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A hora da virada

Paisagem com queda de Ícaro (1560) | Pieter Brueghel

Lembro de quando vi o dia raiar pela primeira vez. Bom, talvez eu já tivesse visto antes, mas não com a mesma consciência e expectativa. Eu devia estar com cinco ou seis anos, havia chegado em casa de uma festa por volta das quatro da madrugada – era a primeira vez que ficava acordado até tão tarde –, e decidi que ia fazer um esforço para não dormir antes do sol nascer. O engraçado é que por algo motivo eu acreditava que isso acontecia de uma hora para a outra; tipo, que as luzes do céu literalmente se acendiam de repente. Aí fui para a janela, para ficar de tocaia, para estar lá no instante exato do súbito desanoitecimento. Calculei que seria às seis horas em ponto, mas podia ser antes, talvez às cinco e quarenta e cinco. Quando chegou a hora, foi decepcionante descobrir que o dia ficava claro mais ou menos do mesmo jeito que ficava escuro mesmo: aos poucos, e sem nenhum dramático instante de iluminação da abóbada celeste.

Essa recordação me voltou esses dias, ao ler sobre o suposto início da Era de Aquário. Digo “suposto” não porque questione o advento em si, mas sim a ideia de que possamos determinar onde ele começa. Pois, até onde entendo, a sucessão de era zodiacais acompanha a precessão dos equinócios, causada pela leve inclinação do eixo de rotação da Terra, que em cerca de 26.000 anos realiza uma volta completa, alterando a cada dois mil e tantos anos as constelações que acompanham os solstícios e equinócios, mas sem que exista uma definição clara sobre quando uma constelação substitui a outra no rodízio.

É verdade que as constelações já são desenhos que nós mesmos criamos, e que nada nos impediria de traçar seus limites no horizonte com a mais absoluta exatidão, assim como foi feito com as regiões celestes que determinam a passagem do Sol de um signo para o outro, durante seus ciclos anuais. Mas não consta que isso tenha sido feito, de modo que, no pé em que as coisas estão, o fim da Era de Peixes e o começo da Era da Aquário só podem ser compreendidos como um processo que leva muitos anos, talvez séculos, para se completar. Em tempo: a precessão dos equinócios acontece no sentido inverso do verificado nos movimentos do Sol e outros astros em torno da faixa zodiacal. Sendo assim, a Era de Aquário vem depois da Era de Peixes, que por sua vez sucedeu a Era de Áries, e por aí vai.

Por outro lado, não há dúvidas de que estamos num momento de passagem. Torna-se natural procurar o evento que vai significar o ponto de inflexão. Muita gente fez isso recentemente com a Grande Conjunção de Júpiter e Saturno em Aquário, sabendo que não se tratava do tiro de largada para novos tempos, mas prevendo que num futuro talvez não muito distante a veremos como a linha traçada entre uma época e outra. É uma aposta semelhante à de quem situa o início da Era de Aquário no ingresso de Plutão nesse signo em 2023/24, ou de quem mobiliza todo esse conjunto de trânsitos planetários para dizer que podemos até estar vivendo um lento amanhecer, porém mais cedo ou mais tarde as coisas vão clarear de vez. Nesse sentido, quem diria, os astrólogos se assemelham a Eric Hobsbawn, o historiador que dividiu os séculos em “eras” – das revoluções, dos impérios, dos extremos – sem respeitar as divisões cronológicas mais evidentes, mas se atendo a episódios significativos que marcam grandes mudanças conjunturais, para com eles estabelecer fortes marcos de periodização.

A diferença é que a astrologia nesse caso trabalha com milênios, o que torna tudo um pouco mais abstrato e um pouco mais divertido. Tem também o fato de que astrólogos, como são metidos a saber o futuro, estão inclinados a descobrir seus indícios no presente, desvendando pistas do porvir como quem desenterra ossos soterrados de civilizações antigas, numa espécie de arqueologia às avessas, cujas grandes descobertas são sementes e não ruínas. Em resumo, e para ser mais exato, a astrologia funciona em uma temporalidade diferente da concepção linear que desfia causas e efeitos de acontecimentos, e trata da sincronia entre movimentos da história humana e dos símbolos criados durante a própria história humana (pela consciência humana) para representar a si própria. Nesse sentido, ela implica uma correlação dinâmica e simpática de todas as coisas do cosmos, incluindo pessoas, épocas e constelações.

Voltando então à questão dos primórdios da era de Peixes. Faz sentido pensar que suas primeiras luzes tenham raiado ali por volta do século V a.c., quando coexistiram sobre a Terra, por um breve lapso de tempo, novas referências espirituais como o Buda, Lao-Tsé e Confúncio. Talvez Sócrates possa ser incluído no pacote. Pois em todos esses casos estamos tratando de mestres cujos ensinamentos se voltaram para a cura da alma humana e sua libertação do sofrimento aparentemente inescapável dessa vida, seja através do despertar (Buda), seja através da aquiescência com o curso natural das coisas (Lao-Tsé), seja através do respeito aos rituais sagrados que governam a sociedade (Confúncio, embora neste caso a ênfase esteja no rito e não no sacro, o que confere ao confucionismo um teor mais virginiano, formando um contrapeso oposto e complementar às imprecisões piscianas do taoísmo de Lao-Tsé).

Sócrates, nessa linha de raciocínio, estaria mais inclinado a performar aquele lado “só sei que nada sei” do arquétipo de Peixes, por vezes também manifestado com uma autêntica confusão mental, na linha do “gente me explica que que tá acontecendo” – mas que nunca deixa de nos fazer suspeitar a existência de uma enorme sabedoria por trás dessa afirmação de dúvida e desconhecimento. Ele tem também em comum com outros líderes espirituais o fato de não ter deixado uma obra escrita de próprio punho. Há quem afirme que isso se deve à máxima arquetipicamente pisciana de que o amor verdadeiro não deixa rastros; as más línguas vão dizer que está mais para falta de senso prático ou preguiça mesmo.

No entanto, ainda estava por acontecer o episódio que iria declarar oficialmente aberta a temporada do “ama a teu próximo como a ti mesmo, ainda eu isso às vezes te faças parecer meio trouxa”. Foi com o nascimento e a palavra de Cristo que a Era de Peixes deixou para trás os tempos da brutalidade ariana daquele Jeová impaciente que criou o mundo em seis dias e fustigou as criaturas que ousaram duvidar do seu poder. Agora, as coisas iam ser diferentes, anunciaram os cronistas mais crédulos: o amor incondicional do divino pela criatura humana estava garantido pela experiência da encarnação, e o sofrimento dilacerante nesse mundo teria como contrapeso a promessa de um retorno ao lar. Nesse aspecto, a Era de Peixes pode ser compreendida também como a Era das Grandes Ilusões, embora fique sempre a suspeita de que os verdadeiros iludidos somos nós, que dizemos encarar a realidade, enquanto Peixes parece de fato conhecer algo que está por trás ou além do real: é a própria realidade cruel do mundo que para Peixes não passa de um sonho.

De um jeito ou de outro, seria possível detectar indícios significativos do começo de uma era pisciana cerca de dois mil anos atrás. Isso retrospectivamente, é claro. Pois o que fiquei me perguntando esses dias foi até que ponto estes marcos temporais puderem ser percebidos na época como sinais da aurora novos tempos. É verdade que, no caso de Jesus Cristo, pelo menos doze indivíduos acreditaram de largada nos despropósitos que de repente ele disparou a dizer; e o que realmente impressiona nesse caso é a fama que eles adquiriram depois como pessoas muito lúcidas e respeitáveis, se você parar para pensar na desconfiada recepção que esses marginais receberam na época. Certo também que Buda arregimentou um séquito razoável ainda em vida, que Lao-Tsé não foi um completo desconhecido, e que Confúncio chegou a ter um cargo de ministro em um grande reino da região da China. Mas nenhum deles deixou de parecer um doido sectário aos olhos de vários de seus contemporâneos; por outro lado, a Damares Silva também tem um cargo de ministra na república que hoje se supõe ser o Brasil, e nem por isso tem gente dizendo que a Era de Aquário vai começar numa goiabeira.

Justiça seja feita, porém. Dois mil anos atrás, segundo a lenda pelo menos, foram três astrólogos persas que cruzaram meio mundo carregando uns presentinhos mirrados (mas cheios de carga simbólica) para o menino pobre que nasceu num presépio da Judeia, e que viria a ganhar celebridade mundial como o ser mais pisciano que já esteve entre nós. Eles podem muito bem ter sido guiados por um fenômeno semelhante ao que se verificou recentemente no céu, se estiver certa a associação da Estrela de Belém com a Grande Conjunção periódica de Júpiter e Saturno, que se repetiu em dezembro de 2020. Fica assim reforçada a hipótese de que a era aquariana está começando agora, ou está dando as caras definitivamente, assim como a de Peixes teria ganhado novo fôlego quando surgiu aquele peculiar objeto brilhando no céu da Antiguidade.

