Todos os signos

Filmes e signos

Amor à Flor da Pele (2000) | Dir. Wong Kar-Wai

Deve ser saudade de ir ao cinema e sentir que o tempo que passei lá dentro mudou ou enriqueceu minha percepção do mundo lá fora: daí que decidi fazer uma lista afetiva de filmes e signos. As associações se baseiam mais na lembrança do impacto que os filmes tiveram em mim do que em uma avaliação crítica deles, embora uma coisa esteja vinculada à outra, naturalmente. Entraram basicamente títulos dos anos 1990 em diante, porque foram os que tive a oportunidade de assistir pela primeira vez no cinema. Acho que não incluí quase nenhum filme recente porque sou capricorniano, e as coisas para mim precisam resistir ao teste do tempo para consolidar seu valor. São três filmes em cada categoria. Ficou assim:

ÁRIES

Começando com Um Céu de Estrelas (dir. Tata Amaral, Brasil, 1996). Uma pancada. Rápido, forte, áspero. Lembro de ter passado o resto do dia – e da vida – meio atordoado com esse filme.

Algo semelhante aconteceu com o húngaro 4 meses, 3 semanas e 2 dias (dir. Cristian Mungiu, 2007), que se relaciona também com o arquétipo de Áries através do tema das intervenções cirúrgicas e das decisões que precisam ser tomadas rapidamente.

Mais um filme que para mim foi pura adrenalina e coração batendo a mil o tempo inteiro – embora eu tenha esquecido de todos os detalhes da história poucos minutos depois de sair do cinema, o que também pode ser uma qualidade – foi Os Infiltrados, de Martin Scorsese (2006). Já na sequência de abertura dá para perceber o que vem pela frente. Nada mais ariano do que começos fortes e impactantes.

TOURO

Começando com Amor à Flor da Pele (Wong Kar-Wai, 2000). Uma lambida. Lânguido, lento, sensual. Com as texturas macias de cortinados orientais, os odores de chás fumegantes e pratos de macarrão compartilhados, as cores quentes de uma paixão tão intensa quanto resignada. Touro, assim como esse filme, é sobre o apego às coisas desse mundo, e, portanto, sobre a perda das coisas desse mundo também.

Outro que me pareceu falar disso – mas por via negativa, por assim dizer: de um modo árido, feito de poeira e escassez – é Gosto de Cereja (1997), do iraniano Abbas Kiarostami. No caso, tem ainda o fato de que, quando diferentes personagens tentam dissuadir o protagonista de tomar uma decisão extrema, o argumento mais importante que eles encontram tem a ver com comida.

Por falar em escassez, é igualmente taurina aquela compaixão que a gente sente diante da luta diária por um prato de comida retratada nos filmes do Ken Loach e dos irmãos Dardenne, por exemplo. Mas o filme que na saída do cinema me deixou tocado pela primeira vez com esse tema foi o francês Germinal (dir. Claude Berri, 1993).

GÊMEOS

Pulp Fiction (Quentin Tarantino, EUA, 1994), pela engenhosidade do roteiro, pela irônica ambivalência entre a pancadaria e a leveza, e por alguns dos diálogos mais deliciosamente geminianos da história do cinema (“Le Big Mac”).

A aguda inteligência e a despretensiosa malandragem de Gêmeos faz parte também do prazer de assistir o argentino Nove Rainhas (dir. Fabián Bielinsky, 2000), onde a astúcia mercurial e trambiqueira do personagem de Ricardo Darín recebe a recompensa que a astúcia de Mercúrio vive recebendo nas lendas gregas.

Tem também O Grande Lebowski (dir. Ethan e Joel Cohen, 1998). O lendário “the dude” talvez seja sagitariano, quanto ao signo dele eu tenho dúvidas, mas a sensação que tive ao sair do filme foi uma irrestrita hilaridade diante do amplo espectro de patetices que existe no âmbito do humano. Uma sensação geminiana.

E, como Gêmeos não é muito de seguir as regras do jogo, vou abrir uma exceção aqui para outro filme, porque não dá para falar de malandragem, esperteza e irreverência sem lembrar de O Auto da Compadecida (dir. Guel Arraes, 2000). Se João Grilo não é geminiano, eu não sei quem é.

CÂNCER

É canceriano o poderoso matriarcado do cineasta espanhol Pedro Almodóvar, assim como a sensação de uma inquebrantável delicadeza – ou de uma fortaleza estilhaçada pelos mais fortes petardos emocionais – que fica de filmes como Tudo Sobre a Minha Mãe (1999).

Outro especialista em tratar de assuntos familiares, no caso com uma objetividade ao mesmo tempo desencantada e encantadora capaz de deixar qualquer um em prantos, é o inglês Mike Leigh. Dele fico com Agora ou Nunca (2002).

Mas, como também a memória e o passado são temas do arquétipo de Câncer, me lembrei aqui de uma das primeiras vezes que fui ao cinema para ver um filme de adulto, em 1988. O filme era Cinema Paradiso (dir. Giuseppe Tornatore), que assisti no extinto Cine Pathé de Belo Horizonte (isso em si já tematiza a dimensão canceriana da vida), e foi também a primeira vez que saí de uma sala de cinema chorando. Aliás, só de falar nesse filme percebo que tem alguma coisa em mim chorando por causa dele até hoje.

LEÃO

Acho que fui rever umas três ou quatro vezes no cinema o Buena Vista Social Club (dir. Wim Wenders, 1999). Quem diria que o diretor de outros filmes tão cinzentos e melancólicos ia ser citado na luminosa sessão leonina dessa postagem. Méritos para seu amigo Ry Cooder, e, claro, para os mais que solares músicos cubanos que são os protagonistas do documentário musical.

Quase Famosos (dir. Cameron Crowe, 2000) entrou na lista para fazer justiça à vontade de deixar-o-cabelo-crescer-montar-uma-banda-de-rock-e-sair-em-turnê-pelo-mundo que dá na gente mesmo quando a gente assiste um filme sobre um fracasso. Afinal, eles chegaram quase lá, e quem nunca teve o desejo leonino de sentir pelo menos o gostinho que eles sentiram do aplauso das multidões?

