áries, libra

O Zen e a arte de descascar batatas

A costureira (1665) | Jan Veermer

Tem aquela história de um sujeito que chegou para trabalhar em uma fazenda e deram para ele a tarefa de remendar todas as cercas do terreno. Em questão de horas elas estavam remendadas. Aí perceberam como ele era eficaz, e deram para ele um monte de lenha para partir com um machado. Em minutos já não tinha lenha nenhuma para partir. As coisas foram seguindo nessa toada até que já não havia quase mais nada para fazer, além de descascar as batatas do almoço; deram para ele mais essa missão, com a certeza de que não ia durar mais que um piscar de olhos. A única diferença era que nesse caso ele ia precisar escolher as batatas boas e dispensar as que estavam ruins. De modo que anoiteceu e ele ainda estava lá, diante da primeira batata, sem ter decidido ainda se ela entraria no primeiro ou no segundo grupo.

A anedota é simples, a moral da história é clara: algumas pessoas, por mais competentes que sejam, simplesmente não conseguem tomar decisões. Não é da natureza delas, assim como não é da natureza do vento escolher qual caminho tomar. Agora, querem ver como as coisas de repente se complicam? Eu pergunto, invocando a dúvida que me parece realmente relevante diante dos fatos narrados: esse nosso personagem simplório e hesitante, o pau-pra-toda-obra-menos-aquelas-que-envolvem-escolhas, o exímio cortador de lenha e fracassado descascador de batatas, ele é de Áries ou de Libra? Porque de um ou outro desses signos ele é, isso fica evidente de imediato. Daí a decidir qual já é outra história.

E olha que nem libriano eu sou para ficar me entretendo demais com esses dilemas. O problema é que justamente esse estereótipo do libriano indeciso me parece insuficiente para chegar à resposta. Consigo facilmente ver o protagonista da anedota como um ariano também. Quem me garante que a velocidade dele para remendar cercas não se deve a um espírito impaciente, que não se deixa demorar em segundos pensamentos antes de partir para ação? E quem me garante que a imagem dele diante das batatas a descascar não é a de um ser exasperado com a tarefa impossível de ficar tomando decisões criteriosas e fundamentadas, quando tudo o que ele queria era sair descascando geral para ir embora logo dali?

Porém, todavia, entretanto, contudo: quem me garante que essa pessoa não era um libriano inconsciente de suas mais autênticas faculdades mentais até o momento em que se encontrou, justamente, diante da necessidade de tomar uma decisão? Quem assegura que ele não conseguiu de fato ver na questão das batatas uma série de nuances, variáveis, influxos, interferências, modulações, nodos, protuberâncias, capazes de ocupar a mente por uma tarde inteira, de maneira que, a partir de um simples to peel or not to peel, brotaram algumas possíveis respostas para as mais antigas encrencas filosóficas da humanidade? Em resumo, quem me garante que nosso protagonista na verdade não era uma Hannah Arendt dos tubérculos?

Pois é. A Hannah Arendt era libriana. E era botar duas batatas na frente dela para sair um tratado de batatologia capaz de mudar completamente nossa visão do assunto. Curiosamente, trata-se de uma autora que teve na ação um dos temas fundamentais de suas reflexões. Ou melhor, curiosamente não, coerentemente: pensar sobre a ação é, basicamente, o que Libra faz da vida. Independe se isso se dá no âmbito do não-sei-se-caso-ou-compro-uma-bicicleta ou da crítica da Crítica da Razão Prática.  

Isso tampouco quer dizer que Libra é incapaz de agir; Libra é capaz de agir sim, mas no caso libriano o problema não é a precipitação, e sim a demora mesmo. Pois entre o pensamento e o ato existe uma distância que nunca será simples de transpor. Enquanto em Áries acontece o contrário: o ato vem antes do pensamento, e a distância entre eles persiste, só que no sentido oposto. O que nos dá uma boa base para explorarmos um mesmo tópico em ambos os signos. Ele diz respeito à temporalidade de nossos gestos – ou, em bom português, o problema do timimg.

As coisas vão fazer mais sentido se a gente lembrar que Libra é um signo cardinal, dos que estão de fato voltados para a ação, a iniciativa e para a resolução de problemas (os demais são Áries, Câncer e Capricórnio). O fato de associarmos a resolução de conflitos ao arquétipo libriano faz parte desse jogo. Acontece que o conflito é um tema do eixo de opostos complementares Áries-Libra do mesmo modo como a ação é: aparece em ambos os lados da figura. Em Áries, o conflito com o mundo externo é parte natural da existência imediata, e a ação rápida decorre da defesa do eu diante do outro. Em Libra, por outro lado, o conflito é internalizado, o eu e o outro coexistem na mente individual, e a ação demora porque antes eles precisam se entender.

Com frequência, então, Áries age como se estivesse sozinho no mundo, porque em sua experiência arquetípica ele está – é o caçador solitário na floresta, atento a cada movimento ao redor, capaz de aniquilar uma ameaça em um gesto, porém despreparado para lidar com o componente imprevisível do comportamento humano. Áries não lida bem com a ambiguidade, e prefere ter uma relação direta com as coisas – mesmo que seja uma relação de luta – o que implica também uma dificuldade em conviver com o conflito.  Para Áries, conviver com um conflito é como ouvir constantemente e noite após noite o barulho de um animal rondando o acampamento no escuro da floresta, e não poder fazer nada a respeito. Uma tortura.

