em que uma mulher compreende que a maneira como foi tocada por um parente quando menina foi sexualmente abusiva, ou que determinado episódio com um ex-namorado violento foi na verdade um caso de estupro – e que isso, o fato de ter sido estuprada, já não se acomoda às explicações que criou ou aceitou para evitar dar o nome às coisas, tornando-se então parte incontornável daquilo que ela é, foi e virá a ser.

Sei que, para quem começou esse texto lendo uma leve e simpática menção a uma comédia romântica, talvez aguardando uma otimista previsão de ano novo, chegamos a um ponto meio sombrio demais para os incautos. Paciência, é isso que que você recebe quando resolve ler alguém o blog de alguém com lua em Gêmeos e ascendente em Escorpião. E a partir daqui não tem mais volta. “A PARTIR DAQUI NÃO TEM MAIS VOLTA”: leia, é o que estão dizendo os sinais. Mas, naturalmente, eles vão afetar uns mais que outros, de acordo com os planetas em seus mapas natais, de maneira que o incontornável pode se apresentar de maneiras mais ou menos intensas para cada um, e pode relacionar-se com assuntos mais prosaicos, embora sempre com um certo grau de evidência e mesmo de acintosa honestidade.

Um exemplo simples é o de alguém que, diante de uma pessoa querida, porém bastante mais velha, de repente percebe com toda clareza a decadência corporal e finitude que essa pessoa encontrará em um futuro não muito distante. Outro é de um indivíduo que vem insistindo no sonho de uma determinada carreira, e se depara com um empregador descuidado, que em uma entrevista irá lhe dizer que não, de maneira alguma, ele não leva o menor jeito para aquilo. Como provavelmente seria o caso nessa situação, quando Plutão e suas barreiras intransponíveis aparecem para nós, a primeira e natural reação é de raiva, ou desespero, ou a mais absoluta impotência. Só com o tempo somos capazes de nos tornar gratos ao entrevistador que nos tirou as mais preciosas esperanças e nos encaminhou a contragosto para uma outra atividade, ou à enfermeira que nos deu uma notícia triste de maneira honesta, ou ao terapeuta que nos levou até o submundo de nossas memórias para revirar o lixo que existe lá. Só com o tempo – se é que.

Se é que: mas gratidão nesse caso é um sentimento de menor importância. Aceitar já basta. E como é difícil, às vezes, aceitar mesmo aquilo que está piscando em luzes ofuscantes diante da gente. Esses dias, para dar um último exemplo, uma pessoa que já mentiu muito para mim no passado – em uma triste história que envolve segredos familiares, manipulação e violência, o pacote completo – resolveu inventar uma história para justificar um comportamento inadequado mais recente. Foi esse o acontecimento que me fez lembrar do filme com Deus no pisca-pisca da beira da estrada.

Bom, eu estava acostumado a pensar que essa pessoa mentiu para mim no passado – não que isso permanecesse como um hábito, não que a história lá de trás continuasse de algum modo agora, com outras pessoas envolvidas. Então precisei escutar uma história escancaradamente mentirosa para cair em mim: mas é claro, essa pessoa mente, sempre mentiu, simplesmente nada mudou. Nesse caso em particular, sinto hoje o distanciamento necessário para ser capaz inclusive agradecer ao destino pelo descalabro da versão dos fatos que me foi apresentada nessa situação presente, até porque ela é bem menos ofensiva do que as anteriores. Era como um outdoor de todo tamanho feito para que eu percebesse: veja, é uma mentira. E não há como ser de outro jeito.

O que eu queria mesmo, é claro, era que me fosse contada a verdade, e sobretudo que a verdade do que vivi e vi lá atrás quando era criança fosse reconhecida, que alguma espécie de retratação me fosse concedida, ou algum traço de arrependimento presenciado. Mas é nessas horas que o destino intervém para dizer: NÃO VAI ROLAR. Disso eu até já sabia há algum tempo, mas Plutão tem esse jeito que reaparecer para a gente às vezes, quando começamos a reassumir esperanças sobre os assuntos que ele governa em nossas vidas. A vantagem é que, depois, a energia que sobra para outros assuntos é imensa, simplesmente porque as energias que gastamos confrontando o inconfrontável, durante grande parte da vida, é desmedida também.

Enfim, outro dia minha mulher me perguntou se é possível identificar um serial killer por seu mapa astral. Tive que dizer a verdade: muitos são parecidos com o meu. Segundo a própria Liz Greene, pessoas com mapas assim (tenho o Sol e Marte em quadratura exata com Plutão, entre outros detalhes adicionais) ou viram assassinos, ou viram psicólogos e coisa parecida. “Astrólogo” foi a coisa parecida que encontrei para mim. De modo que vocês podem continuar contando comigo durante o ano que virá para escrever sobre os astros. Outro dia disse que provavelmente ficaria sem escrever por uns tempos. Mas vejam bem, saímos no lucro com mais essa postagem sobre Plutão, pois tenho que manifestar de algum modo as influências íntimas que ele sempre exerceu em minha vida, e essa parece ser uma das mais inofensivas e saudáveis.

