capricórnio, câncer, peixes, virgem

Chantagistas do zodíaco

Há diversas formas de separar e classificar os signos – elementos, modalidades etc. – e uma delas é aquela que reúne Capricórnio, Peixes, Câncer e Virgem em um mesmo grupo, formado por um retângulo no zodíaco. Pode não ser fácil imaginar o que arquétipos tão diferentes têm em comum, mas por isso mesmo o exercício é atraente. Uma maneira de articulá-los é perceber como os temas da renúncia e do sacrifício se repetem em cada um deles, o que faz também com que surjam os temas da barganha e da chantagem.

Todos os arquétipos têm algo a nos oferecer, é claro. A questão com esses quatro é que sua própria identidade está vinculada a este oferecimento, pois o tipo de cuidado ou de trabalho que exercem é por natureza voltado para o benefício dos que estão ao redor. Em Câncer, por exemplo, o amor por tudo o que é próximo, a preservação do calor do lar, e a renovação de vínculos familiares ou comunitários, resultam sempre em garantias de pertencimento e segurança emocional para outros (e os demais arquétipos de fato se aproveitam disso enquanto estão preocupados com outras coisas). O problema é que não raramente Câncer apresenta a conta; e a chantagem emocional materna, em que são ressaltados o sacrifício e a renúncia em nome dos filhos e da família, aparece aí como a expressão mais estereotipada – mas nem por isso menos real – dessa dinâmica.

Em Capricórnio, algo semelhante acontece. A diferença é que Capricórnio não oferece carinho, mas trabalho, e não espera de volta afeto, mas respeito. Tudo bem com isso até certo ponto – vamos sempre nos beneficiar da responsabilidade e competência capricornianas –, mas, com frequência, em troca desse sacrifício, é exigida uma reverência que nunca chega em doses suficientes. Além de responsabilidade e competência, portanto, Capricórnio também acrescenta ao mundo bastante frustração e ressentimento por não ter seus esforços reconhecidos. Isso quando não parte para as formas mais abertas de autoritarismo, no lugar das manipulações emocionais cancerianas.

Em Virgem e Peixes isso se opera de maneira mais sutil, e por isso mesmo mais interessante. Virgem oferece ao mundo os serviços discretos e meticulosos que o mantém em funcionamento, e em troca requer distância. Assim, tudo aquilo que invade a pureza de seu espaço sagrado é visto como uma injusta intromissão – de um mundo impuro e imperfeito – na perfeição que a tanto custo alcança para si. Virgem sente que tem o direito de preservar esse distanciamento, pelo menos enquanto seu serviço estiver sendo executado com a habilidade e a devoção de sempre. E talvez até tenha, do ponto de vista de uma lógica compensatória, mas não é com essa lógica que o mundo funciona.

Em Peixes, afinal, se dá a barganha de maiores proporções: o sacrifício do ego e da individualidade em troca do amor e da aceitação incondicionais do cosmos. Isso vale tanto para o devoto ou monge que se retira do mundo para entregar-se a Deus, quanto para o indivíduo que evita toda forma de julgamento ou exigência, e em troca espera não ser julgado por nada nem exigido para coisa alguma. A famosa vitimização pisciana decorre muitas vezes desse tipo oculto de escambo, em que o paradoxo compensatório fica mais evidente, com o amor incondicional sendo oferecido com a condição de um retorno. Mas, como sabem bem muitos monges angustiados e alguns dos mais compulsivos devotos, Deus não cai nesse tipo de armadilha. Nós também não.

Ou seja, cada um desses arquétipos tem de fato muito a oferecer ao mundo – afeto, trabalho, responsabilidade, amor incondicional – mas cada um também está sujeito a distorções a partir de cálculos mais ou menos conscientes do que esperam receber em troca. O problema aí é que não temos notícia de um universo que funcione de acordo com esse toma-lá-dá-cá; as coisas nessa dimensão acontecem de formas muito mais interessantes e surpreendentes. A própria noção de carma, que em suas versões mais popularizadas atende a esse critério, não passa aí de jogo de soma zero no qual outras vidas trarão as recompensas aguardadas. Não sei se trarão, mas suspeito de que só o fato de serem ‘aguardadas’ seja um indício do contrário.

