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O lugar bom

Essa postagem é para quem assistiu ou está assistindo The Good Place, a série da NBC que estreou em 2016 e terminou em 2020 (tem na Netflix). Vi o último episódio esses dias, e série tem esse negócio de a gente ficar com saudade dos personagens. Então – prometo não estragar o final para ninguém, pelo menos não para quem já passou da primeira temporada – me deu vontade de explorar um pouco mais a brincadeira dos signos com eles. A propósito, já mencionei o Michael (Ted Danson) em um texto sobre Capricórnio, e indiquei a Eleonor (Kristen Bell) para o Oscar do zodíaco que propus uma vez aqui, na categoria Personagem de Áries. A essa altura, estou convencido de que ela merece o prêmio.

Isso porque ela é uma ariana que vai ficando mais suave no decorrer da série, menos tensionada no confronto com o mundo, e, por mais que esse seja um caminho esperado em uma narrativa cômica convencional, ela nos convence de que isso é possível. Não é só porque aprende a falar palavrões com certa civilidade (tipo “holy fork!”, eventualmente traduzido por “fruta que caiu!”); ela faz com que seja verossímil uma heroína de Áries do bem, na medida do possível, é claro. De todas as transformações que vemos no decorrer das temporadas, para mim a dela é a mais notável. Não quer dizer que fique menos ariana, pois conheço muita gente desse signo que já parte desse lugar em que o restante da humanidade não é visto apenas como uma ameaça, e sabe que dá até para conviver com gente, às vezes até gosta. Em se tratando de Áries, já é bastante coisa.

Chidi (William Harper), por sua vez, é o clássico libriano que precisa aprender a tomar decisões. Não por acaso é o par oposto-complementar de Eleonor. Mas acho interessante que seja um filósofo. É comum as pessoas acharem Libra um signo romântico, mas a gente sabe como eles conseguem ser incrivelmente frios e cerebrais. Falta-lhes o fogo das paixões leoninas, o poço dos sentimentos escorpiônicos, a sensibilidade ao ambiente de Touro ou Virgem. É lógico que nessa perspectiva falta um traço de Libra também todos os outros arquétipos, e falta mesmo. Sobretudo quando a gente conhece um libriano que, não obstante sua librianice, e inclusive por causa dela, sabe decidir que sobremesa escolher depois de colocar todas as opções na balança.

Jason Mendoza (Manny Jacinto) é um caso singular. Peixes, sem dúvida. O interessante é que ele é pisciano tanto em sua versão de mentirinha quanto depois que ficamos sabendo quem ele realmente é após os episódios iniciais da série. Nesse caso acho que não conta como spoiler porque a coisa se revela logo ali no segundo ou terceiro capítulo: ele passa de um monge tibetano de olhos puxados que vive à base de meditação e água fresca para um morador da Flórida de origem filipina de olhos puxados que vive à base de todo tipo de porcaria e pequenos roubos de gasolina. Embora o monge seja um personagem típico do arquétipo de Peixes, a versão verdadeira de Jason é até mais pisciana que a outra.

O legal é que ele não deixa nunca de ser um personagem ingênuo e encantador. Avoado, iludido, totalmente incapaz para os assuntos práticos da vida, mas nunca menos “espiritualizado” que sua versão monástica, mesmo quando se lembra do dia que passou atirando em ratos no lixão de Jacksonville com um primo de Blake Bortles. Porque ele espera ser aceito pelo mundo da mesma maneira como o aceita, e representa o papel do bobo em tudo o que tem de plena receptividade e espelhamento do mundo ao redor. Além de ser engraçado, é claro. Tem uma cena, por exemplo, em que está todo mundo dando opinião ao mesmo tempo sobre algum problema, aí ele entra e dispara a falar um monte de coisas nada a ver. Quando perguntam o que deu nele, responde: “Sei lá, estava todo mundo falando junto achei que era para eu falar também”. Tipicamente pisciano.

Quanto à Tahani (Jameela Jamil), aí já fico na dúvida. Ela tem a rivalidade geminiana pela atenção dos pais com a irmã, mas não tem agilidade de raciocínio de Gêmeos; participa do encanto leonino com o universo das celebridades, mas falta-lhe magnetismo e confiança para ser ela própria uma Leoa. No final das contas, fico achando que é de um signo de Terra. Mas nesse caso estou disposto a aceitar ajuda, então se alguém aí tiver um opinião a respeito pode falar. Vejam só que coisa bizarra estou me tornando: uma capricorniano que admite que não sabe uma coisa e até pede conselho pros outros. Tipo o Michael.

Voltando então rapidamente ao Michael: o engraçado é que, além de ser uma figura evidentemente capricorniana em sua função de gerenciar a coisa toda e saber tudo a respeito de tudo, ele a princípio tem ainda aquele traço de Capricórnio que não aceita a necessidade de ajuda. Precisa estar sempre no controle, sem precisar nem do palpite de mais ninguém. É lógico que isso já vai mudando a partir da segunda temporada, vai ficando mais claro como na verdade tudo o que ele precisa (e no fundo quer) é assumir a forma falível e imperfeita dos humanos. É muito exaustivo isso de se responsabilizar pelo universo o tempo inteiro. Algo semelhante poderia ser dito de muitos capricornianos. 

