câncer, escorpião, peixes

Um trem aqui no meu coração

Tsunami | Katsushika Hokusai

Uma coisa que não comentei quando fiz a enquete do grande vilão do zodíaco foi o resultado por equipes. O lapso é imperdoável, mas está em tempo de corrigir. Vamos lá então: somados, os signos de Água ficaram com 52 votos, os de Ar, 44, Fogo, 23, e Terra, 15. É um resultado até surpreendente se você pensar que o temido Capricórnio está entre esses últimos, que o próprio Satanás não contribuiu para uma melhor posição do time liderado por Áries, que nem Libra conseguiu aliviar a barra de Gêmeos e Aquário, e sobretudo que entre os grandes e incontestáveis líderes estão os chuchuzinhos cancerianos e os piscianos distraídos.

Mas o resultado faz sentido se a gente considerar que a gente tem sempre medo do que não conhece. E os signos de água são exatamente aqueles que preservam sempre algo de oculto – inclusive de si mesmos – de tal forma que o mistério é inerente a esses arquétipos. Peixes é um caso extremo de vai-saber-o-que-tem-ali-dentro; mas Escorpião é também um arquétipo onde se aloja uma série de ameaças subterrâneas, e mesmo Câncer é capaz de transformar um ambiente “familiar” – como o da própria família – em algo perpassado por estranhos segredos. Além disso, quando dizemos que uma pessoa é “de lua” – a regente canceriana –, de certo modo estamos afirmando que essa pessoa é volúvel e pouco confiável.

É claro que esse resultado diz muito pouco sobre os signos de água propriamente, mas talvez diga algo sobre nós mesmos. Ele diz que o que a gente mais teme no mundo são as nossas emoções, sobretudo quando entendemos que elas estiveram ocultas ou reprimidas até o momento em que resolveram aparecer com toda força. A linguagem que usamos nesses casos com frequência é indicação disso: nós nos sentimos “tomados” por nossas emoções, como se fossem bandidos armados que nos fizeram reféns; “inundados” por sentimentos, como se não tivéssemos conseguido represá-los; e “traídos” por nossos próprios afetos, como não diríamos que somos pelos nossos pensamentos, por exemplo.

É interessante então lembrar que, para a humanidade primitiva, pensamentos não eram algo que um indivíduo “tinha” – eram simplesmente algo que ocorria a ele, um pouco como entendemos as emoções hoje. Pelo menos é assim que Jung descreve o fenômeno do pensar nos primórdios da humanidade, parecido com a perspectiva adotada por uma pessoa em estado de meditação, que vê os pensamentos lhe ocorreram e se dissiparem, como se tivessem vindo do nada e voltassem para lugar nenhum. Mas talvez para os primitivos isso de pensar tenha sido uma experiência realmente atemorizante, tipo, “gente-que-que-isso-apareceu-um-trem-aqui-na-minha-cabeça”. Ih, pensei.

Hoje, porém, estamos mais na linha do “gente-que-que-isso-apareceu-um-trem-aqui-no-meu-coração”. Ih, senti. Nesse caso não estamos falando do coração leonino, centro pulsante de onde jorra o entusiasmo vital, mas de um órgão mais abstrato, que confundimos de maneira geral com aquilo que chamamos de alma. É verdade que no caso de Escorpião acontece também de a gente de repente sentir um trem em outras partes do corpo. Mas isso é só uma das tantas maneiras como podemos perder o controle da situação, de tal modo que os signos de Água estão todos associados a alguma forma de desatino.  

Seja como for, seja como acontecer, o que a gente percebe é que esse descontrole tem sempre um papel nos desdobramentos não só da nossa vida psíquica, mas também dos fatos da existência. Trânsitos de Plutão e Netuno, por exemplo – os regentes de Escorpião e Peixes – são famosos pelas intensas transformações e desenganos que trazem, mas são também geralmente seguidos por atitudes até outro dia impensáveis, e que só se tornaram pensáveis nas novas condições.  Algo semelhante pode acontecer com uma Lua Cheia carregada de desafios e possibilidades, por conta de seus aspectos com outros planetas ou com o mapa natal de um indivíduo.

Ou seja: muita coisa que consideramos ser nossas ‘decisões’ só nos ocorrem em meio às crises causadas por esses dúbios sentimentos ocultos que súbito assomam e tomam conta do cenário. Dizer que essas decisões foram tomadas a partir de uma central de controle operações e gerenciamento de crises que existe dentro da gente, enquanto as crises e o descontrole são fenômenos que atribuímos a algo que não somos nós, é o que me parece problemático nesse caso. Tudo acontece fora e dentro ao mesmo tempo; é tudo uma coisa só.

Há, por exemplo, quadros depressivos em que o que a gente sente na alma é só um vazio mesmo. Mas mesmo esse vazio é um lugar escuro e oculto onde uma nova luz pode vir a brilhar.  O normal aí é entendermos que ‘reagimos’ a uma depressão, como se ela nos tivesse tomado de assalto, e nós no final das contas tenhamos conseguido reassumir o ânimo necessário para enfrentá-la. Acontece que esse ânimo – que pode muito bem ser um fogo sagitariano, a propósito – está totalmente vinculado ao escuro e ao vazio de onde surgiu.  

Além disso, essas ‘decisões’ que tomamos para sair de uma situação emocionalmente complicada, ou a vitalidade que pode ressurgir após um longo processo de luto, talvez sejam igualmente algo que nos ocorre, algo que nos ‘toma’, algo que nos ‘assalta’. Os antigos sabiam disso: nós somos possuídos pelo entusiasmo da mesma forma como somos afogados em lembranças. Acho essa percepção importante, para que a gente não fique achando que precisa encontrar uma solução para uma crise, forçar um reerguimento inábil, quando na verdade ela virá na hora que deve.

Trata-se de confiar na capacidade do corpo de voltar a funcionar a pleno vapor, mas quando o combustível para isso estiver disponível. Às vezes, o que está tendo para o momento é um convite ao descanso mesmo (e ao cuidado, ao resguardo, à intimidade). Novamente, portanto: que a gente precise atribuir esse convite ou exigência a forças externas e ocultas, torná-las objeto de desconfiança e suspeita, e inclusive conferir-lhes os atributos da vilania, é algo que talvez diga mais sobre nossa sociedade do que sobre os signos de água mesmo.

Acho até que muita coisa do que a gente entende hoje como doença faz parte de processos naturais de regeneração da alma. O problema é que a gente separa a enfermidade da cura como se fossem duas coisas distintas, enquanto não têm como deixar de ser uma coisa só. Queremos nos associar àquilo que apresentamos de saudável e animado e produtivo ao mundo, e tratar como um inconveniente alheio à nossa vontade a parte da vida que saímos de cena para cuidar de um trauma, ou lamber as feridas.

Outro dia escrevi, meio que à brinca, meio que à sério, na postagem sobre os hipocondríacos do zodíaco, que Escorpião convive bem com estados febris que duram longos períodos, e que Peixes sabe inclusive curtir uma febrinha como ninguém. É sobre isso que estou falando. Ou seja: são capazes de deixar-se tomar por sensações inusuais, improdutivas de um determinado ponto de vista, mas indispensáveis para o processo de cura de outro. Deixam-se inundar até mesmo por delírios, sonhos e outras alucinações que podem muito bem revelar-se os melhores guias para sair de um labirinto ou de um pântano.

