áries, libra

O Zen e a arte de descascar batatas

A costureira (1665) | Jan Veermer

Tem aquela história de um sujeito que chegou para trabalhar em uma fazenda e deram para ele a tarefa de remendar todas as cercas do terreno. Em questão de horas elas estavam remendadas. Aí perceberam como ele era eficaz, e deram para ele um monte de lenha para partir com um machado. Em minutos já não tinha lenha nenhuma para partir. As coisas foram seguindo nessa toada até que já não havia quase mais nada para fazer, além de descascar as batatas do almoço; deram para ele mais essa missão, com a certeza de que não ia durar mais que um piscar de olhos. A única diferença era que nesse caso ele ia precisar escolher as batatas boas e dispensar as que estavam ruins. De modo que anoiteceu e ele ainda estava lá, diante da primeira batata, sem ter decidido ainda se ela entraria no primeiro ou no segundo grupo.

A anedota é simples, a moral da história é clara: algumas pessoas, por mais competentes que sejam, simplesmente não conseguem tomar decisões. Não é da natureza delas, assim como não é da natureza do vento escolher qual caminho tomar. Agora, querem ver como as coisas de repente se complicam? Eu pergunto, invocando a dúvida que me parece realmente relevante diante dos fatos narrados: esse nosso personagem simplório e hesitante, o pau-pra-toda-obra-menos-aquelas-que-envolvem-escolhas, o exímio cortador de lenha e fracassado descascador de batatas, ele é de Áries ou de Libra? Porque de um ou outro desses signos ele é, isso fica evidente de imediato. Daí a decidir qual já é outra história.

E olha que nem libriano eu sou para ficar me entretendo demais com esses dilemas. O problema é que justamente esse estereótipo do libriano indeciso me parece insuficiente para chegar à resposta. Consigo facilmente ver o protagonista da anedota como um ariano também. Quem me garante que a velocidade dele para remendar cercas não se deve a um espírito impaciente, que não se deixa demorar em segundos pensamentos antes de partir para ação? E quem me garante que a imagem dele diante das batatas a descascar não é a de um ser exasperado com a tarefa impossível de ficar tomando decisões criteriosas e fundamentadas, quando tudo o que ele queria era sair descascando geral para ir embora logo dali?

Porém, todavia, entretanto, contudo: quem me garante que essa pessoa não era um libriano inconsciente de suas mais autênticas faculdades mentais até o momento em que se encontrou, justamente, diante da necessidade de tomar uma decisão? Quem assegura que ele não conseguiu de fato ver na questão das batatas uma série de nuances, variáveis, influxos, interferências, modulações, nodos, protuberâncias, capazes de ocupar a mente por uma tarde inteira, de maneira que, a partir de um simples to peel or not to peel, brotaram algumas possíveis respostas para as mais antigas encrencas filosóficas da humanidade? Em resumo, quem me garante que nosso protagonista na verdade não era uma Hannah Arendt dos tubérculos?

Pois é. A Hannah Arendt era libriana. E era botar duas batatas na frente dela para sair um tratado de batatologia capaz de mudar completamente nossa visão do assunto. Curiosamente, trata-se de uma autora que teve na ação um dos temas fundamentais de suas reflexões. Ou melhor, curiosamente não, coerentemente: pensar sobre a ação é, basicamente, o que Libra faz da vida. Independe se isso se dá no âmbito do não-sei-se-caso-ou-compro-uma-bicicleta ou da crítica da Crítica da Razão Prática.  

Isso tampouco quer dizer que Libra é incapaz de agir; Libra é capaz de agir sim, mas no caso libriano o problema não é a precipitação, e sim a demora mesmo. Pois entre o pensamento e o ato existe uma distância que nunca será simples de transpor. Enquanto em Áries acontece o contrário: o ato vem antes do pensamento, e a distância entre eles persiste, só que no sentido oposto. O que nos dá uma boa base para explorarmos um mesmo tópico em ambos os signos. Ele diz respeito à temporalidade de nossos gestos – ou, em bom português, o problema do timimg.

As coisas vão fazer mais sentido se a gente lembrar que Libra é um signo cardinal, dos que estão de fato voltados para a ação, a iniciativa e para a resolução de problemas (os demais são Áries, Câncer e Capricórnio). O fato de associarmos a resolução de conflitos ao arquétipo libriano faz parte desse jogo. Acontece que o conflito é um tema do eixo de opostos complementares Áries-Libra do mesmo modo como a ação é: aparece em ambos os lados da figura. Em Áries, o conflito com o mundo externo é parte natural da existência imediata, e a ação rápida decorre da defesa do eu diante do outro. Em Libra, por outro lado, o conflito é internalizado, o eu e o outro coexistem na mente individual, e a ação demora porque antes eles precisam se entender.

Com frequência, então, Áries age como se estivesse sozinho no mundo, porque em sua experiência arquetípica ele está – é o caçador solitário na floresta, atento a cada movimento ao redor, capaz de aniquilar uma ameaça em um gesto, porém despreparado para lidar com o componente imprevisível do comportamento humano. Áries não lida bem com a ambiguidade, e prefere ter uma relação direta com as coisas – mesmo que seja uma relação de luta – o que implica também uma dificuldade em conviver com o conflito.  Para Áries, conviver com um conflito é como ouvir constantemente e noite após noite o barulho de um animal rondando o acampamento no escuro da floresta, e não poder fazer nada a respeito. Uma tortura.

Libra, por outro lado, vai noite após noite juntando informações, pensando a respeito do que fazer para lidar com a ameaça, pensando em se será bicho ou será gente, até o momento em que a ameaça – qualquer que seja – avança sem que nada de efetivo tenha sido feito para enfrentá-la. Nessa situação, o libriano estaria em desvantagem. Agora vamos supor que ao invés de estarmos em uma floresta estamos em um tribunal de júri. Recolher informações a partir dos semblantes dos jurados, aguardar o momento certo para apresentar uma evidência, esperar a hora de fazer um discurso decisivo – tudo isso são virtudes que Libra pode exercer muito bem nesse domínio.

