câncer

O signo de Kafka

Foto de arquivo | wikipedia.org

Este blog nasceu sob o signo de Peixes, e precisa de um descanso de vez em quando para dar liberdade às suas fantasias. Mas estavam em Câncer as luas do título, inspirado por um livro da escritora canadense e canceriana Alice Munro. Talvez por isso o signo do caranguejo seja um dos recordistas de postagens aqui da casa, embora eu nunca tenha escrito nenhum texto mais elaborado sobre o cancerianismo aliciano em si mesmo (pretendo fazer isso ainda, mas é uma tarefa delicada, não é algo que que dê pra fazer ainda pegando no tranco, depois de ficar em modo pisciano-soneca por uns tempos). Tampouco cheguei a falar do arquétipo de Câncer a partir dos escritos de outro autor célebre que já frequentou essa página por muitos outros motivos. Pensei nisso anteontem, quando se celebrou a data de aniversário de Franz Kafka.

A princípio, essa seria uma missão igualmente espinhosa, sobretudo se comparada com a de identificar aspectos cancerianos mais óbvios da obra de Marcel Proust, por exemplo (o memorialismo nostálgico, a floração de sentimentos, o estilo fluvial). Há pouca coisa e quase nada em Kafka que a gente associe ao signo solar do autor, à primeira vista pelo menos. Acontece até o contrário: a objetividade de sua prosa, o desconforto de seus personagens, a estranheza de seu mundo, tudo isso é o oposto daquilo de que normalmente estamos falando quando falamos em Câncer. Inversamente, a familiaridade, o conforto e o calor humano podem ser tudo, menos atributos kafkianos.

Por outro lado, e por isso mesmo, acredito que a tarefa de associar Kafka ao signo de Kafka é simples (confesso que o blogueiro não estaria suspendendo suas férias se não pensasse assim). Basta repetir um movimento que os intérpretes do autor realizaram tanto em comentários sobre a questão religiosa em sua obra, quanto na abordagem de sua ressonância política. Os conceitos de teologia negativa e utopia negativa – presentes nas análises dos críticos Erich Heller e Michel Löwy, respectivamente – se equivalem. O que ambos estão querendo dizer ao mobilizar esses conceitos é basicamente a mesma coisa. Quando lemos Kafka, o que importa é tudo aquilo que evidentemente não está lá.

Acho que o lado teológico nos ajuda mais a entender o argumento de maneira geral. Ele remete a uma longa tradição segundo a qual “a ausência de Deus é prova da existência de Deus”, exatamente porque a percebemos como uma ausência, isto é, o polo negativo de uma presença. Pelo mesmo raciocínio, não concebemos o vazio a não ser como o contrário do cheio, e, portanto, como indício de um preenchimento que um dia existiu ou está por vir. Todo fenômeno presume e implica seu inverso, e, portanto, o Deus absconditus (deus escondido) da lenda se faz sentir precisamente através de seu ocultamento.

“Ausência implica presença, ausência não é não-existência, e assim nós temos o direito de repetir: vem, vem, vem, vem…”, diz um personagem de Uma Passagem para a Índia, romance do escritor E. M. Forster. Nesse sentido, na obra de Kafka, tudo aquilo que não está lá se torna o que mais ostensivamente se mostra através deste sumiço; é a existência dessas coisas que podemos e devemos invocar. E, de fato, o conforto com a vida familiar, a aceitação e o acolhimento pelos pais, a sensação de pertencer a um lar ou uma terra natal são ausências mais do que notáveis em seus escritos, incluindo aí os diários e as cartas. Sobre os romances de Kafka, a propósito, o escritor argentino Jorge Luis Borges afirmou em 1936 o seguinte: “Homens, não há mais do que um em sua obra. O homo domesticus, que anseia por um lugar, mesmo que humilíssimo, em uma Ordem qualquer; no universo, em um ministério, em um asilo de lunáticos, ou no cárcere”. A simplificação pode parecer apressada quando a olhamos em perspectiva; mas, acredito, não deixa ser extremamente certeira se fizermos uma correção.

O ponto central é a palavra Ordem. Não acredito que os personagens de Kafka quisessem necessariamente pertencer a uma ordem. É verdade que com Joseph K., de O Processo, esse pode muito bem ser o caso, e algo semelhante se dá com o K. de O Castelo. Aí estaríamos tratando de temas capricornianos, com algumas incursões pelos arquétipos de Aquário e de Peixes. Porém, até com maior frequência, o que os protagonistas kafkianos parecem sentir de modo mais doloroso é a falta de qualquer vinculação a um Lar, no sentido mais caloroso e acolhedor da palavra, com suas raízes orgânicas e sentimentais, com suas conotações afetivas e interpessoais. Não que eles expressem isso abertamente, é claro. Na verdade, é isso que sempre falta nas narrativas kafkianas; é isso que mais claramente elas excluem e ignoram e ocultam, em todas as suas manifestações.

Há, sim, portanto, algo do homo domesticus nessas figuras a que se refere Borges; e, bom, a domesticidade é tipicamente canceriana. Por outro lado, nem sempre os heróis de Kafka – e muito menos os heróis de Câncer – são exatamente domesticáveis, no sentido de acatar ordens que não lhes falem ao coração. Por isso também a solução de uma ordem impessoal me parece insuficiente. De novo, o calor humano e os genuínos vínculos afetivos de que estão destituídos os heróis kafkianos não são coisas que eles sejam capazes de reclamar para si com todas as palavras – eles parecem nem chegar a ter consciência de que isso existe -, mas, precisamente por esse motivo, a carência se torna mais radical e pungente. Ainda assim, o calor e o acolhimento que buscariam, se soubessem que é disso que mais sentem falta, nada teria de vulgar, pois dizem respeito a uma forma de pertencimento que de maneira alguma se resume a um lugar numa ordenação burocrática ou mesmo num esquema familiar padronizado. Se Kafka parece tão radical em sua exibição do polo negativo desse espectro da experiência, é porque não estaria disposto a transigir em nenhum ponto com aquilo que lhe era mais caro.

De modo que desconsiderou o retorno proustiano ao passado como alternativa para um presente seco, estéril e deprimente, por exemplo. Não, a sensação de pertencimento que ele valorizava e queria não estava num mundo perdido que a narrativa poderia de algum modo recuperar. E, ainda mais notavelmente, não há praticamente nenhuma lembrança de conforto nas narrativas kafkianas, que parece desconfortável inclusive nas fotos de sua infância, como notou o filósofo Walter Benjamin. Não encontramos na história de seus protagonistas quase nenhuma menção a uma antiga de paz e felicidade, o que só torna mais perturbadora sua carência de qualquer esperança. “Há esperança sim, esperança suficiente, esperança infinita – só que não para nós”, ele teria dito, aliás, como também lembrou Benjamin. Esperança negativa talvez seja outro conceito adequado para descrever o sentimento que nos atravessa com a leitura da obra de Kafka.

Mas ele afirmou também que, se vivemos no exílio, se a nossa condição humana é da culpa e da falta, isso acontece “não apenas porque comemos da Árvore do Conhecimento, mas também porque ainda não experimentamos da Árvore da Vida”. Pois bem: suspeito que essa Árvore da Vida, com seus frutos e sua sombra, com suas raízes e suas folhas, é uma árvore canceriana. É ela, e não a pacífica domesticidade burguesa, que representa a verdadeira presença de Câncer na obra de Kafka. O fato de que não a tenhamos provado ainda talvez seja indício de uma esperança, assim com a ausência de qualquer outra menção a esse respeito, no restante da obra, além dessa passagem, pode muito bem ser a prova definitiva de sua existência.

E uma última observação. É possível que a crítica literária acadêmica séria fique um tanto escandalizada com esse tipo de interpretação da obra de autores tão complexos a partir de seu signo do zodíaco. Se ela já estremece diante de qualquer análise de uma obra que a reduza a reflexos de elementos da vida do artista, que se dirá da análise de uma obra a partir da data de aniversário do autor. Paciência: nesse espaço levamos a astrologia a sério, mas literatura é só na brincadeira mesmo. A crítica literária acadêmica séria, então, é algo que nunca deixa de ter lá sua graça.