Enfim: talvez, se a gente exercitar um pouco mais esse aprendizado, ao invés de tratar os arquétipos de água como vilões, vamos enfim vê-los como aliados. Ou melhor, vamos vê-los como uma parte de nós mesmos que não se deixa controlar por nossa vontade, para nossa salvação, pois é assim que eles lavam a nossa alma de um monte de tralhas que vão se acumulando em seus recantos. Por isso, se as águas da alma lhe parecem misteriosas e ocultas, incontroláveis e delirantes, volúveis e imprevisíveis, trate-as com a mesma deferência com que gostaria de ser tratado. Pois é a si mesmo que você estará tratando, exatamente, e,  quando vier a próxima enchente de sentimentos, saiba que você não será inundado: você será a inundação.

escorpião, gêmeos, peixes, virgem

Hipocondríacos do zodíaco

O doente imaginário (1862) | Honoré Daumier

Nem sei se devia estar brincando com isso, mas apesar de astrólogo não sou supersticioso, então vamos lá: quando começaram as notícias do novo-coronavírus-chega-ao-Brasil, vocês sabem quem é que em questão de horas já estava sentido todos os sintomas? Acertou em cheio quem disse os piscianos. Pelo menos no meu painel foi assim; começaram a pipocar postagens do tipo “gente to sentindo aqui febre coriza dor de cabeça tudo junto é coronavírus né?”; quando você ia ver o aniversário da pessoa, ou ele tinha acabado de passar, ou estava chegando a data (sim, eu olho a data de aniversário das pessoas no Facebook para saber o signo delas; é para isso que pago a internet).

É bem verdade que Virgem também não demorou a suspeitar daquela tosse esquisita dos últimos dias. Mas, nesse caso, eles já foram logo para o hospital, fizeram um exame, descobriram o que era, tomaram um remédio e voltaram ao trabalho. O problema de Virgem é que logo eles percebem que estão também com uma dorzinha nas costas, e que também ela pode melhorar se for tratada com atenção, então eles voltam suas atenções para dorzinha, e não sossegam enquanto não tiverem resolvido o problema. Eles então resolvem o problema, e logo percebem uma outra fonte de desconforto que não tinham percebido antes – que precisa ser igualmente averiguada de maneira pragmática e objetiva.

Enquanto isso, o pisciano, já resignado por ter sido a segunda vítima registrada da pandemia no Brasil, pesquisa na rede um artigo sobre formas de tratamento que envolvem a aceitação plena do papel do vírus na ordem natural das coisas e a meditação transcendental como eixo de integração corpo-alma-mente-vírus. O fato é que, de um jeito ou de outro, com suas diferentes antenas, ambos os signos estiveram totalmente antenados com as notícias do dia no âmbito da saúde pública. Afinal, os maiores hipocondríacos do zodíaco encontram-se nesse eixo de opostos complementares Virgem-Peixes. Mas não somente aí. Acho que Gêmeos e Escorpião também entram no time, por motivos distintos.

O caso de Gêmeos é interessante, porque o mesmo Mercúrio que em Virgem funciona bem (obsessivamente bem) na hora de buscar diagnósticos objetivos e remédios certeiros, aqui se perde na infinita multiplicação de números e siglas que acompanham os exames. Gêmeos adora um exame, não pela chateação de realizar o exame em si, mas pelo resultado, que lhe oferece uma representação algébrica daquilo que está se passando em seu corpo, em um formato que facilita transformar tudo em assunto de conversa. Gêmeos adora ser assunto de conversa; daí a realmente seguir a prescrição médica é outra história. Além disso, Gêmeos no fundo tem medo da morte, embora pense pouco a respeito, e quando fale no assunto é para fazer troça ou piada. Não que seja supersticioso, mas, se depois de contar uma anedota de funeral, ou compartilhar um meme meio mórbido, Gêmeos começa a sentir uma pontada no ombro, acha melhor fazer logo um exame.

Com Escorpião ocorre o inverso: a morte frequenta seus pensamentos, e Escorpião tem até intimidade com a morte. As diferentes formas de morrer são assunto de sua predileção. Não que goste de exames, não que goste de hospitais: tudo isso lhe parece asséptico e impessoal demais para se associar a um tema tão nobre quanto as doenças e suas eventuais complicações. Escorpião trata a própria saúde com solenidade, fala sobre o assunto em um tom grave, e mantém sobre o corpo uma atenção concentrada que por si só é capaz de criar um estado febril no qual o indivíduo pode permanecer por longos períodos investigativos. Por isso sua hipocondria é a menos divertida, embora possa alcançar patamares existenciais e filosóficos: “a vida é uma doença incurável” é o tipo de frase que você pode ouvir de Escorpião.

Mas Peixes, ah, com Peixes o negócio fica mesmo engraçado. É alguém espirrar na China que Peixes já pega uma pneumonia. Por outro lado, fico então pensando se isso não tem algo a ver com o lado empático do signo, a capacidade que ele tem de sentir e carregar as dores da humanidade inteira; se alguém espirrar na China é bem capaz de Peixes sentir que esse espirro é um pouco seu também. Então, se todo mundo começar a ficar doente, Peixes é bem capaz de ficar culpado se ele não ficar junto, e talvez por isso se apresse tanto em ser o primeirão a sentir os efeitos do novo vírus. A vantagem é que Peixes sabe ficar doente melhor do ninguém. Nenhum outro signo é mais capaz de se entregar ao delírio na hora de curtir uma febrinha.

O contraste é enorme quando a gente pensa em Áries, por exemplo. É um signo que tem orgulho de sua força, odeia ficar doente e não quer nunca perder o controle. Agora, vai ver que por isso mesmo acabem sendo responsáveis pela proliferação de vírus variados pelo mundo. Enfim, quem sou eu para ficar estimulando preconceitos astrológicos, mas se fosse o pessoal dos aeroportos perguntava o signo de todo mundo que chegasse no país. Os hipocondríacos eu deixava passar fácil, porque esses eu sei que vão se cuidar ou procurar cuidados ao menor sinal dos sintomas. Agora, os outros, com essa história de deixa-isso-pra-lá-é-só-uma-febrinha-de-nada, esses eu deixava em quarentena mesmo. Montava um cercadinho só pros capricornianos.

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Dr. Sigmund de sapatos novos

Em suas memórias, o médico suíço e leonino Carl Gustav Jung trata da ruptura de sua amizade com o neurologista austríaco e taurino Sigmund Freud como uma experiência muito difícil e dolorosa. Jung e Freud entraram mais abertamente em conflito em torno de 1910, por causa de divergências na evolução do pensamento de ambos, e sobretudo por aquilo que Freud considerava uma excessiva inclinação para o “ocultismo” nos estudos de seu discípulo. Tauríneamente, Freud não arredou um dedo da convicção nos sólidos postulados científicos sobre os quais procurava erigir a psicanálise; Jung, por sua vez, afirmou que, na época do desentendimento, sentiu-se tão perdido que não encontrou alternativa a não ser buscar nas imagens de seu próprio inconsciente alguma saída para a crise.

