aquário

Os enigmas aquarianos

Ilustração: John Tenniel

Li por aí que os físicos chamam de entanglement a propriedade que determinadas partículas têm de continuar afetando umas às outras (com alterações simultâneas em suas características) mesmo quando estão apartadas por enormes distâncias, e a relação entre elas torna-se tão intangível quanto inexplicável. Fiquei pensando em como traduziria isso para o português; acho que “emaranhamento” foi a opção da comunidade científica lusófona, mas isso para mim enfatiza a sensação de uma armadilha, de um nó complicado de desfazer, enquanto se perde algo da ideia de envolvimento, ressonância, vinculação. Por outro lado, e pensando bem, acho também que não seria bom diminuir o aspecto desconcertante do fenômeno, com sua imagem de um universo de relações inexplicáveis entre partículas que um dia estiveram unidas e hoje praticamente se desconhecem, mas ainda assim de alguma maneira se comunicam através de amplos espaços, sem que se entenda exatamente o que estão dizendo umas às outras. Está no dicionário, to entangle: confundir, desconcertar, perplexar.

Eu fico assim, emaranhado, quando leio Virginia Woolf. Mrs. Dalloway, por exemplo. Mas é uma confusão boa, uma perplexidade maravilhada. Gosto de sentir que não estou entendendo direito o que está acontecendo ali, enquanto a pontinha do iceberg que aparece já basta para tornar tudo muito interessante. Aliás, nesse ponto o efeito da escrita de Woolf se assemelha muito ao do estilo de James Joyce, com quem ela compartilhou o proscênio do modernismo britânico, enquanto a complexidade lógica e lúdica que encontramos em Joyce remete à de Lewis Carrol, inglês também, autor de Alice in Wonderland. Em todos esses casos, as complicações na superfície do texto, os jogos de palavras e os fluxos interligados de consciência criam uma espécie de teia esgarçada de conexões provisórias, que vai se tecendo e destecendo durante a leitura, enquanto juntamos os pontos em busca de que algo mais profundo se apresente, ou então de que uma estrutura nítida enfim se revele. Mas fazemos isso sabendo que pode não haver uma resposta clara e organizada para os enigmas que o texto nos propõe.

E vocês sabem o que mais Virginia Woolf, James Joyce e Lewis Carrol tiveram em comum? Os três eram aquarianos. Daí já podemos deduzir que: pode não haver uma resposta clara e organizada para os enigmas que Aquário nos propõe. Mas não custa nada especular a respeito. Às vezes me pergunto, por exemplo, se existe de algo de substancial por trás da imensa sofisticação estilística de Ulisses ou Finnegans Wake (ambos romances de Joyce), ou se tudo não passa de um jogo complicado e feito para confundir e perplexar a nossa mente. Algo semelhante acontece naquelas charadas com que Alice se depara em sua aventura no país das maravilhas, que às vezes parecem remeter aos grandes mistérios do universo, mas talvez sejam apenas brincadeiras interessantíssimas e ordinárias, sem outra função que não seja a de fornecer um passatempo intelectual com ares de segredo cósmico coberto por um véu matemático.

Ou seja: Aquário parece nos induzir a altas suposições sobre aquilo que enuncia, mas isso pede sempre a gente tenha certo cuidado em discernir o realmente complexo do meramente complicado. Ambos podem coexistir no mesmo arquétipo. A inovação científica é arquetipicamente aquariana, porque é em Aquário que se aloja o mito de Prometeu, que entregou aos humanos a luz e as técnicas para fazer o fogo; mas as complicações usuais da linguagem dos cientistas são com frequência apenas uma exigência da especialização, e não um indício de que algo de oculto está em jogo, como é o caso na maior parte das utilíssimas e também aquarianas pesquisas realizadas com fins práticos imediatos de inovação e melhorias na sociedade. Por outro lado, os escritores aquarianos que selecionei talvez não tenham sido contemporâneos dos primeiros teóricos da física quântica por acaso. Então, acho sim que, tanto no caso do modernismo inglês quanto no da astrofísica contemporânea e adjacências, as complexidades da linguagem remetem a verdadeiros mistérios da existência.  

