aquário, escorpião, leão, touro

Bons ventos

[Desenho: Bia Callegari]

Os arquétipos astrológicos contam muitas histórias, e uma delas é a que se narra a partir da sucessão dos signos fixos no zodíaco. Ela começa com a energia impessoal de Touro: força de sustentação dos ciclos da natureza, feita de momentos de esforço consistente e descanso merecido, onde acontecem as renovações regulares com as quais o corpo se confunde com cosmos. Touro é aquilo que garante o crescer e o florescer periódico das plantas, e aceita com dignidade seu perecimento, porque entende que ali já está contida a semente de um reinício. Touro é a constância da vida e da morte, repetindo-se indefinidamente. Não estamos falando necessariamente de uma vida ou de uma morte quando falamos de Touro.

Uma vida acontece quando um eu se isola e se reconhece nesse processo. A esse eu chamamos também de Sol, que resplandece em sua permanente juventude, independente de tudo e ao mesmo tempo centro de todas as coisas. Um centro. A energia que emana do Sol é a energia que emana de Leão, cuja vitalidade desconhece os ciclos do tempo orgânico e terreno, e se esbanja no derramar-se inesgotável do verão como se não houvesse amanhã. Porém sabemos que há, por mais distante que possa ser. Sabemos que o inverno há de vir e que o próprio Sol um dia vai acabar, porque sua vida é um evento no universo, ou melhor, um evento do universo, como todos nós somos. Algo que se destaca a ganha existência própria apenas por um instante, ainda que nesse instante exista algo de eterno – como as estrelas que brilham no céu noturno mesmo depois de terem se apagado.

De modo que a verdadeira consciência da finitude do corpo e da noite da alma se dá no âmbito de Escorpião. Essa consciência por si mesma causa transformações que não estavam no roteiro leonino. Escorpião é a descoberta de uma fissura, uma feiura, uma falha, na superfície brilhante de si enquanto Sol, e a prospecção das profundidades ocultas que agora pedem para ser integradas à personalidade. Esse processo exige a morte do eu que havia antes. Uma morte. Ela se dá em uma catarse, em uma espécie de gozo, que significa a dispersão de energias longamente represadas. Em Escorpião acontece o encerramento abrupto de uma história que por muito tempo se demorou nesse fim – e quando ele chega nunca é simples ou fácil, mas é sempre uma forma explosiva de cura e de libertação.

Enfim, atravessada a crise, a força dos fixos torna-se novamente impessoal, porém agora não mais atrelada aos ritmos do corpo, que já foi delimitado, dilacerado e curado. Aquário é a luz que brilha quando todas essas energias se dissipam no céu, como se fossem vento; é a matéria que se deixa e dissolver e espalhar quando atinge a perfeição provisória do círculo; é a libertação dos limites da forma, com a consciência do espaço ilimitado. Aquário percebe que todos os sóis do universo coabitam um mesmo espaço, e nele nascem e nele morrem nos mais diferentes formatos e tamanhos, sendo que juntos formam uma rede de sóis interligados onde todos brilham juntos e nenhum deles está no centro.

Júpiter acabou de ingressar em Aquário, onde vai permanecer por cerca de um ano; Saturno já está lá há alguns dias, e fica durante dois anos e alguns meses; em 2023, Plutão chega para uma estadia de mais de uma década. Cada vez mais essas energias tão terrenas ou telúricas vão ganhar ares aquarianos, e a capacidade de disseminar-se em todos os recantos do cosmos sem ter origem em nenhum deles especificamente. Que esses bons ventos nos levem.

sagitário

Da natureza dos tebetês

Fenômenos da internet costumam ser intrigantes. Isso de postar fotos antigas na quinta-feira, por exemplo. Por que logo na quinta-feira, um dia tão expansivo, orientado para o futuro, sagitariano? Por que rememorar o passado justamente quando nossos olhos estão voltados para a frente e para o fim de semana? Não faria mais sentido fazer isso às segundas, o dia da Lua, moon day, regente de Câncer e de nossa memória afetiva? E por que essa sacanagem de terem enfileirado os dias da semana em uma monótona sequência numérica (segunda, terça, quarta etc.), quando em tantas outras línguas essa lista faz referência aos planetas e aos mitos associados a eles?

A propósito, Jueves, quinta-feira em espanhol, se refere a Jove, o outro nome romano de Júpiter e de seu equivalente grego Zeus – um deus farrista e que tinha muitos atributos em excesso, mas com certeza não o saudosismo. Thursday é Thor’s day, dia de Thor, o jupiteriano deus nórdico do trovão e do relâmpago, que onde aparecesse chegava chegando e bagunçando a zorra toda, que nem a Ludmilla (a Ludmilla, aliás, tem Júpiter em Sagitário, descobri no astrotheme). Já a quinta-feira do calendário Hindu é Brhaspativaar, ou Guruvaar, sendo que Bhrspatti é Júpiter, o planeta, e também o Senhor do Discurso Sagrado, preceptor dos deuses, conhecedor de basicamente tudo, também famoso como GURU, O CARA. Mais uma vez: por que Throw Back Thursday e não Here We Go Thursday, ou Fuck This Shit Thursday, ou Metendo as Cara e Chutando os Balde Thursday? Porque o arquétipo de Sagitário se encontra tão sub-representado em uma das práticas internéticas mais características do dia que dedicaram ao seu regente?

Bom, tenho duas hipóteses. A primeira é a teoria da compensação dos opostos, segundo a qual o mesmo mecanismo que criou a menos popular Motivation Monday (para distribuir ânimo e esperança no dia em que estes atributos estão mais escassos) teria criado o TBT. Mas nesse sentido estaríamos supondo que a quinta-feira é por natureza um dia tão carregado de expectativas, tão palpitante de possiblidades, que teria sido necessário equilibrá-la com certa nostalgia. Mas acho que não chega a tanto: nem o otimismo das quintas é tão certo, nem a melancolia é parte intrínseca das postagens repetidas. Às vezes elas parecem ter o efeito inverso mesmo. Daí minha segunda especulação.

Porque, não sei se vocês já notaram, mas tem dias que o TBT parece ter sido criado para Sagitário esbanjar as viagens que já fez pelo mundo. E mesmo quem não é sagitariano acaba sendo um pouco na hora de repostar o registro daquele mochilão pelo sudeste asiático.  Esse é um ponto importante: se existe uma relação entre a viagem e o tebetê, existe uma relação entre o tebetê e Sagitário. Porém, especificamente nesses casos, a rememoração de andanças e experiências não me parece motivada pela sensação de uma falta, de uma carência, como acontece com a memória no âmbito canceriano e lunar. Não vejo ninguém nessas horas dilacerado pela saudade do Timbuktu, e a razão é simples: o Timbuktu, arquetipicamente falando, não está nas nossas origens, muito pelo contrário. Ele é justamente um símbolo daquilo que extrapolou nossas origens; ele foi um de nossos destinos.

O TBT é sagitariano, portanto, mas não tem nada a ver com saudade. É sobre a infusão de ânimo que oferecem aquelas memórias de algo que expandiu o horizonte de nossas experiências e a narrativa da nossa vida, desfazendo os limites e fronteiras aos quais parecíamos restringidos em nossa terra natal, por nossa herança familiar ou situação financeira. Mesmo quem não tem o passaporte todo carimbado vai identificar lembranças desse tipo: “TBT do dia em que passei pra universidade federal”, por exemplo, se encaixa nesse registro, assim como “lembrança daquele dia lindo em que lancei meu primeiro livro de poesia”. A pessoa não está lamentando o fato de que esse dia não volta mais; está celebrando o fato de que ele aconteceu, e de que desde então sua trajetória no mundo esteve carimbada por essa entrada em uma terra estrangeira, que a partir daí ela passou a conhecer e desbravar.

Concluo que as rotinas da internet parecem antes reforçar o espírito dos dias do que servir como antídoto para suas inclinações. As mensagens motivacionais de segunda-feira só aumentam a falta de paciência para começar a semana, enquanto a nostalgia tebetista tem sua origem no relativo entusiasmo quinta-feiriano, e o retroalimenta. Por outro lado, em qualquer outro dia que não estivesse reservado especificamente para esse fim, ficar postando coisas antigas pareceria sim uma atitude de lamento diante da perda. Ninguém ia aguentar, por exemplo, se em plena segunda todo mundo entrasse na ladainha de que minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá e as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá. Enquanto na quinta-feira, ninguém vai achar que você está particularmente em estado de banzo simplesmente porque a imagem que você recuperou está um pouco desbotada. As lembranças de quinta não são as lembranças do que se perdeu, e sim a presença do que foi acrescentado.

Em resumo: o TBT não é sobre o lugar de onde partimos, mas sobre um lugar onde um dia chegamos. Tem um efeito estimulante, no sentido de reacender a chama que nos levou a cruzar aqueles mares e arriscar aquele curso, aquela publicação, aquela jornada. A foto aí de cima, por exemplo, é de uma viagem que fiz para Lisboa, Barcelona e Londres com meu filho mais velho. Quando olho para ela hoje, o sentimento não é de maneira alguma melancólico, mas de expectativa pelas viagens que estão por vir, pelos lugares que ainda vou conhecer, pelos conhecimentos que ainda vou conquistar. Não sei exatamente o que aconteceu naquele dia em Portugal, quando tiramos esse retrato. Às vezes parece que o momento em que registramos essa imagem ainda nos aguarda, que ele ainda vai chegar, e que ainda precisamos nos mover para chegar (de novo) até ele.

Dizem que toda imagem vem acompanhada de uma espécie de rótulo com o qual o cérebro de imediato a classifica em um registro temporal. O dejà vu, por exemplo, seria a consequência de um erro desse mecanismo, quando uma cena vista no presente recebe o rótulo de “lembrança”, e gera um pequeno curto-circuito na linearidade com que tentamos organizar os fatos. Estes pequenos embaraços e desconcertos à nossa consciência do tempo são bem-vindos, e o TBT é um deles. Trata-se de uma lembrança cujo desenterrar em um dia específico da semana traz consigo o rótulo de um futuro possível. É como se estivéssemos recordando coisas fantásticas que ainda vão nos acontecer.

astros

A época das transformações

“Tenho 36”. A fala encerra Frankie and Johnny, uma peça de Terrence McNally adaptada para o cinema em uma produção de 1991 com Michelle Pfeiffer e Al Pacino. O número faz referência à idade da personagem de Pfeiffer, e preciso de umas pinceladas de contexto para justificar a citação. O dia está nascendo lá fora; eles estão no apartamento dela, onde passaram a noite discutindo e brigando; junto com o nascer do sol surge um momento de conciliação, que aparece por si mesmo, seguindo os ritmos da vida e dos relacionamentos em seus turbulentos inícios. Trata-se de uma comédia romântica, afinal. Clair de Lune, de Debussy, está tocando no rádio. Ela pergunta, “pro que der e vier?”, e ele responde, “pro que der e vier”. Ela: “Tenho 36”.

Dá para imaginar que é um momento feliz no filme. Porém, seria mais adequado caracterizá-lo como um momento de paz e tranquilidade, seguindo a sugestão da trilha sonora. Há também um toque agridoce de melancolia, que está tanto na música como na paleta de cores do amanhecer, e não retira do instante seu frescor, porém lhe confere indícios de maturidade. Ela tem trinta e seis anos, portanto: já não é exatamente uma garota, viveu perdas e desilusões. Sabe como os sonhos de sua juventude estavam em desacordo com a realidade, e provavelmente decidiu viver a realidade mesmo assim, mas tem horas que dá vontade de desistir de tudo: dos sonhos, da vida, da realidade. É isso que ela quase faz quando percebe algumas condições da história de amor que está começando. Quase.

Astrologicamente, estamos falando de alguém que, mesmo em meio ao entusiasmo do começo de uma paixão, acabou de viver um desafio saturnino. Acontece com todo mundo: após a crise que chega pouco antes dos trinta, Saturno dá as caras mais uma vez cerca de sete anos depois, em uma quadratura que põe à prova o que foi conquistado antes em termos de compreensão de si e do mundo. Desse ponto de vista, há de fato um potencial recomeço, ou pelo menos a chance de uma renovação dos votos de confiança que a vida e o real às vezes exigem nessa época, seja em nossas experiências afetivas, seja em nossas experiências familiares, seja em nossas trajetórias profissionais. O filme trata um pouco disso.

No entanto, queria falar hoje sobre o que vem a seguir. Queria falar sobre o que acontece depois do fim desse filme. Pois, sendo uma comédia romântica de matizes realistas e amadurecidos, ela termina com uma versão um pouco diferente do “e foram felizes para sempre” da fábula; algo como “e foram felizes na medida do possível”, ou “e foram razoavelmente felizes por um bom tempo”, ou “e ficaram felizes por uns dias e depois voltaram a brigar por causa de outro assunto, e aí resolveram esse assunto também, mas aí ele ficou emprego, a mãe dela ficou muito doente, eles perderam um bebê, e ficou difícil ser feliz de novo”. De um jeito ou de outro, está claro que o momento de paz e tranquilidade que presenciamos foi apenas um momento – e que logo as coisas vão ficar complicadas novamente.

É sobre isso que eu quero falar: sobre como as coisas sempre ficam complicadas novamente, inclusive mais complicadas do que eram antes. Até porque essa percepção dá um novo tipo de valor aos momentos em que tudo se simplifica e alcança uma síntese evidente e provisória (em uma decisão, em uma canção, em um gesto). Para desenvolver esse ponto, em se tratando de movimentos planetários, não basta termos os trânsitos de Saturno como referência, pois, pasmem, Saturno não complica as coisas o suficiente: está entre os chamados “planetas sociais”, que regem a relação entre indivíduo e sociedade, e não alcançam nem os territórios mais obscuros da psique nem as vastidões menos exploradas do cosmos. É aí que entram Urano, Netuno e Plutão, justamente os planetas com que nos acostumamos a conviver dos 36 anos em diante.