Libra, por outro lado, vai noite após noite juntando informações, pensando a respeito do que fazer para lidar com a ameaça, pensando em se será bicho ou será gente, até o momento em que a ameaça – qualquer que seja – avança sem que nada de efetivo tenha sido feito para enfrentá-la. Nessa situação, o libriano estaria em desvantagem. Agora vamos supor que ao invés de estarmos em uma floresta estamos em um tribunal de júri. Recolher informações a partir dos semblantes dos jurados, aguardar o momento certo para apresentar uma evidência, esperar a hora de fazer um discurso decisivo – tudo isso são virtudes que Libra pode exercer muito bem nesse domínio.

Mas ainda assim Libra só vai tomar uma decisão realmente certeira se tiver Áries em seu mapa ajudando de alguma forma. E vice-versa: se Áries simplesmente partir para cima do bicho por puro desespero, vai acabar sendo comido também. O interessante é que tanto em um caso como no outro o ideal não é exatamente que a reflexão venha antes da ação; o ideal é que as duas coisas aconteçam juntas. É verdade que a vida ia ser muito menos divertida se Áries e Libra não tivessem seus descompassos, que sem o erro não existiria a comédia, e que sem a comédia não existiria Charles Chaplin. Mas, quando o eixo Áries-Libra funciona bem, o gesto é perfeito, e não apenas acontece no timing correto como subverte nossas concepções usuais de tempo e espaço.

Quem entendeu isso bem foram os orientais. A gente é que com frequência não entende os orientais direito. O Tao Te Ching, de Lao-Tsé, é muitas vezes confundido como um elogio da inércia e de um deixar-se levar pela vida de traços piscianos e zeca-pagodísticos; nada mais distante da realidade (nada contra Peixes, e muito menos contra Zeca Pagodinho, muito pelo contrário; estou dizendo apenas que o pensamento pagodiniano não é aplicável aqui). O livro, em diversos momentos, se pretende inclusive como uma espécie de instrução para o governante nos moldes do que viria a ser o Príncipe de Maquiavel, e, portanto, oferece dicas e aforismos voltados para a tomada de decisões bem concretas e mundanas. Mas, sim, Lao-Tsé acredita que uma determinada atitude do espírito é mais favorável para que as decisões certas aconteçam.

Nós perderíamos muito do seu ensinamento se caracterizarmos essa atitude como particularmente ativa ou particularmente reflexiva. O desafio é justamente não decidir agir, mas criar condições para que a ação se dê por força própria em nosso corpo, no tempo exato, e ao mesmo tempo não a deter por conta da desconfiança que sentimos diante de sua espontaneidade. Quem deu um exemplo de como isso pode acontecer foi o acadêmico alemão Eugen Herrigel em O Zen e a Arte do Arco-e-Flecha, livro em que relata sua experiência como professor visitante na Universidade de Tóquio.

Lá, ele foi convidado a cursar disciplinas como Cerimônia do Chá, Arranjo de Flores, Esgrima e Arquearia, optando pela última e descrevendo depois no relato a longa experiência aí iniciada. Desculpem o spoiler, mas preciso dizer que ele vai acabar  acertando uma flecha atrás da outra bem no meio do alvo. No final da história, ele entende que sua longa série de fracassos decorreu do fato de que ele sempre decidia soltar a corda do arco e só depois a soltava; ou então ele, ao tentar evitar esse mecanismo, decidia soltar antes de decidir, aí soltava mais rápido, antes da hora, precipitadamente, por pura ansiedade.

O livro é um clássico que vale a leitura integral, mas gostaria sobretudo de lembrar uma passagem de sua conclusão. Nela, Herrigel menciona o método empregado por um mestre esgrimista com alunos que chegam a residir com ele para alcançar melhores resultados. No início da convivência doméstica, ao aluno são atribuídas tarefas rotineiras como cortar a lenha e lavar a louça. Nenhuma palavra ou lição a respeito da esgrima. Porém, para maior espanto do discípulo, ele passa a levar fortes golpes do mestre com um bastão enquanto está realizando estas atividades, sempre de maneira imprevista e intermitente. De modo que desenvolve uma tensionada prontidão para defender-se dos golpes, mas ainda assim nunca consegue antecipá-los. E pior: sempre que ele se coloca em guarda para receber uma estocada de um lado do corpo, ela acaba vindo no outro, e, sempre que se prepara para conter um golpe em determinado momento, ele acaba chegando só instantes depois.

O aluno vai então percebendo instintivamente que é inútil manter aquele estado de alerta. Não porque esteja a salvo do perigo, mas porque não há como prever qual será a ameaça e quando ela se lançará contra ele. Além disso, as energias para manter o corpo e a mente predispostos à defesa contra um possível ataque são sempre gastas inutilmente, e podem ser valiosas para a defesa contra um ataque real. Se ele aguarda o golpe vindo do lado esquerdo, por exemplo, e o recebe do lado direito, o tempo necessário para redirecionar sua força de proteção é motivo de uma demora significativa. Incapaz de solucionar o problema, incapaz de defender-se dos golpes, o aluno aceita sua sujeição à imprevisibilidade do mestre.

Até que um dia, enquanto está lavando a louça ou cortando a lenha, sem se ocupar mais que o mínimo com sua proteção, ele de repente se vê interrompendo um golpe desferido como todos os outros – em um momento inesperado, de um flanco desguarnecido. Não é nada que ele estivesse aguardando. Ele não decide se defender. Ele tampouco decide não decidir. Ele simplesmente se defende. Suas energias e talentos estão totalmente disponíveis para reter o golpe do bastão espontaneamente, no instante em que ele é percebido. A partir daí, o mestre o considera apto a iniciar a prática da esgrima.

