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Leonard Cohen, poeta e virginiano

Leonard Cohen foi poeta, compositor, cantor, canadense e virginiano. Lua em Peixes. Ascendente em Virgem também. Sofreu de depressão e crises de pânico quase a vida inteira, mesmo passando longas temporadas em um mosteiro budista, observando alguns exigentes rigores espirituais, e buscando depois os mais diferentes tratamentos. Quando já tinha desesperado de encontrar a cura, chegando aos 70 anos, sentiu-se de repente curado e renovado e com sede de vida e de música. Isso depois de abandonar o mosteiro, abandonar os rigores, desistir de todos os tratamentos.

Décadas de meditação devem ter ajudado, talvez surtindo um efeito mais duradouro a partir daí. Mas permanece algo de inexplicável nessa melhora. Simplesmente aconteceu. Cohen a descreveu como o dissipar repentino de uma névoa. Em um poema ele diz que “apesar da dor / em seu coração / por causa da garota que você / nunca encontrou / e apesar do fato de que / após anos de / rigores espirituais / você não conseguiu / alcançar a iluminação / uma certa alegria / começará a surgir / de suas esperanças e intenções / despedaçadas”.

O poema se chama “Uma Vida de Tarefas”, e fala da alegria que é ter tarefas para cumprir. Nada mais virginiano. Mas o que eu queria comentar aqui é esse fenômeno de só conseguirmos alcançar alguma coisa quando desistimos de alcançá-la. Em Zen and the Art of Archery, o escritor Eugen Herrigel relata como só aprendeu a dominar a arte do arco-e-flecha quando desistiu de dominá-la, depois de anos de um frustrante processo de aprendizado com um mestre japonês. No dia em que ele abandonou o último resquício de esforço em acertar o alvo com exatidão, zupt, lá estava a flecha na mosca. Aí ele entendeu que o aprendizado era esse. Não tentar.

Às vezes, as coisas que a gente faz melhor, a gente faz totalmente sem querer. Quando não estamos preocupados em acertar na mosca, a gente acaba acertando. Mas existe uma diferença entre o sem querer casual da indiferença e o sem querer duramente obtido com os esforços contrariados do desejo. Não querer, mas não querer mesmo, não querer nem um pouquinho, pode exigir muito trabalho e dedicação. É preciso tentar algo até a exaustão para perceber que não há a menor chance de termos sucesso enquanto estivermos tentando. Enquanto houver um resquício de esperança, haverá a certeza do fracasso. Só a desistência nos torna invencíveis.

Esse tipo de experiência acontece no eixo Virgem-Peixes. De um lado, o arquétipo virginiano está associado à ideia do “aperfeiçoamento” através do trabalho metódico e cotidiano. Mas quando a gente pensa em Virgem e Peixes como opostos complementares, percebemos que o talento pisciano para a capitulação e a entrega faz parte de um processo em que a verdadeira perfeição é alcançada. Leonard Cohen conheceu-a no final da sua vida, e temos um vislumbre do que pode ser através de seus últimos poemas. Mas só um vislumbre, através de uma fenda, que está na imperfeição de sua arte. Pois, como sabemos, existe uma fissura em todas as coisas, para que a luz possa adentrá-las.

peixes

Inferno astral

Down By Law/ Dir. Jim Jarmusch

Esses dias me perguntaram sobre o “inferno astral”. Vou deixar aqui minhas impressões a respeito. Há quem entenda que ele acontece durante a passagem do Sol pelo signo anterior ao da pessoa (quando o Sol está em Leão, por exemplo, seria o inferno astral dos virginianos). Mas é possível também senti-lo nas semanas que antecedem nosso aniversário, mesmo que o Sol tenha já ingressado no nosso signo (tecnicamente, nesse momento o Sol em trânsito está em relação balsâmica com o Sol natal do indivíduo). De um jeito ou de outro, e deixando de lado os detalhes, a lógica é que nessa etapa ficamos mais sujeitos a forças que não podemos controlar, sem a energia necessária para confrontá-las, ou inseguros em relação ao caminho a seguir. Ou seja, um período de confusão e incerteza, que antecede o início de um novo ciclo, como a hora mais escura da madrugada que precede o nascer do sol.