E tem a Janet (D’Arcy Carden), é claro. A Janet é um caso à parte. Aí eu perguntei pro pessoal da internet qual é o signo da Janet, e a resposta que mais me apareceu foi Virgem. Eu respeito essa posição e até entendo. Ela tem um gestual contido e um jeito de se vestir que são bem virginianos. Ela presta um serviço inestimável, aparece sempre que alguém precisa de alguma coisa, é uma funcionária exemplar do cosmos e e nem humana ela é. Pra muita gente, isso é mais que suficiente para cravar: virginiana.

Mas eu sou Capricórnio com ascendente em Escorpião, então quando peço conselho ou palpite pros outros vocês podem suspeitar que é só jogo de cena. Já formei minha opinião há tempos e nada me fará arredar dela. Acho que os gestos controlados e aparentemente metódicos da Janet têm mais a ver com fato de que ela não tem muita familiaridade com a forma humana que assumiu. Aí vocês precisam que considerar que, quando a gente fala que Virgem não é muito humano, isso é mais num nível metafórico; é lógico que não é literal. Tem só um signo que corresponde a essa característica sem precisar de licença poética. Tem só um signo de gente que veio de outras galáxias e está ainda se acostumando a viver entre nós.

Pois então: Aquário. Em primeiro lugar, exatamente por isso, porque nem humana ela é. Digo isso na certeza de que os aquarianos queridos do meu coração vão entender como um elogio: tipo, você nem é humano, você é uma Janet. E, como se não bastasse, ela é capaz de prover os humanos com aquilo que normalmente é reservado aos deuses, como fez Prometeu, protagonista do mito mais significativamente aquariano. O fato de que vai acabar se apaixonando por uma pessoa de carne e osso, e conhecer um pouco mais os desejos do corpo que a princípio lhe é estranho – isso também acontece com frequência no âmbito do arquétipo de Aquário. E a maneira como a mente dela se conecta como uma espécie de supercomputador a tudo o que acontece no universo só me faz ter mais certeza do meu ponto.

Para terminar, ufa, tem a série como um todo. Estreou em 19 de setembro de 2016. Essa sim é, portanto, virginiana. Para mim faz sentido: a narrativa costuma ser até bem metódica em sua sobreposição de universos como se fossem bonecas russas, mesmo quando flerta com o caos. Agora, eu apostaria que existe alguma coisa ali que articula muito bem Sagitário e Touro. Talvez a Lua no primeiro, o ascendente no outro. Pois o pano de fundo é sagitariano, de modo que toda a brincadeira é organizada em torno de uma indagação sobre o sentido da vida e a finalidade da existência. Ela pode não alcançar muita profundidade nesse sentido; mas isso, pelo menos para mim, não é necessariamente uma falha ou deficiência. É aí que entra a perspectiva taurina.

Pois, no final das contas, após as milhões de referências a Kant e Heidegger e Pascal, a série acaba recorrendo ao pensamento oriental para dar uma última resposta provisória ao enigma do existir. Sobre esse aspecto dos últimos episódios, sem entregar o enredo, vou me permitir uma pincelada, até porque o recurso é mais que previsível, e não apenas pelo andamento da série, mas pela própria linguagem seriada de que ela é um bom exemplo. A ideia de que o “fim” pode ser infinitamente postergado para uma outra temporada – e de que podem existir mundos infinitos dentro de infinitos mundos – faz, curiosamente, com que o momento presente seja mais valorizado. Se a própria morte não é conclusão de um processo, mas faz parte de um conjunto incessante de ciclos, não tem porque você se afligir com uma finitude ilusória, e você pode muito bem encontrar o infinito que existe contido no agora.

Buda, como já disse aqui vez ou outra, para todos os efeitos era taurino. Seu aniversário é comemorado no dia 07 de maio. Isso para mim está relacionado não apenas à paciência e à perseverança, mas também à capacidade que Touro tem de aproveitar as coisas boas da vida. Digo, aquelas coisas materiais e momentâneas mesmo, como uma boa refeição, um bom vinho, uma boa companhia ou a simples possibilidade de respirar fundo um ar puro e tranquilo. É por isso que para mim a série termina onde começa a grande lição de Touro para nós. Que é um pouco a lição de Buda também. Não saia daí. Respire. Aproveite a vida. Aproveite o momento. O lugar bom é onde você está.

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O segredo de Virgem

Edward Hopper | Sun in Empty Room (1963)

Pode parecer exagero. Mas juro que fiquei constrangido quando contei para meu orientador o que estava querendo pesquisar no doutorado. Na época estava terminando o mestrado sobre a obra de Julio Cortázar, um autor argentino, e para a sequência estava pensando em fazer um projeto sobre outro autor argentino, Jorge Luis Borges. Minha Lua em Gêmeos tem uma repulsa instintiva a qualquer tipo de especialização, e aquela coincidência na questão da nacionalidade aconteceu a contragosto. Mal sabia eu na época que não estaria apenas me especializando na literatura de um país, estaria também me especializando em um arquétipo do zodíaco. Foi quando preparei a enquete sobre escritores e signos que percebi; eu não tenho apenas Saturno em Virgem; tenho mestrado e doutorado em Virgem também.