Então teria se fixado em uma memória de sua infância, de quando estava com 11 ou 12 anos, e se dedicava apaixonadamente a brinquedos de construção. O impulso criativo reanimaria seu espírito adulto, na medida em que ele retomou a atividade lúdica, saindo para catar conchas e outros materiais de manhã e separando um tempo para utilizá-los nos intervalos do trabalho no hospital. “Mal terminado o almoço, ‘brincava’ até o momento em que os doentes começavam a chegar; à tarde, se meu trabalho estivesse terminado a tempo, voltava às construções. Com isso meus pensamentos se tornavam claros e conseguia apreender de modo mais preciso fantasias das quais até então tivera apenas um vago pressentimento”.

Esse recurso ao potencial terapêutico da brincadeira, da criatividade, do jogo e do ócio não é apenas uma característica de Leão; é também uma marca daquele tempo. Roger Caillois, em Os Jogos e os Homens, observa que as primeiras miniaturas de carros foram produzidas por operários de fábricas automotivas em que a divisão do trabalho não lhes permitia acompanhar o processo de produção do começo ao fim. Assim, chegando em casa, eles podiam reassumir o controle de todas as fases da composição de um artefato, nem que fosse como um hobby compensatório, e conseguindo com isso restituir a si mesmos uma relação artesanal com a inteireza do objeto.

Mas o arquétipo de Leão de fato atualizou esse impulso de formas diferentes através dos séculos. Cada texto que começo e termino para esse blogue, por exemplo, é uma espécie de jogo em que me envolvo com prazer e incerteza, sem saber ao certo de onde estou partindo nem onde vou chegar, mas sentindo que algo de esclarecedor – para mim pelo menos, espero que para vocês também – se realiza no percurso.

Nunca sei exatamente de onde vai surgir a peça com que começarei a montar cada texto. Nessa semana, por exemplo, ela apareceu na leitura desse trecho autobiográfico de Jung. Aí me ocorreu que é meio engraçado que ele e Freud tenham sido ambos de signos fixos (Touro e Leão), os quais existem em uma relação tensa e produtiva. Mas reparei em seguida que a coisa não para por aí: Freud tinha o ascendente em Escorpião, e Jung em Aquário, ambos no signo oposto complementar de seus signos solares. Isso quer dizer, basicamente, que a cruz dos quatro signos fixos esteve envolvida nas aproximações e afastamentos entre os dois grandes pensadores da psicologia no século XX. Opa, pensei: tem jogo aí.

Acho que em ambos os casos o signo solar aparece como a base da personalidade, e o ascendente refere-se à contribuição que ofereceram em suas obras. No caso de Freud, o vínculo com Escorpião é mais que evidente: de Totem e Tabu a Moisés e o Monoteísmo, desenvolve-se um concentrado esforço arqueológico em que são desenterrados os ossos de crimes antigos (o assassinato do pai pela horda primitiva, o assassinato de Moisés pelas tribos do êxodo), que teriam correlações exatas em episódios de cada trajetória individual, habitando os subterrâneos do inconsciente. Os sentimentos de inadequação, culpa, remorso ou angústia que surgem da repressão dessas memórias podem então ter sua origem identificada. Com isso, torna-se possível e necessário encarar os demônios ocultos na psique, para alcançar a lucidez após um intenso mergulho nas profundezas do passado.

Tudo converge para o Complexo de Édipo, também um assassino de seu pai, ao mesmo tempo detetive e criminoso, cujo expurgo de Tebas revela-se necessário para a regeneração da cidade. Aqui uma importante diferença entre as obras de Freud e Jung pode ser notada, pois no segundo caso há uma profusão de arquétipos, narrativas e símbolos que nunca se deixam reduzir a uma única história. Assim, enquanto Escorpião tende à obsessiva e quase paranoica busca de vestígios capazes de reafirmar o ponto central de suas investigações, Aquário abre mão do “uno” em favor do “múltiplo”, observando e afirmando diferenças ex-cêntricas onde outros vêm similaridades.

A ênfase no caráter sexual da libido, a propósito, não deixa de ser um componente escorpiônico das lições de Freud. Também aqui ele e Jung divergiram frontalmente da maneira como Escorpião e Aquário divergem no zodíaco. Pois o primeiro é uma força corporal, intensa, concentrada, enquanto o segundo é um arquétipo que se dispersa no ar em uma complexíssima profusão de relações em rede. Jung considerava a ênfase de Freud nas pulsões sexuais uma inclinação “reducionista”, na medida em que designava uma só fonte como energia motriz de todos os esforços e humanos. Ele acreditava que o impulso criativo, por exemplo, existia por si mesmo, e não como um excedente de desejos reprimidos.

Curiosamente, portanto, embora Jung fosse o ”ocultista” da relação, havia algo na ciência de Freud em que ele detectava uma obsessão compulsiva com o tema do sexo e da autoridade paterna. Não é incomum que Aquário veja Escorpião por esse prisma, no qual se ressalta sua perspectiva desencarnada, indiferente em relação aos instintos primitivos que lhe parecem vis ou demasiadamente humanos. Mas isso envolve também a dimensão iluminista e prometeica do arquétipo aquariano, na medida em que busca alçar o humano para além de seus limites usuais. Desse modo, e mais uma vez curiosamente, as Luzes estão do lado de Jung, embora Freud fosse o cientista da relação.

Acontece que Jung também se outorgava esse título, tinha apreço por ele, porém entendendo a ciência de um modo mais heterodoxo. De ambos, se não me engano, foi quem acompanhou mais de perto as inovações da Teoria da Relatividade e e Física Quântica, sem deixar escapar as relações da cosmovisão que essas novidades ofereciam com elementos das religiões orientais. Freud, enquanto isso, manteve-se centrado na tradição judaico-cristã, ferozmente dedicado ao problema de Deus, ou ao problema do Pai.

Enfim, Jung roubou o fogo de seu próprio Sol leonino para levá-lo aos homens através de seu ascendente aquariano; Freud manteve-se até o fim da vida irremovível do caminho em que Touro o havia situado, porém correndo riscos e desencavando desejos que apenas são aceitos e reconhecidos quando acionamos o tipo de coragem que reside no arquétipo de Escorpião. Da tensão produtiva desses cruzamentos, ambos descobriram razões que reforçaram suas crenças e os mantiveram em suas trajetórias, que, antinômicas como são, não deixam de se complementar (caberia ainda mencionara os aspectos complementares das noções de inconsciente individual e inconsciente coletivo, que estão mais propriamente atreladas aos arquétipos de Escorpião e de Peixes, tal como já comentei aqui).

