aquário, peixes

A hora da virada

Paisagem com queda de Ícaro (1560) | Pieter Brueghel

Lembro de quando vi o dia raiar pela primeira vez. Bom, talvez eu já tivesse visto antes, mas não com a mesma consciência e expectativa. Eu devia estar com cinco ou seis anos, havia chegado em casa de uma festa por volta das quatro da madrugada – era a primeira vez que ficava acordado até tão tarde –, e decidi que ia fazer um esforço para não dormir antes do sol nascer. O engraçado é que por algo motivo eu acreditava que isso acontecia de uma hora para a outra; tipo, que as luzes do céu literalmente se acendiam de repente. Aí fui para a janela, para ficar de tocaia, para estar lá no instante exato do súbito desanoitecimento. Calculei que seria às seis horas em ponto, mas podia ser antes, talvez às cinco e quarenta e cinco. Quando chegou a hora, foi decepcionante descobrir que o dia ficava claro mais ou menos do mesmo jeito que ficava escuro mesmo: aos poucos, e sem nenhum dramático instante de iluminação da abóbada celeste.

Essa recordação me voltou esses dias, ao ler sobre o suposto início da Era de Aquário. Digo “suposto” não porque questione o advento em si, mas sim a ideia de que possamos determinar onde ele começa. Pois, até onde entendo, a sucessão de era zodiacais acompanha a precessão dos equinócios, causada pela leve inclinação do eixo de rotação da Terra, que em cerca de 26.000 anos realiza uma volta completa, alterando a cada dois mil e tantos anos as constelações que acompanham os solstícios e equinócios, mas sem que exista uma definição clara sobre quando uma constelação substitui a outra no rodízio.

É verdade que as constelações já são desenhos que nós mesmos criamos, e que nada nos impediria de traçar seus limites no horizonte com a mais absoluta exatidão, assim como foi feito com as regiões celestes que determinam a passagem do Sol de um signo para o outro, durante seus ciclos anuais. Mas não consta que isso tenha sido feito, de modo que, no pé em que as coisas estão, o fim da Era de Peixes e o começo da Era da Aquário só podem ser compreendidos como um processo que leva muitos anos, talvez séculos, para se completar. Em tempo: a precessão dos equinócios acontece no sentido inverso do verificado nos movimentos do Sol e outros astros em torno da faixa zodiacal. Sendo assim, a Era de Aquário vem depois da Era de Peixes, que por sua vez sucedeu a Era de Áries, e por aí vai.

Por outro lado, não há dúvidas de que estamos num momento de passagem. Torna-se natural procurar o evento que vai significar o ponto de inflexão. Muita gente fez isso recentemente com a Grande Conjunção de Júpiter e Saturno em Aquário, sabendo que não se tratava do tiro de largada para novos tempos, mas prevendo que num futuro talvez não muito distante a veremos como a linha traçada entre uma época e outra. É uma aposta semelhante à de quem situa o início da Era de Aquário no ingresso de Plutão nesse signo em 2023/24, ou de quem mobiliza todo esse conjunto de trânsitos planetários para dizer que podemos até estar vivendo um lento amanhecer, porém mais cedo ou mais tarde as coisas vão clarear de vez. Nesse sentido, quem diria, os astrólogos se assemelham a Eric Hobsbawn, o historiador que dividiu os séculos em “eras” – das revoluções, dos impérios, dos extremos – sem respeitar as divisões cronológicas mais evidentes, mas se atendo a episódios significativos que marcam grandes mudanças conjunturais, para com eles estabelecer fortes marcos de periodização.

A diferença é que a astrologia nesse caso trabalha com milênios, o que torna tudo um pouco mais abstrato e um pouco mais divertido. Tem também o fato de que astrólogos, como são metidos a saber o futuro, estão inclinados a descobrir seus indícios no presente, desvendando pistas do porvir como quem desenterra ossos soterrados de civilizações antigas, numa espécie de arqueologia às avessas, cujas grandes descobertas são sementes e não ruínas. Em resumo, e para ser mais exato, a astrologia funciona em uma temporalidade diferente da concepção linear que desfia causas e efeitos de acontecimentos, e trata da sincronia entre movimentos da história humana e dos símbolos criados durante a própria história humana (pela consciência humana) para representar a si própria. Nesse sentido, ela implica uma correlação dinâmica e simpática de todas as coisas do cosmos, incluindo pessoas, épocas e constelações.