É verdade que, de todos os signos, Virgem foi um dos que me criou mais dificuldades na hora de escolher uma dupla para a enquete, pela quantidade de bons autores virginianos (ou de autores de minha preferência) que encontrei na minha pesquisa (os outros foram Escorpião e Aquário). Se escolhi Borges e Cortázar, portanto, deve ter sido mesmo para facilitar um pouco minha tarefa, aproveitando as investigações já realizadas. Por outro lado, por mais que eu conheça bem as obras de ambos, não estou achando a tarefa nem um pouco fácil, agora que eles ficaram entre os primeiros lugares na votação. Sim, Borges e Cortázar tiveram em comum o fato de serem argentinos e virginianos, mas as maneiras como uma coisa e outra aparecem em seus textos não poderiam ser mais distintas, aparentemente opostas inclusive. Deixemos a questão nacional para o âmbito dos estudos acadêmicos. Vamos enfocar aqui o problema do virgianismo.

O caso de Borges é mais simples, embora nos leve a uma faceta menos conhecida para quem o identifica como um autor de narrativas fantásticas e complexas. Pois ele nunca deixou de ser um bibliotecário, e a biblioteca, como espaço organizado e devotado à prática silenciosa da leitura, é certamente um espaço virginiano. Não por acaso Borges tratava bibliotecas como uma espécie de templo onde se sentia totalmente em casa, e imagino que, como as sacerdotisas que cuidavam da localização correta dos implementos sagrados nos templos dedicados ao Sol no Egito antigo, ele pensava a disposição dos livros na estantes como algo de fundamental importância para o bom funcionamento do mundo. Não por acaso, imaginou uma biblioteca infinita que se confundia com o universo, e um universo cujo posto mais desejável era o de guardador de livros. “Sempre pensei que o paraíso seria uma espécie de biblioteca”: uma das frases mais famosas de Borges é, sem dúvida, uma frase virginiana.

Mas, para além disso, existe também aquilo que o crítico Alan Pauls chamou de uma “política do pudor” nos textos de Borges, sobretudo os do final dos anos 1920, quando realmente há uma espécie de recato que transparece de maneira muito singular em seu estilo. Não estou dizendo que por isso um aspecto puritano de Virgem tenha sido ressaltado; é antes uma qualidade virginiana mais sutil, atravessada por uma irônica avaliação das debilidades humanas em geral, e das faltas pessoais em particular, que aparece nessas passagens. A modéstia aí resulta uma cosmovisão que não salva ninguém de ocupar um humilíssimo lugar no universo, e ganha dimensão política na medida em que percebe o ridículo dos entusiasmos retóricos de figuras messiânicas ou fanáticas. Existe em Virgem uma refinada percepção do patético da condição humana, de tal modo que a exaltação leonina (o signo que a precede na roda zodiacal) dá lugar a uma atitude mais circunspecta, e atravessada por um fundamental senso de inadequação.

Transformar essa inadequação em piada torna-se assim um dos passatempos preferidos de Virgem. Verdade seja dita: virginianos estão entre as pessoas mais capazes de identificar não apenas as patetices e defeitos dos outros, como também os próprios defeitos e patetices. Sempre que seu perfeccionismo se articula com uma natureza irônica e perspicaz, não sobra ninguém na hora de distribuir críticas e tiradas sagazes. Mas nada que não possa ser feito em consonância com um comportamento cuidadoso, tal como atesta Borges nessa passagem de sua biografia do poeta Evaristo Carriego:  “A ternura é a coroação dos dias, dos anos. Outra virtude do tempo é o humor. É condição que implica um delicado caráter: nunca se distraem os ignóbeis nesse puro gozo simpático das debilidades alheias, tão imprescindível ao exercício da amizade. É condição que surge com o amor”. Um delicado caráter, aliás, é uma ótima definição do que encontramos escondido na alma virginiana. Que ela possa parecer às vezes tão rígida e impenetrável, porém, é assunto que ainda dá o que pensar.

Prosseguiremos pensando nisso, portanto. Mas, quando a gente chega em Julio Cortázar, as coisas de saída mudam um pouco de figura. De figuras, na verdade: Cortázar foi um escritor de múltiplos semblantes cuja obra poderia ser aproveitada na explicação de vários arquétipos do zodíaco. A linguagem lúdica e inventiva de seus romances remete a Gêmeos, enquanto a estrutura inovadora de O Jogo da Amarelinha é aquariana; há algo de sagitariano em seus textos críticos, enquanto os famosos cronópios (essas “criaturas verdes e úmidas, que adoram cantar e recitar versos, mas são muito distraídas, vivem sendo atropeladas e choram”) são definitivamente piscianos. Agora, muita gente considera que Cortázar foi sobretudo um grande contista. De minha parte, considero que na evolução da forma de seus contos se desenrola um dos grandes dramas de Virgem.

Para abordar esse ponto queria antes lembrar que o termo “virgem”, tal como deu origem ao nome do signo, não diz respeito a alguém intocado sexualmente. Ele se referia antes a mulheres que não eram casadas, não eram “posse” de nenhum homem, e, portanto, eram conhecidas como aquelas que não se deixavam vender. Essa é a pureza que associamos ao arquétipo virginiano. Há nele um forte impulso para a integridade, que precisa ser constantemente buscada e alcançada em rituais diários, com a delimitação firme de um território imune às impurezas e máculas do mundo externo. Tudo isso depende de gestos definidores, incisivos, claros, capazes de dizer onde termina seu espaço e começa o meu.