De todo modo, no caso desse texto em particular, tenho o álibi de ter defendido que atributos do signo solar de Kafka estão absolutamente ausentes de seus textos. Isso, claro, para mim mostra mais uma vez a pertinência do viés astrológico. Mas ninguém pode garantir que não esteja fazendo algum tipo de volteio retórico para confirmar o cancerianismo kafkiano, pela via negativa, que já se tornou tradicional na leitura de seus escritos. Que seja. Ainda assim recomendo: quando for ler Kafka da próxima vez, repare bem, Câncer está lá, o acolhimento está lá, a Árvore da Vida está lá. Exatamente porque não está.

Enfim, pensando aqui agora, acho que vou passar a usar esse argumento agora todas as vezes que alguém me disser: “olha, meu signo é tal, mas nunca me identifiquei com ele, não pareço nada com o que dizem, acho esse negócio de signo a maior furada”. Quem diria, parei aqui para escrever uma postagem rápida e rasteira sobre Kafka e o signo de Kafka e de quebra acabei criando um todo novo caminho para a disseminação do saber astrológico, capaz de provar definitivamente mesmo aos mais incrédulos que esse negócio de signo existe sim e faz todo sentido. Grande dia. Está fundada a Astrologia Negativa.

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Um trem aqui no meu coração

Tsunami | Katsushika Hokusai

Uma coisa que não comentei quando fiz a enquete do grande vilão do zodíaco foi o resultado por equipes. O lapso é imperdoável, mas está em tempo de corrigir. Vamos lá então: somados, os signos de Água ficaram com 52 votos, os de Ar, 44, Fogo, 23, e Terra, 15. É um resultado até surpreendente se você pensar que o temido Capricórnio está entre esses últimos, que o próprio Satanás não contribuiu para uma melhor posição do time liderado por Áries, que nem Libra conseguiu aliviar a barra de Gêmeos e Aquário, e sobretudo que entre os grandes e incontestáveis líderes estão os chuchuzinhos cancerianos e os piscianos distraídos.

Mas o resultado faz sentido se a gente considerar que a gente tem sempre medo do que não conhece. E os signos de água são exatamente aqueles que preservam sempre algo de oculto – inclusive de si mesmos – de tal forma que o mistério é inerente a esses arquétipos. Peixes é um caso extremo de vai-saber-o-que-tem-ali-dentro; mas Escorpião é também um arquétipo onde se aloja uma série de ameaças subterrâneas, e mesmo Câncer é capaz de transformar um ambiente “familiar” – como o da própria família – em algo perpassado por estranhos segredos. Além disso, quando dizemos que uma pessoa é “de lua” – a regente canceriana –, de certo modo estamos afirmando que essa pessoa é volúvel e pouco confiável.

É claro que esse resultado diz muito pouco sobre os signos de água propriamente, mas talvez diga algo sobre nós mesmos. Ele diz que o que a gente mais teme no mundo são as nossas emoções, sobretudo quando entendemos que elas estiveram ocultas ou reprimidas até o momento em que resolveram aparecer com toda força. A linguagem que usamos nesses casos com frequência é indicação disso: nós nos sentimos “tomados” por nossas emoções, como se fossem bandidos armados que nos fizeram reféns; “inundados” por sentimentos, como se não tivéssemos conseguido represá-los; e “traídos” por nossos próprios afetos, como não diríamos que somos pelos nossos pensamentos, por exemplo.

É interessante então lembrar que, para a humanidade primitiva, pensamentos não eram algo que um indivíduo “tinha” – eram simplesmente algo que ocorria a ele, um pouco como entendemos as emoções hoje. Pelo menos é assim que Jung descreve o fenômeno do pensar nos primórdios da humanidade, parecido com a perspectiva adotada por uma pessoa em estado de meditação, que vê os pensamentos lhe ocorreram e se dissiparem, como se tivessem vindo do nada e voltassem para lugar nenhum. Mas talvez para os primitivos isso de pensar tenha sido uma experiência realmente atemorizante, tipo, “gente-que-que-isso-apareceu-um-trem-aqui-na-minha-cabeça”. Ih, pensei.

Hoje, porém, estamos mais na linha do “gente-que-que-isso-apareceu-um-trem-aqui-no-meu-coração”. Ih, senti. Nesse caso não estamos falando do coração leonino, centro pulsante de onde jorra o entusiasmo vital, mas de um órgão mais abstrato, que confundimos de maneira geral com aquilo que chamamos de alma. É verdade que no caso de Escorpião acontece também de a gente de repente sentir um trem em outras partes do corpo. Mas isso é só uma das tantas maneiras como podemos perder o controle da situação, de tal modo que os signos de Água estão todos associados a alguma forma de desatino.  

Seja como for, seja como acontecer, o que a gente percebe é que esse descontrole tem sempre um papel nos desdobramentos não só da nossa vida psíquica, mas também dos fatos da existência. Trânsitos de Plutão e Netuno, por exemplo – os regentes de Escorpião e Peixes – são famosos pelas intensas transformações e desenganos que trazem, mas são também geralmente seguidos por atitudes até outro dia impensáveis, e que só se tornaram pensáveis nas novas condições.  Algo semelhante pode acontecer com uma Lua Cheia carregada de desafios e possibilidades, por conta de seus aspectos com outros planetas ou com o mapa natal de um indivíduo.

Ou seja: muita coisa que consideramos ser nossas ‘decisões’ só nos ocorrem em meio às crises causadas por esses dúbios sentimentos ocultos que súbito assomam e tomam conta do cenário. Dizer que essas decisões foram tomadas a partir de uma central de controle operações e gerenciamento de crises que existe dentro da gente, enquanto as crises e o descontrole são fenômenos que atribuímos a algo que não somos nós, é o que me parece problemático nesse caso. Tudo acontece fora e dentro ao mesmo tempo; é tudo uma coisa só.

Há, por exemplo, quadros depressivos em que o que a gente sente na alma é só um vazio mesmo. Mas mesmo esse vazio é um lugar escuro e oculto onde uma nova luz pode vir a brilhar.  O normal aí é entendermos que ‘reagimos’ a uma depressão, como se ela nos tivesse tomado de assalto, e nós no final das contas tenhamos conseguido reassumir o ânimo necessário para enfrentá-la. Acontece que esse ânimo – que pode muito bem ser um fogo sagitariano, a propósito – está totalmente vinculado ao escuro e ao vazio de onde surgiu.  

Além disso, essas ‘decisões’ que tomamos para sair de uma situação emocionalmente complicada, ou a vitalidade que pode ressurgir após um longo processo de luto, talvez sejam igualmente algo que nos ocorre, algo que nos ‘toma’, algo que nos ‘assalta’. Os antigos sabiam disso: nós somos possuídos pelo entusiasmo da mesma forma como somos afogados em lembranças. Acho essa percepção importante, para que a gente não fique achando que precisa encontrar uma solução para uma crise, forçar um reerguimento inábil, quando na verdade ela virá na hora que deve.

Trata-se de confiar na capacidade do corpo de voltar a funcionar a pleno vapor, mas quando o combustível para isso estiver disponível. Às vezes, o que está tendo para o momento é um convite ao descanso mesmo (e ao cuidado, ao resguardo, à intimidade). Novamente, portanto: que a gente precise atribuir esse convite ou exigência a forças externas e ocultas, torná-las objeto de desconfiança e suspeita, e inclusive conferir-lhes os atributos da vilania, é algo que talvez diga mais sobre nossa sociedade do que sobre os signos de água mesmo.

Acho até que muita coisa do que a gente entende hoje como doença faz parte de processos naturais de regeneração da alma. O problema é que a gente separa a enfermidade da cura como se fossem duas coisas distintas, enquanto não têm como deixar de ser uma coisa só. Queremos nos associar àquilo que apresentamos de saudável e animado e produtivo ao mundo, e tratar como um inconveniente alheio à nossa vontade a parte da vida que saímos de cena para cuidar de um trauma, ou lamber as feridas.

Outro dia escrevi, meio que à brinca, meio que à sério, na postagem sobre os hipocondríacos do zodíaco, que Escorpião convive bem com estados febris que duram longos períodos, e que Peixes sabe inclusive curtir uma febrinha como ninguém. É sobre isso que estou falando. Ou seja: são capazes de deixar-se tomar por sensações inusuais, improdutivas de um determinado ponto de vista, mas indispensáveis para o processo de cura de outro. Deixam-se inundar até mesmo por delírios, sonhos e outras alucinações que podem muito bem revelar-se os melhores guias para sair de um labirinto ou de um pântano.