Aí ontem vi uma imagem com um texto que resume bem o que estou tentando dizer sobre os trânsitos desse fim de ano desde a postagem anterior (quem não leu e quiser ler, é só clicar aqui). Ela dizia algo assim: “2017 me mudou. 2018 me quebrou. 2019 me abriu os olhos. É 2020, e estou de volta”. Então, acho que esse comecinho de ano é uma espécie de última chamada para quem precisa ter os olhos abertos, mesmo sobre assuntos complicados, e principalmente sobre eles. Para nossa sorte – se é que a palavra é essa – Deus estará se comunicando conosco através de sinais bem evidentes. Bom, talvez não exatamente Deus, mas vários deles, ao mesmo tempo, de uma vez só. Portanto apertem os cintos, fiquem atentos aos luminosos – e que esse seja um ótimo ano novo para todos nós.

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O fim está próximo

O Sol ingressa em Capricórnio por volta do dia 22 de dezembro de cada ano. Para os romanos, essa era a época das Saturnálias: uma semana de festa, com comida e bebida à vontade, em que a autoridade era subvertida, a ordem social era suspensa e identidades eram alteradas. No dia 24, trocavam-se presentes. O cristianismo situou seu principal feriado próximo a esta data porque seria impossível abolir a celebração popular, então era melhor cooptá-la. Já os puritanos ingleses depois rebelaram-se contra a missa de Cristo, a Christ Mass, e Cromwell chegou a aboli-la, argumentando com certa razão de que não passava de uma orgia pagã com um verniz cristianizado.

As Saturnálias começavam sob a regência de Júpiter, e terminavam sob a de Saturno. Portanto, acompanhavam a passagem do bastão de Sagitário para o signo da Cabra. Faz sentido: um último período de licenciosidade e abundância antes do início de uma época de restrições, com a perspectiva de futuros constrangimentos motivando toda uma semana de excessos. Mas Capricórnio não precisa ser visto como um arquétipo tão árido. Após o momento sagitariano do zodíaco, ele trata, sim, da necessidade de alcançar certo equilíbrio, através de ações responsáveis e intervenções consequentes no mundo. Porém o tipo de ajuste que está em jogo agora pode ter uma importante dimensão espiritual, e é bom ter isso em mente nessa passagem de 2019 para 2020, quando a coisa toda ganhará outras proporções.

Agora, o ingresso do Sol em Capricórnio o levará de encontro a Júpiter, Saturno, Plutão e Ceres. Por volta do dia 10 de janeiro, quase todos esses astros (com o acréscimo de Mercúrio) estarão alinhados com exatidão em 20º de Capricórnio, o mesmo grau onde acontecerá então um eclipse lunar em Câncer – portanto em oposição ao aglomerado capricorniano. Quem tiver planetas no mapa natal em torno de 20º de Capricórnio, Câncer, Áries ou Libra tende a sentir o fenômeno com mais impacto. Isso vale, por exemplo, para quem está por volta dos 40 anos agora, e tem Plutão nessa região do signo de Libra, ou para quem faz aniversário por volta dos dias 09 de abril, 11 de julho, 13 de outubro e 10 de janeiro mesmo. Mas esses trânsitos têm força suficiente para ter repercussão na vida de todo mundo.

Esse é inclusive o tipo de configuração que em outros momentos seria o suficiente para criar a expectativa pela vinda do Anticristo, bastando para isso a conjunção de Saturno e Plutão que irá se consumar. A propósito, a última vez que essa conjunção aconteceu em Capricórnio foi em 1517, um mês depois de Martinho Lutero afixar suas 95 teses na igreja do castelo de Wittenberg, portanto em perfeita sincronicidade com o início da reforma protestante (que pode ser vista como um ajuste de grandes proporções diante do momento de excessos na Igreja Católica). Se os astrólogos da época soubessem a respeito de Plutão e seus demônios, isso acrescentaria um elemento talvez decisivo nas muitas polêmicas em torno do mapa de Lutero. Mas o sistema solar ia só até Saturno mesmo, o que já era o suficiente para que se chegasse a previsões bastante precisas a respeito do Apocalipse.

No entanto, é para o plano individual, para nossa experiência diária, para a mente e o espírito de cada um de nós, que, na minha opinião, todas as nossas atenções e cuidados devem estar voltados nas próximas semanas. O conjunto de trânsitos e aspectos que vão se suceder a partir da Lua Nova e do eclipse solar do dia 26 de dezembro não são o fim do mundo – e acho até que farão desse intervalo um momento de rara oportunidade para retomarmos o prumo que foi perdido nos últimos anos. É sobretudo isso que estará em jogo nesse início de 2020, creio eu: uma chance de recomeçar a partir de novas bases. E esse recomeço passa por uma definição final a respeito daquilo que não nos serve mais, e que continua fazendo parte de nossas vidas por força do hábito ou de uma exaustiva e esgotada insistência.

Isso pode acontecer em diferentes áreas da experiência, variando de acordo com o arquétipo solar e outros componentes do mapa individual. Libra, por exemplo, pode viver esse tipo de definição em relação à família, e nesse caso, curiosamente, toda essa energia no eixo Câncer-Capricórnio, tão familiar e apegado às tradições, servirá para ceifar de vez aquilo que se desgastou e vem capengando no âmbito das relações familiares. Para todos os signos, porém, esse deve ser um momento para dar um fim efetivo ao que já está acabado. Até porque, a essa altura, o que está acabado já vem acabando há tempos, e nesse processo de lento acabar-se está acabando com nossa paz de espírito e nossa saúde mental.