Vai saber. Todas as possibilidades estão em aberto. Esse é meu ponto. Mas, se a era de Aquário está mesmo começando agora, é possível que seus representantes estejam mais inclinados a dar um fim nessa história de ficar esperando o Reino dos Céus; talvez considerem o tal amor incondicional uma conversa mole para entorpecer as massas com esplêndidas e infundadas esperanças. Como Prometeu, esses novos arautos serão filhos rebeldes dos deuses, com um intelecto fortalecido e voltado para a emancipação humana, não criaturas dóceis de afetos delicados que vão se deixar abater por dúvidas e inseguranças sentimentais. Serão contra qualquer tipo de autoridade, e talvez já tenham feito dispersar mesmo os apóstolos que começaram a acreditar em tudo o que dizem como se fosse a revelação da palavra divina. Talvez nem sejam pessoas humanas, mas uma outra forma de inteligência, vinda de outra galáxia, fazendo-se passar por um de nós, pelo menos até a gente começar a acostumar com as ideias incomuns e dádivas extraordinárias que trouxeram para nós.

Em se tratando de Aquário, afinal, as maiores chances são de que algo muito diferente do que imaginamos venha um dia a ser identificado como esse evento transformador. Talvez não tenhamos condições agora de entender exatamente o quê, por mais que o fato esteja se passando ao nosso lado. Somos um pouco como o camponês em “Paisagem com Queda de Ícaro”, a pintura de Pieter Brueghel descrita em um poema de W. H. Auden. Reparem que, por mais que um episódio de ressonância mítica seja o tema da tela, ele segue seu trabalho de maneira impassível, assim como o “delicado barco de luxo que devia ter visto / algo surpreendente, um rapaz caindo do céu / precisava ir a alguma parte e continuou calmamente a velejar” (na tradução de José Paulo Paes).

Pois bem. Ícaros talvez estejam caindo do céu e mártires talvez estejam nascendo ao nosso redor nesse exato momento. Mas é bem possível que a gente na verdade precise ser um pouco mais como o camponês de Brueghel e o navio de Auden nesse momento. Forçar a vista em busca de evidência de que uma nova era ou mesmo um ano novo muito diferente anterior estão se aproximando pode nos deixar cegos para as necessidades mais imediatas do leme ou da lavoura. Não vamos mudar as estações de ano por decreto, elas tampouco se alternam de um dia para o outro, a não ser em nossos calendários e folhinhas que num só puxão fazem um dia substituir o outro. A essa altura, e gente aprendeu que não é assim que as coisas acontecem.

“Calma. Só aos poucos é que o escuro fica claro”, escreveu Guimarães Rosa. Também de Rosa: “Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo”. Vai ver que os milagres são tímidos, a ponto de se retraírem quando tentamos expô-los à força, ou quando ficamos tempo demais na moita encarando uma paisagem, à espera de surpreendê-los. Ainda assim, nada impede que sigamos observando o amanhecer pela janela, não com a expectativa de que ele vá acontecer de uma só vez e de repente, mas sabendo que ele não deixa de ser milagroso só porque acontece todos os dias, de um modo sempre meio casual e previsível. A próxima virada do ano tampouco trará esse momento de iluminação que tanto aguardamos, mas respire, mantenha a calma, continue tocando o barco, e perceba. Pode ser que já tenha uma luzinha aparecendo ali por trás da montanha. Daqui a pouco aparece outra. Um tom diferente de azul, pelo menos. Depois fica mais claro acolá. Sim, é assim que o dia amanhece.

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Bons ventos

[Desenho: Bia Callegari]

Os arquétipos astrológicos contam muitas histórias, e uma delas é a que se narra a partir da sucessão dos signos fixos no zodíaco. Ela começa com a energia impessoal de Touro: força de sustentação dos ciclos da natureza, feita de momentos de esforço consistente e descanso merecido, onde acontecem as renovações regulares com as quais o corpo se confunde com cosmos. Touro é aquilo que garante o crescer e o florescer periódico das plantas, e aceita com dignidade seu perecimento, porque entende que ali já está contida a semente de um reinício. Touro é a constância da vida e da morte, repetindo-se indefinidamente. Não estamos falando necessariamente de uma vida ou de uma morte quando falamos de Touro.

Uma vida acontece quando um eu se isola e se reconhece nesse processo. A esse eu chamamos também de Sol, que resplandece em sua permanente juventude, independente de tudo e ao mesmo tempo centro de todas as coisas. Um centro. A energia que emana do Sol é a energia que emana de Leão, cuja vitalidade desconhece os ciclos do tempo orgânico e terreno, e se esbanja no derramar-se inesgotável do verão como se não houvesse amanhã. Porém sabemos que há, por mais distante que possa ser. Sabemos que o inverno há de vir e que o próprio Sol um dia vai acabar, porque sua vida é um evento no universo, ou melhor, um evento do universo, como todos nós somos. Algo que se destaca a ganha existência própria apenas por um instante, ainda que nesse instante exista algo de eterno – como as estrelas que brilham no céu noturno mesmo depois de terem se apagado.

De modo que a verdadeira consciência da finitude do corpo e da noite da alma se dá no âmbito de Escorpião. Essa consciência por si mesma causa transformações que não estavam no roteiro leonino. Escorpião é a descoberta de uma fissura, uma feiura, uma falha, na superfície brilhante de si enquanto Sol, e a prospecção das profundidades ocultas que agora pedem para ser integradas à personalidade. Esse processo exige a morte do eu que havia antes. Uma morte. Ela se dá em uma catarse, em uma espécie de gozo, que significa a dispersão de energias longamente represadas. Em Escorpião acontece o encerramento abrupto de uma história que por muito tempo se demorou nesse fim – e quando ele chega nunca é simples ou fácil, mas é sempre uma forma explosiva de cura e de libertação.

Enfim, atravessada a crise, a força dos fixos torna-se novamente impessoal, porém agora não mais atrelada aos ritmos do corpo, que já foi delimitado, dilacerado e curado. Aquário é a luz que brilha quando todas essas energias se dissipam no céu, como se fossem vento; é a matéria que se deixa e dissolver e espalhar quando atinge a perfeição provisória do círculo; é a libertação dos limites da forma, com a consciência do espaço ilimitado. Aquário percebe que todos os sóis do universo coabitam um mesmo espaço, e nele nascem e nele morrem nos mais diferentes formatos e tamanhos, sendo que juntos formam uma rede de sóis interligados onde todos brilham juntos e nenhum deles está no centro.

Júpiter acabou de ingressar em Aquário, onde vai permanecer por cerca de um ano; Saturno já está lá há alguns dias, e fica durante dois anos e alguns meses; em 2023, Plutão chega para uma estadia de mais de uma década. Cada vez mais essas energias tão terrenas ou telúricas vão ganhar ares aquarianos, e a capacidade de disseminar-se em todos os recantos do cosmos sem ter origem em nenhum deles especificamente. Que esses bons ventos nos levem.

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O lugar bom

Essa postagem é para quem assistiu ou está assistindo The Good Place, a série da NBC que estreou em 2016 e terminou em 2020 (tem na Netflix). Vi o último episódio esses dias, e série tem esse negócio de a gente ficar com saudade dos personagens. Então – prometo não estragar o final para ninguém, pelo menos não para quem já passou da primeira temporada – me deu vontade de explorar um pouco mais a brincadeira dos signos com eles. A propósito, já mencionei o Michael (Ted Danson) em um texto sobre Capricórnio, e indiquei a Eleonor (Kristen Bell) para o Oscar do zodíaco que propus uma vez aqui, na categoria Personagem de Áries. A essa altura, estou convencido de que ela merece o prêmio.

Isso porque ela é uma ariana que vai ficando mais suave no decorrer da série, menos tensionada no confronto com o mundo, e, por mais que esse seja um caminho esperado em uma narrativa cômica convencional, ela nos convence de que isso é possível. Não é só porque aprende a falar palavrões com certa civilidade (tipo “holy fork!”, eventualmente traduzido por “fruta que caiu!”); ela faz com que seja verossímil uma heroína de Áries do bem, na medida do possível, é claro. De todas as transformações que vemos no decorrer das temporadas, para mim a dela é a mais notável. Não quer dizer que fique menos ariana, pois conheço muita gente desse signo que já parte desse lugar em que o restante da humanidade não é visto apenas como uma ameaça, e sabe que dá até para conviver com gente, às vezes até gosta. Em se tratando de Áries, já é bastante coisa.

Chidi (William Harper), por sua vez, é o clássico libriano que precisa aprender a tomar decisões. Não por acaso é o par oposto-complementar de Eleonor. Mas acho interessante que seja um filósofo. É comum as pessoas acharem Libra um signo romântico, mas a gente sabe como eles conseguem ser incrivelmente frios e cerebrais. Falta-lhes o fogo das paixões leoninas, o poço dos sentimentos escorpiônicos, a sensibilidade ao ambiente de Touro ou Virgem. É lógico que nessa perspectiva falta um traço de Libra também todos os outros arquétipos, e falta mesmo. Sobretudo quando a gente conhece um libriano que, não obstante sua librianice, e inclusive por causa dela, sabe decidir que sobremesa escolher depois de colocar todas as opções na balança.

Jason Mendoza (Manny Jacinto) é um caso singular. Peixes, sem dúvida. O interessante é que ele é pisciano tanto em sua versão de mentirinha quanto depois que ficamos sabendo quem ele realmente é após os episódios iniciais da série. Nesse caso acho que não conta como spoiler porque a coisa se revela logo ali no segundo ou terceiro capítulo: ele passa de um monge tibetano de olhos puxados que vive à base de meditação e água fresca para um morador da Flórida de origem filipina de olhos puxados que vive à base de todo tipo de porcaria e pequenos roubos de gasolina. Embora o monge seja um personagem típico do arquétipo de Peixes, a versão verdadeira de Jason é até mais pisciana que a outra.