Outro filme sobre o universo das artes e espetáculos que me emocionou muito foi o francês Um Lugar na Plateia (dir. Danièle Thompson, 2005). Sobre esse estou devendo até uma postagem à parte, então sem mais comentários por enquanto, deixo o link aqui quando fizer.

VIRGEM

Para estimular a forma virginiana de sentir e experimentar o mundo recomendo o israelense/egípcio A Banda (Eran Kolirin, 2007). Um filme curto, modesto e perfeitamente executado, mas construído sobre uma tristeza fundamental com os males irremediáveis da humanidade. Lembro de tê-lo assistido num cinema de subsolo em Buenos Aires, e o fato de o metrô passar por perto e estremecer a sala de vez em quando só reforçava a percepção dos silêncios que atravessam o filme e a cidade onde ele acontece.

Na mesma linha, tem também o uruguaio Whisky (dir. Pablo Stoll e Juan Pablo Rebella), que me fez imaginar Montevidéu como uma cidade virginiana; quando estive lá essa sensação só se reforçou.

Enfim, é engraçado que por algum motivo essa categoria de Virgem traga títulos curtos e despretensiosos, que têm como pano de fundo paisagens latino-americanas: a última delas é a dos cenários interioranos e metalúrgicos do brasileiro Arábia (dir. Affonso Uchôa e João Dumans, 2017). A humildade é uma virtude virginiana, e acho que poucos filmes são capazes de verdadeiramente exercitá-la em sua linguagem sem deixar entrever uma arrogância reprimida. Esse consegue.  

LIBRA

Encontros e Desencontros (Sofia Coppola, 2003). Um filme sobre o amadurecimento que em diferentes idades é alcançado por meio de experiências que envolvem o encontro com o outro, a interação com o outro, as tentativas de conhecer e compreender o outro. O modo cômico da narrativa – naquilo que envolve o gestual hesitante, os erros de tradução, a confusão dos códigos de etiqueta de diferentes culturas – é também caracteristicamente libriano.

Curiosamente, o trabalho de adaptação entre diferentes linguagens entra nesse espectro, e aqui entra na lista a adaptação de Razão e Sensibilidade (1995) para o cinema, com roteiro de Emma Thompson, direção de Ang Lee. O tipo de filme que, como a obra de Jane Austen, consegue nos tornar mais atentos a detalhes mais que decisivos em nossos hábitos e improvisos comunicacionais.

Encerrando a categoria, com uma preferência bastante pessoal, temos o dinamarquês Corações Livres (dir. Susanne Bier, 2002). Um filme que me fez entender melhor o papel de Libra, o papel de Vênus e sobretudo o papel do arquétipo da deusa Juno nas nossas vidas. Escrevi sobre isso nessa outra postagem aqui.

ESCORPIÃO

Escorpião é sobre experiências que se a gente tivesse escolha a gente preferia evitar, como a morte e os impostos. Em Encontro Marcado (Meet Joe Black, dir. Martin Breast, 1998), Brad Pitt encarna ambas, ao personificar ao mesmo tempo a própria morte e um auditor da receita. “Death and taxes”, ele diz durante uma reunião, e nessa hora a gente entende porque essas coisas se reúnem no arquétipo de Escorpião.

A propósito, Escorpião é também sobre ir ao inferno e aprender o caminho de volta, ou pelo menos ter um vislumbre dele; há vários filmes que encenam esse roteiro muito bem, e fica difícil escolher um, Mas pelo critério de impacto pessoal fico com A Liberdade é Azul (Trois Couleurs: Bleu, dir. Krzysztof Kieslowski, 1993), com a memorável atuação de Juliette Binoche.

Escorpião, enfim, é onde ficam borrados os limites entre a justiça e a vingança. Mais uma vez temos o problema de fazer uma escolha, mas certamente entre os melhores nessa linha está Batman: o Cavaleiro das Trevas (dir. Cristopher Nolan, 2008).

SAGITÁRIO

Underground: mentiras de guerra (dir. Emir Kusturica, 1995), é um filme sérvio de extravagâncias e excessos que têm como pano de fundo a movimentada história do século XX em um pedaço do oeste da Europa. É também um filme festivo: a gente sai do cinema querendo ter uma bandinha de metais correndo atrás da gente para fazer a trilha sonora da nossa vida.

As Invasões Bárbaras (dir. Denys Arcand, 2003) é mais quieto e melancólico, mas igualmente atravessado por temas sagitarianos como as ideias filosóficas, as ideologias políticas e as filosofias de vida.  

Na mesma linha, entra na lista também Os Sonhadores, de Bernardo Bertolucci (2003), que carrega o ar de certa imaturidade tipicamente sagitariana, com suas vastas emoções e pensamentos imperfeitos, envolvendo sempre o legítimo desejo por uma vida menos ordinária.

CAPRICÓRNIO

Capricórnio é sobre o encontro de nossas expectativas e desejos com as realidades da vida; é também sobre a passagem do tempo e o amadurecimento. Portanto, prêmio para o conjunto da trilogia Antes do Amanhecer, Antes do Pôr-do-Sol e Antes da Meia-Noite (dir. Richard Linklater, 1995/2004/2013).

Capricórnio é também sobre a satisfação de ter um plano bem pensando em executá-lo na prática com sucesso: prêmio para O Plano Perfeito (dir. Spike Lee, 2006).  

Podemos completar a lista com qualquer filme de Clint Eastwood na linha do macho-conservador-que-descobre-que-tem-sentimentos. Gran Torino (2008) é um exemplo. Talvez nem sejam grandes filmes, mas sempre senti que a experiência de que tratam é arquetipicamente capricorniana.

AQUÁRIO

Primeiríssimo prêmio para Happy Feet (dir. George Miller, 2006), não só porque é sobre o livre exercício da diferença como caminho para a igualdade, ou sobre como é ser abduzido por alienígenas e ir parar no planeta de uma espécie diferente da sua, ou porque tem o Sidney Magal fazendo a voz do pinguim Amoroso (e que merecia um Oscar por isso), mas também porque meu filho que tinha cinco anos na época estava sapateando no chão do cinema quando terminou a sessão.