A ideia de emaranhamento, portanto, não me parece ser meramente complicada de entender; ela é realmente complexa, na medida em que desafia os padrões usuais de entendimento da realidade com possibilidades totalmente impensadas até outro dia. Poderíamos dizer algo muito semelhante do estilo de Virginia Woolf; suas sinuosidades e piruetas não acontecem só para nos confundir e deslumbrar; existe algo de diferente mesmo acontecendo ali. Em seus romances, fatos distantes no tempo e no espaço relacionam-se como as partículas emaranhadas de nosso universo em expansão. A questão, mais uma vez, é saber se será possível desemaranhar o universo e o texto, isto é, se conseguiremos um dia chegar a uma solução para o mistério que ambos propõem, como quem interpreta uma frase difícil e alcança o significado que está por trás de suas sutilezas e meandros.

Acho ainda que, se a gente um dia conseguir realmente entender o que está acontecendo nos romances de Virginia Woolf, a gente vai conseguir entender o que está acontecendo no universo. Mas não vejo muita chance de isso acontecer mesmo. Pois, tanto em um caso como no outro, nós estamos tão envolvidos na história que não temos como observá-la com objetividade; nós participamos da narrativa, estamos emaranhados nela, e as conexões que conseguimos perceber estão sempre condicionadas pelo nosso posicionamento momentâneo em relação a todo o resto. Qualquer semelhança dessa percepção com implicações da Teoria da Relatividade para nossos hábitos epistemológicos não é casual.  Em suma, o estilo de Woolf é daqueles que nos faz submergir em suas palavras, assim como o estilo do universo é daqueles que nos submerge em suas estrelas.  

Quem falou algo de muito interessante a esse respeito dessa nossa posição no cosmos foi o filósofo inglês (e aquariano) Alfred North Whitehead – justamente o pensador ocidental que acompanhou mais de perto os primeiros desdobramentos da Teoria da Relatividade e da Física Quântica, elaborando a partir daí uma obra que encontra muita ressonância entre pensadores orientais também. Para Whitehead, nosso cosmos é um processo criativo que está em curso, e no qual o próprio cosmos está criando a si mesmo; nós participamos dessa criação, mas não a controlamos nem podemos entendê-la completamente. É mais ou menos como se fosse uma narrativa, mas não exatamente um romance, e sim uma série, que se desdobra a partir de uma necessidade interna do enredo, e cujo fim permanece sempre em aberto porque não existe exatamente um autor externo a ela controlando seus desdobramentos (escrevi mais sobre isso no capítulo que fiz para este livro de ensaios; e qualquer semelhança desse raciocínio com a maneira como a astrologia é tratada nesse espaço tampouco é mera coincidência).  

Nada disso – muito menos a astrologia – equivale a uma explicação do cosmos. “Nós vivenciamos muito mais do que podemos analisar, porque vivenciamos o universo”, Whitehead afirmou em Modes of Thought. Algo muito semelhante poderia ser dito dos personagens de Virginia Woolf. Eles vivenciam muito mais do que podem analisar, porque estão sujeitos a um conjunto enormemente complexo de influxos, sensações, pensamentos; suas decisões não podem nunca ser atribuídas a um raciocínio ou intuição em particular, e parecem ser antes decisões de todo o universo do livro do que de um indivíduo em particular. “Mrs. Dalloway disse que ela mesma iria comprar as flores”: já a partir dessa despretensiosa sentença nada parece ser tão simples assim, por mais que ela ironicamente funcione como uma mera enunciação com sujeito-verbo-predicado. Dá até a sensação de que haverá um ponto de partida estável, mas logo em seguida os limites desse sujeito se desfazem, o ponto de vista narrativo muda, e percebemos que ele já estava em movimento desde o começo.

Até mesmo na obra muito mais convencional de Charles Dickens, outro autor inglês e aquariano (essa relação entre o inglesismo e o aquarianismo precisa ser estudada), são os personagens excêntricos que realmente ganham a nossa atenção e carinho, ao mesmo tempo em que desestabilizam as convenções textuais. Dickens é daqueles autores que parecem adotar um modelo narrativo fixo e previsível em linhas gerais, só para poder brincar com ele à vera nos detalhes. O universo de Dickens tem um centro, é verdade, e esse centro é Deus, mas às vezes o texto se distrai tanto com as criaturas desgarradas que povoam as margens desse cosmos, que já dá para imaginá-lo destituído das certezas e seguranças que governam seus finais felizes. Dickens foi um dos últimos autores a conseguir reunir em uma unidade de enredo todos os fragmentos espalhados no universo de portentosos romances como Bleak House; depois dele, ninguém mais segurou o Big Bang da narrativa.