O legal é que ele não deixa nunca de ser um personagem ingênuo e encantador. Avoado, iludido, totalmente incapaz para os assuntos práticos da vida, mas nunca menos “espiritualizado” que sua versão monástica, mesmo quando se lembra do dia que passou atirando em ratos no lixão de Jacksonville com um primo de Blake Bortles. Porque ele espera ser aceito pelo mundo da mesma maneira como o aceita, e representa o papel do bobo em tudo o que tem de plena receptividade e espelhamento do mundo ao redor. Além de ser engraçado, é claro. Tem uma cena, por exemplo, em que está todo mundo dando opinião ao mesmo tempo sobre algum problema, aí ele entra e dispara a falar um monte de coisas nada a ver. Quando perguntam o que deu nele, responde: “Sei lá, estava todo mundo falando junto achei que era para eu falar também”. Tipicamente pisciano.

Quanto à Tahani (Jameela Jamil), aí já fico na dúvida. Ela tem a rivalidade geminiana pela atenção dos pais com a irmã, mas não tem agilidade de raciocínio de Gêmeos; participa do encanto leonino com o universo das celebridades, mas falta-lhe magnetismo e confiança para ser ela própria uma Leoa. No final das contas, fico achando que é de um signo de Terra. Mas nesse caso estou disposto a aceitar ajuda, então se alguém aí tiver um opinião a respeito pode falar. Vejam só que coisa bizarra estou me tornando: uma capricorniano que admite que não sabe uma coisa e até pede conselho pros outros. Tipo o Michael.

Voltando então rapidamente ao Michael: o engraçado é que, além de ser uma figura evidentemente capricorniana em sua função de gerenciar a coisa toda e saber tudo a respeito de tudo, ele a princípio tem ainda aquele traço de Capricórnio que não aceita a necessidade de ajuda. Precisa estar sempre no controle, sem precisar nem do palpite de mais ninguém. É lógico que isso já vai mudando a partir da segunda temporada, vai ficando mais claro como na verdade tudo o que ele precisa (e no fundo quer) é assumir a forma falível e imperfeita dos humanos. É muito exaustivo isso de se responsabilizar pelo universo o tempo inteiro. Algo semelhante poderia ser dito de muitos capricornianos. 

E tem a Janet (D’Arcy Carden), é claro. A Janet é um caso à parte. Aí eu perguntei pro pessoal da internet qual é o signo da Janet, e a resposta que mais me apareceu foi Virgem. Eu respeito essa posição e até entendo. Ela tem um gestual contido e um jeito de se vestir que são bem virginianos. Ela presta um serviço inestimável, aparece sempre que alguém precisa de alguma coisa, é uma funcionária exemplar do cosmos e e nem humana ela é. Pra muita gente, isso é mais que suficiente para cravar: virginiana.

Mas eu sou Capricórnio com ascendente em Escorpião, então quando peço conselho ou palpite pros outros vocês podem suspeitar que é só jogo de cena. Já formei minha opinião há tempos e nada me fará arredar dela. Acho que os gestos controlados e aparentemente metódicos da Janet têm mais a ver com fato de que ela não tem muita familiaridade com a forma humana que assumiu. Aí vocês precisam que considerar que, quando a gente fala que Virgem não é muito humano, isso é mais num nível metafórico; é lógico que não é literal. Tem só um signo que corresponde a essa característica sem precisar de licença poética. Tem só um signo de gente que veio de outras galáxias e está ainda se acostumando a viver entre nós.

Pois então: Aquário. Em primeiro lugar, exatamente por isso, porque nem humana ela é. Digo isso na certeza de que os aquarianos queridos do meu coração vão entender como um elogio: tipo, você nem é humano, você é uma Janet. E, como se não bastasse, ela é capaz de prover os humanos com aquilo que normalmente é reservado aos deuses, como fez Prometeu, protagonista do mito mais significativamente aquariano. O fato de que vai acabar se apaixonando por uma pessoa de carne e osso, e conhecer um pouco mais os desejos do corpo que a princípio lhe é estranho – isso também acontece com frequência no âmbito do arquétipo de Aquário. E a maneira como a mente dela se conecta como uma espécie de supercomputador a tudo o que acontece no universo só me faz ter mais certeza do meu ponto.

Para terminar, ufa, tem a série como um todo. Estreou em 19 de setembro de 2016. Essa sim é, portanto, virginiana. Para mim faz sentido: a narrativa costuma ser até bem metódica em sua sobreposição de universos como se fossem bonecas russas, mesmo quando flerta com o caos. Agora, eu apostaria que existe alguma coisa ali que articula muito bem Sagitário e Touro. Talvez a Lua no primeiro, o ascendente no outro. Pois o pano de fundo é sagitariano, de modo que toda a brincadeira é organizada em torno de uma indagação sobre o sentido da vida e a finalidade da existência. Ela pode não alcançar muita profundidade nesse sentido; mas isso, pelo menos para mim, não é necessariamente uma falha ou deficiência. É aí que entra a perspectiva taurina.

Pois, no final das contas, após as milhões de referências a Kant e Heidegger e Pascal, a série acaba recorrendo ao pensamento oriental para dar uma última resposta provisória ao enigma do existir. Sobre esse aspecto dos últimos episódios, sem entregar o enredo, vou me permitir uma pincelada, até porque o recurso é mais que previsível, e não apenas pelo andamento da série, mas pela própria linguagem seriada de que ela é um bom exemplo. A ideia de que o “fim” pode ser infinitamente postergado para uma outra temporada – e de que podem existir mundos infinitos dentro de infinitos mundos – faz, curiosamente, com que o momento presente seja mais valorizado. Se a própria morte não é conclusão de um processo, mas faz parte de um conjunto incessante de ciclos, não tem porque você se afligir com uma finitude ilusória, e você pode muito bem encontrar o infinito que existe contido no agora.

Buda, como já disse aqui vez ou outra, para todos os efeitos era taurino. Seu aniversário é comemorado no dia 07 de maio. Isso para mim está relacionado não apenas à paciência e à perseverança, mas também à capacidade que Touro tem de aproveitar as coisas boas da vida. Digo, aquelas coisas materiais e momentâneas mesmo, como uma boa refeição, um bom vinho, uma boa companhia ou a simples possibilidade de respirar fundo um ar puro e tranquilo. É por isso que para mim a série termina onde começa a grande lição de Touro para nós. Que é um pouco a lição de Buda também. Não saia daí. Respire. Aproveite a vida. Aproveite o momento. O lugar bom é onde você está.

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Os enigmas aquarianos

Ilustração: John Tenniel

Li por aí que os físicos chamam de entanglement a propriedade que determinadas partículas têm de continuar afetando umas às outras (com alterações simultâneas em suas características) mesmo quando estão apartadas por enormes distâncias, e a relação entre elas torna-se tão intangível quanto inexplicável. Fiquei pensando em como traduziria isso para o português; acho que “emaranhamento” foi a opção da comunidade científica lusófona, mas isso para mim enfatiza a sensação de uma armadilha, de um nó complicado de desfazer, enquanto se perde algo da ideia de envolvimento, ressonância, vinculação. Por outro lado, e pensando bem, acho também que não seria bom diminuir o aspecto desconcertante do fenômeno, com sua imagem de um universo de relações inexplicáveis entre partículas que um dia estiveram unidas e hoje praticamente se desconhecem, mas ainda assim de alguma maneira se comunicam através de amplos espaços, sem que se entenda exatamente o que estão dizendo umas às outras. Está no dicionário, to entangle: confundir, desconcertar, perplexar.

Eu fico assim, emaranhado, quando leio Virginia Woolf. Mrs. Dalloway, por exemplo. Mas é uma confusão boa, uma perplexidade maravilhada. Gosto de sentir que não estou entendendo direito o que está acontecendo ali, enquanto a pontinha do iceberg que aparece já basta para tornar tudo muito interessante. Aliás, nesse ponto o efeito da escrita de Woolf se assemelha muito ao do estilo de James Joyce, com quem ela compartilhou o proscênio do modernismo britânico, enquanto a complexidade lógica e lúdica que encontramos em Joyce remete à de Lewis Carrol, inglês também, autor de Alice in Wonderland. Em todos esses casos, as complicações na superfície do texto, os jogos de palavras e os fluxos interligados de consciência criam uma espécie de teia esgarçada de conexões provisórias, que vai se tecendo e destecendo durante a leitura, enquanto juntamos os pontos em busca de que algo mais profundo se apresente, ou então de que uma estrutura nítida enfim se revele. Mas fazemos isso sabendo que pode não haver uma resposta clara e organizada para os enigmas que o texto nos propõe.