Em todas as suas concepções, o inferno astral está de algum modo vinculado à décima-segunda casa do zodíaco, associada ao signo de Peixes. Relaciona-se, portanto, ao sacrifício do ego, e a uma entrega (ainda que temporária) do indivíduo a instâncias que ele desconhece e que trabalham nos bastidores de sua psique. Peixes é o arquétipo onde estão alojadas instituições como hospitais, sanatórios, prisões e inclusive monastérios, onde a pessoa se encontra sujeita a forças maiores, renunciando à sua vontade para entregá-la a médicos, à lei ou a Deus. E a experiência pisciana (ou da casa 12 do mapa de um indivíduo) pode ser mesmo infernal, sobretudo quando a dissipação do ego através de álcool e drogas exige uma internação forçada, a restrição da liberdade se dá através de ‘forças maiores’ representadas pela autoridade do Estado, ou a entrada em um convento implica uma renúncia à vida mundana motivada pelo desespero existencial.

Há um cansaço nessa faixa do zodíaco que pode levar à capitulação. O desejo de ‘entregar tudo’ e não fazer mais nada é real e intenso. Isso se manifesta de diferentes maneiras, e aquilo que conhecemos como ‘inferno astral’ seria apenas uma versão mais previsível e regular dessa experiência, porém não menos palpável para quem a está vivenciando (pela lógica da definição apresentei lá no começo, é possível também atravessar ‘infernos astrais’ em outras épocas da vida e do ano, não necessariamente sincronizadas com nosso aniversário, mas aí você precisa de um astrólogo profissional para identificá-las). Muitas vezes tudo o que esse período requer é paciência para aguardar a restauração de forças e a abertura do horizonte. Parece que a gente até sabe disso lá no fundo; retrospectivamente, sobretudo, a gente depois acaba entendendo dessa maneira o que aconteceu. O difícil é aguentar a ansiedade e o medo de que a situação vá durar para sempre, enquanto ela está acontecendo.

Por outro lado, partindo desse mesmo ponto podemos concluir que todo inferno astral é uma oportunidade que temos para viver as experiências da casa 12 (e de Peixes) em um viés mais positivo. A entrega e a renúncia podem ser um momento de descanso, de abrir mão do controle e permitir o curso natural das coisas, incluindo aí o legítimo exercício da preguiça. Reparem, a casa 12 é uma casa cujos personagens – o louco, o monge, o doente – não trabalham; curtir um inferno astral é, por assim dizer, curtir uma febrinha; trata-se de permitir que um processo de recuperação e de cura se dê a seu tempo, sem a exaustiva interferência de nosso desassossego.

E, dependendo do caso, podemos incluir aí até uma experiência mística de dissipação do ego no cosmos, de perda das definições e limites que separam mundo interior e exterior. Isso vai acontecer ou não dependendo das tais forças maiores, aquelas sobre as quais não temos controle algum, e, portanto, não é uma experiência que dependa de uma decisão nossa (por mais que a gente possa tentar induzi-la através da meditação ou do uso de narcóticos). Quando acontece, porém, temos um momento que não é de restrição da liberdade, mas sim de autêntica libertação, na medida em que percebemos como o ego não deixa de ser uma espécie de prisão, onde estamos provisoriamente encapsulados.

Dito isso, parece-me que o interesse na ideia de inferno astral cresce em períodos como esse, em que vivemos uma espécie de inferno astral coletivo. Pelo menos podemos dizer que quem está confuso não está só. Estamos todos em compasso de espera, sem condições de ver um palmo além do nariz, e mal nos movimentando em meio a uma terrível neblina. Se isso é o fim ou um começo, ou ambas as coisas, só quando chegarmos um pouco adiante será possível dizer.