Moral da história: há em nossa ansiedade um forte elemento de preparação para golpes que nunca chegam. Há, por outro lado, golpes que efetivamente chegam quando tudo parece indicar que estamos a salvo de seus riscos. Mas podemos nos defender deles assim como o vento decide qual caminho tomar: sem pensar duas vezes. O que não implica tomar atitudes impensadas, mas encontrar um modo de ação no qual o pensamento não aconteça nem antes nem depois do gesto, mas simultaneamente, de tal maneira que um não se diferencie do outro. Pode parecer difícil. Mas veja bem: não é nada muito diferente do que faz um bom jogador de futebol quando decide fazer um lançamento e faz. A questão aí é como a gente pode aprender com eles a fazer lançamentos na vida.

Ah, que saudade dos lançamentos do Ronaldinho Gaúcho, por falar nisso. Pena que na vida hoje em dia ele parece não pensar nem meia vez antes de fazer o que faz. Olhei aqui agora, o Ronaldinho é de Áries. Isso explica muita coisa: o poder de explosão, a intuição corporal, a decisão rápida. Aquele gol contra o São Paulo em 2013. Enfim, um jogador completo. Inteligente. Deve ter algo acentuando Libra no mapa também. E ao mesmo tempo, deve ter algo capaz de avacalhar a relação Áries-Libra em proporções ronaldescas. Enfim, há dessas pessoas no mundo, capazes de feitos olímpicos inimagináveis – mas vai saber o que acontece quando a gente pede que descasquem umas batatas.

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O lugar bom

Essa postagem é para quem assistiu ou está assistindo The Good Place, a série da NBC que estreou em 2016 e terminou em 2020 (tem na Netflix). Vi o último episódio esses dias, e série tem esse negócio de a gente ficar com saudade dos personagens. Então – prometo não estragar o final para ninguém, pelo menos não para quem já passou da primeira temporada – me deu vontade de explorar um pouco mais a brincadeira dos signos com eles. A propósito, já mencionei o Michael (Ted Danson) em um texto sobre Capricórnio, e indiquei a Eleonor (Kristen Bell) para o Oscar do zodíaco que propus uma vez aqui, na categoria Personagem de Áries. A essa altura, estou convencido de que ela merece o prêmio.

Isso porque ela é uma ariana que vai ficando mais suave no decorrer da série, menos tensionada no confronto com o mundo, e, por mais que esse seja um caminho esperado em uma narrativa cômica convencional, ela nos convence de que isso é possível. Não é só porque aprende a falar palavrões com certa civilidade (tipo “holy fork!”, eventualmente traduzido por “fruta que caiu!”); ela faz com que seja verossímil uma heroína de Áries do bem, na medida do possível, é claro. De todas as transformações que vemos no decorrer das temporadas, para mim a dela é a mais notável. Não quer dizer que fique menos ariana, pois conheço muita gente desse signo que já parte desse lugar em que o restante da humanidade não é visto apenas como uma ameaça, e sabe que dá até para conviver com gente, às vezes até gosta. Em se tratando de Áries, já é bastante coisa.

Chidi (William Harper), por sua vez, é o clássico libriano que precisa aprender a tomar decisões. Não por acaso é o par oposto-complementar de Eleonor. Mas acho interessante que seja um filósofo. É comum as pessoas acharem Libra um signo romântico, mas a gente sabe como eles conseguem ser incrivelmente frios e cerebrais. Falta-lhes o fogo das paixões leoninas, o poço dos sentimentos escorpiônicos, a sensibilidade ao ambiente de Touro ou Virgem. É lógico que nessa perspectiva falta um traço de Libra também todos os outros arquétipos, e falta mesmo. Sobretudo quando a gente conhece um libriano que, não obstante sua librianice, e inclusive por causa dela, sabe decidir que sobremesa escolher depois de colocar todas as opções na balança.

Jason Mendoza (Manny Jacinto) é um caso singular. Peixes, sem dúvida. O interessante é que ele é pisciano tanto em sua versão de mentirinha quanto depois que ficamos sabendo quem ele realmente é após os episódios iniciais da série. Nesse caso acho que não conta como spoiler porque a coisa se revela logo ali no segundo ou terceiro capítulo: ele passa de um monge tibetano de olhos puxados que vive à base de meditação e água fresca para um morador da Flórida de origem filipina de olhos puxados que vive à base de todo tipo de porcaria e pequenos roubos de gasolina. Embora o monge seja um personagem típico do arquétipo de Peixes, a versão verdadeira de Jason é até mais pisciana que a outra.

O legal é que ele não deixa nunca de ser um personagem ingênuo e encantador. Avoado, iludido, totalmente incapaz para os assuntos práticos da vida, mas nunca menos “espiritualizado” que sua versão monástica, mesmo quando se lembra do dia que passou atirando em ratos no lixão de Jacksonville com um primo de Blake Bortles. Porque ele espera ser aceito pelo mundo da mesma maneira como o aceita, e representa o papel do bobo em tudo o que tem de plena receptividade e espelhamento do mundo ao redor. Além de ser engraçado, é claro. Tem uma cena, por exemplo, em que está todo mundo dando opinião ao mesmo tempo sobre algum problema, aí ele entra e dispara a falar um monte de coisas nada a ver. Quando perguntam o que deu nele, responde: “Sei lá, estava todo mundo falando junto achei que era para eu falar também”. Tipicamente pisciano.