Mas ainda assim Libra só vai tomar uma decisão realmente certeira se tiver Áries em seu mapa ajudando de alguma forma. E vice-versa: se Áries simplesmente partir para cima do bicho por puro desespero, vai acabar sendo comido também. O interessante é que tanto em um caso como no outro o ideal não é exatamente que a reflexão venha antes da ação; o ideal é que as duas coisas aconteçam juntas. É verdade que a vida ia ser muito menos divertida se Áries e Libra não tivessem seus descompassos, que sem o erro não existiria a comédia, e que sem a comédia não existiria Charles Chaplin. Mas, quando o eixo Áries-Libra funciona bem, o gesto é perfeito, e não apenas acontece no timing correto como subverte nossas concepções usuais de tempo e espaço.

Quem entendeu isso bem foram os orientais. A gente é que com frequência não entende os orientais direito. O Tao Te Ching, de Lao-Tsé, é muitas vezes confundido como um elogio da inércia e de um deixar-se levar pela vida de traços piscianos e zeca-pagodísticos; nada mais distante da realidade (nada contra Peixes, e muito menos contra Zeca Pagodinho, muito pelo contrário; estou dizendo apenas que o pensamento pagodiniano não é aplicável aqui). O livro, em diversos momentos, se pretende inclusive como uma espécie de instrução para o governante nos moldes do que viria a ser o Príncipe de Maquiavel, e, portanto, oferece dicas e aforismos voltados para a tomada de decisões bem concretas e mundanas. Mas, sim, Lao-Tsé acredita que uma determinada atitude do espírito é mais favorável para que as decisões certas aconteçam.

Nós perderíamos muito do seu ensinamento se caracterizarmos essa atitude como particularmente ativa ou particularmente reflexiva. O desafio é justamente não decidir agir, mas criar condições para que a ação se dê por força própria em nosso corpo, no tempo exato, e ao mesmo tempo não a deter por conta da desconfiança que sentimos diante de sua espontaneidade. Quem deu um exemplo de como isso pode acontecer foi o acadêmico alemão Eugen Herrigel em O Zen e a Arte do Arco-e-Flecha, livro em que relata sua experiência como professor visitante na Universidade de Tóquio.

Lá, ele foi convidado a cursar disciplinas como Cerimônia do Chá, Arranjo de Flores, Esgrima e Arquearia, optando pela última e descrevendo depois no relato a longa experiência aí iniciada. Desculpem o spoiler, mas preciso dizer que ele vai acabar  acertando uma flecha atrás da outra bem no meio do alvo. No final da história, ele entende que sua longa série de fracassos decorreu do fato de que ele sempre decidia soltar a corda do arco e só depois a soltava; ou então ele, ao tentar evitar esse mecanismo, decidia soltar antes de decidir, aí soltava mais rápido, antes da hora, precipitadamente, por pura ansiedade.

O livro é um clássico que vale a leitura integral, mas gostaria sobretudo de lembrar uma passagem de sua conclusão. Nela, Herrigel menciona o método empregado por um mestre esgrimista com alunos que chegam a residir com ele para alcançar melhores resultados. No início da convivência doméstica, ao aluno são atribuídas tarefas rotineiras como cortar a lenha e lavar a louça. Nenhuma palavra ou lição a respeito da esgrima. Porém, para maior espanto do discípulo, ele passa a levar fortes golpes do mestre com um bastão enquanto está realizando estas atividades, sempre de maneira imprevista e intermitente. De modo que desenvolve uma tensionada prontidão para defender-se dos golpes, mas ainda assim nunca consegue antecipá-los. E pior: sempre que ele se coloca em guarda para receber uma estocada de um lado do corpo, ela acaba vindo no outro, e, sempre que se prepara para conter um golpe em determinado momento, ele acaba chegando só instantes depois.

O aluno vai então percebendo instintivamente que é inútil manter aquele estado de alerta. Não porque esteja a salvo do perigo, mas porque não há como prever qual será a ameaça e quando ela se lançará contra ele. Além disso, as energias para manter o corpo e a mente predispostos à defesa contra um possível ataque são sempre gastas inutilmente, e podem ser valiosas para a defesa contra um ataque real. Se ele aguarda o golpe vindo do lado esquerdo, por exemplo, e o recebe do lado direito, o tempo necessário para redirecionar sua força de proteção é motivo de uma demora significativa. Incapaz de solucionar o problema, incapaz de defender-se dos golpes, o aluno aceita sua sujeição à imprevisibilidade do mestre.

Até que um dia, enquanto está lavando a louça ou cortando a lenha, sem se ocupar mais que o mínimo com sua proteção, ele de repente se vê interrompendo um golpe desferido como todos os outros – em um momento inesperado, de um flanco desguarnecido. Não é nada que ele estivesse aguardando. Ele não decide se defender. Ele tampouco decide não decidir. Ele simplesmente se defende. Suas energias e talentos estão totalmente disponíveis para reter o golpe do bastão espontaneamente, no instante em que ele é percebido. A partir daí, o mestre o considera apto a iniciar a prática da esgrima.

Moral da história: há em nossa ansiedade um forte elemento de preparação para golpes que nunca chegam. Há, por outro lado, golpes que efetivamente chegam quando tudo parece indicar que estamos a salvo de seus riscos. Mas podemos nos defender deles assim como o vento decide qual caminho tomar: sem pensar duas vezes. O que não implica tomar atitudes impensadas, mas encontrar um modo de ação no qual o pensamento não aconteça nem antes nem depois do gesto, mas simultaneamente, de tal maneira que um não se diferencie do outro. Pode parecer difícil. Mas veja bem: não é nada muito diferente do que faz um bom jogador de futebol quando decide fazer um lançamento e faz. A questão aí é como a gente pode aprender com eles a fazer lançamentos na vida.

Ah, que saudade dos lançamentos do Ronaldinho Gaúcho, por falar nisso. Pena que na vida hoje em dia ele parece não pensar nem meia vez antes de fazer o que faz. Olhei aqui agora, o Ronaldinho é de Áries. Isso explica muita coisa: o poder de explosão, a intuição corporal, a decisão rápida. Aquele gol contra o São Paulo em 2013. Enfim, um jogador completo. Inteligente. Deve ter algo acentuando Libra no mapa também. E ao mesmo tempo, deve ter algo capaz de avacalhar a relação Áries-Libra em proporções ronaldescas. Enfim, há dessas pessoas no mundo, capazes de feitos olímpicos inimagináveis – mas vai saber o que acontece quando a gente pede que descasquem umas batatas.