Tenho 41. Gosto de observar como esses planetas se manifestam nas leituras que faço. Uma das razões pelas quais eles se tornaram importantes para mim é bastante previsível: seus trânsitos foram muito perceptíveis na minha trajetória individual. Até certa idade, eu estava de fato aprendendo a manejar habilidades e limitações mais diretamente associados aos planetas pessoais e sociais (com ênfase, é claro, para o retorno de Saturno e seus desdobramentos). Então veio o retorno do Nodo Norte, que já era uma novidade, sobre a qual escrevi nessa outra postagem; mas foi na sequência, durante os trinta e tantos e depois, que uma sucessão de trânsitos regulares (aqueles que todos nós vivemos mais ou menos na mesma idade) se mostraram capazes de abalar de maneira mais decisiva e transformadora minha forma de entender e agir no mundo.

Supõe-se que as conquistas de um retorno de Saturno bem vivenciado – com suas crises, rupturas e mudanças de rumo – a essa altura estarão consolidadas, para que você consiga enfrentar esses outros desafios em diferentes recortes da existência. E é verdade, é um pouco assim mesmo que acontece, como se você tivesse passado de fase na vida, contando com mais força e mais recursos, mas também podendo aguardar novas pelejas. Por outro lado, seria um equívoco tratar esses obstáculos apenas como “maiores” que os anteriores – eles são de outra natureza, e não aceitam as mesmas soluções que encontramos antes. Redefinem mais do que imaginamos existir para ser redefinido, desconstruindo crenças e certezas que nós nem sabíamos que estavam lá.

Já escrevi uma postagem específica sobre a quadratura de Plutão, que ocorre nessa época. Tenho ascendente em Escorpião, e considero Plutão meu regente, daí o interesse específico nesse trânsito. Os outros são a quadratura de Netuno e a oposição de Urano. Dependendo do seu mapa, um deles pode se tornar mais relevante, e é possível e provável também que você seja apresentado em diferentes momentos da vida às exigências desses “deuses de transformação”, para usar uma expressão de Howard Sasportas; há quem chegue aos 30 já bastante escolado em suas angústias e reviravoltas. Mas, como já dei a entender, não pretendo me estender aqui nas repercussões isoladas ou individuais de Urano, Netuno e Plutão, e sim nas implicações de aparecerem um atrás do outro durante uma época específica e alargada da vida de todos nós.

Em tempo: essa é uma época particularmente fértil para o trabalho psicanalítico ou outras formas de terapia. Isso me faz lembrar uma frase de Carl Jung, segundo a qual até os 40 anos o que vivemos é a “luta pela sobrevivência”: só depois de encerrar esse ciclo estamos em condições de saber quem realmente somos, o que realmente queremos, e quais arquétipos estamos destinados a encenar de maneira genuína em nossas vidas. Entendam esse número de maneira abrangente, considerando que o processo pode se estender ate os quarenta a poucos, e você tem uma consonância nem um pouco surpreendente entre conclusões da astrologia psicológica e do pensamento junguiano. Num caso como no outro, o ponto de partida é a sensação de terra arrasada que enfrentamos diante de alguns desses terremotos da meia-idade, em que forças além do nosso controle e da nossa consciência entram em ação de um modo inesperado, e precisamente quando, segundo padrões e expectativas sociais, deveríamos enfim “estar no controle” das nossas vidas e “conscientes” do que somos e queremos. Aliás, esse foi o período da vida Jung em que, após entrar em confronto aberto com Freud – algo que seria determinante em sua trajetória -, ele passou pelas crises e transformações registradas no chamado Livro Vermelho, uma obra de caráter diarístico e autobiográfico, pouco compreensível teoricamente ou como guia para o trabalho psicológico, mas repleta de alusões a uma intensa metamorfose pela qual estaria passando seu autor.

Talvez, então, a luta pela sobrevivência termine não por causa da garantia da sobrevivência, e sim pela experiência da mortalidade, que muitas vezes aparece para nós em trânsitos plutônicos; e descobrir quem realmente somos seja antes consequência do desengano do que motivo de entusiasmo, tal como sentimos diante de algumas manifestações de Netuno. Mas não digo isso para desanimar ninguém, porque após esses solavancos sempre conhecemos algum tipo de serenidade ou segurança ou alegria que desconhecíamos antes, e eles na verdade abrem espaço para novidades onde víamos um futuro já definido. Ou seja: sobre a terra revirada pela passagem dos planetas transpessoais, é possível plantar novas sementes cujos frutos até então sequer sabíamos existir, e muito menos esperávamos saborear.

Esse resultado depende de certa aquiescência, embora ela não necessariamente aconteça sem luta. Posso falar do “meu” Sol em Capricórnio, do “meu” ascendente em Escorpião, da “minha” Vênus em Sagitário e talvez até do “meu” Saturno em Virgem, mas quando se trata de Urano, Netuno e Plutão, sinto que sou eu que sou deles, não o contrário. Tal sensação compromete talvez mais do que gostaria meu senso de autonomia e individualidade, mas apenas num primeiro momento; num segundo, sinto que a própria lógica de separação entre uma parte do cosmos que é minha e outra qual pertenço está equivocada, e que sou uma manifestação singular dele inteiro – uma manifestação que posso conhecer melhor através destes símbolos.

Os planetas transpessoais, portanto, me parecem servir ao autoconhecimento tanto quanto os outros. Mas, nesse caso, algo maior que meu ego está conhecendo a si mesmo. Por outro lado, acho difícil que esses astros e as energias que eles representam venham a ser tornar realmente conhecidos por nós tão cedo; no máximo, ganhamos alguma intimidade com eles, mas ainda assim eles vão preservar algo de intimidador. Eles desorganizam muita coisa que estava pretensamente dominado por uma razão apenas pretensamente amadurecida; e tudo o que trazem é relativamente novo, tanto para a astrologia quanto para humanidade, que só veio a conhecê-los e investigá-los a partir do final do século XVIII.

De modo que me parecem fundamentais à prática astrológica exatamente por serem pouco compreendidos, ao mesmo tempo em que sua ação estranha ou inesperada tem o poder de colocar em cheque nossas crenças e convicções. Aqui peço licença para uma breve digressão ilustrativa, pois dá para explicar melhor esse ponto recorrendo à história de Johannes Kepler, o jovem astrólogo e astrônomo que, no final do século XVI, após muito trabalho, esforço e tentativas frustradas, acreditou ter descoberto a estrutura geométrica do universo. Marcelo Gleiser faz uma relato completo desse processo em Criação Imperfeita: cosmo, vida e o código oculto da natureza. Segundo Gleiser, ao observar as distâncias entre os planetas – Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter e Saturno –, Kepler concluiu enfim que elas podiam ser explicadas com um modelo baseado nos cinco sólidos perfeitos, os chamados sólidos platônicos: cubo, pirâmide, octaedro, dodecaedro e icosaedro. Encaixados um dentro do outro, como em uma boneca russa, faziam com que as esferas imaginárias situadas entre os sólidos correspondessem com exatidão às distâncias entre as órbitas dos planetas, e dos planetas em relação ao Sol.

A coisa toda parecia fazer muito sentido. Mas as coisas eram mais complicadas do que ele imaginava. Pois, com o tempo, após a morte de Kepler, outros planetas foram sendo identificados: Netuno, Urano, Plutão. E suas posições e movimentos nem de longe se encaixavam no modelo kepleriano, ou em alguma versão alternativa dele. Cada vez mais, nenhuma ordem, nenhuma razão pareciam dar forma sequer ao restrito aglomerado de esferas que nossos telescópios alcançavam. E mais ainda: muitos outros aglomerados, incontáveis outros sistemas foram sendo localizados nos observatórios, em uma estonteante proliferação de pontos de luz rodeados por parceiros de diferentes tamanhos, trajetórias e composições, talvez vinculados por forças obscuras e secretas, mas sem qualquer lógica que lhes determinasse a tessitura.

Kepler, vale ressaltar, afirmou ter encontrado a solução para a ordem subjacente às posições planetárias com uma epifania, que lhe teria ocorrido durante uma aula na qual demonstrava a conjunção periódica de Júpiter e Saturno no zodíaco. Na época esses eram os dois grandes protagonistas astrológicos – tendo sido apontados inclusive como símbolos para o nascimento ao anticristo –, e parece natural que Kepler os tenha envolvido na história da publicação do Mysterium Cosmographicum, o livro no qual expunha sua descoberta. Depois, ele viria a ser celebrizado como um dos primeiros cientistas a reforçar o modelo copernicano, e por ter exposto o movimento elíptico das órbitas planetárias, quando ainda se acreditava que eram circulares. Mas, como disse, a perfeita simetria que ele havia identificado na configuração do sistema solar era o resultado de uma visão provisória e fragmentada do universo, que depois seria redefinida pelo avanço das técnicas de prospecção espacial.

Em resumo: as coisas são sempre mais complicadas que a gente imagina. A astrologia, a meu ver está aí para referendar essa afirmativa, e não o contrário. Lembro-me então de uma entrevista com o diretor teatral Peter Brook em que ele dizia que “Deus é o desconcerto das consciências humanas”. A astrologia pode não trabalhar com a ideia de um único Deus, mas certamente aciona símbolos e ideias que se assemelham a deuses e deusas, sendo que no caso dos planetas transpessoais estamos sem dúvida diante de potências desconcertantes, poderosas e enigmáticas, que foram capazes de desmontar logo de saída um dos mais engenhosos e harmônicos sistemas astronômicos de que se tem notícia.

Mas acredito também que temos não apenas a necessidade, como também uma oportunidade valiosa de de contar com companhia de figuras tão ilustres em nossa jornada, durante o período que vai dos trinta e tantos até os quarenta e poucos. Sim, eu sei, na hora que o bicho pega dá vontade de mandar tais figuras ilustres para os infernos de onde vieram. Acontece que, se você sente que quer voltar no tempo, é exatamente porque o tempo passou, e você já percebeu que a realidade não se encaixa em seus esquemas. Então o melhor que você tem a fazer é mesmo aceitar e receber bem essas divindades, abrindo espaço na casa para que elas se acomodem, por maior que seja o transtorno que a princípio possam causar.

Agora, uma última observação. Nada disso refuta a paz e tranquilidade que podemos sentir, por exemplo, ao ouvir uma interpretação de Clair de Lune de Debussy sendo dedilhada no piano ao longe, ou percebendo bem dentro de nós uma fonte da mais serena convicção de que as coisas no final das contas são simples, muito simples, por mais que a gente insista em complicá-las. É uma percepção que pode surgir a qualquer momento da vida, independente da idade, e creio que ela será igualmente correta em todas as suas manifestações, em todos os lugares e pessoas. Talvez o próprio Kepler tenha sentido algo semelhante, por exemplo enquanto tentava compreender a distância entre o Sol e a Terra, e percebendo de repente que não havia distância alguma, porque a luz que ele usava para suas medições era a presença imediata do próprio Sol.

Enfim, por mais complexas que sejam as coisas, desde cedo a gente não apenas entende como também sente que é tudo uma coisa só. O que a gente aprende com o tempo é que esses momentos especiais são momentos, e que exatamente por isso são tão preciosos. Eles emergem entre uma época de complicações e outra, sem nunca criar as bases para um permanente estado de beatitude, que tampouco será alcançado com a maturidade ou o envelhecimento, mas com a forte implicação de que por trás de tudo existe uma canção sendo tocada pelas cordas do cosmos, simples o bastante para resumir tudo em poucas e pausadas notas. Que venham, portanto, os planetas e seus trânsitos e avacalhações dos esquemas que montamos para dar conta da existência: serão bem-vindos nesse sentido. Mas saibamos também que às vezes tudo se resume mesmo à luz da lua e a Debussy, a uma frase serena ou a uma sensação de pertencimento ao mundo e aos cosmos, porque às vezes isso é tudo o que precisamos saber.

touro

Sem esperança nem desespero

O cambista (1627) | Rembrandt

Existem diferentes caminhos para falar do zodíaco a partir da obra de William Shakespeare. A gente pode até brincar de separar as peças dele por signo, tamanha é a riqueza de suas tramas e a diversidade de seus personagens. Sonho de uma Noite de Verão, por exemplo, é uma peça pisciana; Hamlet tem alguma coisa de Sagitário, o Próspero de A Tempestade lembra Capricórnio, algumas comédias são bem librianas, e outras participam do arquétipo de Gêmeos. É claro que cada texto deve ter lá seu mapa com todas as nuances possíveis, e eu diria que Rei Lear, por exemplo, deve ter o Sol em Leão na casa 12, em quadratura com um Marte em Escorpião na 09 e talvez Vênus e Urano conjuntos sobre o Ascendente. Mas quando vamos falar do próprio autor não há como fugir do fato histórico fundamental com que nos deparamos em uma simples conferência na Wikipedia. Shakespeare era de Touro.

Tenho que confessar que isso é para mim motivo de um leve desconcerto. Shakespeare foi um autor que conseguiu transitar por diferentes modos narrativos, parecia mudar de ideia toda hora em suas visões de mundo e da humanidade, e tampouco nos legou um conjunto consistente de proposições a respeito do que quer que seja. Touro, por sua vez, não é conhecido por sua flexibilidade, costuma manter-se firme em um ponto de vista, e tem na constância uma de suas grandes virtudes. Um autor taurino que não surpreende por ser taurino, por exemplo, é o israelense Amós Oz. Afinal, por mais inteligente e talentoso que seja, Oz parece ter escrito basicamente o mesmo romance de umas dez maneiras diferentes. O pragmatismo pacifista e o bom senso com que ele sustenta suas posições políticas só reforçam esse ponto.

Já no caso do dramaturgo inglês, estamos diante de um aparente paradoxo. Sua obra artística é o contrário da insistência em um conjunto reduzido de temas e tipos, e não me lembro de qualquer característica evidente que remeta àquela predisposição ao monótono. Uma solução para o impasse é simplesmente dizer que a astrologia não tem fundamento algum, que esse negócio de signo não existe, por isso a discrepância; outra resposta é afirmar que a astrologia vai muito além do signo solar. Como não estou contente com nenhuma das duas, cabe-me defender a causa da taurinice shakespeariana.

De modo que vocês podem ficar tranquilos: não vou apelar para casas ou quadraturas ou asteroides para explicar a obra de Shakespeare por critérios astrológicos. Talvez fizesse isso em outro contexto, mas neste proponho-me a tarefa mais difícil de reduzi-la à expressão do um único arquétipo, ao invés de recorrer a um conjunto maior de planetas e pontos de seu mapa. A propósito, existe um asteroide chamado Shakespeare, o número 2985 segundo a Nasa, de modo que todo mundo tem Shakespeare no mapa. Em último caso, poderíamos até falar de Shakespeare a partir do Shakespeare de Shakespeare (em Aquário). No entanto, o procedimento nos enredaria num buraco de minhoca astrológico do qual não sairíamos sem graves sequelas para a tessitura do espaço-tempo.