Todos os signos

Estatísticas

Agradeço a todo mundo que atendeu ao meu apelo para contar o ascendente pelas redes sociais. Agora enfim tenho uma amostra considerável para oferecer minha contribuição ao desenvolvimento da ciência astrológica com o máximo rigor metodológico. Em seguida, apresento alguns dados do DATAGUS acompanhados das respectivas análises qualitativas:

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em ÁRIES foi de 5,8% do total. Porém, sabe-se que a conclusão da amostragem não corresponde à realidade. Tem muita gente com ascendente em Áries que já não está em rede social nenhuma. Saíram fora dessa.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em TOURO foi de 8,33333%. Foi o único signo cujo número correspondeu a exatamente 1/12 do total. O pessoal de ascendente em Touro é objetivo. Quando a gente pergunta o ascendente eles respondem “Touro”, e mantêm-se impassíveis, como que esperando a gente dizer alguma coisa a respeito. Mas nessas horas costumo perceber lá no fundo de seus olhos um desconcertante lampejo de sarcasmo.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em GÊMEOS foi de 8,8% do total. Desses, quase metade respondeu “Gêmeos kkkkkkkkk”. Deve ser divertido ter o ascendente em Gêmeos.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em CÂNCER foi de 7,5% do total. Infelizmente, nenhum deles me convidou para tomar um café e comer um bolinho na casa deles. Tomar café e comer bolinho na casa do ascendente em Câncer é especial. Convida aí, pessoal, que eu aceito.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em LEÃO foi de 12,3% do total. Outro número que com certeza não corresponde à realidade. Ter ascendente em Leão é o máximo. Tem gente que diz só pra aparecer.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em VIRGEM foi de 10,3% do total. É um número alto, mas possivelmente correspondente ao número de indivíduos vivos com este ascendente. Mesmo o pessoal com a Lua em Peixes ou Marte em Gêmeos uma hora resolve fazer tudo certinho e manter uma rotina saudável, se tiver o ascendente em Virgem. O percentual se explica pela longevidade.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em LIBRA de foi 8,6% do total. Uma breve análise das fotos de perfil confirma a fama desse ascendente. Ô gente bonita, meu Deus.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em ESCORPIÃO foi de 4,2% do total. O índice extremamente baixo é fácil de explicar. Um ascendente em Escorpião não vai sair contando isso por aí (eu, por exemplo, não conto). A propósito, 100% dos indivíduos que responderam com “quero ver vc adivinhar” tinham ascendente em Escorpião. Já três indivíduos perguntaram se isso de ter ascendente em Escorpião é grave. Dois deles, anonimamente.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em SAGITÁRIO foi de 8,0% do total. Metade desses já sabia tudo sobre ter ascendente em Sagitário. A outra metade pediu bibliografia.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em CAPRICÓRNIO foi de 6,9% do total. Aqui também acho que há uma distorção. Muitos não responderam a pesquisa porque estavam trabalhando em um projeto. Ascendente em Capricórnio está sempre trabalhando em um projeto.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em AQUÁRIO foi de 9,1% do total. Aqui temos um caso muito singular, mesmo para meu círculo de conhecidos: dois a cada três desses indivíduos são estudantes de humanos. Ops, de humanas. Mas faz sentido. Sempre tenho a sensação de que Aquário é gente de outros planetas que resolveu passar um tempo na Terra por algum motivo. No caso do ascendente agora está claro. Vieram nos pesquisar.

Enfim, o número de indivíduos que declararam ter ascendente em PEIXES foi de 6,4% do total. Aqui acontece algo aparecido com o ascendente em Áries. A diferença é que o ascendente em Peixes não está fora só das redes sociais. Ele está a caminho de estar fora da sociedade mesmo. Faz muito bem.

A propósito, dos 1,7% que responderam “ih não lembro”, presume -se que a maioria tenha ascendente em Peixes.

Por enquanto é isso. Estaremos em contínuo trabalho de processamento e análise das informações. A qualquer momento pode sair um novo relatório. Mais uma vez obrigado.

Todos os signos

Como morrem os signos

O Sétimo Selo, dir. Ingmar Bergman (1957)

Áries morre no calor do combate. Nem chega a ver o rosto da morte. Não sofre por antecipação: o golpe é fatal, súbito e exato.

Touro vê a morte de longe, depois vê a morte chegando, e vai se aproximando dela, até que se encontram. Nada altera seu caminho.

Gêmeos pode até aceitar a morte, só queria ter uma conversa com ela antes: “Isso de morrer, precisa mesmo?”, “esse seu trabalho, é meio pesado né?”, “lá pra onde a gente vai, tem internet?”