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O lugar bom

Essa postagem é para quem assistiu ou está assistindo The Good Place, a série da NBC que estreou em 2016 e terminou em 2020 (tem na Netflix). Vi o último episódio esses dias, e série tem esse negócio de a gente ficar com saudade dos personagens. Então – prometo não estragar o final para ninguém, pelo menos não para quem já passou da primeira temporada – me deu vontade de explorar um pouco mais a brincadeira dos signos com eles. A propósito, já mencionei o Michael (Ted Danson) em um texto sobre Capricórnio, e indiquei a Eleonor (Kristen Bell) para o Oscar do zodíaco que propus uma vez aqui, na categoria Personagem de Áries. A essa altura, estou convencido de que ela merece o prêmio.

Isso porque ela é uma ariana que vai ficando mais suave no decorrer da série, menos tensionada no confronto com o mundo, e, por mais que esse seja um caminho esperado em uma narrativa cômica convencional, ela nos convence de que isso é possível. Não é só porque aprende a falar palavrões com certa civilidade (tipo “holy fork!”, eventualmente traduzido por “fruta que caiu!”); ela faz com que seja verossímil uma heroína de Áries do bem, na medida do possível, é claro. De todas as transformações que vemos no decorrer das temporadas, para mim a dela é a mais notável. Não quer dizer que fique menos ariana, pois conheço muita gente desse signo que já parte desse lugar em que o restante da humanidade não é visto apenas como uma ameaça, e sabe que dá até para conviver com gente, às vezes até gosta. Em se tratando de Áries, já é bastante coisa.

Chidi (William Harper), por sua vez, é o clássico libriano que precisa aprender a tomar decisões. Não por acaso é o par oposto-complementar de Eleonor. Mas acho interessante que seja um filósofo. É comum as pessoas acharem Libra um signo romântico, mas a gente sabe como eles conseguem ser incrivelmente frios e cerebrais. Falta-lhes o fogo das paixões leoninas, o poço dos sentimentos escorpiônicos, a sensibilidade ao ambiente de Touro ou Virgem. É lógico que nessa perspectiva falta um traço de Libra também todos os outros arquétipos, e falta mesmo. Sobretudo quando a gente conhece um libriano que, não obstante sua librianice, e inclusive por causa dela, sabe decidir que sobremesa escolher depois de colocar todas as opções na balança.

Jason Mendoza (Manny Jacinto) é um caso singular. Peixes, sem dúvida. O interessante é que ele é pisciano tanto em sua versão de mentirinha quanto depois que ficamos sabendo quem ele realmente é após os episódios iniciais da série. Nesse caso acho que não conta como spoiler porque a coisa se revela logo ali no segundo ou terceiro capítulo: ele passa de um monge tibetano de olhos puxados que vive à base de meditação e água fresca para um morador da Flórida de origem filipina de olhos puxados que vive à base de todo tipo de porcaria e pequenos roubos de gasolina. Embora o monge seja um personagem típico do arquétipo de Peixes, a versão verdadeira de Jason é até mais pisciana que a outra.

O legal é que ele não deixa nunca de ser um personagem ingênuo e encantador. Avoado, iludido, totalmente incapaz para os assuntos práticos da vida, mas nunca menos “espiritualizado” que sua versão monástica, mesmo quando se lembra do dia que passou atirando em ratos no lixão de Jacksonville com um primo de Blake Bortles. Porque ele espera ser aceito pelo mundo da mesma maneira como o aceita, e representa o papel do bobo em tudo o que tem de plena receptividade e espelhamento do mundo ao redor. Além de ser engraçado, é claro. Tem uma cena, por exemplo, em que está todo mundo dando opinião ao mesmo tempo sobre algum problema, aí ele entra e dispara a falar um monte de coisas nada a ver. Quando perguntam o que deu nele, responde: “Sei lá, estava todo mundo falando junto achei que era para eu falar também”. Tipicamente pisciano.

Quanto à Tahani (Jameela Jamil), aí já fico na dúvida. Ela tem a rivalidade geminiana pela atenção dos pais com a irmã, mas não tem agilidade de raciocínio de Gêmeos; participa do encanto leonino com o universo das celebridades, mas falta-lhe magnetismo e confiança para ser ela própria uma Leoa. No final das contas, fico achando que é de um signo de Terra. Mas nesse caso estou disposto a aceitar ajuda, então se alguém aí tiver um opinião a respeito pode falar. Vejam só que coisa bizarra estou me tornando: uma capricorniano que admite que não sabe uma coisa e até pede conselho pros outros. Tipo o Michael.

Voltando então rapidamente ao Michael: o engraçado é que, além de ser uma figura evidentemente capricorniana em sua função de gerenciar a coisa toda e saber tudo a respeito de tudo, ele a princípio tem ainda aquele traço de Capricórnio que não aceita a necessidade de ajuda. Precisa estar sempre no controle, sem precisar nem do palpite de mais ninguém. É lógico que isso já vai mudando a partir da segunda temporada, vai ficando mais claro como na verdade tudo o que ele precisa (e no fundo quer) é assumir a forma falível e imperfeita dos humanos. É muito exaustivo isso de se responsabilizar pelo universo o tempo inteiro. Algo semelhante poderia ser dito de muitos capricornianos. 

E tem a Janet (D’Arcy Carden), é claro. A Janet é um caso à parte. Aí eu perguntei pro pessoal da internet qual é o signo da Janet, e a resposta que mais me apareceu foi Virgem. Eu respeito essa posição e até entendo. Ela tem um gestual contido e um jeito de se vestir que são bem virginianos. Ela presta um serviço inestimável, aparece sempre que alguém precisa de alguma coisa, é uma funcionária exemplar do cosmos e e nem humana ela é. Pra muita gente, isso é mais que suficiente para cravar: virginiana.

Mas eu sou Capricórnio com ascendente em Escorpião, então quando peço conselho ou palpite pros outros vocês podem suspeitar que é só jogo de cena. Já formei minha opinião há tempos e nada me fará arredar dela. Acho que os gestos controlados e aparentemente metódicos da Janet têm mais a ver com fato de que ela não tem muita familiaridade com a forma humana que assumiu. Aí vocês precisam que considerar que, quando a gente fala que Virgem não é muito humano, isso é mais num nível metafórico; é lógico que não é literal. Tem só um signo que corresponde a essa característica sem precisar de licença poética. Tem só um signo de gente que veio de outras galáxias e está ainda se acostumando a viver entre nós.

