leão, peixes

Sonho de uma noite de Leão

Firedreaming | Malcom Maloney Jagamarra

Há uma descrição da cosmologia dos aborígenes da Austrália central segundo a qual a criação se divide basicamente em duas partes. Na primeira existe o “tempo do sonho”, dreamtime: uma dimensão eterna e primordial, também chamada de Alcheringa, com paralelos em outras culturas, mas que nesse caso ganha um aspecto mais especificamente onírico, não no sentido de tratar de coisas que não existem, mas presumindo que qualquer coisa, para existir, precisa ser sonhada antes. O segundo momento da criação é o canto. Ele implica que não bastou sonhar o mundo para que ele passasse a ser: foi preciso cantá-lo também, e só partir daí ele passou a ter os contornos que tem, de modos que suas paisagens e relevos são canções. Isso mesmo: cada montanha, cada cânion, cada riacho, seria então uma espécie de partitura, inscrita na superfície da terra através da própria voz de criaturas ancestrais, que pela primeira vez os percorreram enquanto cantavam o mundo. 

Acho que são os infinitos os motivos de encanto com essa ideia. Um deles está mencionado em O Oráculo da Noite: a história e a ciência do sonho, de Sidarta Ribeiro (2019), para quem a Alcheringa permite “uma experiência tão plena e aumentada, que voltar à vigília é como regressar a um sonho e adormecer é como despertar”. Também são muitas as possibilidades de expandi-la com analogias e especulações, como fez Bruce Chatwin em seu Songlines (1987), em uma mistura de ensaio e ficção que confere maior ênfase ao ato de “cantar a terra”, segundo ele continuamente repetido por tribos nômades em suas migrações. Nas duas leituras, o enfoque é alterado, mas a interdependência do sonho e do canto permanece, ao mesmo tempo em que a autossuficiência de ambos juntos se faz sentir. Nesse sentido, trata-se de uma cosmogonia incrivelmente exata e completa; nem por isso há guerras, disputas nem labutas envolvidas na criação do mundo; ele emergiu da imprecisa dimensão primordial, mas ganhou a precisão de seus traços geológicos através das melodias que então foram entoadas.

Na parte que me toca, chama a atenção que um cosmos assim gestado precisaria apenas de dois arquétipos zodiacais para ganhar existência. O primeiro deles é Peixes, pois é aí que o sonho se aloja, embora tradicionalmente o estereótipo do pisciano sonhático tenha mais a ver como uma iludida falta de senso prático do que com o potencial ato de criação de tudo que existe. Mas sim, podemos presumir que é das águas que surge do todo o resto, sobretudo quando supomos que basta entoar o sonho com a criatividade do canto para torná-lo real. É aí que entra Leão, pois o canto é arquetipicamente leonino, como são todas as ações dramáticas e performáticas que envolvem algum tipo de prazer ou brincadeira, como por exemplo – e por que não – a própria criação do cosmos.

Aliás, talvez exista alguma mitologia segundo o qual o mundo em que vivemos surgiu por ter sido um dia brincado por crianças, a partir de sua imaginação, e essa mitologia seria igualmente leonina e pisciana. Bom, talvez tivesse com componente de Gêmeos também. Mas não vou estender esse texto para muito além daqui. A ideia é justamente entretê-los com a possibilidade de um universo que dependeu apenas dessas desses dois atributos para brotar: a imaginação e a criatividade, o sonho e o canto. Percebam como cada um deles sozinho possui ainda algo de unilateral e insuficiente, e que o modelo fica meio capenga se tirarmos uma de suas pernas; juntas, porém, elas me fazem sentir que as coisas podem ter sido mesmo assim, e que podiam inclusive ter parado por aí. No que dependesse só de Peixes e Leão, acho totalmente possível uma divisão do trabalho em que cada um teria uma dessas tarefas, e as duas juntas teriam sido responsáveis pelo surgimento do universo. O que veio depois é lucro.  

Ou prejuízo, é claro, dependendo do ponto de vista. Pois isso inclui a própria ideia de “trabalho”, e só mesmo um capricorniano para mencionar tal palavra (pior: “divisão do trabalho”, Capricórnio com Saturno em Virgem) em um texto sobre uma cosmogonia tão alheia a esse conceito. Afinal, estamos falando de um mundo cujas estruturas e linhas gerais são de responsabilidade dos sonhadores, dos artistas e dos brincantes, que são os verdadeiros sustentáculos de tudo o que viria a seguir, e que não teria vindo se não tivesse sido sonhado e cantado. Estamos falando de um mundo em que a formiga depende da cigarra basicamente para existir, e onde o ócio e arte não são recompensas pelos esforços de um longo dia de canseira, mas sim as premissas onde tudo se inicia. Parafraseando Sidarta Ribeiro, seria um mundo onde ingressar na esfera do sono e da diversão seria o movimento mais sério que você teria a fazer.