Resta saber como Freud terá reagido à ruptura que levou Jung aos brinquedos de construção. Algo pode ser deduzido da correspondência entre ambos – ele alegou ter sido “despojado da autoridade paterna” de que o próprio jovem Jung o investira anos antes –, mas acho que nesse caso ele deve também ter buscado no seu Sol taurino algum tipo de conforto. No mínimo, deve ter se recostado em uma poltrona aconchegante, procurando quem sabe um bom lugar pra ler um livro, sem outro propósito além dar maciez à sua tristeza. Freud, é bom lembrar, fez o caminho de volta de Escorpião a Touro (dos mistérios ocultos à verdades elementares) quando lhe perguntaram insidiosamente a respeito de seu prazer com o fumo: “Às vezes, um charuto é apenas um charuto”.

O que então me vem à mente é uma tela do pintor Konstatin Christoff que vi em uma exposição no Palácio das Artes de Belo Horizonte muitos anos atrás. Ela se chamava “Dr. Sigmund de sapatos novos” – e mostrava um Freud felizão e sorridente com um novo par de sapatos brilhosos que teria comprado. O efeito da pintura estava na associação de uma figura tão imponente e misteriosa como a de Freud com alegria de ter comprado um par de sapatos novos. É como imaginar Escorpião contente diante de um belo prato de macarronada.

Ou seja, talvez tenha sido assim que ele lidou com a perda da amizade do discípulo: como um bom e velho taurino. Talvez a materialidade das coisas e as sensações que elas provocam não tenham deixado nunca de ser para ele uma espécie de refúgio em tempos de crise, a base de sua existência e sua personalidade, o ponto central e solar a partir do qual irradiou seu brilho para as regiões sombrias da alma humana. Assim como a criatividade e os jogos foram para Jung.

Só queria ainda acrescentar que Konstantin Christoff foi um artista búlgaro que, aos nove anos de idade, foi parar com a família em Montes Claros, no norte de Minas Gerais. Formado em Medicina pela UFMG, trabalhou como cirurgião-geral a vida inteira, mas nunca abandonou a pintura, além de ter publicado várias ilustrações na imprensa brasileira. Mais um médico artista, portanto. Descobri isso agora, ao fazer a pesquisa para tentar descobrir a imagem do quadro de Freud com sapatos novos. É engraçado o tipo de coisa que descubro e que encontro ao juntar as peças para esses jogos que vou montando aqui.

Mas infelizmente não encontrei a imagem, então terei que pedir um esforço da imaginação de vocês para terminar. Visualizem aí, com candura, sem maldade: Dr. Sigmund. Uma poltrona confortável. Pernas cruzadas. Sorrisão na cara. Charutão na mão. Sapatos novos.

astros, escorpião

O dia em que Plutão entrou em Escorpião

Angels in America / Dir. Mike Nicholls (2003)

Plutão em Escorpião não está nas cabeças da vontade popular, segundo a enquete ainda em andamento, mas eu não teria como deixar passar os 25 anos de Angels in America sem um comentário a esse respeito. De modo que vou deixar essa notinha aqui enquanto aguardo o resultado (até o momento temos uma emocionante disputa entre Touro e Quíron, e quem quiser pode ainda votar aqui).

Bom, para quem já está assustado com Mercúrio retrógrado em Escorpião e tudo mais, é bom adiantar que Plutão não está em Escorpião agora. Mas estava em 1991, quando estreou a peça de Tony Kushner, e havia ingressado em Escorpião em 1984, período em que se passam os momentos iniciais da história, quando o vírus HIV começava a se disseminar na comunidade gay de Nova Iorque.

Não é o caso de fazer uma análise da obra ou de suas adaptações e montagens, até porque várias já foram feitas esse ano. E, para quem não conhece, fica a recomendação de que assistam a minissérie com Meryl Streep, Al Pacino e Emma Thompson, entre outros atores e atrizes incríveis.

Basicamente, o que eu queria dizer sobre a peça é que poucos trabalhos artísticos representam tão claramente o espírito de um determinado trânsito astrológico de longo prazo, e um arquétipo em sua força máxima. Afinal, Plutão é o próprio regente escorpiônico, em seus intensos ciclos morte e regeneração.

Vou mencionar dois trechos que exemplificam esse ponto. Ambos surgem em cenas da personagem Harper, interpretada na série por Mary-Louise Parker, que costuma ter sonhos e alucinações peculiares. No primeiro trecho, ela está na plateia de um teatro vazio, atordoada com uma série de eventos em sua vida, sentindo-se incapaz de reerguer-se e reorientar-se. Então pergunta a uma estátua de cera: “Como é que as pessoas mudam?”. E ela obtém uma resposta.

“Bom, tem a ver com Deus, então não é muito confortável”, diz a estátua, que de repente ganha movimento e voz. “Primeiro, Ele rompe sua pele com uma unha dentada da garganta até a virilha. Então enfia a mão imunda lá, começa a arrancar suas tripas, e elas escorregam e escorregam, mas ele aperta firme, até tirar de você todas as entranhas, e a dor… você não consegue imaginar a dor. Não dá nem para falar a respeito. Então ele mete tudo de volta, tudo sujo, misturado e arrebentado. Cabe da você dar os pontos”.

Não vou comentar. Quem quiser ver a cena, está aqui. Além disso, acho que vale pra esse caso o texto que já fiz em outra postagem, sobre a quadratura de Plutão, um trânsito que todos vivemos em algum momento da vida, geralmente com uns trinta e tantos anos. Todo mundo que já passou por ele sabe do que o texto da peça está falando.

O outro trecho é o monólogo final de Harper. Acontece anos depois dos primeiros eventos narrados, já no começo dos anos 1990, quando a descoberta do AZT e a evolução do conhecimento científico a respeito da AIDS tornou o ambiente menos carregado e desolador, ao menos desse ponto de vista. Ela está fazendo uma viagem, e diz:

“Voo noturno para São Francisco. Seguindo a lua através do país. Há anos que não entrava em um avião! Quando chegarmos a 35.000 pés, alcançaremos a tropopausa, o grande cinturão de ar quieto. É o mais perto que chegaremos da camada de ozônio. Eu sonhei que estávamos lá. E o avião ultrapassou a tropopausa, e chegou ao círculo de cima, à camada de ozônio, que estava rasgada e esgarçada, com os retalhos flutuando aqui e ali, e aquilo dava medo, mas vi algo que apenas eu podia ver, por causa da minha assombrosa habilidade de ver essas coisas… Almas estavam subindo, lá debaixo, lá da Terra, as almas dos mortos, de pessoas que pereceram, com a fome, com a guerra, com as pragas, como paraquedistas ao reverso, com os braços esticados, girando, e as almas desses mortos davam-se as mãos, enganchavam os calcanhares, e formavam uma teia, uma rede de almas, que eram formadas de três átomos de oxigênio, a substância do ozônio, e a camada de ozônio as absorvia, e era reparada. Nada está perdido para sempre. Há nesse mundo uma espécie de progresso doloroso, em que sentimos falta do que deixamos para trás, e sonhamos com o que virá. Pelo menos, é assim que penso”.