Ficamos com a questão do signo solar, portanto. O primeiro problema que se apresenta é de como um taurino pôde escrever peças tão diferentes entre si e ter sido tão igualmente sensacional na comédia e na tragédia. A resposta mais imediata seria: para ganhar dinheiro. Este diagnóstico crítico seria consequência de uma abominável caricatura de Touro, mas eu não o descartaria de imediato. Shakespeare, de fato, ganhou muito dinheiro com as peças que escreveu. O historiador Stephen Greenblatt calcula que no fim da vida ele possuía investimentos suficientes para se aposentar na condição de cavalheiro, e inclusive identifica em diferentes momentos da obra shakespeariana os ecos de um “sonho de reabilitação”, financeira e social, que remeteriam sempre o episódio da falência de seu pai, um comerciante de luvas e objetos de couro cuja derrocada deixou a família no vermelho por logos anos.

Greenblatt argumenta que as necessidades materiais foram um forte estímulo para que Shakespeare estudasse o mercado teatral para obter êxitos de público com suas peças. Nesse sentido, e curiosamente, ele seria séculos depois ecoado por Anton Tchekhov, um autor russo que ganhou dinheiro com seus contos e sustentou a família com suas peças, tendo praticado a medicina por hobby durante boa parte da vida. Mas Tchekhov era aquariano, e não serve como referência comparativa nas demais questões que levantamos.  Quem também era taurino e ganhou uma grana com literatura foi o francês Honoré de Balzac – que, aliás, escreveu um dos parágrafos mais sensacionais sobre comida da história da literatura mundial.

Estou me referindo à descrição do restaurante Flicoteaux, no início da segunda parte de As Ilusões Perdidas, um romance inigualável quando se trata da representação dos perrengues amorosos, financeiros e culinários de um jovem interiorano em Paris. Seu protagonista, Lucien de Rubempré, está sempre endividado, enrolado e atarantado com as exigências materiais impostas à vida de um cavalheiro nos círculos elegantes onde transita. Às vezes, está faminto também, e por isso vai sorrateiramente ao Flicoteaux. Lá, tal como anunciado no boca-a-boca dos estudantes, os cartazes prometem e os garçons entregam refeições bem servidas, sem comedimento no tamanho dos potes de molhos e das cestas de pães, ainda que com zelo comedido no que se refere à qualidade dos ingredientes (ao contrário do que acontece em tantos bistrôs de Paris), fazendo de simples e pura quantidade o grande atrativo do lendário muquifo balzaquiano.

Mas Balzac não ficou só na representação dos insucessos deste ou daquele rapaz ambicioso. Estamos, mais uma vez, diante de um escritor taurino cujo espectro de representações da experiência humana atinge extremos bem distanciados, tanto em suas diferentes obras como também em questão de alguns minutos ou poucas páginas de um mesmo livro, nos quais vamos com frequência do sucesso à derrocada e da derrocada para a humilhação e da humilhação para a sorte grande, numa espécie de montanha russa que não parece ter nenhuma regularidade. Cabe observar, por outro lado, que, quando Balzac optou por dar um nome ao conjunto da grande maioria de seus escritos, esse nome foi A Comédia Humana. Portanto, creio eu, é no cômico que devemos buscar o pano de fundo sobre o qual se dão as intensas variações de humor, enredo e fortuna dos personagens de Balzac; ele é o que parece permanecer, apesar de todas as mudanças verificadas.

Vou argumentar que com Shakespeare acontece algo semelhante. Mas antes é preciso enfatizar que a comédia (e o modo cômico de ver o mundo) não tem necessariamente como ponto de partida uma inclinação para o riso e para a hilaridade. Ela pode surgir também de um bom e sólido commom sense, ou seja, uma segurança íntima e inalienável quanto à ação mais sensata em uma determinada situação, tão forte que parece decorrer não apenas de um conhecimento de códigos sociais, mas de um contato silencioso com própria natureza e seus ritmos permanentes. Isso quem tem é Touro, e sobre esse lado mais misterioso do arquétipo já escrevi com mais delongas em outra postagem (essa aqui). O ponto agora é que, embora a comédia seja assunto do âmbito do eixo Gêmeos-Sagitário, é em Touro que ela encontra sua base. É a partir dali que se expande em direção ao infinito.

Dante Alighieri, por exemplo, era geminiano. A gente supõe que ele escreveu a Divina Comédia com base no fato de que existe algo de engraçado no fato das pessoas serem condenadas a todo tipo de sofrimento no Inferno, e para Gêmeos isso pode mesmo fazer sentido. Porém, segundo o crítico Erich Auerbach, Dante não apenas foi responsável pela primeira grande obra em língua vulgar na tradição literária europeia, como também teve sua sensibilidade moldada pela cultura popular da época imediatamente anterior, quando os chamados mistérios medievais davam corpo às histórias bíblicas, trazendo-as para o cotidiano mais simples de camponeses e artesãos. Em uma análise na mesma linha, Auerbach afirma que Dante seria inimaginável sem a existência prévia de um São Francisco de Assis, líder do mais conhecido movimento de back to basics da doutrina cristã, cujo signo não sei, mas que, em suas relações imediatas com o mundo natural e o planeta Terra, foi sem dúvida alguma o mais taurino de todos os santos.

O que quero pontuar aqui é que aquele bom e velho senso comum presume certa simplicidade para servir como fundamento de uma visão cômico-cósmica da existência. Indispensável para conseguirmos ver o mundo como uma nau de loucos, ele não é exatamente o decoro das classes médias letradas e seus manuais de etiqueta, mas a convicção do trabalhador de que a vida não precisa ser mais do que um emprego honesto e um bom prato de comida, ou a certeza do camponês de que há o tempo da colheita e o tempo da semeadura. A partir daí, todo o resto é motivo de riso. A obra de Shakespeare está repleta de passagens nesse sentido, passagens tipicamente tauríneas, como no famoso diálogo entre os dois coveiros que preparam tumba de Ofélia. Fico com a impressão de que, se for para encontrar uma unidade na imensa variedade de suas peças, esse seria um bom caminho.

Stephen Greenblatt parece concordar comigo. Ele termina seu Will in the World (intitulado no Brasil Como Shakespeare se tornou Shakespeare, pela Cia. das Letras) com um capítulo chamado “O triunfo do cotidiano”, onde afirma que “Shakespare foi fascinado por ambientações exóticas, culturas arcaicas e personagens transcendentes, porém sua imaginação estava intimamente ligada ao familiar e ao íntimo. Ou melhor, ele adorava revelar a presença do comum em meio ao extraordinário (…) A imaginação de Shakespeare nunca adentrou os salões da metafísica, fechando as portas ao corriqueiro”. Ou seja, mesmo em seus voos mais altos ele nunca abandonou uma postura pé-no-chão, capaz de perceber o risível em quem anda com a cabeça nas nuvens, e trazer de volta à Terra aquele que se acreditaram ultrapassar os limites deste mundo.

Ao mesmo tempo, Greenblatt dá a entender durante todo o livro (ele mesmo feito de nuances e variações ensaísticas) que seu objeto de estudos nunca deixou de ser o filho do luveiro falido, que buscou no teatro não somente um de veículo para seus talentos artísticos, mas também um meio de vida, que tornasse possível fazê-lo recuperar a estabilidade perdida na juventude. É aqui que o arquétipo e o estereótipo de Touro se encontram. Pois acredito que, por um lado, a dedicação ao trabalho e a produtividade de Shakespeare no ofício da dramaturgia implicam aquela intimidade com os ritmos da natureza, e que suas incontáveis variações de estilo e de tema só foram possíveis por causa de uma cadência criativa permanente, cujas oscilações e preguiças ele sabia respeitar como só os taurinos sabem. Por outro lado, esse é justamente o ritmo de trabalho que o mantém a salvo das intensas flutuações da fortuna, uma necessidade para quem precisa entregar o trabalho no prazo e garantir o ganha-pão.

Lembro então de uma frase da escritora dinamarquesa Karen Blixen (que era de Áries, mas tinha a Lua e Mercúrio em Touro), quando ela disse que tentava “escrever um pouco todo dia, sem esperança e sem desespero”. Creio que essa é uma fórmula bastante correta e previsível para distinguir o tipo de passo que se espera de escritores taurinos, pelas razões expostas; curiosamente, ela me parece apropriada para descrever também autores de grandes obras cômicas. Nesse caso, estou tratando a comédia como algo capaz de englobar o trágico, um pouco como Joseph Campbell, em O Herói das Mil Faces, onde se lê que “a tragédia é o estilhaçar das formas e de nosso apego às formas, enquanto a comédia, livre e despreocupada, trata da indestrutível alegria da vida invencível”. Uma alegria e uma vida, portanto, que estão por trás das formas individuais que a tragédia vê sendo destruídas, e que as sustentam de maneira incansável e consistente. Como a linha do baixo se oculta sob as variações do grave numa canção, sem nunca deixar de estar lá.

Já o comentarista Northrop Frye lembra que as comédias de Shakespeare nunca perdem totalmente o vínculo com os festivais aos quais o termo komos faz referência. Ele se refere a ritos com que a restituição da fertilidade é aguardada e favorecida no início da primavera, o que torna os casamentos e finais felizes das narrativas cômicas um símbolo do florescimento anual que a natureza nunca deixa de garantir, desde que seu tempo seja respeitado. O “triunfo do tempo”, aliás, é o título do capítulo a esse respeito em A Natural Perspective: the development of shakespearean comedy and romance, que Frye publicou em 1965. Ele mostra que, implicado no prazer com os momentos de felicidade e abundância onde terminam as comédias, está a tristeza com os momentos de luto e de escassez em que elas se iniciam. O tempo sempre triunfa em reverter uma coisa em seu contrário, de tal maneira que sob essas mudanças se instala algo de invariável, que é ele próprio, o tempo.

“Neither hope, nor despair”: essa foi também, vale acrescentar, a fórmula que a filósofa feminista Donna Haraway encontrou para propor uma atitude frente ao pesadelo de uma tragédia climática em um de seus últimos trabalhos. O feminismo e o taurinismo têm vínculos que se explicam pelo próprio arquétipo, e Haraway pode até não ser taurina, mas o título de seu livro é. Staying with the Trouble dá uma boa ideia de como um realismo pragmático pode se articular com uma agenda ecológica pé-no-chão, que busca eficácia mesmo diante de um cenário apocalíptico, até porque o medo do apocalipse é uma questão de ponto de vista. “Nem a esperança nem o desespero” – ela afirma – “estão sintonizados com os sentidos, com a matéria consciente, com os rebentos da terra em sua massiva coexistência”. Ou seja: o cosmos e a Terra não padecem de preocupação nem de entusiasmo com o destino da humanidade, não porque sejamos desimportantes, mas porque tais sentimentos não estão entre seus hábitos. E os hábitos do cosmos e da Terra são os hábitos do tempo, que por sua vez são os hábitos de Touro, se quisermos encontrá-los em sua manifestação entre os humanos.

Nesse sentido, enfim, a própria fertilidade criativa de Shakespeare ao longo dos anos seria taurina em sua constância, fazendo do ritmo de trabalho que ele conseguiu manter a base sobre a qual surgiriam suas criações e improvisações mercuriais. Não que ele estivesse preocupado com a salvação do planeta, dadas suas aflições mais imediatas com o orçamento doméstico; mas, ao conceder sua atenção ao que é mais simples e concreto, Touro sem querer acaba se salvando de uma série de complicações desnecessárias, pelo menos do ponto de vista das necessidades do corpo, que precisa sempre cuidar antes daquilo que está ao alcance da mão. Shakespeare, de fato, nunca adentrou os portões da metafísica, mas ficou na entrada cobrando o ingresso de quem queria entrar. E, ao cuidar de seus negócios com eficácia, ele deu um bom exemplo de como devemos nos portar diante da catástrofe: sem esperança, sem desespero, e sem nunca esquecer de separar uns trocados para nos dias difíceis ir jantar no Flicoteaux.

escorpião, libra

O declínio do Império Escórpio-Líbrio

O jardim das delícias terrenas (detalhe, c. 1510) | Hieronymus Bosch

Os estudos acadêmicos na área de humanidades geralmente envolvem uma abordagem comparativa de seus objetos, acionando um jogo de semelhanças e diferenças em que esses vetores se alternam ou mesmo se confundem em algum momento da brincadeira. A literatura comparada, por exemplo, pode primeiro apontar distinções entre duas obras, para em seguida expor-lhes uma unidade de fundo; ou, então, notar pequenos desvios à norma ou à tradição em um corpus de textos similares, nos quais são notáveis as parecenças. De um modo geral, onde as familiaridades são evidentes, o crítico tende a buscar pontos de colisão; e, onde dois discursos mal dialogam, trata-se de buscar pontos de contato. Algo semelhante pode ser dito da signologia comparada, um ramo dos estudos astrológicos que eventualmente exerço aqui neste espaço, e ao qual será parcialmente dedicado também o presente texto, em uma perspectiva interdisciplinar, tal como exposto a seguir.

Estamos agora naquela época do ano em que o Sol deixa o signo de Libra e ingressa no signo de Escorpião. Este tipo de trânsito costuma servir para a explicação de diferenças entre os dois arquétipos do zodíaco, na medida em que é presumida uma mudança de energias através das quais as forças solares se manifestam. Tudo muito certo até aí, e de fato essa transição deve ser tão perceptível como, digamos, a mudança entre a época de Áries e a época de Touro. Mas, com base em descobertas recentes da arqueologia dos conhecimentos astrológicos, gostaria de propor agora um exercício a vocês. Vamos supor que não existissem Libra e Escorpião, não como signos isolados. Vamos supor que formassem um só arquétipo, depois dividido por conta de um movimento de separatista ainda a ser investigado pelos historiadores sígnicos, aos quais cabe a pesquisa de importantes aspectos políticos das relações interzodiacais.