Outro filme de sensações que eu amei muito e assisti no cinema mais de uma vez foi A Chegada (dir. Denis Villeneuve, 2016). Trata-se de uma história aquariana pelas exigências que faz ao nosso intelecto humano na compreensão de outras lógicas que parecem ultrapassar nosso entendimento, pela condição de deslocamento que a protagonista se vê colocada perante o restante dos seres humanos a partir do momento em que passa a falar a línguas dos extraterrestres, a pela ressonância do mito aquariano de Prometeu, que entregou o fogo dos deuses à humanidade.

No entanto, as tendências ao mesmo tempo revolucionárias e igualitárias desse signo têm também um lado obscuro que me faz acreditar que vamos ainda ver o melhor o e pior que ele tem a nos oferecer nos próximos anos, na medida em que a ênfase dos trânsitos planetários deixar Capricórnio para trás, e entremos definitivamente na Era de Aquário. Isso vale também para o cinema. Coringa (dir. Todd Philips, 2019) pode também não ser um filme excepcional, mas para mim é um ponto de partida na tematização dos pesadelos mais específicos de nossa vida política contemporânea. Falei um pouco desse assunto (a partir da dimensão arquetípica do personagem interpretado por Joaquim Phoenix) nessa postagem aqui.

PEIXES

Sonhos, de Akira Kurosawa (1990), que vi no cinema aos onze anos, e cujas imagens se confundiram desde então com meus próprios cenários oníricos, em uma via de mão dupla: quando revi o filme muitos anos depois, havia sonhos que me lembrava de ter tido que eram na verdade cenas do filme, enquanto havia cenas que eu acreditava ter visto no filme que tinham sido na verdade sonhos meus mesmos. Uma experiência pisciana, sem dúvida.

O Doce Amanhã (dir. Atom Egoyan, 1997) é um filme canadense sobre a culpa e a libertação da culpa de uma personagem que sobrevive a um acidente; é também conhecer os limiares entre o aqui e a acolá, e hoje parece ser pouco lembrado, recomendo muito.

Por fim, quanto à capacidade oceânica que Peixes tem de sentir toda o sofrimento e a alegria e a tristeza e a dor e a beleza do mundo ao mesmo tempo, me lembro de ter sentido algo assim durante a breve horinha que dura o documentário brasileiro Nós que Aqui Estamos Por Vós Esperamos (dir. Marcelo Masagão, 1999). Isso se repetiu em cada minuto de todas a horinhas em que revi o filme tantas vezes depois, mas foi ao sair do cinema, na primeira vez, que tive a experiência pisciana de sentir transbordando em mim um amor mais infinito pela humanidade inteira de todos os tempos.  

astros, Todos os signos

A viola e o arpão

Giorgio de Chirico |Enigma da chegada da noite (c. 1970)

Mulher de Porto Pim é o nome de um livro e de um conto do escritor italiano Antonio Tabucchi. No conto, um velho cantor açoriano conta sua história para um turista num fim de noite em um bar melancólico. Em determinado momento da narrativa, ele, ainda jovem, abandona seu pai, um pescador de baleias com quem crescera após a morte da mãe; o motivo desse abandono é a tal mulher de Porto Pim, por quem ele sente um fascínio súbito e apaixonado. Ao descrever a cena na qual passa em casa para pegar suas coisas antes de ir viver com ela – sob o olhar do pai, que o vê deixando o arpão e levando uma viola –, o narrador diz: “Você sabe o que é a traição? A traição, a verdadeira, é quando você sente vergonha e quer ser um outro. Eu quis ser um outro quando fui me despedir de meu pai”.

O detalhe do arpão é importante. Antes, ele fala sobre como os dois costumavam sair juntos para pescar baleias, e fica implícita a expectativa do pai de que o filho seguisse no mesmo ofício. Daí a traição a que se refere: não se trata apenas do abandono do lar e do velho taciturno, mas de toda uma ideia do tipo de vida ao qual o filho devia sua fidelidade. O gesto de carregar a viola indicava, por sua vez, que um cenário completamente diverso se descortinava para o restante da sua vida. Que a história seja contada num bar e por um cantor de bar diz muito sobre o que se seguiu. O filho do pescador se tornou o artista boêmio que narra a história. Seu destino teve um episódio trágico, mas ele não parece arrependido de ter seguido esse percurso, exceto, talvez, quando destaca a ambivalência dos sentimentos na cena que descrevi.

É o tipo de experiência que remete aos pares de opostos complementares do zodíaco, e às mil maneiras como manejamos seus atributos conflitantes no decorrer da vida, quando, por algum motivo, a dinâmica de um desses pares se torna relevante para nós. Mais especificamente, em termos astrológicos, seria legítimo dizer que foi naquele instante de pegar a viola que o narrador se decidiu por um salto à Cabeça do Dragão. Estou me referindo ao Nodo Norte da Lua, também conhecido por Rahu na tradição védica. Trata-se de um ponto calculado de acordo com o desenho da elipse lunar, e que, como os planetas, transita pelos 12 signos do zodíaco, com a diferença de carregar sempre consigo o ponto exatamente oposto, isto é, a Cauda do Dragão (ou o Nodo Sul, Ketu para a astrologia indiana). Se você gerar seu mapa no site astro.com, o Nodo Norte vai aparecer como “True Node” na versão em inglês, e como “Nodo Verdadeiro” em português (caso seja alterada a configuração da língua no canto superior direito da tela), com o Nodo Sul situando-se por consequência no mesmo grau do signo oposto complementar de onde ele se encontra.

Daria para ficar aqui enfileirando detalhes técnicos e nomes exóticos indefinidamente. Mas, quando se trata da posição desses pontos no mapa natal de um indivíduo, a ideia costuma ser mais ou menos a mesma: o Nodo Sul é a experiência já acumulada por sucessivas gerações, é aquilo que se repetiu à exaustão, é aquele conjunto de qualidades ou hábitos que parecem um lugar natural para a pessoa. É também onde encontramos traços de identidade mais imediatamente disponíveis para nós, os papeis sociais que tendemos a ocupar com mais facilidade, ou que acreditamos ter o dever de cumprir. O Nodo Norte são as experiências novas que teremos a oportunidade de viver, talentos imprevistos que serão desenvolvidos e papeis que podem ser ocupados – se assim o quisermos – mesmo que a princípio a gente não se veja de maneira alguma naquele lugar.