Acho que também essa passagem dispensa comentários. E a propósito: “O dia que Urano entrou em Escorpião” é um conto de Caio Fernando Abreu, do livro Morangos Mofados, que usei como referência para o título dessa postagem. O conto é lindo, recomendo também.

escorpião

Escorpião é foda

Percebi uma coisa importante ontem, sobre Escorpião. Vou deixar anotado aqui para não esquecer. Foi assim: já comentei que no momento sou diretor da unidade de ensino onde trabalho. Cumpro essa função capricorniana no mundo às vezes com gosto, às vezes com enfado, às vezes com desespero. Aí tem uma funcionária no prédio que não era exatamente da minha equipe, mas fazia o trabalho (geminiano) de ascensorista, entre outros serviços menos formais que envolvem a comunicação e a sociabilidade. Só que ela não é de Gêmeos, ela é de Escorpião. E em um determinado momento começou a me chamar de “chefe”.

“Bom dia, chefe”, “até amanhã, chefe”, ela começou a dizer. Um jeito simpático de demostrar afeto e reconhecimento. Mas às vezes ela dizia coisas tipo: “Já fez o meu café, chefe?”, e lá ia eu correndo fazer o café que ainda não tinha feito. Ou então, “tô sem nenhum livro pra ler, chefe” – e lá ia eu arrumar o livro. A mera menção de que alguma coisa estava faltando ou atrasada ou insuficiente já era o bastante para me deixar ansioso para resolver o problema logo. Ela não precisava mandar, não precisava dar ênfase. Só precisava “sugerir” mesmo.  

Infelizmente, o contrato da empresa em que ela trabalha com a universidade terminou e ela foi removida. Uma tristeza enorme, além das dificuldades operacionais. Vai fazer uma falta danada, já está fazendo.  Mas o engraçado foi que de repente, ontem, lá estava eu quando outro funcionário do edifício perguntou: “Boa tarde professor, já fez o café?”. Eu respondi, meio que brincando, meio que sério: “Não, vou fazer ainda. Mas peraí, você manda em mim agora?”. E ele: “Não, eu não, mas a Josi mandava. A Josi você obedecia”.  

Eu pensei na hora: é verdade. Escorpião é foda. A Josi eu obedecia. Ela inventou essa história de me chamar de chefe mas no final das contas quem mandava em mim era ela. Taí uma coisa que Escorpião faz bem: deixa Áries, Leão ou Capricórnio achar que está no comando, mas por trás dos panos é quem realmente controla os acontecimentos. Que nem aquela criatura do filme Monstros S. A., que de repente surgia como a verdadeira comandante oculta de toda a operação da empresa dos monstros. Ou um desses conselheiros palacianos que transitam nos bastidores e tomam todas as decisões, mas a gente não sabe quem são porque eles não mencionados nos livros de história.

Eu não sei como eles fazem – não sei nem se eles sabem – mas é só Escorpião falar um ah que o mundo se move para fazer o que eles querem. Mesmo quando o mundo não percebe que está fazendo o que eles querem. Ou então não é só um ah, eu que estou achando que é só um ah, no fundo tem todo um método, toda uma insinuação, todo um trâmite emocional complexo e instintivo; ou talvez eles saibam como fazem sim, só não deixam a gente perceber que sabem.

Jamais saberemos. De um jeito ou de outro, tem alguma coisa no jeito deles de dizer, no modo de olhar, que dá um certo medo do Escorpião, que inspira uma espécie de reverência. Mesmo quando eles nos aparecem com toda a leveza, com todo o afeto, tem uma coisa. Sabe-se lá com o quê essas pessoas andaram mexendo, a gente pensa; o tipo de poder que têm, o que é que andam escondendo da gente. Fica sempre a impressão de que é melhor fazer o que elas estão pedindo, e que se elas estão pedindo de um jeito simpático é só porque não precisam pedir de outro jeito.

Outro dia me disseram que tudo que escrevo sobre Escorpião é sempre muito pesado, que eu devia tentar fazer algo mais divertido e bobo. Aceitei o desafio – mas considerar isso um “desafio” pode ter sido só um mecanismo que encontrei para justificar minha pressa em atender àquilo que, desde o início, soou pra mim como uma ordem. É lógico que o fato de ter percebido esse mecanismo psicológico intrincado, com suas manipulações e delicadezas, deveria funcionar para mim como uma libertação. Mas que libertação o quê, eu é que não sou doido de deixar de fazer o que eles mandam. Enfim, bem ou mal, está aqui o texto. Tá pronto o café, chefe!

câncer, escorpião, peixes

Camadas de memória

[Foto: Elliot Erwitt]

“Os mortos” é um conto do escritor irlandês James Joyce em que se narra um tradicional jantar de Noite de Reis na Dublin do início do século XX. O protagonista é Gabriel Conroy, sobrinho das anfitriãs, queridinho das tias, homem de família, responsável pelo bom andamento dos ritos cerimoniais (como destrinchar o frango e controlar a língua do tio bêbado). Tudo se passa como teria se passado nos anos anteriores, exceto por uma ou outra indicação de que algo não anda bem. No final da história, Conroy vai descobrir como aquele senso de continuidade é uma espécie de ilusão, ao escutar o relato de sua mulher sobre um jovem que teria literalmente morrido de amores por ela no passado distante. Logo fica claro que, após a lembrança súbita da morte do rapaz, ela estivera pensando nele a noite inteira.

A maneira como a morte, o sofrimento e a paixão irrompem no encerramento do texto é notável. Não que elas não estivessem lá o tempo todo, ocultas, insinuadas no destrinchar do frango e nas conversas elegantes, porém reprimidas pelas rotinas civilizatórias de que falou Sigmund Freud. O mesmo Freud, aliás, que teria dito que os irlandeses são o único povo impermeável à psicanálise. Isso pode ser lido como um atestado de sua simplicidade, mas também como uma referência a seu compulsivo apego à terra pátria e suas tradições. Nesse sentido, a ruptura que se estabelece na experiência do protagonista de Joyce é significativa. Atordoado com a percepção de recantos traumáticos da memória em suas camadas sobrepostas, de repente ele se torna um irlandês complexo e, por assim dizer, psicanalisável.

É sobre essas camadas, de um modo mais geral, que eu gostaria de falar. Os arquétipos de água – Câncer, Escorpião, Peixes – são aqueles em que está o passado, aqueles em que estão nossos mortos. No caso de Câncer, o interessante é que os mortos ainda estão vivos. Eles são o papai, a mamãe, o vovô, a vovó, ou seja, as pessoas através das quais – se tudo ocorrer dentro do esperado – nós entraremos em contato com a finitude. Exatamente por ser uma experiência de continuidade e pertencimento, Câncer aloja a percepção mais imediata da ruptura. É a perda do que temos de mais familiar. A memória canceriana é a lembrança de coisas que estiveram aqui há pouco tempo, a lembrança de lugares em que vivemos até outro dia, e de pessoas com quem convivemos o suficiente para tornar sua presença um hábito doce e confortável.