Pois bem: é exatamente isso que aconteceu durante parte da antiguidade greco-romana, quando, entre finais de setembro e meados de novembro, durante um intervalo particularmente longo, entendia-se que o Sol percorria apena um signo. Este signo era Escorpião. Libra só veio a existir depois, ou, como já observei em outro texto: Libra até então nem era signo, e nem existiam librianos na época, exceto por alguns indivíduos muito à frente de seu tempo. Por outro lado, isso me faz supor que “Escorpião” tal como o entendemos hoje tampouco podia ser distinguido, pois suas características se confundiam com as do arquétipo com o qual constituía um só corpo na trama celeste, formando talvez uma espécie de escaravelho elegante e indeciso, ou uma balança vingativa com pinças cortantes no lugar dos pratos.

Mas essas soluções híbridas padecem de anacronismo. Estamos concebendo com recursos modernos aquilo que na antiguidade provavelmente era bem diferente. Para preservar o rigor acadêmico, deveríamos tentar imaginar o Librião (ou a Escobra) como uma verdadeira unidade, e não a mera adição de duas partes. Isso pode nos ajudar a compreender o movimento que culminou no divisionismo. Pois uma coisa é certa: diante dessa criatura, estaríamos lidando com uma espécie de força infalível nas artes do amor, cujos talentos para a sedução teriam um componente arcaico e instintivo que impediria o surgimento de qualquer tipo de dúvida em seu espírito de conquista. Pensem bem. Na época em que este monstro sagrado dos jogos amorosos desfilou sobre a Terra, você não tinha nenhuma chance se topasse com um deles em seu caminho. Ia direto para a alcova, atraído por algo que não dava para entender bem o quê.

Ficam poucas dúvidas quanto a saber quem é que realmente dominou o mundo naquele período histórico. Com intensidade diplomática e uso de inteligência nas guerras emocionais, creio que foi possível a criação de todo um império, embora ele tenha sido apagado dos mapas em razão dos movimentos subsequentes. Pois algo me diz que foi exatamente esse caráter de superpotência afetivo-sexual que resultou na bifurcação de Escorpião e Libra em dois países separados: imagino que o inconsciente coletivo tenha se dado conta de que o amor e o poder precisavam de representações arquetípicas distintas, do contrário corríamos o risco de passar o restante do tempo inebriados pela beleza e pelo mistério que coexistiam no espectro da junção entre ambos. Isso deve ter assumido a forma de uma decisão tomada nas mais recônditas catacumbas zodiacais, talvez sem a participação do próprio objeto da questão. Imagino os outros dez signos se reunindo escondidos e abrindo o jogo: isso tem que acabar. Ninguém aguenta mais tantas delícias. Alguém tem que por um fim nesses gozosos suplícios. Do jeito que está, não dá.

As más línguas vão dizer que quem convocou a cúpula com esse tipo de conversa foi Capricórnio (porque àquela altura ninguém trabalhava mais, estava todo mundo largando tudo para ir atrás dos lendários jardins onde reinava o mais refinado e intenso prazer, e até mesmo o senado deveria ser o cenário de agradáveis orgias). Muito justo, e eu como capricorniano tenho que reconhecer essa possibilidade. Porém, convenhamos: independente de quem deu início ao processo, uma ruptura de tal escala jamais teria acontecido sem a participação de inconfidentes de diversas naturezas, capazes de articular toda uma série de movimentos conspiratórios que culminariam na cisão do império Escórpio-Líbrio. Dividir para conquistar, suponho que tenha sido o lema da insurreição. Ou dividir para não ser conquistado, para sempre.

A propósito (vou me permitir aqui um parêntese interdisciplinar de fôlego): quando digo “convenhamos”, não estou apenas forçando uma cumplicidade com o leitor por meio de um truque retórico. O zodíaco tal como o conhecemos é uma convenção, do latim conventio, que significa assembleia, reunião, e acordo, contrato. Isso, por um lado, reforça a ideia de que o fenômeno estudado ganhou corpo em uma espécie de Convenção de Viena astrológica; por outro lado, faz lembrar que divisão da faixa do elíptico solar em doze espaços de igual tamanho é de fato uma convenção, no sentido de ter sido uma resultante de definições e disputas de agentes históricos, e não uma conjunto de leis recebidas dos céus e registradas em tábuas sagradas.

Isso faz com que sua disposição esteja sujeita a diferenças não somente no tempo, como também no espaço: na Índia, por exemplo, utiliza-se hoje o zodíaco sideral, bem mais engastado nas posições das constelações a que os nomes dos signos fazem referência. Já o zodíaco que utilizamos no ocidente desde antiguidade greco-romana é o tropical, vinculado às constelações de modo mais indireto e simbólico, e que nem tenta enganar na hora de parecer que é uma evidência do universo. O acordo tácito que resultou nos símbolos e casas zodiacais que usamos hoje teve seu momento decisivo justamente no século I a.c., em parte por obra e sugestão de Ptolomeu, em parte consolidando tradições advindas da Mesopotâmia e da Pérsia.

Quanto à explicação de como as pessoas acabam ainda hoje se comportando de acordo com as características do signo sob o qual nasceram nesse esquema arbitrário definido dois mil anos atrás, isso deixo para vocês que acreditam nesse negócio de signo. Porque eu mesmo não “acredito”, para ser sincero. Estou tão envolvido no jogo, ele faz tanto sentido para mim, que não se trata de uma questão de crença, mas de experiência. Aceito minha posição capricorniana no plano zodiacal um pouco como aceito minha nacionalidade brasileira no plano internacional, até certo ponto por ter sido condicionado pela cultura e pela política, mas também por ter confirmações diárias de que atuo no mundo como brasileiro e capricorniano em diferentes esferas da existência. Por mais que em ambos os casos estejamos falando de construções convencionais, realizadas no transcurso da história humana, que de maneira alguma estão inscritas na natureza.

É verdade, entretanto, que os limites territoriais entre as nações podem ser razoavelmente explicados por movimentos históricos onde eles começam e terminam. No caso dos signos, a coisa parece ir um pouco além, e vir de um momento anterior ou de uma dimensão paralela àquilo que concebemos como a História da humanidade, em um plano temporal linear. Em resumo, e como eu vinha dizendo um tanto metaforicamente, podemos sim imaginar algo na natureza humana – ou na natureza do cosmos, manifestando-se por meio de humanos – que optou por fazer as distinções astrológicas. Podemos sim supor uma razão segundo a qual Escorpião e Libra deveriam existir separadamente. Porém, a melhor metáfora para isso talvez não seja a da nacionalidade.

Pois, além de serem resultado de um processo histórico, as nações, tal como existem hoje, representam uma espécie de destino inescapável para o indivíduo que brota em seu território. Ou, como afirmou o escritor Jorge Luis Borges a respeito de si próprio e de seus compatriotas: “Ser argentino é uma fatalidade”. Quer dizer que, se você nasce em tal e tal lugar, e em tal e tal momento, você logo terá imputada à sua identidade (quer queira quer não) um determinada rotulagem que te acompanhará em todos documentos que assinar no decorrer da vida. A relação do sujeito com sua nacionalidade pode nem ir muito além disso, mas dificilmente fica aquém: você precisa ter uma, e aquela que ficou definida por motivo do território onde ocorreu seu nascimento acaba sendo uma solução razoável, na maioria dos casos.

Por outro lado, nunca vi Borges falando que ser virginiano era um destino incontornável, com o qual ele teria que lidar de um jeito ou de outro. Isso por dois motivos. O primeiro, mais evidente, é que o fato de você ser de Gêmeos ou de Leão ou de Peixes muda pouca coisa nos trâmites práticos da vida; normalmente, não te impedem de entrar nos Estados Unidos simplesmente porque o país cortou as relações diplomáticas com Sagitário. Assumir um signo e incorporá-lo à sua identidade pessoal é uma escolha, por mais que você não possa escolher qual signo, assim como não pode escolher ser italiano. A diferença está no fato de que uma nacionalidade, no mundo de hoje, você tem que ter. Signo é só para quem quer mesmo, o que já uma boa margem de manobra, em termos de liberdade individual.

O segundo motivo, mais importante, é que Borges não era apenas virginiano. Ele tinha o Sol em Virgem, é verdade, mas tinha também a Lua em Áries, Marte em Libra e o Ascendente em Câncer, entre vários outros componentes, tão inescapáveis quanto ignoráveis em comparação com seu signo solar. Todos somos assim, do ponto de vista da astrologia: uma combinação única e irrepetível de um conjunto de forças diferentes e dissonantes, que, ao serem mobilizadas por variados canais de manifestações em nós mesmos, acionam processo ininterrupto de conflito e harmonização, cooperação e disputa – pois sempre que um equilíbrio é alcançado de um lado da balança de poder, outro surge e exige nossa atenção em uma área diferente da vida.

A astrologia, portanto, decorre de uma cosmovisão democrática e politeísta de mundo, em que nosso corpo e nosso espírito se tornam o palco dos encontros e colisões entre os deuses, conhecidos também por meio da analogia com os corpos celestes e seus movimentos. Por mais que a gente tente tomar o controle desse jogo, ninguém – nem mesmo nosso Sol, nosso ego – está em condições de assumir poderes imperiais sobre o restante das peças do tabuleiro.  Daí chegamos a uma conclusão muito semelhante à de Carl Jung em seu Símbolos da Transformação, quando fala da coexistência de diversos arquétipos em uma só experiência individual: “O acordo com a libido é hipótese alguma é um simples deixar-se levar, pois as forças psíquicas muitas vezes não têm uma direção única e muitas vezes até se dirigem umas contra as outras (…) Colisões, conflitos e enganos são inevitáveis”.

Ou seja: é como se o mapa astral de cada um de nós representasse uma espécie de mapa-múndi individual, no qual as nações não são externas ao indivíduo e maiores do que ele, mas sim agentes internos em confronto e diálogo, que ao mesmo tempo encontram equivalência naquilo que conhecemos de mais afastado de nós (as estrelas). Por isso não temos um único signo (ou mesmo de dois, considerando o ascendente), como temos só uma ou duas nacionalidades. Somos uma determinada composição de todos os agentes dessa geopolítica fantástica, com suas negociações multilaterais, órgãos multinacionais, localismos exacerbados e expatriados em trânsito, sem que identificação com um só desses fatores seja possível. Mas somos também uma possibilidade única de coordenação e acordo entre eles, pois, como afirmou o próprio Borges naquele mesmo texto que mencionei antes, “nosso patrimônio é o universo”.

Voltando então ao problema de onde partimos, fica evidente que, se durante um período da história surgiu a ameaça de que um signo adquirisse supremacia sobre os outros, ela precisou ser evitada por um movimento de dissipação de seu poderio imperial. Esse é um modo de entender os acontecimentos. Outro é supor uma capacidade do próprio espírito do cosmos de localizar e corrigir as carências que identifica em sua manifestação humana. Ou seja: se houve um momento específico em que a alma decidiu que precisava de Libra para representar um faixa importante do prisma de sua experiência, é porque realmente estava faltando um símbolo para dar conta dessa parte de sua cartografia interna, que calha de ser também a cartografia dos céus.

Não restam dúvidas, hoje, que, se Libra não existia antigamente, devia fazer uma falta danada. No final das contas, Libra é sobre equilíbrio – mas é também sobre a oposição, sobre a percepção da oposição, a compreensão da oposição, isto é, das dualidades que atravessam o espírito e criam separações onde a unidade é só aparência. O genuíno amor libriano é uma tentativa de aproximação entre o que é diferente e distante, não um espelho narcísico onde só importa o encontro com o igual – mas para isso é preciso um olhar agudo para a dessemelhança. No jogo comparativo que a astrologia propõe, o eixo libriano é o do afastamento, que confere uma nova perspectiva ao olhar, e cria chances de negociação onde a pressuposição de uma unidade levaria à catástrofe. Na falta desse afastamento (e dos questionamentos que ele proporciona), supõe-se que facilmente rumávamos em direção ao abismo sem grandes hesitações.

Assim, se Libra surgiu de uma costela de Escorpião, pode muito bem ter sido porque um mergulho nas profundezas da psique revelou verdades que tornaram necessário esse tipo de distância. O jardim de delícias que imaginei ao supor a fusão dos dois signos pode ter se tornado um inferno, e só Deus sabe como deter todo o poder do mundo nas mãos é no mínimo um transtorno, talvez uma tortura. É verdade também que o “inferno” da lenda tem lá suas qualidades quentes e úmidas, e que sem conhecermos o caminho para esse lugar nossa experiência estaria igualmente destituída de uma faceta radicalmente transformadora. Onde Libra trata do discernimento intelectual, Escorpião sugere uma fusão corporal, gerando uma tal concentração de energias que deve mesmo resultar em uma espécie de orgasmo, que é sempre um pequeno apocalipse.

Enfim, parece que até mesmo o fim do mundo é uma experiência possível nos mundos que carregamos dentro de nós. Por isso é possível desdobrar esses raciocínios comparativos em direção ao infinito. Tanto melhor que seja assim, e que tenhamos todos esses signos e arquétipos para enriquecer a vida com símbolos e histórias e narrativas, assim como a comparação interna entre eles enriquece nossa compreensão de cada um. De semelhanças e diferenças se fazem todas as abordagens comparativas: e precisamos de Libra e de Escorpião para conhecer as separações e fusões possíveis que existem dentro de nós. Por isso nos livramos de seu domínio, embora tenha ficado uma doce lembrança de quando éramos subjugados por seus deliciosos prazeres.

Todos os signos

Filmes e signos

Amor à Flor da Pele (2000) | Dir. Wong Kar-Wai

Deve ser saudade de ir ao cinema e sentir que o tempo que passei lá dentro mudou ou enriqueceu minha percepção do mundo lá fora: daí que decidi fazer uma lista afetiva de filmes e signos. As associações se baseiam mais na lembrança do impacto que os filmes tiveram em mim do que em uma avaliação crítica deles, embora uma coisa esteja vinculada à outra, naturalmente. Entraram basicamente títulos dos anos 1990 em diante, porque foram os que tive a oportunidade de assistir pela primeira vez no cinema. Acho que não incluí quase nenhum filme recente porque sou capricorniano, e as coisas para mim precisam resistir ao teste do tempo para consolidar seu valor. São três filmes em cada categoria. Ficou assim:

ÁRIES

Começando com Um Céu de Estrelas (dir. Tata Amaral, Brasil, 1996). Uma pancada. Rápido, forte, áspero. Lembro de ter passado o resto do dia – e da vida – meio atordoado com esse filme.

