astros

A curva do medo

Quillebouf, Foz do Sena (1833) | J. M. W. Turner

Essa semana comecei um grupo de estudos online sobre o papel de imagens e narrativas arquetípicas na psique humana de acordo com o pensamento de C. G. Jung. Há algo de voluntarioso e desajeitado nessas inciativas que nós professores universitários temos tomado agora para manter uma dinâmica interpessoal e intelectual; há algo de reconfortante, também. O contato que fiz com meus alunos foi breve, pontuado por falhas técnicas e ruídos estranhos, mas foi efetivo e teve seus bons momentos. Escolhi o tema deliberadamente para o período de confinamento, pois ele me parece abrir uma janela para vastos horizontes subjetivos inexplorados, expandindo nosso cosmos interior num momento em que a vida objetiva está tão confinada e empobrecida.

Por alguns instantes, foi possível esquecermos das limitações que a distância impõe, para encontrarmos pontos de contato e de encontro, talvez inclusive pontos de contato e encontro que não teriam sido identificados em uma aula presencial. Pois essas sessões virtuais de maneira alguma se equivalem à rotina acadêmica dos encontros reais. Por um lado, são incapazes de substituir o vínculo e a relação de confiança que são criados entre professores e alunos em sala de aula (de minha parte, não vejo a hora de poder voltar para o trabalho no campus). Por outro lado, as sessões virtuais talvez ofereçam algo de diferente em relação àquilo que estamos acostumados em nossas interações, então é hora de descobrirmos o quê.

A propósito, uma das coisas que os smartphones e a internet banda larga me trouxeram – e pelas quais sou imensamente grato – são os longos áudios de palestras do Alan Watts que estão disponíveis no Youtube. Watts, vale mencionar, foi um pesquisador de escolas filosóficas orientais como o Zen e o Taoísmo. Durante os anos 1960 e 70, era convidado com frequência para dar conferências a partir de suas experiências e leituras, e teve também programas dedicados ao assunto no rádio e na televisão. Ele se definia como um spiritual entertainer, o que de forma alguma soava como um epíteto depreciativo. Suas falas têm um embalo de raro poder hipnótico; elas podem ser tão tranquilizadoras, tanto no conteúdo quanto na forma, que eventualmente lembram algumas peças para piano de Eric Satie. Fica a recomendação para quem está buscando distrações para a quarentena. Vou deixar uns links no final do texto.

A título de curiosidade: Watts é mencionado no final do filme Her, de Spike Jonze (aquele em que o Joaquin Phoenix se apaixona pela voz de sua assistente virtual) como um filósofo que habita o mesmo universo paralelo de onde surge Samantha, a personagem de Scarlett Johansson. Através de sua voz, ele realmente se tornou uma presença na internet como poucas outros filósofos conseguem ser, e ganhou uma espécie de sobrevida que seus livros provavelmente não lhe teriam outorgado.   

Então: Alan Watts e C. G. Jung foram amigos, além de compartilharem o interesse pela história das religiões e pelas mitologias de diferentes povos. Aí, durante o encontro virtual do grupo de estudos – é sobre isso que quero falar, é sobre isso que é esse texto –,  me lembrei da bela palestra em que Watts descreve seu amigo Jung como uma pessoa que se sentia “à vontade consigo mesma”, inclusive com seus defeitos, inseguranças e falhas de caráter, o que fazia com que outras pessoas se sentissem à vontade em sua presença. O ato de não julgar a si mesmo de maneira rigorosa se refletia no modo como seus visitantes tampouco se sentiam julgados dessa forma.

Percebam: trata-se da dinâmica da projeção, porém nesse caso com um viés positivo. Ao invés de projetar no outro o que sentia existir de indesejável ou vil em sua personalidade, convertendo isso em motivo de desprezo ou denúncia, Jung reconhecia esses traços como seus, e os incorporava ao próprio comportamento até com certa malícia, com uma espécie de sorriso maroto por saber-se tão errado e lascivo como qualquer outra pessoa nesse mundo, por mais que fosse considerado um indivíduo extraordinário. Essa objetividade na aceitação dos próprios defeitos, por sua vez, tornava seus visitantes e pacientes confortáveis mesmo diante de um homem que respeitavam tanto, e cujo julgamento teriam temido até se verem em sua presença. De maneira mais ou menos consciente, eles percebiam como e por que esse temor havia sido infundado. Então, permitiam-se a mesma autoaceitação que Jung se permitia e inclusive exibia com certa graça.

Acho que estamos sentindo falta desse tipo de troca. Acho que algo assim pode ser possível agora, em que estamos todos tão igualmente desorientados e surpreendidos pelas circunstâncias. Infelizmente, parece que as redes sociais tendem a favorecer justamente o inverso, com a acusação rápida e o juízo sumário sobre as vilezas e deslizes dos outros ganhando proeminência, enquanto só aumenta o nossa desconforto na presença (ainda que virtual) de pessoas que sequer respeitamos, mas que ainda assim tememos,  porque parecem dotadas de convicções capazes de destruir reputações e carreiras, na mesma medida em que parecem cem por cento convictas da própria perfeição e santidade (parecem; é justamente o contrário).

Por outro lado, o fenômeno tem um componente sócio-histórico já conhecido que não passou desapercebido por Jung. Segundo o médico suíço, as condições de emergência do nazifascismo incluíram uma sociedade insegura e totalmente desconfortável na própria pele, que precisou encontrar um bode expiatório no qual seria projetado todo o mal existente no mundo, de tal maneira que sua eliminação fizesse restar somente as “pessoas de bem”. Assim, um vago mal-estar ganhava forma na figura de supostos monstros criados pela necessidade extirpar a incerteza que brotava em cada indivíduo. Estes então se aferravam desesperadamente aos simulacros de virtudes que exibiam, de modo que a percepção do diferente o reduzia à expressão de tudo o que é impuro, defeituoso e indigno de existir.

Há diferenças, evidentemente, na situação daquela época e na de agora. Mas há semelhanças também. E creio que elas estão menos nos acontecimentos em si do que nos sentimentos que fazem emergir. Em uma palavra: medo. As grandes crises econômicas e as pandemias, bem como as crises decorrentes de pandemias e as pandemias disseminadas em meio às crises, terão sempre como fatores comuns as emoções muito primárias que estimulam, com destaque para a incerteza e a insegurança que disseminam. Falo isso de uma posição relativamente confortável, de maneira alguma imune às consequências econômicas e ao risco de perder familiares queridos para a doença, porém com alguma possibilidade de atravessar o pior sem me ver totalmente destituído de recursos para enfrentá-lo.

E, ainda assim, estou com medo, medo suficiente para que tenha se tornado uma companhia constante, e uma companhia que preciso aceitar não apenas em seus aspectos inocentes, mas também no comportamento egoísta de autoproteção que é capaz de gerar. Porque a alternativa a reconhecer meu próprio egoísmo é projetá-lo outros, acusando-os de estarem ocupados somente com a própria segurança e bem-estar (como às vezes devem estar mesmo, como eu às vezes estou), adicionando injúria ao desespero, e fazendo com se sintam duplamente mal consigo mesmos. Dá para ver então como isso facilmente se reverte numa espécie de batata quente, pela maneira como essas acusações serão passadas adiante, ou retornadas para mim em dobro.

É verdade que épocas assim favorecem também comportamentos solidários e compreensivos. Mas, infelizmente, sabemos que momentos de grande ansiedade podem reverter-se nos períodos mais sombrios da história. Isso pode estar relacionado não apenas ao medo em si, e às reações mais ostensivas que favorece, mas também à dinâmica mais sutil pela qual ele se transforma em perseguição de um outro que passa a encarnar os sentimentos brutos rejeitados pela sociedade. Além disso, com a parte de nós mesmos que abriga aquelas virtudes (a solidariedade e a compreensão), temos certa facilidade de conviver, para não dizer certo gosto, na medida em que favorecem a autoestima e a aprovação das pessoas próximas. O difícil é encarar a outra parte (a que é covarde, insegura, medrosa), e não apenas aceitá-la, como também acolhê-la.

A situação me lembra um personagem de Hilda Hilst, Isaiah o matemático, que precisa acolher um porco que do nada lhe aparece em meio à limpidez do laboratório, desajeitado, gordo, temeroso, carente, parecendo enfermo inclusive. “Não é doença, Karl, é medo”, Isaiah então se lembra de sua mãe falando dele próprio, com ternura, com o pai. “Sempre de alguma coisa temos medo”.