Enfim: talvez, se a gente exercitar um pouco mais esse aprendizado, ao invés de tratar os arquétipos de água como vilões, vamos enfim vê-los como aliados. Ou melhor, vamos vê-los como uma parte de nós mesmos que não se deixa controlar por nossa vontade, para nossa salvação, pois é assim que eles lavam a nossa alma de um monte de tralhas que vão se acumulando em seus recantos. Por isso, se as águas da alma lhe parecem misteriosas e ocultas, incontroláveis e delirantes, volúveis e imprevisíveis, trate-as com a mesma deferência com que gostaria de ser tratado. Pois é a si mesmo que você estará tratando, exatamente, e,  quando vier a próxima enchente de sentimentos, saiba que você não será inundado: você será a inundação.

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Inventar de novo o amor


Eu estava ouvindo esses dias a versão que meu amigo André Gardel gravou em seu último álbum para “Me and Bobby McGee”, canção que ficou famosa na voz de Janis Joplin. O Gardel é um desses librianos cariocas e descolados que a gente que é capiau do mato lá de Minas gosta de chamar de “meu amigo” em público – porque, né, dá uma incrementada na imagem. Ele costumava escrever crônicas literárias sobre futebol em que havia um personagem recorrente identificado como “o atleticano melancólico”, inspirado em minha humilíssima pessoa. Ele poderia me chamar também de “capricorniano melancólico”, ou de “capricorniano mineiro melancólico”, ou de “capricorniano mineiro atleticano melancólico”, dá mais ou menos no mesmo. Mas eu gostava do título, então nada mais justo que retribua a gentileza. 

A gravação da faixa é elegante, alto-astral, cheia de gingado (libriana, carioca, descolada). Tem a participação de uma vocalista, Samantha Jones, que também nos oferece um bem dosado tom de malemolência. Mas, talvez por isso mesmo, fiquei pensando em como a situação descrita na letra é dolorosa, e em como ela tem a ver com o par Câncer/Aquário no zodíaco. É difícil encontrar um motivo para falar desses dois num mesmo texto: Câncer diz respeito ao passado, ao apego, ao aconchego, às sensações de proximidade e pertencimento, e Aquário projeta-se para o futuro, é desapegado, livre, distante. A princípio as duas coisas andam separadas, ou pelo menos em descompasso. Mas quando a gente encontra uma canção que diz, “eu daria meu futuro / por um dia no passado [and I’d give all my tomorrows / for a single yesterday]”, a gente sabe que se deparou com as dimensões canceriana e aquariana da vida nos mesmos versos.

O fato de estarem juntos não quer dizer que estejam em sintonia. Há uma dissonância na ideia de que possamos ser apegados à liberdade. Faltou dizer que liberdade é o tema da faixa, que narra uma viagem musical de dois amantes para arremeter com o famoso refrão: “Freedom is just another word for nothing left to lose…”, a liberdade é só outra palavra para não ter nada a perder, e por aí vai. O detalhe é que canção inteira é também sobre perda, o sentimento da perda, e portanto sobre o apego àquilo que foi perdido. Todos os eventos que ela menciona estão situados em um passado distante, e não há fórmula invocatória capaz de trazê-los para o presente, a não ser sob a forma de ausências em geral e de uma pungente saudade em particular. Nenhuma barganha, e nem todos os amanhãs do mundo, vão trazer aquele momento com o Bobby de volta.

Mas é interessante como essa balada pungente e carente fez sucesso na forma de um blues roqueiro, no timbre singular de Janis Joplin. O ascendente de Janis era em Aquário, e isso deve ter alguma coisa a ver com o fato de que vamos sempre lembrar da imagem de hippie diferentona que a consagrou, com aquele jeitão meio destrambelhado de quem está na estrada sem lar e sem banho faz tempo (deve ter alguma coisa a ver também com o fato de ter se tornado um dos mais sintéticos ícones de Woodstock – segundo o cartaz, “an aquarian exposition”). Mas a Lua de Janis era em Câncer. Então, também não deve ser por acaso que sentimos lá no fundo de sua voz um blues inconsolável, de quem foi arrancado do lugar a que pertencia para ter que se virar no grande mundo.

Aliás, conheço uma outra gravação da faixa em que um de seus compositores, Kris Kristofferson, a anuncia em um show assim: “Essa é uma canção country, e é assim que ela deve ser tocada, como uma canção country”. Segue-se uma execução convencional, bonita e previsível, mais próxima do que aguardamos de uma balada sertaneja. Não conheço o histórico da polêmica ou desavença que isso parece indicar, mas esse modo meio autoritário ditar as regras para a execução de uma obra tem não apenas um sabor virginiano como também um elemento de Câncer, em seu apego à tradição de um gênero musical. Sei lá, talvez Kristofferson fosse canceriano – e a música sertaneja decididamente é, não apenas pelos temas da vida na terra natal e no campo (nesse sentido é igualmente taurina), como também pelos chororôs e pelos Xororós que a povoam, pelos chamegos que reclama, pelas dores que lamenta.

Em resumo, se me permitem a esquematização: o rock é aquariano, o country é de Câncer. Mas o rock poucas vezes se desprendeu de suas raízes no blues (os Rolling Stones, essas pedras desapegadas porém às vezes tão lamentosas, estão aí para nos mostrar isso), assim como o country e o sertanejo encontraram o futuro não somente através da guitarra elétrica, como também na frequente liberdade em relação a convenções musicais desgastadas, na experimentação com outros gêneros, no contraste entre seus fundamentos e a inserção de algum elemento totalmente particular – como a voz de Janis Joplin.

De modo que Aquário e Câncer podem sim conviver, e serão sempre mutuamente enriquecidos pela experiência de sua intersecção. Aquário, quando consegue introduzir o afeto no seu comportamento, torna-se irresistível; Câncer, quando se arrisca na inovação, é capaz de inventar de novo o amor.  Claro que não é fácil, claro que há conflito nessa relação, mas nem sempre como a gente imagina. Conheço mães que, se não são de Câncer, são do tipo canceriano, e se desesperam com a liberdade que beira a indiferença de seus filhos aquarianos. Mas conheço também mães do tipo aquariano, que estão longe de estimular o apego em seus filhos, e querem mais é que eles criem asas, ou então deixem o cabelo crescer, montem uma banda de rock e saiam mutcholokos por aí.

Há, por último, a questão dos vínculos humanos a que ambos dizem respeito. Câncer rege a família, e Aquário as relações em rede, os grupos impessoais, em última análise nosso vínculo com a Humanidade. Aqui mais uma vez dá pra ver como as relações Câncer/Aquário podem sobrepor-se e variar. O indivíduo pode tanto entender que a Humanidade é sua família, quanto sentir-se diferente e deslocado onde deveria ter um senso de pertencimento. Interessante notar também que a Era de Aquário foi saudada pela geração hippie como um momento de libertação em que os indivíduos humanos iriam reencontrar uma conexão entre si, independente dos vínculos familiares e sociais. Muitos previram que a essa altura estaríamos interconectados pela telepatia. Em certo sentido acertaram, porque em linhas gerais estavam prevendo a internet.

Foi um revertério inesperado que a internet tenha afinal servido para reforçar preconceitos e bairrismos, através – por exemplo – do grupo da família no Whatsapp. Mas Câncer não é o único arquétipo responsável pelo mau uso da rede: Gêmeos contribui com a mentira, Leão com a vaidade, Escorpião com a deep web, e o próprio arquétipo aquariano não é tão neutro quanto gostaria de parecer. Do mesmo modo, sabemos hoje como a transmissão de carinho e cuidado através de frios sinais digitais é totalmente possível. Mais uma vez, Câncer e Aquário se mostram capazes de trabalhar bem juntos, porque representam não exatamente o passado e futuro, mas duas formas de presença em que se conciliam o afeto e a liberdade.

