capricórnio, gêmeos, peixes

O potencial, o real e o ideal

Lamentação de Cristo (c. 1305) | Giotto

Outro dia escrevi aqui sobre Gêmeos e Capricórnio, mas deixei passar um dos temas mais importantes dessa relação: a maneira como ambos personificam as figuras do puer e do senex, ou da Criança Divina e do Velho Sábio (prefiro os termos em latim porque não carregam uma conotação positiva ou negativa). Acho que o assunto tem a capacidade de mostrar como todos nós todos temos “Gêmeos” e “Capricórnio” operando em nossa dinâmica psíquica – em alguns casos mais acentuadamente, em outros menos –, o mesmo valendo para todos os outros arquétipos do zodíaco, de modo que a interação e as negociações entre eles é que configuram de fato um mapa astral.

Por outro lado, o puer e o senex são figuras arquetípicas da psicologia analítica junguiana cuja associação com apenas um signo ou par de signos seria equivocada: há traços da criança que encontramos em Leão, por exemplo, assim como há traços do velho que podemos encontrar em Aquário. Por aí vai. E, assim como ambos podem funcionar como polaridades nos conflitos de uma mesma pessoa, eles podem funcionar como polaridades nos conflitos internos de um só signo, pela maneira como um muitas vezes presume e implica o outro. Mais à frente veremos como isso funciona em Peixes, signo no qual a criança e o velho coexistem em uma unidade problemática e rica em imagens significativas.

Voltando a Gêmeos, porém. Aqui o puer aparece em sua versão 1.0: é Hermes, ou Mercúrio, filho de Zeus, irmão mais novo de Apolo, em quem ele pregou uma peça pouco depois de nascer. Isso nos faz lembrar que existe algo de malandro e travesso na “criança divina”, mas também que existe algo de divino na malandragem geminiana. E isso é algo que a gente pode facilmente deixar passar nas descrições mais caricatas ou maliciosas de Gêmeos, um signo que, por sua própria natureza, convida a esse tipo de descrição. Fica o registro, portanto: haverá sempre algo em Gêmeos que partilha do código genético dos deuses – e haverá sempre algo nos deuses que parece proteger a alma geminiana.

Em um plano arquetípico, aliás, entendo que Gêmeos pode fazer o que quiser a vida. Veio ao mundo para brincar nos campos do Senhor, em parte por contar com a condescendência dos velhos, em parte por saber entretê-los e encantá-los (o que o aproxima do pícaro, do bufão, do bobo, do comediante). Isso é até certo ponto válido para quem tem o ascendente em Gêmeos, e algo semelhante pode ser dito do ascendente em Leão (mais informações sobre essa interpretação do papel do ascendente no horóscopo, aqui). Agora, se você é geminiano, ou tem a Lua em Gêmeos, pode ir tirando seu cavalinho da chuva, porque isso já complica um pouco mais as coisas.

A puerilidade geminiana pode até ser divina, mas nem mesmo o deus Hermes esteve à salvo de tomar uns tombos na vida. Muitas vezes, para grande surpresa dele próprio. O puer tem o impulso de transitar por aí como se fosse destinado a ser bem recebido em todos os lugares – afinal, ele é tão inocente, tão despreocupado, tão engenhoso, tão engraçadinho – até se ver diante de uma porta que bate na sua cara como se dissesse: te saquei, malandro, aqui não. Deste modo, seja sob a forma de pessoas, acontecimentos ou obstáculos, o senex vai aparecer ao puer como uma força restritiva ou limitadora, da qual ele depende para conferir as virtudes da consistência e da profundidade aos resultados de seus diversos talentos.

Então, quando digo que o puer-senex é um par que existe como tal em nossa dinâmica psíquica, é porque um depende do outro para se desenvolver. Mas nada impede que um indivíduo se identifique com o puer e projete o senex em um mundo que lhe parece limitador e restritivo, ou em figuras de autoridade que considera moralistas e enrijecidas, na tentativa de preservar um estado de eterna inocência infantil, e de preservar-se das frustrações da vida. A gente vê o tempo inteiro pessoas alegando que, se não fossem as estruturas externas limitadoras, elas teriam realizado as obras geniais que existem em latência no seu espírito. O que muitas vezes está implicado aí é que essas pessoas optaram por não internalizar a estrutura restritiva – o senex, agente do esforço, da paciência e da forma, fundamental na realização de qualquer trabalho de fôlego – de modo a não ver seus ideais reduzidos ao que a realidade seria capaz de fazer deles.

Quem já se arriscou em um trabalho criativo sabe: todo tipo de realização artística implica uma dose de resignação. O senex em nós existe para que este processo seja levado até o fim. O puer existe em nós existe para que ele comece. Por outro lado, há quem se identifique unilateralmente com a figura do senex, e alega que, se não fossem os irresponsáveis, os inconsequentes, os preguiçosos – em uma palavra, os “artistas” –, nossa sociedade estaria em um estado menos deplorável. Em toda pessoa que afirma isso, existe um puer reprimido, que quer ganhar asas e voar, ou simplesmente permitir-se algumas tardes de ócio criativo. Mas, infelizmente, o ódio destrutivo se torna o substrato alquímico de quem nega a si mesmo esses prazeres.

Ou seja, um se compromete com uma linha de ação, e não vai alterá-la nem sob a mais forte inspiração divina. Outro não se compromete com nada nem ninguém, pois nada nem ninguém parece merecer o compromisso que ele guarda para quando a hora certa chegar. No campo dos relacionamentos, então, o puer estará sempre postergando a consagração de laços estáveis, quando não está simplesmente saltando de um relacionamento para o outro, e não só por imaturidade. Às vezes, ele carrega o sentimento de estar destinado a algo especial, e o rompimento precoce das relações é uma forma de evitar que se desdobrem da maneira ordinária e tão ameaçadora para o ideal.

Quanto ao padrão de comportamento do senex nessa área, vou precisar de fazer ainda um texto à parte com um estudo de caso, o do escritor russo e aquariano Anton Tchekhov, que só descobriu o puer que existia nele após seu retorno de Saturno, aos trinta anos. A história é intrincada e merece ser bem descrita. Farei isso em breve. Dá para antecipar que, enquanto a volatilidade é o traço mais marcante do puer enquanto amante, o senex ocupa com sua rigidez um polo oposto, fixo e encastelado. “Encastelada”, porém, é, curiosamente, a situação arquetípica em que encontramos a puella, a versão feminina do puer.

Ela é a princesa que, nos contos de fadas, encontra-se à espera de um milagre. Mas o comportamento ativo e volátil do puer mercurial e a atitude aparentemente passiva e fixa da puella sonhadora são iguais em sua rejeição do compromisso e do engajamento em uma história verdadeira. A propósito: que a puella se queixe da falta de seriedade ou bravura de seus pretendentes pode muito bem ser o motivo pelo qual ela escolhe pretendentes pouco sérios, ou pouco corajosos, para ter de quem se queixar. Até certo ponto, o puer e a puella vivem muito bem e despreocupadamente no plano das potencialidades abertas e imaginadas. Na medida em que o tempo passa, porém, eles podem precisar mais e mais de ter a quem culpar pelo fato de nada ter sido realizado.

Aliás, uma boa maneira de identificarmos uma possível adesão unilateral nossa a um desses arquétipos é um excesso de reclamações gratuitas a respeito do outro. Quando a gente começa a distribuir sem critério lamentos e acusações sobre a natureza pueril ou inconsequente de pessoas com quem nos relacionamos, no presente ou no passado (pessoas que talvez até possuam essas características, mas não a ponto de merecer tanto de nossas atenções e memória), é provável que exista algo em nós precisando de descanso, liberdade e ânimo criativo. Por outro lado, quando a gente começa a denunciar o moralismo ou o materialismo do resto mundo ao redor, sem que ninguém tenha pedido nossa opinião, é possível que nossa opinião esteja enviesada pelo desejo inconsciente de receber um pouco de admiração e de respeito bem mundanos (ou seja, a admiração e o respeito que as realizações mundanas outorgam ao senex).

Podemos ter uma afinidade maior com um desses arquétipos sem converter isso em uma neurose mais grave, é claro. Assim como podemos alternar entre um e outro no tempo e no espaço. Um equilíbrio absoluto entre esse tipo de polaridades é por definição impossível – tudo o que podemos tentar obter é uma espécie de equilíbrio dinâmico. Nem por isso análises pouco equilibradas do fenômeno são menos enriquecedoras, e as mais famosas se notabilizaram exatamente por tomarem partido de um ou de outro.

Recomendo, em primeiro lugar, um estudo que é notavelmente anti-puer, não necessariamente tomando o partido do senex, mas vendo-o da perspectiva do arquétipo materno feminino (que seria em parte responsável pelo menino mimado que ele se tornou, mas também capaz de lhe impor limites de uma origem mais atávica e profunda). Falo do livro de Marie-Louise Von Fraz, Puer Aeternus: a luta do adulto contra o paraíso da infância, que começa por uma análise da dimensão pueril de O Pequeno Príncipe e da personalidade de seu autor, Antoine de Saint-Exupéry. A autora, cabe lembrar, foi colaboradora de Carl Jung, e se tornou conhecida por suas análises da psicologia dos contos de fadas.