Sempre de alguma coisa temos medo. Nosso corpo em particular está sempre atento para um conjunto enorme de ameaças com que a espécie humana não se acostumou muito bem a conviver. A analogia do porco com o corpo me parece imediata, e a relação porco-corpo-medo também; creio que Jung a teria aprovado a ideia do porco como imagem arquetípica, que remete aos instintos corporais mais básicos, mais inclinados a reações que consideramos vis e pouco iluminadas. Diante de um vírus então, essa ameaça tão poderosamente invisível, mais do nunca de alguma coisa temos medo. E temos medo de nós mesmos também, das nossas reações e sentimentos diante de uma catástrofe humanitária, temos medo de não sermos suficientemente humanos para enfrentá-la, temos medo da nossa mesquinhez e de nosso egoísmo. A parte suja que existe em nós parece prestes a vir à tona. Pois bem: se vier, aceite-a.

Aceite-a, porque aceitá-la significa interromper o mecanismo que a reproduz exponencialmente. Aceitá-la significa mantê-la dentro dos limites bastante razoáveis em que ela existe dentro de você, que deve ser uma pessoa bem capaz de egoísmos e generosidades, como a maioria das outras também é. Nada impede que a virtude e o vício coexistam e se alternem no comportamento de uma pessoa. Agora, caso você vire o rosto para o próprio egoísmo, fatalmente ele será projetado nos outros, que vão reagir acusando-o de ser o verdadeiro culpado, o verdadeiro mesquinho, ou buscando outros bodes expiatórios para a extirpar o medo que sentem, que assim vai só crescendo a cada indivíduo que dá sua contribuição para  afastá-lo de si. Em resumo, aceite seus sentimentos, porque aceitá-los é achatar a curva do medo.

Achatar a curva do medo é, basicamente, sentir medo, e buscar algum tipo de conciliação com a parte de nós que preferimos nem ver. Tudo isso traz à tona mais uma vez a figura de Quíron, o xamã ferido, o hierofante do tarô mitológico, o centauro ao mesmo sábio e vil que foi o tutor de Aquiles na mitologia grega. Quíron era vítima de um profundo senso de inadequação com o qual precisou aprender a conviver; era capaz das mais torpes baixezas, por sentir-se excluído da sociedade humana, e também das mais altas bondades. Não vou me estender nesse ponto porque já me estendi bastante nos outros, e já tratei de Quíron com mais detalhes em outras postagens (aqui, e também aqui, por exemplo).

Enfim, me lembrei dele novamente sobretudo porque a descrição que Alan Watts oferece de Jung é bastante quironiana, como acréscimo do sorriso suavemente perverso com que ele demonstrava conviver com as próprias perversões. Acredito que toda época encontra em alguns arquétipos de chance de ganhar consciência simbólica de certas virtudes e de certas falhas que a atravessam. A figura de Quíron tem a vantagem de que não apenas certas virtudes e falhas, como também essa ambivalência. Talvez tê-la mais uma vez à mão nos ajude a perceber que é possível sentir a ferida sem revertê-la em motivo de perseguição e ódio. Muito do que teremos com que lidar agora diz respeito a esses sentimentos. Ou, como diria a mãe de Isaiah: não é doença, Carl. É medo.  


PS: neste canal aqui você encontra uma boa coleção de gravações das palestras de Alan Watts; estão em inglês, mas pelo menos a dicção dele é clara e pausada o suficiente para permitir a compreensão de um ouvinte pouco adaptado. A palestra que mencionei sobre C. G. Jung é essa aqui.

Todos os signos

Calhamaços do zodíaco

Pegando carona na onda das listas e correntes, minhas dicas separadas por signos para quem está disposto a encarar algum clássico mastodonte literário durante a quarentena:

Áries: Guerra e Paz, de Leon Tolstoi. Tem bastante guerra. Aí é só você pular as partes de paz.

Touro: As Ilusões Perdidas, de Honoré de Balzac. Vale a pena ler, nem que seja só para chegar na descrição do restaurante Flicoteaux, certamente um dos grandes momentos da literatura sobre comida e dinheiro – ou a falta dele. Balzac era taurino, aliás.

Gêmeos: Ulisses, de James Joyce. É legal se você não levar muito a sério. Por isso, o leitor ideal de Joyce é geminiano.

Câncer: Os Buddenbrooks, de Thomas Mann, ou As Irmãs Makioka, de Junichiro Tanizaki, ou a Trilogia do Cairo, de Naguib Mahfouz. Três calhamaços sobre famílias e uma pergunta: quantas gerações cabem numa quarentena?

Leão: O Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar. Para ler agora incluindo os “capítulos prescindíveis”, pulando de cá pra lá e de lá pra cá, como se fosse uma brincadeira.

Virgem: Casa Desolada, de Charles Dickens. Ah, as delícias de conhecer nos mínimos detalhes os trâmites de um caso judicial inglês.

Libra: Os Embaixadores, de Henry James. Para quem está com tempo de avaliar cada possível decisão ou gesto dos personagens em frases que duram parágrafos e parágrafos que duram páginas para no final das contas a gente descobrir que o tal fulano decidiu nem fazer nada e ficou parado onde estava mesmo.

Escorpião: Moby Dick, de Herman Melville. História de um sujeito estranho, obstinado e movido por impulsos obscuros. Modelo moral.

Sagitário: A Odisseia, de Homero. A. Maior. Viagem.

Capricórnio: Middlemarch, de George Eliot. Para quem quiser encarar a dureza da vida, nesse que Virginia Woolf classificou como um dos poucos romances ingleses escritos para adultos. E capricornianos.

Aquário: Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa. Nonada. Tem frase que seja escrita no normal das gentes nesse livro não, o senhor se espante.  

Peixes: O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes. História de um velho zureta que confunde sonho com realidade. Modelo moral.  

Acrescentaria ainda, em uma categoria à parte, Os Irmãos Karamázov, de Fiodor Dostoievski, que é sem dúvida o livro que eu levaria para uma ilha deserta (ou para uma quarentena, se tivesse que escolher um só), não necessariamente por ser o melhor livro que já li, mas porque já li umas três vezes e nunca me lembro direito do que acontece nele. Tirando, é claro, que fulano mata sicrano. O resto é simplesmente a maior bagunça. Não recomendado para virginianos.  

capricórnio, gêmeos

Te amo, Gêmeos!

Quase Famosos (2000) | Dir. Cameron Crowe

Amo zoeira com signos, e amo mais ainda quando meus amigos se lembram de mim por causa de uma zoeira. Aí esses dias um deles me marcou em um tuíte que diz assim: “A quarentena está fazendo até capricorniano se declarar, aquariano responder na hora, sagitariano querer namorar, taurino admitir que errou e virginiano admitir que ama alguém. Geminiano não muda nada continua cada vez pior”. De acordo, em parte: sinto que sobretudo que no começo o texto está muito certo. Já mais para o final não concordo tanto. Acho que dá para resumir esses dois sentimentos na seguinte frase: amo Gêmeos e vou defendê-lo até o fim.

Aproveitem, não é sempre que capricorniano sai por aí fazendo esse tipo de declaração. Aliás esse clima de pandemia apocalíptica lembra uma cena do filme Quase Famosos, sobre uma banda de rock que chega a fazer algum sucesso e logo entra em decadência. Tem uma hora em que pela primeira vez eles usam um jatinho em uma turnê, só que no meio da viagem o jatinho começa a cair, e parece não haver esperança alguma de evitar o desastre. Nisso os integrantes da banda começam a fazer declarações e confissões uns aos outros no meio da tremedeira da queda. O avião não cai, o piloto consegue salvá-los, e eles andando na pista do aeroporto depois – aquelas caras de “nunca mais ninguém fala do assunto” – é uma das cenas mais constrangedoramente engraçadas que há.

Dá para supor que existem capricornianos e geminianos entre eles. Por motivos diferentes, esses dois estão entre os mais sujeitos a fazer desabafos ou confidências em circunstâncias extraordinárias. Exatamente porque não fazem em circunstâncias normais. É claro que Gêmeos às vezes fala tanto ou manda tanta mensagem e figurinha que uma coisa ou outra acaba passando, porém a comunicação geminiana pode muito bem existir sem qualquer referência a sentimentos, ainda mais sentimentos profundos. Já Capricórnio é pura profundidade, e não deixa nada transparecer na superfície: guarda suas cartas bem próximas ao peito, mantém o semblante impassível, e é bem capaz de só mostrá-las se o mundo estiver acabando mesmo.