Enfim, não será preciso reinventar o amor, porque há bastante amor circulando por aí em todos os meios e mensagens – basta sintonizar nossas antenas para recebê-lo e compartilhá-lo. A gente espera que também não seja necessário redescobrir a liberdade, mas felizmente teremos sempre Janis para nos lembrar de que um dia ela foi possível e valeu a pena. “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”, o Gardel deu um jeito genial de colocar lá em sua versão, citando livremente Pessoa. Talvez o Kristofferson não gostasse muito desse tipo de folga. Paciência. “Me and Bobby McGee” foi inventada de novo, para que a gente sinta com frescor e alegria a falta que o Bobby faz.

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Camadas de memória

[Foto: Elliot Erwitt]

“Os mortos” é um conto do escritor irlandês James Joyce em que se narra um tradicional jantar de Noite de Reis na Dublin do início do século XX. O protagonista é Gabriel Conroy, sobrinho das anfitriãs, queridinho das tias, homem de família, responsável pelo bom andamento dos ritos cerimoniais (como destrinchar o frango e controlar a língua do tio bêbado). Tudo se passa como teria se passado nos anos anteriores, exceto por uma ou outra indicação de que algo não anda bem. No final da história, Conroy vai descobrir como aquele senso de continuidade é uma espécie de ilusão, ao escutar o relato de sua mulher sobre um jovem que teria literalmente morrido de amores por ela no passado distante. Logo fica claro que, após a lembrança súbita da morte do rapaz, ela estivera pensando nele a noite inteira.

A maneira como a morte, o sofrimento e a paixão irrompem no encerramento do texto é notável. Não que elas não estivessem lá o tempo todo, ocultas, insinuadas no destrinchar do frango e nas conversas elegantes, porém reprimidas pelas rotinas civilizatórias de que falou Sigmund Freud. O mesmo Freud, aliás, que teria dito que os irlandeses são o único povo impermeável à psicanálise. Isso pode ser lido como um atestado de sua simplicidade, mas também como uma referência a seu compulsivo apego à terra pátria e suas tradições. Nesse sentido, a ruptura que se estabelece na experiência do protagonista de Joyce é significativa. Atordoado com a percepção de recantos traumáticos da memória em suas camadas sobrepostas, de repente ele se torna um irlandês complexo e, por assim dizer, psicanalisável.

É sobre essas camadas, de um modo mais geral, que eu gostaria de falar. Os arquétipos de água – Câncer, Escorpião, Peixes – são aqueles em que está o passado, aqueles em que estão nossos mortos. No caso de Câncer, o interessante é que os mortos ainda estão vivos. Eles são o papai, a mamãe, o vovô, a vovó, ou seja, as pessoas através das quais – se tudo ocorrer dentro do esperado – nós entraremos em contato com a finitude. Exatamente por ser uma experiência de continuidade e pertencimento, Câncer aloja a percepção mais imediata da ruptura. É a perda do que temos de mais familiar. A memória canceriana é a lembrança de coisas que estiveram aqui há pouco tempo, a lembrança de lugares em que vivemos até outro dia, e de pessoas com quem convivemos o suficiente para tornar sua presença um hábito doce e confortável.

Já o jogo de desenterrar do passado coisas estranhas das quais já não havia resquício de lembrança foi inventado por Escorpião (e, em certo sentido, por Sigmund Freud). É uma brincadeira perigosa, mas potencialmente terapêutica e restauradora, pois o que foi reprimido emerge destruindo o que já não tem condições de existir. Os mortos e esquecidos ganham vida para mostrar que o que parece vivo na verdade já está morto. A crise plutônica é um abalo sísmico, que deixa um lastro de destruição de tudo o que considerávamos mais inabalável; por outro lado, o terremoto faz surgir ruínas arqueológicas em que nos reconhecemos. Não importa que sejam sejam indícios de épocas violentas; o passado em Escorpião é justamente aquilo que foi soterrado para dar lugar a uma versão mais sensata e civilizada de nós mesmos.

Agora, se em Câncer os mortos são familiares que se afastam, se em Escorpião os mortos são estranhos que se reaproximam, em Peixes estão TODOS os mortos. A memória pisciana é a presença indistinta de ancestrais longínquos e das pessoas próximas; em última instância, do mesmo modo como perde a noção de realidade e de sonho, ela não consegue distinguir uns dos outros. Porém essa imersão no oceano da ancestralidade cria a possibilidade de percepção daquilo que preexiste a cada indivíduo, e que se revela em cada história individual, ou seja: um inconsciente coletivo traduzido na forma de arquétipos. A diferença da abordagem psicológica junguiana em relação à de Freud reside sobretudo no delineamento dessas histórias, e da maneira como as representamos. Não por acaso, Jung dedicou todo um livro ao “arquétipo do si-mesmo”, que seria um arquétipo em separado e ao mesmo tempo uma reunião de todos os arquétipos, correspondendo em todos os aspectos a símbolos piscianos.

Há, portanto, a experiência de uma vinculação imediata ao passado, que se traduz na percepção da perda; uma relação fraturada com o passado, que se revela na crise, na lembrança do trauma, na chance da restauração; e uma imersão oceânica no passado, em que está a imprecisa memória de todas as coisas próximas e distantes. No conto de Joyce, as três se sucedem, de tal modo que no final da história Gabriel Conroy vai até a janela: “Sua alma desmaiava lentamente, enquanto ele ouvia a neve cair suave através do universo, cair brandamente, como se lhes descesse a hora final, sobre todos os vivos e todos os mortos”. Uma solução pisciana para um texto que começa em Câncer (o jantar em família), prossegue em Escorpião (o retorno do reprimido), e termina reunindo-os todos sob a mesma neve. Há nesse desfecho uma promessa de descanso que pode muito bem ser uma ilusão. Seja como for, ele termina juntinho com o zodíaco: buscando a paz em uma saída de cena, e na conclusão de todas as histórias que existiram, existem, e estão por existir.

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Quatro casamentos e um funeral

[Marc Chagall | As luzes do casamento (1945)]

No dia em que eu defender minha tese no Instituto Hogwarts de Altos Estudos Astrológicos, ela provavelmente vai se chamar Da Natureza do Escorpião: um estudo comparativo do mais capetudo arquétipo do zodíaco. A seguir, algumas anotações também sobre Touro, Câncer e Libra, para o capítulo 7, “A questão do casamento”.

TOURO: A questão do casamento surge em Touro. Mas não é ainda um problema cultural intrincado, talvez nem seja exatamente uma “questão”. A união é assunto de subsistência, tem um vínculo imediato com ritmos naturais de reprodução, e envolve um tipo de sensualidade imediatamente vinculada às necessidades e preferências do corpo. Sexo taurino é sexo simples e gostoso. Taurino é o casamento camponês de Levin e Kitty com que Tolstoi encerra o Anna Karenina. Mas simplicidade não significa escassez. O banquete da casamento como celebração da fertilidade do solo e da abundância dos frutos da terra é um fenômeno que acontece no arquétipo de Touro.

CÂNCER: Em Câncer, o casamento ganha uma dimensão social. Envolve não apenas os noivos como também a família, a aldeia, a comunidade. Marc Chagall era canceriano. Suas pinturas de casamentos têm uma ambientação com elementos piscianos, um clima de sonho, mas não deixam de nunca de evocar as tradições da aldeia eslava ou balcânica. Em Câncer, o casamento acontece não apenas na aldeia, mas é algo que acontece à aldeia como um todo. Nesse sentido, casamentos não são apenas uniões e constituição de novas famílias, mas também separações nos lares de que se despedem os noivos. E esse é um dos motivos pelos quais casamentos são felizes e tristes ao mesmo tempo; seu aspecto sentimental é arquetipicamente canceriano.

LIBRA: Em Libra o casamento é o triunfo da inteligência e da diplomacia humanas na resolução de conflitos. Aquilo que Northrop Frye chamou de “predominância do princípio de sociabilidade” ao tratar das comédias de Shakespeare, que geralmente terminam em casamentos. Assim como os casamentos de Chagall compõe-se de Peixes + Câncer, Sonho de uma noite de verão, a comédia shakespereana mais onírica, é Libra + Peixes. Tão destituída de elementos terrenos que praticamente se desprende do solo, porém ainda dependente de algum grau de estratégia para chegar a um final feliz. Qualquer comédia romântica tem um forte componente libriano, é claro. Ao mesmo tempo, em Libra o casamento é um contrato, que prevê equidade e equilíbrio.