É disso que estou falando quando me refiro à energia que haverá disponível agora para retomarmos um certo equilíbrio. Tenho visto muita gente vivendo o desespero da tentativa de preservar o que já está findo ou remediar o que não tem conserto. Nisso, ganham em volume e estridência as discussões que parecem se dar em um mundo anterior à queda, porque presumem proximidades onde há distâncias, ou parecem querer restaurar o paraíso perdido, nem que seja na marra e na base do murro. O momento que vamos viver agora é de reconhecimento que nada disso tem volta. O que pode ser uma coisa triste, mas a essa altura creio que para muitos de a percepção virá com uma boa dose de alívio.

Amigos já me perguntaram umas duas ou três vezes, meio à brinca e meio a sério, se com esse encontro tão exato de tantos planetas e um eclipse ainda por cima o mundo finalmente acaba, depois de tantas previsões infundadas. Minha resposta tem sido que o mundo já acabou, e que agora nós estamos na expectativa é dele recomeçar. Mas, quando digo isso, penso sobretudo nas experiências individuais que estão implicadas na ideia de “mundo”: é o mundo de cada um de nós, pelo menos um aspecto importante dele, que vai encarar de vez a finitude no começo de 2020, para abrir espaço para que tudo comece de novo nessa área da vida. Então, para que isso se execute, será mesmo bem-vinda uma boa dose de energia capricorniana.

Isso, em primeiro lugar, porque Capricórnio sabe traçar limites como nenhum outro signo. Capricórnio tolera muita coisa, suporta o que der e vier, mas tem sempre um “alto lá” para quem se exceder nas liberdades com a cabra – até porque ela entende que certas coisas são inegociáveis. Em segundo lugar, Capricórnio é um tipo que conhece o silêncio, convive bem com a solidão, e acredito que boas doses de silêncio e solidão vão ser importantes nesse processo. Conjunções planetárias são fenômeno cuja sincronicidade experimentamos com nosso corpo e coração inteiros, de acordo com sentimentos que vêm de dentro, sem necessariamente serem acionados por acontecimentos externos. Mas, para vivê-los, a gente precisa deixar que elas aconteçam em nós.

Passadas as festividades natalinas, portanto, virá o tempo de preparação para essa virada significativa, muito mais significativa que a virada de ano. Terminadas as Saturnálias, será tempo de entender o que mais tem que findar. Repito que a transição tem um forte componente espiritual, apesar de tratar também de fatos concretos e realidades duras da vida. A Lua Nova do dia 26 será um belo e harmonioso impulso para o instante mais denso que há de chegar uma quinzena depois. Quem tiver um pouco de senso usará essa largada para colocar-se em posição de escuta em relação às próprias emoções e aos próprios pensamentos, pois são eles que trarão as respostas que cada um de nós aguarda, e os gestos com que vamos delimitar o primeiro dia do resto de nossas vidas. Finalmente: nós já estamos esperando isso há algum tempo.

Para terminar, lembrei de um poema de Leonard Cohen, intitulado “Discussão”, cujos primeiros versos dizem: “Você talvez seja uma pessoa que gosta de discutir com a Eternidade”. Da maneira como o poema se desenvolve, entendo esse ‘discutir com a Eternidade’ como uma discussão com finitude e com a morte. De um modo ou de outro, todos nós discutimos com a morte, tentamos confrontá-la, expressamos nossa contrariedade em relação a ela, ou diante do fato de que as coisas acabam (assim como o amor acaba, no texto de Paulo Mendes Campos). Mas chega o momento em que perdemos nossas forças para continuar essa discussão, percebemos que não há como vencê-la, e com isso – quem diria – a vida se renova e segue adiante.

Acho que esse momento vai chegar pra muita gente em breve. Da maneira como as coisas estão se arranjando no céu, vejo Plutão como o agente da finitude e da morte que estamos confrontando há algum tempo. O Sol, a Lua Cheia eclipsada e os demais planetas que vão se reunir em torno dela me parecem ter vindo para encerrar essa briga, não necessariamente pacificando os ânimos, mas silenciando-os o suficiente para que entendam: já não há pelo quê brigar. As coisas se moveram e se transformaram a ponto de terem desfeito o próprio mundo onde a briga começou. A partir daqui a história é outra, e qual será nós não sabemos – mas tenho esperança de que, também em breve, a gente saberá por onde começá-la. Feliz 2020 para todos nós.


astros, escorpião

O dia em que Plutão entrou em Escorpião

Angels in America / Dir. Mike Nicholls (2003)

Plutão em Escorpião não está nas cabeças da vontade popular, segundo a enquete ainda em andamento, mas eu não teria como deixar passar os 25 anos de Angels in America sem um comentário a esse respeito. De modo que vou deixar essa notinha aqui enquanto aguardo o resultado (até o momento temos uma emocionante disputa entre Touro e Quíron, e quem quiser pode ainda votar aqui).

Bom, para quem já está assustado com Mercúrio retrógrado em Escorpião e tudo mais, é bom adiantar que Plutão não está em Escorpião agora. Mas estava em 1991, quando estreou a peça de Tony Kushner, e havia ingressado em Escorpião em 1984, período em que se passam os momentos iniciais da história, quando o vírus HIV começava a se disseminar na comunidade gay de Nova Iorque.

