gêmeos

Sob o signo da distração

Talvez você não saiba, mas os doze trabalhos de Hércules podem ser associados aos doze signos do zodíaco. Eu mesmo só descobri isso agora, quando tinha coisa mais importante para fazer e inventei de ficar fuçando a internet ao invés disso. Áries, por exemplo, é associado à lição aprendida durante a captura das éguas furiosas de Diomedes: após reunir algumas delas, e na pressa para terminar logo o trabalho, o herói deixa as éguas capturadas aos cuidados do amigo Abderis, que nem de longe tem as mesmas qualidades hercúleas, e acaba devorado impiedosamente. Hércules não chega a se abalar muito com o episódio, mas está claro que o trabalho não é um completo sucesso. Nota mental para arianes: não deixar bestas famintas aos cuidados do amigo.

Mas a história que realmente chamou minha atenção e me fez parar para contar o caso foi a de Gêmeos. Trata-se do trabalho em que Hércules precisa colher umas tais famosas maçãs de ouro das Hespérides. Não me perguntem o que é Hespéride, porque não faço ideia, e pra mim já deu de catar conhecimentos aleatórios por hoje; o fato é que, comparado às demais tarefas, essa parece bem mais fácil, a tal ponto de Hércules (de hábito eficaz e intransigente em seus esforços) acaba parando no caminho, voltando-se para as distrações que aparecem. Numa dessas, ele encontra Atlas, que já não aguenta mais segurar o mundo nas costas e lhe pede uma forcinha. Hércules presta socorro, e no final das contas é Atlas que vai colher as maçãs para ele, num trabalho que se revela mais complicado do que ele tinha previsto. Sozinho ele não teria conseguido.

Moral da história: a procrastinação compensa. Se você tem algo de importante para fazer pela frente, pode ser fundamental que você se deixe distrair com outros assuntos, para descobrir – ainda que sem querer – os instrumentos e informações necessárias à realização do trabalho. Notem, aliás, que Gêmeos é o signo oposto complementar de Sagitário (a flecha que vai direto ao ponto), e vive meio que arquetipicamente às turras com Capricórnio (que quer ver as coisas todas feitas de uma vez). Porém – e isso vale especialmente para capricorninianes – a procrastinação é uma arte, e, como tal, deve ser praticada por amor e com autêntico desinteresse. Não vale adiar as tarefas e ficar procurando aqui e ali as distrações que serão mais úteis; só aquelas praticadas com genuína negligência pelos resultados serão recompensadas.

Tem também o fato, é claro, de que, se você parou para ajudar o amigo, aumentam as chances de retribuição. Mas, se não me engano – e, em se tratando de Gêmeos, aumentam as possibilidades –, o Hércules da lenda parou para ver o que estava acontecendo e saiu do seu caminho mais por curiosidade mesmo. Foi isso que teve efeito, e não a disposição piedosa, o cuidado solidário, a preocupação com o destino do mundo. Existe um valor intrínseco na dispersão, um atributo característico da multiplicação de objetivos secundários, assim como  existe uma virtude própria em todas essas abas abertas no navegador da internet. Como diz a canção: navegar é preciso, viver nem é.

Portanto, se você parou o que estava fazendo para ler esse texto, isso não quer dizer que o universo vai te recompensar com uma ajudinha a mais nos serviços que deixou para depois. Mas quer dizer, sim, que você está exercendo uma qualidade humana cuja importância não podemos quantificar. Vai saber: quem garante que Hamlet não teria sido poupado daquela desgraça toda se tivesse adiado só um pouquinho mais sua vingança, descobrindo que Fortimbrás estava com suas tropas às portas no reino da Dinamarca? E Romeu e Julieta, então – não é certo que um pouquinho menos de foco naquele negócio de se matar poderia ter encaminhado a história para outro desfecho?

Mas reconheçamos que, com isso, a humanidade teria sido privada de algumas de suas mais belas tragédias. E, se entendemos que Gêmeos poderia evitá-las, é porque Gêmeos, de fato, não é um signo trágico. Mas isso não quer dizer que não seja épico. Vale lembrar algo que o crítico literário Georg Lukács afirmou sobre os heróis das epopeias: para eles, o problema não é decidir o quê fazer, mas descobrir se terão força, coragem e habilidades necessárias para realizar suas tarefas. De modo que podemos agora acrescentar: se terão as capacidades hesitantes, o caráter meio desatento, o gosto pela cultura inútil e a inclinação a dar trela para distrações no meio da tarde que só os grandes heróis possuem nos momentos decisivos. Na hora H, é válido dar aquela olhadinha nas redes sociais ao invés de enfrentar o próximo serviço que temos pela frente. No que se refere aos doze trabalhos de Hércules, pelo menos, podemos afirmar com somente contando com essas virtudes eles vieram a ser concluídos.

áries

O signo de Deus

Sabe aqueles memes com a frase “eu às 10 da noite: hoje vou dormir cedo”, que daí cortam para um “eu às 03 da manhã”, fazendo uma pesquisa nada a ver na internet, ou encasquetado com algum pensamento aleatório? Tipo “gente, que coisa, a mesma lógica que usaram para o nome do Pato Donald vale pro Fernando Pessoa”, ou “será que já comi carne da mesma vaca que bebi leite”? Então. Suponho que essa seja uma experiência imemorial, e que nossos antepassados sofriam com o mesmo problema – talvez apenas não tivessem a mesma chance de compartilhar com o mundo inteiro os motivos de suas noites insones. Aí fico imaginando a primeira pessoa que leu a Bíblia, indo para a cama tranquila depois do primeiro episódio, porque até ali pelo menos estava indo tudo bem, o mundo tinha sido criado, dentro no prazo e tudo, com alguma chance de sucesso. Aí de repente no meio da madrugada bate aquele pensamento incômodo, e toda a perspectiva de uma boa noite de sono vai por água abaixo: “Mas péra, e se a luz não fosse boa?”

Porque, né, podia não ter sido. Pelo menos é isso que a gente deduz do Livro do Gênesis. Lá no comecinho mesmo, logo depois de criar o céu e terra, Deus cria a luz (“haja luz”), aí vê que a luz é boa, e decide continuar com a luz. Quer dizer que o mundo foi criado na base da tentativa e erro, e que o Próprio não tinha muita certeza do que estava fazendo; pela maneira como a história é narrada, parece que Deus podia muito bem ter criado, sei lá, o inverno ártico, ou a apendicite, ou a pizza de estrogonofe, logo de cara, aí é que eu quero ver se ele ia ganhar todo esse crédito. O universo teria flopado na mesma hora, sobretudo se as Sagrada Escrituras começassem com algo do tipo: “Deus criou o céu e a terra, e o céu e terra era sem forma e vazios, e estavam imersos nas trevas; e Deus disse: ‘Haja o telemarketing’, e é por isso que desde então passamos o dia inteiro no escuro atendendo números desconhecidos de São Paulo”.

Pois é, às vezes eu fico pensando nessas coisas no meio da madrugada. Uma das razões pelas quais criei esse blog foi justamente para desovar tais questionamentos. Outro que já me ocorreu – e que naturalmente deve ter ocorrido a qualquer astrólogo decente – é qual seria o signo de Deus. E não me venham com essa história de que Deus não tem signo, que Deus é Tudo e Tudo é Deus, porque de soluções fáceis o inferno está cheio, e isso é apenas a típica reação de geminianos na hora de fazer uma escolha difícil. Nada disso, Deus tem signo sim, todo mundo tem, e a única coisa que torna um pouco mais difícil saber o signo de Deus é a falta de um registro confiável da data de nascimento. Mais ou menos como no caso da Elena Ferrante, a autora italiana que escreve sob pseudônimo e cuja identidade verdadeira é desconhecida. Então precisamos partir das características pessoais do indivíduo, estabelecer uma hipótese e verificá-la. Bom, a Elena Ferrante eu não sei, mas Deus, esse não me engana: aposto com vocês que Deus é ariano.

A primeira razão fica evidente pelos parágrafos introdutórios. Ninguém teria começado o universo se, no mínimo, não tivesse Áries muito forte no mapa. Pensem bem: não havia precedentes, era um trabalho inédito, as chances de cometer equívocos eram enormes, e havia tanta coisa em jogo que só mesmo com bastante iniciativa e um comportamento um tanto inconsequente alguém iria se meter nessa encrenca. Deve ter tido um elemento de impaciência também, é claro; basta imaginar como eram as coisas antes de tudo de existir; uma paradeira só, a maior tranquilidade, e se Deus fosse de Peixes (como alguns defendem) aposto que as coisas teriam continuado assim. Mas não, Deus quis acabar com a monotonia, acabou ficando de saco cheio, ficou com medo de morrer de tédio. Falou algo do tipo, “quer saber, vou começar um negócio aqui só para ver no que dá mesmo”, e cá estamos nós. Deu no que deu.