E vocês sabem o que mais Virginia Woolf, James Joyce e Lewis Carrol tiveram em comum? Os três eram aquarianos. Daí já podemos deduzir que: pode não haver uma resposta clara e organizada para os enigmas que Aquário nos propõe. Mas não custa nada especular a respeito. Às vezes me pergunto, por exemplo, se existe de algo de substancial por trás da imensa sofisticação estilística de Ulisses ou Finnegans Wake (ambos romances de Joyce), ou se tudo não passa de um jogo complicado e feito para confundir e perplexar a nossa mente. Algo semelhante acontece naquelas charadas com que Alice se depara em sua aventura no país das maravilhas, que às vezes parecem remeter aos grandes mistérios do universo, mas talvez sejam apenas brincadeiras interessantíssimas e ordinárias, sem outra função que não seja a de fornecer um passatempo intelectual com ares de segredo cósmico coberto por um véu matemático.

Ou seja: Aquário parece nos induzir a altas suposições sobre aquilo que enuncia, mas isso pede sempre a gente tenha certo cuidado em discernir o realmente complexo do meramente complicado. Ambos podem coexistir no mesmo arquétipo. A inovação científica é arquetipicamente aquariana, porque é em Aquário que se aloja o mito de Prometeu, que entregou aos humanos a luz e as técnicas para fazer o fogo; mas as complicações usuais da linguagem dos cientistas são com frequência apenas uma exigência da especialização, e não um indício de que algo de oculto está em jogo, como é o caso na maior parte das utilíssimas e também aquarianas pesquisas realizadas com fins práticos imediatos de inovação e melhorias na sociedade. Por outro lado, os escritores aquarianos que selecionei talvez não tenham sido contemporâneos dos primeiros teóricos da física quântica por acaso. Então, acho sim que, tanto no caso do modernismo inglês quanto no da astrofísica contemporânea e adjacências, as complexidades da linguagem remetem a verdadeiros mistérios da existência.  

A ideia de emaranhamento, portanto, não me parece ser meramente complicada de entender; ela é realmente complexa, na medida em que desafia os padrões usuais de entendimento da realidade com possibilidades totalmente impensadas até outro dia. Poderíamos dizer algo muito semelhante do estilo de Virginia Woolf; suas sinuosidades e piruetas não acontecem só para nos confundir e deslumbrar; existe algo de diferente mesmo acontecendo ali. Em seus romances, fatos distantes no tempo e no espaço relacionam-se como as partículas emaranhadas de nosso universo em expansão. A questão, mais uma vez, é saber se será possível desemaranhar o universo e o texto, isto é, se conseguiremos um dia chegar a uma solução para o mistério que ambos propõem, como quem interpreta uma frase difícil e alcança o significado que está por trás de suas sutilezas e meandros.

Acho ainda que, se a gente um dia conseguir realmente entender o que está acontecendo nos romances de Virginia Woolf, a gente vai conseguir entender o que está acontecendo no universo. Mas não vejo muita chance de isso acontecer mesmo. Pois, tanto em um caso como no outro, nós estamos tão envolvidos na história que não temos como observá-la com objetividade; nós participamos da narrativa, estamos emaranhados nela, e as conexões que conseguimos perceber estão sempre condicionadas pelo nosso posicionamento momentâneo em relação a todo o resto. Qualquer semelhança dessa percepção com implicações da Teoria da Relatividade para nossos hábitos epistemológicos não é casual.  Em suma, o estilo de Woolf é daqueles que nos faz submergir em suas palavras, assim como o estilo do universo é daqueles que nos submerge em suas estrelas.  

Quem falou algo de muito interessante a esse respeito dessa nossa posição no cosmos foi o filósofo inglês (e aquariano) Alfred North Whitehead – justamente o pensador ocidental que acompanhou mais de perto os primeiros desdobramentos da Teoria da Relatividade e da Física Quântica, elaborando a partir daí uma obra que encontra muita ressonância entre pensadores orientais também. Para Whitehead, nosso cosmos é um processo criativo que está em curso, e no qual o próprio cosmos está criando a si mesmo; nós participamos dessa criação, mas não a controlamos nem podemos entendê-la completamente. É mais ou menos como se fosse uma narrativa, mas não exatamente um romance, e sim uma série, que se desdobra a partir de uma necessidade interna do enredo, e cujo fim permanece sempre em aberto porque não existe exatamente um autor externo a ela controlando seus desdobramentos (escrevi mais sobre isso no capítulo que fiz para este livro de ensaios; e qualquer semelhança desse raciocínio com a maneira como a astrologia é tratada nesse espaço tampouco é mera coincidência).  

Nada disso – muito menos a astrologia – equivale a uma explicação do cosmos. “Nós vivenciamos muito mais do que podemos analisar, porque vivenciamos o universo”, Whitehead afirmou em Modes of Thought. Algo muito semelhante poderia ser dito dos personagens de Virginia Woolf. Eles vivenciam muito mais do que podem analisar, porque estão sujeitos a um conjunto enormemente complexo de influxos, sensações, pensamentos; suas decisões não podem nunca ser atribuídas a um raciocínio ou intuição em particular, e parecem ser antes decisões de todo o universo do livro do que de um indivíduo em particular. “Mrs. Dalloway disse que ela mesma iria comprar as flores”: já a partir dessa despretensiosa sentença nada parece ser tão simples assim, por mais que ela ironicamente funcione como uma mera enunciação com sujeito-verbo-predicado. Dá até a sensação de que haverá um ponto de partida estável, mas logo em seguida os limites desse sujeito se desfazem, o ponto de vista narrativo muda, e percebemos que ele já estava em movimento desde o começo.

Até mesmo na obra muito mais convencional de Charles Dickens, outro autor inglês e aquariano (essa relação entre o inglesismo e o aquarianismo precisa ser estudada), são os personagens excêntricos que realmente ganham a nossa atenção e carinho, ao mesmo tempo em que desestabilizam as convenções textuais. Dickens é daqueles autores que parecem adotar um modelo narrativo fixo e previsível em linhas gerais, só para poder brincar com ele à vera nos detalhes. O universo de Dickens tem um centro, é verdade, e esse centro é Deus, mas às vezes o texto se distrai tanto com as criaturas desgarradas que povoam as margens desse cosmos, que já dá para imaginá-lo destituído das certezas e seguranças que governam seus finais felizes. Dickens foi um dos últimos autores a conseguir reunir em uma unidade de enredo todos os fragmentos espalhados no universo de portentosos romances como Bleak House; depois dele, ninguém mais segurou o Big Bang da narrativa.

Mas Aquário, no final das contas, de fato não diz respeito a um centro, à concentração de energia ou poder em um só ponto, à ideia da realeza que espontaneamente atrai para si todos os olhares; tudo isso acontece no arquétipo leonino, seu oposto complementar no zodíaco, e muito bem representado pelo regente solar. Enquanto Leão é o Sol, Aquário é o Céu: é esse o significado mitológico de seu regente, Urano, por onde se espalham e se dispersam as energias solares em um amplo sistema de distribuição. Pelo mesmo raciocínio, quando pensamos no corpo humano, Leão governa os assuntos do coração, e o Aquário os do sistema circulatório. E, assim como se associa ao mito prometeico do portador da luz, o signo está naturalmente vinculado também à imagem do “portador da água”, que a leva para quem tem sede, mesmo que isso implique uma viagem aos confins do cosmos – lá onde a água não chega porque os reis leoninos jamais se ocupariam com um movimento tão excêntrico, que os afastassem tanto do palco onde são o centro das atenções.

Com isso acho que dá para voltar enfim à questão do emaranhamento, com uma nova perspectiva. Sim, há nessa ideia algo que causa perplexidade e confusão, assim como acontece no estilo de Virginia Woolf e de James Joyce. Porém, da mesma forma como o universo de Joyce é um chaosmos (tal como Umberto Eco o definiu), no qual as eventuais epifanias sugerem uma presença pulverizada do sagrado no cotidiano, e do mesmo modo como o universo esgarçado de Woolf é feito de ressonâncias e vinculações que se fazem e desfazem a todo tempo na superfície do texto, o entanglement das partículas não deixa nunca de indicar algo dessa unidade que está possivelmente por trás dos fenômenos mais apartados. Dessa forma, o desafio de Aquário é o de dispersar-se em uma complexa rede de relações, que é como um arquipélago cujas ilhas estão conectadas não através do solo subaquático, mas através de invisíveis correntes de ar.

Recentemente, enfim, passei a discutir a leitura de romances de Virginia Woolf com alunos de primeiro período do curso de Letras onde leciono. Minha dica para eles é sempre essa: deixem-se levar, não tentem entender. Pode não haver uma resposta clara e organizada para os enigmas do texto, assim como pode não haver uma resposta clara e organizada para os enigmas do universo. Mas nossa tarefa quando estamos diante de um ou de outro não é necessariamente a de compreender, e pode muito bem ser a de maravilhar-nos, confundir-nos, emaranhar-nos, desde que isso também seja uma forma de encontrarmos pontos de contato entre nós no meio a essa confusão toda. Assim, quem sabe, participaremos do texto como participamos do cosmos, não como sujeitos estranhos a ele e que buscam dominá-lo pelo entendimento, mas como mentes que surgiram de suas partículas e nunca deixaram de estar conectadas entre si e com todo o espaço ao redor.

aquário

De Aquário e outros demônios

Muito se discute sobre qual signo é o grande vilão do zodíaco. Na minha opinião, as coisas acontecem mais ou menos assim. Satanáries sai na frente por razões óbvias, mas acaba ficando no segundo páreo por razões óbvias também: é incapaz do tipo de manipulação estratégica que uma atitude realmente demoníaca requer. Escorpião é outro candidato natural, e talvez gostasse de ficar com o título, mas seu potencial para a vilania é comprometido pelas intensas crises existenciais que o tiram de cena de tempos em tempos. Há quem aposte em Gêmeos como um candidato surpresa, e vejo bastante potencial aí – o problema é que um verdadeiro vilão precisa saber se levar a sério. Enfim, acho que consigo encontrar uma limitação ou outra como essas em todos os arquétipos. Menos, entretanto, quando se trata de Aquário.