ESCORPIÃO: Em Escorpião o casamento não é uma necessidade, não é uma celebração, não é um contrato: é uma morte. Confunde-se com a união sexual, a “pequena morte” do orgasmo, que o simboliza e sacramenta. Mas não é o sexo reprodutivo ou mesmo o sexo gostoso de Touro: trata-se de uma fusão transformadora radical que se dá por trás dos panos, por meio da liberação de energias represadas por um longo tempo. O bom senso taurino, a comunalidade canceriana e a justiça libriana não dão as caras. O que acontece aqui pode muito bem ser bizarro, isolado e desigual.

Em Libra, a propósito, a união presume certa distância, capaz de resguardar o casamento dos riscos da indistinção entre o eu e o outro. Em Escorpião assume-se esse risco. O casamento libriano requer qualidades que atribuímos à amizade, como a admiração mútua e o respeito; o casamento escorpiônico pode prescindir delas. Um amigo uma vez me disse que “o casamento é a relação mais promíscua que existe”. Dá para entender bem essa frase se pensarmos no casamento em Escorpião, não exatamente por causa do sexo, mas por causa do tipo de fusão (e confusão) emocional da intimidade monogâmica, da permissividade afetiva gerada pelo convívio cotidiano. O fim de todos os limites do respeito e da moralidade podem ser experimentados através do casamento. Naturalmente, o ideal é que não seja assim, ou que os limites da moralidade sejam rompidos entre quatro paredes de formas mais renovadoras e catárticas.

Mas o fato é que atitudes e sentimentos normalmente considerados indesejáveis encontram seu lugar no mundo no arquétipo de Escorpião. Acho que fiquei com vontade de fazer essas anotações depois que outro dia li o seguinte nas reflexões diárias um astrólogo que admiro: “Não se permita o exercício da maldade, a não ser que seja por vingança”. Tive que ler duas vezes antes de pensar: ah, é claro, a lua está em Escorpião. Em Escorpião vingança pode, tem justificativa cósmica e licença poética. Por causa da história da fusão e da confusão. Ódio também é ok, às vezes. Mau humor nem se fala: o mau humor é totalmente permitido quando as coisas estão em Escorpião.

O fascinante nesse signo é como o certo se torna errado e o errado, certo. Quanto a parcerias e casamentos, cada um é de um jeito e todos têm um pouco de todos os tipos. Comida, sexo, comunhão e equilíbrio são sempre importantes. Mas existe sempre algo estranho que foge à nossa visão ordinária de como as coisas são ou devem ser. Esse algo é fundamental.

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Estatísticas

Agradeço a todo mundo que atendeu ao meu apelo para contar o ascendente pelas redes sociais. Agora enfim tenho uma amostra considerável para oferecer minha contribuição ao desenvolvimento da ciência astrológica com o máximo rigor metodológico. Em seguida, apresento alguns dados do DATAGUS acompanhados das respectivas análises qualitativas:

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em ÁRIES foi de 5,8% do total. Porém, sabe-se que a conclusão da amostragem não corresponde à realidade. Tem muita gente com ascendente em Áries que já não está em rede social nenhuma. Saíram fora dessa.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em TOURO foi de 8,33333%. Foi o único signo cujo número correspondeu a exatamente 1/12 do total. O pessoal de ascendente em Touro é objetivo. Quando a gente pergunta o ascendente eles respondem “Touro”, e mantêm-se impassíveis, como que esperando a gente dizer alguma coisa a respeito. Mas nessas horas costumo perceber lá no fundo de seus olhos um desconcertante lampejo de sarcasmo.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em GÊMEOS foi de 8,8% do total. Desses, quase metade respondeu “Gêmeos kkkkkkkkk”. Deve ser divertido ter o ascendente em Gêmeos.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em CÂNCER foi de 7,5% do total. Infelizmente, nenhum deles me convidou para tomar um café e comer um bolinho na casa deles. Tomar café e comer bolinho na casa do ascendente em Câncer é especial. Convida aí, pessoal, que eu aceito.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em LEÃO foi de 12,3% do total. Outro número que com certeza não corresponde à realidade. Ter ascendente em Leão é o máximo. Tem gente que diz só pra aparecer.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em VIRGEM foi de 10,3% do total. É um número alto, mas possivelmente correspondente ao número de indivíduos vivos com este ascendente. Mesmo o pessoal com a Lua em Peixes ou Marte em Gêmeos uma hora resolve fazer tudo certinho e manter uma rotina saudável, se tiver o ascendente em Virgem. O percentual se explica pela longevidade.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em LIBRA de foi 8,6% do total. Uma breve análise das fotos de perfil confirma a fama desse ascendente. Ô gente bonita, meu Deus.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em ESCORPIÃO foi de 4,2% do total. O índice extremamente baixo é fácil de explicar. Um ascendente em Escorpião não vai sair contando isso por aí (eu, por exemplo, não conto). A propósito, 100% dos indivíduos que responderam com “quero ver vc adivinhar” tinham ascendente em Escorpião. Já três indivíduos perguntaram se isso de ter ascendente em Escorpião é grave. Dois deles, anonimamente.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em SAGITÁRIO foi de 8,0% do total. Metade desses já sabia tudo sobre ter ascendente em Sagitário. A outra metade pediu bibliografia.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em CAPRICÓRNIO foi de 6,9% do total. Aqui também acho que há uma distorção. Muitos não responderam a pesquisa porque estavam trabalhando em um projeto. Ascendente em Capricórnio está sempre trabalhando em um projeto.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em AQUÁRIO foi de 9,1% do total. Aqui temos um caso muito singular, mesmo para meu círculo de conhecidos: dois a cada três desses indivíduos são estudantes de humanos. Ops, de humanas. Mas faz sentido. Sempre tenho a sensação de que Aquário é gente de outros planetas que resolveu passar um tempo na Terra por algum motivo. No caso do ascendente agora está claro. Vieram nos pesquisar.

Enfim, o número de indivíduos que declararam ter ascendente em PEIXES foi de 6,4% do total. Aqui acontece algo aparecido com o ascendente em Áries. A diferença é que o ascendente em Peixes não está fora só das redes sociais. Ele está a caminho de estar fora da sociedade mesmo. Faz muito bem.

A propósito, dos 1,7% que responderam “ih não lembro”, presume -se que a maioria tenha ascendente em Peixes.

Por enquanto é isso. Estaremos em contínuo trabalho de processamento e análise das informações. A qualquer momento pode sair um novo relatório. Mais uma vez obrigado.

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Como morrem os signos

O Sétimo Selo, dir. Ingmar Bergman (1957)

Áries morre no calor do combate. Nem chega a ver o rosto da morte. Não sofre por antecipação: o golpe é fatal, súbito e exato.

Touro vê a morte de longe, depois vê a morte chegando, e vai se aproximando dela, até que se encontram. Nada altera seu caminho.

Gêmeos pode até aceitar a morte, só queria ter uma conversa com ela antes: “Isso de morrer, precisa mesmo?”, “esse seu trabalho, é meio pesado né?”, “lá pra onde a gente vai, tem internet?”

Câncer odeia a morte. Queria que ela morresse. Mas ia ficar triste se morresse mesmo.

Leão desafia a morte. Não tem chance de vencê-la, mas faz parecer que tem. Sua morte é uma derrota, mas uma derrota trágica, bela e gloriosa.

A morte de Virgem é um rito. Ela é recebida em um lugar adequado e com os utensílios corretos. Até para morrer existe um jeito certo.

Libra também conversa com a morte, e começa tentando fazê-la mudar de ideia. Depois aceita que a morte é inevitável. Acaba concordando com ela em inúmeros outros assuntos também.

Escorpião morre várias vezes na vida. Tantas que faz amizade com a morte. É com carinho que a recebe na última visita. “Vem cá minha velha”, diz, cheio de intimidades.

Sagitário tem uma teoria a respeito da morte, e vai explicá-la para a morte quando a morte chegar. Vai ser a maior viagem, mas a morte vai achar interessante e vai ouvir até o fim.

Capricórnio respeita a morte, sabe que ela está aí há muito tempo. Morrer é uma coisa que todo mundo faz, não vai ser ele que vai inventar moda do contrário.