Pois então: Aquário. Em primeiro lugar, exatamente por isso, porque nem humana ela é. Digo isso na certeza de que os aquarianos queridos do meu coração vão entender como um elogio: tipo, você nem é humano, você é uma Janet. E, como se não bastasse, ela é capaz de prover os humanos com aquilo que normalmente é reservado aos deuses, como fez Prometeu, protagonista do mito mais significativamente aquariano. O fato de que vai acabar se apaixonando por uma pessoa de carne e osso, e conhecer um pouco mais os desejos do corpo que a princípio lhe é estranho – isso também acontece com frequência no âmbito do arquétipo de Aquário. E a maneira como a mente dela se conecta como uma espécie de supercomputador a tudo o que acontece no universo só me faz ter mais certeza do meu ponto.

Para terminar, ufa, tem a série como um todo. Estreou em 19 de setembro de 2016. Essa sim é, portanto, virginiana. Para mim faz sentido: a narrativa costuma ser até bem metódica em sua sobreposição de universos como se fossem bonecas russas, mesmo quando flerta com o caos. Agora, eu apostaria que existe alguma coisa ali que articula muito bem Sagitário e Touro. Talvez a Lua no primeiro, o ascendente no outro. Pois o pano de fundo é sagitariano, de modo que toda a brincadeira é organizada em torno de uma indagação sobre o sentido da vida e a finalidade da existência. Ela pode não alcançar muita profundidade nesse sentido; mas isso, pelo menos para mim, não é necessariamente uma falha ou deficiência. É aí que entra a perspectiva taurina.

Pois, no final das contas, após as milhões de referências a Kant e Heidegger e Pascal, a série acaba recorrendo ao pensamento oriental para dar uma última resposta provisória ao enigma do existir. Sobre esse aspecto dos últimos episódios, sem entregar o enredo, vou me permitir uma pincelada, até porque o recurso é mais que previsível, e não apenas pelo andamento da série, mas pela própria linguagem seriada de que ela é um bom exemplo. A ideia de que o “fim” pode ser infinitamente postergado para uma outra temporada – e de que podem existir mundos infinitos dentro de infinitos mundos – faz, curiosamente, com que o momento presente seja mais valorizado. Se a própria morte não é conclusão de um processo, mas faz parte de um conjunto incessante de ciclos, não tem porque você se afligir com uma finitude ilusória, e você pode muito bem encontrar o infinito que existe contido no agora.

Buda, como já disse aqui vez ou outra, para todos os efeitos era taurino. Seu aniversário é comemorado no dia 07 de maio. Isso para mim está relacionado não apenas à paciência e à perseverança, mas também à capacidade que Touro tem de aproveitar as coisas boas da vida. Digo, aquelas coisas materiais e momentâneas mesmo, como uma boa refeição, um bom vinho, uma boa companhia ou a simples possibilidade de respirar fundo um ar puro e tranquilo. É por isso que para mim a série termina onde começa a grande lição de Touro para nós. Que é um pouco a lição de Buda também. Não saia daí. Respire. Aproveite a vida. Aproveite o momento. O lugar bom é onde você está.

libra

Libra é um perigo

Tem um filme chamado Mulher Solteira Procura que ficou conhecido nos anos 1990. Não me lembro muito bem da história, mas sei que era sobre uma jovem que se tornava colega de apartamento da tal mulher, ficava também amiga íntima dela, e ia se mostrando cada vez mais obcecada e psicopática nessa relação. A cena mais famosa era uma em que ela aparecia com exatamente as mesmas roupas e o mesmo corte de cabelo da outra, exibindo um olhar inocente, meio meigo, meio demoníaco. Não sei agora quem era a atriz. Não me lembro o nome da personagem. Mas tenho certeza de que era libriana.

Que o libriano é o best friend forever da lenda, isso é claro. Se você tem um amigo da vida toda pra chamar de seu, ele pode não ser de Libra, mas o relacionamento é. Que o libriano é o stalker do zodíaco – bom, isso também todo mundo sabe. Perdoem-me os itálicos e anglicismos, mas é que “perseguir” e “estalquear”, até onde entendo, são coisas bem distintas – e você provavelmente tem um libriano dando uma estalqueada nos seus perfis na internet nesse exato momento. Não quer dizer que esteja te investigando que nem um maluco, tampouco quer dizer que esteja isento de traços compulsivos. É libriana aquela fungada no cangote que a gente sente com um misto de terror e prazer quando escuta alguém cantarolando logo atrás, “every breath you take / every move you make / I’ll be watching you”.

Olhe de novo para poema do Leonard Cohen que coloquei aí em cima: “Você siga seu caminho. / Eu vou seguir o seu caminho também”. Pois é. Que docinho de coco. E que medo. Aliás, me lembro de ter tido uma fase bem libriana na minha vida, em que, por exemplo, se acontecia de alguém me pedir uma informação na rua, eu acabava me disponibilizando a acompanhar a pessoa até o lugar onde ela ia.

Na época eu achava que estava sendo super desprendido, super simpático – e que as pessoas que me pediam informação na rua deviam chegar em casa à noite falando do rapaz legal que tinham conhecido. Não pensava então que pudessem chegar em casa falando do rapaz estranhíssimo que tinham conhecido, do medo que sentiram dele na hora em que resolveu fazer junto o caminho inteiro até o ponto de ônibus a sete quarteirões de onde estavam, sendo que ele nem ia pegar ônibus nenhum. Nada disso me ocorreu na época. Ocorreu agora, pensando em Libra.

Por outro lado, sabemos também como Libra pode ser narcisista; os pratos da balança acabam pesando mais para algum lado, o da dedicação ao outro ou o da atenção para si, e isso quando os extremos não se apresentam simultaneamente (“como estou sendo desprendido, simpático, modesto”, vejam bem, é um pensamento libriano). Pois o fato de Libra representar esses dois polos implica exatamente algum tipo de desequilíbrio entre eles. A existência de “dois” – em um sentido estrito, é isso que Libra inaugura – cria a busca pela harmonia, pela justiça, pelo equilíbrio, mas em um mundo em constante movimento essa busca não tem começo nem fim, é feita de constantes ajustes pontuais que presumem desajustes exagerados, intensas oscilações, bruscas mudanças de ideia.