Já o jogo de desenterrar do passado coisas estranhas das quais já não havia resquício de lembrança foi inventado por Escorpião (e, em certo sentido, por Sigmund Freud). É uma brincadeira perigosa, mas potencialmente terapêutica e restauradora, pois o que foi reprimido emerge destruindo o que já não tem condições de existir. Os mortos e esquecidos ganham vida para mostrar que o que parece vivo na verdade já está morto. A crise plutônica é um abalo sísmico, que deixa um lastro de destruição de tudo o que considerávamos mais inabalável; por outro lado, o terremoto faz surgir ruínas arqueológicas em que nos reconhecemos. Não importa que sejam sejam indícios de épocas violentas; o passado em Escorpião é justamente aquilo que foi soterrado para dar lugar a uma versão mais sensata e civilizada de nós mesmos.

Agora, se em Câncer os mortos são familiares que se afastam, se em Escorpião os mortos são estranhos que se reaproximam, em Peixes estão TODOS os mortos. A memória pisciana é a presença indistinta de ancestrais longínquos e das pessoas próximas; em última instância, do mesmo modo como perde a noção de realidade e de sonho, ela não consegue distinguir uns dos outros. Porém essa imersão no oceano da ancestralidade cria a possibilidade de percepção daquilo que preexiste a cada indivíduo, e que se revela em cada história individual, ou seja: um inconsciente coletivo traduzido na forma de arquétipos. A diferença da abordagem psicológica junguiana em relação à de Freud reside sobretudo no delineamento dessas histórias, e da maneira como as representamos. Não por acaso, Jung dedicou todo um livro ao “arquétipo do si-mesmo”, que seria um arquétipo em separado e ao mesmo tempo uma reunião de todos os arquétipos, correspondendo em todos os aspectos a símbolos piscianos.

Há, portanto, a experiência de uma vinculação imediata ao passado, que se traduz na percepção da perda; uma relação fraturada com o passado, que se revela na crise, na lembrança do trauma, na chance da restauração; e uma imersão oceânica no passado, em que está a imprecisa memória de todas as coisas próximas e distantes. No conto de Joyce, as três se sucedem, de tal modo que no final da história Gabriel Conroy vai até a janela: “Sua alma desmaiava lentamente, enquanto ele ouvia a neve cair suave através do universo, cair brandamente, como se lhes descesse a hora final, sobre todos os vivos e todos os mortos”. Uma solução pisciana para um texto que começa em Câncer (o jantar em família), prossegue em Escorpião (o retorno do reprimido), e termina reunindo-os todos sob a mesma neve. Há nesse desfecho uma promessa de descanso que pode muito bem ser uma ilusão. Seja como for, ele termina juntinho com o zodíaco: buscando a paz em uma saída de cena, e na conclusão de todas as histórias que existiram, existem, e estão por existir.

câncer, escorpião, libra, touro

Quatro casamentos e um funeral

[Marc Chagall | As luzes do casamento (1945)]

No dia em que eu defender minha tese no Instituto Hogwarts de Altos Estudos Astrológicos, ela provavelmente vai se chamar Da Natureza do Escorpião: um estudo comparativo do mais capetudo arquétipo do zodíaco. A seguir, algumas anotações também sobre Touro, Câncer e Libra, para o capítulo 7, “A questão do casamento”.

TOURO: A questão do casamento surge em Touro. Mas não é ainda um problema cultural intrincado, talvez nem seja exatamente uma “questão”. A união é assunto de subsistência, tem um vínculo imediato com ritmos naturais de reprodução, e envolve um tipo de sensualidade imediatamente vinculada às necessidades e preferências do corpo. Sexo taurino é sexo simples e gostoso. Taurino é o casamento camponês de Levin e Kitty com que Tolstoi encerra o Anna Karenina. Mas simplicidade não significa escassez. O banquete da casamento como celebração da fertilidade do solo e da abundância dos frutos da terra é um fenômeno que acontece no arquétipo de Touro.

CÂNCER: Em Câncer, o casamento ganha uma dimensão social. Envolve não apenas os noivos como também a família, a aldeia, a comunidade. Marc Chagall era canceriano. Suas pinturas de casamentos têm uma ambientação com elementos piscianos, um clima de sonho, mas não deixam de nunca de evocar as tradições da aldeia eslava ou balcânica. Em Câncer, o casamento acontece não apenas na aldeia, mas é algo que acontece à aldeia como um todo. Nesse sentido, casamentos não são apenas uniões e constituição de novas famílias, mas também separações nos lares de que se despedem os noivos. E esse é um dos motivos pelos quais casamentos são felizes e tristes ao mesmo tempo; seu aspecto sentimental é arquetipicamente canceriano.

LIBRA: Em Libra o casamento é o triunfo da inteligência e da diplomacia humanas na resolução de conflitos. Aquilo que Northrop Frye chamou de “predominância do princípio de sociabilidade” ao tratar das comédias de Shakespeare, que geralmente terminam em casamentos. Assim como os casamentos de Chagall compõe-se de Peixes + Câncer, Sonho de uma noite de verão, a comédia shakespereana mais onírica, é Libra + Peixes. Tão destituída de elementos terrenos que praticamente se desprende do solo, porém ainda dependente de algum grau de estratégia para chegar a um final feliz. Qualquer comédia romântica tem um forte componente libriano, é claro. Ao mesmo tempo, em Libra o casamento é um contrato, que prevê equidade e equilíbrio.

ESCORPIÃO: Em Escorpião o casamento não é uma necessidade, não é uma celebração, não é um contrato: é uma morte. Confunde-se com a união sexual, a “pequena morte” do orgasmo, que o simboliza e sacramenta. Mas não é o sexo reprodutivo ou mesmo o sexo gostoso de Touro: trata-se de uma fusão transformadora radical que se dá por trás dos panos, por meio da liberação de energias represadas por um longo tempo. O bom senso taurino, a comunalidade canceriana e a justiça libriana não dão as caras. O que acontece aqui pode muito bem ser bizarro, isolado e desigual.

Em Libra, a propósito, a união presume certa distância, capaz de resguardar o casamento dos riscos da indistinção entre o eu e o outro. Em Escorpião assume-se esse risco. O casamento libriano requer qualidades que atribuímos à amizade, como a admiração mútua e o respeito; o casamento escorpiônico pode prescindir delas. Um amigo uma vez me disse que “o casamento é a relação mais promíscua que existe”. Dá para entender bem essa frase se pensarmos no casamento em Escorpião, não exatamente por causa do sexo, mas por causa do tipo de fusão (e confusão) emocional da intimidade monogâmica, da permissividade afetiva gerada pelo convívio cotidiano. O fim de todos os limites do respeito e da moralidade podem ser experimentados através do casamento. Naturalmente, o ideal é que não seja assim, ou que os limites da moralidade sejam rompidos entre quatro paredes de formas mais renovadoras e catárticas.

Mas o fato é que atitudes e sentimentos normalmente considerados indesejáveis encontram seu lugar no mundo no arquétipo de Escorpião. Acho que fiquei com vontade de fazer essas anotações depois que outro dia li o seguinte nas reflexões diárias um astrólogo que admiro: “Não se permita o exercício da maldade, a não ser que seja por vingança”. Tive que ler duas vezes antes de pensar: ah, é claro, a lua está em Escorpião. Em Escorpião vingança pode, tem justificativa cósmica e licença poética. Por causa da história da fusão e da confusão. Ódio também é ok, às vezes. Mau humor nem se fala: o mau humor é totalmente permitido quando as coisas estão em Escorpião.