Os contos da primeira fase da carreira literária de Cortázar correspondem perfeitamente a esse ideal. São encerrados em si mesmos através da mais perfeita disposição dos elementos internos da narrativa, como máquinas ajustadas com exatidão para um funcionamento inequívoco, que não tolera nenhuma interferência do mundo externo. Foi nessa época que o escritor cunhou a frase segundo a qual, no embate com o leitor, enquanto o romance pode ganhar a luta por pontos, o conto pode ganhar por nocaute. Sem dúvida, a força de Áries e a índole performática de Leão participam dessa sentença. Mas é Virgem que a utiliza para traçar o limite nítido do território do jogo; é Virgem que vislumbra uma estratégia de luta impecável, a sequência mais correta dos golpes, para encerrá-la com o soco certeiro com que se encerram alguns dos melhores contos.

No entanto, olhem que interessante. Quando a gente vai acompanhando a obra de Cortázar durante seu período de maturidade, uma coisa diferente começa a acontecer. Os contos já não são tão mais perfeitos em suas articulações internas, ou, quando são, isso é exposto e explorado por um narrador que percebe a impossibilidade de se chegar a qualquer verdadeira perfeição. “Tango da volta”, por exemplo, é narrado por um habilidoso artífice, um perito no ofício de contar histórias, que monta a narrativa a partir de relatos de terceiros em busca de encontrar todas as peças de um quebra-cabeça, ou criar a mais bela teia de aranha que atrairá o leitor para seu centro. Mas o próprio narrador parece nunca deixar de sentir que seu conto é atravessado por falhas e imperfeições que não dizem respeito à sua capacidade de encerrá-lo em uma unidade fechada, mas a uma espécie de falta que é própria da condição humana de maneira geral.

A partir daí, não há conto de Cortázar que não traga consigo uma espécie de lamento pela falibilidade de nossos esforços em alcançar a perfeição. Assim, eles deixam de ser íntegros no sentido mais aparente do termo – o da autossuficiência que se fecha para influências externas – e se tornam dilacerados a um primeiro olhar, porém adquirindo um outro tipo de integridade, mais profunda e oculta. “Liliana chorando” é um bom exemplo disso, embora “A autopista do sul” apresente também esse efeito, e “Final de jogo” esteja entre os mais tristes e belos contos de Cortázar. Todos eles tratam da morte, da perda e dos males incuráveis da humanidade, aqueles que nenhuma narrativa ou jogo ou máquina poderá deixar de fora de seus domínios, por mais que exista o impulso virginiano de tentar.

Virgem estava então claramente manifesto naqueles trabalhos iniciais. Mas não deixou de aparecer num segundo momento. Pois se, nos primeiros contos, havia uma história secreta acontecendo estrategicamente sob a superfície imediata das palavras, cuja revelação acontecia no instante final e decisivo, nas histórias seguintes os contos passaram a guardar em si um outro tipo segredo, que diz respeito à derrota final que nos aguarda a todos, e que reside na intimidade dos cômodos mais resguardados do arquétipo de Virgem. Assim como o símbolo do Yin e do Yang reserva sempre espaço para um pontinho preto na parte branca, e para um pontinho branco na parte preta, os templos dedicados à cura do corpo e à purificação da alma precisam deixar entrar um pouco da doença e da morte em seus ambientes sagrados. Virgem, quem diria, é justamente o signo que tem como destino conhecer e acolher essa necessidade.  

Não por acaso, trata-se também do signo que ao mesmo tempo mais entende (e eventualmente rejeita) os seguintes versos de Leonard Cohen, outro virginiano célebre: “Ring the bells that still can ring / Forget your perfect offering / There’s a crack in everything / That’s how the light gets in”. Há uma falha em todas as coisas, é como a luz entra nelas; e a perfeição, portanto, se realmente chegasse a ser alcançada segundo nossos padrões do ideal e do desejável, muito provavelmente seria então algo escuro e sem vida. Algo muito semelhante pode ser dito a respeito da evolução da forma do conto na obra de Cortázar. Se olharmos de novo vamos perceber que mesmo os contos mais meticulosamente arranjados tinham algum tipo de defeito, e que esse defeito era sua maior virtude. Pois é virtude alojar algo de tão humano onde nenhum ser vivo parece poder entrar.

A propósito, isso de não poder entrar é algo que a gente sente com muita força diante de Virgem. O território que eles delimitaram para si é tão claramente fechado que não dá nem para imaginar uma intromissão nos ritos que parecem ocorrer lá dentro. Reparem como, tanto no caso de Cortázar quanto no de Borges, a primeira impressão a respeito de como Virgem se manifesta em suas obras remete a esse tipo de encerramento: a figura do velho sentado em sua biblioteca, a forma do conto fechada em si mesmo. Mas é olhando de novo que a gente descobre algo além dessa visão estereotipada, ainda que não incorreta. É olhando de novo que a gente vê a rachadura por onde a luz entra, o pontinho claro sobre a superfície escura.