Nesse sentido, o interessante mesmo é como o comportamento desviante já está implicado no comportamento dito “normal”, e por isso não seria tão desviante assim, por representar algum tipo de necessidade primária ou arquetípica do ser humano. Tanto o narcisismo extremado quanto a adaptação doentia são previstos pelo arquétipo de Libra. Então, talvez o que caracterize o libriano seja menos a tendência a algum tipo de excesso – todos os arquétipos permitem e sugerem excessos –, quanto a dificuldade em assumir essa possibilidade, inclusive para ele próprio.

Aí vou dizer algo que não sei se devia, porque não sei se vou saber me explicar. Mas vou tentar pelo menos: o libriano é meio sonso. Não no sentido de ser abertamente hipócrita, mas por conseguir manter aquela cara de paisagem de Monet mesmo quando assuntos e sentimentos da mais profunda complexidade estão em jogo. Manter-se na superfície das coisas é um talento libriano, e, como tudo na vida de Libra, também isso se torna uma arte. Em resumo: o libriano é um fingidor. E finge tão completamente, que chega a fingir que é amor, o amor que deveras sente.

Percebam: não é que Libra tenha algum mecanismo de sedução ou manipulação que nos torne inconscientes de suas artimanhas (esse é Escorpião); Libra tem algum mecanismo que o torna, ele próprio, placidamente inconsciente, obstinadamente inconsciente de suas artimanhas. Li esses dias que até o século II a.c. Libra nem era signo, que era Escorpião mesmo que ocupava uma faixa ampliada do zodíaco por onde passava o Sol entre fins de Setembro e de Novembro. Faz sentido então que Libra tenha emergido de um profundo e atávico emaranhado de sensações escorpiônicas, buscando algum tipo de clareza nas relações a dois, tentando estabelecer a harmonia, criar a arte dos relacionamentos, elevar-nos para além dos instintos mais básicos e corpóreos – e criando todo um outro tipo de confusão nesse processo.

Sendo assim, Libra pode esquecer, ou fingir esquecer, que vem do mesmo lamaçal que todos nós. Porém, quando isso acontece, nunca se sabe como o lamaçal vai se manifestar através de Libra. O doutor Jekyll e seu amigo Mr. Hyde (o médico e o monstro de Stevenson) estão aí há tempos contando essa história, das consequências que sucedem a tentativa de pular etapas na busca da justiça e da beleza. As bizarrices que se ocultam na simpatia e na elegância librianas podem ser da natureza mais vil. Quer dizer, são da mesma natureza vil que existe em todos nós, mas que se torna de algum modo mais perversa ao se manifestar no mundo através das vestes de Vênus.

É por isso que eu digo: Libra é um perigo. Agora, se você tem amigos librianos que são pessoas declaradamente confusas, instáveis e desequilibradas, nesses você pode confiar. Na verdade, são inclusive essas as pessoas que sem saber estão nos conduzindo a uma experiência mais justa e mais bela da vida, através de tentativa e erro, indecisões e precipitações, oscilações e conflitos. Mesmo quando perdem tardes inteiras estalqueando o crush, ou mesmo quando passam as horas do dia investigando o espelho, basta que saibam rir de de si mesmas para exercer essa capacidade de corrigir os excessos de si e do universo. O riso sincero restabelece a harmonia no cosmos como nenhum outro gesto; talvez por isso, Libra sabe rir de si mesmo como nenhum outro signo. E os librianos que fazem isso são provavelmente as pessoas mais equilibradas em seu desequilíbrio que conheço. Desses não tenho medo nenhum. Para esses, deixo aqui o registro sincero da minha mais completa gratidão.

astros

Beleza dura

Foto: Henri Cartier-Bresson

De tempos em tempos Vênus e Saturno se relacionam no céu dando sequência a uma negociação complicada. O espírito que aspira à beleza e pretende realizá-la no plano físico precisa se entender com as restrições da matéria. O amante que deseja o encontro precisa respeitar os ciclos de aproximações e afastamentos, deixando o pêndulo dos encontros pender para a solidão.

Vênus é a regente de Libra, que busca a conciliação e a harmonia nas relações, mesmo que à custa de definições permanentes. Saturno rege Capricórnio, que busca definições permanentes, mesmo quando isso tem um custo para as relações. A possibilidade de uma beleza duradoura ou de acordos consistentes nasce da interação desses dois vetores a princípio contraditórios. Mas pode ser que o resultado desse contato seja também certa tristeza mesmo.

Nesses casos, é válida a consciência da lei do esforço reverso. Se lutamos contra um sentimento indesejado, ele se fortalece; se aquiescemos, a seu tempo, ele passa. A aquiescência é venusiana; o tempo, saturnino. Vênus e Saturno trabalham bem juntos desde que a gente permita que eles trabalhem. É engraçado isso do ser humano de achar que pode escolher os sentimentos que tem.

Qualquer projeto de longo prazo evolui nessas oscilações entre a angústia e a esperança. Não há obra de arte que seja concluída sem uma mistura de felicidade e resignação. Vênus e Saturno trabalharam juntos toda vez que um escultor enfrentou as restrições da matéria para encontrar a beleza que existe na pedra. Mas sem a dureza da pedra não haveria beleza nenhuma, apenas uma vaga ideia do que a beleza é ou poderia ser.

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Quatro casamentos e um funeral

[Marc Chagall | As luzes do casamento (1945)]

No dia em que eu defender minha tese no Instituto Hogwarts de Altos Estudos Astrológicos, ela provavelmente vai se chamar Da Natureza do Escorpião: um estudo comparativo do mais capetudo arquétipo do zodíaco. A seguir, algumas anotações também sobre Touro, Câncer e Libra, para o capítulo 7, “A questão do casamento”.