Vale a pena ver como ambos se posicionam ao redor da mesa do zodíaco. Gêmeos e Capricórnio relacionam-se em um ângulo de 150 graus, ou seja, um aspecto inconjunto, que forma um quíncuce. Esses são os termos técnicos, mas acho que são um pouco mais do que isso: por mais que o jargão astrológico já seja usualmente esquisito com suas quadraturas e declinações, essas palavras “inconjunto” e “quíncuce” têm para mim um sabor a mais de desengonçada estranheza, que não deixa de estar relacionado ao que simbolizam.

Gosto de escrever sobre arquétipos que estão posicionados nesse aspecto (como já escrevi sobre Câncer e Aquário, por exemplo, nesse post aqui) porque a princípio a relação entre eles não é exatamente harmônica nem conflituosa, mas sim desajeitada, tropeçante, cega. É como se fossem duas pessoas que nem se conhecem o suficiente para ter grandes simpatias ou antipatias entre si, e então precisam antes de tudo reconhecer a existência uma da outra, para a partir daí descobrirem formas de interação e convivência.  

Signos que se relacionam por meio desse aspecto podem se encaixar muito bem, desde que se parta do princípio do desencaixe. Estamos tratando de pessoas que a princípio não sabem nem como se cumprimentar direito, mas que com tempo ou com sorte podem encontrar interessantes pontos de contato entre si. Estes, uma vez identificados, podem ser revelar tão certeiros quanto aquela pecinha do jogo de lego que existe só para uma determinada função, em um determinado tipo de brinquedo. Ou, mais exatamente, são como aqueles brilhantes improvisos que permitem a conexão entre as mais diferentes partes de um objeto ou conjunto de objetos. Leia-se gambiarra.

Gêmeos adora uma gambiarra, sobretudo uma gambiarra comunicativa. Já Capricórnio rejeita as soluções fáceis e provisórias. A relação gambiarrada entre eles deve, portanto, contar com a capacidade geminiana de adaptação e mutabilidade. No entanto, ao invés de dizer simplesmente que Gêmeos se adapta às estruturas e rigores capricornianos, podemos inferir que Capricórnio abre uma brecha em seu sistema diante de Gêmeos, nem que para isso ele precise cair numa espécie de armadilha forjada pela astúcia geminiana. Uma astúcia que, por outro lado, pode ter que se reinventar e elaborar sempre novos recursos e artimanhas diante das reservas e resistências de Capricórnio.  

Permitam-me uma digressão narrativa a esse respeito. Lembrei aqui que um tempo atrás vi Capricórnio entrevistando Gêmeos em uma edição do Actor’s Studio. Bom, não sei quais eram os signos do entrevistador e do entrevistado, mas arquetipicamente acho que era isso que estava acontecendo. O barbudinho que guiava o programa tinha até um pouco de cara de bode, além de ser responsável, consistente, dedicado à formação profissional dos jovens atores e atrizes. O convidado era um ator de comédias (não lembro exatamente qual; talvez o Steve Martin; em todo caso o ator cômico é uma figura arquetipicamente geminiana).

Aí lá pelas tantas o entrevistador citava uma antiga declaração de seu convidado, em outra entrevista, na qual ele dizia ser “uma pessoa superficial”. Capricórnio em seguida perguntava a Gêmeos, de maneira perspicaz e sóbria, em um tom ao mesmo tempo elogioso e crítico da falsa modéstia do ator: “Você disse isso mesmo? Você se considera superficial?”. O ator respondia que sim, que tinha dito aquilo. O entrevistador, porém, prosseguia, tenaz e insatisfeito com a resposta: “Mas você não acredita mesmo nisso, acredita?”. O ator: “Sim, claro, é isso mesmo, eu sou superficial.”

O entrevistador, começando a ficar meio perdido, talvez preocupado com o exemplo dado aos jovens: “Mas você se formou em Harvard…” O ator fazia uma cara de “sim e daí?” Nesse ponto, as coisas ficavam realmente desajeitadas, embaraçosas, porque o entrevistador não sabia como continuar abordando o assunto, nem conseguia mudar de tema. O ator então tomava a palavra de maneira mais generosa, passando por um momento a falar de forma mais didática, para se explicar melhor, parecendo disposto a eliminar possíveis mal-entendidos:

“Olha, eu disse isso, mas não é porque eu considere que outras pessoas são mais profundas, que eu seja mais vulgar ou banal que os outros. O que eu acho é que o ser humano é uma criatura meio superficial mesmo. A gente pode filosofar o tanto que der para filosofar, inventar a metafísica que a gente quiser inventar, mas no final das contas a gente nunca deixa de ser essas criaturas meio tontas que não sabem nem como vestir uma camisa sem se atrapalhar com os botões”. O entrevistador, aliviado por ter recebido uma resposta mais significativa: “É, vendo nessa perspectiva eu sou superficial também.”. O ator, retomando certo ar de malícia: “Sim! Claro que é”.

Ponto para Gêmeos. Mas, como disse, a relação entre eles não é de oposição ou mesmo de complementaridade, o que permite que eles comentem desvios um do outro de maneira despretensiosa e por isso mesmo mais efetiva. Então, por outro lado, Capricórnio pode ter alguma coisa a dizer a Gêmeos sobre o valor da verdade, por exemplo (geminianos se permitem uma grande margem de manobra nesse assunto). Mas não vai fazê-lo através do confronto aberto e do discurso pedagógico (Gêmeos é imune ao discurso pedagógico). Capricórnio vai dar o exemplo em silêncio e como quem não quer nada. Como ele de fato não quer nada – Capricórnio não inclui entre suas muitas obrigações neste mundo a de corrigir a conduta de Gêmeos –, acaba conseguindo mais efeito do que de outro modo. “Eu faço desse jeito, você faça do jeito que quiser”, é a mensagem que Capricórnio transmite a Gêmeos. Às vezes funciona.  

Agora, voltando ao tema a superficialidade. É sobre ele principalmente que eu queria falar, pois acho que pode ser útil agora nesse período que estamos vivendo. Porque implica a noção de impermanência, uma característica que normalmente a gente vê nas descrições estereotipadas de Gêmeos como um signo que carece de foco e de substância. Porém, no contraste com as exigências de constância e consistência autoimpostas por Capricórnio, esse traço de personalidade pode ganhar outro destaque, na medida em que permite uma livre alternância de humores e pensamentos, sem apego a uma estrutura de fundo que os reúna em uma totalidade ou em uma narrativa coerente. Gêmeos sabe que o que a gente sente hoje não tem necessariamente nada a ver com o que a gente vai sentir amanhã. Acho que esse é um dado importante de termos em mente durante esse momento de quarentena.

Pois uma coisa que a gente percebe com clareza quando acompanha as próprias alterações de humor em sincronia com trânsitos planetários é que o ânimo da gente muda fácil sem que mudem muito as circunstâncias imediatas. Ou seja, que somos todos meio geminianos. Em dias ou horas a gente vai da alegria ao desânimo e à tranquilidade e ao desespero sem ter muitos motivos concretos para isso. Pense em quantas vezes você saiu de um estado de prostração ou cansaço de repente com um impulso de entusiasmo sem nem entender o porquê. E vice-versa. De modo que, mesmo durante um confinamento em que nada de muito diferente aconteça de um dia para o outro, haverá dias mais difíceis e dias mais fáceis; não se trata de uma longa jornada linear rumo ao fundo do poço. Se hoje está complicado não quer dizer que amanhã estará também.

E essa é uma lição geminiana, mercurial, embora a gente tenha o hábito de considerar Júpiter, Saturno e Quíron como os grandes mestres na astrologia. Ela me lembra uns versos de Leonard Cohen em That Don’t Make it Junk (poucas coisas não me lembram uns versos de Leonard Cohen): “I know that I’m forgiven / but I don´t know how I know / I don´t trust my inner feelings / Inner feelings come and go”. Essa é aliás uma das faixas mais cômicas do compositor canadense, e esse “eu sei que estou perdoado” já é geminiano o suficiente para fazer valer a citação. Mas o que vem na sequência, essa ideia de que nossos sentimentos mais íntimos podem não ser confiáveis, porque estão igualmente sujeitos a fluxos e refluxos que a gente não entende nem controla – isso já vale por todo um tratado sobre Gêmeos, e sobre o que Gêmeos tem a ensinar para o mundo.  