Como, invariavelmente, esses pontos se localizam em signo opostos do zodíaco, a posição de um sempre implica a do outro. No caso do narrador do conto de Tabucchi, por exemplo, eu apostaria que ele tem o Nodo Norte em Leão, por ter ganhado a vida tocando um instrumento, se apresentando em botequins, sentindo por esses ambientes uma atração e uma vinculação que estavam em aberto desacordo com seu passado e sua herança familiar. Desse modo, ele teria o Nodo Sul em Aquário, o que pode muito bem estar relacionado às exigências de fidelidade a uma corporação de iguais, no caso a dos pescadores, além de presumir uma capacidade de dedicação a esforços coletivos bastante característica de algumas expressões aquarianas, um signo tradicionalmente regido por Saturno. Essa posição – Nodo Sul em Aquário, Nodo Norte em Leão – é uma das que trazem com maior evidência uma possível contraposição entre o trabalho e o prazer no mapa de um indivíduo. Daí o instante da escolha entre o arpão e a viola; daí o salto a que me referi.

Analisar a posição da cauda e da cabeça do dragão em um mapa é desdobrar esse tipo de raciocínio de acordo com as variações dos arquétipos zodiacais e algumas outras variáveis (as casas onde se encontram, os planetas com que realizam aspectos etc.). Às vezes, a identificação dessa dinâmica é mais imediata, e até mesmo anedótica (sobretudo com as expressões do Nodo Sul); às vezes, se dá com qualidades mais singulares e atributos bastante originais (sobretudo no Nodo Norte). Tudo isso pode se tornar mais evidente em determinadas idades e trânsitos regulares (com frequência por volta dos 36, 37 anos, às vezes já aos 18 ou 19). De todo modo, eles criam um eixo que nunca deixa de funcionar como uma espécie de balança na vida de cada um. Sendo assim, haverá sempre momentos em que ela poderá pender mais para o passado, para o já conhecido, para as gerações que nos antecederam, as encarnações em que já percorremos a história de um arquétipo sucessivas vezes. Foi o que aconteceu comigo ultimamente.

O que vivi nas últimas semanas foi uma das experiências mais estranhas da minha vida psíquica. Netuno esteve praticamente estacionado durante um tempo incomum na região de meu Nodo Sul em Peixes, enquanto eu era atravessado por sensações e lembranças de um passado que parece ultrapassar minha vida pessoal, embora com frequência seja também representado por episódios dela. Houve ao mesmo tempo notícias concretas e difíceis que tornaram presentes algumas questões relacionadas ao tema, e cujas demandas contribuíram para que eu tenha deixado essa página de férias por uns tempos. Netuno sempre exige uma pausa em alguma coisa na vida. Mas é sobretudo sobre o sentimento impreciso e netuniano de uma súbita imersão nas águas de meus ancestrais piscianos que eu gostaria de falar, pois sinto também que esse é um momento de honrar meus antepassados de uma maneira que nunca fiz antes – para então, talvez, traí-los mais uma vez, quiçá definitivamente.

Uma maneira de exemplificar esse fenômeno é falando um pouco do meu gosto musical. Pois fui precocemente apresentado e cativado por toda uma tradição do desespero e da derrota cantada em vozes anglófonas roucas e embriagadas. Era capaz de virar noites inteiras sozinho ouvindo Tom Waits e enxugando garrafas de conhaque barato, depois de ter rodado os bares do centro de Belo Horizonte como que em busca do coração roto de uma noite de sábado, que eu nunca encontrava. Aquilo para mim era um lugar natural, de certa forma espontâneo, mas só de certa forma mesmo: pois eu estava também espontaneamente encenando aquele personagem. Ou melhor, eu estava representando, também no sentido de que, ao agir daquele jeito, eu sentia ser o representante de toda uma congregação de gente fodida e fracassada que formava um clube secreto que já existia antes de mim.

Reparem, não estou falando que Peixes tem uma relação direta com o fracasso. O que está em jogo aqui os “personagens” piscianos, que muitas vezes podem parecer losers arquetípicos, mas exatamente porque nesse signo as réguas que costumamos usar para medir sucessos mundanos perdem toda a validade. E, de modo bastante concreto em alguns aspectos – figuradamente em outros –, sempre soube que venho de uma linhagem de gente que por algum motivo viveu às margens do mundo social regular, por terem renunciado a ele ou por terem se tornado incapazes de existir funcionalmente em seus limites. Estamos falando de monges, loucos, doentes e bêbados. No meu caso, sobretudo bêbados. Em resumo: venho de uma linhagem de desajustados, e o fato de ter me encaixado nas estruturas desse mundo – ao encontrar trabalhos que me deram satisfação, ao executar serviços que me deram alegria, e ao adotar rotinas que me restituíram a saúde, através do Nodo Norte em Virgem, signo oposto a Peixes -, é o que tem feito com que eu me sinta um verdadeiro traidor dos meus ancestrais que vieram do mar.

Não se trata apenas de maturidade, ou de uma adoção compulsória de hábitos saudáveis por motivo de comprometimento do fígado. Bom, deve ter um pouco disso também. Mas o Nodo Norte se manifesta com um frescor que não tem muito a ver com os constrangimentos da idade. Agora, vamos supor que fosse o contrário. Um Nodo Norte em Peixes dificilmente vai se manifestar de modo tão anedótico quanto meu Nodo Sul pisciano; ele provavelmente vai aparecer para a pessoa em uma versão mais individualizada (mesmo que seja com uma relação frequente, porém mais saudável, com os entorpecentes), ou no mínimo menos atolada nas sarjetas da vida. Nesse caso, o que se apresentaria com maior evidência na primeira etapa de uma biografia seria a Cauda do Dragão em Virgem, talvez com as famosas manias de limpeza e paranoias de organização que criam ambientes imaculados, exatamente opostos aos quartos atulhados de cinzeiros sujos onde que costumava acordar na minha adolescência. Mas o ponto principal aqui não é que a pessoa tenha as características de determinado signo, e sim a maneira como ela se sente devedora de sua fidelidade a um determinado grupo ancestral, vinculada a ele de modo atávico, mesmo quando esse grupo é um bando de doidos e tontos.