Ninguém com um mínimo de bom senso teria tomado uma decisão dessas. Mas é claro que Deus não tinha bom senso; o bom senso é uma característica taurina que foi criada depois de Deus. Antes disso aconteceram vários erros grosseiros, trapalhadas inenarráveis, precipitações idiotas, de modo que levou um tempo para Ele tomar consciência de si mesmo e adotar o hábito de pensar duas vezes antes de fazer algo. A sacada da luz lá no começo foi boa, isso a gente tem que reconhecer, deu certo mesmo. Mas fica impressão de que Ele empolgou, de que achou que era só dizer “haja isso” e “haja aquilo” que isso e aquilo iam ser bons e ele ia ficar logo livre do serviço. Assim, além de ter terminado o trabalho em seis dias (sim, seis dias, a p* do universo inteiro em SEIS dias – se isso não é coisa de ariano inconsequente e apressado eu não sei o que é), acabou metendo os pés pelas mãos em uma série de outras situações, e arriscando um punhado de outras intervenções que estiveram longe de obter o mesmo êxito.

Por exemplo, o episódio com o anjo que resolveu questionar a autoridade dele, cujos desdobramentos até hoje criam tanto transtorno. Se a crise tivesse sido bem administrada, se Ele tivesse empregado um pouco mais de tato na relação com o querubim, talvez o inferno hoje fosse apenas uma ideia criada pelos humanos para assustar criancinhas. Mas ele expulsou o filhote de casa sem nem dar chance para uma conversa, aí o outro foi lá e montou todo um exército de diabos e diabetes sem outra coisa para fazer na vida além fustigar a gente por toda a eternidade. Custava ter um pouquinho de parcimônia?  Agora, vai pedir um ariano para lidar com um conflito diplomaticamente, para você ver onde ele te manda enfiar o seu diploma. Não, não dava para aguardar um pouco o acesso de petulância do outro passar; Ele tinha que ficar todo intratável, cheio dos chiliques, só porque alguém ousou cantar de galo no Seu quintal. Então eu pergunto a vocês: quem foi que criou os anjos, já no segundo dia, e achou os anjos excelentes, e deixou eles existirem, criando condições para isso tudo acontecer? Sim, Ele mesmo. Deus.

Se a gente começar a fazer uma lista dos erros de Deus desde o início dos tempos (levando em conta apenas os registrados pelo cânone), é questão de ficar o restante dos tempos nisso, e ainda assim vai faltar umas horinhas. Mas também não é o caso de tripudiar. Só para dar mais um exemplo clássico, decorrente do anterior, teve a história com Jó também, em que o erro de Deus aconteceu de largada, no instante em que ele aceitou um desafio de Satanás, que foi lá e disse um “cê né homi de mostrar que é Deus mesmo”, e depois ficou de camarote assistindo a tragédia acontecer. Supõe-se que o divino devesse ter a compostura necessária para evitar esse tipo de picuinha, mas não: mais uma vez, quando a gente vê, lá está Ele atormentando um pobre coitado de um homem só para mostrar que é O cara. O interessante é que aí Ele aprendeu a lição de que ser o primeiro pode significar estar entre os últimos. Sério mesmo: pelo menos segundo Carl Jung, essa é a história da grande humilhação de Deus, porque, ao vencer a aposta com o capeta, Ele sofreu a mais completa derrota moral diante a humanidade.

O argumento está em Reposta a Jó, volume 11/4 das obras completas de Jung. A tal resposta seria o próprio nascimento de Cristo. Diante da força com que um mísero ser humano se mostra capaz de suportar seus caprichos, Deus comprova sua onipotência, e ao mesmo tempo sente-se pequeno; ele ganha consciência de Seus ridículos melindres, e decide encarnar na Terra em condição mortal, para experimentar altitudes apenas são possíveis a quem se submete à lei da gravidade. “Ele deve renovar-se, porque foi superado pela própria criatura”, afirma ainda Jung, indicando que a concepção cristã do amor incondicional de Deus pela humanidade depende desse movimento, efetivado, cabe observar, no período de transição da Era de Áries para a Era de Peixes, segundo a processão dos equinócios. “A intenção de Javé de tornar-se homem, que resultou do entrechoque com Jó, realizou-se plenamente na Vida e na Paixão de Cristo”.

Disso decorre um corolário que, se vale para Deus, deve valer para o pessoal de Áries de modo geral: é possível aprendermos como nossos erros. No que o pessoal de Áries tem todo o direito de responder: sim, mas para isso alguém precisa errar, então não me venham com essa história de que nós somos precipitados e competitivos e desatentos e coisa e tal, a gente primeiro faz o que tem que fazer, depois pensa no que poderia ser feito diferente. De acordo. Vejam também o caso de Hércules, que já mencionei para falar de Áries em outras oportunidades (por exemplo, aqui), e para não ficarmos só na mitologia judaico-cristã. Em um de seus trabalhos – exatamente aquele mais exatamente associado ao signo – ele tem que capturar as éguas furiosas de Diomedes (filho do deus Ares) que estariam causando devastação em certas planícies. Hércules, em sua capacidade de realizar grandes feitos, consegue executar a tarefa relativamente simples em pouquíssimo tempo. Então, para ir logo tratar de outros assuntos, deixa as éguas capturadas aos cuidados de Abderis, um amigo não tão íntimo das fúrias da natureza. Abderis acaba trucidado pelos animais.

Mas nesse caso, apesar do descuido, Hércules continua sendo Hércules, continua sendo um herói ariano. O amor incondicional só seria inventado muito tempo depois. Ele tinha ainda um punhado de trabalhos a cumprir, e dá no máximo para imaginá-lo fazendo uma nota mental (“não deixar bestas assassinas machucarem o amigo”) para evitar outras perdas. Esse é tipo determinação que Áries exibe com excelência: não aquela que se supõe infalível e imune a equívocos, mas a que entende que equívocos são inevitáveis se você se dispuser a fazer coisas que ninguém fez antes, e que isso não é motivo para deixar de fazê-las. É por isso que Áries vai errar muito na vida: porque vai agir muito, vai tentar coisas que ninguém tentou, vai assumir compromissos que ninguém ousou assumir, vai aceitar desafios que podem até parecer idiotas, mas – vai saber – numa dessas acabam sendo criadas as condições para o milagroso nascimento do redentor. Ou seja: Áries tem a sagrada capacidade de dar início a processos que ninguém faz ideia de onde vão nos levar.

Tudo isso faz lembrar uma das mais famosas frases sobre o erro e o fracasso que existem: “Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better.” Seu autor foi o dramaturgo irlandês Samuel Beckett, que, bem a propósito, em sua peça Fim de Jogo, celebrizou uma anedota na qual um sujeito encomenda um par de calças para um alfaiate muito renomado e exigente, famoso pela qualidade impecável de seus produtos. Então, toda vez que o cliente vai buscar as calças, elas ainda não estão prontas, porque o alfaiate tem sempre um pequeno ajuste ainda a fazer, um errinho invisível ainda a reparar, um detalhe com que não está satisfeito. Até que um dia, depois de meses, o cliente reclama: “Mas não é possível isso! Pra que esse atraso todo? Deus que é Deus fez o mundo em seis dias!”. E o alfaiate: “Sim, meu senhor, mas olhe para o mundo… e olhe para as minhas calças!”

O alfaiate, com certeza, era de Virgem. Deus vocês já sabem. E Beckett também era ariano. O engraçado é que tanto ele quando Henry James – outro escritor de Áries – são conhecidos pela inércia ou indecisão que costumam ser marcas de seus personagens. Não que eu seja capaz de oferecer uma solução para esse paradoxo, mas posso dizer quem é, de modo que vou me permitir dar uma terceirizada nessa digressão. Pois tenho uma amiga capricorniana que é também a maior especialista em Áries que conheço, e não apenas porque escreveu uma premiada tese sobre Henry James. Ela tem ainda marido em Áries, filho em Áries, melhores amigas em Áries, enfim, o pacote completo. Pensando aqui agora, é interessante que um dos últimos artigos que ela publicou tenha sido sobre a Elena Ferrante. Quem quiser, está disponível gratuitamente online aqui, numa coletânea de ensaios. Com isso, pensando bem, acho que já tenho uma aposta a respeito do signo da romancista italiana.