Ironicamente, trata-se do mais aéreo e desencarnado dos signos, uma espécie de anjo zodiacal, com frequência oscilando entre a curiosidade, a excitação e a indiferença diante dos assuntos humanos. Aliás, da última vez que escrevi sobre aquarianos, citei uma fala de uma personagem humana d’A Tempestade de Shakespeare, mas agora me ocorre que Aquário aparece na peça sob a forma de Ariel, criatura espiritual sem nenhum verdadeiro compromisso com os perrengues desse mundo.

Para Aquário, então, todos os outros signos se manifestam em criaturas corpóreas de traços distorcidos e presas ao solo pela força da gravidade – enquanto ele flutua entre nós. Isso, porém, o coloca em uma posição de permanente deslocamento, de tal modo que o inadequado parece ser ele. É justamente sua leveza que o torna suscetível de incorrer em algumas das mais terríveis manifestações de vilania, por causa da complexa dinâmica que gera no que se refere aos temas da adequação e do pertencimento. Qualquer desequilíbrio nessa balança é uma ameaça: o senso de inadequação cria o impulso para participar de grupos e coletividades, mas esse impulso requer o contraponto de uma reserva e de uma distância que de algum modo precisam ser preservadas.

Nesse sentido, acho, sim, que Aquário deve manter sempre algo de sua excentricidade e de seu desinteressado interesse nos dramas que nos ocupam tanto aqui nesse planeta. A indiferença que de costume lhe é atribuída como uma falha ou deficiência de caráter é, na verdade, sua salvação.  Pois o aquariano que busca uma total adequação à forma humanoide, envolvendo-se demais em nossos dramas e mimetizando nossos padrões mais ordinários de conduta, está condenado a sofrer um tipo de rejeição cujo resultado é um ressentimento incurável e destrutivo. Reparem em como essa dinâmica está bem representada em algumas de suas nuances no mais aquariano dos vilões: o Coringa.

Refiro-me aqui especificamente à maneira como ele foi representado na última produção cinematográfica que protagonizou. Pois existe, naturalmente, uma dimensão geminiana no joker como comediante e piadista, capaz de fazer malabarismos com a linguagem e dar piruetas nos nossos padrões morais; e existe também nele um aspecto escorpiônico, intensamente destrutivo e cheio de profundas reentrâncias psicológicas. Mas o recente Coringa de Joaquin Phoenix se notabilizou por ser um sujeito excêntrico e um espírito delicado que se alça à condição de ídolo das massas em condições extraordinárias, após sofrer uma série de humilhações em seus esforços por integrar-se de maneira regular à sociedade. Embora não destituído de questões psicológicas (e psiquiátricas), é na dinâmica da exclusão e do pertencimento que se situam os aspectos mais significativos da trama de sua ascensão.

Ou, melhor dizendo, a trama de sua descida ao inferno. Pois, como bem notou minha amiga Carolina Assunção em seu podcast sobre o ethos do Coringa, as imagens da descida ao subsolo são decisivas na composição cênica do filme. É de lá que Arthur Fleck vai ressurgir como um barão da ralé, um atiçador de ânimos, um rabble rouser luciferino que lidera quase involuntariamente a insurreição das massas contra as estruturas do sistema.  

Falei em Lúcifer não por acaso. É ele, afinal, o tema arquetípico que melhor expressa a sombra no arquétipo aquariano, e sua associação ao signo é um forte argumento a favor do título de príncipe das trevas para um signo de resto tão angelical. Pois Aquário, por um lado, tem no mito grego de Prometeu uma de suas narrativas decisivas, vinculando-se à ideia do “portador da luz”, aquele que roubou o fogo dos deuses para entregá-lo aos homens (isso explica muito do impulso aquariano de tornar-se um agente de desenvolvimento das ciências e tecnologias, voltado sempre para a evolução e aprimoramento da espécie humana). Por outro lado, Lúcifer também significa, exatamente, “portador da luz”, e não por acaso é um anjo decaído. Aquário, em resumo, é um signo do capeta, literalmente falando, e isso parece ter uma relação justamente com o lado mais iluminista e luminoso de sua personalidade.

Voltando então ao Coringa, onde as duas coisas também se encontram e se confundem. Notem que há um ressentimento satânico por todas as humilhações e derrotas sofridas durante a descida ao inferno; porém, em sua figura arquetípica, nunca deixa de existir o potencial de iluminar com o riso os aspectos mais patéticos de nossa sociedade. O jogo social precisa do Coringa – ou de alguma de suas variações aquarianas – para não se perder por completo na aparência de seriedade de suas brincadeiras. Nós precisamos que Aquário permaneça sempre uma espécie de lembrança da bobagem que são nossos trâmites cotidianos. Pois tudo o que se passa na sociedade é de certo modo brincadeira, convenção, jogo; o problema é que a gente se esquece muito facilmente disso.

Nesse sentido, o Coringa tem o potencial de cumprir um papel semelhante ao do bobo da corte nos seus primórdios, isto é: lembrar ao rei o que há de ridículo em toda sua pompa e circunstância, assim como em todo o aparato que rodeia as câmaras e decisões reais. O bobo tem uma função política e terapêutica que representa bem a importância de uma figura que participa e não participa do jogo ao mesmo tempo. Pode ser uma figura totalmente anômala, mas de costume será apenas levemente bizarra e excêntrica, o suficiente para deslocar-se um pouco do centro do palco do drama humano.

O interessante aqui é que essa é figura dispensável para a sociedade como um todo, ou pelo menos, digamos assim, para seu funcionamento regular; e, por isso mesmo, a sociedade depende dela para existir com um mínimo de consciência do seu modo de funcionamento. De tal modo que o riso do Coringa não é necessariamente um sinal de sua danação; pode muito bem ser um indício da nossa, pois, se as coisas chegaram ao ponto em que a denúncia do ridículo que nos rodeia é feita com tal estardalhaço, é porque as coisas foram longe demais. Curiosamente, portanto, interessa-nos que alguns aquarianos mantenham um ar de indiferença e distância em relação a essas rotinas: é desse ponto de vista que se tornam capazes de corrigir nossas esquisitices e evitar que a gente se enrede em círculos infernais.

Sim, o inferno somos nós. E Aquário só se torna o signo mais satânico do zodíaco porque, de saída, não está equipado para lidar com as baixezas de nosso comportamento. Sua disposição para integrar a sociedade, mesmo estando de antemão separado dela, é a própria origem das rasteiras que vai levar de modo desavisado no percurso. De modo que, aos aquarianos que decidiram participar do jogo com gosto e entusiasmo – existem nesse tipo também –, o que a gente recomenda é precaução, porque o ser humano é um bicho vil, ingrato e imprevisível, e nunca se sabe o que é capaz de fazer para se dar bem contra quem resolve se envolve na luta corpórea que travamos aqui com tantos golpes abaixo da cintura.  

Agora, na medida em que algo em Aquário permaneça à parte, diferente, distante, à salvo da humanidade, o arquétipo permanecerá sendo o próprio meio pelo qual a luz se propaga entre nós. Trata-se, é verdade, de uma luz eventualmente irônica, muitas vezes anárquica, que com frequência expressa através de um riso malicioso e desconcertante, porém que, em toda a sua leveza, fica para sempre marcada em nossas retinas  – como a meia-lua do sorriso do gato aquariano da Alice, pairando por um momento no céu escuro, antes de desaparecer.

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Dr. Sigmund de sapatos novos

Em suas memórias, o médico suíço e leonino Carl Gustav Jung trata da ruptura de sua amizade com o neurologista austríaco e taurino Sigmund Freud como uma experiência muito difícil e dolorosa. Jung e Freud entraram mais abertamente em conflito em torno de 1910, por causa de divergências na evolução do pensamento de ambos, e sobretudo por aquilo que Freud considerava uma excessiva inclinação para o “ocultismo” nos estudos de seu discípulo. Tauríneamente, Freud não arredou um dedo da convicção nos sólidos postulados científicos sobre os quais procurava erigir a psicanálise; Jung, por sua vez, afirmou que, na época do desentendimento, sentiu-se tão perdido que não encontrou alternativa a não ser buscar nas imagens de seu próprio inconsciente alguma saída para a crise.

Então teria se fixado em uma memória de sua infância, de quando estava com 11 ou 12 anos, e se dedicava apaixonadamente a brinquedos de construção. O impulso criativo reanimaria seu espírito adulto, na medida em que ele retomou a atividade lúdica, saindo para catar conchas e outros materiais de manhã e separando um tempo para utilizá-los nos intervalos do trabalho no hospital. “Mal terminado o almoço, ‘brincava’ até o momento em que os doentes começavam a chegar; à tarde, se meu trabalho estivesse terminado a tempo, voltava às construções. Com isso meus pensamentos se tornavam claros e conseguia apreender de modo mais preciso fantasias das quais até então tivera apenas um vago pressentimento”.

