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Mamãe em Escorpião

Lua Cheia em Escorpião é aquela história: todo ano tem, e ainda assim é sempre um susto. Imaginar que a lua vai atingir seu momento de plenitude e transbordamento nesse signo capetudo das trevas (pardon, queridos, mas vá lá, vocês até que gostam da fama) é meio atemorizante; e todo ano tem gente perguntando o que exatamente isso quer dizer. A interpretação de qualquer trânsito astrológico vai depender sempre de seus aspectos, no plano geral, e no âmbito individual precisamos partir no mínimo de uma relação com signos solares, de preferência com o mapa natal de uma pessoa como um todo. Mas podemos aproveitar esses fenômenos para compreender a interação dos arquétipos que eles põem em cena.

Embora ‘compreender’, no caso, talvez não seja uma boa palavra. Não sei se tem muito o que compreender em uma lua cheia em Escorpião. Dizer que ela precisa ser sentida também não é exato, pois toda lua cheia é antes de tudo sentimento. Talvez o melhor caminho aqui seja dizer que ela traz um ‘sentimento do incompreensível’, em um sentido muito específico. Afinal, o incompreensível está também em Peixes, por exemplo, mas aí ele já se manifesta como algo vago e desconcertante cujo entendimento em algum plano de nossa consciência não está totalmente fora de questão. Ou seja, uma lua cheia em Peixes é antes um ‘sentimento incompreensível’ do que um sentimento do incompreensível.

Já em Escorpião, parece existir algo que NÃO É PARA COMPREENDER, algo que existe explicitamente para não ser assimilado pelo intelecto, algo que não exatamente nos escapa (o que nos ‘escapa’ é Peixes), mas nos confronta e deliberadamente nos transtorna em nossos mecanismos lógicos de apreensão do mundo. Algo que está aí para ser acatado apesar de não fazer sentido algum, porque não faz sentido algum. Vocês me compreendem?

Daria pra ficar doze luas explicando isso e não chegar a lugar nenhum. Se não é para compreender, não é para explicar. Mas o que acho interessante, ao colocarmos a lua nessa paisagem, é imaginar que a plenitude e o transbordamento que ela encontra agora têm a ver com sentimentos, mas igualmente com um determinado tipo de autoridade. A autoridade das trevas, se vocês quiserem, mas naquilo que as trevas têm de necessário contraponto à luz e ao logos. O que se sente é em grande medida um contato com forças desconhecidas que se definem por esse desconhecimento – isto é, por permanecerem recônditas e ocultas e inimagináveis, das quais emana um poder que não requer nada além da nossa rendição.

Ou, colocando isso de uma maneira de mais concreta. Quase todo mundo já ouviu da mãe essas frases: “porque sim”, “porque não”, “porque eu estou mandando”. Não necessariamente em um tom histriônico ou autoritário; são frases que podem ser ditas como uma mera constatação dos fatos. Nelas está implícita a seguinte mensagem: eu poderia até explicar, mas não é para você entender, porque o que importa aqui é a obediência, e não sua capacidade de assentir de maneira informada e esclarecida ao meu comando (você vai ter que acatá-lo de modo desinformado e no escuro mesmo). Existe um aprendizado aí, e um aprendizado possivelmente necessário para sabermos distinguir, no decorrer da vida, as forças verdadeiramente substanciais que têm o poder de exigir nossa anuência por motivos incompreensíveis, e aquelas que são apenas simulacros autoritários sem nenhuma autoridade real (estas têm o hábito de gritar mais alto que o necessário, e nos mandar calar boca por mero desespero ou insegurança).

Enfim, lua cheia em Escorpião tem todo ano, e costuma cair perto do dia das mães, talvez porque é com a Mãe que a gente aprende a reverência necessária ao poder instituído em ventres e catacumbas. Sorte de quem teve mãe capaz de ser malvada na medida certa. Aprendeu que tem coisas nessa vida que é melhor a gente aceitar, que não é pra gente entender, respeitando na mais absoluta cegueira (porque sim, porque não, porque eu estou mandando). Mas aprendeu também que essas coisas são poucas, muito poucas, e que para todas as outras existe nosso juízo crítico, nossa capacidade de não aceitar cegamente o despotismo e a submissão.