Sim, eu sei, eu sei: não devia estar aqui dando argumento atrás de argumento para que os geminianos sejam assim tão… geminianos. Mas avisei que esse texto ia ser uma declaração de amor, e numa declaração de amor não dá para esperar que a pessoa fique fazendo críticas e ressalvas à conduta do ser amado (ainda que o ser amado mereça, isto é, ainda que o ser amado seja… geminiano). Mas, enfim, tive um filho geminiano no ano passado, e considero-me perdoado de antemão por agora achar esse signo o mais belo e justo e resplandecente e repleto de arte e poesia e urbanismo de todos os signos (junto com Capricórnio, que afinal é o signo do meu outro filho). Aliás outro dia eu literalmente encontrei uma forma de me declarar para o Gabriel depois de ouvir Piazza, New York Catcher, uma canção do Belle and Sebastian que em determinado momento diz assim: “I love you, I have a drowning grip on your adoring face / I love you, my responsability has found a place”.

Essa ideia da responsabilidade disponível que encontra um lugar no mundo no rosto cativante de outra criatura – ah, isso só pode ser a história de um pai capricorniano que tem um filho de Gêmeos. Mas é um pouco também a do irmão mais velho de Capricórnio que tem um irmão mais novo de geminiano – aliás o “irmão mais novo” é um personagem do arquétipo de Gêmeos, pois essa era uma condição muito singular de Hermes na mitologia. Como se não bastasse, meu filho que tem o Sol em Gêmeos tem a Lua em Capricórnio, o que tem a Lua em Capricórnio tem o Ascendente em Gêmeos, e eu tenho a Lua em Gêmeos e o Sol em Capricórnio. Esses dois signos estão no DNA astrológico da família e a gente parece ter sido de algum modo escolhido para tentar encontrar maneiras de fazer Gêmeos e Capricórnio conviverem e se gostarem.

Tenho muitos amigos geminianos também (escrevi mais especificamente sobre o arquétipo do amigo geminiano aqui). Agora, o amigo que me marcou no tuíte que citei lá no começo, ele é de Câncer. Ele se chama Gabriel também e no ano passado eu tinha dito a ele que provavelmente teria um filho com o mesmo nome e o mesmo signo dele. Acabou que o meu Gabriel nasceu um pouco antes, como vocês a essa altura já sabem. Aí já acho que não foi à toa que o Gabriel canceriano me marcou naquela postagem dizendo que Gêmeos não tem jeito é o pior signo e só tá piorando etc.. Canceriano é difícil, né? Fica magoado fácil, acho que até hoje ele ainda não aceitou muito bem, então entrou nessa de disseminar zoeira com os geminianos.

Pois então, Gabriel, aproveite que o amor de Capricórnio está em liquidação e a gente anda distribuindo afagos por aí como se fosse nosso último dia sobre a Terra. Te amo também, querido. Beijos de luz. Mas vamos parar de espalhar fake news sobre o signo do seu xará, pode ser? Se não eu vou ter que ficar te respondendo cada tuíte e cada postagem. Aliás por via das dúvidas vou lançar de uma vez a campanha Eu Defendo os Geminianos. Quem vai comigo? Eu ouvi um amém? Hashtag #somostodessuperficiais.

áries

Arianas de pijamas

Resolvi tentar distrair aqui e fazer uma brincadeira sobre os signos que mais sofrem com essa história de confinamento. Mas foi só começar o zodíaco que já senti logo o baque: putz, Áries. Não é nem que arianos sejam particularmente sensíveis à reclusão; eles são capazes de fazer o que quer que seja, inclusive passar semanas enfurnados sozinhos em casa sem contato com ninguém, desde que isso tenha sido uma decisão deles. O que afeta Áries logo de cara nessa história toda é a perda de controle sobre as ações mais imediatas da vida, a necessidade de delegar decisões para outras instâncias e a imprevisibilidade do enfrentamento a um inimigo invisível e imponderável.

É claro que nem todos estão forçados a ficar em casa. Eu conheço pelo menos uma médica ariana que deve estar na linha de frente, talvez transtornada com as condições de trabalho e o direcionamento que o governo está dando assunto, mas talvez também aliviada pela sensação de que pelo menos ela está fazendo alguma coisa. O calor da batalha é o ambiente próprio desse signo. Por mais que isso implique acatar ordens que vêm de cima, na prática não é assim que a situação é encarada, pois Áries sente que está com destino nas próprias mãos desde que lhe seja outorgado o manejo de uma espada ou de um bisturi. E está.

Hércules é um herói ariano. Muita gente nem sabe por que exatamente ele teve que executar os tais doze trabalhos, mas sabe que ele conseguiu realizá-los com excelência e precisão. Que ele os tenha enfrentado para expiar a culpa por ter matado os próprios filhos parece ter menos relevância do que o simples gosto pelo desafio. É isso que motiva Áries: as tarefas de difícil conclusão, as metas de alcance improvável. Que sejam tarefas designadas por terceiros, e metas que não se justifiquem a não ser por um capricho dos deuses, importa menos que os movimentos para executá-las a partir do momento em que são aceitas.  

Os esportes competitivos acontecem no âmbito do arquétipo de Áries. Exatamente porque estabelecem objetivos que podem parecer absurdos ou engraçados quando a gente os vê de uma perspectiva externa, mas cujo questionamento seria absurdo para quem vê de dentro. Se eu contar para vocês que as pessoas se reúnem aos montes em construções gigantescas para ver quem de um punhado de jovens consegue pular mais alto usando uma vara entortada fincada no chão, talvez isso pareça meio grotesco. E, no entanto, as pessoas fazem isso o tempo inteiro, apesar do risco de arrebentarem as costas com essas brincadeiras desnecessárias.

Havia uma passagem sobre isso em uma cena que escrevi para o teatro. A personagem era tipo uma pisciana com ascendente em Gêmeos. Aí uma hora ela falava assim: “Você já viu aquele jogo de bola que eles praticam aos domingos? O das jogadas ensaiadas? É assim: eles ficam a semana inteira ensaiando. É o treino. No treino, cada um cumpre uma função muito bem específica, principalmente quando ensaiam as jogadas, e dá tudo certo. Então, no domingo, quando chega a hora da jogada, eles ficam cheios de segredos, se entreolham, e ocupam seus postos. Aí é aquele silêncio. É. Feito este. Um silêncio que parece que não vai acabar nunca. Até que alguém resolve bater na bola. E aí, pronto: acontece tudo diferente. Tudo errado, quase sempre. Então eles ficam desesperados, começam a correr atrás da bola que nem doidos, que é o jeito normal deles de ser, e sabe o que eles dizem pra explicar o erro? Eles dizem assim: treino é treino, e jogo é jogo. Você percebe a diferença? Treino é treino, e jogo é jogo. Porque no jogo tem outros que não estavam no treino. Outros onze. Para atrapalhar. É uma bagunça”.

Então: esse é o ponto de vista externo de que falei. O olhar de quem percebe a comédia humana transcorrendo por aí em suas deliciosas patetices. Áries, porém, não é um signo cômico nesse sentido. Áries está envolvido no jogo. Pode ser um signo engraçado pela maneira como vive metendo os pés pelas mãos, seja por impaciência ou por ingenuidade, mas vai ser sempre antes um jogador atrapalhado do que um espectador cínico. E os equívocos que eventualmente comete implicam uma vontade de acertar que não encontra rival em nenhum outro signo do zodíaco. Talvez Virgem. Mas a busca pela perfeição virginiana está a serviço do bom funcionamento do cosmos, ou, no mínimo, do bom funcionamento do Estado, do Lar ou do Corpo. A busca ariana pela excelência é em um certo sentido mais pura e intocada. É simplesmente a necessidade de fazer acontecer mesmo.

Por isso, existe algo de extremamente lúcido da parte de quem participa dos jogos. Na ponta da prancha, enquanto prepara o pulo, o atleta de saltos ornamentais não vai nunca pensar “e agora, salto ou não salto?”, ou que tipo de benefício seu salto pode trazer para a sociedade (assim como o artilheiro na cara do gol não vai se perguntar se chuta ou não chuta, às vezes mesmo que esteja na cara do gol errado). O saltador, então, vai apenas dedicar-se de corpo inteiro à execução mais completa do ato, para assombro daqueles que o assistem sabendo que tal e tal giro duplo mortal carpado era até outro dia impossível. É dessa lucidez do corpo que estou falando – da maneira como ele á capaz de se concentrar em uma proeza com total esquecimento de todas as outras questões.