Esse recurso ao potencial terapêutico da brincadeira, da criatividade, do jogo e do ócio não é apenas uma característica de Leão; é também uma marca daquele tempo. Roger Caillois, em Os Jogos e os Homens, observa que as primeiras miniaturas de carros foram produzidas por operários de fábricas automotivas em que a divisão do trabalho não lhes permitia acompanhar o processo de produção do começo ao fim. Assim, chegando em casa, eles podiam reassumir o controle de todas as fases da composição de um artefato, nem que fosse como um hobby compensatório, e conseguindo com isso restituir a si mesmos uma relação artesanal com a inteireza do objeto.

Mas o arquétipo de Leão de fato atualizou esse impulso de formas diferentes através dos séculos. Cada texto que começo e termino para esse blogue, por exemplo, é uma espécie de jogo em que me envolvo com prazer e incerteza, sem saber ao certo de onde estou partindo nem onde vou chegar, mas sentindo que algo de esclarecedor – para mim pelo menos, espero que para vocês também – se realiza no percurso.

Nunca sei exatamente de onde vai surgir a peça com que começarei a montar cada texto. Nessa semana, por exemplo, ela apareceu na leitura desse trecho autobiográfico de Jung. Aí me ocorreu que é meio engraçado que ele e Freud tenham sido ambos de signos fixos (Touro e Leão), os quais existem em uma relação tensa e produtiva. Mas reparei em seguida que a coisa não para por aí: Freud tinha o ascendente em Escorpião, e Jung em Aquário, ambos no signo oposto complementar de seus signos solares. Isso quer dizer, basicamente, que a cruz dos quatro signos fixos esteve envolvida nas aproximações e afastamentos entre os dois grandes pensadores da psicologia no século XX. Opa, pensei: tem jogo aí.

Acho que em ambos os casos o signo solar aparece como a base da personalidade, e o ascendente refere-se à contribuição que ofereceram em suas obras. No caso de Freud, o vínculo com Escorpião é mais que evidente: de Totem e Tabu a Moisés e o Monoteísmo, desenvolve-se um concentrado esforço arqueológico em que são desenterrados os ossos de crimes antigos (o assassinato do pai pela horda primitiva, o assassinato de Moisés pelas tribos do êxodo), que teriam correlações exatas em episódios de cada trajetória individual, habitando os subterrâneos do inconsciente. Os sentimentos de inadequação, culpa, remorso ou angústia que surgem da repressão dessas memórias podem então ter sua origem identificada. Com isso, torna-se possível e necessário encarar os demônios ocultos na psique, para alcançar a lucidez após um intenso mergulho nas profundezas do passado.

Tudo converge para o Complexo de Édipo, também um assassino de seu pai, ao mesmo tempo detetive e criminoso, cujo expurgo de Tebas revela-se necessário para a regeneração da cidade. Aqui uma importante diferença entre as obras de Freud e Jung pode ser notada, pois no segundo caso há uma profusão de arquétipos, narrativas e símbolos que nunca se deixam reduzir a uma única história. Assim, enquanto Escorpião tende à obsessiva e quase paranoica busca de vestígios capazes de reafirmar o ponto central de suas investigações, Aquário abre mão do “uno” em favor do “múltiplo”, observando e afirmando diferenças ex-cêntricas onde outros vêm similaridades.

A ênfase no caráter sexual da libido, a propósito, não deixa de ser um componente escorpiônico das lições de Freud. Também aqui ele e Jung divergiram frontalmente da maneira como Escorpião e Aquário divergem no zodíaco. Pois o primeiro é uma força corporal, intensa, concentrada, enquanto o segundo é um arquétipo que se dispersa no ar em uma complexíssima profusão de relações em rede. Jung considerava a ênfase de Freud nas pulsões sexuais uma inclinação “reducionista”, na medida em que designava uma só fonte como energia motriz de todos os esforços e humanos. Ele acreditava que o impulso criativo, por exemplo, existia por si mesmo, e não como um excedente de desejos reprimidos.

Curiosamente, portanto, embora Jung fosse o ”ocultista” da relação, havia algo na ciência de Freud em que ele detectava uma obsessão compulsiva com o tema do sexo e da autoridade paterna. Não é incomum que Aquário veja Escorpião por esse prisma, no qual se ressalta sua perspectiva desencarnada, indiferente em relação aos instintos primitivos que lhe parecem vis ou demasiadamente humanos. Mas isso envolve também a dimensão iluminista e prometeica do arquétipo aquariano, na medida em que busca alçar o humano para além de seus limites usuais. Desse modo, e mais uma vez curiosamente, as Luzes estão do lado de Jung, embora Freud fosse o cientista da relação.

Acontece que Jung também se outorgava esse título, tinha apreço por ele, porém entendendo a ciência de um modo mais heterodoxo. De ambos, se não me engano, foi quem acompanhou mais de perto as inovações da Teoria da Relatividade e e Física Quântica, sem deixar escapar as relações da cosmovisão que essas novidades ofereciam com elementos das religiões orientais. Freud, enquanto isso, manteve-se centrado na tradição judaico-cristã, ferozmente dedicado ao problema de Deus, ou ao problema do Pai.

Enfim, Jung roubou o fogo de seu próprio Sol leonino para levá-lo aos homens através de seu ascendente aquariano; Freud manteve-se até o fim da vida irremovível do caminho em que Touro o havia situado, porém correndo riscos e desencavando desejos que apenas são aceitos e reconhecidos quando acionamos o tipo de coragem que reside no arquétipo de Escorpião. Da tensão produtiva desses cruzamentos, ambos descobriram razões que reforçaram suas crenças e os mantiveram em suas trajetórias, que, antinômicas como são, não deixam de se complementar (caberia ainda mencionara os aspectos complementares das noções de inconsciente individual e inconsciente coletivo, que estão mais propriamente atreladas aos arquétipos de Escorpião e de Peixes, tal como já comentei aqui).

Resta saber como Freud terá reagido à ruptura que levou Jung aos brinquedos de construção. Algo pode ser deduzido da correspondência entre ambos – ele alegou ter sido “despojado da autoridade paterna” de que o próprio jovem Jung o investira anos antes –, mas acho que nesse caso ele deve também ter buscado no seu Sol taurino algum tipo de conforto. No mínimo, deve ter se recostado em uma poltrona aconchegante, procurando quem sabe um bom lugar pra ler um livro, sem outro propósito além dar maciez à sua tristeza. Freud, é bom lembrar, fez o caminho de volta de Escorpião a Touro (dos mistérios ocultos à verdades elementares) quando lhe perguntaram insidiosamente a respeito de seu prazer com o fumo: “Às vezes, um charuto é apenas um charuto”.

O que então me vem à mente é uma tela do pintor Konstatin Christoff que vi em uma exposição no Palácio das Artes de Belo Horizonte muitos anos atrás. Ela se chamava “Dr. Sigmund de sapatos novos” – e mostrava um Freud felizão e sorridente com um novo par de sapatos brilhosos que teria comprado. O efeito da pintura estava na associação de uma figura tão imponente e misteriosa como a de Freud com alegria de ter comprado um par de sapatos novos. É como imaginar Escorpião contente diante de um belo prato de macarronada.

Ou seja, talvez tenha sido assim que ele lidou com a perda da amizade do discípulo: como um bom e velho taurino. Talvez a materialidade das coisas e as sensações que elas provocam não tenham deixado nunca de ser para ele uma espécie de refúgio em tempos de crise, a base de sua existência e sua personalidade, o ponto central e solar a partir do qual irradiou seu brilho para as regiões sombrias da alma humana. Assim como a criatividade e os jogos foram para Jung.

Só queria ainda acrescentar que Konstantin Christoff foi um artista búlgaro que, aos nove anos de idade, foi parar com a família em Montes Claros, no norte de Minas Gerais. Formado em Medicina pela UFMG, trabalhou como cirurgião-geral a vida inteira, mas nunca abandonou a pintura, além de ter publicado várias ilustrações na imprensa brasileira. Mais um médico artista, portanto. Descobri isso agora, ao fazer a pesquisa para tentar descobrir a imagem do quadro de Freud com sapatos novos. É engraçado o tipo de coisa que descubro e que encontro ao juntar as peças para esses jogos que vou montando aqui.

Mas infelizmente não encontrei a imagem, então terei que pedir um esforço da imaginação de vocês para terminar. Visualizem aí, com candura, sem maldade: Dr. Sigmund. Uma poltrona confortável. Pernas cruzadas. Sorrisão na cara. Charutão na mão. Sapatos novos.

aquário, câncer

Inventar de novo o amor


Eu estava ouvindo esses dias a versão que meu amigo André Gardel gravou em seu último álbum para “Me and Bobby McGee”, canção que ficou famosa na voz de Janis Joplin. O Gardel é um desses librianos cariocas e descolados que a gente que é capiau do mato lá de Minas gosta de chamar de “meu amigo” em público – porque, né, dá uma incrementada na imagem. Ele costumava escrever crônicas literárias sobre futebol em que havia um personagem recorrente identificado como “o atleticano melancólico”, inspirado em minha humilíssima pessoa. Ele poderia me chamar também de “capricorniano melancólico”, ou de “capricorniano mineiro melancólico”, ou de “capricorniano mineiro atleticano melancólico”, dá mais ou menos no mesmo. Mas eu gostava do título, então nada mais justo que retribua a gentileza. 