Outro livro importante, este mais abertamente favorável aos talentos e inspirações do puer (justamente no confronto com as limitações e rabugices do senex) é The Puer Papers, de James Hillman. E, para quem quiser ter uma visão mais ironicamente balanceada, indico o último ensaio de Liz Greene do primeiro volume dos Seminars on Psychological Astrology, que que já mencionei nas indicações bibliográficas dessa postagem aqui. Este tem a vantagem de ver o assunto na perspectiva da astrologia e do zodíaco. Mas a primeira parte do ensaio não presume nenhum conhecimento prévio nessa área, e pode ser útil mesmo para quem quiser ver as coisas de um ponto de vista estritamente psicológico.

Agora, para terminar, temos o puer e o senex em Peixes, como mencionei lá no começo. E aqui as coisas ficam bem interessantes. Porque, por mais que a gente queira matizar os raciocínios e os estereótipos, dá para ver como Gêmeos e Capricórnio costumam representar bem os comportamentos polarizados do puer e do senex, respectivamente. Quando falamos de Peixes, no entanto, a infantilidade e a senioridade coexistem no arquétipo de modo mais intrincado e sutil; em Peixes habitam uma criança e um ancião que são uma mesma pessoa, e isso gera alguma confusão, como era de se esperar, mas pode também criar uma nova espécie de beleza, através justamente do resultado do confronto entre o potencial e o real. Dá para a gente ver isso no comportamento de alguns piscianos. Mas, antes, para termos um caminho para a aproximação a esse fenômeno, dá também para gente ver como isso aparece na história de Jesus Cristo.

Pois Cristo, além de ser um inaugurador apropriado da Era de Peixes que se encerra agora, integrou também a linhagem da criança divina. Aliás, Liz Greene observa como o puer arquetípico muitas vezes aparece com as mãos ou os membros machucados ou mutilados, o que parece ser uma consequência de seu contato com o mundo, com a matéria, com a realidade. Um primeiro exemplo é Ícaro, herói tipicamente juvenil, que recebeu suas asas de Dédalo, sob advertências para que não se deixasse levar pelo entusiasmo, sendo que nem isso impediu que ele as queimasse ao ir de encontro ao sol. Jesus, por sua vez, partilha desse destino de um modo ao mesmo tempo mais trágico e menos catastrófico: sua derrocada no plano terreno é um fracasso que não deixa nunca de prometer futuros sucessos.

Notem: a humanidade a princípio não recebe muito bem sua palavra, com seus ideais elevados e pouco práticos, meio piscianos mesmo, e pelo menos parte dela, a que se encontra em posições de autoridade estabelecidas e imperiais, se mostra bem convicta de que cravá-lo em uma cruz e expor sua corporeidade humana sangrando é a melhor coisa a fazer. Dostoievski explorou esse argumento em “O Grande Inquisidor”, um conto enxertado no romance Os Irmãos Karamazov, que pode ser lido separadamente; nele, Cristo retorna e é mais uma vez crucificado por ordem de um senex da igreja inquisitorial que está plenamente consciente de sua filiação.

Mas, por mais doloroso que seja seu fim, ele depende dessa morte para permanecer como uma espécie de ideia, fomentando o sonho de que um dia o reino que prometeu chegará, será realizado, está por vir. Existe então certa cumplicidade entre a dimensão espiritual, a que se eleva para além do raso das ambições terrenas, e a material, que a traz para o chão de modo que possa alçar outro tipo de voo. O mito não diz respeito apenas ao personagem, mas está inevitavelmente ligado à sua história, a tal ponto que suas escolhas e o que lhe é imposto desde fora se entrelaçam e se confundem. Em um certo sentido, Cristo se oferece em sacrifício no plano material para manter vivo o sonho do que prometeu.

Nesse sentido, para quem já chegou aos 40, como eu, é interessante perceber que Jesus Cristo nunca chegou a ser exatamente um adulto. Ele mal superou seu retorno de Saturno e já foi correndo caçar encrenca que interromperia sua vida pouco depois. Carregou sua cruz, é verdade, mas só por um caminho bem curtinho; esse caminho pode muito bem ser sum símbolo do que todos nós temos que suportar em nossas trajetórias individuais, mas não deixa de ter sido para ele relativamente breve, levando-o a uma morte precoce. Ou seja, o Jesus histórico nunca deixou de ser um puer. Mas o Jesus simbólico é também a cruz, a matéria, e realidade que o nega e o rechaça, e, portanto, é a promessa que ainda assim sobrevive à crucificação, é o reino impalpável e imune a qualquer teste do real que nasce junto com ela.

Por isso, o tipo de sonho e de idealismo que encontramos em Peixes pode ser tão resistente à realidade dos fatos. Porque não aponta para algo que se imagine realizável nesse mundo, não se trata de um potencial a ser testado aqui. Muito pelo contrário: esse mundo pode refutar a aspiração pisciana de todos os modos possíveis, pode até mesmo pregá-la numa cruz e fazê-la sofrer humilhações e derrotas, que ainda assim ela sobreviverá, será inclusive alimentada pela frustração e pela violência. É claro que isso pode ter consequências complicadas no plano individual, e com frequência tem. Mas nem por isso deixo de ver no plano arquetípico uma bem-vinda síntese, ainda que aberta para o futuro e para o porvir, na história dos confrontos e dos encontros entre puer e senex.

capricórnio, gêmeos

Te amo, Gêmeos!

Quase Famosos (2000) | Dir. Cameron Crowe

Amo zoeira com signos, e amo mais ainda quando meus amigos se lembram de mim por causa de uma zoeira. Aí esses dias um deles me marcou em um tuíte que diz assim: “A quarentena está fazendo até capricorniano se declarar, aquariano responder na hora, sagitariano querer namorar, taurino admitir que errou e virginiano admitir que ama alguém. Geminiano não muda nada continua cada vez pior”. De acordo, em parte: sinto que sobretudo que no começo o texto está muito certo. Já mais para o final não concordo tanto. Acho que dá para resumir esses dois sentimentos na seguinte frase: amo Gêmeos e vou defendê-lo até o fim.

Aproveitem, não é sempre que capricorniano sai por aí fazendo esse tipo de declaração. Aliás esse clima de pandemia apocalíptica lembra uma cena do filme Quase Famosos, sobre uma banda de rock que chega a fazer algum sucesso e logo entra em decadência. Tem uma hora em que pela primeira vez eles usam um jatinho em uma turnê, só que no meio da viagem o jatinho começa a cair, e parece não haver esperança alguma de evitar o desastre. Nisso os integrantes da banda começam a fazer declarações e confissões uns aos outros no meio da tremedeira da queda. O avião não cai, o piloto consegue salvá-los, e eles andando na pista do aeroporto depois – aquelas caras de “nunca mais ninguém fala do assunto” – é uma das cenas mais constrangedoramente engraçadas que há.

Dá para supor que existem capricornianos e geminianos entre eles. Por motivos diferentes, esses dois estão entre os mais sujeitos a fazer desabafos ou confidências em circunstâncias extraordinárias. Exatamente porque não fazem em circunstâncias normais. É claro que Gêmeos às vezes fala tanto ou manda tanta mensagem e figurinha que uma coisa ou outra acaba passando, porém a comunicação geminiana pode muito bem existir sem qualquer referência a sentimentos, ainda mais sentimentos profundos. Já Capricórnio é pura profundidade, e não deixa nada transparecer na superfície: guarda suas cartas bem próximas ao peito, mantém o semblante impassível, e é bem capaz de só mostrá-las se o mundo estiver acabando mesmo.

Vale a pena ver como ambos se posicionam ao redor da mesa do zodíaco. Gêmeos e Capricórnio relacionam-se em um ângulo de 150 graus, ou seja, um aspecto inconjunto, que forma um quíncuce. Esses são os termos técnicos, mas acho que são um pouco mais do que isso: por mais que o jargão astrológico já seja usualmente esquisito com suas quadraturas e declinações, essas palavras “inconjunto” e “quíncuce” têm para mim um sabor a mais de desengonçada estranheza, que não deixa de estar relacionado ao que simbolizam.

Gosto de escrever sobre arquétipos que estão posicionados nesse aspecto (como já escrevi sobre Câncer e Aquário, por exemplo, nesse post aqui) porque a princípio a relação entre eles não é exatamente harmônica nem conflituosa, mas sim desajeitada, tropeçante, cega. É como se fossem duas pessoas que nem se conhecem o suficiente para ter grandes simpatias ou antipatias entre si, e então precisam antes de tudo reconhecer a existência uma da outra, para a partir daí descobrirem formas de interação e convivência.  

Signos que se relacionam por meio desse aspecto podem se encaixar muito bem, desde que se parta do princípio do desencaixe. Estamos tratando de pessoas que a princípio não sabem nem como se cumprimentar direito, mas que com tempo ou com sorte podem encontrar interessantes pontos de contato entre si. Estes, uma vez identificados, podem ser revelar tão certeiros quanto aquela pecinha do jogo de lego que existe só para uma determinada função, em um determinado tipo de brinquedo. Ou, mais exatamente, são como aqueles brilhantes improvisos que permitem a conexão entre as mais diferentes partes de um objeto ou conjunto de objetos. Leia-se gambiarra.

Gêmeos adora uma gambiarra, sobretudo uma gambiarra comunicativa. Já Capricórnio rejeita as soluções fáceis e provisórias. A relação gambiarrada entre eles deve, portanto, contar com a capacidade geminiana de adaptação e mutabilidade. No entanto, ao invés de dizer simplesmente que Gêmeos se adapta às estruturas e rigores capricornianos, podemos inferir que Capricórnio abre uma brecha em seu sistema diante de Gêmeos, nem que para isso ele precise cair numa espécie de armadilha forjada pela astúcia geminiana. Uma astúcia que, por outro lado, pode ter que se reinventar e elaborar sempre novos recursos e artimanhas diante das reservas e resistências de Capricórnio.  