E, para encerrar, é como eu costumo dizer a vocês: quando resolvo escrever um desses textos para o blog, é porque sei como eles começam, mas nunca onde vão terminar. Olhando o sumário da coletânea que mencionei há pouco, reparei que o primeiro texto se chama “En los inicios de la gran aventura: modernismo, internacionalismo y vanguardias”, e foi escrito por uma colega nossa argentina e ariana, que há bastante tempo é para mim um dos melhores exemplos da maneira corajosa com que Áries se manifesta no mundo. Notem como já no título e no tema do ensaio dá para notar o vínculo: o vanguardismo requer uma disposição arrojada e desbravadora, enquanto o “início da grande aventura” tem sido basicamente o assunto desse texto. Mas não é exatamente sobre assuntos acadêmicos que eu penso ao lembrar dela, da autora, que se chama Karina Vasquez. Tem uma coisa mais importante aí.

Sabem uma canção do Lou Reed chamada “Beginning of a Great Adventure”, no álbum New York, em que ele trata da expectativa de um casal às vésperas de ter um filho? Então. É disso que estou falando, é disso que lembro quando penso no tema da aventura ao lembrar da Karina. Pois não conheço ninguém que tenha sido tão arrojada e pioneira e desbravadora na hora de decidir ter filhos, e tê-los: pela maneira como ela decidiu, pelos riscos que assumiu, pela determinação que demonstrou, pela força que tira não se sabe de onde para criá-los. Hoje ela é uma mulher com um filho de cinco anos e mais dois de cinco meses, dos quais cuida não apenas com dedicação, mas com prazer também. É claro que às vezes deve ser muito difícil, e imagino que existam momentos totalmente impossíveis no cotidiano com eles. Impossíveis para mim, é claro. Não para a Karina.

De modo que esse texto é dedicado a ela, ao Theo, ao Ulisses e ao Milton. Serve também como registro de que, se a história deles começou, foi porque alguém tomou uma atitude que aos olhos do mundo ao redor podia parecer impensável, ou impraticável: aí ela foi lá e não apenas pensou, como fez. Só podia ser de Áries. De minha parte, então, fico na esperança de que os trabalhos hercúleos de seu dia a dia ganhem a ressonância mítica que merecem (nesse sentido os nomes dos meninos ajudam), e fico feliz em poder terminar o texto assim. Agora, vejam só que coisa: nós que começamos com uma brincadeira sobre a mitologia de Deus criando o mundo, chegamos enfim na história da criação de três mundinhos por uma humana que decidiu pela sua existência.

A ênfase na decisão é para lembrar que todas as mulheres deveriam ter a opção de levar até o fim ou não esse gesto, sobretudo porque trata-se de uma escolha no âmbito estrito de seu próprio corpo. E às vezes, no início dessas histórias, o que existe não é exatamente uma decisão – tudo se assemelha mais a uma armadilha do que a uma aventura. Quem trata do assunto da legalização do aborto ignorando isso, com argumentos como “uma pessoa precisa assumir as consequências de seus erros”, entendeu tudo errado, desde o princípio. A gente precisa lidar, sim, com as consequências dos nossos equívocos, precipitações e inconsequências, porém isso implica justamente ações que retifiquem os caminhos, por mais difíceis que possam ser, ou novas decisões que os reforcem, mesmo quando não foi a intenção inicial. De maneira alguma estamos condenados ao inferno de um destino incontornável. Lidar com as consequências de nossos atos é também executar outros atos, e depois outros, e assim por diante.

Suspeito que, de todos os signos, Áries é o que mais sabe disso. Talvez por este motivo se arrisque tanto: porque sabe que sempre haverá como mudar as coisas, e isso certamente é algo que temos a aprender com Áries. Fico então pensando naquele Deus que criou o mundo e tudo: ele provavelmente teria dado um jeito de seguir adiante mesmo se a luz não fosse boa, como aliás parece ter seguido, com todas as outras falhas e confusões. Se estamos aqui hoje, é também um pouco porque, como a Karina, ele entendeu que todo o trabalho com esse negócio de universo e mundo e humanidade valia a pena. Ele achou que estava na hora de dar uma arriscada, mesmo sem ter o controle dos desdobramentos seguintes da história que ia começar ali, e mesmo com todos os erros que sem dúvida ia cometer.

Agora, uma última observação: fico pensando no que existia antes desse Deus. Pois alguma coisa devia existir. Alguém, ou algo (sem dúvida uma personalidade ou força feminina) deve ter dado origem a um ser que para todos os efeitos foi criado à imagem e semelhança de nós homens. Várias mitologias não-monoteístas têm um nome e uma imagem para ela, que podemos chamar de Grande Mãe, de acordo com o título que recebeu na lista dos arquétipos junguianos. Trata-se do lugar de gestação da existência de tudo, e onde tudo terá sido gestado porque se quis, porque sentiu-se que era a hora, porque havia receptividade e desejo e amor envolvidos – e não porque havia leis impedindo o contrário.

Com isso, podemos supor que lá nos primórdios do cosmos estava em ação uma espécie de amor incondicional, que ficaria depois oculto, perdido, desencontrado, e seria redescoberto, entre outras maneiras, na figura de Cristo, em decorrência dos erros de seu Pai, por causa deles resolveu encarnar na Terra. Assim fica mais fácil entender por que o amor está no final dessa história: ele está no começo também. É o amor da Grande Mãe pela criatura frágil e inconsequente e irritadiça e intratável que deve ter nascido de seu ventre ali por volta do final de março, começo de abril, lá um pouco antes do início dos tempos. Mas nada que não aconteça do mesmo jeito, todos os anos, em todos os lugares do mundo, de maneira sempre igual e sempre tão diferente. Sim, acho que no final das contas vou ter que concordar com os geminianos: não dá para cravar um signo para a pergunta de tirar o sono que coloquei lá no início. Porque em todo canto, todo dia, há milênios, como resultado do amor entre os humanos, e por efeito decisões ao mesmo tempo ponderadas e inconsequentes, existe sempre algo acontecendo que se parece muito com o que deve ter acontecido no instante do nascimento de Deus.

áries, libra

O Zen e a arte de descascar batatas

A costureira (1665) | Jan Veermer

Tem aquela história de um sujeito que chegou para trabalhar em uma fazenda e deram para ele a tarefa de remendar todas as cercas do terreno. Em questão de horas elas estavam remendadas. Aí perceberam como ele era eficaz, e deram para ele um monte de lenha para partir com um machado. Em minutos já não tinha lenha nenhuma para partir. As coisas foram seguindo nessa toada até que já não havia quase mais nada para fazer, além de descascar as batatas do almoço; deram para ele mais essa missão, com a certeza de que não ia durar mais que um piscar de olhos. A única diferença era que nesse caso ele ia precisar escolher as batatas boas e dispensar as que estavam ruins. De modo que anoiteceu e ele ainda estava lá, diante da primeira batata, sem ter decidido ainda se ela entraria no primeiro ou no segundo grupo.

A anedota é simples, a moral da história é clara: algumas pessoas, por mais competentes que sejam, simplesmente não conseguem tomar decisões. Não é da natureza delas, assim como não é da natureza do vento escolher qual caminho tomar. Agora, querem ver como as coisas de repente se complicam? Eu pergunto, invocando a dúvida que me parece realmente relevante diante dos fatos narrados: esse nosso personagem simplório e hesitante, o pau-pra-toda-obra-menos-aquelas-que-envolvem-escolhas, o exímio cortador de lenha e fracassado descascador de batatas, ele é de Áries ou de Libra? Porque de um ou outro desses signos ele é, isso fica evidente de imediato. Daí a decidir qual já é outra história.

E olha que nem libriano eu sou para ficar me entretendo demais com esses dilemas. O problema é que justamente esse estereótipo do libriano indeciso me parece insuficiente para chegar à resposta. Consigo facilmente ver o protagonista da anedota como um ariano também. Quem me garante que a velocidade dele para remendar cercas não se deve a um espírito impaciente, que não se deixa demorar em segundos pensamentos antes de partir para ação? E quem me garante que a imagem dele diante das batatas a descascar não é a de um ser exasperado com a tarefa impossível de ficar tomando decisões criteriosas e fundamentadas, quando tudo o que ele queria era sair descascando geral para ir embora logo dali?