Voltando então à questão dos primórdios da era de Peixes. Faz sentido pensar que suas primeiras luzes tenham raiado ali por volta do século V a.c., quando coexistiram sobre a Terra, por um breve lapso de tempo, novas referências espirituais como o Buda, Lao-Tsé e Confúncio. Talvez Sócrates possa ser incluído no pacote. Pois em todos esses casos estamos tratando de mestres cujos ensinamentos se voltaram para a cura da alma humana e sua libertação do sofrimento aparentemente inescapável dessa vida, seja através do despertar (Buda), seja através da aquiescência com o curso natural das coisas (Lao-Tsé), seja através do respeito aos rituais sagrados que governam a sociedade (Confúncio, embora neste caso a ênfase esteja no rito e não no sacro, o que confere ao confucionismo um teor mais virginiano, formando um contrapeso oposto e complementar às imprecisões piscianas do taoísmo de Lao-Tsé).

Sócrates, nessa linha de raciocínio, estaria mais inclinado a performar aquele lado “só sei que nada sei” do arquétipo de Peixes, por vezes também manifestado com uma autêntica confusão mental, na linha do “gente me explica que que tá acontecendo” – mas que nunca deixa de nos fazer suspeitar a existência de uma enorme sabedoria por trás dessa afirmação de dúvida e desconhecimento. Ele tem também em comum com outros líderes espirituais o fato de não ter deixado uma obra escrita de próprio punho. Há quem afirme que isso se deve à máxima arquetipicamente pisciana de que o amor verdadeiro não deixa rastros; as más línguas vão dizer que está mais para falta de senso prático ou preguiça mesmo.

No entanto, ainda estava por acontecer o episódio que iria declarar oficialmente aberta a temporada do “ama a teu próximo como a ti mesmo, ainda eu isso às vezes te faças parecer meio trouxa”. Foi com o nascimento e a palavra de Cristo que a Era de Peixes deixou para trás os tempos da brutalidade ariana daquele Jeová impaciente que criou o mundo em seis dias e fustigou as criaturas que ousaram duvidar do seu poder. Agora, as coisas iam ser diferentes, anunciaram os cronistas mais crédulos: o amor incondicional do divino pela criatura humana estava garantido pela experiência da encarnação, e o sofrimento dilacerante nesse mundo teria como contrapeso a promessa de um retorno ao lar. Nesse aspecto, a Era de Peixes pode ser compreendida também como a Era das Grandes Ilusões, embora fique sempre a suspeita de que os verdadeiros iludidos somos nós, que dizemos encarar a realidade, enquanto Peixes parece de fato conhecer algo que está por trás ou além do real: é a própria realidade cruel do mundo que para Peixes não passa de um sonho.

De um jeito ou de outro, seria possível detectar indícios significativos do começo de uma era pisciana cerca de dois mil anos atrás. Isso retrospectivamente, é claro. Pois o que fiquei me perguntando esses dias foi até que ponto estes marcos temporais puderem ser percebidos na época como sinais da aurora novos tempos. É verdade que, no caso de Jesus Cristo, pelo menos doze indivíduos acreditaram de largada nos despropósitos que de repente ele disparou a dizer; e o que realmente impressiona nesse caso é a fama que eles adquiriram depois como pessoas muito lúcidas e respeitáveis, se você parar para pensar na desconfiada recepção que esses marginais receberam na época. Certo também que Buda arregimentou um séquito razoável ainda em vida, que Lao-Tsé não foi um completo desconhecido, e que Confúncio chegou a ter um cargo de ministro em um grande reino da região da China. Mas nenhum deles deixou de parecer um doido sectário aos olhos de vários de seus contemporâneos; por outro lado, a Damares Silva também tem um cargo de ministra na república que hoje se supõe ser o Brasil, e nem por isso tem gente dizendo que a Era de Aquário vai começar numa goiabeira.