Câncer odeia a morte. Queria que ela morresse. Mas ia ficar triste se morresse mesmo.

Leão desafia a morte. Não tem chance de vencê-la, mas faz parecer que tem. Sua morte é uma derrota, mas uma derrota trágica, bela e gloriosa.

A morte de Virgem é um rito. Ela é recebida em um lugar adequado e com os utensílios corretos. Até para morrer existe um jeito certo.

Libra também conversa com a morte, e começa tentando fazê-la mudar de ideia. Depois aceita que a morte é inevitável. Acaba concordando com ela em inúmeros outros assuntos também.

Escorpião morre várias vezes na vida. Tantas que faz amizade com a morte. É com carinho que a recebe na última visita. “Vem cá minha velha”, diz, cheio de intimidades.

Sagitário tem uma teoria a respeito da morte, e vai explicá-la para a morte quando a morte chegar. Vai ser a maior viagem, mas a morte vai achar interessante e vai ouvir até o fim.

Capricórnio respeita a morte, sabe que ela está aí há muito tempo. Morrer é uma coisa que todo mundo faz, não vai ser ele que vai inventar moda do contrário.

Aquário recebe a morte como um convite para entrar em um clube, tipo ingressar em uma associação: “Tô nessa, quero participar também”. Mas Aquário pode sentir exatamente o contrário, a morte como oportunidade de deixar de participar do clube dos vivos: “enfim”, diz, “tire-me daqui”.

Peixes se rende à morte como se rende ao sono, deixa que ela leve peça por peça, entrega os pontos. E, se tem alguém que consegue enganar a morte, esse alguém é Peixes, quando finge que está jogando para vencer, e na verdade não está nem prestando atenção no placar do jogo.

peixes

Peixes ninguém entende

Ninguém entende os piscianos. Nem eu. Mas pelo menos sei que “ninguém entende os piscianos” é uma das frases que os piscianos mais gostam de ouvir. Não é exatamente que se achem pessoas muito complexas; “complexo” não é palavra suficiente para defini-los. É que se acham muito… sei lá, muito piscianos mesmo.

Todo signo se sente incompreendido ou injustiçado em relação a algo que oferece ao mundo. Por exemplo: Áries precisa que a gente admire sua honestidade; Câncer oferece cuidados mas exige afeto de volta; Leão nos oferece sua luz, e ai de nós se não for suficiente; Capricórnio precisa de respeito por todas as responsabilidades que assume.

Essa lógica vale particularmente para o signo solar, porque o Sol se orgulha do que oferece ao mundo em abundância (não por acaso é regente leonino). Então o signo solar – o signo do dia do ano em que a gente nasce – é o Sol atuando em nós de acordo com o arquétipo em que está situado, oferecendo algo de específico de acordo com a natureza desse arquétipo, e querendo reconhecimento por isso.

Mas só Peixes tem certa soberba de ser meio confuso. “Nem eu me entendo” é uma frase que piscianos dizem esperando algum grau de validação. E estão certos, a verdade é que nem eles se entendem, e essa é uma característica especial, merece algum tipo de recompensa.

Enfim, tenho piscianos incríveis ao meu redor e na minha vida, e acho que ainda vou passar boa parte da vida especulando sobre Peixes e tentando compreendê-los um pouco melhor. Mas, por ora, resolvi presenteá-los com uma postagem que começa e termina com uma das frases que mais adoram: ninguém entende os piscianos.

Nem eu, querides. Percebam meu amor por vocês: nem eu.

capricórnio, câncer, peixes, virgem

Chantagistas do zodíaco

Há diversas formas de separar e classificar os signos – elementos, modalidades etc. – e uma delas é aquela que reúne Capricórnio, Peixes, Câncer e Virgem em um mesmo grupo, formado por um retângulo no zodíaco. Pode não ser fácil imaginar o que arquétipos tão diferentes têm em comum, mas por isso mesmo o exercício é atraente. Uma maneira de articulá-los é perceber como os temas da renúncia e do sacrifício se repetem em cada um deles, o que faz também com que surjam os temas da barganha e da chantagem.