Uma pessoa com o Nodo Sul em Virgem, portanto, pode vir de uma linhagem de funcionários públicos ou auxiliares da área de saúde para os quais a humildade na prestação de serviços regulares é um valor fundamental. Essa pessoa vai encontrar o lado pisciano da vida através de um convite para o ócio e para o descanso, uma libertação da roda cármica de tarefas e burocracias e pacientes – mas dificilmente vai perder a sensação de estar em débito com as gerações anteriores de sua estirpe, que tanto trabalharam em favor do bom funcionamento da sociedade e do cosmos. Já uma pessoa com o Nodo Sul em Touro pode muito bem se sentir rebento de um ambiente camponês ou proletário, e valorizar a simplicidade das sensações vitais, dos frutos da terra e do trabalho manual. Mas ela pode também vir a ter uma oportunidade de lidar com o lado mais obscuro e intrincado da vida psíquica (Nodo Norte em Escorpião), demonstrando habilidades que não esperava ter para desatar esses nós.

Tenho uma amiga, com Nodo Sul em Sagitário, que agora – aos 35, 36 anos – está percebendo que não precisa de contar com o respeito do mundo acadêmico para cumprir seu destino. Está descobrindo uma existência independente do reconhecimento universitário já recebido em sua família, porque ela própria é capaz de valorizar outras coisas, e pode muito bem viver sem isso. Com essa posição, algo semelhante acaba acontecendo com alguém que se sinta vinculado a uma religião ou grupo religioso: o Nodo Norte em Gêmeos vai trazer uma leveza lúdica que raramente encontramos nas esferas da intelectualidade ou do sacerdócio, mas que podemos muito bem identificar nos comediantes e artistas de circo. O engraçado aí é que a pessoa se prepara durante anos para se tornar um brâmane ou coisa parecida – e acaba se tornando a grande atração da feira, e acaba se realizando assim.   

Ou seja: todo mundo tem uma corporação, ou estirpe, ou bando, ou alcateia, ou casta, à qual tem que prestar contas durante uma parte da vida. Só não precisamos ficar comprometidos eternamente com a identidade que nos foi legada através de nosso vínculo com os ciclos lunares, pois esses mesmos ciclos trazem um convite ao desbravamento de territórios inexplorados. Usando uma metáfora que uma vez encontrei na internet, é como se você fosse um ator ou atriz já escalado sucessivas vezes para um mesmo tipo de papel – aquilo que na indústria do entretenimento chamam de type casting -, até por conta de sua capacidade de representá-los, o que criou uma associação de sua própria pessoa com um determinado personagem recorrente. Aí de repente aparece um convite para um papel totalmente distinto e até oposto ao que você se acostumou a representar. Minha dica: aceite.

A propósito (e fazendo a ponte entre Hollywood e Bollywood), a menção anterior aos brâmanes – a casta sacerdotal hindu – faz lembrar que Nodo Norte e Nodo Sul são pontos bem conhecidos na astrologia védica, ou indiana, como mencionei lá atrás. Na origem da concepção e cálculo desses pontos, portanto, pode haver uma relação com a sociedade de castas, mas eu não saberia dizer ao certo como são mobilizados nessa moldura. De todo modo, a astrologia se renova também através desses trânsitos e trocas, fazendo com que, por exemplo, a posição do Sol em um mapa natal – tão importante em nossa prática, mas com sentidos e significados já desgastados – possa eventualmente ter sua leitura modificada de maneira positiva em outros contextos culturais. Assim como nós temos a chance de ressignificar as leituras das posições da cauda e da cabeça do dragão, dando ênfase às mudanças que podem representar na vida de um indivíduo, mas sem desconsiderar o que falam sobre nossa inserção em grupos sociais, históricos ou arquetípicos mais amplos.

Mas, para esse movimento estar completo, entendo hoje que a gente precisa ter alguma chance na vida de se reconciliar com nosso antepassados metafóricos e reais, depois de termos simplesmente abandonar o arpão no chão da sala, sob o olhar imensamente decepcionado de nossos pais. Vou contar então a vocês o que acontece quando Netuno estaciona sobre seu Nodo Sul durante o tempo que ficou estacionado no meu. Você passa a viver uma espécie de segunda vida paralela e meio delirante junto a toda aquela multidão de ancestrais que em algum momento acreditou ter deixado no caminho. No começo, parece que eles ressurgiram para tirar satisfação por terem sido traídos; mas depois você percebe que eles simplesmente querem ter você por perto mais um pouquinho, antes de deixá-lo ir. É uma espécie de despedida, que não deu tempo de fazer quando as novidades e desafios do Nodo Norte estavam tomando todo seu tempo. É também um de trabalho de luto, porque você sente que alguma coisa em você está definitivamente deixando de existir.

Não tenho exatamente passado minhas noites bebendo e ouvindo música e procurando por corações rotos que se solidarizem com minha tristeza. Mas tenho ficado parado, quieto, e desperto, às vezes por horas durante a madrugada, enquanto um outro eu (cujo nome é legião) perambula por aí refazendo caminhos tortos já bem conhecidos. Um pouco como se o narrador do conto de Tabucchi de repente passasse a imaginar-se pescando baleias, junto ao pai e outros pescadores, sendo feliz com eles, sem nunca ter optado por outra vida. Chego a pensar que foi só isso mesmo que o pai dele queria: que estivessem juntos mais uma vez, em forma de devaneio, e que fizessem juntos desse modo a última pescaria. Enfim, que seu filho retornasse nem que fosse em sonho para se despedir corretamente, e então ir embora de vez, sem “querer ser um outro” é já sendo, enfim livre da sensação de que precisava escolher entre o arpão entre a viola, porque a viola o havia escolhido, e sabendo que, para ser quem ele era, já não precisava trair ninguém.

Todos os signos

Calhamaços do zodíaco

Pegando carona na onda das listas e correntes, minhas dicas separadas por signos para quem está disposto a encarar algum clássico mastodonte literário durante a quarentena:

Áries: Guerra e Paz, de Leon Tolstoi. Tem bastante guerra. Aí é só você pular as partes de paz.

Touro: As Ilusões Perdidas, de Honoré de Balzac. Vale a pena ler, nem que seja só para chegar na descrição do restaurante Flicoteaux, certamente um dos grandes momentos da literatura sobre comida e dinheiro – ou a falta dele. Balzac era taurino, aliás.

Gêmeos: Ulisses, de James Joyce. É legal se você não levar muito a sério. Por isso, o leitor ideal de Joyce é geminiano.