Agora, se você parar para pensar, nada impede que as coisas sejam mesmo assim. E que cada um de nós, assim como as estrelas, os rios e os leopardos, seja uma canção que está sendo cantada nesse momento. Algumas canções são complicadas, outras são tristes, outras parecem não fazer sentido algum, e tem sempre as que dão bastante trabalho (ih, fiz de novo, foi mal). Mas nem por isso deixam de ser música, assim como as ravinas mais estreitas e os penhascos mais exaustivos não deixavam de ser o mundo tal como cantado pelos ancestrais dos aborígenes australianos, que o olhavam à sua volta como se contemplassem um espetáculo, e entendiam que só mesmo aqueles que sonham poderiam ter executado uma tão esplendorosa realidade.

aquário, escorpião, leão, touro

Bons ventos

[Desenho: Bia Callegari]

Os arquétipos astrológicos contam muitas histórias, e uma delas é a que se narra a partir da sucessão dos signos fixos no zodíaco. Ela começa com a energia impessoal de Touro: força de sustentação dos ciclos da natureza, feita de momentos de esforço consistente e descanso merecido, onde acontecem as renovações regulares com as quais o corpo se confunde com cosmos. Touro é aquilo que garante o crescer e o florescer periódico das plantas, e aceita com dignidade seu perecimento, porque entende que ali já está contida a semente de um reinício. Touro é a constância da vida e da morte, repetindo-se indefinidamente. Não estamos falando necessariamente de uma vida ou de uma morte quando falamos de Touro.

Uma vida acontece quando um eu se isola e se reconhece nesse processo. A esse eu chamamos também de Sol, que resplandece em sua permanente juventude, independente de tudo e ao mesmo tempo centro de todas as coisas. Um centro. A energia que emana do Sol é a energia que emana de Leão, cuja vitalidade desconhece os ciclos do tempo orgânico e terreno, e se esbanja no derramar-se inesgotável do verão como se não houvesse amanhã. Porém sabemos que há, por mais distante que possa ser. Sabemos que o inverno há de vir e que o próprio Sol um dia vai acabar, porque sua vida é um evento no universo, ou melhor, um evento do universo, como todos nós somos. Algo que se destaca a ganha existência própria apenas por um instante, ainda que nesse instante exista algo de eterno – como as estrelas que brilham no céu noturno mesmo depois de terem se apagado.

De modo que a verdadeira consciência da finitude do corpo e da noite da alma se dá no âmbito de Escorpião. Essa consciência por si mesma causa transformações que não estavam no roteiro leonino. Escorpião é a descoberta de uma fissura, uma feiura, uma falha, na superfície brilhante de si enquanto Sol, e a prospecção das profundidades ocultas que agora pedem para ser integradas à personalidade. Esse processo exige a morte do eu que havia antes. Uma morte. Ela se dá em uma catarse, em uma espécie de gozo, que significa a dispersão de energias longamente represadas. Em Escorpião acontece o encerramento abrupto de uma história que por muito tempo se demorou nesse fim – e quando ele chega nunca é simples ou fácil, mas é sempre uma forma explosiva de cura e de libertação.

Enfim, atravessada a crise, a força dos fixos torna-se novamente impessoal, porém agora não mais atrelada aos ritmos do corpo, que já foi delimitado, dilacerado e curado. Aquário é a luz que brilha quando todas essas energias se dissipam no céu, como se fossem vento; é a matéria que se deixa e dissolver e espalhar quando atinge a perfeição provisória do círculo; é a libertação dos limites da forma, com a consciência do espaço ilimitado. Aquário percebe que todos os sóis do universo coabitam um mesmo espaço, e nele nascem e nele morrem nos mais diferentes formatos e tamanhos, sendo que juntos formam uma rede de sóis interligados onde todos brilham juntos e nenhum deles está no centro.

Júpiter acabou de ingressar em Aquário, onde vai permanecer por cerca de um ano; Saturno já está lá há alguns dias, e fica durante dois anos e alguns meses; em 2023, Plutão chega para uma estadia de mais de uma década. Cada vez mais essas energias tão terrenas ou telúricas vão ganhar ares aquarianos, e a capacidade de disseminar-se em todos os recantos do cosmos sem ter origem em nenhum deles especificamente. Que esses bons ventos nos levem.

astros

O Sol e a Sombra

Pinterest

“O Sol é o único objeto natural que não conhece dilema íntimo”. Lembrei dessa definição de C. G. Jung diante do resultado da enquete que fiz aqui sobre quem seria o grande vilão do zodíaco. Nada a ver com o primeiro lugar que Gêmeos conquistou, com folga até, pois esse título era aguardado e não surpreendeu ninguém. A gente sabe que Gêmeos é o signo mais de boa que tem, a gente sabe que é o que menos leva a sério esse tipo de brincadeira. Então, na hora de brincar sobre quem é o maior vilão do zodíaco, a gente vai lá e vota em Gêmeos, nem que seja só para dar aquela zoada básica em quem vai saber zoar de volta.

Tampouco o que me chamou no resultado foram o segundo ou terceiro colocados. Foi o último. Porque lá atrás, com um votinho apenas, destacou-se, por contraste, a lamentável performance leonina. Confesso que esperava mais; até entendo, por exemplo, que Touro tenha sido deixado no fim da fila também; mas o fato de Leão não ter ganhado nem de Touro é algo a se observar. Fiquei até curioso de saber quem foi a alma que remou contra a corrente e encontrou motivos para cravar o voto solitário. No fim das contas, Leão ganhou uma espécie de título também: o de signo menos demonizado do zodíaco.