O fascinante nesse signo é como o certo se torna errado e o errado, certo. Quanto a parcerias e casamentos, cada um é de um jeito e todos têm um pouco de todos os tipos. Comida, sexo, comunhão e equilíbrio são sempre importantes. Mas existe sempre algo estranho que foge à nossa visão ordinária de como as coisas são ou devem ser. Esse algo é fundamental.

Todos os signos

Estatísticas

Agradeço a todo mundo que atendeu ao meu apelo para contar o ascendente pelas redes sociais. Agora enfim tenho uma amostra considerável para oferecer minha contribuição ao desenvolvimento da ciência astrológica com o máximo rigor metodológico. Em seguida, apresento alguns dados do DATAGUS acompanhados das respectivas análises qualitativas:

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em ÁRIES foi de 5,8% do total. Porém, sabe-se que a conclusão da amostragem não corresponde à realidade. Tem muita gente com ascendente em Áries que já não está em rede social nenhuma. Saíram fora dessa.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em TOURO foi de 8,33333%. Foi o único signo cujo número correspondeu a exatamente 1/12 do total. O pessoal de ascendente em Touro é objetivo. Quando a gente pergunta o ascendente eles respondem “Touro”, e mantêm-se impassíveis, como que esperando a gente dizer alguma coisa a respeito. Mas nessas horas costumo perceber lá no fundo de seus olhos um desconcertante lampejo de sarcasmo.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em GÊMEOS foi de 8,8% do total. Desses, quase metade respondeu “Gêmeos kkkkkkkkk”. Deve ser divertido ter o ascendente em Gêmeos.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em CÂNCER foi de 7,5% do total. Infelizmente, nenhum deles me convidou para tomar um café e comer um bolinho na casa deles. Tomar café e comer bolinho na casa do ascendente em Câncer é especial. Convida aí, pessoal, que eu aceito.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em LEÃO foi de 12,3% do total. Outro número que com certeza não corresponde à realidade. Ter ascendente em Leão é o máximo. Tem gente que diz só pra aparecer.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em VIRGEM foi de 10,3% do total. É um número alto, mas possivelmente correspondente ao número de indivíduos vivos com este ascendente. Mesmo o pessoal com a Lua em Peixes ou Marte em Gêmeos uma hora resolve fazer tudo certinho e manter uma rotina saudável, se tiver o ascendente em Virgem. O percentual se explica pela longevidade.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em LIBRA de foi 8,6% do total. Uma breve análise das fotos de perfil confirma a fama desse ascendente. Ô gente bonita, meu Deus.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em ESCORPIÃO foi de 4,2% do total. O índice extremamente baixo é fácil de explicar. Um ascendente em Escorpião não vai sair contando isso por aí (eu, por exemplo, não conto). A propósito, 100% dos indivíduos que responderam com “quero ver vc adivinhar” tinham ascendente em Escorpião. Já três indivíduos perguntaram se isso de ter ascendente em Escorpião é grave. Dois deles, anonimamente.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em SAGITÁRIO foi de 8,0% do total. Metade desses já sabia tudo sobre ter ascendente em Sagitário. A outra metade pediu bibliografia.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em CAPRICÓRNIO foi de 6,9% do total. Aqui também acho que há uma distorção. Muitos não responderam a pesquisa porque estavam trabalhando em um projeto. Ascendente em Capricórnio está sempre trabalhando em um projeto.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em AQUÁRIO foi de 9,1% do total. Aqui temos um caso muito singular, mesmo para meu círculo de conhecidos: dois a cada três desses indivíduos são estudantes de humanos. Ops, de humanas. Mas faz sentido. Sempre tenho a sensação de que Aquário é gente de outros planetas que resolveu passar um tempo na Terra por algum motivo. No caso do ascendente agora está claro. Vieram nos pesquisar.

Enfim, o número de indivíduos que declararam ter ascendente em PEIXES foi de 6,4% do total. Aqui acontece algo aparecido com o ascendente em Áries. A diferença é que o ascendente em Peixes não está fora só das redes sociais. Ele está a caminho de estar fora da sociedade mesmo. Faz muito bem.

A propósito, dos 1,7% que responderam “ih não lembro”, presume -se que a maioria tenha ascendente em Peixes.

Por enquanto é isso. Estaremos em contínuo trabalho de processamento e análise das informações. A qualquer momento pode sair um novo relatório. Mais uma vez obrigado.

capricórnio, escorpião, leão, virgem

Ditadores do zodíaco

O Grande Ditador (1940) / Dir. Charlie Chaplin

Acredito que todos os arquétipos do zodíaco conhecem um caminho próprio para o autoritarismo, tendo como ponto de partida inclusive as virtudes de cada um, mas em alguns casos esse percurso é mais evidente. Podemos imaginar como e porque uma ditadura se instala de acordo com as inclinações de diferentes signos específicos; o exercício será tão útil quanto uma horinha de academia para nossas articulações psico-astrológicas, com a vantagem de não deixar nossos bíceps fatigados.

Em Capricórnio, por exemplo, existe uma inteligente competência para lidar com assuntos mundanos; ele pode ser até mesmo convidado a exercer essa qualidade, assumindo posições centrais no governo sem o intermédio de uma escolha popular, em circunstâncias de desorientação coletiva; mas ninguém garante que vai abrir mão do poder obtido, depois que as coisas se acalmarem. A figura do capricorniano como um ditador é célebre, e em muitos casos decorre desse apego ao controle, a uma pretensiosa imaginação de que sem Capricórnio o mundo recai no caos e na bandalheira. Mas também não custa lembrar que o termo “ditador” foi criado na Roma Antiga para designar o magistrado escolhido para exercer um governo com prerrogativas emergenciais – e, portanto, não necessariamente presumia um golpe ou um regime despótico, mas uma espécie de janela para o restabelecimento da ordem institucional e para a retomada das práticas regulares do Estado.

Em Escorpião, como de costume, as coisas ficam “interessantes” (leia-se: ganham uma conotação sexual), e nesse caso porque o poder puro e simples – incluindo os poderes mais obscuros – é um tema de Escorpião. Aqui o fato de que determinados seres exercem força sobre outros, não porque merecem, não porque precisam, não porque desejam, mas simplesmente PORQUE SIM, é parte importante do mistério da vida. Em Escorpião estão os fenômenos – como a morte – que precisam ser aceitos, por mais que a gente os considere injustos ou despropositados (para mais detalhes sobre esse tema, tem esse texto). Em Escorpião está o Dragão, esta força da natureza que causa destruição e carnificina de acordo com seus humores, e que esconde um inestimável tesouro oculto em sua caverna (nesse caso tem esse outro). Por isso em Escorpião também está o Tirano: aquele que mata por prazer, que quer o controle pelo controle mesmo, para o exercício da manipulação e do ódio.