Aquário recebe a morte como um convite para entrar em um clube, tipo ingressar em uma associação: “Tô nessa, quero participar também”. Mas Aquário pode sentir exatamente o contrário, a morte como oportunidade de deixar de participar do clube dos vivos: “enfim”, diz, “tire-me daqui”.

Peixes se rende à morte como se rende ao sono, deixa que ela leve peça por peça, entrega os pontos. E, se tem alguém que consegue enganar a morte, esse alguém é Peixes, quando finge que está jogando para vencer, e na verdade não está nem prestando atenção no placar do jogo.

capricórnio, câncer

Gratidão pelos morros

[Alberto da Veiga Guignard, Paisagem Imaginante]

“Ele olha em direção aos aos morros, através da porta de vidro e do muro de pedra no fundo do pátio. Tem uma sensação de gratidão, e não sabe direito por quê, talvez seja gratidão pelos morros”. Essa passagem está no primeiro capítulo do Não Diga Noite, um romance do escritor israelense Amós Oz. Sempre achei que há algo de capricorniano nesse personagem, nesse romance, nesse deserto. Porém esse post não é sobre Capricórnio – quer dizer, é também, mas é mais sobre gratidão mesmo. Essa gratidão pelos morros.

É que ontem, quando fui dormir, às cinco e meia da manhã, senti um frio úmido que me fez lembrar a época em que era professor substituto na federal de Ouro Preto, uns nove anos atrás. Mas as semelhanças terminam aí. Naquele tempo eu tinha acabado de me separar, acumulava um monte de dívidas, estava exausto não só de trabalho mas também de ansiedade, e “morava” em um quartinho isolado de uma pequena pousada, que nem sempre tinha cobertores capazes de aguentar o inverno da cidade.

Eu gostava de dar aulas lá, amava os alunos (se alguém estiver lendo: love u), mas estava longe do meu filho, que ficou morando com a mãe no Rio de Janeiro. Essa parte não foi nem um pouco fácil pra ela também. Agora, em 2019, quando não durmo à noite, é felizmente porque estou perto demais do meu outro filho: perto o suficiente para escutar cada respiração, cada ranhetada, cada início de choro. Minhas dívidas estão pagas, vivo em um apartamento bastante confortável. O filho mais velho chega daqui a pouco para ver o irmão. Mesmo dormindo pouco, só sinto frio no instante antes de me aquecer bem sob as cobertas. Apesar de todo o resto que anda acontecendo no Brasil e no mundo, tenho que reconhecer que para mim as coisas andam bem.

Isso me fez lembrar dois poemas do Raymond Carver, um autor estadunidense, que traduzi um tempo atrás. Vou deixá -los aqui no final desse post. Outro dia escrevi sobre a dinâmica do conforto e da privação no eixo Câncer-Capricórnio, a maneira como esses dois arquétipos lidam com as dificuldades e o sofrimento (a justa revolta canceriana contra a dor, a estoica aceitação capricorniana das privações da vida), e só agora percebi como o assunto está presente nesses poemas.

Em um deles, se sucedem alguns sonhos e imagens de uma noite intranquila e mal-dormida. Carver se vê dentro de um avião taxiando pela pista durante uma viagem à Argentina com a mulher. Logo surge a lembrança de uma época anterior, em que morava precariamente em um motel de beira de estrada em Palo Alto. Ele menciona uma manhã em que, sentado na cama do motel, “barbeado”, finalmente conseguiu decidir ligar para um amigo para pedir 75 dólares emprestados (o amigo não tinha o dinheiro).

O poema prossegue com mais uma passagem sobre o avião no lusco-fusco em Buenos Aires; termina com uma menção ao momento presente, na manhã depois do sono atravessado por essas imagens. Ele está na sala se casa, com a mulher. Ambos olham pela janela, está nevando lá fora. Ele diz a ela que não conseguiu dormir bem, ela diz que ela também não. “Nós estamos extraordinariamente calmos e cuidadosos / um com o outro, como se percebêssemos / o frágil estado de nervos de cada um. / Como se um soubesse o que o outro está sentindo. Nós / não sabemos, é claro. Nós nunca sabemos. Mas não importa. / É sobre o cuidado que estou falando. / Essa é a dádiva que hoje de manhã / me fez levantar da cama e começar o dia. / Como em todas as outras manhãs”.

O segundo poema é mais breve. Fala de uma situação em que ele e a mulher estão procurando um par de pantufas pela casa, e da alegria que sentem ao encontrá-lo. O contraste, no caso, é com a situação de um casal que conhecem e que está prestes a se separar. Os versos repetem a situação de “Iniciantes”, também conhecido como “Do que falamos quando falamos de amor”, o conto mais famoso de Carver. Em “Distância”, outro relato desse mesmo livro, ele trata de um jovem casal que passa a noite acordado por causa de um bebê, da maneira como brigam e se reconciliam abraçando-se e dançando na cozinha na manhã seguinte, e de como o pai conta essa história para filha muitos anos depois, quando ele e a mãe dela já estão separados.

Ou seja: essas cenas cancerianas de felicidade doméstica, de conforto e de conciliação, de entendimento e calor humano, sempre surgem em contraste com o frio lá fora, com as circunstâncias mais difíceis de outras pessoas, com as circunstâncias mais difíceis de outros tempos, com as circunstâncias diferentes do longo prazo, do futuro. É o eixo Câncer-Capricórnio, do aconchego e da privação, dos ciclos lunares e saturninos, em pleno funcionamento.

E é esse contraste que nos faz perceber a importância e o valor de coisas pequenas mas inestimáveis, e de outras nem tão pequenas assim. Entende-se que elas também são transitórias, que os tempos mais fáceis também vão passar para uns, enquanto retornam para outros. Casamentos se desfazem aqui e ressurgem ali, o dinheiro desaparece e volta a entrar. Carver tem uma noção clara desses ciclos, talvez por ter vivido todos esses contrastes em sua vida pessoal.

A poesia do final da sua vida é basicamente sobre a gratidão, no período tranquilo em que ele conseguiu sobreviver a uma série de problemas de saúde decorrentes do alcoolismo. Alguns poemas são quase piegas, pra falar a verdade. Capricórnio odeia piegas; para mim a própria palavra “piegas” é de uma pieguice sem tamanho. Mas às vezes eu gostaria de ser piegas que nem o Raymond Carver.

E agora, num momento em que vejo tantos amigos passando momentos difíceis, exaustos de trabalho e de ansiedade, com medo do futuro, queria conseguir ser pelo menos um pouco piegas, para dizer a eles que esses ciclos são verdadeiros e que os bons tempos ainda virão, que as coisas vão melhorar, que a gente vai ser feliz se novo. Eu acredito nisso. Capricórnio odeia ser piegas, mas a gente gosta de ser realista, e isso de que a vida tem essas oscilações é pra mim a realidade.

Lembro que, na pousadinha lá em Ouro Preto, às vezes eu não conseguia dormir, e não tinha o que fazer a não ser sair do quarto um pouquinho. Lá fora dava pra ver algumas montanhas de Minas. Acho que não disse isso antes, mas, além de capricorniano, sou mineiro. Tenho uma amiga que disse que isso nem devia ser permitido, mas agora que já nasci tá valendo. Então, mesmo com todos os problemas, era bom ver aquelas montanhas, estar perto delas, sentir que elas estavam ali, imóveis, perenes, silenciosas.

Mas, aqui em casa, quem é especialista nesse sentimento de pertencimento à terra natal é minha mulher, que é mineira e canceriana (permitiram isso também). De minha parte, acabei deixando as montanhas pra trás, sem muito remorso nem sentimentalismo. Se agora lembro daqueles morros, e sinto gratidão por eles, é porque sem eles – e sem aquele momento da minha vida – eu dificilmente saberia como esse momento de agora é bom, porque eles me fizeram entender alguns ciclos, porque tudo que me acontece hoje de certa forma já estava lá.

Sem o frio que senti naquela época, eu não saberia como está quentinho aqui agora. Uma coisa nem existe sem a outra. Então, o Gustavo que levantava no meio da noite naquele quartinho de pousada para olhar as montanhas está olhando para esse que está aqui agora. Nós nos reconhecemos, tristes, capricornianos, mineiros. Mas, por um momento, ainda assim, estamos sorrindo.