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Escorpião e o dragão

São Jorge e o dragão (c. 1455) | Paolo Ucello

Há signos mais complexos, há signos mais queridos, porém o mais fascinante é Escorpião. É só dar uma olhada no número de visualizações em vídeos sobre astrologia na internet para ter uma medida estatística desse fenômeno. Trata-se de um arquétipo de água, porém olhamos para Escorpião como quem olha para o fogo: encantados, atraídos, hipnotizados, e ao mesmo tempo com um medo ancestral das forças destrutivas que existem em suas formas. Algo semelhante se dá com a imagem do dragão em nossas lendas e mitos, tanto no que se refere ao encanto, quanto no que diz respeito à destruição.

Dragões nunca deixaram de ser motivo de fascínio, e sua morte não é a morte de um inimigo qualquer. São Jorge, por exemplo, foi por séculos apenas um santo guerreiro entre outros – um santo marcial, mais especificamente – até difundir-se a história da serpente alada e flamejante que ele teria vencido na Líbia. A partir daí, o tipo de proteção que sua figura simboliza não se restringe à defesa contra adversários no campo aberto das guerras militares. Ela se sobressai na luta contra inimigos estranhos, fantásticos, insidiosos, cuja força devastadora ameaça tudo o que temos de mais seguro, e que aparecem subitamente na calada da noite, ou pelos flancos desguarnecidos de nossas defesas espirituais.

O dragão não deixa de ser uma criatura aquática, apesar de sua associação ao fogo. Costuma morar nas profundezas de lagos de águas plácidas, com sutis ondulações aqui e ali denunciando o caos que pode emergir a qualquer momento. A associação com as profundezas psicológicas de que emergem as questões escorpiônicas é imediata, e o descontrole e o pânico das cidadelas atacadas existem em nós também. Nunca sabemos quando vai despertar o monstro que nos habita, e pouco adianta ficar de prontidão contra aquilo que tem o poder de incendiar as ingênuas paliçadas de nossas humanas precauções.

No entanto, Escorpião tem nesse caso uma coisa a nos ensinar, e essa coisa é a convivência com o monstro, ou, mais especificamente, a fusão com o monstruoso como forma de renovação da vida. Escorpião é aquele que morre e faz morrer no confronto com a besta, sabendo que dependemos disso para reencontrar energias vitais que se perderam em nossas distinções desgastadas entre o bem e o mal.  Há algo de sagrado no dragão da maldade, assim como há algo de luminoso em Lúcifer, e os guerreiros que venham a derrotá-los terão sempre que prestar as devidas homenagens às origens de sua fama. A morte do dragão é o nascimento de um tipo específico de herói, de caráter espiritual, não apenas por ter derrotado as forças malignas, mas por ter permanecido vinculado a elas para sempre.

Áries, que prefere a batalha em campo aberto e sem armadilhas emocionais, busca a mera eliminação do inimigo para o ter o caminho de sua liberdade desimpedido. Libra, seu oposto complementar, trata da convivência negociada com o outro. Já o par Touro/Escorpião diz respeito aos ciclos de reprodução da vida, que em ambos os casos inclui a morte. Porém em Touro isso se dá em processos marcados pela constância e pela repetição, como as estações do ano e o tempo das colheitas, enquanto em Escorpião a morte tem um aspecto de fato destrutivo, e portanto um aspecto de fato regenerador. Diante das carcaças que resistem às forças naturais do tempo, a destruição impiedosa se torna a única força capaz de gerar as metamorfoses que criam algo de verdadeiramente novo neste mundo.

O fato de Marte ter sido regente de Áries e de Escorpião durante muito tempo tem, portanto, um motivo, e não apenas o de caráter sexual; Escorpião é, sim, um signo guerreiro; a diferença é que suas batalhas se dão contra potências que ele precisa metabolizar, e não simplesmente extinguir, em um intenso processo de transformação. Se em Libra temos a percepção e a convivência de opostos, em Escorpião temos a própria destruição se fundindo e se confundindo com o gesto criativo, em um embate que não tem exatamente vencedores, mas se consagra na imagem sintética que resulta do confronto/casamento entre ambos.

Dragões muitas vezes moram em cavernas, e guardam tesouros preciosos em suas tocas infernais. De modo semelhante, todo o ouro que existe no universo foi e é produzido nas últimas etapas de contração que precedem a explosão das supernovas, quando a temperatura em seus núcleos atinge patamares impensáveis, e esse estado alterado das coisas permite a formação de minerais raros e resistentes. Há algo nesses processos que podemos associar ao arquétipo de Escorpião, seus ritmos e desdobramentos plutônicos. Do mesmo modo, há algo em Escorpião que faz com que não seja exatamente nem a besta nem o herói, mas o lugar onde o herói e a besta se tornam uma coisa só.