O recato, a humildade, o humor, uma certa tristeza, e uma silenciosa esperança: esses são os traços que a gente acaba percebendo por trás dos aparentes limites intransponíveis virginianos. Quanto a essa última característica, creio que está relacionada a uma frase da Cal Garrison sobre Virgem: “Chega uma hora em que eles precisam abrir mão da perfeição que a tanto custo alcançaram para si, para deixar que Deus mostre a eles o que a perfeição realmente é”. Existe, portanto, uma espécie de renúncia que precede a abertura virginiana para a luz que entrará pelas frestas do quarto e do conto.

Acho que tanto Cortázar quanto Borges abriram mão de algumas perfeições em suas obras e em suas vidas, e assim abriram espaço para que algo de mais significativo acontecesse nelas. O que está além desse ponto já é da ordem do indizível e impronunciável. Creio, enfim, que esse é o segredo mais bem guardado dos escritores virginianos. Não adianta ter mestrado ou doutorado ou o que quer que seja para comentar esse mistério. É algo que, com cuidado e um pouco de sorte, a gente simplesmente vê acontecer. Embora talvez a gente venha a descobrir que esse acontecimento tampouco é extraordinário, e com isso possa retomar um pouco do aspecto prático e cotidiano do arquétipo. Um pouco como as sacerdotisas egípcias, que viam o sol nascer todas as manhãs, sua luz entrando pelas frestas dos templos, uma vez assegurado que os objetos sagrados estavam todos no lugar.

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Leonard Cohen, poeta e virginiano

Leonard Cohen foi poeta, compositor, cantor, canadense e virginiano. Lua em Peixes. Ascendente em Virgem também. Sofreu de depressão e crises de pânico quase a vida inteira, mesmo passando longas temporadas em um mosteiro budista, observando alguns exigentes rigores espirituais, e buscando depois os mais diferentes tratamentos. Quando já tinha desesperado de encontrar a cura, chegando aos 70 anos, sentiu-se de repente curado e renovado e com sede de vida e de música. Isso depois de abandonar o mosteiro, abandonar os rigores, desistir de todos os tratamentos.

Décadas de meditação devem ter ajudado, talvez surtindo um efeito mais duradouro a partir daí. Mas permanece algo de inexplicável nessa melhora. Simplesmente aconteceu. Cohen a descreveu como o dissipar repentino de uma névoa. Em um poema ele diz que “apesar da dor / em seu coração / por causa da garota que você / nunca encontrou / e apesar do fato de que / após anos de / rigores espirituais / você não conseguiu / alcançar a iluminação / uma certa alegria / começará a surgir / de suas esperanças e intenções / despedaçadas”.

O poema se chama “Uma Vida de Tarefas”, e fala da alegria que é ter tarefas para cumprir. Nada mais virginiano. Mas o que eu queria comentar aqui é esse fenômeno de só conseguirmos alcançar alguma coisa quando desistimos de alcançá-la. Em Zen and the Art of Archery, o escritor Eugen Herrigel relata como só aprendeu a dominar a arte do arco-e-flecha quando desistiu de dominá-la, depois de anos de um frustrante processo de aprendizado com um mestre japonês. No dia em que ele abandonou o último resquício de esforço em acertar o alvo com exatidão, zupt, lá estava a flecha na mosca. Aí ele entendeu que o aprendizado era esse. Não tentar.

Às vezes, as coisas que a gente faz melhor, a gente faz totalmente sem querer. Quando não estamos preocupados em acertar na mosca, a gente acaba acertando. Mas existe uma diferença entre o sem querer casual da indiferença e o sem querer duramente obtido com os esforços contrariados do desejo. Não querer, mas não querer mesmo, não querer nem um pouquinho, pode exigir muito trabalho e dedicação. É preciso tentar algo até a exaustão para perceber que não há a menor chance de termos sucesso enquanto estivermos tentando. Enquanto houver um resquício de esperança, haverá a certeza do fracasso. Só a desistência nos torna invencíveis.

Esse tipo de experiência acontece no eixo Virgem-Peixes. De um lado, o arquétipo virginiano está associado à ideia do “aperfeiçoamento” através do trabalho metódico e cotidiano. Mas quando a gente pensa em Virgem e Peixes como opostos complementares, percebemos que o talento pisciano para a capitulação e a entrega faz parte de um processo em que a verdadeira perfeição é alcançada. Leonard Cohen conheceu-a no final da sua vida, e temos um vislumbre do que pode ser através de seus últimos poemas. Mas só um vislumbre, através de uma fenda, que está na imperfeição de sua arte. Pois, como sabemos, existe uma fissura em todas as coisas, para que a luz possa adentrá-las.

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Um diamante em sua mente

Mutus Liber (1677)

Outro dia vi um meme de uma pessoa dizendo que com a idade tinha se tornado o que mais temia: aquela que diz “nossa, tô mals, acho que vou fazer uma faxina”. Talvez essa pessoa esteja ficando mais velha; talvez esteja apenas ficando mais virginiana. Mas não entendam esse comentário como uma redução do virgianismo ao faxinismo. Além disso, o vínculo entre Virgem e a faxina é incompreendido se não levamos em conta o “tô mals” da frase. Precisamos considerar a faxina como processo de cura, a faxina como prática terapêutica. E através desse vínculo é possível perceber inclusive a relação da faxina com o sagrado, que a meu ver explica muita coisa sobre o arquétipo de Virgem.