Porém, todavia, entretanto, contudo: quem me garante que essa pessoa não era um libriano inconsciente de suas mais autênticas faculdades mentais até o momento em que se encontrou, justamente, diante da necessidade de tomar uma decisão? Quem assegura que ele não conseguiu de fato ver na questão das batatas uma série de nuances, variáveis, influxos, interferências, modulações, nodos, protuberâncias, capazes de ocupar a mente por uma tarde inteira, de maneira que, a partir de um simples to peel or not to peel, brotaram algumas possíveis respostas para as mais antigas encrencas filosóficas da humanidade? Em resumo, quem me garante que nosso protagonista na verdade não era uma Hannah Arendt dos tubérculos?

Pois é. A Hannah Arendt era libriana. E era botar duas batatas na frente dela para sair um tratado de batatologia capaz de mudar completamente nossa visão do assunto. Curiosamente, trata-se de uma autora que teve na ação um dos temas fundamentais de suas reflexões. Ou melhor, curiosamente não, coerentemente: pensar sobre a ação é, basicamente, o que Libra faz da vida. Independe se isso se dá no âmbito do não-sei-se-caso-ou-compro-uma-bicicleta ou da crítica da Crítica da Razão Prática.  

Isso tampouco quer dizer que Libra é incapaz de agir; Libra é capaz de agir sim, mas no caso libriano o problema não é a precipitação, e sim a demora mesmo. Pois entre o pensamento e o ato existe uma distância que nunca será simples de transpor. Enquanto em Áries acontece o contrário: o ato vem antes do pensamento, e a distância entre eles persiste, só que no sentido oposto. O que nos dá uma boa base para explorarmos um mesmo tópico em ambos os signos. Ele diz respeito à temporalidade de nossos gestos – ou, em bom português, o problema do timimg.

As coisas vão fazer mais sentido se a gente lembrar que Libra é um signo cardinal, dos que estão de fato voltados para a ação, a iniciativa e para a resolução de problemas (os demais são Áries, Câncer e Capricórnio). O fato de associarmos a resolução de conflitos ao arquétipo libriano faz parte desse jogo. Acontece que o conflito é um tema do eixo de opostos complementares Áries-Libra do mesmo modo como a ação é: aparece em ambos os lados da figura. Em Áries, o conflito com o mundo externo é parte natural da existência imediata, e a ação rápida decorre da defesa do eu diante do outro. Em Libra, por outro lado, o conflito é internalizado, o eu e o outro coexistem na mente individual, e a ação demora porque antes eles precisam se entender.

Com frequência, então, Áries age como se estivesse sozinho no mundo, porque em sua experiência arquetípica ele está – é o caçador solitário na floresta, atento a cada movimento ao redor, capaz de aniquilar uma ameaça em um gesto, porém despreparado para lidar com o componente imprevisível do comportamento humano. Áries não lida bem com a ambiguidade, e prefere ter uma relação direta com as coisas – mesmo que seja uma relação de luta – o que implica também uma dificuldade em conviver com o conflito.  Para Áries, conviver com um conflito é como ouvir constantemente e noite após noite o barulho de um animal rondando o acampamento no escuro da floresta, e não poder fazer nada a respeito. Uma tortura.

Libra, por outro lado, vai noite após noite juntando informações, pensando a respeito do que fazer para lidar com a ameaça, pensando em se será bicho ou será gente, até o momento em que a ameaça – qualquer que seja – avança sem que nada de efetivo tenha sido feito para enfrentá-la. Nessa situação, o libriano estaria em desvantagem. Agora vamos supor que ao invés de estarmos em uma floresta estamos em um tribunal de júri. Recolher informações a partir dos semblantes dos jurados, aguardar o momento certo para apresentar uma evidência, esperar a hora de fazer um discurso decisivo – tudo isso são virtudes que Libra pode exercer muito bem nesse domínio.

Mas ainda assim Libra só vai tomar uma decisão realmente certeira se tiver Áries em seu mapa ajudando de alguma forma. E vice-versa: se Áries simplesmente partir para cima do bicho por puro desespero, vai acabar sendo comido também. O interessante é que tanto em um caso como no outro o ideal não é exatamente que a reflexão venha antes da ação; o ideal é que as duas coisas aconteçam juntas. É verdade que a vida ia ser muito menos divertida se Áries e Libra não tivessem seus descompassos, que sem o erro não existiria a comédia, e que sem a comédia não existiria Charles Chaplin. Mas, quando o eixo Áries-Libra funciona bem, o gesto é perfeito, e não apenas acontece no timing correto como subverte nossas concepções usuais de tempo e espaço.

Quem entendeu isso bem foram os orientais. A gente é que com frequência não entende os orientais direito. O Tao Te Ching, de Lao-Tsé, é muitas vezes confundido como um elogio da inércia e de um deixar-se levar pela vida de traços piscianos e zeca-pagodísticos; nada mais distante da realidade (nada contra Peixes, e muito menos contra Zeca Pagodinho, muito pelo contrário; estou dizendo apenas que o pensamento pagodiniano não é aplicável aqui). O livro, em diversos momentos, se pretende inclusive como uma espécie de instrução para o governante nos moldes do que viria a ser o Príncipe de Maquiavel, e, portanto, oferece dicas e aforismos voltados para a tomada de decisões bem concretas e mundanas. Mas, sim, Lao-Tsé acredita que uma determinada atitude do espírito é mais favorável para que as decisões certas aconteçam.

Nós perderíamos muito do seu ensinamento se caracterizarmos essa atitude como particularmente ativa ou particularmente reflexiva. O desafio é justamente não decidir agir, mas criar condições para que a ação se dê por força própria em nosso corpo, no tempo exato, e ao mesmo tempo não a deter por conta da desconfiança que sentimos diante de sua espontaneidade. Quem deu um exemplo de como isso pode acontecer foi o acadêmico alemão Eugen Herrigel em O Zen e a Arte do Arco-e-Flecha, livro em que relata sua experiência como professor visitante na Universidade de Tóquio.

Lá, ele foi convidado a cursar disciplinas como Cerimônia do Chá, Arranjo de Flores, Esgrima e Arquearia, optando pela última e descrevendo depois no relato a longa experiência aí iniciada. Desculpem o spoiler, mas preciso dizer que ele vai acabar  acertando uma flecha atrás da outra bem no meio do alvo. No final da história, ele entende que sua longa série de fracassos decorreu do fato de que ele sempre decidia soltar a corda do arco e só depois a soltava; ou então ele, ao tentar evitar esse mecanismo, decidia soltar antes de decidir, aí soltava mais rápido, antes da hora, precipitadamente, por pura ansiedade.

O livro é um clássico que vale a leitura integral, mas gostaria sobretudo de lembrar uma passagem de sua conclusão. Nela, Herrigel menciona o método empregado por um mestre esgrimista com alunos que chegam a residir com ele para alcançar melhores resultados. No início da convivência doméstica, ao aluno são atribuídas tarefas rotineiras como cortar a lenha e lavar a louça. Nenhuma palavra ou lição a respeito da esgrima. Porém, para maior espanto do discípulo, ele passa a levar fortes golpes do mestre com um bastão enquanto está realizando estas atividades, sempre de maneira imprevista e intermitente. De modo que desenvolve uma tensionada prontidão para defender-se dos golpes, mas ainda assim nunca consegue antecipá-los. E pior: sempre que ele se coloca em guarda para receber uma estocada de um lado do corpo, ela acaba vindo no outro, e, sempre que se prepara para conter um golpe em determinado momento, ele acaba chegando só instantes depois.

O aluno vai então percebendo instintivamente que é inútil manter aquele estado de alerta. Não porque esteja a salvo do perigo, mas porque não há como prever qual será a ameaça e quando ela se lançará contra ele. Além disso, as energias para manter o corpo e a mente predispostos à defesa contra um possível ataque são sempre gastas inutilmente, e podem ser valiosas para a defesa contra um ataque real. Se ele aguarda o golpe vindo do lado esquerdo, por exemplo, e o recebe do lado direito, o tempo necessário para redirecionar sua força de proteção é motivo de uma demora significativa. Incapaz de solucionar o problema, incapaz de defender-se dos golpes, o aluno aceita sua sujeição à imprevisibilidade do mestre.

Até que um dia, enquanto está lavando a louça ou cortando a lenha, sem se ocupar mais que o mínimo com sua proteção, ele de repente se vê interrompendo um golpe desferido como todos os outros – em um momento inesperado, de um flanco desguarnecido. Não é nada que ele estivesse aguardando. Ele não decide se defender. Ele tampouco decide não decidir. Ele simplesmente se defende. Suas energias e talentos estão totalmente disponíveis para reter o golpe do bastão espontaneamente, no instante em que ele é percebido. A partir daí, o mestre o considera apto a iniciar a prática da esgrima.