Mas Aquário, no final das contas, de fato não diz respeito a um centro, à concentração de energia ou poder em um só ponto, à ideia da realeza que espontaneamente atrai para si todos os olhares; tudo isso acontece no arquétipo leonino, seu oposto complementar no zodíaco, e muito bem representado pelo regente solar. Enquanto Leão é o Sol, Aquário é o Céu: é esse o significado mitológico de seu regente, Urano, por onde se espalham e se dispersam as energias solares em um amplo sistema de distribuição. Pelo mesmo raciocínio, quando pensamos no corpo humano, Leão governa os assuntos do coração, e o Aquário os do sistema circulatório. E, assim como se associa ao mito prometeico do portador da luz, o signo está naturalmente vinculado também à imagem do “portador da água”, que a leva para quem tem sede, mesmo que isso implique uma viagem aos confins do cosmos – lá onde a água não chega porque os reis leoninos jamais se ocupariam com um movimento tão excêntrico, que os afastassem tanto do palco onde são o centro das atenções.

Com isso acho que dá para voltar enfim à questão do emaranhamento, com uma nova perspectiva. Sim, há nessa ideia algo que causa perplexidade e confusão, assim como acontece no estilo de Virginia Woolf e de James Joyce. Porém, da mesma forma como o universo de Joyce é um chaosmos (tal como Umberto Eco o definiu), no qual as eventuais epifanias sugerem uma presença pulverizada do sagrado no cotidiano, e do mesmo modo como o universo esgarçado de Woolf é feito de ressonâncias e vinculações que se fazem e desfazem a todo tempo na superfície do texto, o entanglement das partículas não deixa nunca de indicar algo dessa unidade que está possivelmente por trás dos fenômenos mais apartados. Dessa forma, o desafio de Aquário é o de dispersar-se em uma complexa rede de relações, que é como um arquipélago cujas ilhas estão conectadas não através do solo subaquático, mas através de invisíveis correntes de ar.

Recentemente, enfim, passei a discutir a leitura de romances de Virginia Woolf com alunos de primeiro período do curso de Letras onde leciono. Minha dica para eles é sempre essa: deixem-se levar, não tentem entender. Pode não haver uma resposta clara e organizada para os enigmas do texto, assim como pode não haver uma resposta clara e organizada para os enigmas do universo. Mas nossa tarefa quando estamos diante de um ou de outro não é necessariamente a de compreender, e pode muito bem ser a de maravilhar-nos, confundir-nos, emaranhar-nos, desde que isso também seja uma forma de encontrarmos pontos de contato entre nós no meio a essa confusão toda. Assim, quem sabe, participaremos do texto como participamos do cosmos, não como sujeitos estranhos a ele e que buscam dominá-lo pelo entendimento, mas como mentes que surgiram de suas partículas e nunca deixaram de estar conectadas entre si e com todo o espaço ao redor.

gêmeos, sagitário

O riso e o escárnio

Gêmeos e Sagitário. Dos signos mutáveis, os que mais obviamente implicam movimento estão neste eixo de opostos complementares. Gêmeos é o arquétipo das viagens curtas, do pensamento rápido e da curiosidade inconstante. Sagitário diz respeito a longas distâncias, longas argumentações, ao engajamento em um propósito e ao entusiasmo com suas chances de sucesso. Num caso, o raciocínio analítico decompõe o mundo nas peças de um jogo ou de um brinquedo, fazendo com que a pessoa seja capaz de reinventá-lo em mil formas tão diferentes quanto provisórias. No outro, existe o desejo por uma síntese final e absoluta, por uma definição que não está disponível de imediato, e que precisa ser procurada em peregrinações mundo afora (ou jornadas noite adentro, através do estudo e dos livros).

O contraste faz lembrar um texto que eu e um amigo geminiano traduzimos muitos anos atrás, chamado “A Flexibilidade do Self na Literatura do Renascimento”. O autor, Thomas Greene, investiga como teria surgido entre indivíduos renascentistas uma ambição por elevar o próprio homem à condição divina, em movimentos verticais, voltados para o alto, para o céu, para o absoluto, onde estaria o mais completo entendimento dos mecanismos da criação. Ao mesmo tempo, ele assinala como não deixou de haver na época uma mobilidade de tipo horizontal, de maior desenvoltura e habilidade prática para resolver e aprontar encrencas pontuais, capaz de brincar com a vida de modo menos sério.