Todos os arquétipos têm algo a nos oferecer, é claro. A questão com esses quatro é que sua própria identidade está vinculada a este oferecimento, pois o tipo de cuidado ou de trabalho que exercem é por natureza voltado para o benefício dos que estão ao redor. Em Câncer, por exemplo, o amor por tudo o que é próximo, a preservação do calor do lar, e a renovação de vínculos familiares ou comunitários, resultam sempre em garantias de pertencimento e segurança emocional para outros (e os demais arquétipos de fato se aproveitam disso enquanto estão preocupados com outras coisas). O problema é que não raramente Câncer apresenta a conta; e a chantagem emocional materna, em que são ressaltados o sacrifício e a renúncia em nome dos filhos e da família, aparece aí como a expressão mais estereotipada – mas nem por isso menos real – dessa dinâmica.

Em Capricórnio, algo semelhante acontece. A diferença é que Capricórnio não oferece carinho, mas trabalho, e não espera de volta afeto, mas respeito. Tudo bem com isso até certo ponto – vamos sempre nos beneficiar da responsabilidade e competência capricornianas –, mas, com frequência, em troca desse sacrifício, é exigida uma reverência que nunca chega em doses suficientes. Além de responsabilidade e competência, portanto, Capricórnio também acrescenta ao mundo bastante frustração e ressentimento por não ter seus esforços reconhecidos. Isso quando não parte para as formas mais abertas de autoritarismo, no lugar das manipulações emocionais cancerianas.

Em Virgem e Peixes isso se opera de maneira mais sutil, e por isso mesmo mais interessante. Virgem oferece ao mundo os serviços discretos e meticulosos que o mantém em funcionamento, e em troca requer distância. Assim, tudo aquilo que invade a pureza de seu espaço sagrado é visto como uma injusta intromissão – de um mundo impuro e imperfeito – na perfeição que a tanto custo alcança para si. Virgem sente que tem o direito de preservar esse distanciamento, pelo menos enquanto seu serviço estiver sendo executado com a habilidade e a devoção de sempre. E talvez até tenha, do ponto de vista de uma lógica compensatória, mas não é com essa lógica que o mundo funciona.

Em Peixes, afinal, se dá a barganha de maiores proporções: o sacrifício do ego e da individualidade em troca do amor e da aceitação incondicionais do cosmos. Isso vale tanto para o devoto ou monge que se retira do mundo para entregar-se a Deus, quanto para o indivíduo que evita toda forma de julgamento ou exigência, e em troca espera não ser julgado por nada nem exigido para coisa alguma. A famosa vitimização pisciana decorre muitas vezes desse tipo oculto de escambo, em que o paradoxo compensatório fica mais evidente, com o amor incondicional sendo oferecido com a condição de um retorno. Mas, como sabem bem muitos monges angustiados e alguns dos mais compulsivos devotos, Deus não cai nesse tipo de armadilha. Nós também não.

Ou seja, cada um desses arquétipos tem de fato muito a oferecer ao mundo – afeto, trabalho, responsabilidade, amor incondicional – mas cada um também está sujeito a distorções a partir de cálculos mais ou menos conscientes do que esperam receber em troca. O problema aí é que não temos notícia de um universo que funcione de acordo com esse toma-lá-dá-cá; as coisas nessa dimensão acontecem de formas muito mais interessantes e surpreendentes. A própria noção de carma, que em suas versões mais popularizadas atende a esse critério, não passa aí de jogo de soma zero no qual outras vidas trarão as recompensas aguardadas. Não sei se trarão, mas suspeito de que só o fato de serem ‘aguardadas’ seja um indício do contrário.

Parafraseando Kafka, há justiça nesse mundo, justiça infinita, justiça suficiente – mas não para nós. Ou pelo menos não uma justiça que sejamos capazes de compreender. Por outro lado, cada um de nós tem talentos e habilidades e virtudes cujo exercício podem nos fazer esquecer por alguns instantes o que o futuro nos trará ou deixará de trazer. É nesse momento, enquanto estamos desavisadamente, espontaneamente executando essas tarefas e manifestando essas qualidades, que recebemos em troca tudo o que precisamos. E aí sim: o universo agradece.

peixes, virgem

O eixo Virgem-Peixes

Virgem e Peixes são signos opostos complementares, ainda mais opostos e ainda mais complementares porque colocam em interação os extremos da ordem e do caos. À primeira vista, não é difícil distribuir as funções: a ordem é virginiana e o caos é pisciano. Mas as coisas felizmente não são tão simples assim, e a compreensão das nuances entre esses dois arquétipos é um passatempo meticuloso e delicado.