O engraçado é que conheço gente que tem uma preguiça enorme de Leão e de suas vaidades, caprichos, exuberâncias. Mas acho que até essas pessoas, na hora de escolher um vilão zodiacal, acabaram escolhendo outro signo, porque por algum motivo não tem graça implicar com leoninos. Eles realmente não vão ligar muito, vão no máximo dar aquela olhadela para baixo e notar meio que de passagem nossas diversões bobas e levemente ridículas, mas não o suficiente para merecer um comentário. Em seguida, vão voltar para o que estavam fazendo antes.

Porque Leão é isso: esse envolvimento autossuficiente naquilo que se está fazendo, esse prazer desinteressado naquilo que se está criando. Por isso, o jogo, a arte e a brincadeira se alojam no arquétipo leonino. É verdade que, como disse antes, a brincadeira tem uma dimensão geminiana também, mas nesse caso estamos falando mais propriamente dos jogos e truques com a linguagem que fazem a gente suspeitar que existe algo de irremediavelmente encapetado em Gêmeos. Já em Leão, reina a inocência dos divertimentos infantis.

É essa inocência que no trecho de Jung aparece como um “desconhecimento de dilemas íntimos”, onde a “discrepância que se apoderou da alma humana pode se desfazer harmoniosamente”. Porque o Sol é o regente de Leão. Jung, a propósito, era leonino também. Curiosamente, o conceito de sombra é fundamental em sua obra: um aspecto desconhecido ou oculto da personalidade, rejeitado pelo ego por não se adequar a expectativas e valores sociais, e passível de um trabalho que o incorpore à consciência através da psicoterapia.

Acontece que o Sol não tem sombra, literalmente falando. Pois como poderia ter uma sombra, o Sol? Algo semelhante acontece no arquétipo de Leão: é feito de pura luz, e se compraz em queimar suas energias infindáveis, ao mesmo tempo generoso e indiferente aos seres que estão em volta. Agora, antes que se dê a entender que estou livrando a cara dos leoninos de quaisquer acusações de vilania, duas ressalvas. A primeira, mais óbvia, é que justamente por ser assim, Leão pode se tornar particularmente cego para as próprias falhas.

Pois, sim, o Sol desconhece dilemas e harmoniza discrepâncias – mas só mesmo ele, o Sol, faz isso. Nós somos apenas humanos recorrendo a alguns símbolos para tentar entender melhor o que somos e o que nos acontece. Aquele entre nós que realmente se acreditar em posse de atributos solares será como o Rei que já não escuta senão elogios para si próprio. A propósito, a figura do Rei se encontra no arquétipo de Leão, não apenas em seus aspectos luminosos, mas nos sombrios também.

A outra ressalva é a de que, de certo modo, o Sol recebeu todos os votos da enquete. Porque aquilo que reconhecemos como nosso signo ou o signo de nossos amigos e conhecidos é na verdade o signo solar de cada um de nós. Vejam só que maravilha essa virada de jogo: o regente leonino passa assim em um só golpe da última para uma primeira e invencível colocação. Porém, se o que a gente entende como o signo das pessoas é o fogo que elas queimam, de maneira alguma isso serve como síntese das qualidades que estão em jogo em um mapa astrológico natal.

O Sol, decerto, é parte importante dessa brincadeira, e sobretudo uma parte evidente, que se expõe ao escrutínio público, e por isso se torna a maneira como identificamos vilões e heróis no zodíaco. Nesse sentido, não surpreende que as pessoas tenham o hábito de tatuar na pele símbolos de seus signos solares. Nosso Sol é algo de que a gente se orgulha, e não precisa nem ser um Sol em Leão. Pode ser um Solzinho em Virgem, mais humilde mesmo. Mesmo os geminianos, por mais que possam participar de nossos rituais de avacalhação de seu signo, no final das contas acham o máximo ser de Gêmeos.

Aproveitando, uma vez escrevi aqui um texto sobre o ascendente e prometi que depois explicaria como entendo que se dá a relação entre o signo ascendente e a aparência física das pessoas. Essa é uma boa oportunidade. O símbolo do ascendente não é algo que a gente tatua na pele porque o ascendente é a própria pele. Melhor dizendo: é nossa aparência, da maneira como a produzimos e expomos sem maiores cálculos e ponderações, do mesmo modo como a gente realiza outras atividades corporais de maneira impensada, como bater o coração e correr o sangue pelas veias.

Sim, isso são coisas que a gente faz, embora não sejam coisas que a gente decide fazer. Passarinho não decide voar porque acaba de nascer: de repente ele vai lá e voa. Por isso o ascendente é uma energia que vibra em nós de maneira positiva, espontânea, natural, como uma árvore produzindo seus frutos, porque produzir seus frutos é algo que a árvore faz. É a maneira como lhe coube participar dessa imensa dança que é o universo, sem que em momento algum ela tenha que ter deliberado a respeito.

No caso de nós humanos, as coisas são mais complicadas, é claro. No entanto, vez ou outra elas são simples assim. Quando isso acontece, presenciamos os arquétipos zodiacais agindo com inteireza: não sem dilemas íntimos, mas os aceitando com menos dificuldade, e não sem manifestar sua sombra, mas ficando à vontade com ela. Isso acontece através do ascendente, e se ele se torna mais identificável em nosso comportamento em algum momento da vida, isso é um bom sinal, de que estamos nos preocupando menos com o escrutínio público e as expectativas sociais – e por isso mesmo, às vezes, recebendo um retorno muito mais positivo do ambiente imediato.