A tarefa desse arquétipo é basicamente honrar o mundo espiritual através da matéria. Já falei um pouco disso no post sobre as virgens vestais. Mas não só “honrar”: o que acontece aqui é também a transformação do mundo espiritual através do material, um ao mesmo tempo do outro, o que – de acordo com os estudos de C. G. Jung em Psicologia e Alquimia – era o propósito dos alquimistas que se dedicaram a investigações aparentemente infrutíferas sobre a natureza das substâncias químicas, em estranhos laboratórios da idade média e no início da idade moderna (a partir daqui as coisas podem ficar um pouco herméticas, mas percebam: quando falamos em “transformar o mundo espiritual através do material”, em momento algum saímos do raciocínio de “ai que deprê, acho que vou dar uma limpada na casa para melhorar”).

Jung alega que em muitos casos a Alquimia esteve relacionada a processos psíquicos, que se desdobravam através da meticulosa observância de protocolos laboratoriais, mas correspondendo em seu ritmo e direção a um propósito terapêutico. Assim, quando falavam na busca da substância mais pura, do ouro mais genuíno, do lapis original, e dos respetivos procedimentos dessa busca, os alquimistas estariam falando de algo ao mesmo tempo mais ambicioso e mais modesto do que a transubstanciação da matéria: a purificação da alma. Supõe-se que as duas coisas acontecessem simultaneamente, ou ao menos que as tentativas de alcançá-las fossem equivalentes. Existia uma espécie de projeção nas coisas de desdobramentos mentais, que dependiam delas para se realizar, de acordo com o princípio da ressonância entre o ‘dentro’ e o ‘fora’.

As vinculações entre ambas as esferas são várias. Mas, em especial, do mesmo modo como os alquimistas presumiam de que havia espíritos com qualidades especiais alojados nas substâncias e aguardando ser revelados pela ação humana, eles falavam em “pedras filosofais” e “diamantes” escondidos na alma humana, e que dependiam de práticas alquímicas para ser descobertos. Dada a concentração que essas práticas exigiam, não é difícil observar suas semelhanças com hábitos de meditação oriental, por exemplo; considerando suas detalhadas instruções, existe uma semelhança com métodos do cuidado-de-si de filósofos da antiguidade clássica. Tudo isso pode se tornar extremamente complicado, é verdade. Mas no geral essas técnicas devem servir não para complicar as coisas, e sim para retirar o entulho acumulado sobre o que há de mais elementar, intocado e perfeito em nós.

Ou, como diz com simplicidade a canção de Tom Waits lindamente regravada por Solomon Burke: “Always keep a diamond in your mind”, tenha sempre um diamante em sua mente. Na mesma linha, lembrei de uma passagem do Angels in America de Tony Kushner – de resto uma narrativa escorpiônica – em que uma personagem diz a outra, contaminada pelo vírus HIV e atordoada pelo desespero numa época em que a AIDS era uma síndrome desconhecida: “Lá dentro de você, há uma parte de você, a parte mais profunda, que está totalmente livre da doença. Eu vejo isso”. Dá para remeter essa citação a um comentário do alquimista Dorneus, de 1602: “Há, escondida no corpo humano, uma substância metafísica conhecida por poucos e que não necessita de qualquer medicamento, pois ela mesma é um medicamento incorruptível” (citado por Jung, Psicologia e Alquimia, p. 286).

Encontrar essa “substância metafísica” é a tarefa dos alquimistas, e dos virginianos. Para isso, ambos precisam compartilhar determinadas virtudes, como a compenetração, a organização, a humildade e a atenção a detalhes. É claro que tudo isso pode sempre desvirtuar-se em uma índole excessivamente crítica e controladora, ou em um apego excessivo a técnicas e rituais automatizados, descritos em linguagem exaustiva. Evitadas essas ameaças, tanto o virginiano quanto o alquimista estão em condições de executar os “mágicos rigores” de que falou o escritor argentino (e virginiano) Jorge Luis Borges.

Mas não só eles. Você que me lê: saiba que você também tem um diamante em sua mente, uma parte de você que está totalmente livre da doença, da ansiedade e do cansaço, uma coisa que não precisa de medicamento algum porque ela mesma é o medicamento incorruptível. Essa “coisa” pode muito bem ser um momento: aquele em que um cientista contempla as plácidas rotinas do mundo natural no silêncio de um laboratório, aquele em que alquimista executa os movimentos de sua cura através das misturas de suas provetas, aquele em que o faxinista percebe que terminou seu trabalho e a casa ficou um brinco. Nesse momento o sagrado e o cotidiano se encontram. Mas você não precisa correr para pia para experimentar um instante de tão elevada condição. Pare, respire, perceba: o diamante está aí.

capricórnio, câncer, peixes, virgem

Chantagistas do zodíaco

Há diversas formas de separar e classificar os signos – elementos, modalidades etc. – e uma delas é aquela que reúne Capricórnio, Peixes, Câncer e Virgem em um mesmo grupo, formado por um retângulo no zodíaco. Pode não ser fácil imaginar o que arquétipos tão diferentes têm em comum, mas por isso mesmo o exercício é atraente. Uma maneira de articulá-los é perceber como os temas da renúncia e do sacrifício se repetem em cada um deles, o que faz também com que surjam os temas da barganha e da chantagem.