Moral da história: há em nossa ansiedade um forte elemento de preparação para golpes que nunca chegam. Há, por outro lado, golpes que efetivamente chegam quando tudo parece indicar que estamos a salvo de seus riscos. Mas podemos nos defender deles assim como o vento decide qual caminho tomar: sem pensar duas vezes. O que não implica tomar atitudes impensadas, mas encontrar um modo de ação no qual o pensamento não aconteça nem antes nem depois do gesto, mas simultaneamente, de tal maneira que um não se diferencie do outro. Pode parecer difícil. Mas veja bem: não é nada muito diferente do que faz um bom jogador de futebol quando decide fazer um lançamento e faz. A questão aí é como a gente pode aprender com eles a fazer lançamentos na vida.

Ah, que saudade dos lançamentos do Ronaldinho Gaúcho, por falar nisso. Pena que na vida hoje em dia ele parece não pensar nem meia vez antes de fazer o que faz. Olhei aqui agora, o Ronaldinho é de Áries. Isso explica muita coisa: o poder de explosão, a intuição corporal, a decisão rápida. Aquele gol contra o São Paulo em 2013. Enfim, um jogador completo. Inteligente. Deve ter algo acentuando Libra no mapa também. E ao mesmo tempo, deve ter algo capaz de avacalhar a relação Áries-Libra em proporções ronaldescas. Enfim, há dessas pessoas no mundo, capazes de feitos olímpicos inimagináveis – mas vai saber o que acontece quando a gente pede que descasquem umas batatas.

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O lugar bom

Essa postagem é para quem assistiu ou está assistindo The Good Place, a série da NBC que estreou em 2016 e terminou em 2020 (tem na Netflix). Vi o último episódio esses dias, e série tem esse negócio de a gente ficar com saudade dos personagens. Então – prometo não estragar o final para ninguém, pelo menos não para quem já passou da primeira temporada – me deu vontade de explorar um pouco mais a brincadeira dos signos com eles. A propósito, já mencionei o Michael (Ted Danson) em um texto sobre Capricórnio, e indiquei a Eleonor (Kristen Bell) para o Oscar do zodíaco que propus uma vez aqui, na categoria Personagem de Áries. A essa altura, estou convencido de que ela merece o prêmio.

Isso porque ela é uma ariana que vai ficando mais suave no decorrer da série, menos tensionada no confronto com o mundo, e, por mais que esse seja um caminho esperado em uma narrativa cômica convencional, ela nos convence de que isso é possível. Não é só porque aprende a falar palavrões com certa civilidade (tipo “holy fork!”, eventualmente traduzido por “fruta que caiu!”); ela faz com que seja verossímil uma heroína de Áries do bem, na medida do possível, é claro. De todas as transformações que vemos no decorrer das temporadas, para mim a dela é a mais notável. Não quer dizer que fique menos ariana, pois conheço muita gente desse signo que já parte desse lugar em que o restante da humanidade não é visto apenas como uma ameaça, e sabe que dá até para conviver com gente, às vezes até gosta. Em se tratando de Áries, já é bastante coisa.

Chidi (William Harper), por sua vez, é o clássico libriano que precisa aprender a tomar decisões. Não por acaso é o par oposto-complementar de Eleonor. Mas acho interessante que seja um filósofo. É comum as pessoas acharem Libra um signo romântico, mas a gente sabe como eles conseguem ser incrivelmente frios e cerebrais. Falta-lhes o fogo das paixões leoninas, o poço dos sentimentos escorpiônicos, a sensibilidade ao ambiente de Touro ou Virgem. É lógico que nessa perspectiva falta um traço de Libra também todos os outros arquétipos, e falta mesmo. Sobretudo quando a gente conhece um libriano que, não obstante sua librianice, e inclusive por causa dela, sabe decidir que sobremesa escolher depois de colocar todas as opções na balança.

Jason Mendoza (Manny Jacinto) é um caso singular. Peixes, sem dúvida. O interessante é que ele é pisciano tanto em sua versão de mentirinha quanto depois que ficamos sabendo quem ele realmente é após os episódios iniciais da série. Nesse caso acho que não conta como spoiler porque a coisa se revela logo ali no segundo ou terceiro capítulo: ele passa de um monge tibetano de olhos puxados que vive à base de meditação e água fresca para um morador da Flórida de origem filipina de olhos puxados que vive à base de todo tipo de porcaria e pequenos roubos de gasolina. Embora o monge seja um personagem típico do arquétipo de Peixes, a versão verdadeira de Jason é até mais pisciana que a outra.

O legal é que ele não deixa nunca de ser um personagem ingênuo e encantador. Avoado, iludido, totalmente incapaz para os assuntos práticos da vida, mas nunca menos “espiritualizado” que sua versão monástica, mesmo quando se lembra do dia que passou atirando em ratos no lixão de Jacksonville com um primo de Blake Bortles. Porque ele espera ser aceito pelo mundo da mesma maneira como o aceita, e representa o papel do bobo em tudo o que tem de plena receptividade e espelhamento do mundo ao redor. Além de ser engraçado, é claro. Tem uma cena, por exemplo, em que está todo mundo dando opinião ao mesmo tempo sobre algum problema, aí ele entra e dispara a falar um monte de coisas nada a ver. Quando perguntam o que deu nele, responde: “Sei lá, estava todo mundo falando junto achei que era para eu falar também”. Tipicamente pisciano.

Quanto à Tahani (Jameela Jamil), aí já fico na dúvida. Ela tem a rivalidade geminiana pela atenção dos pais com a irmã, mas não tem agilidade de raciocínio de Gêmeos; participa do encanto leonino com o universo das celebridades, mas falta-lhe magnetismo e confiança para ser ela própria uma Leoa. No final das contas, fico achando que é de um signo de Terra. Mas nesse caso estou disposto a aceitar ajuda, então se alguém aí tiver um opinião a respeito pode falar. Vejam só que coisa bizarra estou me tornando: uma capricorniano que admite que não sabe uma coisa e até pede conselho pros outros. Tipo o Michael.

Voltando então rapidamente ao Michael: o engraçado é que, além de ser uma figura evidentemente capricorniana em sua função de gerenciar a coisa toda e saber tudo a respeito de tudo, ele a princípio tem ainda aquele traço de Capricórnio que não aceita a necessidade de ajuda. Precisa estar sempre no controle, sem precisar nem do palpite de mais ninguém. É lógico que isso já vai mudando a partir da segunda temporada, vai ficando mais claro como na verdade tudo o que ele precisa (e no fundo quer) é assumir a forma falível e imperfeita dos humanos. É muito exaustivo isso de se responsabilizar pelo universo o tempo inteiro. Algo semelhante poderia ser dito de muitos capricornianos. 

E tem a Janet (D’Arcy Carden), é claro. A Janet é um caso à parte. Aí eu perguntei pro pessoal da internet qual é o signo da Janet, e a resposta que mais me apareceu foi Virgem. Eu respeito essa posição e até entendo. Ela tem um gestual contido e um jeito de se vestir que são bem virginianos. Ela presta um serviço inestimável, aparece sempre que alguém precisa de alguma coisa, é uma funcionária exemplar do cosmos e e nem humana ela é. Pra muita gente, isso é mais que suficiente para cravar: virginiana.

Mas eu sou Capricórnio com ascendente em Escorpião, então quando peço conselho ou palpite pros outros vocês podem suspeitar que é só jogo de cena. Já formei minha opinião há tempos e nada me fará arredar dela. Acho que os gestos controlados e aparentemente metódicos da Janet têm mais a ver com fato de que ela não tem muita familiaridade com a forma humana que assumiu. Aí vocês precisam que considerar que, quando a gente fala que Virgem não é muito humano, isso é mais num nível metafórico; é lógico que não é literal. Tem só um signo que corresponde a essa característica sem precisar de licença poética. Tem só um signo de gente que veio de outras galáxias e está ainda se acostumando a viver entre nós.

Pois então: Aquário. Em primeiro lugar, exatamente por isso, porque nem humana ela é. Digo isso na certeza de que os aquarianos queridos do meu coração vão entender como um elogio: tipo, você nem é humano, você é uma Janet. E, como se não bastasse, ela é capaz de prover os humanos com aquilo que normalmente é reservado aos deuses, como fez Prometeu, protagonista do mito mais significativamente aquariano. O fato de que vai acabar se apaixonando por uma pessoa de carne e osso, e conhecer um pouco mais os desejos do corpo que a princípio lhe é estranho – isso também acontece com frequência no âmbito do arquétipo de Aquário. E a maneira como a mente dela se conecta como uma espécie de supercomputador a tudo o que acontece no universo só me faz ter mais certeza do meu ponto.