Mas no geral o que fazemos é tentar articular as energias mais contraditórias, tal como se apresentam nos signos solares, lunares e em todos os demais planetas do horóscopo. O zodíaco, portanto, não tem um grande vilão, e todos nós de uma maneira ou de outra mobilizamos todos os arquétipos em uma combinação única e irrepetível de suas cumplicidades e conflitos. “As forças psíquicas não têm uma direção única e muitas vezes se dirigem umas contra as outras”, escreveu também Jung em outra formulação que cabe bem aqui.

Então: algumas colisões são simples, e podem se reduzir aos humores variáveis de um dia. Outras são mais complicadas e podem levar uma vida que chegar a bom termo, como por exemplo a das forças psíquicas que chamamos de Sol, Lua, Vênus, Marte, Saturno, Ascendente, etc., tal como aparecem em nosso mapa natal. Pois tudo isso compõe essa magnífica mandala que todo mundo carrega consigo, com as linhas rajadas que nela se entrecruzam tecendo em nós uma complexa rede de relações que aos poucos a gente vai entendendo melhor – desde o começo de tudo. E também, é claro, desde o nosso nascimento.

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Dr. Sigmund de sapatos novos

Em suas memórias, o médico suíço e leonino Carl Gustav Jung trata da ruptura de sua amizade com o neurologista austríaco e taurino Sigmund Freud como uma experiência muito difícil e dolorosa. Jung e Freud entraram mais abertamente em conflito em torno de 1910, por causa de divergências na evolução do pensamento de ambos, e sobretudo por aquilo que Freud considerava uma excessiva inclinação para o “ocultismo” nos estudos de seu discípulo. Tauríneamente, Freud não arredou um dedo da convicção nos sólidos postulados científicos sobre os quais procurava erigir a psicanálise; Jung, por sua vez, afirmou que, na época do desentendimento, sentiu-se tão perdido que não encontrou alternativa a não ser buscar nas imagens de seu próprio inconsciente alguma saída para a crise.

Então teria se fixado em uma memória de sua infância, de quando estava com 11 ou 12 anos, e se dedicava apaixonadamente a brinquedos de construção. O impulso criativo reanimaria seu espírito adulto, na medida em que ele retomou a atividade lúdica, saindo para catar conchas e outros materiais de manhã e separando um tempo para utilizá-los nos intervalos do trabalho no hospital. “Mal terminado o almoço, ‘brincava’ até o momento em que os doentes começavam a chegar; à tarde, se meu trabalho estivesse terminado a tempo, voltava às construções. Com isso meus pensamentos se tornavam claros e conseguia apreender de modo mais preciso fantasias das quais até então tivera apenas um vago pressentimento”.

Esse recurso ao potencial terapêutico da brincadeira, da criatividade, do jogo e do ócio não é apenas uma característica de Leão; é também uma marca daquele tempo. Roger Caillois, em Os Jogos e os Homens, observa que as primeiras miniaturas de carros foram produzidas por operários de fábricas automotivas em que a divisão do trabalho não lhes permitia acompanhar o processo de produção do começo ao fim. Assim, chegando em casa, eles podiam reassumir o controle de todas as fases da composição de um artefato, nem que fosse como um hobby compensatório, e conseguindo com isso restituir a si mesmos uma relação artesanal com a inteireza do objeto.

Mas o arquétipo de Leão de fato atualizou esse impulso de formas diferentes através dos séculos. Cada texto que começo e termino para esse blogue, por exemplo, é uma espécie de jogo em que me envolvo com prazer e incerteza, sem saber ao certo de onde estou partindo nem onde vou chegar, mas sentindo que algo de esclarecedor – para mim pelo menos, espero que para vocês também – se realiza no percurso.

Nunca sei exatamente de onde vai surgir a peça com que começarei a montar cada texto. Nessa semana, por exemplo, ela apareceu na leitura desse trecho autobiográfico de Jung. Aí me ocorreu que é meio engraçado que ele e Freud tenham sido ambos de signos fixos (Touro e Leão), os quais existem em uma relação tensa e produtiva. Mas reparei em seguida que a coisa não para por aí: Freud tinha o ascendente em Escorpião, e Jung em Aquário, ambos no signo oposto complementar de seus signos solares. Isso quer dizer, basicamente, que a cruz dos quatro signos fixos esteve envolvida nas aproximações e afastamentos entre os dois grandes pensadores da psicologia no século XX. Opa, pensei: tem jogo aí.

Acho que em ambos os casos o signo solar aparece como a base da personalidade, e o ascendente refere-se à contribuição que ofereceram em suas obras. No caso de Freud, o vínculo com Escorpião é mais que evidente: de Totem e Tabu a Moisés e o Monoteísmo, desenvolve-se um concentrado esforço arqueológico em que são desenterrados os ossos de crimes antigos (o assassinato do pai pela horda primitiva, o assassinato de Moisés pelas tribos do êxodo), que teriam correlações exatas em episódios de cada trajetória individual, habitando os subterrâneos do inconsciente. Os sentimentos de inadequação, culpa, remorso ou angústia que surgem da repressão dessas memórias podem então ter sua origem identificada. Com isso, torna-se possível e necessário encarar os demônios ocultos na psique, para alcançar a lucidez após um intenso mergulho nas profundezas do passado.