Algo semelhante aconteceu com o húngaro 4 meses, 3 semanas e 2 dias (dir. Cristian Mungiu, 2007), que se relaciona também com o arquétipo de Áries através do tema das intervenções cirúrgicas e das decisões que precisam ser tomadas rapidamente.

Mais um filme que para mim foi pura adrenalina e coração batendo a mil o tempo inteiro – embora eu tenha esquecido de todos os detalhes da história poucos minutos depois de sair do cinema, o que também pode ser uma qualidade – foi Os Infiltrados, de Martin Scorsese (2006). Já na sequência de abertura dá para perceber o que vem pela frente. Nada mais ariano do que começos fortes e impactantes.

TOURO

Começando com Amor à Flor da Pele (Wong Kar-Wai, 2000). Uma lambida. Lânguido, lento, sensual. Com as texturas macias de cortinados orientais, os odores de chás fumegantes e pratos de macarrão compartilhados, as cores quentes de uma paixão tão intensa quanto resignada. Touro, assim como esse filme, é sobre o apego às coisas desse mundo, e, portanto, sobre a perda das coisas desse mundo também.

Outro que me pareceu falar disso – mas por via negativa, por assim dizer: de um modo árido, feito de poeira e escassez – é Gosto de Cereja (1997), do iraniano Abbas Kiarostami. No caso, tem ainda o fato de que, quando diferentes personagens tentam dissuadir o protagonista de tomar uma decisão extrema, o argumento mais importante que eles encontram tem a ver com comida.

Por falar em escassez, é igualmente taurina aquela compaixão que a gente sente diante da luta diária por um prato de comida retratada nos filmes do Ken Loach e dos irmãos Dardenne, por exemplo. Mas o filme que na saída do cinema me deixou tocado pela primeira vez com esse tema foi o francês Germinal (dir. Claude Berri, 1993).

GÊMEOS

Pulp Fiction (Quentin Tarantino, EUA, 1994), pela engenhosidade do roteiro, pela irônica ambivalência entre a pancadaria e a leveza, e por alguns dos diálogos mais deliciosamente geminianos da história do cinema (“Le Big Mac”).

A aguda inteligência e a despretensiosa malandragem de Gêmeos faz parte também do prazer de assistir o argentino Nove Rainhas (dir. Fabián Bielinsky, 2000), onde a astúcia mercurial e trambiqueira do personagem de Ricardo Darín recebe a recompensa que a astúcia de Mercúrio vive recebendo nas lendas gregas.

Tem também O Grande Lebowski (dir. Ethan e Joel Cohen, 1998). O lendário “the dude” talvez seja sagitariano, quanto ao signo dele eu tenho dúvidas, mas a sensação que tive ao sair do filme foi uma irrestrita hilaridade diante do amplo espectro de patetices que existe no âmbito do humano. Uma sensação geminiana.

E, como Gêmeos não é muito de seguir as regras do jogo, vou abrir uma exceção aqui para outro filme, porque não dá para falar de malandragem, esperteza e irreverência sem lembrar de O Auto da Compadecida (dir. Guel Arraes, 2000). Se João Grilo não é geminiano, eu não sei quem é.

CÂNCER

É canceriano o poderoso matriarcado do cineasta espanhol Pedro Almodóvar, assim como a sensação de uma inquebrantável delicadeza – ou de uma fortaleza estilhaçada pelos mais fortes petardos emocionais – que fica de filmes como Tudo Sobre a Minha Mãe (1999).

Outro especialista em tratar de assuntos familiares, no caso com uma objetividade ao mesmo tempo desencantada e encantadora capaz de deixar qualquer um em prantos, é o inglês Mike Leigh. Dele fico com Agora ou Nunca (2002).

Mas, como também a memória e o passado são temas do arquétipo de Câncer, me lembrei aqui de uma das primeiras vezes que fui ao cinema para ver um filme de adulto, em 1988. O filme era Cinema Paradiso (dir. Giuseppe Tornatore), que assisti no extinto Cine Pathé de Belo Horizonte (isso em si já tematiza a dimensão canceriana da vida), e foi também a primeira vez que saí de uma sala de cinema chorando. Aliás, só de falar nesse filme percebo que tem alguma coisa em mim chorando por causa dele até hoje.

LEÃO

Acho que fui rever umas três ou quatro vezes no cinema o Buena Vista Social Club (dir. Wim Wenders, 1999). Quem diria que o diretor de outros filmes tão cinzentos e melancólicos ia ser citado na luminosa sessão leonina dessa postagem. Méritos para seu amigo Ry Cooder, e, claro, para os mais que solares músicos cubanos que são os protagonistas do documentário musical.

Quase Famosos (dir. Cameron Crowe, 2000) entrou na lista para fazer justiça à vontade de deixar-o-cabelo-crescer-montar-uma-banda-de-rock-e-sair-em-turnê-pelo-mundo que dá na gente mesmo quando a gente assiste um filme sobre um fracasso. Afinal, eles chegaram quase lá, e quem nunca teve o desejo leonino de sentir pelo menos o gostinho que eles sentiram do aplauso das multidões?

Outro filme sobre o universo das artes e espetáculos que me emocionou muito foi o francês Um Lugar na Plateia (dir. Danièle Thompson, 2005). Sobre esse estou devendo até uma postagem à parte, então sem mais comentários por enquanto, deixo o link aqui quando fizer.

VIRGEM

Para estimular a forma virginiana de sentir e experimentar o mundo recomendo o israelense/egípcio A Banda (Eran Kolirin, 2007). Um filme curto, modesto e perfeitamente executado, mas construído sobre uma tristeza fundamental com os males irremediáveis da humanidade. Lembro de tê-lo assistido num cinema de subsolo em Buenos Aires, e o fato de o metrô passar por perto e estremecer a sala de vez em quando só reforçava a percepção dos silêncios que atravessam o filme e a cidade onde ele acontece.

Na mesma linha, tem também o uruguaio Whisky (dir. Pablo Stoll e Juan Pablo Rebella), que me fez imaginar Montevidéu como uma cidade virginiana; quando estive lá essa sensação só se reforçou.

Enfim, é engraçado que por algum motivo essa categoria de Virgem traga títulos curtos e despretensiosos, que têm como pano de fundo paisagens latino-americanas: a última delas é a dos cenários interioranos e metalúrgicos do brasileiro Arábia (dir. Affonso Uchôa e João Dumans, 2017). A humildade é uma virtude virginiana, e acho que poucos filmes são capazes de verdadeiramente exercitá-la em sua linguagem sem deixar entrever uma arrogância reprimida. Esse consegue.  

LIBRA

Encontros e Desencontros (Sofia Coppola, 2003). Um filme sobre o amadurecimento que em diferentes idades é alcançado por meio de experiências que envolvem o encontro com o outro, a interação com o outro, as tentativas de conhecer e compreender o outro. O modo cômico da narrativa – naquilo que envolve o gestual hesitante, os erros de tradução, a confusão dos códigos de etiqueta de diferentes culturas – é também caracteristicamente libriano.

Curiosamente, o trabalho de adaptação entre diferentes linguagens entra nesse espectro, e aqui entra na lista a adaptação de Razão e Sensibilidade (1995) para o cinema, com roteiro de Emma Thompson, direção de Ang Lee. O tipo de filme que, como a obra de Jane Austen, consegue nos tornar mais atentos a detalhes mais que decisivos em nossos hábitos e improvisos comunicacionais.

Encerrando a categoria, com uma preferência bastante pessoal, temos o dinamarquês Corações Livres (dir. Susanne Bier, 2002). Um filme que me fez entender melhor o papel de Libra, o papel de Vênus e sobretudo o papel do arquétipo da deusa Juno nas nossas vidas. Escrevi sobre isso nessa outra postagem aqui.

ESCORPIÃO

Escorpião é sobre experiências que se a gente tivesse escolha a gente preferia evitar, como a morte e os impostos. Em Encontro Marcado (Meet Joe Black, dir. Martin Breast, 1998), Brad Pitt encarna ambas, ao personificar ao mesmo tempo a própria morte e um auditor da receita. “Death and taxes”, ele diz durante uma reunião, e nessa hora a gente entende porque essas coisas se reúnem no arquétipo de Escorpião.

A propósito, Escorpião é também sobre ir ao inferno e aprender o caminho de volta, ou pelo menos ter um vislumbre dele; há vários filmes que encenam esse roteiro muito bem, e fica difícil escolher um, Mas pelo critério de impacto pessoal fico com A Liberdade é Azul (Trois Couleurs: Bleu, dir. Krzysztof Kieslowski, 1993), com a memorável atuação de Juliette Binoche.

Escorpião, enfim, é onde ficam borrados os limites entre a justiça e a vingança. Mais uma vez temos o problema de fazer uma escolha, mas certamente entre os melhores nessa linha está Batman: o Cavaleiro das Trevas (dir. Cristopher Nolan, 2008).

SAGITÁRIO

Underground: mentiras de guerra (dir. Emir Kusturica, 1995), é um filme sérvio de extravagâncias e excessos que têm como pano de fundo a movimentada história do século XX em um pedaço do oeste da Europa. É também um filme festivo: a gente sai do cinema querendo ter uma bandinha de metais correndo atrás da gente para fazer a trilha sonora da nossa vida.

As Invasões Bárbaras (dir. Denys Arcand, 2003) é mais quieto e melancólico, mas igualmente atravessado por temas sagitarianos como as ideias filosóficas, as ideologias políticas e as filosofias de vida.  

Na mesma linha, entra na lista também Os Sonhadores, de Bernardo Bertolucci (2003), que carrega o ar de certa imaturidade tipicamente sagitariana, com suas vastas emoções e pensamentos imperfeitos, envolvendo sempre o legítimo desejo por uma vida menos ordinária.

CAPRICÓRNIO

Capricórnio é sobre o encontro de nossas expectativas e desejos com as realidades da vida; é também sobre a passagem do tempo e o amadurecimento. Portanto, prêmio para o conjunto da trilogia Antes do Amanhecer, Antes do Pôr-do-Sol e Antes da Meia-Noite (dir. Richard Linklater, 1995/2004/2013).

Capricórnio é também sobre a satisfação de ter um plano bem pensando em executá-lo na prática com sucesso: prêmio para O Plano Perfeito (dir. Spike Lee, 2006).  

Podemos completar a lista com qualquer filme de Clint Eastwood na linha do macho-conservador-que-descobre-que-tem-sentimentos. Gran Torino (2008) é um exemplo. Talvez nem sejam grandes filmes, mas sempre senti que a experiência de que tratam é arquetipicamente capricorniana.

AQUÁRIO

Primeiríssimo prêmio para Happy Feet (dir. George Miller, 2006), não só porque é sobre o livre exercício da diferença como caminho para a igualdade, ou sobre como é ser abduzido por alienígenas e ir parar no planeta de uma espécie diferente da sua, ou porque tem o Sidney Magal fazendo a voz do pinguim Amoroso (e que merecia um Oscar por isso), mas também porque meu filho que tinha cinco anos na época estava sapateando no chão do cinema quando terminou a sessão.

Outro filme de sensações que eu amei muito e assisti no cinema mais de uma vez foi A Chegada (dir. Denis Villeneuve, 2016). Trata-se de uma história aquariana pelas exigências que faz ao nosso intelecto humano na compreensão de outras lógicas que parecem ultrapassar nosso entendimento, pela condição de deslocamento que a protagonista se vê colocada perante o restante dos seres humanos a partir do momento em que passa a falar a línguas dos extraterrestres, a pela ressonância do mito aquariano de Prometeu, que entregou o fogo dos deuses à humanidade.

No entanto, as tendências ao mesmo tempo revolucionárias e igualitárias desse signo têm também um lado obscuro que me faz acreditar que vamos ainda ver o melhor o e pior que ele tem a nos oferecer nos próximos anos, na medida em que a ênfase dos trânsitos planetários deixar Capricórnio para trás, e entremos definitivamente na Era de Aquário. Isso vale também para o cinema. Coringa (dir. Todd Philips, 2019) pode também não ser um filme excepcional, mas para mim é um ponto de partida na tematização dos pesadelos mais específicos de nossa vida política contemporânea. Falei um pouco desse assunto (a partir da dimensão arquetípica do personagem interpretado por Joaquim Phoenix) nessa postagem aqui.

PEIXES

Sonhos, de Akira Kurosawa (1990), que vi no cinema aos onze anos, e cujas imagens se confundiram desde então com meus próprios cenários oníricos, em uma via de mão dupla: quando revi o filme muitos anos depois, havia sonhos que me lembrava de ter tido que eram na verdade cenas do filme, enquanto havia cenas que eu acreditava ter visto no filme que tinham sido na verdade sonhos meus mesmos. Uma experiência pisciana, sem dúvida.

O Doce Amanhã (dir. Atom Egoyan, 1997) é um filme canadense sobre a culpa e a libertação da culpa de uma personagem que sobrevive a um acidente; é também conhecer os limiares entre o aqui e a acolá, e hoje parece ser pouco lembrado, recomendo muito.

Por fim, quanto à capacidade oceânica que Peixes tem de sentir toda o sofrimento e a alegria e a tristeza e a dor e a beleza do mundo ao mesmo tempo, me lembro de ter sentido algo assim durante a breve horinha que dura o documentário brasileiro Nós que Aqui Estamos Por Vós Esperamos (dir. Marcelo Masagão, 1999). Isso se repetiu em cada minuto de todas a horinhas em que revi o filme tantas vezes depois, mas foi ao sair do cinema, na primeira vez, que tive a experiência pisciana de sentir transbordando em mim um amor mais infinito pela humanidade inteira de todos os tempos.  

áries

O signo de Deus

Sabe aqueles memes com a frase “eu às 10 da noite: hoje vou dormir cedo”, que daí cortam para um “eu às 03 da manhã”, fazendo uma pesquisa nada a ver na internet, ou encasquetado com algum pensamento aleatório? Tipo “gente, que coisa, a mesma lógica que usaram para o nome do Pato Donald vale pro Fernando Pessoa”, ou “será que já comi carne da mesma vaca que bebi leite”? Então. Suponho que essa seja uma experiência imemorial, e que nossos antepassados sofriam com o mesmo problema – talvez apenas não tivessem a mesma chance de compartilhar com o mundo inteiro os motivos de suas noites insones. Aí fico imaginando a primeira pessoa que leu a Bíblia, indo para a cama tranquila depois do primeiro episódio, porque até ali pelo menos estava indo tudo bem, o mundo tinha sido criado, dentro no prazo e tudo, com alguma chance de sucesso. Aí de repente no meio da madrugada bate aquele pensamento incômodo, e toda a perspectiva de uma boa noite de sono vai por água abaixo: “Mas péra, e se a luz não fosse boa?”