Permitam-me uma digressão narrativa a esse respeito. Lembrei aqui que um tempo atrás vi Capricórnio entrevistando Gêmeos em uma edição do Actor’s Studio. Bom, não sei quais eram os signos do entrevistador e do entrevistado, mas arquetipicamente acho que era isso que estava acontecendo. O barbudinho que guiava o programa tinha até um pouco de cara de bode, além de ser responsável, consistente, dedicado à formação profissional dos jovens atores e atrizes. O convidado era um ator de comédias (não lembro exatamente qual; talvez o Steve Martin; em todo caso o ator cômico é uma figura arquetipicamente geminiana).

Aí lá pelas tantas o entrevistador citava uma antiga declaração de seu convidado, em outra entrevista, na qual ele dizia ser “uma pessoa superficial”. Capricórnio em seguida perguntava a Gêmeos, de maneira perspicaz e sóbria, em um tom ao mesmo tempo elogioso e crítico da falsa modéstia do ator: “Você disse isso mesmo? Você se considera superficial?”. O ator respondia que sim, que tinha dito aquilo. O entrevistador, porém, prosseguia, tenaz e insatisfeito com a resposta: “Mas você não acredita mesmo nisso, acredita?”. O ator: “Sim, claro, é isso mesmo, eu sou superficial.”

O entrevistador, começando a ficar meio perdido, talvez preocupado com o exemplo dado aos jovens: “Mas você se formou em Harvard…” O ator fazia uma cara de “sim e daí?” Nesse ponto, as coisas ficavam realmente desajeitadas, embaraçosas, porque o entrevistador não sabia como continuar abordando o assunto, nem conseguia mudar de tema. O ator então tomava a palavra de maneira mais generosa, passando por um momento a falar de forma mais didática, para se explicar melhor, parecendo disposto a eliminar possíveis mal-entendidos:

“Olha, eu disse isso, mas não é porque eu considere que outras pessoas são mais profundas, que eu seja mais vulgar ou banal que os outros. O que eu acho é que o ser humano é uma criatura meio superficial mesmo. A gente pode filosofar o tanto que der para filosofar, inventar a metafísica que a gente quiser inventar, mas no final das contas a gente nunca deixa de ser essas criaturas meio tontas que não sabem nem como vestir uma camisa sem se atrapalhar com os botões”. O entrevistador, aliviado por ter recebido uma resposta mais significativa: “É, vendo nessa perspectiva eu sou superficial também.”. O ator, retomando certo ar de malícia: “Sim! Claro que é”.

Ponto para Gêmeos. Mas, como disse, a relação entre eles não é de oposição ou mesmo de complementaridade, o que permite que eles comentem desvios um do outro de maneira despretensiosa e por isso mesmo mais efetiva. Então, por outro lado, Capricórnio pode ter alguma coisa a dizer a Gêmeos sobre o valor da verdade, por exemplo (geminianos se permitem uma grande margem de manobra nesse assunto). Mas não vai fazê-lo através do confronto aberto e do discurso pedagógico (Gêmeos é imune ao discurso pedagógico). Capricórnio vai dar o exemplo em silêncio e como quem não quer nada. Como ele de fato não quer nada – Capricórnio não inclui entre suas muitas obrigações neste mundo a de corrigir a conduta de Gêmeos –, acaba conseguindo mais efeito do que de outro modo. “Eu faço desse jeito, você faça do jeito que quiser”, é a mensagem que Capricórnio transmite a Gêmeos. Às vezes funciona.  

Agora, voltando ao tema a superficialidade. É sobre ele principalmente que eu queria falar, pois acho que pode ser útil agora nesse período que estamos vivendo. Porque implica a noção de impermanência, uma característica que normalmente a gente vê nas descrições estereotipadas de Gêmeos como um signo que carece de foco e de substância. Porém, no contraste com as exigências de constância e consistência autoimpostas por Capricórnio, esse traço de personalidade pode ganhar outro destaque, na medida em que permite uma livre alternância de humores e pensamentos, sem apego a uma estrutura de fundo que os reúna em uma totalidade ou em uma narrativa coerente. Gêmeos sabe que o que a gente sente hoje não tem necessariamente nada a ver com o que a gente vai sentir amanhã. Acho que esse é um dado importante de termos em mente durante esse momento de quarentena.

Pois uma coisa que a gente percebe com clareza quando acompanha as próprias alterações de humor em sincronia com trânsitos planetários é que o ânimo da gente muda fácil sem que mudem muito as circunstâncias imediatas. Ou seja, que somos todos meio geminianos. Em dias ou horas a gente vai da alegria ao desânimo e à tranquilidade e ao desespero sem ter muitos motivos concretos para isso. Pense em quantas vezes você saiu de um estado de prostração ou cansaço de repente com um impulso de entusiasmo sem nem entender o porquê. E vice-versa. De modo que, mesmo durante um confinamento em que nada de muito diferente aconteça de um dia para o outro, haverá dias mais difíceis e dias mais fáceis; não se trata de uma longa jornada linear rumo ao fundo do poço. Se hoje está complicado não quer dizer que amanhã estará também.

E essa é uma lição geminiana, mercurial, embora a gente tenha o hábito de considerar Júpiter, Saturno e Quíron como os grandes mestres na astrologia. Ela me lembra uns versos de Leonard Cohen em That Don’t Make it Junk (poucas coisas não me lembram uns versos de Leonard Cohen): “I know that I’m forgiven / but I don´t know how I know / I don´t trust my inner feelings / Inner feelings come and go”. Essa é aliás uma das faixas mais cômicas do compositor canadense, e esse “eu sei que estou perdoado” já é geminiano o suficiente para fazer valer a citação. Mas o que vem na sequência, essa ideia de que nossos sentimentos mais íntimos podem não ser confiáveis, porque estão igualmente sujeitos a fluxos e refluxos que a gente não entende nem controla – isso já vale por todo um tratado sobre Gêmeos, e sobre o que Gêmeos tem a ensinar para o mundo.  

Sim, eu sei, eu sei: não devia estar aqui dando argumento atrás de argumento para que os geminianos sejam assim tão… geminianos. Mas avisei que esse texto ia ser uma declaração de amor, e numa declaração de amor não dá para esperar que a pessoa fique fazendo críticas e ressalvas à conduta do ser amado (ainda que o ser amado mereça, isto é, ainda que o ser amado seja… geminiano). Mas, enfim, tive um filho geminiano no ano passado, e considero-me perdoado de antemão por agora achar esse signo o mais belo e justo e resplandecente e repleto de arte e poesia e urbanismo de todos os signos (junto com Capricórnio, que afinal é o signo do meu outro filho). Aliás outro dia eu literalmente encontrei uma forma de me declarar para o Gabriel depois de ouvir Piazza, New York Catcher, uma canção do Belle and Sebastian que em determinado momento diz assim: “I love you, I have a drowning grip on your adoring face / I love you, my responsability has found a place”.

Essa ideia da responsabilidade disponível que encontra um lugar no mundo no rosto cativante de outra criatura – ah, isso só pode ser a história de um pai capricorniano que tem um filho de Gêmeos. Mas é um pouco também a do irmão mais velho de Capricórnio que tem um irmão mais novo de geminiano – aliás o “irmão mais novo” é um personagem do arquétipo de Gêmeos, pois essa era uma condição muito singular de Hermes na mitologia. Como se não bastasse, meu filho que tem o Sol em Gêmeos tem a Lua em Capricórnio, o que tem a Lua em Capricórnio tem o Ascendente em Gêmeos, e eu tenho a Lua em Gêmeos e o Sol em Capricórnio. Esses dois signos estão no DNA astrológico da família e a gente parece ter sido de algum modo escolhido para tentar encontrar maneiras de fazer Gêmeos e Capricórnio conviverem e se gostarem.

Tenho muitos amigos geminianos também (escrevi mais especificamente sobre o arquétipo do amigo geminiano aqui). Agora, o amigo que me marcou no tuíte que citei lá no começo, ele é de Câncer. Ele se chama Gabriel também e no ano passado eu tinha dito a ele que provavelmente teria um filho com o mesmo nome e o mesmo signo dele. Acabou que o meu Gabriel nasceu um pouco antes, como vocês a essa altura já sabem. Aí já acho que não foi à toa que o Gabriel canceriano me marcou naquela postagem dizendo que Gêmeos não tem jeito é o pior signo e só tá piorando etc.. Canceriano é difícil, né? Fica magoado fácil, acho que até hoje ele ainda não aceitou muito bem, então entrou nessa de disseminar zoeira com os geminianos.

Pois então, Gabriel, aproveite que o amor de Capricórnio está em liquidação e a gente anda distribuindo afagos por aí como se fosse nosso último dia sobre a Terra. Te amo também, querido. Beijos de luz. Mas vamos parar de espalhar fake news sobre o signo do seu xará, pode ser? Se não eu vou ter que ficar te respondendo cada tuíte e cada postagem. Aliás por via das dúvidas vou lançar de uma vez a campanha Eu Defendo os Geminianos. Quem vai comigo? Eu ouvi um amém? Hashtag #somostodessuperficiais.

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O lugar bom

Essa postagem é para quem assistiu ou está assistindo The Good Place, a série da NBC que estreou em 2016 e terminou em 2020 (tem na Netflix). Vi o último episódio esses dias, e série tem esse negócio de a gente ficar com saudade dos personagens. Então – prometo não estragar o final para ninguém, pelo menos não para quem já passou da primeira temporada – me deu vontade de explorar um pouco mais a brincadeira dos signos com eles. A propósito, já mencionei o Michael (Ted Danson) em um texto sobre Capricórnio, e indiquei a Eleonor (Kristen Bell) para o Oscar do zodíaco que propus uma vez aqui, na categoria Personagem de Áries. A essa altura, estou convencido de que ela merece o prêmio.