Tudo converge para o Complexo de Édipo, também um assassino de seu pai, ao mesmo tempo detetive e criminoso, cujo expurgo de Tebas revela-se necessário para a regeneração da cidade. Aqui uma importante diferença entre as obras de Freud e Jung pode ser notada, pois no segundo caso há uma profusão de arquétipos, narrativas e símbolos que nunca se deixam reduzir a uma única história. Assim, enquanto Escorpião tende à obsessiva e quase paranoica busca de vestígios capazes de reafirmar o ponto central de suas investigações, Aquário abre mão do “uno” em favor do “múltiplo”, observando e afirmando diferenças ex-cêntricas onde outros vêm similaridades.

A ênfase no caráter sexual da libido, a propósito, não deixa de ser um componente escorpiônico das lições de Freud. Também aqui ele e Jung divergiram frontalmente da maneira como Escorpião e Aquário divergem no zodíaco. Pois o primeiro é uma força corporal, intensa, concentrada, enquanto o segundo é um arquétipo que se dispersa no ar em uma complexíssima profusão de relações em rede. Jung considerava a ênfase de Freud nas pulsões sexuais uma inclinação “reducionista”, na medida em que designava uma só fonte como energia motriz de todos os esforços e humanos. Ele acreditava que o impulso criativo, por exemplo, existia por si mesmo, e não como um excedente de desejos reprimidos.

Curiosamente, portanto, embora Jung fosse o ”ocultista” da relação, havia algo na ciência de Freud em que ele detectava uma obsessão compulsiva com o tema do sexo e da autoridade paterna. Não é incomum que Aquário veja Escorpião por esse prisma, no qual se ressalta sua perspectiva desencarnada, indiferente em relação aos instintos primitivos que lhe parecem vis ou demasiadamente humanos. Mas isso envolve também a dimensão iluminista e prometeica do arquétipo aquariano, na medida em que busca alçar o humano para além de seus limites usuais. Desse modo, e mais uma vez curiosamente, as Luzes estão do lado de Jung, embora Freud fosse o cientista da relação.

Acontece que Jung também se outorgava esse título, tinha apreço por ele, porém entendendo a ciência de um modo mais heterodoxo. De ambos, se não me engano, foi quem acompanhou mais de perto as inovações da Teoria da Relatividade e e Física Quântica, sem deixar escapar as relações da cosmovisão que essas novidades ofereciam com elementos das religiões orientais. Freud, enquanto isso, manteve-se centrado na tradição judaico-cristã, ferozmente dedicado ao problema de Deus, ou ao problema do Pai.

Enfim, Jung roubou o fogo de seu próprio Sol leonino para levá-lo aos homens através de seu ascendente aquariano; Freud manteve-se até o fim da vida irremovível do caminho em que Touro o havia situado, porém correndo riscos e desencavando desejos que apenas são aceitos e reconhecidos quando acionamos o tipo de coragem que reside no arquétipo de Escorpião. Da tensão produtiva desses cruzamentos, ambos descobriram razões que reforçaram suas crenças e os mantiveram em suas trajetórias, que, antinômicas como são, não deixam de se complementar (caberia ainda mencionara os aspectos complementares das noções de inconsciente individual e inconsciente coletivo, que estão mais propriamente atreladas aos arquétipos de Escorpião e de Peixes, tal como já comentei aqui).

Resta saber como Freud terá reagido à ruptura que levou Jung aos brinquedos de construção. Algo pode ser deduzido da correspondência entre ambos – ele alegou ter sido “despojado da autoridade paterna” de que o próprio jovem Jung o investira anos antes –, mas acho que nesse caso ele deve também ter buscado no seu Sol taurino algum tipo de conforto. No mínimo, deve ter se recostado em uma poltrona aconchegante, procurando quem sabe um bom lugar pra ler um livro, sem outro propósito além dar maciez à sua tristeza. Freud, é bom lembrar, fez o caminho de volta de Escorpião a Touro (dos mistérios ocultos à verdades elementares) quando lhe perguntaram insidiosamente a respeito de seu prazer com o fumo: “Às vezes, um charuto é apenas um charuto”.

O que então me vem à mente é uma tela do pintor Konstatin Christoff que vi em uma exposição no Palácio das Artes de Belo Horizonte muitos anos atrás. Ela se chamava “Dr. Sigmund de sapatos novos” – e mostrava um Freud felizão e sorridente com um novo par de sapatos brilhosos que teria comprado. O efeito da pintura estava na associação de uma figura tão imponente e misteriosa como a de Freud com alegria de ter comprado um par de sapatos novos. É como imaginar Escorpião contente diante de um belo prato de macarronada.

Ou seja, talvez tenha sido assim que ele lidou com a perda da amizade do discípulo: como um bom e velho taurino. Talvez a materialidade das coisas e as sensações que elas provocam não tenham deixado nunca de ser para ele uma espécie de refúgio em tempos de crise, a base de sua existência e sua personalidade, o ponto central e solar a partir do qual irradiou seu brilho para as regiões sombrias da alma humana. Assim como a criatividade e os jogos foram para Jung.