A gravação da faixa é elegante, alto-astral, cheia de gingado (libriana, carioca, descolada). Tem a participação de uma vocalista, Samantha Jones, que também nos oferece um bem dosado tom de malemolência. Mas, talvez por isso mesmo, fiquei pensando em como a situação descrita na letra é dolorosa, e em como ela tem a ver com o par Câncer/Aquário no zodíaco. É difícil encontrar um motivo para falar desses dois num mesmo texto: Câncer diz respeito ao passado, ao apego, ao aconchego, às sensações de proximidade e pertencimento, e Aquário projeta-se para o futuro, é desapegado, livre, distante. A princípio as duas coisas andam separadas, ou pelo menos em descompasso. Mas quando a gente encontra uma canção que diz, “eu daria meu futuro / por um dia no passado [and I’d give all my tomorrows / for a single yesterday]”, a gente sabe que se deparou com as dimensões canceriana e aquariana da vida nos mesmos versos.

O fato de estarem juntos não quer dizer que estejam em sintonia. Há uma dissonância na ideia de que possamos ser apegados à liberdade. Faltou dizer que liberdade é o tema da faixa, que narra uma viagem musical de dois amantes para arremeter com o famoso refrão: “Freedom is just another word for nothing left to lose…”, a liberdade é só outra palavra para não ter nada a perder, e por aí vai. O detalhe é que canção inteira é também sobre perda, o sentimento da perda, e portanto sobre o apego àquilo que foi perdido. Todos os eventos que ela menciona estão situados em um passado distante, e não há fórmula invocatória capaz de trazê-los para o presente, a não ser sob a forma de ausências em geral e de uma pungente saudade em particular. Nenhuma barganha, e nem todos os amanhãs do mundo, vão trazer aquele momento com o Bobby de volta.

Mas é interessante como essa balada pungente e carente fez sucesso na forma de um blues roqueiro, no timbre singular de Janis Joplin. O ascendente de Janis era em Aquário, e isso deve ter alguma coisa a ver com o fato de que vamos sempre lembrar da imagem de hippie diferentona que a consagrou, com aquele jeitão meio destrambelhado de quem está na estrada sem lar e sem banho faz tempo (deve ter alguma coisa a ver também com o fato de ter se tornado um dos mais sintéticos ícones de Woodstock – segundo o cartaz, “an aquarian exposition”). Mas a Lua de Janis era em Câncer. Então, também não deve ser por acaso que sentimos lá no fundo de sua voz um blues inconsolável, de quem foi arrancado do lugar a que pertencia para ter que se virar no grande mundo.

Aliás, conheço uma outra gravação da faixa em que um de seus compositores, Kris Kristofferson, a anuncia em um show assim: “Essa é uma canção country, e é assim que ela deve ser tocada, como uma canção country”. Segue-se uma execução convencional, bonita e previsível, mais próxima do que aguardamos de uma balada sertaneja. Não conheço o histórico da polêmica ou desavença que isso parece indicar, mas esse modo meio autoritário ditar as regras para a execução de uma obra tem não apenas um sabor virginiano como também um elemento de Câncer, em seu apego à tradição de um gênero musical. Sei lá, talvez Kristofferson fosse canceriano – e a música sertaneja decididamente é, não apenas pelos temas da vida na terra natal e no campo (nesse sentido é igualmente taurina), como também pelos chororôs e pelos Xororós que a povoam, pelos chamegos que reclama, pelas dores que lamenta.

Em resumo, se me permitem a esquematização: o rock é aquariano, o country é de Câncer. Mas o rock poucas vezes se desprendeu de suas raízes no blues (os Rolling Stones, essas pedras desapegadas porém às vezes tão lamentosas, estão aí para nos mostrar isso), assim como o country e o sertanejo encontraram o futuro não somente através da guitarra elétrica, como também na frequente liberdade em relação a convenções musicais desgastadas, na experimentação com outros gêneros, no contraste entre seus fundamentos e a inserção de algum elemento totalmente particular – como a voz de Janis Joplin.

De modo que Aquário e Câncer podem sim conviver, e serão sempre mutuamente enriquecidos pela experiência de sua intersecção. Aquário, quando consegue introduzir o afeto no seu comportamento, torna-se irresistível; Câncer, quando se arrisca na inovação, é capaz de inventar de novo o amor.  Claro que não é fácil, claro que há conflito nessa relação, mas nem sempre como a gente imagina. Conheço mães que, se não são de Câncer, são do tipo canceriano, e se desesperam com a liberdade que beira a indiferença de seus filhos aquarianos. Mas conheço também mães do tipo aquariano, que estão longe de estimular o apego em seus filhos, e querem mais é que eles criem asas, ou então deixem o cabelo crescer, montem uma banda de rock e saiam mutcholokos por aí.

Há, por último, a questão dos vínculos humanos a que ambos dizem respeito. Câncer rege a família, e Aquário as relações em rede, os grupos impessoais, em última análise nosso vínculo com a Humanidade. Aqui mais uma vez dá pra ver como as relações Câncer/Aquário podem sobrepor-se e variar. O indivíduo pode tanto entender que a Humanidade é sua família, quanto sentir-se diferente e deslocado onde deveria ter um senso de pertencimento. Interessante notar também que a Era de Aquário foi saudada pela geração hippie como um momento de libertação em que os indivíduos humanos iriam reencontrar uma conexão entre si, independente dos vínculos familiares e sociais. Muitos previram que a essa altura estaríamos interconectados pela telepatia. Em certo sentido acertaram, porque em linhas gerais estavam prevendo a internet.

Foi um revertério inesperado que a internet tenha afinal servido para reforçar preconceitos e bairrismos, através – por exemplo – do grupo da família no Whatsapp. Mas Câncer não é o único arquétipo responsável pelo mau uso da rede: Gêmeos contribui com a mentira, Leão com a vaidade, Escorpião com a deep web, e o próprio arquétipo aquariano não é tão neutro quanto gostaria de parecer. Do mesmo modo, sabemos hoje como a transmissão de carinho e cuidado através de frios sinais digitais é totalmente possível. Mais uma vez, Câncer e Aquário se mostram capazes de trabalhar bem juntos, porque representam não exatamente o passado e futuro, mas duas formas de presença em que se conciliam o afeto e a liberdade.

Enfim, não será preciso reinventar o amor, porque há bastante amor circulando por aí em todos os meios e mensagens – basta sintonizar nossas antenas para recebê-lo e compartilhá-lo. A gente espera que também não seja necessário redescobrir a liberdade, mas felizmente teremos sempre Janis para nos lembrar de que um dia ela foi possível e valeu a pena. “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”, o Gardel deu um jeito genial de colocar lá em sua versão, citando livremente Pessoa. Talvez o Kristofferson não gostasse muito desse tipo de folga. Paciência. “Me and Bobby McGee” foi inventada de novo, para que a gente sinta com frescor e alegria a falta que o Bobby faz.

Todos os signos

Estatísticas

Agradeço a todo mundo que atendeu ao meu apelo para contar o ascendente pelas redes sociais. Agora enfim tenho uma amostra considerável para oferecer minha contribuição ao desenvolvimento da ciência astrológica com o máximo rigor metodológico. Em seguida, apresento alguns dados do DATAGUS acompanhados das respectivas análises qualitativas:

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em ÁRIES foi de 5,8% do total. Porém, sabe-se que a conclusão da amostragem não corresponde à realidade. Tem muita gente com ascendente em Áries que já não está em rede social nenhuma. Saíram fora dessa.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em TOURO foi de 8,33333%. Foi o único signo cujo número correspondeu a exatamente 1/12 do total. O pessoal de ascendente em Touro é objetivo. Quando a gente pergunta o ascendente eles respondem “Touro”, e mantêm-se impassíveis, como que esperando a gente dizer alguma coisa a respeito. Mas nessas horas costumo perceber lá no fundo de seus olhos um desconcertante lampejo de sarcasmo.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em GÊMEOS foi de 8,8% do total. Desses, quase metade respondeu “Gêmeos kkkkkkkkk”. Deve ser divertido ter o ascendente em Gêmeos.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em CÂNCER foi de 7,5% do total. Infelizmente, nenhum deles me convidou para tomar um café e comer um bolinho na casa deles. Tomar café e comer bolinho na casa do ascendente em Câncer é especial. Convida aí, pessoal, que eu aceito.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em LEÃO foi de 12,3% do total. Outro número que com certeza não corresponde à realidade. Ter ascendente em Leão é o máximo. Tem gente que diz só pra aparecer.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em VIRGEM foi de 10,3% do total. É um número alto, mas possivelmente correspondente ao número de indivíduos vivos com este ascendente. Mesmo o pessoal com a Lua em Peixes ou Marte em Gêmeos uma hora resolve fazer tudo certinho e manter uma rotina saudável, se tiver o ascendente em Virgem. O percentual se explica pela longevidade.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em LIBRA de foi 8,6% do total. Uma breve análise das fotos de perfil confirma a fama desse ascendente. Ô gente bonita, meu Deus.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em ESCORPIÃO foi de 4,2% do total. O índice extremamente baixo é fácil de explicar. Um ascendente em Escorpião não vai sair contando isso por aí (eu, por exemplo, não conto). A propósito, 100% dos indivíduos que responderam com “quero ver vc adivinhar” tinham ascendente em Escorpião. Já três indivíduos perguntaram se isso de ter ascendente em Escorpião é grave. Dois deles, anonimamente.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em SAGITÁRIO foi de 8,0% do total. Metade desses já sabia tudo sobre ter ascendente em Sagitário. A outra metade pediu bibliografia.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em CAPRICÓRNIO foi de 6,9% do total. Aqui também acho que há uma distorção. Muitos não responderam a pesquisa porque estavam trabalhando em um projeto. Ascendente em Capricórnio está sempre trabalhando em um projeto.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em AQUÁRIO foi de 9,1% do total. Aqui temos um caso muito singular, mesmo para meu círculo de conhecidos: dois a cada três desses indivíduos são estudantes de humanos. Ops, de humanas. Mas faz sentido. Sempre tenho a sensação de que Aquário é gente de outros planetas que resolveu passar um tempo na Terra por algum motivo. No caso do ascendente agora está claro. Vieram nos pesquisar.