Justiça seja feita, porém. Dois mil anos atrás, segundo a lenda pelo menos, foram três astrólogos persas que cruzaram meio mundo carregando uns presentinhos mirrados (mas cheios de carga simbólica) para o menino pobre que nasceu num presépio da Judeia, e que viria a ganhar celebridade mundial como o ser mais pisciano que já esteve entre nós. Eles podem muito bem ter sido guiados por um fenômeno semelhante ao que se verificou recentemente no céu, se estiver certa a associação da Estrela de Belém com a Grande Conjunção periódica de Júpiter e Saturno, que se repetiu em dezembro de 2020. Fica assim reforçada a hipótese de que a era aquariana está começando agora, ou está dando as caras definitivamente, assim como a de Peixes teria ganhado novo fôlego quando surgiu aquele peculiar objeto brilhando no céu da Antiguidade.

Vai saber. Todas as possibilidades estão em aberto. Esse é meu ponto. Mas, se a era de Aquário está mesmo começando agora, é possível que seus representantes estejam mais inclinados a dar um fim nessa história de ficar esperando o Reino dos Céus; talvez considerem o tal amor incondicional uma conversa mole para entorpecer as massas com esplêndidas e infundadas esperanças. Como Prometeu, esses novos arautos serão filhos rebeldes dos deuses, com um intelecto fortalecido e voltado para a emancipação humana, não criaturas dóceis de afetos delicados que vão se deixar abater por dúvidas e inseguranças sentimentais. Serão contra qualquer tipo de autoridade, e talvez já tenham feito dispersar mesmo os apóstolos que começaram a acreditar em tudo o que dizem como se fosse a revelação da palavra divina. Talvez nem sejam pessoas humanas, mas uma outra forma de inteligência, vinda de outra galáxia, fazendo-se passar por um de nós, pelo menos até a gente começar a acostumar com as ideias incomuns e dádivas extraordinárias que trouxeram para nós.

Em se tratando de Aquário, afinal, as maiores chances são de que algo muito diferente do que imaginamos venha um dia a ser identificado como esse evento transformador. Talvez não tenhamos condições agora de entender exatamente o quê, por mais que o fato esteja se passando ao nosso lado. Somos um pouco como o camponês em “Paisagem com Queda de Ícaro”, a pintura de Pieter Brueghel descrita em um poema de W. H. Auden. Reparem que, por mais que um episódio de ressonância mítica seja o tema da tela, ele segue seu trabalho de maneira impassível, assim como o “delicado barco de luxo que devia ter visto / algo surpreendente, um rapaz caindo do céu / precisava ir a alguma parte e continuou calmamente a velejar” (na tradução de José Paulo Paes).

Pois bem. Ícaros talvez estejam caindo do céu e mártires talvez estejam nascendo ao nosso redor nesse exato momento. Mas é bem possível que a gente na verdade precise ser um pouco mais como o camponês de Brueghel e o navio de Auden nesse momento. Forçar a vista em busca de evidência de que uma nova era ou mesmo um ano novo muito diferente anterior estão se aproximando pode nos deixar cegos para as necessidades mais imediatas do leme ou da lavoura. Não vamos mudar as estações de ano por decreto, elas tampouco se alternam de um dia para o outro, a não ser em nossos calendários e folhinhas que num só puxão fazem um dia substituir o outro. A essa altura, e gente aprendeu que não é assim que as coisas acontecem.

“Calma. Só aos poucos é que o escuro fica claro”, escreveu Guimarães Rosa. Também de Rosa: “Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo”. Vai ver que os milagres são tímidos, a ponto de se retraírem quando tentamos expô-los à força, ou quando ficamos tempo demais na moita encarando uma paisagem, à espera de surpreendê-los. Ainda assim, nada impede que sigamos observando o amanhecer pela janela, não com a expectativa de que ele vá acontecer de uma só vez e de repente, mas sabendo que ele não deixa de ser milagroso só porque acontece todos os dias, de um modo sempre meio casual e previsível. A próxima virada do ano tampouco trará esse momento de iluminação que tanto aguardamos, mas respire, mantenha a calma, continue tocando o barco, e perceba. Pode ser que já tenha uma luzinha aparecendo ali por trás da montanha. Daqui a pouco aparece outra. Um tom diferente de azul, pelo menos. Depois fica mais claro acolá. Sim, é assim que o dia amanhece.