De modo que a dedicação a um feito inédito é algo capaz de mobilizar esse signo. O difícil vai ser encontrar feitos inéditos para realizar no caminho do quarto para a sala e da sala para a cozinha por esses dias. É verdade que o atual esforço coletivo em “achatar a curva” pode motivar alguns arianos a ficar em casa: isso tem lá seu desafio, com a vantagem de ser possível acompanhar os gráficos como quem acompanha as estatísticas de um campeonato. Mas, convenhamos, o que Áries queria mesmo é estar por aí trucidando uns vírus. Dá para imaginá-lo sonhando com cenas em que abre caminho no meio de um exército de coronas com machadadas certeiras e sanguinárias, decepando suas cápsulas proteicas em glorioso furor implacável.

O que não dá para imaginar é Áries tomando cuidados extremos para esfregar com álcool gel aquela partezinha atrás da unha, a não ser que isso seja entendido como uma espécie de batalha. Tudo nesse mundo tem limite; a paciência de Áries nem se fala. A recomendação que fica é a de encararem tudo como uma guerra mesmo. Ou talvez como as Olimpíadas. Lembrando que Áries é velocista de provas curtas, e um ótimo candidato à medalha de ouro em provas como o Declathlon (que, aliás, tem toda a pinta de ter sido inspirado nos doze trabalhos de Hércules), porém não vai tão bem em testes de resistência e de esforço continuado, nos quais se sobressaem Escorpião e Capricórnio.

Maratonar séries no Netflix, portanto, pode não ser a melhor alternativa. Mas basta um pouco de criatividade para encontrar formas de livre exercício do espírito atlético de Áries entre quatro paredes. Recomendo, por exemplo, os Três Metros Rasos na Pista do Corredor, ou o Arremesso Artístico de Papel no Cesto do Lixo, ou, para quem tem filhos, a Corrida de Obstáculos Pulando os Brinquedos Espalhados na Sala. Para quem não tem, um joguinho de dardos bem afiados pode ser interessante. Para acertar bem no centro do alvo, ajuda se você tiver um retrato do presidente.

Outro caminho, enfim, é entender a ressonância mítica de que estão investidos alguns de nossos atos mais cotidianos. A propósito, um dos doze trabalhos de Hércules foi limpar os estábulos de Áugias, rei de Élida, cujo gado produzia uma assombrosa quantidade de esterco. Daí a sugestão: na próxima vez que estiver diante daquela pia de pratos acumulados durante dias, você que é de Áries pode muito bem encarar a tarefa como uma missão heroica. Não se engane com a aparente banalidade da função, pois nosso amigo Hércules também achou o fim aquela história de estábulos. Mas não sabendo que era impossível foi lá e fez – saiba, então, que por trás daquela pilha de louça suja podem estar lhe aguardando a glória e a imortalidade.

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A pílula certa

Leonard Cohen

Tem um poema do Leonard Cohen que começa assim: “Talvez você seja uma pessoa que gosta de discutir com a Eternidade”. Acho que já falei desse poema aqui. Para mim, ele trata da nossa luta constante contra aquilo que não podemos dominar, aceitar, compreender, e que se manifesta em nossas vidas individuais através daquelas contrariedades e frustrações que basta ser adulto para conhecer bem. Esse verso sempre me vem à cabeça quando me vejo submetido a condições que rejeito, mas que são de algum modo inescapáveis. Outra lembrança que surge nessas horas é a de uma fala do The Wire (a série de TV) que inclusive já virou meme: “Você quer que as coisas sejam do seu jeito. Mas elas vão ser de outro jeito [You want things to be your way. But it’s the other way]”.

Nesse momento, em que estamos vivendo a experiência coletiva do incontrolável, e algumas pessoas buscam na astrologia respostas e explicações, confesso que minha percepção das coisas não vai muito além do que está dito aí. Sim, gostaríamos que as coisas fossem de um jeito (sem Coronavírus) mas elas vão ser de outro jeito (com Coronavírus). Por mais que siga todas as instruções mais restritivas em termos de confinamento e contato social (ainda que nosso perverso presidente insista em negar os fatos de acordo com o que lhe parece conveniente, da forma mais mesquinha), de certo modo estou ainda na fase de aceitar. Se a Eternidade tem algum tipo de plano que tornou esse episódio necessário na trajetória dos humanos sobre a Terra é algo que me escapa, enquanto me ocupo com o exaustivo cotidiano de uma quarentena em que por ora não cabe qualquer tipo de rotina. Isso, é claro, considerando ainda que minhas circunstâncias estão longe de ser as mais difíceis.

Essa, então, é somente uma mensagem que eu não queria deixar de oferecer a pessoas que estão em situações complicadas ou desesperadoras no momento. O que eu queria dizer é: procure ajuda especializada. Ninguém está entendendo direito o que está acontecendo, mas algumas pessoas são qualificadas para dar auxílio em situações como essa. É verdade que algumas pessoas são particularmente talentosas ou sensíveis para fazer isso, e há astrólogo/as nessa lista. Mas, se puder, se tiver condições, e um bom contato, recomendo que procure um/a psicólogo/a, ou um/a psiquiatra.

Não é todo mundo que vai precisar. Mas alguns vão. Se você estiver sentindo que vai, deixe marcada uma consulta remota desde já, isso pode fazer a diferença. Antidepressivos, por exemplo, costumam levar cerca de duas semanas para começar a fazer efeito. Com frequência a dose ou a própria medicação acaba sendo alterada nesse intervalo. Não são remédios baratos, mas, em tempos de escolher a dedo os gastos essenciais e os supérfluos, é possível que você os inclua na primeira categoria. O preço das consultas varia, mas um bom psiquiatra não precisa de mais que uma conversa de uma hora tentar uma primeira prescrição.

Sei que para muita gente isso não é novidade, mas nos círculos esotéricos pode haver desinformação sobre isso e o eventual preconceito com a psiquiatria. Não que ela não tenha culpa no cartório. Há estados depressivos que são antes mascarados do que tratados com os remédios prescritos, e não creio que sejam recomendados, por exemplo, para situações de luto ou tristeza dos quais nos recuperamos em um tempo mais ou menos previsível. No entanto, parece-me que a situação de agora tende a torná-los bastante úteis, uma vez que funcionam melhor no médio prazo do que os ansiolíticos, e, até onde entendo, causam menos dependência.

Por outro lado, tanto para o curto quanto para o longo prazo, a prática da meditação é sempre recomendada. Inclusive para quem estiver se medicando, ou sobretudo nesses casos, pois ela pode se tornar o substituto ideal para o efeito do remédio quando a dose for diminuída ou suspensa. Um pouco como nesse outro poeminha do Cohen que deixei aí na imagem. Eu poderia perfilar nomes de livros e links para quem quiser começar, mas costumo perceber que isso acaba tendo o efeito inverso em muita gente: com tantos livros para ler e vídeos para assistir com técnicas e fundamentos tão diferentes, o indivíduo acaba chegando à conclusão de que se trata de um negócio infinitamente complicado, e que não existe nenhuma chance de ele fazer aquilo do jeito certo. Então a única coisa que você precisa saber é: não existe jeito errado de meditar.

Isso não é modo de dizer. Não é frase de efeito. Simplesmente é assim. Você cruzou suas pernas, puxou o ar, soltou o ar, sentiu uma espécie de leveza ao perceber como é bom soltá-lo, pensou “gente que bom meditar mas pera esqueci de ligar pra mamãe e a compra do supermercado disseram que tá levando três semanas pra entregar não deve ter gente suficiente aquela moça do caixa da padaria coitada o filho dela é asmático a gente devia ajudar mas e a nossa conta da farmácia é fralda todo dia tem comprar fralda aliás vou ligar pra farmácia agora logo de uma vez”. Você se levanta, vai ligar para a farmácia. Parabéns, você meditou.

Da próxima vez é só fazer a mesma coisa por um pouco mais de tempo, se tiver um tempinho pra isso. E perceber como toda vez que você solta o ar há durante um nanosegundo o mais absoluto alívio dessas preocupações todas. Por esse instante é como se nada disse existisse. Trata-se então de valorizar esse alívio, reconhecer que ele é tão verdadeiro quanto a outra parte. Mas já estou me estendendo além da conta, e a coisa já pode ter começado a parecer mais misteriosa e sobrenatural do que é. Meditação, em resumo, é respiração. Você medita o dia inteiro enquanto faz um monte de outras coisas. O dia inteiro você passa se lembrando e se esquecendo das coisas. O que você pode fazer além disso é separar um momento do dia para ficar só meditando mesmo.