Isso porque ela é uma ariana que vai ficando mais suave no decorrer da série, menos tensionada no confronto com o mundo, e, por mais que esse seja um caminho esperado em uma narrativa cômica convencional, ela nos convence de que isso é possível. Não é só porque aprende a falar palavrões com certa civilidade (tipo “holy fork!”, eventualmente traduzido por “fruta que caiu!”); ela faz com que seja verossímil uma heroína de Áries do bem, na medida do possível, é claro. De todas as transformações que vemos no decorrer das temporadas, para mim a dela é a mais notável. Não quer dizer que fique menos ariana, pois conheço muita gente desse signo que já parte desse lugar em que o restante da humanidade não é visto apenas como uma ameaça, e sabe que dá até para conviver com gente, às vezes até gosta. Em se tratando de Áries, já é bastante coisa.

Chidi (William Harper), por sua vez, é o clássico libriano que precisa aprender a tomar decisões. Não por acaso é o par oposto-complementar de Eleonor. Mas acho interessante que seja um filósofo. É comum as pessoas acharem Libra um signo romântico, mas a gente sabe como eles conseguem ser incrivelmente frios e cerebrais. Falta-lhes o fogo das paixões leoninas, o poço dos sentimentos escorpiônicos, a sensibilidade ao ambiente de Touro ou Virgem. É lógico que nessa perspectiva falta um traço de Libra também todos os outros arquétipos, e falta mesmo. Sobretudo quando a gente conhece um libriano que, não obstante sua librianice, e inclusive por causa dela, sabe decidir que sobremesa escolher depois de colocar todas as opções na balança.

Jason Mendoza (Manny Jacinto) é um caso singular. Peixes, sem dúvida. O interessante é que ele é pisciano tanto em sua versão de mentirinha quanto depois que ficamos sabendo quem ele realmente é após os episódios iniciais da série. Nesse caso acho que não conta como spoiler porque a coisa se revela logo ali no segundo ou terceiro capítulo: ele passa de um monge tibetano de olhos puxados que vive à base de meditação e água fresca para um morador da Flórida de origem filipina de olhos puxados que vive à base de todo tipo de porcaria e pequenos roubos de gasolina. Embora o monge seja um personagem típico do arquétipo de Peixes, a versão verdadeira de Jason é até mais pisciana que a outra.

O legal é que ele não deixa nunca de ser um personagem ingênuo e encantador. Avoado, iludido, totalmente incapaz para os assuntos práticos da vida, mas nunca menos “espiritualizado” que sua versão monástica, mesmo quando se lembra do dia que passou atirando em ratos no lixão de Jacksonville com um primo de Blake Bortles. Porque ele espera ser aceito pelo mundo da mesma maneira como o aceita, e representa o papel do bobo em tudo o que tem de plena receptividade e espelhamento do mundo ao redor. Além de ser engraçado, é claro. Tem uma cena, por exemplo, em que está todo mundo dando opinião ao mesmo tempo sobre algum problema, aí ele entra e dispara a falar um monte de coisas nada a ver. Quando perguntam o que deu nele, responde: “Sei lá, estava todo mundo falando junto achei que era para eu falar também”. Tipicamente pisciano.

Quanto à Tahani (Jameela Jamil), aí já fico na dúvida. Ela tem a rivalidade geminiana pela atenção dos pais com a irmã, mas não tem agilidade de raciocínio de Gêmeos; participa do encanto leonino com o universo das celebridades, mas falta-lhe magnetismo e confiança para ser ela própria uma Leoa. No final das contas, fico achando que é de um signo de Terra. Mas nesse caso estou disposto a aceitar ajuda, então se alguém aí tiver um opinião a respeito pode falar. Vejam só que coisa bizarra estou me tornando: uma capricorniano que admite que não sabe uma coisa e até pede conselho pros outros. Tipo o Michael.

Voltando então rapidamente ao Michael: o engraçado é que, além de ser uma figura evidentemente capricorniana em sua função de gerenciar a coisa toda e saber tudo a respeito de tudo, ele a princípio tem ainda aquele traço de Capricórnio que não aceita a necessidade de ajuda. Precisa estar sempre no controle, sem precisar nem do palpite de mais ninguém. É lógico que isso já vai mudando a partir da segunda temporada, vai ficando mais claro como na verdade tudo o que ele precisa (e no fundo quer) é assumir a forma falível e imperfeita dos humanos. É muito exaustivo isso de se responsabilizar pelo universo o tempo inteiro. Algo semelhante poderia ser dito de muitos capricornianos. 

E tem a Janet (D’Arcy Carden), é claro. A Janet é um caso à parte. Aí eu perguntei pro pessoal da internet qual é o signo da Janet, e a resposta que mais me apareceu foi Virgem. Eu respeito essa posição e até entendo. Ela tem um gestual contido e um jeito de se vestir que são bem virginianos. Ela presta um serviço inestimável, aparece sempre que alguém precisa de alguma coisa, é uma funcionária exemplar do cosmos e e nem humana ela é. Pra muita gente, isso é mais que suficiente para cravar: virginiana.

Mas eu sou Capricórnio com ascendente em Escorpião, então quando peço conselho ou palpite pros outros vocês podem suspeitar que é só jogo de cena. Já formei minha opinião há tempos e nada me fará arredar dela. Acho que os gestos controlados e aparentemente metódicos da Janet têm mais a ver com fato de que ela não tem muita familiaridade com a forma humana que assumiu. Aí vocês precisam que considerar que, quando a gente fala que Virgem não é muito humano, isso é mais num nível metafórico; é lógico que não é literal. Tem só um signo que corresponde a essa característica sem precisar de licença poética. Tem só um signo de gente que veio de outras galáxias e está ainda se acostumando a viver entre nós.

Pois então: Aquário. Em primeiro lugar, exatamente por isso, porque nem humana ela é. Digo isso na certeza de que os aquarianos queridos do meu coração vão entender como um elogio: tipo, você nem é humano, você é uma Janet. E, como se não bastasse, ela é capaz de prover os humanos com aquilo que normalmente é reservado aos deuses, como fez Prometeu, protagonista do mito mais significativamente aquariano. O fato de que vai acabar se apaixonando por uma pessoa de carne e osso, e conhecer um pouco mais os desejos do corpo que a princípio lhe é estranho – isso também acontece com frequência no âmbito do arquétipo de Aquário. E a maneira como a mente dela se conecta como uma espécie de supercomputador a tudo o que acontece no universo só me faz ter mais certeza do meu ponto.

Para terminar, ufa, tem a série como um todo. Estreou em 19 de setembro de 2016. Essa sim é, portanto, virginiana. Para mim faz sentido: a narrativa costuma ser até bem metódica em sua sobreposição de universos como se fossem bonecas russas, mesmo quando flerta com o caos. Agora, eu apostaria que existe alguma coisa ali que articula muito bem Sagitário e Touro. Talvez a Lua no primeiro, o ascendente no outro. Pois o pano de fundo é sagitariano, de modo que toda a brincadeira é organizada em torno de uma indagação sobre o sentido da vida e a finalidade da existência. Ela pode não alcançar muita profundidade nesse sentido; mas isso, pelo menos para mim, não é necessariamente uma falha ou deficiência. É aí que entra a perspectiva taurina.

Pois, no final das contas, após as milhões de referências a Kant e Heidegger e Pascal, a série acaba recorrendo ao pensamento oriental para dar uma última resposta provisória ao enigma do existir. Sobre esse aspecto dos últimos episódios, sem entregar o enredo, vou me permitir uma pincelada, até porque o recurso é mais que previsível, e não apenas pelo andamento da série, mas pela própria linguagem seriada de que ela é um bom exemplo. A ideia de que o “fim” pode ser infinitamente postergado para uma outra temporada – e de que podem existir mundos infinitos dentro de infinitos mundos – faz, curiosamente, com que o momento presente seja mais valorizado. Se a própria morte não é conclusão de um processo, mas faz parte de um conjunto incessante de ciclos, não tem porque você se afligir com uma finitude ilusória, e você pode muito bem encontrar o infinito que existe contido no agora.

Buda, como já disse aqui vez ou outra, para todos os efeitos era taurino. Seu aniversário é comemorado no dia 07 de maio. Isso para mim está relacionado não apenas à paciência e à perseverança, mas também à capacidade que Touro tem de aproveitar as coisas boas da vida. Digo, aquelas coisas materiais e momentâneas mesmo, como uma boa refeição, um bom vinho, uma boa companhia ou a simples possibilidade de respirar fundo um ar puro e tranquilo. É por isso que para mim a série termina onde começa a grande lição de Touro para nós. Que é um pouco a lição de Buda também. Não saia daí. Respire. Aproveite a vida. Aproveite o momento. O lugar bom é onde você está.

capricórnio

Mulher de Capricórnio

[Edward Hopper | Compartment C, Car 193]

Não sei se devia confessar isso aqui, mas a essa altura já confessei: em outros tempos, tive um preconceito astrológico contra as mulheres de Capricórnio. Ele começou na infância, por conta de uma situação que envolvia uma tia meio astróloga e outra tia meio pilantra, com a primeira repetindo sempre o mesmo parecer diante das patifarias da outra: “Ah, mas isso é coisa de mulher de Capricórnio!”. Cresci ouvindo aquilo e aquilo me marcou, a tal ponto que cheguei a evitar capricornianas em minhas primeiras interações afetivas. Mas o feitiço se quebrou quando tive uma namorada capricorniana por volta dos 20 anos (acho que demorei a saber a data de aniversário dela), e a partir daí conheci outras tantas capricornianas que me fizeram rever radicalmente meus conceitos.