Greene associa esse comportamento às heroínas das comédias de Shakespeare, ao talento que tinham para ocupar diferentes papéis em uma trama, fazendo-se passar pelo que não eram. Podemos também vê-lo na imagem do Malandro, do Trickster e do Coringa (“why so serious?”), que pode ser qualquer personagem do baralho, e ao mesmo tempo não é nenhum (sem identidade pessoal alguma para desenvolver, mas movimentando-se lateralmente com total liberdade). Assim, tudo indica que nosso riso mais cotidiano tem a ver com a percepção do múltiplo e do relativo – enquanto na possibilidade do absoluto e da realização de feitos extraordinários está um prazer de outra natureza, mais entusiástico e elevado. No entanto, já presenciei gargalhadas sagitarianas tão épicas quanto destruidoras de quaisquer certezas e convicções, e fico pensando que tipo de desconstrução entra em jogo nesse caso.

A propósito, nossa época reviveu uma busca renascentista: a do Desenho Inteligente do Cosmos, ou da Teoria de Tudo. O Grande Colisor de Hádrons de Genebra está envolvido nisso e é uma extravagante e sagitariana estrutura voltada para o conhecimento dos fundamentos dos cosmos. Por mais que tudo se justifique em nome da ciência, um empreendimento dessa dimensão não teria sido realizado se não houvesse em sua origem desejos e anseios de outra natureza. O mundo foi geminianamente decomposto em minúsculas pecinhas, mas para que em seguida se anunciasse com estrondo a descoberta de uma pecinha especial: o Bóson de Higgs, a “partícula de Deus”, em torno da qual tudo se reuniria novamente.

No entanto, alguns desdobramentos subsequentes da investigação ameaçam jogar por terra todas as conquistas anteriores, no que se refere à revelação de um universo de leis inteligentes e articuladas (tem um ótimo documentário sobre isso na Netflix, “Particle Fever”). Cientistas que passaram uma vida criando modelos em que todas as peças do cosmos encaixariam de novo em uma imagem coerente estão se defrontando com evidências e resultados contraditórios, que não se adequam à suas expectativas e podem inclusive enterrá-las para sempre. Uma possível explicação para o fracasso desses modelos é a hipótese de que vivemos em um universo entre muitos outros, que não seria o resultado de um desenho inteligente, mas de um conjunto de felizes acasos. De modo que, onde eles vêm o uno, existe o múltiplo, e por isso, de onde esperam números absolutos, tudo o que recebem são variáveis relativas ao ambiente em que se encontram. Nasceu assim a hipótese do multiverso.

A divulgação desses resultados foi motivo de intensas crises existenciais por parte alguns pesquisadores, que vinham nutrindo um incontido entusiasmo com as chances de sucesso que vislumbraram. Mas será que não podemos receber a notícia desses fenomenais reveses também com um trovejante e jupiteriano riso, estrondoso, libertador? O múltiplo e o relativo não são igualmente engraçados nessa escala? Não é divertida em um nível intergaláctico a ideia de termos não um, mas múltiplos universos, cada um com seu jeitão e suas manias?

Acho que os sagitarianos, pelo menos, sabem que sim. Acho que a gargalhada sagitariana pode muito bem ser essa gargalhada cósmica diante da futilidade dos mais elevados esforços. Pois a gargalhada sagitariana, em qualquer manifestação ou momento, não é simplesmente um riso diante das patetices do dia-a-dia; é uma espécie de prazenteiro escárnio niilista diante do vislumbre de uma derrota final e redentora, que nos salva de nossas limitadas ambições terrenas, e nos coloca de volta no caminho de uma busca que só faz sentido se não tiver chance de terminar, porque haverá sempre novos caminhos a desbravar e novos universos a descobrir.