Câncer: Os Buddenbrooks, de Thomas Mann, ou As Irmãs Makioka, de Junichiro Tanizaki, ou a Trilogia do Cairo, de Naguib Mahfouz. Três calhamaços sobre famílias e uma pergunta: quantas gerações cabem numa quarentena?

Leão: O Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar. Para ler agora incluindo os “capítulos prescindíveis”, pulando de cá pra lá e de lá pra cá, como se fosse uma brincadeira.

Virgem: Casa Desolada, de Charles Dickens. Ah, as delícias de conhecer nos mínimos detalhes os trâmites de um caso judicial inglês.

Libra: Os Embaixadores, de Henry James. Para quem está com tempo de avaliar cada possível decisão ou gesto dos personagens em frases que duram parágrafos e parágrafos que duram páginas para no final das contas a gente descobrir que o tal fulano decidiu nem fazer nada e ficou parado onde estava mesmo.

Escorpião: Moby Dick, de Herman Melville. História de um sujeito estranho, obstinado e movido por impulsos obscuros. Modelo moral.

Sagitário: A Odisseia, de Homero. A. Maior. Viagem.

Capricórnio: Middlemarch, de George Eliot. Para quem quiser encarar a dureza da vida, nesse que Virginia Woolf classificou como um dos poucos romances ingleses escritos para adultos. E capricornianos.

Aquário: Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa. Nonada. Tem frase que seja escrita no normal das gentes nesse livro não, o senhor se espante.  

Peixes: O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes. História de um velho zureta que confunde sonho com realidade. Modelo moral.  

Acrescentaria ainda, em uma categoria à parte, Os Irmãos Karamázov, de Fiodor Dostoievski, que é sem dúvida o livro que eu levaria para uma ilha deserta (ou para uma quarentena, se tivesse que escolher um só), não necessariamente por ser o melhor livro que já li, mas porque já li umas três vezes e nunca me lembro direito do que acontece nele. Tirando, é claro, que fulano mata sicrano. O resto é simplesmente a maior bagunça. Não recomendado para virginianos.  

Todos os signos

Organização Zodiacal da Saúde: arquivos confidenciais

Em um incrível furo de reportagem, LUAS DE JÚPITER obteve acesso exclusivo a um dos documentos mais sigilosos envolvendo o novo Coronavírus. Optamos por reproduzi-lo na íntegra. Te cuida, Glenn Greenwald.


ATA DA QUINQUAGÉSIMA NONAGÉSIMA TERCEIRA REUNIÃO EXTRAORDINÁRIA DA ORGANIZAÇÃO ZODIACAL DA SAÚDE, REALIZADA NO DIA CATORZE DE MARÇO DE DOIS MIL E VINTE.