Então esses dias me perguntei o porquê do preconceito da minha tia, e qual seria o motivo da ressalva ser voltada para mulheres capricornianas especificamente, e não capricornianes em geral. Devia haver um componente de machismo estrutural aí, mas a questão é qual componente, o que exatamente ela via nas capricornianas que lhe parecia condenável de antemão nas mulheres e não nos homens. “Capricornianas são dissimuladas”, me lembrei dela dizendo, com insistência e nitidez. Parei para pensar nas capricornianas que conheço. Não, elas não me parecem particularmente dissimuladas, muito pelo contrário. Parecem antes ter todos os cuidados para que a gente não se engane: você vê o que você leva, você leva o que você vê.

Tenho, porém, uma hipótese a respeito do ponto de onde ela estava partindo. Pois o que realmente chama minha atenção nas mulheres de Capricórnio é sua capacidade de manter a calma e o senso prático em situações limítrofes e emocionalmente carregadas. Isso vale tanto para o término de relacionamentos quanto para a administração de mantimentos em meio a uma catástrofe: a capricorniana será aquela que consegue traçar limites claros e evitar o pior, assumindo o controle quando todo mundo está perdendo o juízo. O semblante blasé que é capaz de preservar nessas horas decorre, por um lado, da concentração na tarefa em curso, e por outro de um melancólico senso de repetição das mesmas cenas e das mesmas catástrofes. A capricorniana sente que já esteve ali antes, que já administrou a mesma crise outras vezes – e que ninguém aprendeu muita coisa desde a última vez.

Homens de Capricórnio, é verdade, também são capazes de fazer isso. Eles simplesmente não serão objeto de um mesmo tipo de julgamento por terem ostentado um semblante prático e melancólico quando o mundo começou a ruir. Sei que eu, por exemplo, nunca tive problemas com os aspectos mais áridos da minha personalidade, e pelo silêncio resignado com que às vezes expresso minhas emoções. Por outro lado, da mulher se espera certa exibição de traços sentimentais que, quando ausentes, a tornam suspeita de estar escondendo alguma coisa. Daí o “dissimulada” da minha tia. Ele passa antes pelo “insensível”. Acontece que a sensibilidade de Capricórnio funciona em outro tempo, o que lhe permite plena eficácia prática mesmo quando um significativo trabalho de luto está acontecendo em segundo plano.

A capricorniana que executa seu compromisso com a eficiência e a ética no manejo dos assuntos mundanos, portanto, o faz a partir da consciência profunda de uma perda, e de que nunca será possível reparar de fato o que foi perdido. Só é possível uma aproximação nesse sentido – mas o que for possível será feito, ao menos no que depender dela. Essa dedicação obstinada não deixa muita margem para cuidar das aparências, através da exibição dos sentimentos condizentes com o que a etiqueta social pede dessa ou daquela situação. Aliás, Capricórnio consegue ser tão contrário a ser julgado pelas aparências (você vê o que leva, leva o que vê), que chega a aparentar o inverso do que realmente é. Aqui, possivelmente, existe sim um curioso mecanismo de dissimulação.  

Pois, se o imenso cuidado com o mundo da mulher de Capricórnio pode passar por desinteresse ou fastio (uma vez que se expressa através de atos concretos que são executados com as mãos, enquanto olhamos para seu rosto), eventualmente ela vai esconder sua tristeza na mesma medida em que os julgamentos sociais a acusem de não sentir tristeza nenhuma. Não digo que venha a dissimular seus sentimentos; ela apenas não vai fazer esforço algum para ostentá-los. Daí o risco de que assuma uma feição mais ríspida ou indiferente. Tanta falta de esforço num determinado sentido pode se tornar uma espécie de esforço no sentido contrário.

Mas isso apenas em alguns casos. No geral, a mulher de Capricórnio não precisa mesmo esconder nada para que acreditem que está escondendo alguma coisa. É verdade que isso acontece também nos arquétipos de Ar e de Fogo – mulheres sendo julgadas por não se adaptarem a expectativas e modelos sociais –, mas talvez o caso de Capricórnio seja particularmente notável porque todos os signos de Terra são femininos. Algo muito semelhante, aliás, poderia ser dito sobre as virginianas, considerando o tipo de controle que elas possuem sobre o ambiente imediato e sobre si mesmas. Touro, porém, traz com maior evidência um componente que não deixa de ser essencial para os outros dois, quando nos faz lembrar que os arquétipos de Terra dizem respeito ao corpo.

E os assuntos do corpo, enfim, são conhecidos pelas mulheres de um modo que a gente nem imagina. Eu pelo menos só posso suspeitar. Mas sei que passa por aí a mais profunda afinidade entre os signos de Terra e o feminino. Em todos eles, a dimensão sensível e palpável da experiência é a que vem antes de tudo, o que torna ainda mais equivocado que às capricornianas seja atribuída qualquer forma de insensibilidade. O que elas possuem (as taurinas e virginianas também) é força suficiente para sentir e fazer ao mesmo tempo – e talvez essa sobreposição seja aquilo que minha tia chamava de “dissimular”. Ou não, sei lá, vai ver que a outra tia era meio pilantra mesmo. Só não venham me dizer que ela era assim porque era uma mulher de Capricórnio.

capricórnio

A alma e as formas

Natividade | Giotto di Bondone (c. 1305)

Reparando aqui: a Noite de Reis e o dia do astrólogo (sim isso existe) acontecem na mesma data, seis de janeiro. Não é difícil identificar a relação entre as duas coisas. Eram astrólogos persas, ou magi, os “três homens sábios” que leram os sinais dos céus para encontrar o local de nascimento do menino Jesus, segundo o Evangelho de Mateus. O império persa, a propósito, foi um dos que conferiu à prática da astrologia um amplo papel social, depois do babilônico e do egípcio. Seus magos eram reconhecidos no oriente como sábios não apenas pelos conhecimentos técnicos e científicos que acumularam, como também pela participação em momentos chave da vida política da região. É possível inclusive que o evangelista os tenha incluído na história de Cristo para conferir maior legitimidade à sua narrativa.

Criação, de Gore Vidal, é um belo romance histórico sobre a Pérsia e arredores alguns séculos antes do nascimento de Cristo. Ele se passa durante o reinado de Xerxes, portanto no século V a.c., e é narrado por um embaixador do império nas terras do oriente e do ocidente, que durante suas viagens entra em contato direta ou indiretamente com personagens como Sócrates, Buda e Confúncio. Afinal, esse foi o período em que foram concebidas as transformações filosóficas, espirituais e políticas que mudaram o curso do mundo antigo e criaram os fundamentos de muito do que veio a seguir. Com a astrologia não poderia ser diferente, de modo que nesse intervalo, até a queda do Império Romano, estabeleceram-se não apenas uma, mas diversas e antinômicas bases possíveis – éticas, científicas, espirituais – pelas quais podemos hoje nos guiar no estudo dos astros.

A antiguidade astrológica deixou como legado vários livros e nomes importantes, mas gostaria de mencionar agora particularmente um deles, hoje menos conhecido. Jâmblico, ou Iamblichus, foi um filósofo e astrólogo de origem síria que veio a ser também biógrafo de Pitágoras. Até determinado ponto, seguiu filósofos neoplatônicos como Plotino e Porfírio em suas reflexões sobre os possíveis caminhos e saídas para que a alma encarcerada no mundo físico pudesse dele escapar. Mas, no decorrer de seus estudos, concluiu que a vinculação da alma à matéria não era de todo indesejável, possuindo potencialidades que estavam ainda por ser exploradas, o que justificava o aprimoramento dos instrumentos de orientação da nossa vida nesse corpo e nessa Terra (para quem quiser saber mais sobre o assunto, recomendo muito essa palestra de Robert Hand sobre astrologia, moralidade e ética; a parte seguinte desse texto se baseou nela).

Jâmblico sugeriu que o instante do nascimento de indivíduo era aquele em que as potencialidades de desenvolvimento da alma em um determinado corpo ficavam estabelecidas de acordo como retrato do movimento dos planetas. Esse retrato, por sua vez, representava um ideal ao qual a experiência humana em um determinado corpo podia apenas almejar – mas não devia deixar de almejar. O estudo da astrologia serviria então exatamente para que a alma, através de um determinado corpo, encontrasse uma maneira única de expressar-se e aprimorar-se, segundo as especificidades de uma configuração planetária ao mesmo tempo eterna e momentânea. Desse modo, a alma individual não estava exatamente submetida à dinâmica celeste como uma fatalidade imposta desde cima: ela era essa dinâmica, e ao mesmo tempo uma manifestação parcial dela aqui nesse mundo, que contava com as pistas deixadas lá em cima para reencontrar-se consigo mesma.

Hoje em dia, muita gente pensa que os adeptos da astrologia buscam uma espécie de reino encantado e esotérico para não encarar os sofrimentos e dificuldades da vida terrena, e que ela não possui nada a oferecer além disso. Outros entendem que a astrologia até funciona, e pode funcionar muito bem, mas não tem dimensão ética alguma, e é somente uma técnica que pode estar a serviço dos objetivos menos nobres. Há precedentes para sustentar as duas hipóteses. Mas a posição de figuras como Jâmblico representa uma alternativa no mínimo interessante nesse cenário, uma vez que reafirma o valor do mundo físico tal como o conhecemos, e ao mesmo tempo indica que ele pode sim orientar-se eticamente de acordo com coordenadas astrológicas.