Só queria ainda acrescentar que Konstantin Christoff foi um artista búlgaro que, aos nove anos de idade, foi parar com a família em Montes Claros, no norte de Minas Gerais. Formado em Medicina pela UFMG, trabalhou como cirurgião-geral a vida inteira, mas nunca abandonou a pintura, além de ter publicado várias ilustrações na imprensa brasileira. Mais um médico artista, portanto. Descobri isso agora, ao fazer a pesquisa para tentar descobrir a imagem do quadro de Freud com sapatos novos. É engraçado o tipo de coisa que descubro e que encontro ao juntar as peças para esses jogos que vou montando aqui.

Mas infelizmente não encontrei a imagem, então terei que pedir um esforço da imaginação de vocês para terminar. Visualizem aí, com candura, sem maldade: Dr. Sigmund. Uma poltrona confortável. Pernas cruzadas. Sorrisão na cara. Charutão na mão. Sapatos novos.

Todos os signos

Estatísticas

Agradeço a todo mundo que atendeu ao meu apelo para contar o ascendente pelas redes sociais. Agora enfim tenho uma amostra considerável para oferecer minha contribuição ao desenvolvimento da ciência astrológica com o máximo rigor metodológico. Em seguida, apresento alguns dados do DATAGUS acompanhados das respectivas análises qualitativas:

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em ÁRIES foi de 5,8% do total. Porém, sabe-se que a conclusão da amostragem não corresponde à realidade. Tem muita gente com ascendente em Áries que já não está em rede social nenhuma. Saíram fora dessa.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em TOURO foi de 8,33333%. Foi o único signo cujo número correspondeu a exatamente 1/12 do total. O pessoal de ascendente em Touro é objetivo. Quando a gente pergunta o ascendente eles respondem “Touro”, e mantêm-se impassíveis, como que esperando a gente dizer alguma coisa a respeito. Mas nessas horas costumo perceber lá no fundo de seus olhos um desconcertante lampejo de sarcasmo.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em GÊMEOS foi de 8,8% do total. Desses, quase metade respondeu “Gêmeos kkkkkkkkk”. Deve ser divertido ter o ascendente em Gêmeos.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em CÂNCER foi de 7,5% do total. Infelizmente, nenhum deles me convidou para tomar um café e comer um bolinho na casa deles. Tomar café e comer bolinho na casa do ascendente em Câncer é especial. Convida aí, pessoal, que eu aceito.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em LEÃO foi de 12,3% do total. Outro número que com certeza não corresponde à realidade. Ter ascendente em Leão é o máximo. Tem gente que diz só pra aparecer.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em VIRGEM foi de 10,3% do total. É um número alto, mas possivelmente correspondente ao número de indivíduos vivos com este ascendente. Mesmo o pessoal com a Lua em Peixes ou Marte em Gêmeos uma hora resolve fazer tudo certinho e manter uma rotina saudável, se tiver o ascendente em Virgem. O percentual se explica pela longevidade.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em LIBRA de foi 8,6% do total. Uma breve análise das fotos de perfil confirma a fama desse ascendente. Ô gente bonita, meu Deus.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em ESCORPIÃO foi de 4,2% do total. O índice extremamente baixo é fácil de explicar. Um ascendente em Escorpião não vai sair contando isso por aí (eu, por exemplo, não conto). A propósito, 100% dos indivíduos que responderam com “quero ver vc adivinhar” tinham ascendente em Escorpião. Já três indivíduos perguntaram se isso de ter ascendente em Escorpião é grave. Dois deles, anonimamente.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em SAGITÁRIO foi de 8,0% do total. Metade desses já sabia tudo sobre ter ascendente em Sagitário. A outra metade pediu bibliografia.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em CAPRICÓRNIO foi de 6,9% do total. Aqui também acho que há uma distorção. Muitos não responderam a pesquisa porque estavam trabalhando em um projeto. Ascendente em Capricórnio está sempre trabalhando em um projeto.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em AQUÁRIO foi de 9,1% do total. Aqui temos um caso muito singular, mesmo para meu círculo de conhecidos: dois a cada três desses indivíduos são estudantes de humanos. Ops, de humanas. Mas faz sentido. Sempre tenho a sensação de que Aquário é gente de outros planetas que resolveu passar um tempo na Terra por algum motivo. No caso do ascendente agora está claro. Vieram nos pesquisar.

Enfim, o número de indivíduos que declararam ter ascendente em PEIXES foi de 6,4% do total. Aqui acontece algo aparecido com o ascendente em Áries. A diferença é que o ascendente em Peixes não está fora só das redes sociais. Ele está a caminho de estar fora da sociedade mesmo. Faz muito bem.

A propósito, dos 1,7% que responderam “ih não lembro”, presume -se que a maioria tenha ascendente em Peixes.

Por enquanto é isso. Estaremos em contínuo trabalho de processamento e análise das informações. A qualquer momento pode sair um novo relatório. Mais uma vez obrigado.

leão

Leão e o coração

Os arquétipos do zodíaco estão vinculados a diferentes partes do corpo humano, interagindo uns com os outros de acordo com relação entre essas partes, que manifestam características dos signos a que estão associadas. Acho interessante nesse sentido o caso de Leão/Aquário, opostos complementares que regem o coração e o aparelho circulatório, respectivamente. Da mesma forma como o Sol, regente leonino, signo de fogo, depende do céu (Ouranos, regente aquariano, signo de ar) para difundir sua luz, o coração precisa das veias e artérias para fazer chegar o sangue a regiões distantes do corpo.