TOURO: A questão do casamento surge em Touro. Mas não é ainda um problema cultural intrincado, talvez nem seja exatamente uma “questão”. A união é assunto de subsistência, tem um vínculo imediato com ritmos naturais de reprodução, e envolve um tipo de sensualidade imediatamente vinculada às necessidades e preferências do corpo. Sexo taurino é sexo simples e gostoso. Taurino é o casamento camponês de Levin e Kitty com que Tolstoi encerra o Anna Karenina. Mas simplicidade não significa escassez. O banquete da casamento como celebração da fertilidade do solo e da abundância dos frutos da terra é um fenômeno que acontece no arquétipo de Touro.

CÂNCER: Em Câncer, o casamento ganha uma dimensão social. Envolve não apenas os noivos como também a família, a aldeia, a comunidade. Marc Chagall era canceriano. Suas pinturas de casamentos têm uma ambientação com elementos piscianos, um clima de sonho, mas não deixam de nunca de evocar as tradições da aldeia eslava ou balcânica. Em Câncer, o casamento acontece não apenas na aldeia, mas é algo que acontece à aldeia como um todo. Nesse sentido, casamentos não são apenas uniões e constituição de novas famílias, mas também separações nos lares de que se despedem os noivos. E esse é um dos motivos pelos quais casamentos são felizes e tristes ao mesmo tempo; seu aspecto sentimental é arquetipicamente canceriano.

LIBRA: Em Libra o casamento é o triunfo da inteligência e da diplomacia humanas na resolução de conflitos. Aquilo que Northrop Frye chamou de “predominância do princípio de sociabilidade” ao tratar das comédias de Shakespeare, que geralmente terminam em casamentos. Assim como os casamentos de Chagall compõe-se de Peixes + Câncer, Sonho de uma noite de verão, a comédia shakespereana mais onírica, é Libra + Peixes. Tão destituída de elementos terrenos que praticamente se desprende do solo, porém ainda dependente de algum grau de estratégia para chegar a um final feliz. Qualquer comédia romântica tem um forte componente libriano, é claro. Ao mesmo tempo, em Libra o casamento é um contrato, que prevê equidade e equilíbrio.

ESCORPIÃO: Em Escorpião o casamento não é uma necessidade, não é uma celebração, não é um contrato: é uma morte. Confunde-se com a união sexual, a “pequena morte” do orgasmo, que o simboliza e sacramenta. Mas não é o sexo reprodutivo ou mesmo o sexo gostoso de Touro: trata-se de uma fusão transformadora radical que se dá por trás dos panos, por meio da liberação de energias represadas por um longo tempo. O bom senso taurino, a comunalidade canceriana e a justiça libriana não dão as caras. O que acontece aqui pode muito bem ser bizarro, isolado e desigual.

Em Libra, a propósito, a união presume certa distância, capaz de resguardar o casamento dos riscos da indistinção entre o eu e o outro. Em Escorpião assume-se esse risco. O casamento libriano requer qualidades que atribuímos à amizade, como a admiração mútua e o respeito; o casamento escorpiônico pode prescindir delas. Um amigo uma vez me disse que “o casamento é a relação mais promíscua que existe”. Dá para entender bem essa frase se pensarmos no casamento em Escorpião, não exatamente por causa do sexo, mas por causa do tipo de fusão (e confusão) emocional da intimidade monogâmica, da permissividade afetiva gerada pelo convívio cotidiano. O fim de todos os limites do respeito e da moralidade podem ser experimentados através do casamento. Naturalmente, o ideal é que não seja assim, ou que os limites da moralidade sejam rompidos entre quatro paredes de formas mais renovadoras e catárticas.

Mas o fato é que atitudes e sentimentos normalmente considerados indesejáveis encontram seu lugar no mundo no arquétipo de Escorpião. Acho que fiquei com vontade de fazer essas anotações depois que outro dia li o seguinte nas reflexões diárias um astrólogo que admiro: “Não se permita o exercício da maldade, a não ser que seja por vingança”. Tive que ler duas vezes antes de pensar: ah, é claro, a lua está em Escorpião. Em Escorpião vingança pode, tem justificativa cósmica e licença poética. Por causa da história da fusão e da confusão. Ódio também é ok, às vezes. Mau humor nem se fala: o mau humor é totalmente permitido quando as coisas estão em Escorpião.

O fascinante nesse signo é como o certo se torna errado e o errado, certo. Quanto a parcerias e casamentos, cada um é de um jeito e todos têm um pouco de todos os tipos. Comida, sexo, comunhão e equilíbrio são sempre importantes. Mas existe sempre algo estranho que foge à nossa visão ordinária de como as coisas são ou devem ser. Esse algo é fundamental.

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Estatísticas

Agradeço a todo mundo que atendeu ao meu apelo para contar o ascendente pelas redes sociais. Agora enfim tenho uma amostra considerável para oferecer minha contribuição ao desenvolvimento da ciência astrológica com o máximo rigor metodológico. Em seguida, apresento alguns dados do DATAGUS acompanhados das respectivas análises qualitativas:

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em ÁRIES foi de 5,8% do total. Porém, sabe-se que a conclusão da amostragem não corresponde à realidade. Tem muita gente com ascendente em Áries que já não está em rede social nenhuma. Saíram fora dessa.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em TOURO foi de 8,33333%. Foi o único signo cujo número correspondeu a exatamente 1/12 do total. O pessoal de ascendente em Touro é objetivo. Quando a gente pergunta o ascendente eles respondem “Touro”, e mantêm-se impassíveis, como que esperando a gente dizer alguma coisa a respeito. Mas nessas horas costumo perceber lá no fundo de seus olhos um desconcertante lampejo de sarcasmo.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em GÊMEOS foi de 8,8% do total. Desses, quase metade respondeu “Gêmeos kkkkkkkkk”. Deve ser divertido ter o ascendente em Gêmeos.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em CÂNCER foi de 7,5% do total. Infelizmente, nenhum deles me convidou para tomar um café e comer um bolinho na casa deles. Tomar café e comer bolinho na casa do ascendente em Câncer é especial. Convida aí, pessoal, que eu aceito.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em LEÃO foi de 12,3% do total. Outro número que com certeza não corresponde à realidade. Ter ascendente em Leão é o máximo. Tem gente que diz só pra aparecer.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em VIRGEM foi de 10,3% do total. É um número alto, mas possivelmente correspondente ao número de indivíduos vivos com este ascendente. Mesmo o pessoal com a Lua em Peixes ou Marte em Gêmeos uma hora resolve fazer tudo certinho e manter uma rotina saudável, se tiver o ascendente em Virgem. O percentual se explica pela longevidade.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em LIBRA de foi 8,6% do total. Uma breve análise das fotos de perfil confirma a fama desse ascendente. Ô gente bonita, meu Deus.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em ESCORPIÃO foi de 4,2% do total. O índice extremamente baixo é fácil de explicar. Um ascendente em Escorpião não vai sair contando isso por aí (eu, por exemplo, não conto). A propósito, 100% dos indivíduos que responderam com “quero ver vc adivinhar” tinham ascendente em Escorpião. Já três indivíduos perguntaram se isso de ter ascendente em Escorpião é grave. Dois deles, anonimamente.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em SAGITÁRIO foi de 8,0% do total. Metade desses já sabia tudo sobre ter ascendente em Sagitário. A outra metade pediu bibliografia.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em CAPRICÓRNIO foi de 6,9% do total. Aqui também acho que há uma distorção. Muitos não responderam a pesquisa porque estavam trabalhando em um projeto. Ascendente em Capricórnio está sempre trabalhando em um projeto.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em AQUÁRIO foi de 9,1% do total. Aqui temos um caso muito singular, mesmo para meu círculo de conhecidos: dois a cada três desses indivíduos são estudantes de humanos. Ops, de humanas. Mas faz sentido. Sempre tenho a sensação de que Aquário é gente de outros planetas que resolveu passar um tempo na Terra por algum motivo. No caso do ascendente agora está claro. Vieram nos pesquisar.

Enfim, o número de indivíduos que declararam ter ascendente em PEIXES foi de 6,4% do total. Aqui acontece algo aparecido com o ascendente em Áries. A diferença é que o ascendente em Peixes não está fora só das redes sociais. Ele está a caminho de estar fora da sociedade mesmo. Faz muito bem.

A propósito, dos 1,7% que responderam “ih não lembro”, presume -se que a maioria tenha ascendente em Peixes.

Por enquanto é isso. Estaremos em contínuo trabalho de processamento e análise das informações. A qualquer momento pode sair um novo relatório. Mais uma vez obrigado.

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Como morrem os signos

O Sétimo Selo, dir. Ingmar Bergman (1957)

Áries morre no calor do combate. Nem chega a ver o rosto da morte. Não sofre por antecipação: o golpe é fatal, súbito e exato.

Touro vê a morte de longe, depois vê a morte chegando, e vai se aproximando dela, até que se encontram. Nada altera seu caminho.

Gêmeos pode até aceitar a morte, só queria ter uma conversa com ela antes: “Isso de morrer, precisa mesmo?”, “esse seu trabalho, é meio pesado né?”, “lá pra onde a gente vai, tem internet?”

Câncer odeia a morte. Queria que ela morresse. Mas ia ficar triste se morresse mesmo.

Leão desafia a morte. Não tem chance de vencê-la, mas faz parecer que tem. Sua morte é uma derrota, mas uma derrota trágica, bela e gloriosa.

A morte de Virgem é um rito. Ela é recebida em um lugar adequado e com os utensílios corretos. Até para morrer existe um jeito certo.

Libra também conversa com a morte, e começa tentando fazê-la mudar de ideia. Depois aceita que a morte é inevitável. Acaba concordando com ela em inúmeros outros assuntos também.

Escorpião morre várias vezes na vida. Tantas que faz amizade com a morte. É com carinho que a recebe na última visita. “Vem cá minha velha”, diz, cheio de intimidades.

Sagitário tem uma teoria a respeito da morte, e vai explicá-la para a morte quando a morte chegar. Vai ser a maior viagem, mas a morte vai achar interessante e vai ouvir até o fim.

Capricórnio respeita a morte, sabe que ela está aí há muito tempo. Morrer é uma coisa que todo mundo faz, não vai ser ele que vai inventar moda do contrário.

Aquário recebe a morte como um convite para entrar em um clube, tipo ingressar em uma associação: “Tô nessa, quero participar também”. Mas Aquário pode sentir exatamente o contrário, a morte como oportunidade de deixar de participar do clube dos vivos: “enfim”, diz, “tire-me daqui”.

Peixes se rende à morte como se rende ao sono, deixa que ela leve peça por peça, entrega os pontos. E, se tem alguém que consegue enganar a morte, esse alguém é Peixes, quando finge que está jogando para vencer, e na verdade não está nem prestando atenção no placar do jogo.

libra

Tudo em Libra


Alguns amigos me marcaram para ver e comentar essa imagem aí de cima (tirei do Facebook, créditos para Ricardo Scarpa). Minha primeira reação, é claro, foi ficar preocupado com a Gislaine. A segunda foi de impaciência. Mas olhando de novo achei engraçado – porque, né, é verdade. Eu realmente escuto Mercúrio falando essas coisas, e aqui em casa Mercúrio não só fala como anda pra frente, pra trás, dá cambalhota e decide se a Netflix vai funcionar ou não (aqui em casa as coisas são animadas).

Depois fiquei pensando que o desenho me faz lembrar do eixo Áries-Libra, e mais especificamente que a parte do lado direito representa algumas virtudes librianas. Porque a astrologia mesmo costuma ser associada aos arquétipos de Escorpião, Sagitário, Aquário, Peixes, mas não seria nada sem a disposição para a escuta que existe em Libra. Aí fiquei pensando se o Mercúrio mudinho do lado esquerdo não é assim simplesmente porque ninguém parou para escutá-lo, coitado.

Mas, sério: o Mercúrio mudinho é de fato o Mercúrio dos astrônomos, o Mercúrio da ciência moderna, que conseguiu feitos extraordinários, mas muitas vezes às custas do silenciamento e da vulgarização do mundo dito ‘natural’, colocado em oposição ao mundo humano. Tornou-o mudo, estéril, estúpido. E ele precisa mesmo continuar assim aos olhos dos cientistas – mas isso não quer dizer que em outros contextos seja impossível atribuir ao não-humano uma inteligência singular.  