Nessa perspectiva, faz sentido que a astrologia seja comemorada em uma data capricorniana. Pois Capricórnio é sobre honrar o mundo físico, desenvolver suas potencialidades, aproveitar seus recursos com inteligência, e entender que suas limitações são a única maneira pela qual a alma passa a existir nas formas. Disso tudo se deduz a possibilidade de um determinado comportamento moral, sem que precise ser moralista. A ética capricorniana passa pelo real e não deixa nunca de utilizá-lo como ponto de partida; assim, longe de conferir à matéria um aspecto vil, isolado do espírito, Capricórnio mostra como ela é justamente o veículo pelo qual o conhecemos, e o instrumento para aprimorá-lo através de nosso corpo por meio do trabalho de uma vida.

Mas Capricórnio pode ser, sim, um signo pesado. Isso acontece sempre que faz o caminho inverso – e, no lugar de elevar a dimensão da matéria, traz para o chão, por força de sua gravidade, tudo aquilo que lhe parece de um idealismo sem bases no mundo concreto. Por outro lado, a leveza possível de Capricórnio está justamente em sua capacidade de erguer o mundo concreto alguns centímetros acima do solo. Curiosamente, talvez isso nos diga algo também sobre a história de um deus que encarna em um corpo humano, e termina por ter a data de seu nascimento associada a esse arquétipo. Sua história termina com uma pesadíssima cruz na qual ele está preso como uma alma estaria presa ao corpo humano, segundo os neoplatônicos. Mas ela começa com a infusão de uma alma divina em um corpo humano, de tal modo que sua carne e pele e ossos não são um obstáculo a ser recusado ou um pecado merecedor de flagelos: são justamente um instrumento que a Alma encontrou para se movimentar entre nós.

Por último, queria enfatizar que o etos do aconselhamento astrológico não prevê nunca uma recomendação de renúncia ao mundo e seus desejos, ambições e disputas. Mas é papel do astrólogo identificar quais desejos, ambições e disputas recebem o suporte do retrato tirado do cosmos no instante do nascimento de um indivíduo, em interação com os que estão acontecendo no momento da consulta. É como se os ciclos planetários formassem uma intrincada rede de fluxos para a qual buscamos uma espécie de adaptação do corpo, embora o corpo neles esteja imerso o tempo inteiro, e não tenha como escapar deles nem querendo – o que torna tão mais significativa a possibilidade de acompanhá-los como quem participa de uma espécie de dança. O fato desses movimentos serem sempre contraditórios e ambivalentes é, por sua vez, o que torna tudo mais difícil, interessante e divertido.

Uma coisa é certa: o fatalismo que a astrologia antiga ou medieval conheceu tem um papel restrito nos atendimentos hoje em dia. Por outro lado, existe certa tendência em consentir com o uso da astrologia para finalidades desprovidas de qualquer justificativa moral, como se fosse apenas uma técnica isenta de premissas e implicações nesse campo. Mas as premissas cosmológicas da experiência da astrologia continuam sendo, ao menos para mim, motivo do maior assombro diante do que enunciam sobre a relação entre o homem e o universo. Acho difícil vê-las assim sem deduzir algumas orientações éticas no meu trabalho e nas minhas relações com os outros. Sou capricorniano, no final das contas.

Além disso, por fim, o fato de poder verificar, diariamente, algumas confirmações exatas da interação entre assuntos humanos com os símbolos do cosmos que temos disponíveis, é motivo sempre para reafirmar o mergulho nesse mundo como o meio para encontrarmos as mais perenes verdades. Por ora, bastam-me inclusive as verdades provisórias com que me deparei até o momento para suspeitar de que um astrólogo sírio que viveu há mais de dois mil anos tem algo de muito certeiro para dizer sobre nosso mundo. Talvez eu não saiba ainda expressar com total exatidão o que vejo de tão correto em sua perspectiva. Mas, se estou aqui nesse corpo, regido por tais e tais configurações astrológicas, ao que tudo indica me sobram motivos para continuar tentando.

astros

O fim está próximo

O Sol ingressa em Capricórnio por volta do dia 22 de dezembro de cada ano. Para os romanos, essa era a época das Saturnálias: uma semana de festa, com comida e bebida à vontade, em que a autoridade era subvertida, a ordem social era suspensa e identidades eram alteradas. No dia 24, trocavam-se presentes. O cristianismo situou seu principal feriado próximo a esta data porque seria impossível abolir a celebração popular, então era melhor cooptá-la. Já os puritanos ingleses depois rebelaram-se contra a missa de Cristo, a Christ Mass, e Cromwell chegou a aboli-la, argumentando com certa razão de que não passava de uma orgia pagã com um verniz cristianizado.

As Saturnálias começavam sob a regência de Júpiter, e terminavam sob a de Saturno. Portanto, acompanhavam a passagem do bastão de Sagitário para o signo da Cabra. Faz sentido: um último período de licenciosidade e abundância antes do início de uma época de restrições, com a perspectiva de futuros constrangimentos motivando toda uma semana de excessos. Mas Capricórnio não precisa ser visto como um arquétipo tão árido. Após o momento sagitariano do zodíaco, ele trata, sim, da necessidade de alcançar certo equilíbrio, através de ações responsáveis e intervenções consequentes no mundo. Porém o tipo de ajuste que está em jogo agora pode ter uma importante dimensão espiritual, e é bom ter isso em mente nessa passagem de 2019 para 2020, quando a coisa toda ganhará outras proporções.

Agora, o ingresso do Sol em Capricórnio o levará de encontro a Júpiter, Saturno, Plutão e Ceres. Por volta do dia 10 de janeiro, quase todos esses astros (com o acréscimo de Mercúrio) estarão alinhados com exatidão em 20º de Capricórnio, o mesmo grau onde acontecerá então um eclipse lunar em Câncer – portanto em oposição ao aglomerado capricorniano. Quem tiver planetas no mapa natal em torno de 20º de Capricórnio, Câncer, Áries ou Libra tende a sentir o fenômeno com mais impacto. Isso vale, por exemplo, para quem está por volta dos 40 anos agora, e tem Plutão nessa região do signo de Libra, ou para quem faz aniversário por volta dos dias 09 de abril, 11 de julho, 13 de outubro e 10 de janeiro mesmo. Mas esses trânsitos têm força suficiente para ter repercussão na vida de todo mundo.

Esse é inclusive o tipo de configuração que em outros momentos seria o suficiente para criar a expectativa pela vinda do Anticristo, bastando para isso a conjunção de Saturno e Plutão que irá se consumar. A propósito, a última vez que essa conjunção aconteceu em Capricórnio foi em 1517, um mês depois de Martinho Lutero afixar suas 95 teses na igreja do castelo de Wittenberg, portanto em perfeita sincronicidade com o início da reforma protestante (que pode ser vista como um ajuste de grandes proporções diante do momento de excessos na Igreja Católica). Se os astrólogos da época soubessem a respeito de Plutão e seus demônios, isso acrescentaria um elemento talvez decisivo nas muitas polêmicas em torno do mapa de Lutero. Mas o sistema solar ia só até Saturno mesmo, o que já era o suficiente para que se chegasse a previsões bastante precisas a respeito do Apocalipse.

No entanto, é para o plano individual, para nossa experiência diária, para a mente e o espírito de cada um de nós, que, na minha opinião, todas as nossas atenções e cuidados devem estar voltados nas próximas semanas. O conjunto de trânsitos e aspectos que vão se suceder a partir da Lua Nova e do eclipse solar do dia 26 de dezembro não são o fim do mundo – e acho até que farão desse intervalo um momento de rara oportunidade para retomarmos o prumo que foi perdido nos últimos anos. É sobretudo isso que estará em jogo nesse início de 2020, creio eu: uma chance de recomeçar a partir de novas bases. E esse recomeço passa por uma definição final a respeito daquilo que não nos serve mais, e que continua fazendo parte de nossas vidas por força do hábito ou de uma exaustiva e esgotada insistência.

Isso pode acontecer em diferentes áreas da experiência, variando de acordo com o arquétipo solar e outros componentes do mapa individual. Libra, por exemplo, pode viver esse tipo de definição em relação à família, e nesse caso, curiosamente, toda essa energia no eixo Câncer-Capricórnio, tão familiar e apegado às tradições, servirá para ceifar de vez aquilo que se desgastou e vem capengando no âmbito das relações familiares. Para todos os signos, porém, esse deve ser um momento para dar um fim efetivo ao que já está acabado. Até porque, a essa altura, o que está acabado já vem acabando há tempos, e nesse processo de lento acabar-se está acabando com nossa paz de espírito e nossa saúde mental.

É disso que estou falando quando me refiro à energia que haverá disponível agora para retomarmos um certo equilíbrio. Tenho visto muita gente vivendo o desespero da tentativa de preservar o que já está findo ou remediar o que não tem conserto. Nisso, ganham em volume e estridência as discussões que parecem se dar em um mundo anterior à queda, porque presumem proximidades onde há distâncias, ou parecem querer restaurar o paraíso perdido, nem que seja na marra e na base do murro. O momento que vamos viver agora é de reconhecimento que nada disso tem volta. O que pode ser uma coisa triste, mas a essa altura creio que para muitos de a percepção virá com uma boa dose de alívio.