CUIDADO

Raymond Carver (trad. Gustavo Naves)

Uma chuva fina começou a cair durante a noite. Gotas

minúsculas escorrendo pela janela, a chuva

cobrindo o horizonte. Observei por um tempo, deitado

na cama. Feliz por estar aqui, e em nenhum outro lugar.

Tinha esfriado. Ajustei o aquecedor, cobri seu ombro.

E voltei para a cama, fechando os olhos em seguida.

Mas por alguma razão, antes de voltar a dormir,

me lembrei de uma cena no aeroporto de Buenos Aires

na noite em que deixamos a cidade.

Como o lugar estava deserto e parado!

Totalmente quieto, exceto pelo som de nossas turbinas

enquanto o avião colocava-se em movimento

taxiando para a pista de decolagem sob a chuva fina.

As janelas do edifício do aeroporto estavam escuras.

Ninguém por perto, nem mesmo uma equipe de solo.

“É como se o lugar inteiro estivesse de luto”, você disse.

Abri os olhos. Por sua respiração

Percebi que você dormia profundamente. Da Argentina

minha memória me levou para um lugar

em que morei por um tempo em Palo Alto. Não chovia nunca

em Palo Alto. Mas eu tinha um quarto

com duas janelas de frente para a estrada de Bayshore.

Uma geladeira ficava ao lado da cama.

Quando eu ficava desidratado no meio da noite

tudo o que eu tinha que fazer para matar a sede

era esticar o braço e abrir a porta. A luz lá dentro

mostrava o caminho para uma garrafa de água gelada.

Havia uma panela e um ebulidor no banheiro.

Enquanto eu me barbeava, a água fervia

ao lado de um pote de café.

Uma manhã eu estava sentado na cama, vestido, barbeado,

tomando café, adiando o que tinha decidido fazer. Finalmente,

disquei o número de Jim Houston em Santa Cruz.

E pedi 75 dólares emprestados. Ele disse que não tinha.

A mulher dele tinha ido para o México naquela semana.

Ele simplesmente não tinha o dinheiro. Andava apertado

naquele mês. “Tudo bem”, eu disse. “Eu entendo”.

E eu entendia. Nós conversamos um pouco mais,

e então desligamos. Ele não tinha o dinheiro. Terminei

o café mais ou menos enquanto o avião decolava.

Me virei no assento para uma última olhada

nas luzes de Buenos Aires. Então fechei os olhos

para a longa viagem de volta.

Esta manhã uma neblina cobriu tudo. Nós falamos sobre isso.

Você me diz que não dormiu bem. Eu digo

que também não. Você teve uma noite terrível. “Eu também”.

Nós estamos extraordinariamente calmos e cuidadosos

um com o outro, como se percebêssemos

o lamentável estado de espírito de cada um.

Como se um soubesse o que o outro está sentindo. Nós

não sabemos, é claro. Nós nunca sabemos. Mas não importa.

É sobre o cuidado que estou falando.

Essa é a dádiva que hoje de manhã

me fez levantar da cama e começar o dia.

Como em todas outras as manhãs.


PANTUFAS

Raymond Carver (trad. Gustavo Naves)

Quatro de nós conversando naquela tarde.

Caroline contando seu sonho. Como uma noite

ela acordou latindo. E com seu cachorrinho, Teddy,

assistindo tudo ao lado da cama. O homem

que era o marido dela na época também estava lá

enquanto ela contava o sonho.  Ouvia atentamente.

Até sorriu.  Mas havia algo em seus olhos. Um jeito de olhar,

e um semblante. Todos nós já passamos por isso…

Na época ele já estava apaixonado por uma mulher

chamada Jane, embora este não seja um juízo

sobre ele, ou Jane, ou qualquer outra pessoa.

Todos passaram a contar um sonho.

Eu não tinha nenhum para contar.

Olhei para seus pés, recolhidos sobre o sofá,

de pantufas.  Tudo que pude pensar em dizer,

mas não disse, foi em como aquelas pantufas

ainda estavam quentes

na noite em que as peguei

onde você as tinha deixado.

Mas uma colcha caiu e deixou-as cobertas

durante a noite. Na manhã seguinte,

você as procurou por todos os lados.

Até que sorriu e disse, “Achei!”

É uma coisa simples, eu sei, e entre nós.  Ainda assim

é uma coisa importante. Aquelas pantufas perdidas. E

aquele sorriso alegre.

Tudo bem que aconteceu

um ano ou mais atrás. Poderia ter sido ontem,

ou anteontem. Qual a diferença?

alegria, e um sorriso.

capricórnio, câncer

Saudade e melancolia

[Édouard Manet – Un bar aux Folies-Bergère]

Câncer e Capricórnio. Quando me sugeriram um texto sobre esses dois pensei que a maior dificuldade seria o recorte. Trata-se de um eixo de opostos complementares onde acontece a conexão de algumas dualidades importantes: a memória e a história, a família e o estado, a pátria e a nação, a vida comunitária e a ordem social, o afeto e a responsabilidade. Mas não tinha me tocado ainda de que o maior problema seria de ordem pessoal. Sou capricorniano, casado com uma canceriana, e falar sobre a interação desses dois arquétipos será sempre falar sobre meu casamento, ou pelo menos a partir dele.

Agora talvez mais do que nunca. Porque com o nascimento do Gabriel nós nos tornamos uma mãe canceriana e um pai capricorniano (tradicionalmente, o elemento materno e o paterno estão no eixo Câncer-Capricórnio). E embora a gente não corresponda à imagem estereotípica dessa combinação – cá está o “pai capricorniano” falando de assuntos domésticos num blog sobre astrologia, enquanto a mãe aproveita a soneca do bebê para revisar um artigo sobre questões militares para ser publicado na Cambridge University Press ou algo parecido –, nós, de fato, vestimos a carapuça do arquétipo em alguns aspectos. Ou em muitos, na verdade. O difícil, de novo, é escolher.

Mas anteontem passamos por um desses momentos importantes e decisivos de um casal cuidando de um recém-nascido: as primeiras cólicas. E, naquele momento, acho que fui totalmente capricorniano, e ela, a verdadeira encarnação de Câncer. Não é que eu tenha sido ríspido ou impaciente, e ela excessivamente sentimental; as coisas são mais interessantes e sutis do que isso. A questão é que, enquanto ela se desdobrava em pesquisas e consultas para tentar resolver o problema, eu adotava a postura de quem já viu isso antes, e não vê outra solução que não seja deixar passar.

De fato, já vi isso antes, porque já tive outro filho. Mas faz tempo, e é bem possível que tenha mantido a mesma postura impassível na primeira vez. Aliás, poucas coisas irritam mais o não-capricornianos do que essa nossa tendência manter um certo ar de que está “tudo sob controle” durante a catástrofe, mesmo quando não tem nada sob controle. No caso, não havia; vocês sabem do que estou falando; aquele momento em que a criaturinha mal chegada da maternidade mostra que é capaz de despertar a vizinhança inteira se quiser. E o pai capricorniano lá, plácido e impassível, achando até bonita aquela expressão das forças elementares da natureza no processo de evolução orgânica de um corpo saudável.

Não sei quem é mais maluco, se eu ou ela que achou que ia resolver o assunto com uma massagenzinha milagrosa que descobriu em um canal do youtube (malucos somos todes, é claro). O ponto aqui não é quem tem razão, mas a base de cada uma desses sentimentos e atitudes. Pois creio que, no caso de Câncer, ela está em sua capacidade de considerar a dor algo extraordinário e inaceitável, motivo de revolta inclusive, uma vez que seu vínculo com uma sensação uterina de bem-estar no mundo é imediato, sua lembrança do conforto é recente, e, portanto, o rompimento com esse estado só pode ser visto com assombro (e com a urgência de revertê-lo). Enquanto em Capricórnio o conforto e o bem-estar são apenas reminiscências distantes, incluindo aí o calor humano da família e do lar.