Já no âmbito geminiano, por outro lado, talvez isso nos faça descobrir que há algo de solene na impermanência. Que as inúmeras variações das formas do mundo não são apenas divertidas: são também o que temos de mais verdadeiro. Deste modo, será possível descobrir a verdade naquilo que temos de mais próximo e disponível. Sagitário e Gêmeos, afinal, são arquétipos que envolvem as figuras do professor e do aluno, e neles é possível atualizar a máxima zen que trata das relações entre mestre e discípulo: diante de assuntos sagrados, dê uma gargalhada; diante de assuntos cotidianos, sorria, e perceba, o sagrado está aí.

gêmeos

Igual Gêmeos na chuva

Harold Perrineau / Romeu + Julieta (1996)

Caía uma chuva estrondosa no Rio de Janeiro. Sou diretor de uma unidade de ensino, e nessas horas faz parte do meu trabalho trocar informações para decidir sobre uma possível suspensão das aulas e outras atividades. Em dias assim, é muita gente ansiosa por notícias, muita gente que precisa ser consultada, muita gente que precisa ser avisada, e é muita informação que circula também. Claro que isso está longe de ser uma das grandes encrencas que um temporal causa, mas para mim a situação é motivo de certo desespero, o suficiente para querer chutar o balde e jogar o celular pela janela.

Tenho Mercúrio em Capricórnio; minhas comunicações cotidianas são pragmáticas. Então, parte do meu transtorno está na quantidade de informação inútil que chega nessas horas. Em meio ao caos, o que não falta são mensagens de whatsapp que não passam de interjeições soltas no vácuo, postagens em que sou marcado com a melhor das intenções e a mais completa falta de noção, comentários interessantes que posso muito bem deixar para responder daqui a uns três anos (normalmente, além de pragmático, sou lento). Lógico que nem todo mundo precisa saber o tipo de informação que quero/preciso e que estou no meio desse pequeno perrengue particular. Mas, às vezes, justamente as pessoas que sabem são as que oferecem mais motivos para minha exasperação.

A Lua estava em Gêmeos. Marte estava em Gêmeos. E, se você for parar pra pensar, isso de compartilhar informações e trocar mensagens sem motivo pragmático nenhum, isso é uma coisa muito geminiana. De modo que de repente me vi praguejando contra todas as gerações de geminianos desde Hermes Trimegisto: p***, Gêmeos, me deixa concentrar no meu trabalho! O mundo tá caindo e você aí me passando correntes e memes e piadas! Ou, mesmo quando tá passando notícias: dá um tempo, Gêmeos, eu sei usar o Google! Conclusão: Gêmeos, a princípio, é o último signo que você quer por perto em meio a uma catástrofe.

Nessas horas a gente precisa de Áries, Touro, Escorpião. Ou mesmo Câncer, para dar um pouco de calor humano, e Virgem, para organizar a distribuição de mantimentos. Mas Gêmeos? Pra quê Gêmeos? Tudo bem que nessas horas a gente precisa de informação, mas em tese é de informação com foco, informação com motivo, e nesse caso Sagitário dá conta do recado. Quer dizer, em tese, né. Porque, me peguei pensando logo depois, às vezes tudo o que a gente precisa é de uma informação que chega sem foco e sem motivo nenhum. Às vezes , em meio à catástrofe, tudo o que a gente precisa é dos geminianos.

Não estou dizendo que a gente precisa de uma distração, de um desvio, de uma fofoca. Estou dizendo que as informações mais úteis que chegam até nós nessas horas podem ser aquelas que alguém saiu distribuindo sem nenhuma intenção específica, simplesmente porque é da natureza da pessoa distribuir informação. Naquela ocasião mesmo o que acabou fazendo realmente diferença pra mim (para decidir suspender as aulas) foi uma notícia que alguém compartilhou não exatamente tentando me ajudar, mas porque a pessoa sai compartilhando tudo quanto é tipo de notícia, das mais irrisórias às mais sérias. A que me ajudou estava entre as irrisórias. Quando a gente pensa em episódios como essas chuvas torrenciais que às vezes caem no Rio, fica fácil imaginar como se dá esse processo.

Em momentos assim, as pessoas saem divulgando todo e qualquer pedacinho de conhecimento da situação que tenham, saem falando igual Gêmeos na chuva, sem que saibam exatamente qual pedacinho vai servir pra quem. Mas o que salva a vida de uma pessoa é muitas vezes um pedacinho desses. O arquétipo de Gêmeos, portanto, mesmo que não saiba exatamente o que fazer diante da terra devastada, pode muito bem ser aquele que evita uma devastação maior, e sem querer querendo vai nos guiando no meio da bagunça, às vezes totalmente sem querer mesmo – inclusive através de uma distração, de um desvio, de uma fofoca.