Às quinze horas do dia catorze de março de dois mil e vinte reuniram-se na sala 502 do edifício-sede da Organização Zodiacal da Saúde em Genebra, Suíça, os doze delegados de cada signo do zodíaco convocados em caráter de urgência para tratar de pauta única referente à pandemia do Novo Caronavírus. O delegado do signo de Capricórnio, sr. Augusto Cabreiro, pediu a palavra: “Caríssimos senhores, caríssimas senhoras. Encontramo-nos hoje reunidos nesses imponentes recintos em função da iminente crise que se avizinha. Desde tempos imemoriais dos quais bem me lembro a humanidade tem sido vítima dos mais diversos tipos de pestilências, mas tudo indica que em questão de dias estaremos diante de um inédito desafio para nossos recursos e capacidades enquanto coletivo anônimo de cidadãos historicamente imbricados na projeção de um futuro de águas turbulentas…”. O representante do signo de Áries, sr. Fikannu Sensaku, interveio: “Ele tá dizendo que vai dar merda”. O sr. Cabreiro retomou a palavra: “Sim. Estou me referindo à possível catástrofe que com alguma relutância classificaria de acordo com a síntese do colega Sensaku, porém creio que não devemos nos deter em dissonâncias, para encontrar possíveis pontos em comum no enfrentamento da doença”. Os presentes assentiram. A delegada do signo de Libra, sra. Justine Labelledejour, ponderou que justamente por isso em sua opinião mas em sua opinião e só em sua opinião mesmo o Novo Coronavírus poderia talvez quem sabe ser convidado para um encontro diplomático com autoridades mundiais em que lhe seriam apresentados argumentos matizados e convincentes para que se detivesse em sua sanha contaminante, recebendo em contrapartida honrarias antes só outorgadas a chefes de estado, de modo que tudo pudesse ser enfim resolvido em um elegante jantar de confraternização no Palácio de Versailles. Ao ouvir a palavra jantar, o delegado do signo de Touro, sr. Couves do Azeitão, que até então dava sinais de sonolência, despertou. O sr. Sensaku interveio mais uma vez: “Pessoal, é só a gente começar incorporar o hábito de lavar as mãos antes e depois das refeições. Pronto. Resolvido? Já pode ir embora?”. O sr. Azeitão ponderou que isso implicaria eventualmente um gasto insustentável de recursos hídricos, uma vez que era só fazer as contas para perceber que lavar as mãos antes e depois das refeições levaria à necessidade de que cada indivíduo lavasse as mãos cerca de vinte e duas vezes por dia. Enquanto isso, a delegada do signo de Virgem, sra. Imaculatta Condoisttê, se levantou com o semblante escandalizado e dirigiu-se aos presentes em tom de indignação: “Como assim, incorporar o hábito de lavar as mãos? Qual era o procedimento adotado antes?”. Seguiu-se um longo e constrangido silêncio, enquanto a sra. Condoisttê lentamente se afastava dos demais representantes e retirava da bolsa um frasco de álcool gel. Diante do risco de dissenção aberta e dissolução da câmara deliberativa, o sr. Cabreiro enfatizou que não era hora de questionar ações passadas, nem de perder tempo com detalhes inexpressivos, e sim de realizar ações efetivas que contribuíssem para interromper o fluxo do contágio. Em resposta, a delegada do signo de Câncer, sra. Tadi Nhaa Dimin, afirmou com meiguice: “Estou plenamente de acordo no que se refere às ações afetivas”. O sr. Cabreiro corrigiu: “Eu disse efetivas”. A sra. Nhaa Dimin prosseguiu, dessa vez com certa rispidez: “Que seja. Ainda assim queria registrar meu desalento com o fato de que, diante dessa epidemia do Novo Coronavírus, o Velho Coronavírus foi esquecido, abandonado, negligenciado, não se fala mais nele, não se reverencia mais sua memória.” O sr. Sensaku interveio irritado: “Puta que pariu, haja paciência, reverenciar vírus, era o que faltava. Se o problema é esse é só chamar de Covid-19. Já podemos ir embora?”. A sra. Labelledejour se mostrou desconfortável com a admoestação brusca e o linguajar baixo, enquanto a sra. Nhaa Dimin respondia: “A que ponto chegamos, já não existe respeito nem pelo nome da família da pobre criatura virótica!”. O sr. Cabreiro sentiu-se na obrigação de encaminhar o debate novamente em um sentido responsável e produtivo: “Senhores, senhoras, acalmem-se. Reitero a necessidade de definirmos as ações que podem ser executadas para alcançar nossos objetivos, como, por exemplo, a suspensão de jogos, espetáculos teatrais, shows musicais e performances públicas de qualquer natureza.” A sra. Luz del Fuego, delegada do signo de Leão, que se encontrava entretida com a postagem de selfies através do celular, riu e disse peremptoriamente, sem tirar os olhos do aparelho: “Nem morta, fofo. Nem morta”.  Ninguém ousou replicar. O sr. Cabreiro conteve o desespero que começava a se revelar em sua face, e retomou a palavra com tenaz perseverança: “Bom, acho que devemos ao menos recomendar que certa distância entre os corpos seja mantida. Que o contato humano mais direto seja evitado a partir de agora”. A sra. Condoisttê, que a essa altura acompanhava a reunião remotamente, dirigiu-se aos presentes com um semblante aterrorizado através da tela de videoconferência: “Como assim, evitar o contato humano mais direto a partir de agora? Qual era o procedimento adotado antes?”. No entanto, a delegada do signo de Escorpião, sra. Indhira Khama Sutra, que até então encontrava-se perscrutando o ambiente com um penetrante silêncio, pontuou de modo ambíguo e misterioso, enquanto mantinha o olhar fixo na sra. Luz del Fuego: “Ah, sim, claro. Evitar o contato humano. Contato. Humano. Acho que devemos continuar essa discussão depois que a reunião terminar”. A sra. Condoisttê apagou a tela da videoconferência após exibir uma última expressão de pânico. O encontro parecia ter chegado a um carregado impasse. Até que o delegado do signo de Aquário, sr. Ezqzwit Ezqzwitsson, se manifestou na bem intencionada tentativa de salvar a empreitada: “Bom, não sei se entendi direito a proposta da sra. Sutra, mas sou a favor de continuarmos a reunião. Aliás acho que devemos fazer outras reuniões, muitas reuniões, o destino da humanidade está em nossas mãos. De mãos dadas podemos fazer mais! Ninguém solta a mão de ninguém!”. E deu as mãos para os colegas de ambos os lados, o sr. Cabreiro e o sr. Tokantanus Nachuvas, delegado do signo de Peixes. Nenhum dos dois correspondeu ao gesto. O sr. Sensaku resumiu o sentimento geral: “Pegar na mão não pode. Ninguém pega na mão de ninguém. Aliás não devia poder nem ter esse tanto de gente junta na mesma sala. Essa reunião era pra ser um email. Já pode ir embora?”. Houve uma espécie de assentimento geral, que pareceu mais devido ao cansaço do que à satisfação com os resultados obtidos. Até mesmo o sr. Cabreiro parecia disposto a capitular. Porém, enquanto isso, foi observado que o sr. Nachuvas permanecia com um ar de divagante dispersão desde o início do encontro, e que no seu caso a falta de ressonância em relação ao gesto do colega aquariano teria acontecido mais por desatenção do que por razões sanitárias. “Sr. Nachuvas”, disse o sr. Cabreiro, demonstrando uma última esperança, “o sr. não teria por acaso alguma espécie de sugestão criativa e inusual sobre como procedermos nesse caso do Coronavírus?”. “Coronavírus?”, respondeu o sr. Nachuvas. “Ai, desculpa, gente, achei que essa era a reunião do G-20”. Na sequência soltou um espirro. Enquanto o sr. Nachuvas assoava o nariz com um lencinho ao deixar a sala, houve grande azáfama entre os delegados. Alguns recolhiam seus pertences sem que a reunião tivesse sido oficialmente encerrada, o que motivou um último esforço do sr. Cabreiro no sentido de determinar alguma medida concreta: “Enfim, vocês não acham que devemos recomendar às pessoas que fiquem em casa?”. A sra. Nhaa Dimin respondeu: “Sim, claro! Ficar em casa! Apoiado!”. O sr. Cabreiro se empolgou: “Vocês não acham que certo isolamento é necessário?” O sr. Sensaku repercutiu: “Sem dúvida! Isolamento total! Apoiado!”. O sr. Cabreiro não se conteve: “Podemos então divulgar um comunicado dizendo que está tudo sob controle? De que foram estabelecidos limites para a disseminação da doença?”. Nisso foi ouvida a risada do sr. Massimo Destempero, delegado do signo de Sagitário, que geralmente tem essa reação sempre que ouve falar sobre controle e limites. Como o regimento da organização prevê que a gargalhada do sr. Destempero invalida quaisquer decisões previamente tomadas em uma reunião, mais uma vez terminamos sem nenhuma definição, como aliás costuma acontecer em nossas reuniões, para frustração do sr. Cabreiro. Em tom de derrota, antes de ir embora ele me instruiu a emitir para a população vagas orientações gerais sobre os riscos do contágio através de fluidos salivares, instruções essas que, a julgar pelos sons que chegam da sala ao lado, já não estão sendo cumpridas pelas próprias sras. Sutra e del Fuego. O sr. Azeitão parece também participar da brincadeira cumprindo um papel que eu não saberia definir a partir dos barulhos. Sem mais assuntos a tratar, foi lavrada essa ata, assinada por mim, Billy Bo Bagen, delegado do signo de Gêmeos, e só por mim mesmo, porque a essa altura os demais delegados foram embora com pressa e sem cerimônias. Sei que de minha parte deveria levar mais a sério o risco de contágio, até porque agora há pouco o sr. Nachuvas retornou espirrando e perguntando se é aqui a reunião do G-20, mas no dia que eu conseguir levar realmente a sério alguma coisa vocês podem saber que me trocaram de corpo com o sr. Cabreiro. Aliás o próprio me ordenou que eu mantenha esse documento do mais absoluto sigilo. Afirmei que ia obedecê-lo com rigor, só para me livrar dele mesmo, porque sem dúvida vou acabar contando tudo para o primeiro jornalista que me aparecer quando sair daqui. É a vida.