Não é o caso de fazer uma análise da obra ou de suas adaptações e montagens, até porque várias já foram feitas esse ano. E, para quem não conhece, fica a recomendação de que assistam a minissérie com Meryl Streep, Al Pacino e Emma Thompson, entre outros atores e atrizes incríveis.

Basicamente, o que eu queria dizer sobre a peça é que poucos trabalhos artísticos representam tão claramente o espírito de um determinado trânsito astrológico de longo prazo, e um arquétipo em sua força máxima. Afinal, Plutão é o próprio regente escorpiônico, em seus intensos ciclos morte e regeneração.

Vou mencionar dois trechos que exemplificam esse ponto. Ambos surgem em cenas da personagem Harper, interpretada na série por Mary-Louise Parker, que costuma ter sonhos e alucinações peculiares. No primeiro trecho, ela está na plateia de um teatro vazio, atordoada com uma série de eventos em sua vida, sentindo-se incapaz de reerguer-se e reorientar-se. Então pergunta a uma estátua de cera: “Como é que as pessoas mudam?”. E ela obtém uma resposta.

“Bom, tem a ver com Deus, então não é muito confortável”, diz a estátua, que de repente ganha movimento e voz. “Primeiro, Ele rompe sua pele com uma unha dentada da garganta até a virilha. Então enfia a mão imunda lá, começa a arrancar suas tripas, e elas escorregam e escorregam, mas ele aperta firme, até tirar de você todas as entranhas, e a dor… você não consegue imaginar a dor. Não dá nem para falar a respeito. Então ele mete tudo de volta, tudo sujo, misturado e arrebentado. Cabe da você dar os pontos”.

Não vou comentar. Quem quiser ver a cena, está aqui. Além disso, acho que vale pra esse caso o texto que já fiz em outra postagem, sobre a quadratura de Plutão, um trânsito que todos vivemos em algum momento da vida, geralmente com uns trinta e tantos anos. Todo mundo que já passou por ele sabe do que o texto da peça está falando.

O outro trecho é o monólogo final de Harper. Acontece anos depois dos primeiros eventos narrados, já no começo dos anos 1990, quando a descoberta do AZT e a evolução do conhecimento científico a respeito da AIDS tornou o ambiente menos carregado e desolador, ao menos desse ponto de vista. Ela está fazendo uma viagem, e diz:

“Voo noturno para São Francisco. Seguindo a lua através do país. Há anos que não entrava em um avião! Quando chegarmos a 35.000 pés, alcançaremos a tropopausa, o grande cinturão de ar quieto. É o mais perto que chegaremos da camada de ozônio. Eu sonhei que estávamos lá. E o avião ultrapassou a tropopausa, e chegou ao círculo de cima, à camada de ozônio, que estava rasgada e esgarçada, com os retalhos flutuando aqui e ali, e aquilo dava medo, mas vi algo que apenas eu podia ver, por causa da minha assombrosa habilidade de ver essas coisas… Almas estavam subindo, lá debaixo, lá da Terra, as almas dos mortos, de pessoas que pereceram, com a fome, com a guerra, com as pragas, como paraquedistas ao reverso, com os braços esticados, girando, e as almas desses mortos davam-se as mãos, enganchavam os calcanhares, e formavam uma teia, uma rede de almas, que eram formadas de três átomos de oxigênio, a substância do ozônio, e a camada de ozônio as absorvia, e era reparada. Nada está perdido para sempre. Há nesse mundo uma espécie de progresso doloroso, em que sentimos falta do que deixamos para trás, e sonhamos com o que virá. Pelo menos, é assim que penso”.

Acho que também essa passagem dispensa comentários. E a propósito: “O dia que Urano entrou em Escorpião” é um conto de Caio Fernando Abreu, do livro Morangos Mofados, que usei como referência para o título dessa postagem. O conto é lindo, recomendo também.

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“Testes”

Foto: Byron Harmon / Whyte Museum of the Canadian Rockies

De restrições e provações esta vida está cheia, mas nem tudo é uma etapa em um processo de autoconhecimento ou amadurecimento ou superação. Algumas coisas são só encheção de saco mesmo; outras são obstáculos que não precisam necessariamente ser contornados ou compreendidos, estão ali apenas para serem aceitos. E, em meio a tantas variantes de fenômenos que exigem tanto de nossa paciência, ou simplesmente acabam com ela, há que se encontrar formas de diferenciá-los de maneira criativa. Há que se gastar algum tempo representando-os em suas particularidades. Por exemplo:

Tem aquela história de um rapaz que queria muito receber os ensinamentos de determinado guru, e para isso subiu com esforço a montanha íngreme que levava até ele. Chegando lá, o guru disse com rispidez: “Vá embora, não tenho nada a lhe ensinar!”. E o rapaz não teve opção senão ir embora mesmo. Mas, chegando no pé da montanha, olhou para trás, e viu que o guru lhe fazia sinais para eu voltasse. Ele pensou: “Ah, essa desse ser uma daquelas situações em que o mestre impõe dificuldades ao discípulo para testar sua resistência e determinação”. Resolveu voltar, e usou suas últimas forças para subir a montanha novamente. Chegando lá o guru disse: “E mais uma coisa: não me volte mais aqui com esses disparates sobre ‘testes’!”.

