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Taurinos do mundo, uni-vos

Taurinos do mundo, uni-vos! Li que estão querendo devolver a Plutão o título de planeta. Acho justo, mas desde que ele carregue consigo uma nova geração de colegas. Pois o rebaixamento de Plutão em 2006 teve ao menos um bom efeito: a promoção de Ceres, um enorme corpo celeste do cinturão de Kuiper, que na mesma época passou a ter ambições planetárias.

Vocês, como Virgem, também estão há tempos aguardando um planeta para chamar de seu. Ceres pode muito bem ser esse planeta. Vênus, a atual regente, enjeitada para o signo, está sempre muito ocupada com Libra, e no final das contas o negócio de vocês não é cooperação, harmonia e beleza; o negócio de vocês é comida. Não me entendam mal. Vocês só precisam de uma história que conceda dignidade mítica aos aspectos mais caricatos da pessoa taurínea.

O que não falta a Ceres é dignidade. Ela foi a deusa da agricultura, mãe de Perséfone, raptada por Hades (ele mesmo, Plutão). Ao perder a filha, passou a negligenciar o plantio e as colheitas, recusando-se obstinadamente a trabalhar – contra todos os apelos de um mundo faminto e estéril – enquanto não fosse ouvida em seu lamento. Até que Zeus fez um pacto com Hades, de modo que Perséfone passasse seis meses por ano no submundo e outros seis meses sobre a terra. O pacto deu certo, até porque Perséfone acabou gostando de ser a rainha dos infernos durante o outono e o inverno, reemergindo ciclicamente para felicidade da mãe na primavera e no verão.

Notem como estão aí não apenas o tema da comida (a agricultura, as colheitas, os cereais), como também o dos ciclos de escassez e abundância (relacionados não apenas às estações, mas também ao dinheiro, ao salário, aos recursos que entram e saem todo mês). Mas, acima de tudo, estão aí a constância, a teimosia, a justa obstinação – e a capacidade de não arredar o pé enquanto as coisas não forem feitas do seu jeito.

Então, mesmo que Vênus mantenha a regência de Touro, precisamos de Ceres para compreender melhor seu arquétipo, que é inclusive o oposto complementar de Escorpião (o dos infernos, esse mesmo, regido por Plutão). Há um elemento trágico que interage aí com o bom senso e a constância, e cria uma balança peculiar entre esses dois signos. Interesante pensar como Ceres e Plutão chegaram a um acordo, e imaginar que Touro e Escorpião têm algumas negociações a fazer também.

Portanto, taurinos, não aceitem que Ceres fique novamente relegada a segundo plano. Palavra de ordem: todo mundo vai ser planeta ou ninguém vai ser planeta. Eu, se fosse vocês, fazia até greve de fome se necessário.

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As virgens vestais

Les Demoiselles d’Avignon, Pablo Picasso / Museum of Modern Art

Estamos longe de compreender os arquétipos do zodíaco, mas alguns signos são mais incompreendidos que os outros. Virgem, por exemplo, não tem nem um planeta para chamar de seu. O posto da regência ainda é ocupado por Mercúrio, um impostor geminiano, servidor-de-dois-patrões, mas já está na hora de desmascarar a farsa. Rei morto, rei posto, e o candidato natural ao cargo é Quíron. Mas não há pressa alguma na transição, então podemos avaliar as possibilidades.

Outra delas é Vesta, o asteroide mais brilhante do sistema solar, de uma luz intensamente concentrada em sua pequena esfera. Vesta foi o nome romano de Héstia, uma deusa de cultos pré-helênicos associada às virgens vestais, que não eram exatamente “virgens” como entendemos o termo hoje. A virgindade no caso era atributo de mulheres que não podiam se casar, pois eram consideradas prostitutas sagradas, capazes de utilizar o sexo como instrumento de cura, o que lhes conferia deveres, restrições e privilégios. Entre os deveres estava a organização e limpeza dos templos, garantindo o bom funcionamento dos ritos de purificação. Perceberam? A limpeza e a organização dos templos, nada mais virginiano.

Já entre os privilégios, havia o fato de que, quando uma virgem vestal concebia uma criança após uma união sexual secreta com um estranho, a criança era considerada nobre e entrava na linha sucessória do trono. Notem a relação com a história da Virgem que concebe o filho de um deus após a visita de um espírito desconhecido na calada da noite. Esta sim associou a virgindade a uma ideia de pureza sexual, contribuindo para a idealização da figura materna. Por outro lado, retirou a “linha sucessória” das estruturas tradicionais da cidade e do Estado, fazendo com que o milagroso nascimento pudesse acontecer em uma família camponesa ou operária.

Vesta então está relacionada à dedicação e ao sacrifício. Mas na verdade eu me lembrei dela mais por causa de uma frase engraçada que vi na internet esses dias: “Tem sempre uma historinha sexual secreta acontecendo na vida dos virginianos”. Ou seja, qualquer que seja o astro que vai assumir a regência do signo, uma coisa é certa, e nunca um emoji de piscadinha foi tão útil: querides, a gente tá sabendo, vocês são mais interessantes do que parecem 😉