Quanto à Tahani (Jameela Jamil), aí já fico na dúvida. Ela tem a rivalidade geminiana pela atenção dos pais com a irmã, mas não tem agilidade de raciocínio de Gêmeos; participa do encanto leonino com o universo das celebridades, mas falta-lhe magnetismo e confiança para ser ela própria uma Leoa. No final das contas, fico achando que é de um signo de Terra. Mas nesse caso estou disposto a aceitar ajuda, então se alguém aí tiver um opinião a respeito pode falar. Vejam só que coisa bizarra estou me tornando: uma capricorniano que admite que não sabe uma coisa e até pede conselho pros outros. Tipo o Michael.

Voltando então rapidamente ao Michael: o engraçado é que, além de ser uma figura evidentemente capricorniana em sua função de gerenciar a coisa toda e saber tudo a respeito de tudo, ele a princípio tem ainda aquele traço de Capricórnio que não aceita a necessidade de ajuda. Precisa estar sempre no controle, sem precisar nem do palpite de mais ninguém. É lógico que isso já vai mudando a partir da segunda temporada, vai ficando mais claro como na verdade tudo o que ele precisa (e no fundo quer) é assumir a forma falível e imperfeita dos humanos. É muito exaustivo isso de se responsabilizar pelo universo o tempo inteiro. Algo semelhante poderia ser dito de muitos capricornianos. 

E tem a Janet (D’Arcy Carden), é claro. A Janet é um caso à parte. Aí eu perguntei pro pessoal da internet qual é o signo da Janet, e a resposta que mais me apareceu foi Virgem. Eu respeito essa posição e até entendo. Ela tem um gestual contido e um jeito de se vestir que são bem virginianos. Ela presta um serviço inestimável, aparece sempre que alguém precisa de alguma coisa, é uma funcionária exemplar do cosmos e e nem humana ela é. Pra muita gente, isso é mais que suficiente para cravar: virginiana.

Mas eu sou Capricórnio com ascendente em Escorpião, então quando peço conselho ou palpite pros outros vocês podem suspeitar que é só jogo de cena. Já formei minha opinião há tempos e nada me fará arredar dela. Acho que os gestos controlados e aparentemente metódicos da Janet têm mais a ver com fato de que ela não tem muita familiaridade com a forma humana que assumiu. Aí vocês precisam que considerar que, quando a gente fala que Virgem não é muito humano, isso é mais num nível metafórico; é lógico que não é literal. Tem só um signo que corresponde a essa característica sem precisar de licença poética. Tem só um signo de gente que veio de outras galáxias e está ainda se acostumando a viver entre nós.

Pois então: Aquário. Em primeiro lugar, exatamente por isso, porque nem humana ela é. Digo isso na certeza de que os aquarianos queridos do meu coração vão entender como um elogio: tipo, você nem é humano, você é uma Janet. E, como se não bastasse, ela é capaz de prover os humanos com aquilo que normalmente é reservado aos deuses, como fez Prometeu, protagonista do mito mais significativamente aquariano. O fato de que vai acabar se apaixonando por uma pessoa de carne e osso, e conhecer um pouco mais os desejos do corpo que a princípio lhe é estranho – isso também acontece com frequência no âmbito do arquétipo de Aquário. E a maneira como a mente dela se conecta como uma espécie de supercomputador a tudo o que acontece no universo só me faz ter mais certeza do meu ponto.

Para terminar, ufa, tem a série como um todo. Estreou em 19 de setembro de 2016. Essa sim é, portanto, virginiana. Para mim faz sentido: a narrativa costuma ser até bem metódica em sua sobreposição de universos como se fossem bonecas russas, mesmo quando flerta com o caos. Agora, eu apostaria que existe alguma coisa ali que articula muito bem Sagitário e Touro. Talvez a Lua no primeiro, o ascendente no outro. Pois o pano de fundo é sagitariano, de modo que toda a brincadeira é organizada em torno de uma indagação sobre o sentido da vida e a finalidade da existência. Ela pode não alcançar muita profundidade nesse sentido; mas isso, pelo menos para mim, não é necessariamente uma falha ou deficiência. É aí que entra a perspectiva taurina.

Pois, no final das contas, após as milhões de referências a Kant e Heidegger e Pascal, a série acaba recorrendo ao pensamento oriental para dar uma última resposta provisória ao enigma do existir. Sobre esse aspecto dos últimos episódios, sem entregar o enredo, vou me permitir uma pincelada, até porque o recurso é mais que previsível, e não apenas pelo andamento da série, mas pela própria linguagem seriada de que ela é um bom exemplo. A ideia de que o “fim” pode ser infinitamente postergado para uma outra temporada – e de que podem existir mundos infinitos dentro de infinitos mundos – faz, curiosamente, com que o momento presente seja mais valorizado. Se a própria morte não é conclusão de um processo, mas faz parte de um conjunto incessante de ciclos, não tem porque você se afligir com uma finitude ilusória, e você pode muito bem encontrar o infinito que existe contido no agora.

Buda, como já disse aqui vez ou outra, para todos os efeitos era taurino. Seu aniversário é comemorado no dia 07 de maio. Isso para mim está relacionado não apenas à paciência e à perseverança, mas também à capacidade que Touro tem de aproveitar as coisas boas da vida. Digo, aquelas coisas materiais e momentâneas mesmo, como uma boa refeição, um bom vinho, uma boa companhia ou a simples possibilidade de respirar fundo um ar puro e tranquilo. É por isso que para mim a série termina onde começa a grande lição de Touro para nós. Que é um pouco a lição de Buda também. Não saia daí. Respire. Aproveite a vida. Aproveite o momento. O lugar bom é onde você está.