Quanto à astrologia, nada impede que uma consulta ou uma boa conversa sobre o assunto venha a ter um papel benéfico agora. Sobretudo por seu caráter lúdico, e sobretudo para quem tiver a sorte de estar sofrendo de tédio, ou quem quiser inserir na história da seu confinamento um diálogo a respeito de nosso lugar no cosmos e os movimentos planetários do momento (em contraste com nosso lugar na casa e nossos movimentos entre a sala, o quarto e o banheiro).  Só acho que esperar dela explicações ou soluções nas atuais circunstâncias é muito mais do que tem a oferecer. O que ela pode fazer, além de dar outras formas simbólicas de narrar a experiência histórica ou cotidiana, é reforçar a percepção de que determinadas decisões foram mesmo acertadas. Como, por exemplo, ao identificar que aquela psiquiatra que você procurou e que te receitou um remédio tem tudo para ser uma personificação de Quíron em sua vida.

Isso dá para a gente fazer (sobre Quíron, a propósito, já escrevi algumas vezes, mas, nesse contexto da discussão sobre práticas terapêuticas, especificamente aqui). De minha parte, ainda não consigo inserir atendimentos na agenda, mas, dependendo de como andarem as coisas, vou abri-la pelo menos para os sábados. De todo modo fico feliz que um ou outro amigo tenha me escrito perguntando qual era minha perspectiva sobre os acontecimentos atuais. Repito: acho que não estamos na parte de entender (não no sentido existencial, metafísico, astrológico, ou mesmo sociológico do processo), mas no momento de aceitar, agir para minimizar os danos, e tentar reorganizar um pouco o que saiu demais dos eixos. Ao mesmo tempo, antes de tentar retomar o controle da situação pela via do entendimento, acho que é o caso de permitir que ela nos transforme por meio dos sentimentos que podem surgir no caminho.

Por isso, qualquer leitura no sentido de “isso está acontecendo porque” ou “isso está acontecendo para que” tira um pouco a voz do isso que está acontecendo e tem força própria e seu jeito de fazer as coisas. Qualquer uma dessas frases faz parte daquela velha discussão com a Eternidade, que inclui as ultrajadas perguntas a respeito da mania que ela tem de contrariar nossos planos e desejos. Talvez por aí se justifique também uma certa reticência na busca por tratamentos imediatos. Naquele mesmo poema, porém, Cohen considera que “após muito tempo, as respostas para essas questões tendo gotejado de baixo para cima a partir do fundo do seu estômago, ou para baixo a partir do topo do seu chapéu, ou depois que te prescreveram, afinal, a pílula certa”, algo de substancial mudará em sua postura. E talvez você até pare de se envolver em discussões sem sentido com quem quer que seja.

Leonard Cohen, enfim, além de músico e poeta, foi monge budista por uns tempos, foi sempre aficionado por práticas esotéricas e místicas, mas nunca deixou de tentar medicamentos para atenuar a depressão de que sofria desde a juventude. Essa é uma história interessante que contei nesse post aqui. Agora, queria apenas lembrar esse detalhe da pílula no poema, na esperança de cada um de vocês encontre a pílula certa agora – seja ela um remédio mesmo, uma rotina de meditação, ou uma consulta astrológica, ou a leitura de poemas e romances, ou convívio fraterno com as pessoas próximas, ou contato solidário com as distantes.

Infelizmente, ainda assim haverá muita gente para quem nada disso será suficiente ou sequer razoável, por razões econômicas, políticas ou psíquicas mesmo. Mas, no geral, e individualmente (cada um sabe onde o calo lhe dói), recomendo que não excluam nenhuma possibilidade de tratamento ou ajuda. É só considerar que cada uma delas é recomendada para casos diferentes, e que situações de maior emergência podem exigir intervenções profissionais competentes e provisórias. De todo modo, sempre que puder ajudar em alguma coisa, contem comigo. Estarei aqui.

peixes

Cem anos de piscianos (e os peixinhos do Aureliano)

[Ilustração: Luisa Rivera]

Algumas semanas atrás fiz aqui uma enquete literária. Escolhi dois autores de cada signo e pedi para votarem na dupla que merecia um texto. Ganhou Peixes, com Gabriel García Márquez e Philip Roth. Foi aí que decidi reler Cem Anos de Solidão (é verdade que a releitura teve também outro motivo, mais inusual ainda; é que, no ano passado, como alguns de vocês sabem, minha mulher e eu tivemos um filho chamado Gabriel; o autor colombiano – e não o artilheiro do Flamengo, como em outros casos da mesma geração – foi um dos argumentos que tive para emplacar esse nome; ela a princípio queria Francisco, mas tive que alertá-la que um filho chamado Francisco Franco não ficaria bem, por causa do ditador espanhol; e eu queria que ele tivesse o mesmo sobrenome do irmão mais velho – do meu primeiro casamento –, não fosse isso ficaria feliz em usar o sobrenome da minha família materna, Naves, como ela fez com o dela; daí ele acabou se chamando Gabriel Siman Franco, mas nascendo geminiano e no dia do aniversário do Francisco Buarque de Hollanda, o Chico, o que funcionou como uma espécie de compensação).

Pois bem. Cá estava eu aqui relendo o livro do Gabriel pisciano quando começaram a chegar as notícias mais impactantes a respeito do Coronavírus, e pouco depois iniciou-se o período de reclusão daqueles que podem permanecer em casa. Antes de continuar devo dizer que estou no mínimo tão preocupado com a situação quanto a maioria de meus conhecidos. Até mesmo em pânico dependendo da hora do dia e das notícias que chegam, e exausto com as exigências das circunstâncias extraordinárias. Por isso mesmo esse blog, que completou um ano de vida essa semana, tornou-se mais do que nunca um passatempo valioso e uma distração conveniente. Enquanto escrevo essas linhas o número de casos deve ter aumentado em números amedrontadores, mas não vai dar para passar as próximas semanas acompanhando em tempo real o número de casos.

De modo que, para além das funções compartilhadas de cuidar da casa e cuidar do bebê, das horas dedicadas ao trabalho remoto e a manter contato com amigos e familiares, vou tentar continuar postando enquanto/se tiver condições. E devo continuar relendo Cem Anos de Solidão. Quem conhece o livro pode imaginar os sentimentos ambíguos que venho tendo com a narrativa nos últimos dias, nos poucos momentos em que foi possível continuar a leitura: por um lado, o mais puro prazer da experiência de um estilo que nos permite mergulhar em um mundo à parte em sua luxúria poética e imaginativa; por outro, a eventual sensação de que há algo de distópico no realismo fantástico de García Márquez, assim como há algo de realismo fantástico na distopia que estamos vivendo.  

O que tem me chamado a atenção é sobretudo como os eventos que afetam os personagens do romance têm um caráter coletivo e inescapável para as gerações que os enfrentam. As pestes, as inovações científicas, as transformações políticas, os eventos econômicos: tudo isso é relatado de tal forma que nos deslumbramos com a invenção do gelo, por exemplo, tal como foi experimentada por um Buendía, mas os Buendía não deixam nunca de ser uma metonímia de todo o universo do romance, que é não apenas Macondo, mas também a nação onde acontecem as insurreições armadas lideradas pelo primeiro Aureliano, a região caribenha para onde fogem os insurretos perseguidos pelo governos conservador, o grande mundo de onde veem os árabes da Rua dos Turcos e do qual afinal chegam os funcionários gringos da companhia bananeira.

Há algo de ambivalente na maneira como esses episódios têm algo de histórico e de mítico. O crítico Roberto González Echevarría matou a charada em um dos mais respeitados livros sobre a literatura latino-americana: Cem Anos de Solidão é mito e arquivo, é invenção e memória, é um delírio exuberante de um cigano louco e também a realidade dura de um exército sanguinário que atira sobre a multidão grevista na praça central da cidade. É pleno de vida embora seja o tempo inteiro atravessado por incontáveis mortes; trata de dores infinitas e sofrimentos dilacerantes, mas com uma beleza que encanta e inebria; é um romance populoso sobre uma casa onde as pessoas vivem amontoadas e aos berros – e nem pode isso deixa de ser um romance de ásperos silêncios, nem por isso deixa de ser um romance sobre a solidão.