Porque, né, podia não ter sido. Pelo menos é isso que a gente deduz do Livro do Gênesis. Lá no comecinho mesmo, logo depois de criar o céu e terra, Deus cria a luz (“haja luz”), aí vê que a luz é boa, e decide continuar com a luz. Quer dizer que o mundo foi criado na base da tentativa e erro, e que o Próprio não tinha muita certeza do que estava fazendo; pela maneira como a história é narrada, parece que Deus podia muito bem ter criado, sei lá, o inverno ártico, ou a apendicite, ou a pizza de estrogonofe, logo de cara, aí é que eu quero ver se ele ia ganhar todo esse crédito. O universo teria flopado na mesma hora, sobretudo se as Sagrada Escrituras começassem com algo do tipo: “Deus criou o céu e a terra, e o céu e terra era sem forma e vazios, e estavam imersos nas trevas; e Deus disse: ‘Haja o telemarketing’, e é por isso que desde então passamos o dia inteiro no escuro atendendo números desconhecidos de São Paulo”.

Pois é, às vezes eu fico pensando nessas coisas no meio da madrugada. Uma das razões pelas quais criei esse blog foi justamente para desovar tais questionamentos. Outro que já me ocorreu – e que naturalmente deve ter ocorrido a qualquer astrólogo decente – é qual seria o signo de Deus. E não me venham com essa história de que Deus não tem signo, que Deus é Tudo e Tudo é Deus, porque de soluções fáceis o inferno está cheio, e isso é apenas a típica reação de geminianos na hora de fazer uma escolha difícil. Nada disso, Deus tem signo sim, todo mundo tem, e a única coisa que torna um pouco mais difícil saber o signo de Deus é a falta de um registro confiável da data de nascimento. Mais ou menos como no caso da Elena Ferrante, a autora italiana que escreve sob pseudônimo e cuja identidade verdadeira é desconhecida. Então precisamos partir das características pessoais do indivíduo, estabelecer uma hipótese e verificá-la. Bom, a Elena Ferrante eu não sei, mas Deus, esse não me engana: aposto com vocês que Deus é ariano.

A primeira razão fica evidente pelos parágrafos introdutórios. Ninguém teria começado o universo se, no mínimo, não tivesse Áries muito forte no mapa. Pensem bem: não havia precedentes, era um trabalho inédito, as chances de cometer equívocos eram enormes, e havia tanta coisa em jogo que só mesmo com bastante iniciativa e um comportamento um tanto inconsequente alguém iria se meter nessa encrenca. Deve ter tido um elemento de impaciência também, é claro; basta imaginar como eram as coisas antes de tudo de existir; uma paradeira só, a maior tranquilidade, e se Deus fosse de Peixes (como alguns defendem) aposto que as coisas teriam continuado assim. Mas não, Deus quis acabar com a monotonia, acabou ficando de saco cheio, ficou com medo de morrer de tédio. Falou algo do tipo, “quer saber, vou começar um negócio aqui só para ver no que dá mesmo”, e cá estamos nós. Deu no que deu.

Ninguém com um mínimo de bom senso teria tomado uma decisão dessas. Mas é claro que Deus não tinha bom senso; o bom senso é uma característica taurina que foi criada depois de Deus. Antes disso aconteceram vários erros grosseiros, trapalhadas inenarráveis, precipitações idiotas, de modo que levou um tempo para Ele tomar consciência de si mesmo e adotar o hábito de pensar duas vezes antes de fazer algo. A sacada da luz lá no começo foi boa, isso a gente tem que reconhecer, deu certo mesmo. Mas fica impressão de que Ele empolgou, de que achou que era só dizer “haja isso” e “haja aquilo” que isso e aquilo iam ser bons e ele ia ficar logo livre do serviço. Assim, além de ter terminado o trabalho em seis dias (sim, seis dias, a p* do universo inteiro em SEIS dias – se isso não é coisa de ariano inconsequente e apressado eu não sei o que é), acabou metendo os pés pelas mãos em uma série de outras situações, e arriscando um punhado de outras intervenções que estiveram longe de obter o mesmo êxito.

Por exemplo, o episódio com o anjo que resolveu questionar a autoridade dele, cujos desdobramentos até hoje criam tanto transtorno. Se a crise tivesse sido bem administrada, se Ele tivesse empregado um pouco mais de tato na relação com o querubim, talvez o inferno hoje fosse apenas uma ideia criada pelos humanos para assustar criancinhas. Mas ele expulsou o filhote de casa sem nem dar chance para uma conversa, aí o outro foi lá e montou todo um exército de diabos e diabetes sem outra coisa para fazer na vida além fustigar a gente por toda a eternidade. Custava ter um pouquinho de parcimônia?  Agora, vai pedir um ariano para lidar com um conflito diplomaticamente, para você ver onde ele te manda enfiar o seu diploma. Não, não dava para aguardar um pouco o acesso de petulância do outro passar; Ele tinha que ficar todo intratável, cheio dos chiliques, só porque alguém ousou cantar de galo no Seu quintal. Então eu pergunto a vocês: quem foi que criou os anjos, já no segundo dia, e achou os anjos excelentes, e deixou eles existirem, criando condições para isso tudo acontecer? Sim, Ele mesmo. Deus.

Se a gente começar a fazer uma lista dos erros de Deus desde o início dos tempos (levando em conta apenas os registrados pelo cânone), é questão de ficar o restante dos tempos nisso, e ainda assim vai faltar umas horinhas. Mas também não é o caso de tripudiar. Só para dar mais um exemplo clássico, decorrente do anterior, teve a história com Jó também, em que o erro de Deus aconteceu de largada, no instante em que ele aceitou um desafio de Satanás, que foi lá e disse um “cê né homi de mostrar que é Deus mesmo”, e depois ficou de camarote assistindo a tragédia acontecer. Supõe-se que o divino devesse ter a compostura necessária para evitar esse tipo de picuinha, mas não: mais uma vez, quando a gente vê, lá está Ele atormentando um pobre coitado de um homem só para mostrar que é O cara. O interessante é que aí Ele aprendeu a lição de que ser o primeiro pode significar estar entre os últimos. Sério mesmo: pelo menos segundo Carl Jung, essa é a história da grande humilhação de Deus, porque, ao vencer a aposta com o capeta, Ele sofreu a mais completa derrota moral diante a humanidade.

O argumento está em Reposta a Jó, volume 11/4 das obras completas de Jung. A tal resposta seria o próprio nascimento de Cristo. Diante da força com que um mísero ser humano se mostra capaz de suportar seus caprichos, Deus comprova sua onipotência, e ao mesmo tempo sente-se pequeno; ele ganha consciência de Seus ridículos melindres, e decide encarnar na Terra em condição mortal, para experimentar altitudes apenas são possíveis a quem se submete à lei da gravidade. “Ele deve renovar-se, porque foi superado pela própria criatura”, afirma ainda Jung, indicando que a concepção cristã do amor incondicional de Deus pela humanidade depende desse movimento, efetivado, cabe observar, no período de transição da Era de Áries para a Era de Peixes, segundo a processão dos equinócios. “A intenção de Javé de tornar-se homem, que resultou do entrechoque com Jó, realizou-se plenamente na Vida e na Paixão de Cristo”.

Disso decorre um corolário que, se vale para Deus, deve valer para o pessoal de Áries de modo geral: é possível aprendermos como nossos erros. No que o pessoal de Áries tem todo o direito de responder: sim, mas para isso alguém precisa errar, então não me venham com essa história de que nós somos precipitados e competitivos e desatentos e coisa e tal, a gente primeiro faz o que tem que fazer, depois pensa no que poderia ser feito diferente. De acordo. Vejam também o caso de Hércules, que já mencionei para falar de Áries em outras oportunidades (por exemplo, aqui), e para não ficarmos só na mitologia judaico-cristã. Em um de seus trabalhos – exatamente aquele mais exatamente associado ao signo – ele tem que capturar as éguas furiosas de Diomedes (filho do deus Ares) que estariam causando devastação em certas planícies. Hércules, em sua capacidade de realizar grandes feitos, consegue executar a tarefa relativamente simples em pouquíssimo tempo. Então, para ir logo tratar de outros assuntos, deixa as éguas capturadas aos cuidados de Abderis, um amigo não tão íntimo das fúrias da natureza. Abderis acaba trucidado pelos animais.

Mas nesse caso, apesar do descuido, Hércules continua sendo Hércules, continua sendo um herói ariano. O amor incondicional só seria inventado muito tempo depois. Ele tinha ainda um punhado de trabalhos a cumprir, e dá no máximo para imaginá-lo fazendo uma nota mental (“não deixar bestas assassinas machucarem o amigo”) para evitar outras perdas. Esse é tipo determinação que Áries exibe com excelência: não aquela que se supõe infalível e imune a equívocos, mas a que entende que equívocos são inevitáveis se você se dispuser a fazer coisas que ninguém fez antes, e que isso não é motivo para deixar de fazê-las. É por isso que Áries vai errar muito na vida: porque vai agir muito, vai tentar coisas que ninguém tentou, vai assumir compromissos que ninguém ousou assumir, vai aceitar desafios que podem até parecer idiotas, mas – vai saber – numa dessas acabam sendo criadas as condições para o milagroso nascimento do redentor. Ou seja: Áries tem a sagrada capacidade de dar início a processos que ninguém faz ideia de onde vão nos levar.

Tudo isso faz lembrar uma das mais famosas frases sobre o erro e o fracasso que existem: “Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better.” Seu autor foi o dramaturgo irlandês Samuel Beckett, que, bem a propósito, em sua peça Fim de Jogo, celebrizou uma anedota na qual um sujeito encomenda um par de calças para um alfaiate muito renomado e exigente, famoso pela qualidade impecável de seus produtos. Então, toda vez que o cliente vai buscar as calças, elas ainda não estão prontas, porque o alfaiate tem sempre um pequeno ajuste ainda a fazer, um errinho invisível ainda a reparar, um detalhe com que não está satisfeito. Até que um dia, depois de meses, o cliente reclama: “Mas não é possível isso! Pra que esse atraso todo? Deus que é Deus fez o mundo em seis dias!”. E o alfaiate: “Sim, meu senhor, mas olhe para o mundo… e olhe para as minhas calças!”

O alfaiate, com certeza, era de Virgem. Deus vocês já sabem. E Beckett também era ariano. O engraçado é que tanto ele quando Henry James – outro escritor de Áries – são conhecidos pela inércia ou indecisão que costumam ser marcas de seus personagens. Não que eu seja capaz de oferecer uma solução para esse paradoxo, mas posso dizer quem é, de modo que vou me permitir dar uma terceirizada nessa digressão. Pois tenho uma amiga capricorniana que é também a maior especialista em Áries que conheço, e não apenas porque escreveu uma premiada tese sobre Henry James. Ela tem ainda marido em Áries, filho em Áries, melhores amigas em Áries, enfim, o pacote completo. Pensando aqui agora, é interessante que um dos últimos artigos que ela publicou tenha sido sobre a Elena Ferrante. Quem quiser, está disponível gratuitamente online aqui, numa coletânea de ensaios. Com isso, pensando bem, acho que já tenho uma aposta a respeito do signo da romancista italiana.

E, para encerrar, é como eu costumo dizer a vocês: quando resolvo escrever um desses textos para o blog, é porque sei como eles começam, mas nunca onde vão terminar. Olhando o sumário da coletânea que mencionei há pouco, reparei que o primeiro texto se chama “En los inicios de la gran aventura: modernismo, internacionalismo y vanguardias”, e foi escrito por uma colega nossa argentina e ariana, que há bastante tempo é para mim um dos melhores exemplos da maneira corajosa com que Áries se manifesta no mundo. Notem como já no título e no tema do ensaio dá para notar o vínculo: o vanguardismo requer uma disposição arrojada e desbravadora, enquanto o “início da grande aventura” tem sido basicamente o assunto desse texto. Mas não é exatamente sobre assuntos acadêmicos que eu penso ao lembrar dela, da autora, que se chama Karina Vasquez. Tem uma coisa mais importante aí.

Sabem uma canção do Lou Reed chamada “Beginning of a Great Adventure”, no álbum New York, em que ele trata da expectativa de um casal às vésperas de ter um filho? Então. É disso que estou falando, é disso que lembro quando penso no tema da aventura ao lembrar da Karina. Pois não conheço ninguém que tenha sido tão arrojada e pioneira e desbravadora na hora de decidir ter filhos, e tê-los: pela maneira como ela decidiu, pelos riscos que assumiu, pela determinação que demonstrou, pela força que tira não se sabe de onde para criá-los. Hoje ela é uma mulher com um filho de cinco anos e mais dois de cinco meses, dos quais cuida não apenas com dedicação, mas com prazer também. É claro que às vezes deve ser muito difícil, e imagino que existam momentos totalmente impossíveis no cotidiano com eles. Impossíveis para mim, é claro. Não para a Karina.

De modo que esse texto é dedicado a ela, ao Theo, ao Ulisses e ao Milton. Serve também como registro de que, se a história deles começou, foi porque alguém tomou uma atitude que aos olhos do mundo ao redor podia parecer impensável, ou impraticável: aí ela foi lá e não apenas pensou, como fez. Só podia ser de Áries. De minha parte, então, fico na esperança de que os trabalhos hercúleos de seu dia a dia ganhem a ressonância mítica que merecem (nesse sentido os nomes dos meninos ajudam), e fico feliz em poder terminar o texto assim. Agora, vejam só que coisa: nós que começamos com uma brincadeira sobre a mitologia de Deus criando o mundo, chegamos enfim na história da criação de três mundinhos por uma humana que decidiu pela sua existência.