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Signos lunares: Áries

Imagem: Pinterest | angryclouds

Uma das coisas mais importantes que aprendi no começo dos meus estudos de astrologia foi o papel do signo lunar nas expectativas de futuro criadas a partir de experiências passadas. Segundo Daniel Giamario, o signo onde se encontra a Lua no instante do nascimento indica um campo de atuação já conhecido, habilidades consolidadas e inclinações inatas, que podem inclusive remeter a vidas anteriores, nas quais a alma se acostumou a ocupar uma determinada posição e exercer certas qualidades. Porém, é no Ascendente que se encontram as novas possibilidades e propostas e aventuras para essa vida.

O signo solar funciona como uma espécie de combustível para realizarmos essa transição. Mesmo que alguém tenha a Lua, o Sol e o Ascendente em um mesmo signo, cada um deles terá uma interpretação diferente nessa história; em cada um deles uma dimensão diferente do mesmo arquétipo irá se manifestar. De modo que conhecer nosso signo lunar é entender melhor um conjunto de hábitos e talentos que podem ser de grande ajuda, uma vez que estão sempre disponíveis em uma versão já avançada, mas correm o risco de se tornarem padrões de comportamento estéreis, que não precisam mais se repetir.

Pensando nisso, pensei em traduzir e publicar aqui as descrições que a astróloga Cal Garrison ofereceu para os signos lunares em The Lunar Gospel (Weiser, 2018), um livro que parte da proposta de Giamario para explorar com profundidade todas as dimensões da Lua no horóscopo, incluindo também a Lua nas casas zodiacais, os nodos lunares, a lua em progressão, aspectos natais etc.. A Cal já me deu sua autorização, mas vou precisar falar com os editores se quiser traduzir o texto de todos os signos (ainda assim seria apenas pequena parte da obra).

Então vou deixar aqui a tradução do primeiro texto, sobre a Lua em Áries, e se o retorno for positivo, corro atrás da permissão para publicar os outros textos.


“Vamos começar com Áries. Como é ter uma Lua em Áries? O que você sabe logo de cara quando a Lua está nesse signo é que essa pessoa passou suas vidas passadas sozinha, em modo de combate, isolada, em situações difíceis ou condições extremas. São aquelas pessoas que, literal ou metaforicamente, estiveram apenas lutando pela sobrevivência, saindo com sua clava para matar um bisão por dia, ou dentro da caverna, cuidando do fogo e preparando a comida.

Com frequência não há nada em sua memória celular que se lembre do que é viver com algum conforto. Com frequência não há recordação de como é se sentir amado. Muitos indivíduos com a Lua em Áries não sabem como apreciar a beleza. Há algo de áspero e de brusco que vem com esse signo. As pessoas de Lua em Áries passaram vidas inteiras no campo de batalha ou defendendo e protegendo o restante da coletividade.

Se você levar sua mente até a Grécia ou a Roma antigas, imagens de Alexandre o Grande ou Felipe da Macedônia vão surgir. As necessidades da guerra mantinham essas almas longe nos campos, fazendo o que quer que estivessem fazendo lá por anos seguidos. A pessoa com a Lua em Áries vem para essa encarnação com muita força e coragem, mas sem expectativa nenhuma de receber amor e cuidado dos outros.

Talvez seja por isso que fiquem tão confortáveis sozinhas. Qualquer indivíduo com Áries predominante no mapa natal pode passar com pouco contato humano. Esse é o único signo do zodíaco que simplesmente não precisa estar com ninguém.

A questão da solidão é interessante. Sem distrações e sem ninguém para atender a não ser a si mesmas, essas pessoas adquiriram uma tremenda capacidade de foco. Perceba: se a Lua em Áries surge com pessoas que estiveram em modo de combate nas vidas anteriores, sua memória celular lhes diz que elas não podem adormecer ou dar bobeira, que têm que ficar ligadas o tempo inteiro, não podem relaxar, precisam estar sempre completamente energizadas, sempre prontas para a luta.

A capacidade de foco as ajuda a realizar muita coisa em algum campo de atividade determinado. Quando você fala com uma pessoa de Lua em Áries, em muitos casos percebe que a pessoa já teve a experiência de ser o número 1 no que faz. Se é uma pessoa extremamente talentosa em uma área de atuação, você percebe que ela já foi reconhecida ou já se estabeleceu como a melhor em seu campo e retornou agora para ganhar a medalha de ouro novamente – ou não. Se a alma precisará viver essa experiência outra vez depende em grande medida do que está acontecendo no Ascendente.

Se as altas expectativas de pessoas com a Lua em Áries lhes fazem acreditar que estão destinadas ao lugar mais alto do pódio de novo, você precisa saber lhes dizer que nem sempre funciona assim. Tudo é relativo em um horóscopo. A Lua diz muito sobre o que já fomos, mas de maneira alguma tem a última palavra sobre o que nos tornaremos nessa vida.

Tudo sem suas desvantagens. Quando afligida, a capacidade de manter o foco que é o traço mais forte do arquétipo ariano concede a essas pessoas uma enorme quantidade de energia autocentrada e narcisista. O tipo ariano pode ser tão narcisista que não precisa de ninguém para ter relações sexuais. Estão tão envolvidos consigo mesmos que o componente sexual é com frequência autoerótico. Isso surge como uma especie de ressaca das vidas passadas.

Essa é sua fraqueza. As virtudes da Lua em Áries estão em sua coragem, clareza, honestidade – e a capacidade de conquistar e se destacar mesmo quando não existe ninguém ou quase nada em que apoiar o esforço.”