Acho que qualquer um de nós já passou por alguma situação em que algo parecia exigir somente um pouco mais de esforço, paciência ou maturidade para consumar-se, e no final das contas não era para ser mesmo. Ou, pelo menos, não era para continuar sendo. Está bem representada aí a diferença na pedagogia de dois grandes ‘mestres’ astrológicos: Saturno e Plutão. Saturno tem um viés mais convencional, rigoroso porém recompensador, exigindo esforços e realizando testes que favoreçam nosso amadurecimento; Plutão é aquele que traça uma linha intransponível diante da qual qualquer insistência é inútil. Pela maneira como ambos andam se relacionando no céu ultimamente, fica difícil saber qual é qual nas manifestações com que nos deparamos aqui na Terra. Que coisas na vida estão apenas precisando de um pouco mais de trabalho. Que coisas estão precisando da mais completa aceitação.

Mas a partir de agora, e nos próximos meses, acredito que isso vai ficar mais claro. Ou pelo menos espero. Ultimamente tenho reclamado muito de algumas pessoas, comportamentos, circunstâncias. E até acredito que o mau humor é parte importante da existência, mas reclamações repetitivas sobre o mesmo assunto podem indicar que estamos insistindo onde o que se requer é desistência. Desistir das coisas é bom, dá um certo barato, pode ser feito com certa leveza, ou beleza, inclusive. Aí esses dias me apareceu a lembrança da citação de uma entrevista que o Leonard Cohen deu pouco antes de morrer. Nela, ele dizia que não deveríamos nunca “reclamar casualmente”. E que, se for para lamentar a inevitável derrota final de nos aguarda a todos, que isso seja feito com beleza e dignidade.

Tenho lamentado muito casualmente, de coisas que que provavelmente não são nenhum tipo de teste ou provação pela qual eu tenha que passar em meu percurso cármico sobre a Terra. Ou talvez sejam, mas se forem não é reclamando que vou resolver o assunto. Saturno, como disse, exige trabalho, dedicação, paciência. Já Plutão diz respeito à inevitável derrota final que nos aguarda a todos, e às derrotas pontuais que exigem nossa absoluta capitulação no decorrer da vida, diante das quais os lamentos precisam ter um quê de coro trágico, para fazer justiça ao massacre de nossas vastas esperanças.

Até janeiro de 2020 ambos estarão ainda se confundindo, nos últimos passos de uma dança desastrada que enfim está chegando a uma conclusão parcial, e é possível que por essa época realizem uma fusão completa, no momento da derrocada final de edificações que levaram muito tempo para ser erigidas. Pelo menos isso abrirá espaço para que algo de realmente novo seja construído no lugar. Vale tanto para alguns aspectos da experiência coletiva quanto em alguns desdobramentos de histórias pessoais. De modo que, agora, o que desejo a cada um de nós nesse meio tempo é uma variação da oração da serenidade. Uma que diria assim, “Deus me dê perseverança para insistir naquilo que requer minha insistência, falta de saco para desistir daquilo que requer minha desistência – e sabedoria para perceber a diferença”.

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A quadratura de Plutão

Stranger Things (2016)

Alguns trânsitos astrológicos importantes acontecem para todo mundo mais ou menos na mesma idade. Assim como os trinta anos costumam coincidir com últimos ajustes e redefinições do retorno de Saturno, aos quarenta estamos lidando com o que ficou da quadratura de Plutão. Trata-se de um aspecto que nada tem de ordinário, mesmo sendo comum. Costuma acontecer em momentos variáveis a partir dos 37 anos, por conta do ritmo um pouco menos regular da órbita plutônica.

Há motivos para que essa passagem seja menos comentada. Plutão é um agente incorporado à prática astrológica há não muito tempo, está ainda sendo estudado e conhecido, e além disso trata por definição de temas ocultos e tabus. Então, mesmo entre profissionais do aconselhamento, há aqueles que não se dispõem a perscrutar as profundidades psicológicas que alcança. Isso pode acontecer por diferenças de abordagem e de comportamento pessoal, naturalmente, mas desconfio que há também aí uma reticência diante da ameaça que ele representa para panaceias disseminadas no meio astrológico, como o ‘pensamento positivo’ e o autoconhecimento.

Pois em Plutão encontramos as mais diferentes formas de expressão do trágico, que não poderiam ser evitadas nem com todo o pensamento positivo do mundo. Do mesmo modo, não há autoconhecimento que nos prepare para suas pancadas nem antecipe nossas reações diante delas. Em maior ou menor grau, dependendo de outros fatores, a quadratura de Plutão é um desses momentos em que nos deparamos com as forças do inevitável, que nos deixam sem ação e sem recursos. E isso com frequência estará relacionado muito literalmente aos temas de sua área de atuação: a morte, o dinheiro e o sexo.

O que vou dizer a respeito é baseado em experiências pessoais, em relatos que escutei e em algumas leituras. Em termos gerais, o que mais se percebe é algum tipo de experiência da mortalidade e de limitações absolutamente intransponíveis, seja através da doença de alguém querido, do término de um relacionamento desgastado, do fracasso definitivo de algum projeto, ou do abandono doloroso de um sonho ou aspiração. As especificações dependem muito da posição de Plutão no mapa natal da pessoa, mas, de um jeito ou de outro – e ao contrário do retorno de Saturno, que comporta redefinições moduladas e algum controle consciente do processo –, neste caso estamos diante de uma exigência de absoluta rendição, em que alguma coisa era e de repente não é mais.