A ênfase na decisão é para lembrar que todas as mulheres deveriam ter a opção de levar até o fim ou não esse gesto, sobretudo porque trata-se de uma escolha no âmbito estrito de seu próprio corpo. E às vezes, no início dessas histórias, o que existe não é exatamente uma decisão – tudo se assemelha mais a uma armadilha do que a uma aventura. Quem trata do assunto da legalização do aborto ignorando isso, com argumentos como “uma pessoa precisa assumir as consequências de seus erros”, entendeu tudo errado, desde o princípio. A gente precisa lidar, sim, com as consequências dos nossos equívocos, precipitações e inconsequências, porém isso implica justamente ações que retifiquem os caminhos, por mais difíceis que possam ser, ou novas decisões que os reforcem, mesmo quando não foi a intenção inicial. De maneira alguma estamos condenados ao inferno de um destino incontornável. Lidar com as consequências de nossos atos é também executar outros atos, e depois outros, e assim por diante.

Suspeito que, de todos os signos, Áries é o que mais sabe disso. Talvez por este motivo se arrisque tanto: porque sabe que sempre haverá como mudar as coisas, e isso certamente é algo que temos a aprender com Áries. Fico então pensando naquele Deus que criou o mundo e tudo: ele provavelmente teria dado um jeito de seguir adiante mesmo se a luz não fosse boa, como aliás parece ter seguido, com todas as outras falhas e confusões. Se estamos aqui hoje, é também um pouco porque, como a Karina, ele entendeu que todo o trabalho com esse negócio de universo e mundo e humanidade valia a pena. Ele achou que estava na hora de dar uma arriscada, mesmo sem ter o controle dos desdobramentos seguintes da história que ia começar ali, e mesmo com todos os erros que sem dúvida ia cometer.

Agora, uma última observação: fico pensando no que existia antes desse Deus. Pois alguma coisa devia existir. Alguém, ou algo (sem dúvida uma personalidade ou força feminina) deve ter dado origem a um ser que para todos os efeitos foi criado à imagem e semelhança de nós homens. Várias mitologias não-monoteístas têm um nome e uma imagem para ela, que podemos chamar de Grande Mãe, de acordo com o título que recebeu na lista dos arquétipos junguianos. Trata-se do lugar de gestação da existência de tudo, e onde tudo terá sido gestado porque se quis, porque sentiu-se que era a hora, porque havia receptividade e desejo e amor envolvidos – e não porque havia leis impedindo o contrário.

Com isso, podemos supor que lá nos primórdios do cosmos estava em ação uma espécie de amor incondicional, que ficaria depois oculto, perdido, desencontrado, e seria redescoberto, entre outras maneiras, na figura de Cristo, em decorrência dos erros de seu Pai, por causa deles resolveu encarnar na Terra. Assim fica mais fácil entender por que o amor está no final dessa história: ele está no começo também. É o amor da Grande Mãe pela criatura frágil e inconsequente e irritadiça e intratável que deve ter nascido de seu ventre ali por volta do final de março, começo de abril, lá um pouco antes do início dos tempos. Mas nada que não aconteça do mesmo jeito, todos os anos, em todos os lugares do mundo, de maneira sempre igual e sempre tão diferente. Sim, acho que no final das contas vou ter que concordar com os geminianos: não dá para cravar um signo para a pergunta de tirar o sono que coloquei lá no início. Porque em todo canto, todo dia, há milênios, como resultado do amor entre os humanos, e por efeito decisões ao mesmo tempo ponderadas e inconsequentes, existe sempre algo acontecendo que se parece muito com o que deve ter acontecido no instante do nascimento de Deus.

astros, Todos os signos

A viola e o arpão

Giorgio de Chirico |Enigma da chegada da noite (c. 1970)

Mulher de Porto Pim é o nome de um livro e de um conto do escritor italiano Antonio Tabucchi. No conto, um velho cantor açoriano conta sua história para um turista num fim de noite em um bar melancólico. Em determinado momento da narrativa, ele, ainda jovem, abandona seu pai, um pescador de baleias com quem crescera após a morte da mãe; o motivo desse abandono é a tal mulher de Porto Pim, por quem ele sente um fascínio súbito e apaixonado. Ao descrever a cena na qual passa em casa para pegar suas coisas antes de ir viver com ela – sob o olhar do pai, que o vê deixando o arpão e levando uma viola –, o narrador diz: “Você sabe o que é a traição? A traição, a verdadeira, é quando você sente vergonha e quer ser um outro. Eu quis ser um outro quando fui me despedir de meu pai”.

O detalhe do arpão é importante. Antes, ele fala sobre como os dois costumavam sair juntos para pescar baleias, e fica implícita a expectativa do pai de que o filho seguisse no mesmo ofício. Daí a traição a que se refere: não se trata apenas do abandono do lar e do velho taciturno, mas de toda uma ideia do tipo de vida ao qual o filho devia sua fidelidade. O gesto de carregar a viola indicava, por sua vez, que um cenário completamente diverso se descortinava para o restante da sua vida. Que a história seja contada num bar e por um cantor de bar diz muito sobre o que se seguiu. O filho do pescador se tornou o artista boêmio que narra a história. Seu destino teve um episódio trágico, mas ele não parece arrependido de ter seguido esse percurso, exceto, talvez, quando destaca a ambivalência dos sentimentos na cena que descrevi.

É o tipo de experiência que remete aos pares de opostos complementares do zodíaco, e às mil maneiras como manejamos seus atributos conflitantes no decorrer da vida, quando, por algum motivo, a dinâmica de um desses pares se torna relevante para nós. Mais especificamente, em termos astrológicos, seria legítimo dizer que foi naquele instante de pegar a viola que o narrador se decidiu por um salto à Cabeça do Dragão. Estou me referindo ao Nodo Norte da Lua, também conhecido por Rahu na tradição védica. Trata-se de um ponto calculado de acordo com o desenho da elipse lunar, e que, como os planetas, transita pelos 12 signos do zodíaco, com a diferença de carregar sempre consigo o ponto exatamente oposto, isto é, a Cauda do Dragão (ou o Nodo Sul, Ketu para a astrologia indiana). Se você gerar seu mapa no site astro.com, o Nodo Norte vai aparecer como “True Node” na versão em inglês, e como “Nodo Verdadeiro” em português (caso seja alterada a configuração da língua no canto superior direito da tela), com o Nodo Sul situando-se por consequência no mesmo grau do signo oposto complementar de onde ele se encontra.

Daria para ficar aqui enfileirando detalhes técnicos e nomes exóticos indefinidamente. Mas, quando se trata da posição desses pontos no mapa natal de um indivíduo, a ideia costuma ser mais ou menos a mesma: o Nodo Sul é a experiência já acumulada por sucessivas gerações, é aquilo que se repetiu à exaustão, é aquele conjunto de qualidades ou hábitos que parecem um lugar natural para a pessoa. É também onde encontramos traços de identidade mais imediatamente disponíveis para nós, os papeis sociais que tendemos a ocupar com mais facilidade, ou que acreditamos ter o dever de cumprir. O Nodo Norte são as experiências novas que teremos a oportunidade de viver, talentos imprevistos que serão desenvolvidos e papeis que podem ser ocupados – se assim o quisermos – mesmo que a princípio a gente não se veja de maneira alguma naquele lugar.

Como, invariavelmente, esses pontos se localizam em signo opostos do zodíaco, a posição de um sempre implica a do outro. No caso do narrador do conto de Tabucchi, por exemplo, eu apostaria que ele tem o Nodo Norte em Leão, por ter ganhado a vida tocando um instrumento, se apresentando em botequins, sentindo por esses ambientes uma atração e uma vinculação que estavam em aberto desacordo com seu passado e sua herança familiar. Desse modo, ele teria o Nodo Sul em Aquário, o que pode muito bem estar relacionado às exigências de fidelidade a uma corporação de iguais, no caso a dos pescadores, além de presumir uma capacidade de dedicação a esforços coletivos bastante característica de algumas expressões aquarianas, um signo tradicionalmente regido por Saturno. Essa posição – Nodo Sul em Aquário, Nodo Norte em Leão – é uma das que trazem com maior evidência uma possível contraposição entre o trabalho e o prazer no mapa de um indivíduo. Daí o instante da escolha entre o arpão e a viola; daí o salto a que me referi.

Analisar a posição da cauda e da cabeça do dragão em um mapa é desdobrar esse tipo de raciocínio de acordo com as variações dos arquétipos zodiacais e algumas outras variáveis (as casas onde se encontram, os planetas com que realizam aspectos etc.). Às vezes, a identificação dessa dinâmica é mais imediata, e até mesmo anedótica (sobretudo com as expressões do Nodo Sul); às vezes, se dá com qualidades mais singulares e atributos bastante originais (sobretudo no Nodo Norte). Tudo isso pode se tornar mais evidente em determinadas idades e trânsitos regulares (com frequência por volta dos 36, 37 anos, às vezes já aos 18 ou 19). De todo modo, eles criam um eixo que nunca deixa de funcionar como uma espécie de balança na vida de cada um. Sendo assim, haverá sempre momentos em que ela poderá pender mais para o passado, para o já conhecido, para as gerações que nos antecederam, as encarnações em que já percorremos a história de um arquétipo sucessivas vezes. Foi o que aconteceu comigo ultimamente.

O que vivi nas últimas semanas foi uma das experiências mais estranhas da minha vida psíquica. Netuno esteve praticamente estacionado durante um tempo incomum na região de meu Nodo Sul em Peixes, enquanto eu era atravessado por sensações e lembranças de um passado que parece ultrapassar minha vida pessoal, embora com frequência seja também representado por episódios dela. Houve ao mesmo tempo notícias concretas e difíceis que tornaram presentes algumas questões relacionadas ao tema, e cujas demandas contribuíram para que eu tenha deixado essa página de férias por uns tempos. Netuno sempre exige uma pausa em alguma coisa na vida. Mas é sobretudo sobre o sentimento impreciso e netuniano de uma súbita imersão nas águas de meus ancestrais piscianos que eu gostaria de falar, pois sinto também que esse é um momento de honrar meus antepassados de uma maneira que nunca fiz antes – para então, talvez, traí-los mais uma vez, quiçá definitivamente.

Uma maneira de exemplificar esse fenômeno é falando um pouco do meu gosto musical. Pois fui precocemente apresentado e cativado por toda uma tradição do desespero e da derrota cantada em vozes anglófonas roucas e embriagadas. Era capaz de virar noites inteiras sozinho ouvindo Tom Waits e enxugando garrafas de conhaque barato, depois de ter rodado os bares do centro de Belo Horizonte como que em busca do coração roto de uma noite de sábado, que eu nunca encontrava. Aquilo para mim era um lugar natural, de certa forma espontâneo, mas só de certa forma mesmo: pois eu estava também espontaneamente encenando aquele personagem. Ou melhor, eu estava representando, também no sentido de que, ao agir daquele jeito, eu sentia ser o representante de toda uma congregação de gente fodida e fracassada que formava um clube secreto que já existia antes de mim.

Reparem, não estou falando que Peixes tem uma relação direta com o fracasso. O que está em jogo aqui os “personagens” piscianos, que muitas vezes podem parecer losers arquetípicos, mas exatamente porque nesse signo as réguas que costumamos usar para medir sucessos mundanos perdem toda a validade. E, de modo bastante concreto em alguns aspectos – figuradamente em outros –, sempre soube que venho de uma linhagem de gente que por algum motivo viveu às margens do mundo social regular, por terem renunciado a ele ou por terem se tornado incapazes de existir funcionalmente em seus limites. Estamos falando de monges, loucos, doentes e bêbados. No meu caso, sobretudo bêbados. Em resumo: venho de uma linhagem de desajustados, e o fato de ter me encaixado nas estruturas desse mundo – ao encontrar trabalhos que me deram satisfação, ao executar serviços que me deram alegria, e ao adotar rotinas que me restituíram a saúde, através do Nodo Norte em Virgem, signo oposto a Peixes -, é o que tem feito com que eu me sinta um verdadeiro traidor dos meus ancestrais que vieram do mar.

Não se trata apenas de maturidade, ou de uma adoção compulsória de hábitos saudáveis por motivo de comprometimento do fígado. Bom, deve ter um pouco disso também. Mas o Nodo Norte se manifesta com um frescor que não tem muito a ver com os constrangimentos da idade. Agora, vamos supor que fosse o contrário. Um Nodo Norte em Peixes dificilmente vai se manifestar de modo tão anedótico quanto meu Nodo Sul pisciano; ele provavelmente vai aparecer para a pessoa em uma versão mais individualizada (mesmo que seja com uma relação frequente, porém mais saudável, com os entorpecentes), ou no mínimo menos atolada nas sarjetas da vida. Nesse caso, o que se apresentaria com maior evidência na primeira etapa de uma biografia seria a Cauda do Dragão em Virgem, talvez com as famosas manias de limpeza e paranoias de organização que criam ambientes imaculados, exatamente opostos aos quartos atulhados de cinzeiros sujos onde que costumava acordar na minha adolescência. Mas o ponto principal aqui não é que a pessoa tenha as características de determinado signo, e sim a maneira como ela se sente devedora de sua fidelidade a um determinado grupo ancestral, vinculada a ele de modo atávico, mesmo quando esse grupo é um bando de doidos e tontos.

Uma pessoa com o Nodo Sul em Virgem, portanto, pode vir de uma linhagem de funcionários públicos ou auxiliares da área de saúde para os quais a humildade na prestação de serviços regulares é um valor fundamental. Essa pessoa vai encontrar o lado pisciano da vida através de um convite para o ócio e para o descanso, uma libertação da roda cármica de tarefas e burocracias e pacientes – mas dificilmente vai perder a sensação de estar em débito com as gerações anteriores de sua estirpe, que tanto trabalharam em favor do bom funcionamento da sociedade e do cosmos. Já uma pessoa com o Nodo Sul em Touro pode muito bem se sentir rebento de um ambiente camponês ou proletário, e valorizar a simplicidade das sensações vitais, dos frutos da terra e do trabalho manual. Mas ela pode também vir a ter uma oportunidade de lidar com o lado mais obscuro e intrincado da vida psíquica (Nodo Norte em Escorpião), demonstrando habilidades que não esperava ter para desatar esses nós.