Amigos já me perguntaram umas duas ou três vezes, meio à brinca e meio a sério, se com esse encontro tão exato de tantos planetas e um eclipse ainda por cima o mundo finalmente acaba, depois de tantas previsões infundadas. Minha resposta tem sido que o mundo já acabou, e que agora nós estamos na expectativa é dele recomeçar. Mas, quando digo isso, penso sobretudo nas experiências individuais que estão implicadas na ideia de “mundo”: é o mundo de cada um de nós, pelo menos um aspecto importante dele, que vai encarar de vez a finitude no começo de 2020, para abrir espaço para que tudo comece de novo nessa área da vida. Então, para que isso se execute, será mesmo bem-vinda uma boa dose de energia capricorniana.

Isso, em primeiro lugar, porque Capricórnio sabe traçar limites como nenhum outro signo. Capricórnio tolera muita coisa, suporta o que der e vier, mas tem sempre um “alto lá” para quem se exceder nas liberdades com a cabra – até porque ela entende que certas coisas são inegociáveis. Em segundo lugar, Capricórnio é um tipo que conhece o silêncio, convive bem com a solidão, e acredito que boas doses de silêncio e solidão vão ser importantes nesse processo. Conjunções planetárias são fenômeno cuja sincronicidade experimentamos com nosso corpo e coração inteiros, de acordo com sentimentos que vêm de dentro, sem necessariamente serem acionados por acontecimentos externos. Mas, para vivê-los, a gente precisa deixar que elas aconteçam em nós.

Passadas as festividades natalinas, portanto, virá o tempo de preparação para essa virada significativa, muito mais significativa que a virada de ano. Terminadas as Saturnálias, será tempo de entender o que mais tem que findar. Repito que a transição tem um forte componente espiritual, apesar de tratar também de fatos concretos e realidades duras da vida. A Lua Nova do dia 26 será um belo e harmonioso impulso para o instante mais denso que há de chegar uma quinzena depois. Quem tiver um pouco de senso usará essa largada para colocar-se em posição de escuta em relação às próprias emoções e aos próprios pensamentos, pois são eles que trarão as respostas que cada um de nós aguarda, e os gestos com que vamos delimitar o primeiro dia do resto de nossas vidas. Finalmente: nós já estamos esperando isso há algum tempo.

Para terminar, lembrei de um poema de Leonard Cohen, intitulado “Discussão”, cujos primeiros versos dizem: “Você talvez seja uma pessoa que gosta de discutir com a Eternidade”. Da maneira como o poema se desenvolve, entendo esse ‘discutir com a Eternidade’ como uma discussão com finitude e com a morte. De um modo ou de outro, todos nós discutimos com a morte, tentamos confrontá-la, expressamos nossa contrariedade em relação a ela, ou diante do fato de que as coisas acabam (assim como o amor acaba, no texto de Paulo Mendes Campos). Mas chega o momento em que perdemos nossas forças para continuar essa discussão, percebemos que não há como vencê-la, e com isso – quem diria – a vida se renova e segue adiante.

Acho que esse momento vai chegar pra muita gente em breve. Da maneira como as coisas estão se arranjando no céu, vejo Plutão como o agente da finitude e da morte que estamos confrontando há algum tempo. O Sol, a Lua Cheia eclipsada e os demais planetas que vão se reunir em torno dela me parecem ter vindo para encerrar essa briga, não necessariamente pacificando os ânimos, mas silenciando-os o suficiente para que entendam: já não há pelo quê brigar. As coisas se moveram e se transformaram a ponto de terem desfeito o próprio mundo onde a briga começou. A partir daqui a história é outra, e qual será nós não sabemos – mas tenho esperança de que, também em breve, a gente saberá por onde começá-la. Feliz 2020 para todos nós.


astros

Beleza dura

Foto: Henri Cartier-Bresson

De tempos em tempos Vênus e Saturno se relacionam no céu dando sequência a uma negociação complicada. O espírito que aspira à beleza e pretende realizá-la no plano físico precisa se entender com as restrições da matéria. O amante que deseja o encontro precisa respeitar os ciclos de aproximações e afastamentos, deixando o pêndulo dos encontros pender para a solidão.

Vênus é a regente de Libra, que busca a conciliação e a harmonia nas relações, mesmo que à custa de definições permanentes. Saturno rege Capricórnio, que busca definições permanentes, mesmo quando isso tem um custo para as relações. A possibilidade de uma beleza duradoura ou de acordos consistentes nasce da interação desses dois vetores a princípio contraditórios. Mas pode ser que o resultado desse contato seja também certa tristeza mesmo.

Nesses casos, é válida a consciência da lei do esforço reverso. Se lutamos contra um sentimento indesejado, ele se fortalece; se aquiescemos, a seu tempo, ele passa. A aquiescência é venusiana; o tempo, saturnino. Vênus e Saturno trabalham bem juntos desde que a gente permita que eles trabalhem. É engraçado isso do ser humano de achar que pode escolher os sentimentos que tem.

Qualquer projeto de longo prazo evolui nessas oscilações entre a angústia e a esperança. Não há obra de arte que seja concluída sem uma mistura de felicidade e resignação. Vênus e Saturno trabalharam juntos toda vez que um escultor enfrentou as restrições da matéria para encontrar a beleza que existe na pedra. Mas sem a dureza da pedra não haveria beleza nenhuma, apenas uma vaga ideia do que a beleza é ou poderia ser.

Todos os signos

Estatísticas

Agradeço a todo mundo que atendeu ao meu apelo para contar o ascendente pelas redes sociais. Agora enfim tenho uma amostra considerável para oferecer minha contribuição ao desenvolvimento da ciência astrológica com o máximo rigor metodológico. Em seguida, apresento alguns dados do DATAGUS acompanhados das respectivas análises qualitativas:

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em ÁRIES foi de 5,8% do total. Porém, sabe-se que a conclusão da amostragem não corresponde à realidade. Tem muita gente com ascendente em Áries que já não está em rede social nenhuma. Saíram fora dessa.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em TOURO foi de 8,33333%. Foi o único signo cujo número correspondeu a exatamente 1/12 do total. O pessoal de ascendente em Touro é objetivo. Quando a gente pergunta o ascendente eles respondem “Touro”, e mantêm-se impassíveis, como que esperando a gente dizer alguma coisa a respeito. Mas nessas horas costumo perceber lá no fundo de seus olhos um desconcertante lampejo de sarcasmo.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em GÊMEOS foi de 8,8% do total. Desses, quase metade respondeu “Gêmeos kkkkkkkkk”. Deve ser divertido ter o ascendente em Gêmeos.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em CÂNCER foi de 7,5% do total. Infelizmente, nenhum deles me convidou para tomar um café e comer um bolinho na casa deles. Tomar café e comer bolinho na casa do ascendente em Câncer é especial. Convida aí, pessoal, que eu aceito.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em LEÃO foi de 12,3% do total. Outro número que com certeza não corresponde à realidade. Ter ascendente em Leão é o máximo. Tem gente que diz só pra aparecer.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em VIRGEM foi de 10,3% do total. É um número alto, mas possivelmente correspondente ao número de indivíduos vivos com este ascendente. Mesmo o pessoal com a Lua em Peixes ou Marte em Gêmeos uma hora resolve fazer tudo certinho e manter uma rotina saudável, se tiver o ascendente em Virgem. O percentual se explica pela longevidade.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em LIBRA de foi 8,6% do total. Uma breve análise das fotos de perfil confirma a fama desse ascendente. Ô gente bonita, meu Deus.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em ESCORPIÃO foi de 4,2% do total. O índice extremamente baixo é fácil de explicar. Um ascendente em Escorpião não vai sair contando isso por aí (eu, por exemplo, não conto). A propósito, 100% dos indivíduos que responderam com “quero ver vc adivinhar” tinham ascendente em Escorpião. Já três indivíduos perguntaram se isso de ter ascendente em Escorpião é grave. Dois deles, anonimamente.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em SAGITÁRIO foi de 8,0% do total. Metade desses já sabia tudo sobre ter ascendente em Sagitário. A outra metade pediu bibliografia.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em CAPRICÓRNIO foi de 6,9% do total. Aqui também acho que há uma distorção. Muitos não responderam a pesquisa porque estavam trabalhando em um projeto. Ascendente em Capricórnio está sempre trabalhando em um projeto.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em AQUÁRIO foi de 9,1% do total. Aqui temos um caso muito singular, mesmo para meu círculo de conhecidos: dois a cada três desses indivíduos são estudantes de humanos. Ops, de humanas. Mas faz sentido. Sempre tenho a sensação de que Aquário é gente de outros planetas que resolveu passar um tempo na Terra por algum motivo. No caso do ascendente agora está claro. Vieram nos pesquisar.

Enfim, o número de indivíduos que declararam ter ascendente em PEIXES foi de 6,4% do total. Aqui acontece algo aparecido com o ascendente em Áries. A diferença é que o ascendente em Peixes não está fora só das redes sociais. Ele está a caminho de estar fora da sociedade mesmo. Faz muito bem.

A propósito, dos 1,7% que responderam “ih não lembro”, presume -se que a maioria tenha ascendente em Peixes.

Por enquanto é isso. Estaremos em contínuo trabalho de processamento e análise das informações. A qualquer momento pode sair um novo relatório. Mais uma vez obrigado.

capricórnio, escorpião, leão, virgem

Ditadores do zodíaco

O Grande Ditador (1940) / Dir. Charlie Chaplin

Acredito que todos os arquétipos do zodíaco conhecem um caminho próprio para o autoritarismo, tendo como ponto de partida inclusive as virtudes de cada um, mas em alguns casos esse percurso é mais evidente. Podemos imaginar como e porque uma ditadura se instala de acordo com as inclinações de diferentes signos específicos; o exercício será tão útil quanto uma horinha de academia para nossas articulações psico-astrológicas, com a vantagem de não deixar nossos bíceps fatigados.