Não há como ensinar nem aprender essa experiência. Não há nem como repeti-la, assim como não há morte que seja igual a outra. A própria revolta com que aí enfrentamos as injustiças da vida e do cosmos não é exatamente um aprendizado; é, antes, uma espécie de caminho para o necessário esgotamento de nossas forças. No entanto, isso não quer dizer que este tipo de trânsito deixe apenas destruição no seu rastro. Ele é, sim, destrutivo, mas com frequência o que aniquila são as mais rígidas carcaças que utilizamos para ingressar na vida adulta.

Em um tipo de experiência, pelo menos, isso me parece bastante óbvio. Ela merece umas palavrinhas a mais para ser tratada com cuidado. Não é das mais fáceis, nem das mais evidentes no âmbito público, mas tem uma recorrência que justifica a menção. Falo de pessoas que, durante o trânsito, desenterram memórias reprimidas de atos de abuso ou violência sofridos durante a infância. Reúnem-se aí vários elementos da crise plutônica: a exposição de algo soterrado, a crise diante de forças maiores que nos tomam de assalto, o retorno investigativo à cena de um crime, e a revolta desesperada com algo – um passado – que não se pode mudar.

Talvez a própria tomada de consciência de Plutão e suas energias ou influências pelas últimas gerações tenha favorecido essa dinâmica. Porém, isso não quer dizer que crianças não fossem igualmente vítimas de toda forma de violência antes. Aliás, o tema nos remete à própria história do rapto de Perséfone por Hades, o Plutão da mitologia grega, que em um ato disruptivo a levou para o submundo e a violentou quando era apenas uma menina.

Como a história prossegue a partir daí é uma outra história; o gesto tem força arquetípica em si mesmo, e toda criança vítima de abuso e violência é de certa forma Perséfone no momento em que o solo se abre sob seus pés. Outras tradições conhecem mitos semelhantes, com algumas variações, mas a agressão sempre acontece em um lugar oculto e subterrâneo. E assim permanece na consciência das crianças que são abusadas, seja pela repressão das lembranças, seja pela maneira como o mundo adulto as faz questionar os próprios sentidos e percepções, de maneira mais ou menos perversa.

De um jeito ou de outro, certa inconsciência e ocultamento do passado parecem necessários para os primeiros passos do indivíduo na maturidade. É como se algo lhe dissesse: “Não, não vai dar para lidar com isso agora; você precisa estudar, arrumar um emprego, ser uma pessoa ‘normal’; deixa pra outra hora, não mexe nisso aí, fique com a história que te contaram sobre o que aconteceu ou deixou de acontecer, vai ser melhor assim”.

E assim se criam as carcaças da identidade que se sobrepõem àquilo que uma pessoa pode ter de mais definidor de sua experiência do mundo adulto. Tornamo-nos engenheiros, médicos, professores, pais, mães – e nos esquecemos de que somos Perséfone. Até que o Plutão conhecido na infância reapareça quando menos imaginamos, quando acreditamos que estamos a salvo não apenas de sua ação como também de sua lembrança. Só que agora, mesmo que iniciando uma crise, mesmo que desenterrando ossos, ele surge não mais como um fator de violação, mas como um agente de cura.

Pode ser difícil, quase impossível reconhecê-lo assim. Mas a questão do reconhecimento, aqui, é fundamental. Pois, junto com a memória de cenas e acontecimentos, ele traz à tona a reparação da confiança de em algum momento perdemos em nossos sentidos e percepções, e no estabelecimento da verdade de um modo geral. Ele se apresenta e diz: “Sim, eu existo; fui eu mesmo que você viu quando era pequeno; não acredite nas lendas que te contaram sobre mim; eu sou a violência, eu sou a morte, eu sou a crueldade, essas coisas existem no mundo e você as conhece bem desde cedo; não deixe ninguém tirar isso de você.”

Plutão não tem culpa de nada, no final das contas. É uma maneira que encontramos para simbolizar algumas experiências indesejáveis, embora o verbo ‘encontrar’ nesse caso tenha algumas sutilezas interessantes, assim como ‘indesejável’ é um adjetivo que merece algumas nuances. Pois, se a morte é indesejável, muito mais seria uma vida individual que não acabasse nunca. Enquanto o sexo, em si mesmo, está longe de ser indesejável, e em algumas de suas expressões mais regeneradoras e transcendentes encontram-se também sob a regência de Plutão.

Enfim, para aqueles que já passaram por suas quadraturas pessoais, ou por outro trânsito mais intenso de Plutão em outro momento da vida, e se depararam aí com algumas assombrações bastante reais, fica aqui meu carinho. Pois há quem chegando aos quarenta terá uma primeira experiência mais impactante da finitude e da fragilidade humana; mas há também os precisam despertar em si a criança que conheceu o inferno, sabe que conheceu, e consegue descrevê-lo em detalhes. Para estes, recomendo que reconheçam essa parte de sua identidade e não permitam que as fotos dessa viagem ao submundo sejam novamente soterradas sob fotos de viagens à Disney ou a Cabo Frio. Com a quadratura de Plutão, a cura está na rememoração do inferno mesmo, não na lembrança destes paraísos artificiais.