Cal Garrison. The Lunar Gospel. Newburyport: Weiser Books, p. 20-23.

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Estatísticas

Agradeço a todo mundo que atendeu ao meu apelo para contar o ascendente pelas redes sociais. Agora enfim tenho uma amostra considerável para oferecer minha contribuição ao desenvolvimento da ciência astrológica com o máximo rigor metodológico. Em seguida, apresento alguns dados do DATAGUS acompanhados das respectivas análises qualitativas:

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em ÁRIES foi de 5,8% do total. Porém, sabe-se que a conclusão da amostragem não corresponde à realidade. Tem muita gente com ascendente em Áries que já não está em rede social nenhuma. Saíram fora dessa.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em TOURO foi de 8,33333%. Foi o único signo cujo número correspondeu a exatamente 1/12 do total. O pessoal de ascendente em Touro é objetivo. Quando a gente pergunta o ascendente eles respondem “Touro”, e mantêm-se impassíveis, como que esperando a gente dizer alguma coisa a respeito. Mas nessas horas costumo perceber lá no fundo de seus olhos um desconcertante lampejo de sarcasmo.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em GÊMEOS foi de 8,8% do total. Desses, quase metade respondeu “Gêmeos kkkkkkkkk”. Deve ser divertido ter o ascendente em Gêmeos.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em CÂNCER foi de 7,5% do total. Infelizmente, nenhum deles me convidou para tomar um café e comer um bolinho na casa deles. Tomar café e comer bolinho na casa do ascendente em Câncer é especial. Convida aí, pessoal, que eu aceito.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em LEÃO foi de 12,3% do total. Outro número que com certeza não corresponde à realidade. Ter ascendente em Leão é o máximo. Tem gente que diz só pra aparecer.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em VIRGEM foi de 10,3% do total. É um número alto, mas possivelmente correspondente ao número de indivíduos vivos com este ascendente. Mesmo o pessoal com a Lua em Peixes ou Marte em Gêmeos uma hora resolve fazer tudo certinho e manter uma rotina saudável, se tiver o ascendente em Virgem. O percentual se explica pela longevidade.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em LIBRA de foi 8,6% do total. Uma breve análise das fotos de perfil confirma a fama desse ascendente. Ô gente bonita, meu Deus.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em ESCORPIÃO foi de 4,2% do total. O índice extremamente baixo é fácil de explicar. Um ascendente em Escorpião não vai sair contando isso por aí (eu, por exemplo, não conto). A propósito, 100% dos indivíduos que responderam com “quero ver vc adivinhar” tinham ascendente em Escorpião. Já três indivíduos perguntaram se isso de ter ascendente em Escorpião é grave. Dois deles, anonimamente.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em SAGITÁRIO foi de 8,0% do total. Metade desses já sabia tudo sobre ter ascendente em Sagitário. A outra metade pediu bibliografia.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em CAPRICÓRNIO foi de 6,9% do total. Aqui também acho que há uma distorção. Muitos não responderam a pesquisa porque estavam trabalhando em um projeto. Ascendente em Capricórnio está sempre trabalhando em um projeto.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em AQUÁRIO foi de 9,1% do total. Aqui temos um caso muito singular, mesmo para meu círculo de conhecidos: dois a cada três desses indivíduos são estudantes de humanos. Ops, de humanas. Mas faz sentido. Sempre tenho a sensação de que Aquário é gente de outros planetas que resolveu passar um tempo na Terra por algum motivo. No caso do ascendente agora está claro. Vieram nos pesquisar.

Enfim, o número de indivíduos que declararam ter ascendente em PEIXES foi de 6,4% do total. Aqui acontece algo aparecido com o ascendente em Áries. A diferença é que o ascendente em Peixes não está fora só das redes sociais. Ele está a caminho de estar fora da sociedade mesmo. Faz muito bem.

A propósito, dos 1,7% que responderam “ih não lembro”, presume -se que a maioria tenha ascendente em Peixes.

Por enquanto é isso. Estaremos em contínuo trabalho de processamento e análise das informações. A qualquer momento pode sair um novo relatório. Mais uma vez obrigado.

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Como morrem os signos

O Sétimo Selo, dir. Ingmar Bergman (1957)

Áries morre no calor do combate. Nem chega a ver o rosto da morte. Não sofre por antecipação: o golpe é fatal, súbito e exato.

Touro vê a morte de longe, depois vê a morte chegando, e vai se aproximando dela, até que se encontram. Nada altera seu caminho.

Gêmeos pode até aceitar a morte, só queria ter uma conversa com ela antes: “Isso de morrer, precisa mesmo?”, “esse seu trabalho, é meio pesado né?”, “lá pra onde a gente vai, tem internet?”

Câncer odeia a morte. Queria que ela morresse. Mas ia ficar triste se morresse mesmo.

Leão desafia a morte. Não tem chance de vencê-la, mas faz parecer que tem. Sua morte é uma derrota, mas uma derrota trágica, bela e gloriosa.

A morte de Virgem é um rito. Ela é recebida em um lugar adequado e com os utensílios corretos. Até para morrer existe um jeito certo.

Libra também conversa com a morte, e começa tentando fazê-la mudar de ideia. Depois aceita que a morte é inevitável. Acaba concordando com ela em inúmeros outros assuntos também.

Escorpião morre várias vezes na vida. Tantas que faz amizade com a morte. É com carinho que a recebe na última visita. “Vem cá minha velha”, diz, cheio de intimidades.

Sagitário tem uma teoria a respeito da morte, e vai explicá-la para a morte quando a morte chegar. Vai ser a maior viagem, mas a morte vai achar interessante e vai ouvir até o fim.