Mas o vínculo Leão-Coração vai além de tudo o que os outros signos conhecem. Porque aqui já não se trata apenas de uma parte ou função de nosso organismo, mas de um dos símbolos mais presentes em nossa cultura, de uma ideia, que está espalhada em nossa poesia, em nossa dramaturgia, em nosso cancioneiro. Quando falamos em ‘coração’, estamos falando em tudo o que existe de mais importante em nossa experiência anímica e afetiva. Trata-se de um caminho rápido para nos colocarmos em cena com a maior inteireza, ou de afirmar que todo nosso ser está em jogo, um pouco como nos famosos versos do poeta russo Vladimir Maiakovski (“mas comigo a anatomia ficou louca / sou todo coração”), com o qual todos nós já nos identificamos em um momento ou outro da vida.

Maiakovski tinha Vênus em Leão, o Sol em Câncer. Já Caetano Veloso é leonino com Vênus canceriana, e talvez por isso tenha escrito os versos em que uma alma dilacerada pela memória ainda assim ambiciona abarcar a totalidade do espaço e do tempo no centro do peito: “Meu coração vagabundo / quer guardar o mundo / em mim”. Ou seja: experiência leonina arquetípica é a de um envolvimento pleno e inegociável no sentimento que pulsa, na ação em curso, no gesto em cena, mesmo que seja a afirmação de uma carência e de uma falta. Em seu melhor, Leão transforma em ouro tudo o que toca, e faz brilhar mesmo os recantos mais doloridos e escuros da alma, trazendo-os à luz do dia – como o rei Mufasa erguendo seu pequeno filhote, alto e sobranceiro, no cume do despenhadeiro.

Nossa cultura pop, aliás, está atravessada por imagens em que ele está lá, o coração, como símbolo de totalidade, e ao mesmo tempo indício de sua perda, porém de tal forma que o ato criativo transforma tudo de novo em uma coisa só, e é de certa forma, ele próprio, a cura necessária para as dores e angústias que declara. Corações machucados, corações dilacerados, corações despedaçados, não são exatamente moléstias que possam se resolver com um curativo, ou mesmo com uma cirurgia, mas nossas canções preferidas são sempre capazes de reverter esse quadro no mesmo instante do diagnóstico, sobretudo quando elas literalmente nos levam de volta pra pista. E de novo: “você partiu meu coração” é um frase em que um pedacinho nosso é usado como se fosse o ser inteiro de cada um de nós. Não dá pra dizer que a mesma coisa aconteça com os pés (Peixes), com os ossos (Capricórnio) ou mesmo com a cabeça (Áries). “Você quebrou o meu fêmur” geralmente vai ser lido de modo mais literal mesmo – e talvez por isso seja um verso pouco promissor, poeticamente.

O coração, por outro lado, está presente também em tudo que fazemos com gosto, em tudo o que fazemos com entusiasmo, em tudo o que fazemos com amor. Por isso é pródigo na vitalidade que distribui: ele é a própria vitalidade, é aquilo que em nós pulsa de desejo e de prazer. Muito antes de ser compreendido como um órgão, o coração era um ritmo, que repercutia em todo o corpo e não se diferenciava dele. O coração sustenta em cada batida a vida do organismo, e portanto pode não ser exatamente uma parte dele, mas algo que está em todas as partes, através da reverberação do seu pulsar.

Escrevi antes, aqui, sobre como os símbolos do arquétipo de Leão têm esse poder de síntese e simplificação. Gosto de fazer esses links porque meu coração está, entre outras coisas, com a astrologia: amo escrever esses textos, estou inteiramente neles. É uma experiência leonina que tenho, pelo prazer que me dá. Imagino que o bom mesmo é ser leonino, ser esse coração cheio de vida que pulsa e distribui energia para todos ao redor, e que mesmo quando está dilacerado consegue reverter a dor em beleza, e exercê-la com a mais nobre e desesperada dignidade. Enfim, acho que queria ser leonino inclusive para sofrer como um leonino. Mas sou feliz em ter aqui esse aspecto da vida em posso exercer minha leonice, através dessas pequenas pulsações literárias, que percorrem as veias aquarianas de um mundo interconectado.

Todos os signos

Como morrem os signos

O Sétimo Selo, dir. Ingmar Bergman (1957)

Áries morre no calor do combate. Nem chega a ver o rosto da morte. Não sofre por antecipação: o golpe é fatal, súbito e exato.

Touro vê a morte de longe, depois vê a morte chegando, e vai se aproximando dela, até que se encontram. Nada altera seu caminho.

Gêmeos pode até aceitar a morte, só queria ter uma conversa com ela antes: “Isso de morrer, precisa mesmo?”, “esse seu trabalho, é meio pesado né?”, “lá pra onde a gente vai, tem internet?”

Câncer odeia a morte. Queria que ela morresse. Mas ia ficar triste se morresse mesmo.

Leão desafia a morte. Não tem chance de vencê-la, mas faz parecer que tem. Sua morte é uma derrota, mas uma derrota trágica, bela e gloriosa.

A morte de Virgem é um rito. Ela é recebida em um lugar adequado e com os utensílios corretos. Até para morrer existe um jeito certo.

Libra também conversa com a morte, e começa tentando fazê-la mudar de ideia. Depois aceita que a morte é inevitável. Acaba concordando com ela em inúmeros outros assuntos também.