Para terminar, ufa, tem a série como um todo. Estreou em 19 de setembro de 2016. Essa sim é, portanto, virginiana. Para mim faz sentido: a narrativa costuma ser até bem metódica em sua sobreposição de universos como se fossem bonecas russas, mesmo quando flerta com o caos. Agora, eu apostaria que existe alguma coisa ali que articula muito bem Sagitário e Touro. Talvez a Lua no primeiro, o ascendente no outro. Pois o pano de fundo é sagitariano, de modo que toda a brincadeira é organizada em torno de uma indagação sobre o sentido da vida e a finalidade da existência. Ela pode não alcançar muita profundidade nesse sentido; mas isso, pelo menos para mim, não é necessariamente uma falha ou deficiência. É aí que entra a perspectiva taurina.

Pois, no final das contas, após as milhões de referências a Kant e Heidegger e Pascal, a série acaba recorrendo ao pensamento oriental para dar uma última resposta provisória ao enigma do existir. Sobre esse aspecto dos últimos episódios, sem entregar o enredo, vou me permitir uma pincelada, até porque o recurso é mais que previsível, e não apenas pelo andamento da série, mas pela própria linguagem seriada de que ela é um bom exemplo. A ideia de que o “fim” pode ser infinitamente postergado para uma outra temporada – e de que podem existir mundos infinitos dentro de infinitos mundos – faz, curiosamente, com que o momento presente seja mais valorizado. Se a própria morte não é conclusão de um processo, mas faz parte de um conjunto incessante de ciclos, não tem porque você se afligir com uma finitude ilusória, e você pode muito bem encontrar o infinito que existe contido no agora.

Buda, como já disse aqui vez ou outra, para todos os efeitos era taurino. Seu aniversário é comemorado no dia 07 de maio. Isso para mim está relacionado não apenas à paciência e à perseverança, mas também à capacidade que Touro tem de aproveitar as coisas boas da vida. Digo, aquelas coisas materiais e momentâneas mesmo, como uma boa refeição, um bom vinho, uma boa companhia ou a simples possibilidade de respirar fundo um ar puro e tranquilo. É por isso que para mim a série termina onde começa a grande lição de Touro para nós. Que é um pouco a lição de Buda também. Não saia daí. Respire. Aproveite a vida. Aproveite o momento. O lugar bom é onde você está.

Todos os signos

Estatísticas

Agradeço a todo mundo que atendeu ao meu apelo para contar o ascendente pelas redes sociais. Agora enfim tenho uma amostra considerável para oferecer minha contribuição ao desenvolvimento da ciência astrológica com o máximo rigor metodológico. Em seguida, apresento alguns dados do DATAGUS acompanhados das respectivas análises qualitativas:

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em ÁRIES foi de 5,8% do total. Porém, sabe-se que a conclusão da amostragem não corresponde à realidade. Tem muita gente com ascendente em Áries que já não está em rede social nenhuma. Saíram fora dessa.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em TOURO foi de 8,33333%. Foi o único signo cujo número correspondeu a exatamente 1/12 do total. O pessoal de ascendente em Touro é objetivo. Quando a gente pergunta o ascendente eles respondem “Touro”, e mantêm-se impassíveis, como que esperando a gente dizer alguma coisa a respeito. Mas nessas horas costumo perceber lá no fundo de seus olhos um desconcertante lampejo de sarcasmo.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em GÊMEOS foi de 8,8% do total. Desses, quase metade respondeu “Gêmeos kkkkkkkkk”. Deve ser divertido ter o ascendente em Gêmeos.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em CÂNCER foi de 7,5% do total. Infelizmente, nenhum deles me convidou para tomar um café e comer um bolinho na casa deles. Tomar café e comer bolinho na casa do ascendente em Câncer é especial. Convida aí, pessoal, que eu aceito.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em LEÃO foi de 12,3% do total. Outro número que com certeza não corresponde à realidade. Ter ascendente em Leão é o máximo. Tem gente que diz só pra aparecer.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em VIRGEM foi de 10,3% do total. É um número alto, mas possivelmente correspondente ao número de indivíduos vivos com este ascendente. Mesmo o pessoal com a Lua em Peixes ou Marte em Gêmeos uma hora resolve fazer tudo certinho e manter uma rotina saudável, se tiver o ascendente em Virgem. O percentual se explica pela longevidade.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em LIBRA de foi 8,6% do total. Uma breve análise das fotos de perfil confirma a fama desse ascendente. Ô gente bonita, meu Deus.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em ESCORPIÃO foi de 4,2% do total. O índice extremamente baixo é fácil de explicar. Um ascendente em Escorpião não vai sair contando isso por aí (eu, por exemplo, não conto). A propósito, 100% dos indivíduos que responderam com “quero ver vc adivinhar” tinham ascendente em Escorpião. Já três indivíduos perguntaram se isso de ter ascendente em Escorpião é grave. Dois deles, anonimamente.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em SAGITÁRIO foi de 8,0% do total. Metade desses já sabia tudo sobre ter ascendente em Sagitário. A outra metade pediu bibliografia.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em CAPRICÓRNIO foi de 6,9% do total. Aqui também acho que há uma distorção. Muitos não responderam a pesquisa porque estavam trabalhando em um projeto. Ascendente em Capricórnio está sempre trabalhando em um projeto.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em AQUÁRIO foi de 9,1% do total. Aqui temos um caso muito singular, mesmo para meu círculo de conhecidos: dois a cada três desses indivíduos são estudantes de humanos. Ops, de humanas. Mas faz sentido. Sempre tenho a sensação de que Aquário é gente de outros planetas que resolveu passar um tempo na Terra por algum motivo. No caso do ascendente agora está claro. Vieram nos pesquisar.

Enfim, o número de indivíduos que declararam ter ascendente em PEIXES foi de 6,4% do total. Aqui acontece algo aparecido com o ascendente em Áries. A diferença é que o ascendente em Peixes não está fora só das redes sociais. Ele está a caminho de estar fora da sociedade mesmo. Faz muito bem.

A propósito, dos 1,7% que responderam “ih não lembro”, presume -se que a maioria tenha ascendente em Peixes.

Por enquanto é isso. Estaremos em contínuo trabalho de processamento e análise das informações. A qualquer momento pode sair um novo relatório. Mais uma vez obrigado.

Todos os signos

Como morrem os signos

O Sétimo Selo, dir. Ingmar Bergman (1957)

Áries morre no calor do combate. Nem chega a ver o rosto da morte. Não sofre por antecipação: o golpe é fatal, súbito e exato.

Touro vê a morte de longe, depois vê a morte chegando, e vai se aproximando dela, até que se encontram. Nada altera seu caminho.

Gêmeos pode até aceitar a morte, só queria ter uma conversa com ela antes: “Isso de morrer, precisa mesmo?”, “esse seu trabalho, é meio pesado né?”, “lá pra onde a gente vai, tem internet?”

Câncer odeia a morte. Queria que ela morresse. Mas ia ficar triste se morresse mesmo.

Leão desafia a morte. Não tem chance de vencê-la, mas faz parecer que tem. Sua morte é uma derrota, mas uma derrota trágica, bela e gloriosa.

A morte de Virgem é um rito. Ela é recebida em um lugar adequado e com os utensílios corretos. Até para morrer existe um jeito certo.

Libra também conversa com a morte, e começa tentando fazê-la mudar de ideia. Depois aceita que a morte é inevitável. Acaba concordando com ela em inúmeros outros assuntos também.

Escorpião morre várias vezes na vida. Tantas que faz amizade com a morte. É com carinho que a recebe na última visita. “Vem cá minha velha”, diz, cheio de intimidades.

Sagitário tem uma teoria a respeito da morte, e vai explicá-la para a morte quando a morte chegar. Vai ser a maior viagem, mas a morte vai achar interessante e vai ouvir até o fim.

Capricórnio respeita a morte, sabe que ela está aí há muito tempo. Morrer é uma coisa que todo mundo faz, não vai ser ele que vai inventar moda do contrário.

Aquário recebe a morte como um convite para entrar em um clube, tipo ingressar em uma associação: “Tô nessa, quero participar também”. Mas Aquário pode sentir exatamente o contrário, a morte como oportunidade de deixar de participar do clube dos vivos: “enfim”, diz, “tire-me daqui”.