Capricórnio respeita a morte, sabe que ela está aí há muito tempo. Morrer é uma coisa que todo mundo faz, não vai ser ele que vai inventar moda do contrário.

Aquário recebe a morte como um convite para entrar em um clube, tipo ingressar em uma associação: “Tô nessa, quero participar também”. Mas Aquário pode sentir exatamente o contrário, a morte como oportunidade de deixar de participar do clube dos vivos: “enfim”, diz, “tire-me daqui”.

Peixes se rende à morte como se rende ao sono, deixa que ela leve peça por peça, entrega os pontos. E, se tem alguém que consegue enganar a morte, esse alguém é Peixes, quando finge que está jogando para vencer, e na verdade não está nem prestando atenção no placar do jogo.

áries

Iniciantes

Eu estava no meio de uma aula quando minha mulher ligou dizendo que estava a caminho da maternidade. Algumas horas depois o Gabriel tinha nascido, em um parto imprevisto e antecipado, mas normal, e ao mesmo tempo quase fora da normalidade de tão tranquilo (eu diria até “fácil” se não tivesse sido particularmente fácil para mim, que fiz as vezes de chefe de torcida; mas o ânimo da obstetra e da equipe era de uma genuína descontração, e a Maíra fez o trabalho pesado como se já tivesse parido umas dez vezes antes).

É claro que quando ele nasceu eu já tinha quase todo o mapa astrológico natal dele na cabeça. Faltava o ascendente, que muda rápido, de acordo com a rotação da Terra, passando duas horas em cada signo por dia, uns minutinhos em cada grau. O interessante aí é que a posição exata do ascendente influi em todas as outras posições de um mapa, e é uma espécie de princípio organizador do espaço onde vão se distribuir todas as outras informações. O ascendente é para mim o assunto mais fascinante da astrologia, e se ainda não escrevi em detalhes a respeito é porque me faltou tempo para tentar explicar com calma o porquê.

Assim, depois de ter cuidado de assuntos médicos e de saber que ele estava bem, fui conferir qual era o ascendente dele com curiosidade e expectativa. Mas não imaginava que o resultado seria tão singular, improvável mesmo. Ele tem o ascendente o grau zero de Áries, ou seja, no inicinho do zodíaco, que é outro dos meus temas astrológicos favoritos, que foi inclusive o tema de uma incrível troca de mensagens que tive com a Cal Garrison no começo do ano, de um comentário dela em seu blog sobre essas conversas, e de alguns textos e comentários que publiquei.

Seria de se presumir que com isso a imagem do mapa dele teria ficado completa para mim. Mas é aqui que as coisas ficam mais interessantes. Porque o grau zero de Áries é fascinante exatamente porque ele é o ponto do zodíaco do qual nada pode ser dito além do fato de que ali as coisas começam. O que começa, como começa, para onde vai, nada disso importa. É a própria ideia de início que está implicada. E, com ela, a liberdade, pois tudo o que realmente se inicia – ou seja, tudo o que nasce – é livre para tornar-se algo novo, algo que nunca antes veio a ser (a Hannah Arendt fala bastante disso em A Condição Humana).

Qualquer leitura de um mapa astral responde a perguntas que fazemos a ele. Nesse caso, à pergunta sobre “como será o meu filho”, o mapa dele respondeu: você não faz ideia, você não tem como saber. Ele entrou no mundo através de um portal muito específico, que existe durante quatro minutos a cada dia, e que enfatiza o aspecto inédito de cada existência. Um dos motivos pelos quais o ascendente é um ótimo assunto está no fato de que ele está sempre relacionado ao nascimento, à liberdade e à espontaneidade criativa do cosmos; para todo mundo ele é esse portal. Mas, no caso do Gabriel, a coincidência do ascendente com o grau zero de Áries enfatiza que sua liberdade – inclusive perante todos os demais símbolos astrológicos – é absoluta e inegociável.

Em um texto no Facebook sobre Quíron, que ainda vou republicar aqui, escrevi o seguinte no começo do ano: “Quíron está entrando no grau zero de Áries, o local onde aquilo que desconhecemos se inicia”. Em outro texto, sobre o arquétipo de Áries, que já está no blog, comentei o seguinte: “O éden de Áries não é um lugar; é um gesto, um momento de independência e libertação. Mesmo que nos leve ao desconhecido, mesmo que cause incerteza, será preferido a qualquer sensação de segurança que exista às custas da verdadeira vida”. É engraçado perceber agora que de certa forma eu estava escrevendo para mim mesmo, para esse pai que, agora, querendo ou não, estava em busca de alguma previsibilidade e segurança, ao montar o mapa astral do filho na cabeça antes mesmo do parto, para depois arrematá-lo com um dado que desmontava toda a construção anterior.   

Sem dúvida, o que temos aqui em casa agora – essa criaturinha que grita, chora, mama, dorme, quase ri – é a verdadeira vida. Uma vida iniciante inclusive nas artes da respiração, com pais que precisam aprender e reaprender tanta coisa que é como se estivessem eles próprios no princípio de tudo. Os dias vão passando e eu certamente voltarei a olhar para o mapa de meu filho tentando identificar traços de sua personalidade, de seu destino, de suas vidas passadas. Mas esse ascendente no grau zero de Áries estará sempre lá, para me lembrar que que tudo está sujeito à contínua renovação, de que não sabemos de nada com certeza e segurança, e de que estamos sempre apenas no começo.

libra

Tudo em Libra


Alguns amigos me marcaram para ver e comentar essa imagem aí de cima (tirei do Facebook, créditos para Ricardo Scarpa). Minha primeira reação, é claro, foi ficar preocupado com a Gislaine. A segunda foi de impaciência. Mas olhando de novo achei engraçado – porque, né, é verdade. Eu realmente escuto Mercúrio falando essas coisas, e aqui em casa Mercúrio não só fala como anda pra frente, pra trás, dá cambalhota e decide se a Netflix vai funcionar ou não (aqui em casa as coisas são animadas).