Há lutos que se emendam com outros lutos. Há uma chuva que dura quatro anos, onze meses e dois dias, e que deixa a cidade em ruínas, “desmantelada”, com “esqueletos de animais cobertos de lírios colorados”. Há a epidemia da insônia, há toques de recolher, há fuzilamentos na calada da noite. A viúva Rebeca Buendía passa décadas sozinha esquecida dentro da casa onde vão morrer os pássaros. Reclusão, confinamento e quarentena são palavras que aparecem no romance o tempo inteiro. Por isso, e um tanto curiosamente, minha experiência de reler o livro agora acabou sendo não exatamente de fuga da realidade imediata em direção a um mundo fantástico, e sim de encontro com uma realidade que estava desde sempre na Macondo de García Márquez, e que agora me parece muito mais palpável e factível.

No entanto, embora não seja uma experiência escapista, não deixa de ser uma experiência de (re)leitura com características piscianas. Mesmo considerando tudo isso, continuo me deixando levar pelas imagens oníricas que perpassam a narrativa, como que submergindo em um oceano de adjetivos tão exatos quanto abundantes, na deliciosa tradução de Eric Nepomuceno. Tem também a questão dos nomes: chega uma hora em que a gente não sabe mais exatamente de qual Aureliano ou de qual José Arcádio o narrador está falando, mas aí isso já nem importa muito, pois o estilo de García Márquez nos convida à vertigem dos nomes como se nos envolvesse em um sonho onde os detalhes sobre quem é quem já não fazem tanta diferença. E essa lânguida entrega à leitura, àquilo de Coleridge chamou de “suspensão da descrença”, acontece em Cem Anos de Solidão tal como acontece no âmbito do arquétipo de Peixes, pois é nele que habitamos universos paralelos onde os limites entre a realidade e ficção ficam totalmente borrados.

Acho que é aí que Gabriel García Márquez e Philip Roth se encontram. Roth é também um autor envolvente, que se espalha em extensas frases perfeitamente arrematadas com um engate exato na frase seguinte. Lembro do prazer que senti ao ler Pastoral Americana ou A Marca Humana, por exemplo. Muitas vezes os fatos narrados eram terríveis, ou ultrajantes, ou repulsivos, porém isso era feito de tal maneira quo o terrível e o ultrajante e o repulsivo podiam prosseguir indefinidamente, no que dependesse da vontade do leitor, tal seu poder de entretenimento. Difícil encontrar dois autores tão grandiosos nesse sentido. Aliás, uma coisa que me chamou a atenção qu ando escolhi esses dois para Peixes na enquete é que somente esse signo estava representado por escritores tão enormemente reconhecidos por público e crítica, em função das imensas obras que construíram.

Em tempos como estes, portanto, mergulhar de cabeça em um romance de Roth ou de García Márquez é recomendável. Eu pelo menos recomendo. Mas saiba que ao explorar esses oceanos você pode dar de cara com passagens que vão te trazer de volta para tempos como esses. Peixes é também sobre essas passagens, esses limiares, além de ser especificamente o arquétipo que trata da questão da reclusão e do confinamento (os personagens arquetípicos de Peixes – o monge, o doente, o louco, o viciado – com frequência vivem em estado de afastamento voluntário ou forçado de todo contato social). Além disso, Peixes, como já devo ter dito aqui algumas vezes, é sobre estar sujeito a forças que não podemos controlar.

Agora, se eu fosse me ater a um detalhe de Cem Anos de Solidão, sem dúvida seriam os peixinhos de ouro do coronel Aureliano Buendía. Refrescando a memória: antes e depois de ter promovido “trinta e duas rebeliões armadas, escapado de catorze atentados, setenta e três emboscadas e um pelotão de fuzilamento”, o coronel permaneceu longos anos trancado na oficina que foi de seu pai e depois do cigano Melquíades, produzindo peixinhos de ouro que trocava por moedas de ouro, para então fundir as moedas e vender os peixinhos forjados a partir delas. O aspecto cíclico da atividade é ressaltado a princípio como um indício dos vãos esforços que marcam a trajetória dos Buendía, enquanto Úrsula, a matriarca da família, volta e meia se vê diante do comportamento de algum Aureliano ou algum José Arcádio que parece reproduzir padrões de conduta dos antepassados. “É como se o mundo estivesse dando voltas”, ela repete mais de uma vez no livro.  

No entanto, essas recorrências guardam um segredo e um mistério. Peixes é também sobre como não somos tão diferentes de nossos antepassados como acreditamos ser. Somos novas manifestações do mesmo material a partir do qual se proliferam infinitamente as vidas humanas, como as ondas que quebram ininterruptas e abundantes na praia são sempre novas manifestações do mar, que não se desprendem nunca da matriz a ponto de estarem completamente separadas dela. Os peixinhos de Aureliano são um símbolo disso. E não são peixinhos por acaso.

Para terminar, lembro que em Aion: estudos sobre o simbolismo do si-mesmo, C. G. Jung investigou as múltiplas reiterações e ressonâncias de imagens piscianas no inconsciente coletivo durante os últimos dois mil anos, isto é, durante a Era de Peixes. Se fôssemos complementar esse estudo hoje, ele não estaria completo sem os peixinhos de ouro que encontramos na obra de García Márquez. Afinal, o símbolo trata da maneira como as vidas individuais se veem mergulhadas nos mares da história e da memória, sujeitas às marés dos tempos e às intempéries das correntes subaquáticas.

De todo modo, espero que a gente passe por essa de agora sem ter que enfrentar as infindáveis dores e os permanentes lutos de que se ocupam os personagens do autor colombiano. Que tenhamos constância dos Aurelianos, a força das Úrsulas, a pertinácia dos Josés Arcádios, a tenacidade das Amarantas. Que sejam alguns meses apenas, que tenhamos uma segunda chance sobre a Terra. E que esse período, se possível, não seja atravessado por ninguém na mais completa solidão.

Todos os signos

Organização Zodiacal da Saúde: arquivos confidenciais

Em um incrível furo de reportagem, LUAS DE JÚPITER obteve acesso exclusivo a um dos documentos mais sigilosos envolvendo o novo Coronavírus. Optamos por reproduzi-lo na íntegra. Te cuida, Glenn Greenwald.


ATA DA QUINQUAGÉSIMA NONAGÉSIMA TERCEIRA REUNIÃO EXTRAORDINÁRIA DA ORGANIZAÇÃO ZODIACAL DA SAÚDE, REALIZADA NO DIA CATORZE DE MARÇO DE DOIS MIL E VINTE.