A ordem virginiana tem na origem o propósito de assegurar que objetos e implementos de rituais de purificação estejam todos no lugar, garantindo seu bom funcionamento, através de criação de canais apropriados ao fluxo e à circulação de energias. A relação com a saúde está aí também, mas sem deixar de entender o corpo como uma esfera de atuação do sagrado, pois o local onde Virgem atua é sempre uma espécie de templo. Virgem, portanto, conhece o caos, sabe que ele está sempre à espreita, e por isso se empenha em mantê-lo do lado de fora, ao mesmo tempo em que deixa entrar a luz divina. Porém, tudo aquilo que é estranho à inteligência humana pode parecer caótico aos nossos olhos, apenas por tratar-se de um tipo de ordem que não compreendemos.

A própria divindade entra nessa categoria, e aqui surge o paradoxo virginiano: as práticas que surgem para nos proporcionar um contato com o Outro podem ser aquelas que acabam por manter qualquer alteridade além das muralhas do templo. Não há mais fluxo, não há mais circulação, não há mais movimento, e aí a ordem que se estabelece começa a deteriorar-se a partir de dentro, levando-a à morte. Como o pontinho escuro na parte clara do símbolo do Tao, é necessário permitir certa desordem no interior dos recintos sagrados, porque aquilo que chamamos de ‘caos’ pode ser só um outro nome para a ‘vida’. Não existe perfeição assim percebida por nós que não seja estritamente humana, e a verdadeira Perfeição é algo que não seríamos capazes de perceber.

Mas poderíamos, talvez, vivenciá-la em um instante de sorte; e Peixes tem entre seus atributos a aspiração por essa experiência. Sua permeabilidade ao não-humano, àquilo que foi deixado fora de nossas rotinas ordinárias, admite o convívio com máculas e demônios jamais admitidos no ordenamento dos ritos purificadores: Peixes tem inclusive a lembrança de nossa existência aquática, é atravessado por mistérios mais antigos que a espécie humana e que vão sobreviver a ela. O sonho e a vigília, então, se misturam de tal modo que o próprio corpo já não existe com limites exatos. O ego se dissolve não por força de um ato de vontade, mas porque nunca esteve lá como algo independente do mundo ao redor.

Por outro lado, Peixes é bem capaz de intuir uma Ordem superior por trás dessa bagunça toda em que está imerso. E, assim como Virgem percebe a alteridade como impureza, pode encontrar nela o veículo do grande sacrifício em que a purificação final será alcançada, ou mesmo sacrificar a riqueza e a multiplicidade desse mundo em nome da unidade de uma Ideia delirante. Esses signos aparentemente tão inocentes têm por isso sua parte de responsabilidade nas tiranias e fanatismos desse mundo. A experiência pisciana da Totalidade é totalitária se não for efêmera, e desconhecer os limites entre o eu e o outro é tão perigoso quanto sacramentá-los.

O símbolo do Tao, naturalmente, tem também um pontinho claro na parte escura. É a ordem que existe em meio ao caos, e não por trás dele. Esses pontos parecem os olhinhos de dois peixes que nadam em direção opostas e complementares, tudo coordenado por uma geometria exata e perfeita que a gente pode perceber claramente. Trata-se de um símbolo humano, criado por mentes e mãos humanas, mas que trata de algo que vai além da experiência humana; e Peixes precisa desses símbolos para ter alguma representação do mundo indizível onde vive.

Já Virgem precisa saber que o mundo não tem como ser ordenado como um símbolo, que a linguagem não nos basta e que o divino está naquilo que é deixado do lado de fora de nossas palavras. Embora os símbolos, incluindo os signos do zodíaco, sejam também possíveis portais de um encontro com o sagrado, ou seja, a maneira como as mais diversas divindades – das mais sublimes às mais demoníacas – circulam entre nós.