Depois fiquei pensando que o desenho me faz lembrar do eixo Áries-Libra, e mais especificamente que a parte do lado direito representa algumas virtudes librianas. Porque a astrologia mesmo costuma ser associada aos arquétipos de Escorpião, Sagitário, Aquário, Peixes, mas não seria nada sem a disposição para a escuta que existe em Libra. Aí fiquei pensando se o Mercúrio mudinho do lado esquerdo não é assim simplesmente porque ninguém parou para escutá-lo, coitado.

Mas, sério: o Mercúrio mudinho é de fato o Mercúrio dos astrônomos, o Mercúrio da ciência moderna, que conseguiu feitos extraordinários, mas muitas vezes às custas do silenciamento e da vulgarização do mundo dito ‘natural’, colocado em oposição ao mundo humano. Tornou-o mudo, estéril, estúpido. E ele precisa mesmo continuar assim aos olhos dos cientistas – mas isso não quer dizer que em outros contextos seja impossível atribuir ao não-humano uma inteligência singular.  

As duas imagens não são excludentes. Não é isso ou aquilo, é isso e aquilo. Mas para desenvolver esse tipo de pensamento precisamos de Libra. Minha impaciência inicial foi tipicamente ariana: competitiva, combativa, vontade de mostrar que meu Mercúrio é melhor que o deles. E haverá sempre nesse mundo hostilidade suficiente pare que Áries seja um arquétipo fundamental, que nos torna atentos a ameaças e nos dá força para enfrentá-las.

Mas nem sempre é eu ou o outro. Muitas vezes é eu e o outro, na medida em que o outro não está ali para nos matar, vencer ou engolir, e que, portanto, tampouco precisamos matá-lo, vencê-lo, engoli-lo. A partir daí talvez a gente perceba que ele tem algo a nos dizer. O mundo de Áries pode ser um mundo árido, e se permanecemos sempre nele é também um lugar muito solitário. O mundo de Libra, além de compartilhado, pode ser também um mundo literalmente encantado, onde as coisas falam, porque a gente se deu ao trabalho de ouvi-las.

Não tenho muitos planetas em Libra. Mas quando estou diante de um mapa astral – o meu mapa, por exemplo – de certa forma TUDO ali está em Libra, porque tudo está diante de mim em uma posição que não é de confronto, mas de interação. Estamos lá eu e um outro de mim mesmo que se manifesta através de símbolos, que por sua vez remetem a planetas, planetas que falam através desses símbolos.

E preciso deixar que eles falem. Por mais que a astrologia utilize recursos científicos, dificilmente deixa de ser uma prática divinatória que se situa em um universo não-desencantado, onde as coisas têm voz e a gente escuta. Sim, a gente é meio doido mesmo. E o mais engraçado é que, juntando um pouco de experiência com os tais recursos científicos, a gente começa a escutar as coisas falando com certa lógica. A gente é muito doido no final das contas.

Mas isso de viver em um cosmos onde nós humanos somos a única coisa que fala é também complicado, e pode ser enlouquecedor. Tem aquela história de que Ulisses tapou os ouvidos para não escutar o canto das sereias e assim preservar sua razão; mas tem também Kafka escrevendo que “agora as sereias têm uma arma ainda mais assustadora que o canto – o silêncio”. Que triste essa existência isolada em um universo emudecido onde nem as sereias se dirigem a nós, nem mesmo para nos enlouquecer.

E com alguém a gente tem que conversar, isso é fato. Mas vou além: com alguma coisa a gente tem que conversar. Não precisa ser com os astros. Converse com as plantas, converse com os bichos, converse com os gatos. Todos têm algo a nos dizer. Com isso a gente talvez aprenda um pouco dessa arte libriana de só tomar uma decisão depois de muita conversa (digo, quando tomam, porque é verdade que muitas vezes não tomam decisão nenhuma, ficam só de papo pedindo conselho pra samambaia, o que já não é exatamente uma arte).

Mas aqui em casa o diálogo costuma ser mais é com os planetas mesmo. Como disse, as coisas aqui são animadas. Já tomei decisões importantes depois de trocar ideias com Vênus, depois de deliberar seriamente com Júpiter, depois de intensos debates com Urano, e já servi de intérprete para muita gente que até escuta os astros mas não entende bem o que eles estão falando. O arquétipo libriano é, no mínimo, o palco dessas conversas. A gente fala muito sobre todo o resto, a gente tenta ouvir junto e entender um monte de coisa estranha, mas essa ação acontece sempre na região do zodíaco onde o eu e o outro, ou o eu e o mundo, se encontram.

Quanto à Gislaine, espero que ela seja de Libra, isso vai ajudá-la a saber parar e ouvir o que Mercúrio tem a lhe dizer. Ele pode ser meio sacana às vezes, ele pode ser meio travesso, mas diz coisas importantes também. Já o Mercúrio mudinho do lado esquerdo, esse aí não me engana, se tá calado é por algum motivo. Esses tipos misteriosos eu conheço bem. Deve ser de Capricórnio. Ou então Virgem. Ascendente em Escorpião.