Peixes se rende à morte como se rende ao sono, deixa que ela leve peça por peça, entrega os pontos. E, se tem alguém que consegue enganar a morte, esse alguém é Peixes, quando finge que está jogando para vencer, e na verdade não está nem prestando atenção no placar do jogo.

áries

Iniciantes

Eu estava no meio de uma aula quando minha mulher ligou dizendo que estava a caminho da maternidade. Algumas horas depois o Gabriel tinha nascido, em um parto imprevisto e antecipado, mas normal, e ao mesmo tempo quase fora da normalidade de tão tranquilo (eu diria até “fácil” se não tivesse sido particularmente fácil para mim, que fiz as vezes de chefe de torcida; mas o ânimo da obstetra e da equipe era de uma genuína descontração, e a Maíra fez o trabalho pesado como se já tivesse parido umas dez vezes antes). É claro que quando ele nasceu eu já tinha quase todo o mapa astrológico natal dele na cabeça; faltava o ascendente, que muda rápido, de acordo com a rotação da Terra, passando duas horas em cada signo por dia, uns minutinhos em cada grau. O interessante aí é que a posição exata do ascendente influi em todas as outras posições de um mapa, e é uma espécie de princípio organizador do espaço onde vão se distribuir todas as outras informações.

Assim, depois de ter cuidado de assuntos médicos e de saber que ele estava bem, fui conferir qual era o ascendente dele com curiosidade e expectativa. Mas não imaginava que o resultado seria tão singular, improvável mesmo. Ele tem o ascendente o grau zero de Áries, ou seja, no inicinho do zodíaco; e o grau zero de Áries é fascinante exatamente porque ele é o ponto do zodíaco do qual nada pode ser dito além do fato de que ali as coisas começam. O que começa, como começa, para onde vai, nada disso importa. É a própria ideia de início que está implicada. E, com ela, a liberdade, pois tudo o que realmente se inicia – ou seja, tudo o que nasce – é livre para tornar-se algo novo, algo que nunca antes veio a ser (a Hannah Arendt fala bastante disso em A Condição Humana).

Qualquer leitura de um mapa astral responde a perguntas que fazemos a ele. Nesse caso, à pergunta sobre “como será o meu filho”, o mapa dele respondeu: você não faz ideia, você não tem como saber. Ele entrou no mundo através de um portal muito específico, que existe durante quatro minutos a cada dia, e que enfatiza o aspecto inédito de cada existência. Um dos motivos pelos quais o ascendente é um ótimo assunto está no fato de que ele está sempre relacionado ao nascimento, à liberdade e à espontaneidade criativa do cosmos; para todo mundo ele é esse portal. Mas, no caso do Gabriel, a coincidência do ascendente com o grau zero de Áries enfatiza que sua liberdade – inclusive perante todos os demais símbolos astrológicos – é absoluta e inegociável.

Lembrei então de outro texto, que deixei aqui meses atrás, no qual escrevi o seguinte: “O éden de Áries não é um lugar; é um gesto, um momento de independência e libertação. Mesmo que nos leve ao desconhecido, mesmo que cause incerteza, será preferido a qualquer sensação de segurança que exista às custas da verdadeira vida”. É engraçado perceber agora que de certa forma eu estava escrevendo para mim mesmo, para esse pai que, agora, querendo ou não, estava em busca de alguma previsibilidade e segurança, ao montar o mapa astral do filho na cabeça antes mesmo do parto, para depois arrematá-lo com um dado que desmontava toda a construção anterior.   

Sem dúvida, o que temos aqui em casa agora – essa criaturinha que grita, chora, mama, dorme, quase ri – é a verdadeira vida. Uma vida iniciante inclusive nas artes da respiração, com pais que precisam aprender e reaprender tanta coisa que é como se estivessem eles próprios no princípio de tudo. Os dias vão passando e eu certamente voltarei a olhar para o mapa de meu filho tentando identificar traços de sua personalidade, de seu destino, de suas vidas passadas. Mas esse ascendente no grau zero de Áries estará sempre lá, para me lembrar que que tudo está sujeito à contínua renovação, de que não sabemos de nada com certeza e segurança, e de que estamos sempre (mas sempre mesmo) apenas no começo.

libra

Tudo em Libra


Alguns amigos me marcaram para ver e comentar essa imagem aí de cima (tirei do Facebook, créditos para Ricardo Scarpa). Minha primeira reação, é claro, foi ficar preocupado com a Gislaine. A segunda foi de impaciência. Mas olhando de novo achei engraçado – porque, né, é verdade. Eu realmente escuto Mercúrio falando essas coisas, e aqui em casa Mercúrio não só fala como anda pra frente, pra trás, dá cambalhota e decide se a Netflix vai funcionar ou não (aqui em casa as coisas são animadas).

Depois fiquei pensando que o desenho me faz lembrar do eixo Áries-Libra, e mais especificamente que a parte do lado direito representa algumas virtudes librianas. Porque a astrologia mesmo costuma ser associada aos arquétipos de Escorpião, Sagitário, Aquário, Peixes, mas não seria nada sem a disposição para a escuta que existe em Libra. Aí fiquei pensando se o Mercúrio mudinho do lado esquerdo não é assim simplesmente porque ninguém parou para escutá-lo, coitado.

Mas, sério: o Mercúrio mudinho é de fato o Mercúrio dos astrônomos, o Mercúrio da ciência moderna, que conseguiu feitos extraordinários, mas muitas vezes às custas do silenciamento e da vulgarização do mundo dito ‘natural’, colocado em oposição ao mundo humano. Tornou-o mudo, estéril, estúpido. E ele precisa mesmo continuar assim aos olhos dos cientistas – mas isso não quer dizer que em outros contextos seja impossível atribuir ao não-humano uma inteligência singular.  

As duas imagens não são excludentes. Não é isso ou aquilo, é isso e aquilo. Mas para desenvolver esse tipo de pensamento precisamos de Libra. Minha impaciência inicial foi tipicamente ariana: competitiva, combativa, vontade de mostrar que meu Mercúrio é melhor que o deles. E haverá sempre nesse mundo hostilidade suficiente pare que Áries seja um arquétipo fundamental, que nos torna atentos a ameaças e nos dá força para enfrentá-las.

Mas nem sempre é eu ou o outro. Muitas vezes é eu e o outro, na medida em que o outro não está ali para nos matar, vencer ou engolir, e que, portanto, tampouco precisamos matá-lo, vencê-lo, engoli-lo. A partir daí talvez a gente perceba que ele tem algo a nos dizer. O mundo de Áries pode ser um mundo árido, e se permanecemos sempre nele é também um lugar muito solitário. O mundo de Libra, além de compartilhado, pode ser também um mundo literalmente encantado, onde as coisas falam, porque a gente se deu ao trabalho de ouvi-las.

Não tenho muitos planetas em Libra. Mas quando estou diante de um mapa astral – o meu mapa, por exemplo – de certa forma TUDO ali está em Libra, porque tudo está diante de mim em uma posição que não é de confronto, mas de interação. Estamos lá eu e um outro de mim mesmo que se manifesta através de símbolos, que por sua vez remetem a planetas, planetas que falam através desses símbolos.

E preciso deixar que eles falem. Por mais que a astrologia utilize recursos científicos, dificilmente deixa de ser uma prática divinatória que se situa em um universo não-desencantado, onde as coisas têm voz e a gente escuta. Sim, a gente é meio doido mesmo. E o mais engraçado é que, juntando um pouco de experiência com os tais recursos científicos, a gente começa a escutar as coisas falando com certa lógica. A gente é muito doido no final das contas.

Mas isso de viver em um cosmos onde nós humanos somos a única coisa que fala é também complicado, e pode ser enlouquecedor. Tem aquela história de que Ulisses tapou os ouvidos para não escutar o canto das sereias e assim preservar sua razão; mas tem também Kafka escrevendo que “agora as sereias têm uma arma ainda mais assustadora que o canto – o silêncio”. Que triste essa existência isolada em um universo emudecido onde nem as sereias se dirigem a nós, nem mesmo para nos enlouquecer.

E com alguém a gente tem que conversar, isso é fato. Mas vou além: com alguma coisa a gente tem que conversar. Não precisa ser com os astros. Converse com as plantas, converse com os bichos, converse com os gatos. Todos têm algo a nos dizer. Com isso a gente talvez aprenda um pouco dessa arte libriana de só tomar uma decisão depois de muita conversa (digo, quando tomam, porque é verdade que muitas vezes não tomam decisão nenhuma, ficam só de papo pedindo conselho pra samambaia, o que já não é exatamente uma arte).