Eu fico pensando. Romeu e Julieta, por exemplo. É uma tragédia, mas será que seria uma tragédia se tivéssemos um geminiano no elenco? Se tivesse alguém pra espalhar por lá a notícia de que a Julieta não ia se matar coisa nenhuma, de que ela ia estar só sob o efeito temporário de um remédio, de que tinha armado aquele teatro para que os dois pudessem ficar juntos? O problema é que ficaram dependendo daquele padre pra dar a notícia. Faltou alguém para dar uma fofocada mesmo, falar por falar, sair por aí contando o esquema. Quem sabe assim a história do plano não teria chegado ao Romeu, e só pro Romeu mesmo, não pros seus inimigos, por uma misteriosa concatenação de forças?

Parte da beleza de Gêmeos está aí: ele não controla a informação que distribui, fica contente em distribuí-la sem maiores propósitos e intenções. E o mundo se quiser pode muito bem fazer com que isso tenha bons resultados. Na peça, é claro, a tristeza é que Mercutio, seu personagem mercurial, morre logo no começo. Enfim, há tragédias que acabam acontecendo simplesmente porque os geminianos saem de cena. Por favor, queridos/as: continuem aí.

áries

O paraíso de Áries

Mestre de Boucicaut | Getty Museum

Sobre Áries, vamos tentar ser diretos: é quando aquilo que desconhecemos se inicia. O signo está relacionado a partos e nascimentos, e é em seu arquétipo que se dá à luz o novo e o inesperado. No entanto, Marte, o regente de Áries, é também regente de incisões e rupturas, então o que acontece nesse ponto não é exatamente uma gênese a partir do nada. Algo acontece que nos leva de um estado protegido e restritivo para uma realidade externa que atrai e propõe desafios; se formos buscar uma referência bíblica, podemos dizer que é aí que somos expulsos do paraíso.

Áries sucede Peixes na roda zodiacal, e ambos representam impulsos antagônicos. No âmbito pisciano buscamos um retorno à matriz, a imersão no cosmos, o reencontro com Deus – chame como quiser – mesmo que às custas de nosso ego e individualidade. Ou seja, queremos voltar para o paraíso, após um longo processo que atravessa as doze casas do zodíaco. Em Áries, por outro lado, a individualidade e a vontade são afirmadas, ou reafirmadas, a despeito das circunstâncias, da família, do Estado, e inclusive de um Deus que limita e constrange. Em Áries está o impulso de separação, que é também um impulso para a liberdade.

O processo então é cíclico, e o gesto ariano precisa ser periodicamente reencenado. Isso porque aquilo que chamamos de paraíso é nesse mundo muitas vezes uma prisão. Aliás, a palavra “paraíso” tem uma origem persa que se refere a um “lugar murado”, “para-daeza”, entre paredes. E a dissolução pisciana do ego de fato nos leva eventualmente a lugares enclausurados, onde nossa vontade individual é submetida a autoridades maiores (penitenciárias, sanatórios, mosteiros).

Mas, às vezes, a busca de reconstruir o paraíso na terra leva a formas mais sutis ou insuspeitas de restringir nossa liberdade ou constranger nossos movimentos. É sobretudo aí que o arquétipo ariano precisa agir, reencenando nosso nascimento como uma forma de libertação. Pois toda busca por estarmos plácida e confortavelmente instalados entre paredes é frustrada ou resulta em distorções; somente as paredes uterinas um dia serviram para este fim. Por isso, a cada vez que a liberdade do indivíduo é sacrificada em nome de um sonho de absoluta segurança, precisamos da bravura de Áries para derrubar aquilo que o medo construiu tentando se proteger [edit: estou revisando esse texto durante a quarentena do Coronavírus e preciso acrescentar: agora não, Áries, agora não precisamos de bravura não; comporte-se aí por enquanto, e, a não ser que você não tenha alternativa, ou possa ajudar de outra maneira, mantenha-se seguro entre quatro paredes].