A cabra vive em um território áspero e seco, longe do convívio com os outros bichos. Fatalista, aprendeu a tolerar alguns sofrimentos que considera inevitáveis. E além disso vê o mundo de cima, em uma perspectiva panorâmica que retira singularidade dos objetos e dos fenômenos, reunindo-os em um mesmo conjunto de coisas e acontecimentos. Sua melancolia decorre do sentimento de que não há nada de novo sobre a terra; de que tudo já foi vivido, experimentado, pensado; de que os ciclos se repetem com a força dos ritmos geológicos e planetários, e há pouco que se possa fazer para evitá-los, o jeito é aguentar.

Já do ponto de vista do caranguejo, tudo conta; cada mínimo episódio de sua existência é insubstituível; nada daquilo voltará a acontecer tal como aconteceu, quando aconteceu, onde aconteceu. A saudade canceriana é pungente porque carrega o sentimento de que algo único foi perdido, e pode ser dilacerante quando nela se dá a imprevista percepção do irremediável. Não há argumentos, por mais inteligentes que sejam, que façam Câncer alcançar o ponto de vista da cabra, primeiro porque a inteligência tem muitas faces, e segundo porque vão ser sempre argumentos, contra os quais ele apresentará os fatos de nossa humana condição.

Marcel Proust era canceriano. Em Busca do Tempo Perdido é um título canceriano até demais. Não surpreende que seja um portentoso empreendimento literário de recuperação das sensações mais efêmeras, dos momentos mais prosaicos, das situações mais singulares da vida do narrador – sempre ostentando seu fracasso em reverter a trágica perda de todas as coisas passadas, na medida em que prossegue nos sete volumes de seus sucessos poéticos. Franz Kafka também era canceriano, mas no seu caso, como sempre em Kafka, a questão é aquilo que não está lá: a felicidade doméstica, o pertencimento a um lugar, o conforto em família. Primeiro Amor e Outras Tristezas, de Harold Brodkey, é outro belíssimo livro sobre a perda, cujo título e cujos contos estão no âmbito do arquétipo de Câncer.

Os Anéis de Saturno, de W. G. Sebald, obviamente, é um romance capricorniano, assim como são todos esses caudalosos relatos que tratam da passagem do tempo e da transitoriedade das coisas, sem deixar de lembrança nenhuma passagem ou paisagem específica, mas uma melancólica sensação de entrega do indivíduo e seus anseios às forças do inevitável. Seria possível estender essa lista caudalosamente – mas acho que já deu para ter uma ideia.

O ponto mais importante, aqui, é como essas inclinações interagem. A saudade canceriana e seus sentimentos de perda podem envolver doses justificáveis de choro, mas os excessos de drama podem se beneficiar de certa resignação. Já a melancolia de Capricórnio explica em parte sua fama de insensível, mas, sempre que ele se distanciar para platitudes muito ermas, será válido dar uma sacudidela em suas emoções mais imediatas. Um beliscão no braço basta para ele perceber que a dor humana é real, e cada episódio de sofrimento merece nossas atenções e cuidados, por mais transitório que possa ser.

Enfim, a massagenzinha do youtube até que funcionava, ajudou um pouco, nem que fosse pela sensação de que nós estávamos “fazendo alguma coisa” (quem quiser passo o link). Agora, continuo achando que cólica de bebê às vezes não tem remédio mesmo, o jeito é manter a calma e esperar passar. Câncer e Capricórnio são bons exemplos de signos que funcionam bem quando a oração da serenidade é evocada: “Deus me dê coragem para mudar as coisas que posso mudar, paciência para aceitar as que não posso, e sabedoria para saber a diferença”. Coragem. Paciência. Sabedoria. Se a gente conseguir reunir um pouquinho de cada uma dessas virtudes, as cólicas vão passar quando tiverem que passar, vão ser remediadas quanto tiverem remédio, e o Gabriel estará bem.  

capricórnio, câncer, peixes, virgem

Chantagistas do zodíaco

Há diversas formas de separar e classificar os signos – elementos, modalidades etc. – e uma delas é aquela que reúne Capricórnio, Peixes, Câncer e Virgem em um mesmo grupo, formado por um retângulo no zodíaco. Pode não ser fácil imaginar o que arquétipos tão diferentes têm em comum, mas por isso mesmo o exercício é atraente. Uma maneira de articulá-los é perceber como os temas da renúncia e do sacrifício se repetem em cada um deles, o que faz também com que surjam os temas da barganha e da chantagem.

Todos os arquétipos têm algo a nos oferecer, é claro. A questão com esses quatro é que sua própria identidade está vinculada a este oferecimento, pois o tipo de cuidado ou de trabalho que exercem é por natureza voltado para o benefício dos que estão ao redor. Em Câncer, por exemplo, o amor por tudo o que é próximo, a preservação do calor do lar, e a renovação de vínculos familiares ou comunitários, resultam sempre em garantias de pertencimento e segurança emocional para outros (e os demais arquétipos de fato se aproveitam disso enquanto estão preocupados com outras coisas). O problema é que não raramente Câncer apresenta a conta; e a chantagem emocional materna, em que são ressaltados o sacrifício e a renúncia em nome dos filhos e da família, aparece aí como a expressão mais estereotipada – mas nem por isso menos real – dessa dinâmica.

Em Capricórnio, algo semelhante acontece. A diferença é que Capricórnio não oferece carinho, mas trabalho, e não espera de volta afeto, mas respeito. Tudo bem com isso até certo ponto – vamos sempre nos beneficiar da responsabilidade e competência capricornianas –, mas, com frequência, em troca desse sacrifício, é exigida uma reverência que nunca chega em doses suficientes. Além de responsabilidade e competência, portanto, Capricórnio também acrescenta ao mundo bastante frustração e ressentimento por não ter seus esforços reconhecidos. Isso quando não parte para as formas mais abertas de autoritarismo, no lugar das manipulações emocionais cancerianas.

Em Virgem e Peixes isso se opera de maneira mais sutil, e por isso mesmo mais interessante. Virgem oferece ao mundo os serviços discretos e meticulosos que o mantém em funcionamento, e em troca requer distância. Assim, tudo aquilo que invade a pureza de seu espaço sagrado é visto como uma injusta intromissão – de um mundo impuro e imperfeito – na perfeição que a tanto custo alcança para si. Virgem sente que tem o direito de preservar esse distanciamento, pelo menos enquanto seu serviço estiver sendo executado com a habilidade e a devoção de sempre. E talvez até tenha, do ponto de vista de uma lógica compensatória, mas não é com essa lógica que o mundo funciona.

Em Peixes, afinal, se dá a barganha de maiores proporções: o sacrifício do ego e da individualidade em troca do amor e da aceitação incondicionais do cosmos. Isso vale tanto para o devoto ou monge que se retira do mundo para entregar-se a Deus, quanto para o indivíduo que evita toda forma de julgamento ou exigência, e em troca espera não ser julgado por nada nem exigido para coisa alguma. A famosa vitimização pisciana decorre muitas vezes desse tipo oculto de escambo, em que o paradoxo compensatório fica mais evidente, com o amor incondicional sendo oferecido com a condição de um retorno. Mas, como sabem bem muitos monges angustiados e alguns dos mais compulsivos devotos, Deus não cai nesse tipo de armadilha. Nós também não.

Ou seja, cada um desses arquétipos tem de fato muito a oferecer ao mundo – afeto, trabalho, responsabilidade, amor incondicional – mas cada um também está sujeito a distorções a partir de cálculos mais ou menos conscientes do que esperam receber em troca. O problema aí é que não temos notícia de um universo que funcione de acordo com esse toma-lá-dá-cá; as coisas nessa dimensão acontecem de formas muito mais interessantes e surpreendentes. A própria noção de carma, que em suas versões mais popularizadas atende a esse critério, não passa aí de jogo de soma zero no qual outras vidas trarão as recompensas aguardadas. Não sei se trarão, mas suspeito de que só o fato de serem ‘aguardadas’ seja um indício do contrário.

Parafraseando Kafka, há justiça nesse mundo, justiça infinita, justiça suficiente – mas não para nós. Ou pelo menos não uma justiça que sejamos capazes de compreender. Por outro lado, cada um de nós tem talentos e habilidades e virtudes cujo exercício podem nos fazer esquecer por alguns instantes o que o futuro nos trará ou deixará de trazer. É nesse momento, enquanto estamos desavisadamente, espontaneamente executando essas tarefas e manifestando essas qualidades, que recebemos em troca tudo o que precisamos. E aí sim: o universo agradece.