Às quinze horas do dia catorze de março de dois mil e vinte reuniram-se na sala 502 do edifício-sede da Organização Zodiacal da Saúde em Genebra, Suíça, os doze delegados de cada signo do zodíaco convocados em caráter de urgência para tratar de pauta única referente à pandemia do Novo Caronavírus. O delegado do signo de Capricórnio, sr. Augusto Cabreiro, pediu a palavra: “Caríssimos senhores, caríssimas senhoras. Encontramo-nos hoje reunidos nesses imponentes recintos em função da iminente crise que se avizinha. Desde tempos imemoriais dos quais bem me lembro a humanidade tem sido vítima dos mais diversos tipos de pestilências, mas tudo indica que em questão de dias estaremos diante de um inédito desafio para nossos recursos e capacidades enquanto coletivo anônimo de cidadãos historicamente imbricados na projeção de um futuro de águas turbulentas…”. O representante do signo de Áries, sr. Fikannu Sensaku, interveio: “Ele tá dizendo que vai dar merda”. O sr. Cabreiro retomou a palavra: “Sim. Estou me referindo à possível catástrofe que com alguma relutância classificaria de acordo com a síntese do colega Sensaku, porém creio que não devemos nos deter em dissonâncias, para encontrar possíveis pontos em comum no enfrentamento da doença”. Os presentes assentiram. A delegada do signo de Libra, sra. Justine Labelledejour, ponderou que justamente por isso em sua opinião mas em sua opinião e só em sua opinião mesmo o Novo Coronavírus poderia talvez quem sabe ser convidado para um encontro diplomático com autoridades mundiais em que lhe seriam apresentados argumentos matizados e convincentes para que se detivesse em sua sanha contaminante, recebendo em contrapartida honrarias antes só outorgadas a chefes de estado, de modo que tudo pudesse ser enfim resolvido em um elegante jantar de confraternização no Palácio de Versailles. Ao ouvir a palavra jantar, o delegado do signo de Touro, sr. Couves do Azeitão, que até então dava sinais de sonolência, despertou. O sr. Sensaku interveio mais uma vez: “Pessoal, é só a gente começar incorporar o hábito de lavar as mãos antes e depois das refeições. Pronto. Resolvido? Já pode ir embora?”. O sr. Azeitão ponderou que isso implicaria eventualmente um gasto insustentável de recursos hídricos, uma vez que era só fazer as contas para perceber que lavar as mãos antes e depois das refeições levaria à necessidade de que cada indivíduo lavasse as mãos cerca de vinte e duas vezes por dia. Enquanto isso, a delegada do signo de Virgem, sra. Imaculatta Condoisttê, se levantou com o semblante escandalizado e dirigiu-se aos presentes em tom de indignação: “Como assim, incorporar o hábito de lavar as mãos? Qual era o procedimento adotado antes?”. Seguiu-se um longo e constrangido silêncio, enquanto a sra. Condoisttê lentamente se afastava dos demais representantes e retirava da bolsa um frasco de álcool gel. Diante do risco de dissenção aberta e dissolução da câmara deliberativa, o sr. Cabreiro enfatizou que não era hora de questionar ações passadas, nem de perder tempo com detalhes inexpressivos, e sim de realizar ações efetivas que contribuíssem para interromper o fluxo do contágio. Em resposta, a delegada do signo de Câncer, sra. Tadi Nhaa Dimin, afirmou com meiguice: “Estou plenamente de acordo no que se refere às ações afetivas”. O sr. Cabreiro corrigiu: “Eu disse efetivas”. A sra. Nhaa Dimin prosseguiu, dessa vez com certa rispidez: “Que seja. Ainda assim queria registrar meu desalento com o fato de que, diante dessa epidemia do Novo Coronavírus, o Velho Coronavírus foi esquecido, abandonado, negligenciado, não se fala mais nele, não se reverencia mais sua memória.” O sr. Sensaku interveio irritado: “Puta que pariu, haja paciência, reverenciar vírus, era o que faltava. Se o problema é esse é só chamar de Covid-19. Já podemos ir embora?”. A sra. Labelledejour se mostrou desconfortável com a admoestação brusca e o linguajar baixo, enquanto a sra. Nhaa Dimin respondia: “A que ponto chegamos, já não existe respeito nem pelo nome da família da pobre criatura virótica!”. O sr. Cabreiro sentiu-se na obrigação de encaminhar o debate novamente em um sentido responsável e produtivo: “Senhores, senhoras, acalmem-se. Reitero a necessidade de definirmos as ações que podem ser executadas para alcançar nossos objetivos, como, por exemplo, a suspensão de jogos, espetáculos teatrais, shows musicais e performances públicas de qualquer natureza.” A sra. Luz del Fuego, delegada do signo de Leão, que se encontrava entretida com a postagem de selfies através do celular, riu e disse peremptoriamente, sem tirar os olhos do aparelho: “Nem morta, fofo. Nem morta”.  Ninguém ousou replicar. O sr. Cabreiro conteve o desespero que começava a se revelar em sua face, e retomou a palavra com tenaz perseverança: “Bom, acho que devemos ao menos recomendar que certa distância entre os corpos seja mantida. Que o contato humano mais direto seja evitado a partir de agora”. A sra. Condoisttê, que a essa altura acompanhava a reunião remotamente, dirigiu-se aos presentes com um semblante aterrorizado através da tela de videoconferência: “Como assim, evitar o contato humano mais direto a partir de agora? Qual era o procedimento adotado antes?”. No entanto, a delegada do signo de Escorpião, sra. Indhira Khama Sutra, que até então encontrava-se perscrutando o ambiente com um penetrante silêncio, pontuou de modo ambíguo e misterioso, enquanto mantinha o olhar fixo na sra. Luz del Fuego: “Ah, sim, claro. Evitar o contato humano. Contato. Humano. Acho que devemos continuar essa discussão depois que a reunião terminar”. A sra. Condoisttê apagou a tela da videoconferência após exibir uma última expressão de pânico. O encontro parecia ter chegado a um carregado impasse. Até que o delegado do signo de Aquário, sr. Ezqzwit Ezqzwitsson, se manifestou na bem intencionada tentativa de salvar a empreitada: “Bom, não sei se entendi direito a proposta da sra. Sutra, mas sou a favor de continuarmos a reunião. Aliás acho que devemos fazer outras reuniões, muitas reuniões, o destino da humanidade está em nossas mãos. De mãos dadas podemos fazer mais! Ninguém solta a mão de ninguém!”. E deu as mãos para os colegas de ambos os lados, o sr. Cabreiro e o sr. Tokantanus Nachuvas, delegado do signo de Peixes. Nenhum dos dois correspondeu ao gesto. O sr. Sensaku resumiu o sentimento geral: “Pegar na mão não pode. Ninguém pega na mão de ninguém. Aliás não devia poder nem ter esse tanto de gente junta na mesma sala. Essa reunião era pra ser um email. Já pode ir embora?”. Houve uma espécie de assentimento geral, que pareceu mais devido ao cansaço do que à satisfação com os resultados obtidos. Até mesmo o sr. Cabreiro parecia disposto a capitular. Porém, enquanto isso, foi observado que o sr. Nachuvas permanecia com um ar de divagante dispersão desde o início do encontro, e que no seu caso a falta de ressonância em relação ao gesto do colega aquariano teria acontecido mais por desatenção do que por razões sanitárias. “Sr. Nachuvas”, disse o sr. Cabreiro, demonstrando uma última esperança, “o sr. não teria por acaso alguma espécie de sugestão criativa e inusual sobre como procedermos nesse caso do Coronavírus?”. “Coronavírus?”, respondeu o sr. Nachuvas. “Ai, desculpa, gente, achei que essa era a reunião do G-20”. Na sequência soltou um espirro. Enquanto o sr. Nachuvas assoava o nariz com um lencinho ao deixar a sala, houve grande azáfama entre os delegados. Alguns recolhiam seus pertences sem que a reunião tivesse sido oficialmente encerrada, o que motivou um último esforço do sr. Cabreiro no sentido de determinar alguma medida concreta: “Enfim, vocês não acham que devemos recomendar às pessoas que fiquem em casa?”. A sra. Nhaa Dimin respondeu: “Sim, claro! Ficar em casa! Apoiado!”. O sr. Cabreiro se empolgou: “Vocês não acham que certo isolamento é necessário?” O sr. Sensaku repercutiu: “Sem dúvida! Isolamento total! Apoiado!”. O sr. Cabreiro não se conteve: “Podemos então divulgar um comunicado dizendo que está tudo sob controle? De que foram estabelecidos limites para a disseminação da doença?”. Nisso foi ouvida a risada do sr. Massimo Destempero, delegado do signo de Sagitário, que geralmente tem essa reação sempre que ouve falar sobre controle e limites. Como o regimento da organização prevê que a gargalhada do sr. Destempero invalida quaisquer decisões previamente tomadas em uma reunião, mais uma vez terminamos sem nenhuma definição, como aliás costuma acontecer em nossas reuniões, para frustração do sr. Cabreiro. Em tom de derrota, antes de ir embora ele me instruiu a emitir para a população vagas orientações gerais sobre os riscos do contágio através de fluidos salivares, instruções essas que, a julgar pelos sons que chegam da sala ao lado, já não estão sendo cumpridas pelas próprias sras. Sutra e del Fuego. O sr. Azeitão parece também participar da brincadeira cumprindo um papel que eu não saberia definir a partir dos barulhos. Sem mais assuntos a tratar, foi lavrada essa ata, assinada por mim, Billy Bo Bagen, delegado do signo de Gêmeos, e só por mim mesmo, porque a essa altura os demais delegados foram embora com pressa e sem cerimônias. Sei que de minha parte deveria levar mais a sério o risco de contágio, até porque agora há pouco o sr. Nachuvas retornou espirrando e perguntando se é aqui a reunião do G-20, mas no dia que eu conseguir levar realmente a sério alguma coisa vocês podem saber que me trocaram de corpo com o sr. Cabreiro. Aliás o próprio me ordenou que eu mantenha esse documento do mais absoluto sigilo. Afirmei que ia obedecê-lo com rigor, só para me livrar dele mesmo, porque sem dúvida vou acabar contando tudo para o primeiro jornalista que me aparecer quando sair daqui. É a vida.