Enfim, o éden de Áries não é um lugar; é um gesto, um momento de independência e libertação. Mesmo que nos leve ao desconhecido, mesmo que cause incerteza, será preferido a qualquer sensação de segurança que exista às custas da verdadeira vida. Em uma época em que condomínios fechados são vendidos como lugares paradisíacos, por mais infernal que possa ser a existência em seu interior (e no interior dos espaços mentais que ajudam a restringir), espero que chegue a hora de provarmos a árvore do conhecimento mais uma vez. Fica então o pedido: arianos do mundo, não desanimem [não desanimem]. Em algum momento vamos ter que nascer de novo. Precisaremos de vocês.

áries

Calma, Áries

Leonard Cohen

Hoje me deu vontade de escrever sobre Áries, e aprendi com os arianos da minha vida que é totalmente ok fazer uma coisa só porque deu vontade, então vamos lá. Mas escrever sobre Áries é sempre um problema, a gente fica com receio de que lá pela terceira ou quarta frase os próprios arianos tenham perdido a paciência com o texto. E não acho que isso se deva somente à objetividade ou irritabilidade dos nativos desse signo: essas características estão de acordo com o estereótipo, é claro, e são muitas vezes verdadeiras, mas nas imagens e narrativas vinculadas ao arquétipo encontramos elementos mais interessantes para justificá-las. Por exemplo: Siegfried, um dos personagens que encontramos nessa coleção, é um herói praticamente invencível, mas vulnerável quando é atacado por trás.

Em geral os guerreiros marciais apresentam alguma variação dessa característica, em que se mostram dispostos e aptos para qualquer batalha em campo aberto, mas encontram dificuldades sempre que existem reentrâncias a serem consideradas. Da mesma forma, Áries estará em seu ambiente na luta contra um inimigo honesto, mas ficará desconcertado diante de um adversário malicioso, que trabalha por trás dos panos para sabotá-lo. Isso é uma virtude e é uma fraqueza, mas serve também para mostrar que Áries está longe de ser um demônio, e nem de longe possui o tipo de talento que satanás possui para a manipulação de suas vítimas. Suas habilidades são outras, seus defeitos também, e não há entre eles nenhum que não seja exposto à luz do dia.

Daí a desconfiança diante de quaisquer subterfúgios retóricos e orações subordinadas que prolonguem além da conta a elaboração de um raciocínio. Uma pessoa que fale ou escreva desse jeito só pode estar escondendo alguma coisa. Ou, pior, talvez esteja querendo alguma coisa, mas sem dizer exatamente o quê. Áries, com sua capacidade de saber o que quer, dizer o que quer, e buscar o que quer, não vai nunca compreender porque as pessoas tomam caminhos tão sinuosos para expressar e satisfazer seus desejos. “Eu quero” é uma frase tipicamente ariana, a outra é “diz logo onde você quer chegar”.

Nessa objetividade reside sua astúcia e sua esperteza. Podem não ser as criaturas mais sofisticadas, mas aprenderam que a sofisticação é uma das máscaras da malícia, e não vão se deixar cair facilmente nesse truque. Já receberam muitas facadas pelas costas quando supunham que estava tudo à vista, e chega o momento em que conseguem lutar também contra sutilezas e chantagens emocionais de que alguns outros arquétipos são tão capazes. Não que se tornem eles próprios peritos nesse tipo de embate. Mas, como Hércules lutando contra a Hidra, uma hora percebem que só precisam trazer seu oponente para a superfície.

Por isso, se, durante uma discussão com Áries, você disser “calma, Áries”, ou algo do tipo, e isso não surtir efeito, pode saber que isso acontece não apenas por uma questão de temperamento. Para eles, não manter a calma é um legítimo recurso estratégico. Sabem que um debate ponderado pode muito bem ser um debate desigual, em que uma série de minúcias são mobilizadas para desorientá-los, e que às vezes só pedimos tranquilidade porque queremos ganhar tempo. É sempre possível ocultar nossas verdadeiras intenções entre diversas vírgulas e advérbios, e bem mais difícil fazer isso com sujeito-verbo-predicado.

Por outro lado, conheço também arianos perfeitamente tranquilos e pacíficos, que inclusive não se reconhecem muito nas descrições do signo, mas nunca deixam de ser ligeiramente obtusos diante de algumas complicações da vida, ou vulneráveis aos ataques desleais com que ela às vezes nos atinge. Isso é uma virtude e uma fraqueza, mas para mim é sobretudo uma lembrança de que o arquétipo de Áries tem ele mesmo suas complexidades, e que nunca será possível defini-lo em uma frase, por mais simples e diretos que a gente tente ser.