As duas imagens não são excludentes. Não é isso ou aquilo, é isso e aquilo. Mas para desenvolver esse tipo de pensamento precisamos de Libra. Minha impaciência inicial foi tipicamente ariana: competitiva, combativa, vontade de mostrar que meu Mercúrio é melhor que o deles. E haverá sempre nesse mundo hostilidade suficiente pare que Áries seja um arquétipo fundamental, que nos torna atentos a ameaças e nos dá força para enfrentá-las.

Mas nem sempre é eu ou o outro. Muitas vezes é eu e o outro, na medida em que o outro não está ali para nos matar, vencer ou engolir, e que, portanto, tampouco precisamos matá-lo, vencê-lo, engoli-lo. A partir daí talvez a gente perceba que ele tem algo a nos dizer. O mundo de Áries pode ser um mundo árido, e se permanecemos sempre nele é também um lugar muito solitário. O mundo de Libra, além de compartilhado, pode ser também um mundo literalmente encantado, onde as coisas falam, porque a gente se deu ao trabalho de ouvi-las.

Não tenho muitos planetas em Libra. Mas quando estou diante de um mapa astral – o meu mapa, por exemplo – de certa forma TUDO ali está em Libra, porque tudo está diante de mim em uma posição que não é de confronto, mas de interação. Estamos lá eu e um outro de mim mesmo que se manifesta através de símbolos, que por sua vez remetem a planetas, planetas que falam através desses símbolos.

E preciso deixar que eles falem. Por mais que a astrologia utilize recursos científicos, dificilmente deixa de ser uma prática divinatória que se situa em um universo não-desencantado, onde as coisas têm voz e a gente escuta. Sim, a gente é meio doido mesmo. E o mais engraçado é que, juntando um pouco de experiência com os tais recursos científicos, a gente começa a escutar as coisas falando com certa lógica. A gente é muito doido no final das contas.

Mas isso de viver em um cosmos onde nós humanos somos a única coisa que fala é também complicado, e pode ser enlouquecedor. Tem aquela história de que Ulisses tapou os ouvidos para não escutar o canto das sereias e assim preservar sua razão; mas tem também Kafka escrevendo que “agora as sereias têm uma arma ainda mais assustadora que o canto – o silêncio”. Que triste essa existência isolada em um universo emudecido onde nem as sereias se dirigem a nós, nem mesmo para nos enlouquecer.

E com alguém a gente tem que conversar, isso é fato. Mas vou além: com alguma coisa a gente tem que conversar. Não precisa ser com os astros. Converse com as plantas, converse com os bichos, converse com os gatos. Todos têm algo a nos dizer. Com isso a gente talvez aprenda um pouco dessa arte libriana de só tomar uma decisão depois de muita conversa (digo, quando tomam, porque é verdade que muitas vezes não tomam decisão nenhuma, ficam só de papo pedindo conselho pra samambaia, o que já não é exatamente uma arte).

Mas aqui em casa o diálogo costuma ser mais é com os planetas mesmo. Como disse, as coisas aqui são animadas. Já tomei decisões importantes depois de trocar ideias com Vênus, depois de deliberar seriamente com Júpiter, depois de intensos debates com Urano, e já servi de intérprete para muita gente que até escuta os astros mas não entende bem o que eles estão falando. O arquétipo libriano é, no mínimo, o palco dessas conversas. A gente fala muito sobre todo o resto, a gente tenta ouvir junto e entender um monte de coisa estranha, mas essa ação acontece sempre na região do zodíaco onde o eu e o outro, ou o eu e o mundo, se encontram.

Quanto à Gislaine, espero que ela seja de Libra, isso vai ajudá-la a saber parar e ouvir o que Mercúrio tem a lhe dizer. Ele pode ser meio sacana às vezes, ele pode ser meio travesso, mas diz coisas importantes também. Já o Mercúrio mudinho do lado esquerdo, esse aí não me engana, se tá calado é por algum motivo. Esses tipos misteriosos eu conheço bem. Deve ser de Capricórnio. Ou então Virgem. Ascendente em Escorpião.

libra

O conhecimento libriano

O estereótipo diz que librianos são pessoas elegantes e indecisas, que gostam de agradar e de ver a gente feliz. Até que isso costuma ser verdade, mas acho que que as coisas podem ser mais interessantes que isso, e tenho uma teoria a respeito (senta que lá vem a teoria, mas por favor não entendam isso como uma pregação, é só uma distração domingueira mesmo).

Libra é o arquétipo responsável pelos relacionamentos (casamentos, parcerias, sociedades, tudo o que envolva a interação entre duas pessoas). É onde a livre ação individual ariana encontra uma reação, uma resposta, uma ressonância, fazendo emergir talentos para a negociação e a diplomacia. Mas essa concepção do libriano como um apaziguador esconde um papel mais amplo em nossa experiência do cosmos. O que equivale a dizer, em nossa experiência do carma.

O problema é que nossa concepção de ‘carma’ ficou muito associada a um sistema de compensações e recompensas, vinculado ao indivíduo. Perdeu-se seu fundamento: o de que somos manifestações de um mesmo ser, de uma mesma vida, e que, quando faço mal ou bem a alguma outra pessoa, estou fazendo mal ou bem a mim mesmo.

Teoricamente, isso é até fácil de entender. Na prática, é difícil de sentir. Porque nossas terminações nervosas têm limites claros no corpo físico, e não ‘sentimos’ o mal infringido a um outro como se estivesse atingindo nosso próprio corpo. Por exemplo, tem um episódio de Dr. House em que uma menina perde a sensibilidade para a dor em seu próprio corpo. Ela pode destruir a si mesma, e nem perceber. Nós fazemos isso o tempo inteiro.

Por outro lado, no âmbito libriano, quando o um torna-se dois, e ao mesmo tempo esse ‘dois’ é só uma outra manifestação da unidade da vida, nossas terminações nervosas se expandem, ao invés de contrair. As reações aos nossos atos passam a fazer parte deles, e exigem adequações e ajustes, porque denunciam onde é que estamos nos machucando, mesmo que seja sem querer.

Todos os signos do zodíaco sabem de algo que os outros não sabem. Eu não sei qual é o conhecimento libriano. Mas suspeito que seja o de que a felicidade de um é a felicidade do outro, que o sofrimento do outro é o sofrimento do um, e que, quando se trata de duas pessoas, é até fácil perceber que tudo é uma coisa só.