Enfim, o número de indivíduos que declararam ter ascendente em PEIXES foi de 6,4% do total. Aqui acontece algo aparecido com o ascendente em Áries. A diferença é que o ascendente em Peixes não está fora só das redes sociais. Ele está a caminho de estar fora da sociedade mesmo. Faz muito bem.

A propósito, dos 1,7% que responderam “ih não lembro”, presume -se que a maioria tenha ascendente em Peixes.

Por enquanto é isso. Estaremos em contínuo trabalho de processamento e análise das informações. A qualquer momento pode sair um novo relatório. Mais uma vez obrigado.

Todos os signos

Como morrem os signos

O Sétimo Selo, dir. Ingmar Bergman (1957)

Áries morre no calor do combate. Nem chega a ver o rosto da morte. Não sofre por antecipação: o golpe é fatal, súbito e exato.

Touro vê a morte de longe, depois vê a morte chegando, e vai se aproximando dela, até que se encontram. Nada altera seu caminho.

Gêmeos pode até aceitar a morte, só queria ter uma conversa com ela antes: “Isso de morrer, precisa mesmo?”, “esse seu trabalho, é meio pesado né?”, “lá pra onde a gente vai, tem internet?”

Câncer odeia a morte. Queria que ela morresse. Mas ia ficar triste se morresse mesmo.

Leão desafia a morte. Não tem chance de vencê-la, mas faz parecer que tem. Sua morte é uma derrota, mas uma derrota trágica, bela e gloriosa.

A morte de Virgem é um rito. Ela é recebida em um lugar adequado e com os utensílios corretos. Até para morrer existe um jeito certo.

Libra também conversa com a morte, e começa tentando fazê-la mudar de ideia. Depois aceita que a morte é inevitável. Acaba concordando com ela em inúmeros outros assuntos também.

Escorpião morre várias vezes na vida. Tantas que faz amizade com a morte. É com carinho que a recebe na última visita. “Vem cá minha velha”, diz, cheio de intimidades.

Sagitário tem uma teoria a respeito da morte, e vai explicá-la para a morte quando a morte chegar. Vai ser a maior viagem, mas a morte vai achar interessante e vai ouvir até o fim.

Capricórnio respeita a morte, sabe que ela está aí há muito tempo. Morrer é uma coisa que todo mundo faz, não vai ser ele que vai inventar moda do contrário.

Aquário recebe a morte como um convite para entrar em um clube, tipo ingressar em uma associação: “Tô nessa, quero participar também”. Mas Aquário pode sentir exatamente o contrário, a morte como oportunidade de deixar de participar do clube dos vivos: “enfim”, diz, “tire-me daqui”.

Peixes se rende à morte como se rende ao sono, deixa que ela leve peça por peça, entrega os pontos. E, se tem alguém que consegue enganar a morte, esse alguém é Peixes, quando finge que está jogando para vencer, e na verdade não está nem prestando atenção no placar do jogo.

aquário

O povo de Aquária

Apostoli Rossella / Getty Images

Sobre Aquário e os Aquarianos: acho que nenhum outro grupo do zodíaco justifica mais essa maiúscula, esse título de um povo à parte, diferente, que veio de outro lugar. Não porque sejam coesos e tenham características comuns marcantes, muito pelo contrário, são até bem diversos entre si. Mas pensem: se um destacamento de terráqueos fosse designado para cumprir uma missão em outra galáxia, e constituísse uma boa amostragem da vida humana na Terra, iriam para lá pessoas das mais diferentes personalidades, comportamentos, ofícios. Elas teriam só uma coisa em comum: seriam os Terráqueos.

O povo de Aquária, portanto, talvez tenha vindo com algum propósito. O problema é que eles mesmos não se lembram claramente qual é. Os motivos pelos quais se alistaram para a viagem podem ser os mais distintos também, assim como as reações de cada um diante do que encontram aqui. Dispersos entre nós, sem sequer recordar de onde vieram, por que vieram, quem veio junto, e apenas intuindo a razão de sua estada neste planeta, encenam as mais variadas formas de articulação de alguns dos principais temas de seu arquétipo: a identidade e a diferença, o pertencimento e a dissociação, a relação do indivíduo com grupos e com a humanidade em geral.

Não surpreende que muitos se envolvam com causas humanitárias, por sinal. São os que vieram aqui para ajudar. Lá de onde estavam perceberam que nossa bagunça requer novas ideias, técnicas e conhecimentos para começar a ter algum tipo de conserto. Não por acaso, o mito de Prometeu, que roubou o fogo dos deuses para entregá-lo à humanidade – e também nos introduziu em diferentes ciências e saberes – é associado ao arquétipo de Aquário. Mas Prometeu criou assim para si a difícil situação em que seu amparo aos humanos o afastou de sua condição titânica, sem que ele próprio pudesse jamais se tornar um humano, dando-lhe a condição única de um ‘freak’, de um excêntrico.

Outras expressões do arquétipo aquariano são variações dessa posição ambígua. Há aquelas em que a motivação inicial, de auxílio na evolução social e científica dos humanos, se desenvolve em um obstinado e irrestrito impulso de reforma (ou revolução) da sociedade. Mas há também uma expressão radicalmente oposta, em que, chegando à Terra, a alma aquariana se depara com uma tal confusão e um comportamento tão errático dos humanos que recai no mais absoluto desconcerto. Isso pode levá-la tanto a uma atitude de evidente perplexidade como à postura distanciada ou blasé de quem não tem nada a ver com isso. Aliás, às vezes, sob a aparência de superioridade ou excentricidade, está a mais completa falta de jeito para lidar com as coisas nessa dimensão. Os Aquarianos podem inclusive se tornar os Bartlebys do zodíaco: simplesmente preferem não fazer.

Outra possibilidade é que se identifiquem totalmente com alguma organização ou símbolo coletivos (desde corporações até times de futebol, passando por comunidades alternativas e organizações não-governamentais), seja por prazer neste tipo vinculação, seja por medo de ficarem sozinhos e sem amigos. Neste caso, há o risco de fazerem concessões envolvendo traços preciosos de sua individualidade. Mas o dilema aquariano pode ser resolvido de formas criativas e inusitadas também. O carnaval de blocos de rua, por exemplo, é uma solução magnífica: todo mundo junto, mas cada um na sua; todo mundo misturado na galera, mas cada um incorporando um personagem único e completamente diferente.

O termo central aqui é participação. Tanto melhor que seja com alegria. Pois o povo de Aquária está aqui para participar: de nossas festas, de nossos esforços, de nossos perrengues. Talvez nunca venham a se sentir indivíduos deste mundo, mas podem muito bem ser indivíduos neste mundo, tomando parte em grupos variados sem abrir mão de suas idiossincrasias intergalácticas. Tanto melhor também que encontrem uma forma de nos transmitir seus conhecimentos e ciências e melhorias sociais – nós só temos a agradecer.

Portanto, Aquarianos, aqui falo em nome de toda a humanidade: obrigado. A gente sabe como vocês foram corajosos, desprevenidos até. Isso aqui é a confusão que vocês estão vendo, é essa bagunça aí mesmo, se der pra dar uma força em uma coisa ou outra já está ótimo. Com alguma sorte, porém, vocês poderão eventualmente repetir as famosas frases de uma personagem chamada Miranda no final da peça A Tempestade, de um dramaturgo nosso chamado William Shakespeare: “O wonder! How many goodly creatures are there here! How beauteous mankind is! O brave new world, that has such people in it! [Que maravilha! Como há boas criaturas nesse mundo! Como a humanidade é bela! Oh admirável mundo novo, que tem pessoas assim!”]

E, para os bebezinhos aquarianos que vierem a nascer ainda, deixo uma paráfrase de outro momento célebre de um clássico da dramaturgia terrena, uma série chamada Amigos, que encerrou seu primeiro episódio mais ou menos desse jeito: “Welcome to Earth. It sucks. You’re gonna love it. [Bem-vindo à Terra. É uma merda. Você vai amar.]”