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De paredes e esgotos

Hoje de manhã de repente me vi quase que literalmente metendo a mão na merda para resolver o problema de um entupimento aqui em casa. Vênus, em um setor que para os capricornianos está relacionado a assuntos domésticos, estava em quadratura com Plutão, que tem uma relação natural com esgotos e dejetos. Poucos dias atrás a quadratura foi entre Vênus e Saturno, e aí a questão foram erros e atrasos em um mobiliário que encomendamos com um marceneiro. É possível que vocês tenham sentido essa sequência de frustrações em algum aspecto da vida, em alguns casos com motivos reais de desespero, muito mais impactantes que esses contratempos do meu relato. E é possível que tudo isso esteja relacionado à conjunção entre Saturno e Plutão que está se formando para o ano que vem.

Falei desse aspecto com mais cuidado aqui. Agora só queria comentar algo que me ocorreu hoje enquanto lidava com a questão da privada entupida (dizem que é fácil reconhecer um astrólogo: é aquele que olha pro relógio quando o avião está caindo, para saber o momento exato da catástrofe; não sei se chegaria a tanto, mas sou do tipo que faz reflexões sobre a posição dos astros enquanto se debruça na mais desconfortável e deselegante posição sobre o vaso sanitário do banheiro dos fundos; nessas horas acho que colocar a culpa no signo é pouco, a gente tem que colocar a culpa nos trânsitos e aspectos também).

Mas enfim: pensei em como Saturno tem mesmo a ver não só com os móveis fundamentais de uma residência, mas também com paredes e o piso, com a estrutura da casa, enquanto Plutão corre de forma menos evidente pelos encanamentos. Pensei que esse trânsito de 2019 é como a história de uma casa em que as paredes velhas vão cedendo e as tábuas carcomidas vão mostrando como os esgotos estão abertos e fedendo sob o piso. A questão aí é que não basta reconstruir as estruturas mais aparentes e botar a merda de volta onde a gente não conseguia vê-la – vai ser preciso lidar com o esgoto mesmo antes de tudo, em meio a um ambiente insalubre e aos odores fétidos. Até porque, ao que tudo indica agora, as coisas já estavam arrebentando por trás das paredes há um bom tempo.

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Sobre filhos e planetas

Rembrandt von Rijn

Entre idas e vindas, Saturno e Plutão estão em 2019 se ajustando para sua conjunção em janeiro de 2020, e por conta desse aspecto o ano astrológico corrente é considerado uma preparação para o próximo. Não faltam bons comentários na rede a respeito; com os planetas em questão, é natural que a apreensão e o medo apareçam em muitas dessas leituras. Mas a conjunção é um aspecto muitas vezes enganador nos pressentimentos e presságios que proporciona. É nesse ponto que eu gostaria de acrescentar uma palavrinha.

Uma conjunção estabelece uma fase nova na relação entre dois planetas. É o início de algo inédito, como a Lua Nova é um início em outra escala (a Lua Nova é uma conjunção da Lua e do Sol). A oposição, nessa lógica, é equivalente à Lua Cheia, quando a Lua e o Sol estão frente a frente no céu. Geralmente, no plano individual, não é difícil perceber como as luas cheias são pontos culminantes de processos já em curso, e como as luas novas se apresentam como o impulso para um começo que estava pouco claro antes de seu advento. No plano coletivo as coisas se complicam um pouco mais, mas não deixa de ser útil usar as fases lunares como referência.

Desse ponto de vista, estamos no período balsâmico da relação entre Saturno e Plutão: o momento mais escuro da madrugada antes do amanhecer, no ano que vem. É verdade que, em se tratando desses dois, é difícil imaginar um despertar tranquilo e luminoso, mas – isso é importante – talvez a mudança seja o suficiente para desmascarar os monstros que povoam essa etapa da noite, fazendo-os perder força à luz do dia. Quem sabe assim se dissipem os demônios subalternos que hoje nos aparecem como se fossem reais em nossos pesadelos, e como se fossem pesadelos em nossa realidade.

Até lá, a apreensão e o medo têm tudo para continuar por aí. A boa notícia é que têm tudo para estar errados, senão no diagnóstico de nossas circunstâncias atuais, ao menos no prognóstico de nossas circunstâncias futuras. E a gente sabe como essa questão do prognóstico é determinante na dinâmica da apreensão e do medo, como muitas vezes é ela que torna o presente insuportável. Mesmo quem tem a mais absoluta certeza de que é impossível prever o futuro costuma prever o futuro o tempo inteiro, elaborando cenários miseráveis, catastróficos, com frequência no mais completo prejuízo de sua própria saúde mental.

E, se tem uma coisa que aprendi com a astrologia, como já tinha aprendido com a história, é que é impossível a gente prever o futuro. Ou, ao menos, que é muito difícil, sobretudo em momentos como esse de agora, em que nada do futuro se apresenta a nós. Períodos de acentuada incerteza, de um ponto de vista astrológico, são períodos de incerteza acentuada também para os astrólogos, que compartilham o cosmos com seus ouvintes e leitores. Nós não temos como nos colocar de fora do que descrevemos.