Mas aqui em casa o diálogo costuma ser mais é com os planetas mesmo. Como disse, as coisas aqui são animadas. Já tomei decisões importantes depois de trocar ideias com Vênus, depois de deliberar seriamente com Júpiter, depois de intensos debates com Urano, e já servi de intérprete para muita gente que até escuta os astros mas não entende bem o que eles estão falando. O arquétipo libriano é, no mínimo, o palco dessas conversas. A gente fala muito sobre todo o resto, a gente tenta ouvir junto e entender um monte de coisa estranha, mas essa ação acontece sempre na região do zodíaco onde o eu e o outro, ou o eu e o mundo, se encontram.

Quanto à Gislaine, espero que ela seja de Libra, isso vai ajudá-la a saber parar e ouvir o que Mercúrio tem a lhe dizer. Ele pode ser meio sacana às vezes, ele pode ser meio travesso, mas diz coisas importantes também. Já o Mercúrio mudinho do lado esquerdo, esse aí não me engana, se tá calado é por algum motivo. Esses tipos misteriosos eu conheço bem. Deve ser de Capricórnio. Ou então Virgem. Ascendente em Escorpião.

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O paraíso de Áries

Mestre de Boucicaut | Getty Museum

Sobre Áries, vamos tentar ser diretos: é quando aquilo que desconhecemos se inicia. O signo está relacionado a partos e nascimentos, e é em seu arquétipo que se dá à luz o novo e o inesperado. No entanto, Marte, o regente de Áries, é também regente de incisões e rupturas, então o que acontece nesse ponto não é exatamente uma gênese a partir do nada. Algo acontece que nos leva de um estado protegido e restritivo para uma realidade externa que atrai e propõe desafios; se formos buscar uma referência bíblica, podemos dizer que é aí que somos expulsos do paraíso.

Áries sucede Peixes na roda zodiacal, e ambos representam impulsos antagônicos. No âmbito pisciano buscamos um retorno à matriz, a imersão no cosmos, o reencontro com Deus – chame como quiser – mesmo que às custas de nosso ego e individualidade. Ou seja, queremos voltar para o paraíso, após um longo processo que atravessa as doze casas do zodíaco. Em Áries, por outro lado, a individualidade e a vontade são afirmadas, ou reafirmadas, a despeito das circunstâncias, da família, do Estado, e inclusive de um Deus que limita e constrange. Em Áries está o impulso de separação, que é também um impulso para a liberdade.

O processo então é cíclico, e o gesto ariano precisa ser periodicamente reencenado. Isso porque aquilo que chamamos de paraíso é nesse mundo muitas vezes uma prisão. Aliás, a palavra “paraíso” tem uma origem persa que se refere a um “lugar murado”, “para-daeza”, entre paredes. E a dissolução pisciana do ego de fato nos leva eventualmente a lugares enclausurados, onde nossa vontade individual é submetida a autoridades maiores (penitenciárias, sanatórios, mosteiros).

Mas, às vezes, a busca de reconstruir o paraíso na terra leva a formas mais sutis ou insuspeitas de restringir nossa liberdade ou constranger nossos movimentos. É sobretudo aí que o arquétipo ariano precisa agir, reencenando nosso nascimento como uma forma de libertação. Pois toda busca por estarmos plácida e confortavelmente instalados entre paredes é frustrada ou resulta em distorções; somente as paredes uterinas um dia serviram para este fim. Por isso, a cada vez que a liberdade do indivíduo é sacrificada em nome de um sonho de absoluta segurança, precisamos da bravura de Áries para derrubar aquilo que o medo construiu tentando se proteger [edit: estou revisando esse texto durante a quarentena do Coronavírus e preciso acrescentar: agora não, Áries, agora não precisamos de bravura não; comporte-se aí por enquanto, e, a não ser que você não tenha alternativa, ou possa ajudar de outra maneira, mantenha-se seguro entre quatro paredes].

Enfim, o éden de Áries não é um lugar; é um gesto, um momento de independência e libertação. Mesmo que nos leve ao desconhecido, mesmo que cause incerteza, será preferido a qualquer sensação de segurança que exista às custas da verdadeira vida. Em uma época em que condomínios fechados são vendidos como lugares paradisíacos, por mais infernal que possa ser a existência em seu interior (e no interior dos espaços mentais que ajudam a restringir), espero que chegue a hora de provarmos a árvore do conhecimento mais uma vez. Fica então o pedido: arianos do mundo, não desanimem [não desanimem]. Em algum momento vamos ter que nascer de novo. Precisaremos de vocês.

áries

Calma, Áries

Leonard Cohen

Hoje me deu vontade de escrever sobre Áries, e aprendi com os arianos da minha vida que é totalmente ok fazer uma coisa só porque deu vontade, então vamos lá. Mas escrever sobre Áries é sempre um problema, a gente fica com receio de que lá pela terceira ou quarta frase os próprios arianos tenham perdido a paciência com o texto. E não acho que isso se deva somente à objetividade ou irritabilidade dos nativos desse signo: essas características estão de acordo com o estereótipo, é claro, e são muitas vezes verdadeiras, mas nas imagens e narrativas vinculadas ao arquétipo encontramos elementos mais interessantes para justificá-las. Por exemplo: Siegfried, um dos personagens que encontramos nessa coleção, é um herói praticamente invencível, mas vulnerável quando é atacado por trás.

Em geral os guerreiros marciais apresentam alguma variação dessa característica, em que se mostram dispostos e aptos para qualquer batalha em campo aberto, mas encontram dificuldades sempre que existem reentrâncias a serem consideradas. Da mesma forma, Áries estará em seu ambiente na luta contra um inimigo honesto, mas ficará desconcertado diante de um adversário malicioso, que trabalha por trás dos panos para sabotá-lo. Isso é uma virtude e é uma fraqueza, mas serve também para mostrar que Áries está longe de ser um demônio, e nem de longe possui o tipo de talento que satanás possui para a manipulação de suas vítimas. Suas habilidades são outras, seus defeitos também, e não há entre eles nenhum que não seja exposto à luz do dia.

Daí a desconfiança diante de quaisquer subterfúgios retóricos e orações subordinadas que prolonguem além da conta a elaboração de um raciocínio. Uma pessoa que fale ou escreva desse jeito só pode estar escondendo alguma coisa. Ou, pior, talvez esteja querendo alguma coisa, mas sem dizer exatamente o quê. Áries, com sua capacidade de saber o que quer, dizer o que quer, e buscar o que quer, não vai nunca compreender porque as pessoas tomam caminhos tão sinuosos para expressar e satisfazer seus desejos. “Eu quero” é uma frase tipicamente ariana, a outra é “diz logo onde você quer chegar”.

Nessa objetividade reside sua astúcia e sua esperteza. Podem não ser as criaturas mais sofisticadas, mas aprenderam que a sofisticação é uma das máscaras da malícia, e não vão se deixar cair facilmente nesse truque. Já receberam muitas facadas pelas costas quando supunham que estava tudo à vista, e chega o momento em que conseguem lutar também contra sutilezas e chantagens emocionais de que alguns outros arquétipos são tão capazes. Não que se tornem eles próprios peritos nesse tipo de embate. Mas, como Hércules lutando contra a Hidra, uma hora percebem que só precisam trazer seu oponente para a superfície.

Por isso, se, durante uma discussão com Áries, você disser “calma, Áries”, ou algo do tipo, e isso não surtir efeito, pode saber que isso acontece não apenas por uma questão de temperamento. Para eles, não manter a calma é um legítimo recurso estratégico. Sabem que um debate ponderado pode muito bem ser um debate desigual, em que uma série de minúcias são mobilizadas para desorientá-los, e que às vezes só pedimos tranquilidade porque queremos ganhar tempo. É sempre possível ocultar nossas verdadeiras intenções entre diversas vírgulas e advérbios, e bem mais difícil fazer isso com sujeito-verbo-predicado.

Por outro lado, conheço também arianos perfeitamente tranquilos e pacíficos, que inclusive não se reconhecem muito nas descrições do signo, mas nunca deixam de ser ligeiramente obtusos diante de algumas complicações da vida, ou vulneráveis aos ataques desleais com que ela às vezes nos atinge. Isso é uma virtude e uma fraqueza, mas para mim é sobretudo uma lembrança de que o arquétipo de Áries tem ele mesmo suas complexidades, e que nunca será possível defini-lo em uma frase, por mais simples e diretos que a gente tente ser.