Tenho uma amiga, com Nodo Sul em Sagitário, que agora – aos 35, 36 anos – está percebendo que não precisa de contar com o respeito do mundo acadêmico para cumprir seu destino. Está descobrindo uma existência independente do reconhecimento universitário já recebido em sua família, porque ela própria é capaz de valorizar outras coisas, e pode muito bem viver sem isso. Com essa posição, algo semelhante acaba acontecendo com alguém que se sinta vinculado a uma religião ou grupo religioso: o Nodo Norte em Gêmeos vai trazer uma leveza lúdica que raramente encontramos nas esferas da intelectualidade ou do sacerdócio, mas que podemos muito bem identificar nos comediantes e artistas de circo. O engraçado aí é que a pessoa se prepara durante anos para se tornar um brâmane ou coisa parecida – e acaba se tornando a grande atração da feira, e acaba se realizando assim.   

Ou seja: todo mundo tem uma corporação, ou estirpe, ou bando, ou alcateia, ou casta, à qual tem que prestar contas durante uma parte da vida. Só não precisamos ficar comprometidos eternamente com a identidade que nos foi legada através de nosso vínculo com os ciclos lunares, pois esses mesmos ciclos trazem um convite ao desbravamento de territórios inexplorados. Usando uma metáfora que uma vez encontrei na internet, é como se você fosse um ator ou atriz já escalado sucessivas vezes para um mesmo tipo de papel – aquilo que na indústria do entretenimento chamam de type casting -, até por conta de sua capacidade de representá-los, o que criou uma associação de sua própria pessoa com um determinado personagem recorrente. Aí de repente aparece um convite para um papel totalmente distinto e até oposto ao que você se acostumou a representar. Minha dica: aceite.

A propósito (e fazendo a ponte entre Hollywood e Bollywood), a menção anterior aos brâmanes – a casta sacerdotal hindu – faz lembrar que Nodo Norte e Nodo Sul são pontos bem conhecidos na astrologia védica, ou indiana, como mencionei lá atrás. Na origem da concepção e cálculo desses pontos, portanto, pode haver uma relação com a sociedade de castas, mas eu não saberia dizer ao certo como são mobilizados nessa moldura. De todo modo, a astrologia se renova também através desses trânsitos e trocas, fazendo com que, por exemplo, a posição do Sol em um mapa natal – tão importante em nossa prática, mas com sentidos e significados já desgastados – possa eventualmente ter sua leitura modificada de maneira positiva em outros contextos culturais. Assim como nós temos a chance de ressignificar as leituras das posições da cauda e da cabeça do dragão, dando ênfase às mudanças que podem representar na vida de um indivíduo, mas sem desconsiderar o que falam sobre nossa inserção em grupos sociais, históricos ou arquetípicos mais amplos.

Mas, para esse movimento estar completo, entendo hoje que a gente precisa ter alguma chance na vida de se reconciliar com nosso antepassados metafóricos e reais, depois de termos simplesmente abandonar o arpão no chão da sala, sob o olhar imensamente decepcionado de nossos pais. Vou contar então a vocês o que acontece quando Netuno estaciona sobre seu Nodo Sul durante o tempo que ficou estacionado no meu. Você passa a viver uma espécie de segunda vida paralela e meio delirante junto a toda aquela multidão de ancestrais que em algum momento acreditou ter deixado no caminho. No começo, parece que eles ressurgiram para tirar satisfação por terem sido traídos; mas depois você percebe que eles simplesmente querem ter você por perto mais um pouquinho, antes de deixá-lo ir. É uma espécie de despedida, que não deu tempo de fazer quando as novidades e desafios do Nodo Norte estavam tomando todo seu tempo. É também um de trabalho de luto, porque você sente que alguma coisa em você está definitivamente deixando de existir.

Não tenho exatamente passado minhas noites bebendo e ouvindo música e procurando por corações rotos que se solidarizem com minha tristeza. Mas tenho ficado parado, quieto, e desperto, às vezes por horas durante a madrugada, enquanto um outro eu (cujo nome é legião) perambula por aí refazendo caminhos tortos já bem conhecidos. Um pouco como se o narrador do conto de Tabucchi de repente passasse a imaginar-se pescando baleias, junto ao pai e outros pescadores, sendo feliz com eles, sem nunca ter optado por outra vida. Chego a pensar que foi só isso mesmo que o pai dele queria: que estivessem juntos mais uma vez, em forma de devaneio, e que fizessem juntos desse modo a última pescaria. Enfim, que seu filho retornasse nem que fosse em sonho para se despedir corretamente, e então ir embora de vez, sem “querer ser um outro” é já sendo, enfim livre da sensação de que precisava escolher entre o arpão entre a viola, porque a viola o havia escolhido, e sabendo que, para ser quem ele era, já não precisava trair ninguém.

câncer

O signo de Kafka

Este blog nasceu sob o signo de Peixes, e precisa de um descanso de vez em quando para dar liberdade às suas fantasias. Mas estavam em Câncer as luas do título, inspirado por um livro da escritora canadense e canceriana Alice Munro. Talvez por isso o signo do caranguejo seja um dos recordistas de postagens aqui da casa, embora eu nunca tenha escrito nenhum texto mais elaborado sobre o cancerianismo aliciano em si mesmo (pretendo fazer isso ainda, mas é uma tarefa delicada, não é algo que que dê pra fazer ainda pegando no tranco, depois de ficar em modo pisciano-soneca por uns tempos). Tampouco cheguei a falar de Câncer a partir dos escritos de outro autor célebre que já frequentou essa página por muitos outros motivos. Pensei nisso dia desses, quando se celebrou a data de aniversário de Franz Kafka.

A princípio, essa seria uma missão igualmente espinhosa, sobretudo se comparada com a de identificar aspectos cancerianos mais óbvios da obra de Marcel Proust, por exemplo (o memorialismo nostálgico, a floração de sentimentos, o estilo fluvial). Há pouca coisa e quase nada em Kafka que a gente associe ao signo solar do autor, à primeira vista pelo menos. Acontece até o contrário: a objetividade de sua prosa, o desconforto de seus personagens, a estranheza de seu mundo, tudo isso é o oposto daquilo de que normalmente estamos falando quando falamos em Câncer. Inversamente, a familiaridade, o conforto e o calor humano podem ser tudo, menos atributos kafkianos.

Por outro lado, e por isso mesmo, acredito que a tarefa de associar Kafka ao signo de Kafka é simples (confesso que o blogueiro não estaria suspendendo suas férias se não pensasse assim). Basta repetir um movimento que os intérpretes do autor realizaram tanto em comentários sobre a questão religiosa em sua obra, quanto na abordagem de sua ressonância política. Os conceitos de teologia negativa e utopia negativa – presentes nas análises dos críticos Erich Heller e Michel Löwy, respectivamente – se equivalem. O que ambos estão querendo dizer ao mobilizar esses conceitos é basicamente a mesma coisa. Quando lemos Kafka, o que importa é tudo aquilo que evidentemente não está lá.

Acho que o lado teológico nos ajuda mais a entender o argumento de maneira geral. Ele remete a uma longa tradição segundo a qual “a ausência de Deus é prova da existência de Deus”, exatamente porque a percebemos como uma ausência, isto é, o polo negativo de uma presença. Pelo mesmo raciocínio, não concebemos o vazio a não ser como o contrário do cheio, e, portanto, como indício de um preenchimento que um dia existiu ou está por vir. Todo fenômeno presume e implica seu inverso, e, portanto, o Deus absconditus (deus escondido) da lenda se faz sentir precisamente através de seu ocultamento.

“Ausência implica presença, ausência não é não-existência, e assim nós temos o direito de repetir: vem, vem, vem, vem…”, diz um personagem de Uma Passagem para a Índia, romance do escritor inglês e capricorniano E. M. Forster. Parece-me apropriado citar justamente o signo oposto complementar de Câncer para tratar de como a falta de um atributo é o que aguça a consciência de seu papel. Na obra de Kafka, então, tudo aquilo que não está lá se torna o que mais ostensivamente se mostra através deste sumiço; é a existência dessas coisas que podemos e devemos invocar. E, de fato, o conforto com a vida familiar, a aceitação e o acolhimento pelos pais, a sensação de pertencer a um lar ou uma terra natal são ausências mais do que notáveis em seus escritos, incluindo aí os diários e as cartas.

Sobre os romances de Kafka, a propósito, o escritor argentino e virginiano Jorge Luis Borges afirmou em 1936 o seguinte: “Homens, não há mais do que um em sua obra. O homo domesticus, que anseia por um lugar, mesmo que humilíssimo, em uma Ordem qualquer; no universo, em um ministério, em um asilo de lunáticos, ou no cárcere”. A simplificação pode parecer apressada quando a olhamos em perspectiva; mas, acredito, não deixa ser extremamente certeira se fizermos uma correção.

O ponto central é a palavra Ordem. Não acredito que os personagens de Kafka quisessem sempre e necessariamente pertencer a uma ordem. O que os protagonistas kafkianos parecem sentir de modo mais doloroso é a falta de qualquer vinculação a um Lar, no sentido mais caloroso e acolhedor da palavra, com suas raízes orgânicas e sentimentais, com suas conotações afetivas e interpessoais. Não que eles expressem isso abertamente, é claro. Na verdade, é isso que sempre falta nas narrativas kafkianas; é isso que mais claramente elas excluem e ignoram e ocultam, em todas as suas manifestações.

Há, sim, portanto, algo do homo domesticus nessas figuras a que se refere Borges; e, bom, a domesticidade é tipicamente canceriana. Por outro lado, nem sempre os heróis de Kafka – e muito menos os heróis de Câncer – são exatamente domesticáveis, no sentido de acatar ordens que não lhes falem ao coração. Por isso também a solução de uma ordem impessoal me parece insuficiente. De novo, o calor humano e os genuínos vínculos afetivos de que estão destituídos os heróis kafkianos não são coisas que eles sejam capazes de reclamar para si com todas as palavras (eles parecem nem chegar a ter consciência de que isso existe), mas, precisamente por esse motivo, a carência se torna mais radical e pungente. Amor puro e simples é o que mais ostensivamente falta nas narrativas kafkianas; mas acredito que, se Kafka parece tão radical em sua exibição do polo negativo desse espectro da experiência, é porque não estaria disposto a transigir em nenhum ponto com aquilo que lhe era mais caro.

De modo que desconsiderou o retorno proustiano ao passado como alternativa para um presente seco, estéril e deprimente, por exemplo. A sensação de pertencimento que ele valorizava e queria não estava num mundo perdido que a narrativa poderia de algum modo recuperar. E, ainda mais notavelmente, não há praticamente nenhuma lembrança de conforto em seus textos, sendo que o autor parece desconfortável inclusive nas fotos de sua infância, como notou o filósofo canceriano Walter Benjamin. Não encontramos na história de seus protagonistas quase nenhuma menção a uma antiga de paz e felicidade, o que só torna mais perturbadora a falta de qualquer esperança. “Há esperança sim, esperança suficiente, esperança infinita – só que não para nós”, ele teria dito, aliás, como também lembrou Benjamin. Esperança negativa talvez seja outro conceito adequado para descrever o sentimento que nos atravessa com a leitura da obra de Kafka.

Mas ele afirmou também que, se vivemos no exílio, se a nossa condição humana é da culpa e da falta, isso acontece “não apenas porque comemos da Árvore do Conhecimento, mas também porque ainda não experimentamos da Árvore da Vida”. Pois bem: suspeito que essa Árvore da Vida, com seus frutos e sua sombra, com suas raízes e suas folhas, é uma árvore canceriana. É ela, e não a pacífica domesticidade burguesa, que representa a verdadeira presença de Câncer na obra de Kafka. O fato de que não a tenhamos provado ainda talvez seja indício de uma esperança, e quem sabe a prova definitiva de sua existência.

astros, peixes

Aprendendo a nadar

David Hockney | A Bigger Splash (1967)

Marte ingressa em Peixes por agora, no começo dessa quarta-feira, onde vai seguir seu curso por seis semanas. É o último signo em que deve permanecer por um tempo regular antes dos muitos meses de suas idas e vindas em Áries, a partir do final de junho. Trata-se do planeta cujas mudanças no elíptico zodiacal são mais perceptíveis para nós à flor da pele, porém seu ingresso em um determinado signo geralmente é acompanhado de efeitos muito diferentes no ânimo de cada um de nós. Os piscianos, por exemplo, com Marte em Peixes podem ter um influxo de energia de tirar o sono. Já o pessoal de Áries tem maiores chances de sentir um sono de tirar as energias.

Isso, por um lado, reforça o fato de que, mesmo em épocas de condicionamentos tão restritivos como os atuais, até mesmo indivíduos que estejam vivendo as mesmas rotinas e repetições diárias sob o mesmo teto podem ter enormes diferenças de comportamento, que independem das circunstâncias externas mais aparentes, mas não deixam de estar vinculadas a influxos mais sutis do ambiente. Nós somos “de Marte” do mesmo jeito que somos “de Lua”.  Por outro lado, é das interações, conflitos e negociações entre esses vetores que se faz a vida em comum, de modo que o Marte em Peixes aqui em mim saúda o Marte em Peixes aí em você. Espero que de alguma forma eles se entendam.

Mas nada impede que a gente aproveite o momento para compartilhar um exercício de entendimento do que significa “Marte em Peixes” em um plano mais estritamente simbólico e arquetípico. A primeira expressão que me vem à cabeça é “Guerra Santa”. Por razões óbvias: Marte é planeta guerreiro, e Peixes é a região do zodíaco associada ao sacrifício. A combinação parece propícia ao martírio, bem como à luta obstinada em defesa de ilusões, justamente quando elas se mostram mais insustentáveis. Há algo em Peixes que torna Marte um agente das mais fantasiosas batalhas. No entanto, há algo também capaz de dar um fim a toda luta e sofrimento.

Nesse último sentido, Marte ingressando em Peixes é como uma flecha que cai na água. Ou como um caçador que não quer mais apenas lutar pela sobrevivência, e decide sair em busca do cálice sagrado. Se a gente parar para pensar, o que há de sagrado no cálice? O espaço em seu interior. Acontece que o espaço no interior do cálice é o mesmo espaço ao redor do caçador. Não é preciso sair para buscá-lo. É só respirar. Marte, portanto, em circunstâncias normais, trata de garantir sua sobrevivência. Mas o signo de Peixes é tudo menos “circunstâncias normais”; em Peixes, a existência se basta. Marte em Peixes se parece então com uma flecha que cai na água, aprende a ser peixe, e de repente começa a nadar.