Portanto, nós não temos nunca como estar totalmente certos de nossas projeções do futuro; mas nós podemos estar mais errados do que o normal. Isso é uma premissa importante tanto para lidar com tendências catastrofistas, quanto para evitarmos falsas esperanças, forjadas no âmago do desespero. Eu mesmo me peguei agora pensando se o que vejo de positivo nessa virada do ano que vem não teria a ver com o fato de que meu filho canceriano está para nascer agora. Isto é, se não estaria buscando uma justificativa para, como se diz por aí, colocar mais gente no mundo (digo “meu filho canceriano” porque já tenho um filho capricorniano, e se pudesse tinha um de cada; aliás, Gabriel, se você vier geminiano, papai vai te amar do mesmo jeito tá? Papai promete).

Mas então: será que não estou falando em um “amanhecer”, em um “despertar”, mesmo que com todas as ressalvas, porque há algo parecido para acontecer aqui em casa por agora? Será que não estou vendo uma possível luz no âmbito coletivo onde o que tenho é iminência de um “dar à luz” mais individual? Talvez. Mas aí resolvi olhar no que estava acontecendo quando o Tiago, meu outro filho, nasceu, dezessete anos e meio atrás. Era 2001; Saturno e Plutão estavam justamente realizando uma oposição entre si, que, como as conjunções, só acontecem de 40 em 40 anos; mas com aquele caráter de culminação, de clímax, e de ruptura, que dá um aspecto de “lua cheia” às oposições entre os planetas.

Era 2001, e agora me lembro como foi assistir o ataque suicida às torres gêmeas quando poucos meses depois ia assistir tão de perto a chegada de alguém no mundo. Lembro da consternação, da perplexidade, do susto. Lembro que por um instante nada do que estava vivendo naquele momento fez muito sentido, e que a imagem do futuro de repente se tornou para mim algo completamente apocalíptico e tenebroso.

Mas lembro também que poucos dias depois estava pensando em outra coisa. E depois em outra. E depois em outra. Talvez algumas dessas outras coisas tenham sido também previsões meio sombrias sobre meu futuro individual, profissional, afetivo. Outras certamente foram projeções entusiásticas de meu futuro individual, profissional, afetivo. Tal como as imaginava, nenhuma delas se realizou.

Se fosse astrólogo na época, provavelmente eu teria olhado para essa difícil oposição entre Saturno e Plutão como um fator importante do mundo em que meu filho ia viver. E era, mas nem de longe era definidora desse mundo, e muito menos do mundo dele, o mundo que nasceu junto com ele, o mundo que existe através dos olhos dele. Era um mundo também de milhares de outros aspectos, trânsitos e planetas, para ficar só na riqueza dos fatores astrológicos que conhecemos, e que podem nos fazer esquecer amanhã mesmo aquilo que hoje nos parece tão tenso e difícil.

Ainda bem que eu não era astrólogo na época, pois talvez ainda não tivesse maturidade suficiente para entender isso, talvez me perguntasse ao olhar para os trânsitos do momento: filho numa hora dessas? Ainda bem que eu não era astrólogo, era só um pouco irresponsável, abençoadamente irresponsável, considerando a companhia incrível que tive nesses últimos dezoito anos, e que continuo tendo, agora que Saturno e Plutão vão se encontrar e reiniciar seu ciclo, e que vou ter essa outra alegria em meio às incertezas de um presente também inquietante.

Em certo sentido – em um sentido astrológico – trata-se, agora, de um presente até mais inquietante, porém mais inquietante exatamente por não termos nenhuma ideia do que está acontecendo, quando do futuro só podemos afirmar que nada será do jeito que a gente imagina. O problema é que ainda assim a gente imagina, e com frequência imagina o pior, com base em um presente que pode ser tudo menos sólido e consistente.

A outra coisa importante que aprendi com a astrologia (reforçando mais uma vez o que tinha aprendido com a história) é que as coisas mudam, e que nossas ideias do futuro mudam junto com as coisas. A gente tem dias bons, dias ruins e dias médios, inclusive para prever o futuro. O bom dos dias ruins é que logo a gente está pensando em outra coisa. E depois em outra. E depois em outra.

Que o Gabi venha com todas as conjunções, oposições, trígonos, quadraturas, sesqui-quadraturas, inconjuntos e paralelos que ele tem direito. Uma coisa é garantida: não vai dar par saber a pessoa maravilhosa que ele vai ser através de seu mapa natal. Vai ser só vendo mesmo, disso eu tenho certeza.

PS: o Gabriel nasceu às 00h06m do dia 19 de junho de 2019, com a Lua em Capricórnio, o Sol em Gêmeos e o Ascendente em Áries (sobre o nascimento e o ascendente falei um pouco mais aqui). Estou escrevendo esse pós-escrito no dia em que ele completa seis meses. A primeira coisa que me chamou a atenção em seu mapa foi que os três componentes principais são um rearranjo dos mesmos signos que figuram no mapa do irmão, que daqui a três dias completará dezoito anos, e que tem a Lua em Áries (exatamente no mesmo ponto onde está ascendente do Gabriel), Sol em Capricórnio e Ascendente em Gêmeos. Segundo uma análise combinatória elementar, devo ter mais sete filhos para completar todas as combinações possíveis desses três signos. Mas acho que vou precisar de mais umas três vidas pra isso.

Ah, e sim: o Gabi acabou se apressando um pouquinho, nasceu antes do previsto, mas quando deu vontade nele, e correu tudo muito bem, como escrevi nas postagem sobre seu nascimento. Veio geminiano. E a essa altura eu já não amo ele “de mesmo jeito” por causa disso – amo muito, mas muito mais.