Todos os arquétipos têm algo a nos oferecer, é claro. A questão com esses quatro é que sua própria identidade está vinculada a este oferecimento, pois o tipo de cuidado ou de trabalho que exercem é por natureza voltado para o benefício dos que estão ao redor. Em Câncer, por exemplo, o amor por tudo o que é próximo, a preservação do calor do lar, e a renovação de vínculos familiares ou comunitários, resultam sempre em garantias de pertencimento e segurança emocional para outros (e os demais arquétipos de fato se aproveitam disso enquanto estão preocupados com outras coisas). O problema é que não raramente Câncer apresenta a conta; e a chantagem emocional materna, em que são ressaltados o sacrifício e a renúncia em nome dos filhos e da família, aparece aí como a expressão mais estereotipada – mas nem por isso menos real – dessa dinâmica.

Em Capricórnio, algo semelhante acontece. A diferença é que Capricórnio não oferece carinho, mas trabalho, e não espera de volta afeto, mas respeito. Tudo bem com isso até certo ponto – vamos sempre nos beneficiar da responsabilidade e competência capricornianas –, mas, com frequência, em troca desse sacrifício, é exigida uma reverência que nunca chega em doses suficientes. Além de responsabilidade e competência, portanto, Capricórnio também acrescenta ao mundo bastante frustração e ressentimento por não ter seus esforços reconhecidos. Isso quando não parte para as formas mais abertas de autoritarismo, no lugar das manipulações emocionais cancerianas.

Em Virgem e Peixes isso se opera de maneira mais sutil, e por isso mesmo mais interessante. Virgem oferece ao mundo os serviços discretos e meticulosos que o mantém em funcionamento, e em troca requer distância. Assim, tudo aquilo que invade a pureza de seu espaço sagrado é visto como uma injusta intromissão – de um mundo impuro e imperfeito – na perfeição que a tanto custo alcança para si. Virgem sente que tem o direito de preservar esse distanciamento, pelo menos enquanto seu serviço estiver sendo executado com a habilidade e a devoção de sempre. E talvez até tenha, do ponto de vista de uma lógica compensatória, mas não é com essa lógica que o mundo funciona.

Em Peixes, afinal, se dá a barganha de maiores proporções: o sacrifício do ego e da individualidade em troca do amor e da aceitação incondicionais do cosmos. Isso vale tanto para o devoto ou monge que se retira do mundo para entregar-se a Deus, quanto para o indivíduo que evita toda forma de julgamento ou exigência, e em troca espera não ser julgado por nada nem exigido para coisa alguma. A famosa vitimização pisciana decorre muitas vezes desse tipo oculto de escambo, em que o paradoxo compensatório fica mais evidente, com o amor incondicional sendo oferecido com a condição de um retorno. Mas, como sabem bem muitos monges angustiados e alguns dos mais compulsivos devotos, Deus não cai nesse tipo de armadilha. Nós também não.

Ou seja, cada um desses arquétipos tem de fato muito a oferecer ao mundo – afeto, trabalho, responsabilidade, amor incondicional – mas cada um também está sujeito a distorções a partir de cálculos mais ou menos conscientes do que esperam receber em troca. O problema aí é que não temos notícia de um universo que funcione de acordo com esse toma-lá-dá-cá; as coisas nessa dimensão acontecem de formas muito mais interessantes e surpreendentes. A própria noção de carma, que em suas versões mais popularizadas atende a esse critério, não passa aí de jogo de soma zero no qual outras vidas trarão as recompensas aguardadas. Não sei se trarão, mas suspeito de que só o fato de serem ‘aguardadas’ seja um indício do contrário.

Parafraseando Kafka, há justiça nesse mundo, justiça infinita, justiça suficiente – mas não para nós. Ou pelo menos não uma justiça que sejamos capazes de compreender. Por outro lado, cada um de nós tem talentos e habilidades e virtudes cujo exercício podem nos fazer esquecer por alguns instantes o que o futuro nos trará ou deixará de trazer. É nesse momento, enquanto estamos desavisadamente, espontaneamente executando essas tarefas e manifestando essas qualidades, que recebemos em troca tudo o que precisamos. E aí sim: o universo agradece.

peixes, virgem

O eixo Virgem-Peixes

Virgem e Peixes são signos opostos complementares, ainda mais opostos e ainda mais complementares porque colocam em interação os extremos da ordem e do caos. À primeira vista, não é difícil distribuir as funções: a ordem é virginiana e o caos é pisciano. Mas as coisas felizmente não são tão simples assim, e a compreensão das nuances entre esses dois arquétipos é um passatempo meticuloso e delicado.

A ordem virginiana tem na origem o propósito de assegurar que objetos e implementos de rituais de purificação estejam todos no lugar, garantindo seu bom funcionamento, através de criação de canais apropriados ao fluxo e à circulação de energias. A relação com a saúde está aí também, mas sem deixar de entender o corpo como uma esfera de atuação do sagrado, pois o local onde Virgem atua é sempre uma espécie de templo. Virgem, portanto, conhece o caos, sabe que ele está sempre à espreita, e por isso se empenha em mantê-lo do lado de fora, ao mesmo tempo em que deixa entrar a luz divina. Porém, tudo aquilo que é estranho à inteligência humana pode parecer caótico aos nossos olhos, apenas por tratar-se de um tipo de ordem que não compreendemos.