Em Capricórnio, por exemplo, existe uma inteligente competência para lidar com assuntos mundanos; ele pode ser até mesmo convidado a exercer essa qualidade, assumindo posições centrais no governo sem o intermédio de uma escolha popular, em circunstâncias de desorientação coletiva; mas ninguém garante que vai abrir mão do poder obtido, depois que as coisas se acalmarem. A figura do capricorniano como um ditador é célebre, e em muitos casos decorre desse apego ao controle, a uma pretensiosa imaginação de que sem Capricórnio o mundo recai no caos e na bandalheira. Mas também não custa lembrar que o termo “ditador” foi criado na Roma Antiga para designar o magistrado escolhido para exercer um governo com prerrogativas emergenciais – e, portanto, não necessariamente presumia um golpe ou um regime despótico, mas uma espécie de janela para o restabelecimento da ordem institucional e para a retomada das práticas regulares do Estado.

Em Escorpião, como de costume, as coisas ficam “interessantes” (leia-se: ganham uma conotação sexual), e nesse caso porque o poder puro e simples – incluindo os poderes mais obscuros – é um tema de Escorpião. Aqui o fato de que determinados seres exercem força sobre outros, não porque merecem, não porque precisam, não porque desejam, mas simplesmente PORQUE SIM, é parte importante do mistério da vida. Em Escorpião estão os fenômenos – como a morte – que precisam ser aceitos, por mais que a gente os considere injustos ou despropositados (para mais detalhes sobre esse tema, tem esse texto). Em Escorpião está o Dragão, esta força da natureza que causa destruição e carnificina de acordo com seus humores, e que esconde um inestimável tesouro oculto em sua caverna (nesse caso tem esse outro). Por isso em Escorpião também está o Tirano: aquele que mata por prazer, que quer o controle pelo controle mesmo, para o exercício da manipulação e do ódio.

O problema aqui não está no fenômeno do poder absoluto e desumano em si, mas nessa sua manifestação mundana e humana através de um indivíduo. Ela torna pontual e contingente algo que tem uma dimensão cósmica inegociável, conferindo sempre um elemento de banalidade ao Mal Radical que exige respeito e reverência. O dragão é o Dragão – e o Tirano, no final das contas, é só uma pessoa. Além disso, todo autêntico poder escorpiônico tem sua origem no oculto e no mistério, e é de caráter experimental, alquímico, investigativo, como por exemplo aquele que se obtêm através do estudo da astrologia; não se tem licença para exercê-lo em assuntos de outra ordem, que os desvirtuam e rebaixam. Uma plutocracia é um governo dos muito ricos – os que acumulam tesouros em suas cavernas – ou de forças ocultas – aquelas que transitam nos porões de ditaduras. As duas coisas muitas vezes andam juntas. Num caso como no outro, as virtudes plutônicas da concentração de energia e da transubstanciação alquímica se manifestam em versões mais vis, as da concentração de dinheiro e a da manipulação conspiratória.

Agora, sobre Virgem, uma notinha rápida: nesse caso estamos falando menos de um personagem vultuosamente ditatorial, e mais de um possível exército de tiraninhos que regulam os mais ínfimos detalhes da vida cotidiana, uma máquina burocrática que continua funcionando mesmo quando destituída de uma figura central. Em O Processo, de Kafka, encontramos algo parecido, pois ali já não importa nem qual é a Lei que está sendo obedecida, mas que os protocolos do código processual sejam todos seguidos. Há também um elemento virginiano em Gilead, a locação da distopia de The Handmaid’s Tale, de Margaret Atwood, com seus cenários ordenados, seus figurinos repetitivos e suas aias submetidas a vários protocolos de conduta restritíssimos. A impressão do elo com Virgem é reforçada pelos tenebrosos ritos sexuais que ocorrem em ambientes assépticos, para a suposta salvação da humanidade. Como comentei com mais calma aqui, há algo dessa busca de uma cura através do sexo (por práticas secretas de funcionárias do estado) no caso das virgens vestais da Grécia Antiga. No entanto, nada mais distante do potencial de Virgem para a cura e a fertilidade do que a violência de Estado travestida em um ritual sacro, seja na Grécia ou em Gilead.

Por fim, temos o déspota clássico, o Rei-Sol, o Rei-Leão. Aqui o que impressiona não são as variações modernas da tradição, mas a persistência de manifestações tradicionais em roupagens que são sempre as mesmas. Em Leão, idealmente, a autoconfiança e a autossuficiência geram a admiração pública, mas não têm esse objetivo, até porque a alma leonina se contenta com a contemplação do próprio aspecto régio, não precisa que ninguém o confirme, e por isso mesmo a audiência confirma: reconhece o Rei que merece esse nome. Porém poucos merecem, e é frequente que o caminho para a tirania esteja na própria insegurança do governante, que sente depender de sua imagem de invencibilidade, na qual não acredita de fato, de modo que não se permite nenhuma exposição de fraqueza. Assim ele vem a assumir as medidas mais autoritárias e desproporcionais – isto é, motivadas pela insegurança que não permite ameaça ao seu frágil reinado.

Em Édipo Rei, por exemplo – a tragédia clássica de Sófocles que também já traduzida como Édipo Tirano –, a confiança da população de Tebas é provisoriamente conquistada por Édipo quando ele chega à cidade e soluciona o enigma da esfinge. No entanto, num cenário de novas mazelas, e diante das más notícias e presságios que chegam ao castelo, Édipo se mostra irritadiço, melindroso, e não demora a repetir (para o cego Tirésias, para o cunhado Creonte, para os mensageiros) algumas variações das frases que caracterizam a figura do orgulhoso ditador no arquétipo de Leão. “Cortem-lhe a cabeça”, “expulse o forasteiro”, “destruam-se as provas”: o que importa aqui é menos o ato em si do que o que ele revela a respeito do governante. Ele revela basicamente que o governante está com medo. E um governante leonino pode ser uma beleza de exemplo e inspiração para os que o seguem; mas um governante leonino amedrontado (dá para ver isso inclusive em seus traços, em suas expressões) está a caminho de tornar-se um déspota.

Leão é também um dos signos que tem maior dificuldade em reconhecer a própria sombra. Talvez por isso Édipo só venha a compreender que é ele o assassino violento, o filho incestuoso e a raiz dos males de Tebas diante de um terrível impacto trágico. Toda tirania está sujeita a uma força ou outra que em última instância será o seu fim – nem que essa força seja outro regime despótico, que se coloque em seu lugar. A história da humanidade às vezes parece mesmo ser uma sucessão de tiranias que se distinguem só pelo tipo: há as capricornianas, as escorpiônicas, as virginianas, as leoninas. Mas é perfeitamente possível, pelo menos teoricamente, que cada um desses arquétipos nos ofereça o quem tem de melhor, inclusive no plano político. Como disse, mesmo seus piores gestos só se tornam possíveis por causa das virtudes que têm o potencial de manifestar.

Todos os signos

Como morrem os signos

O Sétimo Selo, dir. Ingmar Bergman (1957)

Áries morre no calor do combate. Nem chega a ver o rosto da morte. Não sofre por antecipação: o golpe é fatal, súbito e exato.

Touro vê a morte de longe, depois vê a morte chegando, e vai se aproximando dela, até que se encontram. Nada altera seu caminho.

Gêmeos pode até aceitar a morte, só queria ter uma conversa com ela antes: “Isso de morrer, precisa mesmo?”, “esse seu trabalho, é meio pesado né?”, “lá pra onde a gente vai, tem internet?”

Câncer odeia a morte. Queria que ela morresse. Mas ia ficar triste se morresse mesmo.

Leão desafia a morte. Não tem chance de vencê-la, mas faz parecer que tem. Sua morte é uma derrota, mas uma derrota trágica, bela e gloriosa.

A morte de Virgem é um rito. Ela é recebida em um lugar adequado e com os utensílios corretos. Até para morrer existe um jeito certo.

Libra também conversa com a morte, e começa tentando fazê-la mudar de ideia. Depois aceita que a morte é inevitável. Acaba concordando com ela em inúmeros outros assuntos também.

Escorpião morre várias vezes na vida. Tantas que faz amizade com a morte. É com carinho que a recebe na última visita. “Vem cá minha velha”, diz, cheio de intimidades.

Sagitário tem uma teoria a respeito da morte, e vai explicá-la para a morte quando a morte chegar. Vai ser a maior viagem, mas a morte vai achar interessante e vai ouvir até o fim.

Capricórnio respeita a morte, sabe que ela está aí há muito tempo. Morrer é uma coisa que todo mundo faz, não vai ser ele que vai inventar moda do contrário.

Aquário recebe a morte como um convite para entrar em um clube, tipo ingressar em uma associação: “Tô nessa, quero participar também”. Mas Aquário pode sentir exatamente o contrário, a morte como oportunidade de deixar de participar do clube dos vivos: “enfim”, diz, “tire-me daqui”.

Peixes se rende à morte como se rende ao sono, deixa que ela leve peça por peça, entrega os pontos. E, se tem alguém que consegue enganar a morte, esse alguém é Peixes, quando finge que está jogando para vencer, e na verdade não está nem prestando atenção no placar do jogo.