O problema aqui não está no fenômeno do poder absoluto e desumano em si, mas nessa sua manifestação mundana e humana através de um indivíduo. Ela torna pontual e contingente algo que tem uma dimensão cósmica inegociável, conferindo sempre um elemento de banalidade ao Mal Radical que exige respeito e reverência. O dragão é o Dragão – e o Tirano, no final das contas, é só uma pessoa. Além disso, todo autêntico poder escorpiônico tem sua origem no oculto e no mistério, e é de caráter experimental, alquímico, investigativo, como por exemplo aquele que se obtêm através do estudo da astrologia; não se tem licença para exercê-lo em assuntos de outra ordem, que os desvirtuam e rebaixam. Uma plutocracia é um governo dos muito ricos – os que acumulam tesouros em suas cavernas – ou de forças ocultas – aquelas que transitam nos porões de ditaduras. As duas coisas muitas vezes andam juntas. Num caso como no outro, as virtudes plutônicas da concentração de energia e da transubstanciação alquímica se manifestam em versões mais vis, as da concentração de dinheiro e a da manipulação conspiratória.

Agora, sobre Virgem, uma notinha rápida: nesse caso estamos falando menos de um personagem vultuosamente ditatorial, e mais de um possível exército de tiraninhos que regulam os mais ínfimos detalhes da vida cotidiana, uma máquina burocrática que continua funcionando mesmo quando destituída de uma figura central. Em O Processo, de Kafka, encontramos algo parecido, pois ali já não importa nem qual é a Lei que está sendo obedecida, mas que os protocolos do código processual sejam todos seguidos. Há também um elemento virginiano em Gilead, a locação da distopia de The Handmaid’s Tale, de Margaret Atwood, com seus cenários ordenados, seus figurinos repetitivos e suas aias submetidas a vários protocolos de conduta restritíssimos. A impressão do elo com Virgem é reforçada pelos tenebrosos ritos sexuais que ocorrem em ambientes assépticos, para a suposta salvação da humanidade. Como comentei com mais calma aqui, há algo dessa busca de uma cura através do sexo (por práticas secretas de funcionárias do estado) no caso das virgens vestais da Grécia Antiga. No entanto, nada mais distante do potencial de Virgem para a cura e a fertilidade do que a violência de Estado travestida em um ritual sacro, seja na Grécia ou em Gilead.

Por fim, temos o déspota clássico, o Rei-Sol, o Rei-Leão. Aqui o que impressiona não são as variações modernas da tradição, mas a persistência de manifestações tradicionais em roupagens que são sempre as mesmas. Em Leão, idealmente, a autoconfiança e a autossuficiência geram a admiração pública, mas não têm esse objetivo, até porque a alma leonina se contenta com a contemplação do próprio aspecto régio, não precisa que ninguém o confirme, e por isso mesmo a audiência confirma: reconhece o Rei que merece esse nome. Porém poucos merecem, e é frequente que o caminho para a tirania esteja na própria insegurança do governante, que sente depender de sua imagem de invencibilidade, na qual não acredita de fato, de modo que não se permite nenhuma exposição de fraqueza. Assim ele vem a assumir as medidas mais autoritárias e desproporcionais – isto é, motivadas pela insegurança que não permite ameaça ao seu frágil reinado.

Em Édipo Rei, por exemplo – a tragédia clássica de Sófocles que também já traduzida como Édipo Tirano –, a confiança da população de Tebas é provisoriamente conquistada por Édipo quando ele chega à cidade e soluciona o enigma da esfinge. No entanto, num cenário de novas mazelas, e diante das más notícias e presságios que chegam ao castelo, Édipo se mostra irritadiço, melindroso, e não demora a repetir (para o cego Tirésias, para o cunhado Creonte, para os mensageiros) algumas variações das frases que caracterizam a figura do orgulhoso ditador no arquétipo de Leão. “Cortem-lhe a cabeça”, “expulse o forasteiro”, “destruam-se as provas”: o que importa aqui é menos o ato em si do que o que ele revela a respeito do governante. Ele revela basicamente que o governante está com medo. E um governante leonino pode ser uma beleza de exemplo e inspiração para os que o seguem; mas um governante leonino amedrontado (dá para ver isso inclusive em seus traços, em suas expressões) está a caminho de tornar-se um déspota.

Leão é também um dos signos que tem maior dificuldade em reconhecer a própria sombra. Talvez por isso Édipo só venha a compreender que é ele o assassino violento, o filho incestuoso e a raiz dos males de Tebas diante de um terrível impacto trágico. Toda tirania está sujeita a uma força ou outra que em última instância será o seu fim – nem que essa força seja outro regime despótico, que se coloque em seu lugar. A história da humanidade às vezes parece mesmo ser uma sucessão de tiranias que se distinguem só pelo tipo: há as capricornianas, as escorpiônicas, as virginianas, as leoninas. Mas é perfeitamente possível, pelo menos teoricamente, que cada um desses arquétipos nos ofereça o quem tem de melhor, inclusive no plano político. Como disse, mesmo seus piores gestos só se tornam possíveis por causa das virtudes que têm o potencial de manifestar.

Todos os signos

Como morrem os signos

O Sétimo Selo, dir. Ingmar Bergman (1957)

Áries morre no calor do combate. Nem chega a ver o rosto da morte. Não sofre por antecipação: o golpe é fatal, súbito e exato.

Touro vê a morte de longe, depois vê a morte chegando, e vai se aproximando dela, até que se encontram. Nada altera seu caminho.

Gêmeos pode até aceitar a morte, só queria ter uma conversa com ela antes: “Isso de morrer, precisa mesmo?”, “esse seu trabalho, é meio pesado né?”, “lá pra onde a gente vai, tem internet?”

Câncer odeia a morte. Queria que ela morresse. Mas ia ficar triste se morresse mesmo.

Leão desafia a morte. Não tem chance de vencê-la, mas faz parecer que tem. Sua morte é uma derrota, mas uma derrota trágica, bela e gloriosa.

A morte de Virgem é um rito. Ela é recebida em um lugar adequado e com os utensílios corretos. Até para morrer existe um jeito certo.

Libra também conversa com a morte, e começa tentando fazê-la mudar de ideia. Depois aceita que a morte é inevitável. Acaba concordando com ela em inúmeros outros assuntos também.

Escorpião morre várias vezes na vida. Tantas que faz amizade com a morte. É com carinho que a recebe na última visita. “Vem cá minha velha”, diz, cheio de intimidades.

Sagitário tem uma teoria a respeito da morte, e vai explicá-la para a morte quando a morte chegar. Vai ser a maior viagem, mas a morte vai achar interessante e vai ouvir até o fim.

Capricórnio respeita a morte, sabe que ela está aí há muito tempo. Morrer é uma coisa que todo mundo faz, não vai ser ele que vai inventar moda do contrário.

Aquário recebe a morte como um convite para entrar em um clube, tipo ingressar em uma associação: “Tô nessa, quero participar também”. Mas Aquário pode sentir exatamente o contrário, a morte como oportunidade de deixar de participar do clube dos vivos: “enfim”, diz, “tire-me daqui”.

Peixes se rende à morte como se rende ao sono, deixa que ela leve peça por peça, entrega os pontos. E, se tem alguém que consegue enganar a morte, esse alguém é Peixes, quando finge que está jogando para vencer, e na verdade não está nem prestando atenção no placar do jogo.