Escorpião morre várias vezes na vida. Tantas que faz amizade com a morte. É com carinho que a recebe na última visita. “Vem cá minha velha”, diz, cheio de intimidades.

Sagitário tem uma teoria a respeito da morte, e vai explicá-la para a morte quando a morte chegar. Vai ser a maior viagem, mas a morte vai achar interessante e vai ouvir até o fim.

Capricórnio respeita a morte, sabe que ela está aí há muito tempo. Morrer é uma coisa que todo mundo faz, não vai ser ele que vai inventar moda do contrário.

Aquário recebe a morte como um convite para entrar em um clube, tipo ingressar em uma associação: “Tô nessa, quero participar também”. Mas Aquário pode sentir exatamente o contrário, a morte como oportunidade de deixar de participar do clube dos vivos: “enfim”, diz, “tire-me daqui”.

Peixes se rende à morte como se rende ao sono, deixa que ela leve peça por peça, entrega os pontos. E, se tem alguém que consegue enganar a morte, esse alguém é Peixes, quando finge que está jogando para vencer, e na verdade não está nem prestando atenção no placar do jogo.

leão

Dies Solis

Foto: Kedar Misani

Hoje é domingo, ‘dies solis’, dia do Sol, regente leonino. Domingo pode ser o mais excitante e o mais previsível de todos os dias. De forma semelhante, acho que o Sol é ao mesmo tempo o mais especial e o mais ordinário dos astros. Especial por sua posição de centralidade, sua visibilidade evidente, sua plena soberba diante dos corpos celestes ao redor. Ordinário porque é feito basicamente de luz, e luz é algo que existe por todos os cantos, é aquilo que produz todas as coisas. Afinal, como disse Goethe, como nosso olho reconheceria o Sol se ele mesmo não fosse solar?

O Sol, então, não é exatamente uma ‘coisa’, um objeto separado dos demais; é uma concentração de energia, do ‘ânimo’ que existe em todo o resto. E ânimo é uma palavra leonina, junto com prazer, paixão, brilho. Em Leão está a possibilidade de que tudo o que a gente faz seja feito com gosto, com deleite: pode ser jogo, pode ser trabalho, pode ser luta, pode ser preguiça. Leão é ao mesmo tempo mais e menos que um arquétipo; mais porque seus limites são indefiníveis como os do Sol, e menos pelo mesmo motivo, uma vez que isso faz dele um princípio animador presente em tudo e em todos.

Curiosamente, é mesmo difícil identificar mitos e narrativas que correspondam ao signo. Nada parece dar conta, e tudo vai um pouco além, como se qualquer história implicasse uma restrição ou uma ampliação indesejada. Há a imagem do Rei, assim como a do próprio Leão, mas elas podem muito bem permanecer intocadas em sua pureza por quaisquer outras especificações e detalhes. São o que são, se bastam, assim como o Apolo grego ficou conhecido não por suas complexidades, mas pela síntese de vitalidade e beleza que era capaz de oferecer num só olhar.

Há complexidades na alma leonina, é claro; seu orgulho não passa ileso por este mundo; o Rei às vezes reage a desatenções e contrariedades de um jeito meio exagerado; sua generosidade pode ser também acima do comum. Mas a alma – ‘anima’ – de todos nós contém esse elemento solar de um jeito ou de outro. O que chamamos de nosso ‘signo’, a propósito, é o nosso signo solar: a maneira como o Sol se manifesta em nós, de um jeito mais ostensivo e evidente, mais generoso mesmo, que os outros astros, e portanto de um jeito mais claramente identificável.

Assim, da mesma forma como a alma leonina contém outros astros – e sombras – misturados à sua luz, cada um de nós tem em si uma fonte especial de ânimo para realizar as mais distintas atividades: jogo, trabalho, luta, preguiça. O Sol em Capricórnio, por exemplo, é o Sol aparecendo em forma de cabra. O Sol em Áries é o Sol em forma de Carneiro. O Sol existe na casca no Escorpião, na pele do Sagitário, nos pratos da balança, nadando como um peixe. Em cada um desses disfarces ele encontra prazer, em cada uma dessas formas ele se exibe com gosto.

Porque pode ser trabalho, pode ser preguiça, pode ser luta, mas jogo sempre é. Lembrando que Leão é também o lugar da performance cênica. O Sol então brinca de ser cada uma dessas coisas, se diverte assumindo cada uma dessas personalidades, e, quando espera o aplauso no final, é porque o aplauso renova o ânimo, lava a alma, recompõe o combustível que queimou. Prazer, paixão, gosto: tudo isso gasta energia. Não é pedir demais que a gente devolva um pouco de energia ao Sol.

E, no final das contas, é tudo uma coisa só – aquele que aplaude e aquele que é aplaudido. Se o olhar humano foi uma maneira que o universo encontrou de contemplar a si mesmo, foi também uma maneira que encontrou de admirar a si mesmo. E, portanto, ele deve se considerar admirável, mas isso é só consequência da delícia que ele já sentia antes ao brincar e dançar sozinho, sem ninguém vendo, por puro deleite com as próprias habilidades.

Lembro de um professor de filosofia dizendo uma vez que a grande questão é porque existe algo, ao invés de nada. A resposta leonina para esta questão é: as coisas existem porque gostam de existir. O Ser sente prazer em Ser. O resto é silêncio. Ou melhor, é a música que toca em cada um de nós para que sejamos assim também.