Parafraseando Kafka, há justiça nesse mundo, justiça infinita, justiça suficiente – mas não para nós. Ou pelo menos não uma justiça que sejamos capazes de compreender. Por outro lado, cada um de nós tem talentos e habilidades e virtudes cujo exercício podem nos fazer esquecer por alguns instantes o que o futuro nos trará ou deixará de trazer. É nesse momento, enquanto estamos desavisadamente, espontaneamente executando essas tarefas e manifestando essas qualidades, que recebemos em troca tudo o que precisamos. E aí sim: o universo agradece.

capricórnio

Capricórnio e a montanha

Sobre Capricórnio, tem uma história que eu ouvi muito tempo atrás e nunca me saiu da cabeça. Capricórnio é a cabra, né? Então. Dizem que, quando aconteceu o dilúvio, a cabra não teve que se juntar aos outros animais na arca, porque ela morava no alto da montanha, e lá as águas não iam chegar. O problema é que aí a cabra ficou sozinha, e para não ficar sozinha o tempo inteiro ela tem que vencer seu medo da água e aprender a nadar. Mas ela também não consegue ficar na arca no tempo inteiro – então precisa saber fazer o caminho de volta. Por isso o símbolo de Capricórnio é uma cabra-do-mar, uma cabra com rabo de peixe.

É curioso que um dos arquétipos mais voltados para assuntos práticos e mundanos do zodíaco tenha como representação essa incrível criatura híbrida. Até porque a dualidade não parece totalmente de acordo com a famosa consistência capricorniana. Mas temos, sim, nossas ambivalências, e mesmo quando somos consistentes isso se dá em uma dinâmica pendular. Talvez o mundo não perceba assim porque a cabra é mesmo capaz de ficar muito tempo fixada em um lugar só, e suas mudanças de comportamento se dão após longos processos de maturação e ponderação. Ela fica olhando para água por muito tempo antes do salto.

Só que, quando ela pula, ela pula mesmo. Por isso Capricórnio pode ser tão imprevisível aos olhos dos outros: quando decide algo, por mais que você não saiba, é porque tudo já foi ponderado em silêncio, todas as variáveis foram suficientemente analisadas, e de fato está tudo decidido. Não tem mais volta. Ou melhor, tem volta, mas demora: a cabra é também capaz de ficar um bom tempo na arca até perceber que está com saudade da montanha, que já devia ter voltado lá há séculos. E mesmo depois de perceber isso ela pode levar mais um século para efetivamente resolver retornar.

Estou relendo e revisando esse texto no final de 2020; o Sol acabou de entrar em Capricórnio, e percebo que esse ano muito mais gente teve que se isolar em suas respectivas montanhas, aprendendo a conviver mais com o silêncio e a solidão. Felizes daqueles que puderam fazer isso em boas acomodações, mas de um jeito ou de outro todas as criaturas do zodíaco precisaram lidar com esse condicionamento. Eu que já estou acostumados com esse tipo de relevo (sou mineiro e capricorniano) me solidarizo com todos os bichos que de repente precisaram se distanciar uns dos outros, e fico também na torcida para que em breve a gente possa ter a chance de se juntar novamente. Enquanto não é possível, espero que não se sintam sozinhos, e percebam que, de certa forma, ao optarmos pela distância, compartilhamos o isolamento. Existe aí uma escolha que nos une e nos aproxima, e, felizmente, temos hoje instrumentos de convívio que não existiam na época do dilúvio. Observem: eu pelo menos – daqui da minha colina – estou acenando para vocês.