A própria divindade entra nessa categoria, e aqui surge o paradoxo virginiano: as práticas que surgem para nos proporcionar um contato com o Outro podem ser aquelas que acabam por manter qualquer alteridade além das muralhas do templo. Não há mais fluxo, não há mais circulação, não há mais movimento, e aí a ordem que se estabelece começa a deteriorar-se a partir de dentro, levando-a à morte. Como o pontinho escuro na parte clara do símbolo do Tao, é necessário permitir certa desordem no interior dos recintos sagrados, porque aquilo que chamamos de ‘caos’ pode ser só um outro nome para a ‘vida’. Não existe perfeição assim percebida por nós que não seja estritamente humana, e a verdadeira Perfeição é algo que não seríamos capazes de perceber.

Mas poderíamos, talvez, vivenciá-la em um instante de sorte; e Peixes tem entre seus atributos a aspiração por essa experiência. Sua permeabilidade ao não-humano, àquilo que foi deixado fora de nossas rotinas ordinárias, admite o convívio com máculas e demônios jamais admitidos no ordenamento dos ritos purificadores: Peixes tem inclusive a lembrança de nossa existência aquática, é atravessado por mistérios mais antigos que a espécie humana e que vão sobreviver a ela. O sonho e a vigília, então, se misturam de tal modo que o próprio corpo já não existe com limites exatos. O ego se dissolve não por força de um ato de vontade, mas porque nunca esteve lá como algo independente do mundo ao redor.

Por outro lado, Peixes é bem capaz de intuir uma Ordem superior por trás dessa bagunça toda em que está imerso. E, assim como Virgem percebe a alteridade como impureza, pode encontrar nela o veículo do grande sacrifício em que a purificação final será alcançada, ou mesmo sacrificar a riqueza e a multiplicidade desse mundo em nome da unidade de uma Ideia delirante. Esses signos aparentemente tão inocentes têm por isso sua parte de responsabilidade nas tiranias e fanatismos desse mundo. A experiência pisciana da Totalidade é totalitária se não for efêmera, e desconhecer os limites entre o eu e o outro é tão perigoso quanto sacramentá-los.

O símbolo do Tao, naturalmente, tem também um pontinho claro na parte escura. É a ordem que existe em meio ao caos, e não por trás dele. Esses pontos parecem os olhinhos de dois peixes que nadam em direção opostas e complementares, tudo coordenado por uma geometria exata e perfeita que a gente pode perceber claramente. Trata-se de um símbolo humano, criado por mentes e mãos humanas, mas que trata de algo que vai além da experiência humana; e Peixes precisa desses símbolos para ter alguma representação do mundo indizível onde vive.

Já Virgem precisa saber que o mundo não tem como ser ordenado como um símbolo, que a linguagem não nos basta e que o divino está naquilo que é deixado do lado de fora de nossas palavras. Embora os símbolos, incluindo os signos do zodíaco, sejam também possíveis portais de um encontro com o sagrado, ou seja, a maneira como as mais diversas divindades – das mais sublimes às mais demoníacas – circulam entre nós.

virgem

As virgens vestais

Les Demoiselles d’Avignon, Pablo Picasso / Museum of Modern Art

Estamos longe de compreender os arquétipos do zodíaco, mas alguns signos são mais incompreendidos que os outros. Virgem, por exemplo, não tem nem um planeta para chamar de seu. O posto da regência ainda é ocupado por Mercúrio, um impostor geminiano, servidor-de-dois-patrões, mas já está na hora de desmascarar a farsa. Rei morto, rei posto, e o candidato natural ao cargo é Quíron. Mas não há pressa alguma na transição, então podemos avaliar as possibilidades.

Outra delas é Vesta, o asteroide mais brilhante do sistema solar, de uma luz intensamente concentrada em sua pequena esfera. Vesta foi o nome romano de Héstia, uma deusa de cultos pré-helênicos associada às virgens vestais, que não eram exatamente “virgens” como entendemos o termo hoje. A virgindade no caso era atributo de mulheres que não podiam se casar, pois eram consideradas prostitutas sagradas, capazes de utilizar o sexo como instrumento de cura, o que lhes conferia deveres, restrições e privilégios. Entre os deveres estava a organização e limpeza dos templos, garantindo o bom funcionamento dos ritos de purificação. Perceberam? A limpeza e a organização dos templos, nada mais virginiano.

Já entre os privilégios, havia o fato de que, quando uma virgem vestal concebia uma criança após uma união sexual secreta com um estranho, a criança era considerada nobre e entrava na linha sucessória do trono. Notem a relação com a história da Virgem que concebe o filho de um deus após a visita de um espírito desconhecido na calada da noite. Esta sim associou a virgindade a uma ideia de pureza sexual, contribuindo para a idealização da figura materna. Por outro lado, retirou a “linha sucessória” das estruturas tradicionais da cidade e do Estado, fazendo com que o milagroso nascimento pudesse acontecer em uma família camponesa ou operária.

Vesta então está relacionada à dedicação e ao sacrifício. Mas na verdade eu me lembrei dela mais por causa de uma frase engraçada que vi na internet esses dias: “Tem sempre uma historinha sexual secreta acontecendo na vida dos virginianos”. Ou seja, qualquer que seja o astro que vai assumir a regência do signo, uma coisa é certa, e nunca um emoji de piscadinha foi tão útil: querides, a gente tá sabendo, vocês são mais interessantes do que parecem 😉