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Venha para o cabaré

Tenho um resultado de enquete ainda para honrar, mas antes disso acho que chegou a hora de discutir um assunto importante com vocês leitores. É que alguns já me disseram que com frequência não sabem se estou brincando ou escrevendo a sério nessas postagens (naquela sobre Aquário-o-grande-vilão-do-zodíaco, por exemplo). Explico então: nem eu sei. Sério mesmo (ou melhor, mais ou menos): o limite entre a gravidade e a zoeira aqui é muito tênue, e é bastante possível que eu passe de uma coisa para outra sem nem perceber. Isso tem a ver com meu jeito de escrever e com fato de que esse para mim é um espaço de distração e brincadeira. Mas isso está também totalmente relacionado ao próprio assunto da página, e é aí que as coisas ficam bem interessantes.

Astrologia é um assunto engraçado. E é bom que seja assim. Do arquétipo ao estereótipo é um pulo, e se o salto for bem executado a gente está disposto a perdoar todo tipo de galhofa com as patetices dos nossos signos. Mas existe algo a mais no fato de que a astrologia é sempre um assunto engraçado, ao mesmo tempo em que está longe de ser irrisório. Não conheço nenhum outro fenômeno com esse poder. Mesmo em épocas sombrias, e mesmo quando falamos a sério, costumamos falar de astrologia meio que rindo. Trata-se de um reconhecimento do enorme descompasso entre o absurdo de suas premissas e das premissas com que tocamos nosso cotidiano. Ao mesmo tempo, trata-se da inquietante percepção de que nem por isso a astrologia deixa de ser com frequência inteiramente razoável.

Rimos com a astrologia, portanto, porque ela não faz o menor sentido, e ao mesmo tempo na prática a gente percebe que faz. Existe nesse riso um leve temor e tremor existencial diante das implicações de qualquer acerto astrológico carrega consigo, por mínimo que seja, e ainda que seja o acerto de um estereótipo, desses que proliferam em memes e tuítes correndo soltos por aí (tipo os da página deliciosamente intitulada Não acredito em astrologia, mas…). Muitas vezes é um riso de nervoso, mas também de libertação, que vem da percepção de que não estamos no controle das coisas com nossa razão e nossa ciência. É o bobo da corte dentro de nós escarnecendo da vaidade do soberano que gostamos de ostentar, e sinalizando que há, sim, mais coisas entre o céu e terra do que supõe nossa vã filosofia (aliás, cuidado com astrólogos que se levam muito a sério: eles acham que retomaram o controle das coisas por outros meios).

De minha parte, sou de ficar estatelado achando graça de como alguns aspectos e trânsitos astrológicos se manifestam na minha vida, dos meus amigos e na das pessoas que fazem consultas comigo. Tem algo de muito bizarro acontecendo aí. Essa incredulidade de fundo me causa um constante e sempre renovado assombro com o fato de que, segundo uma série de evidências, existe no universo algo em operação que não entendemos com clareza, que nos envolve em um drama de proporções cósmicas, e para o qual não temos palavras em nosso vocabulário regular, mas cuja descrição conta já com um conjunto de símbolos e termos técnicos bem consolidados. Ajudar a desenvolver e aprimorar ainda mais estes símbolos, aqui nesse espaço, é tarefa que me investe de imensa pompa e galhardia. Sério mesmo. Até onde dá pra ser.

Desse modo, a experiência da astrologia não precisa ser compreendida apenas pelo lado da dissolução de certezas e hábitos mentais enrijecidos que nos isolam do cosmos que nos rodeia. Ao nos colocar em contato com esse cosmos, ela pode muito bem nos fazer dançar junto com ele. Conhecer o mapa astrológico do nosso nascimento, então, nos permite entender um pouco melhor como a banda toca para cada um de nós. A propósito, há quem acredite que somos todos um único Ser brincando de dividir-se em diversas personalidades e aparências. A visão de mundo que a astrologia oferece pode muito bem ser entendida assim, como a de um baile de máscaras em que o Ser se fantasiou de Áries, de Leão, de Capricórnio etc. (e das infinitas combinações entre esses arquétipos que encontramos em cada mapa astrológico) para se perder e se encontrar por meio dessas fantasias.

Tudo parece reduzir-se a um jogo ou a uma brincadeira, porém qualquer um que já se envolveu em um jogo ou em uma brincadeira sabe como jogo e brincadeira são coisas sérias. Ao mesmo tempo, qualquer um que já se envolveu em coisas sérias sabe como, mudando um pouco o ponto de vista, elas podem ser infinitamente engraçadas. Mais uma vez, o limite entre uma coisa e outra quase não existe, e tenho a sensação de que conviver com essa ambiguidade é antes um hábito sanativo do que uma ameaça à nossa lucidez. Por isso, em cada texto que posto aqui, percebam que há sempre um subtexto, uma mensagem subliminar, que é uma espécie de convite. Percebam que na trilha sonora dessa página tem sempre Liza Minelli ou Louis Armstrong cantando lá no fundo: “Life is a cabaret, old chum. Come to the cabaret”.

A vida é um cabaré, meu velho. Venha para o cabaré. Ou, dizendo de outro modo, como já comentei antes. Conheci dois tipos de malucos na vida: os que acreditam em astrologia e os que não acreditam. Destes últimos, há os que possuem a excentricidade adicional de querer discutir o assunto, mas respeito muito a maluquice das pessoas, e não faço questão de convencer outros doidos de que a minha loucura está com a razão. A ajuda que posso oferecer é para quem não sabe se está em um grupo ou no outro. Isto é, a turma do “Eu até vejo que minha mãe é bem capricorniana, mas sei lá, não acredito muito nesse negócio de signo”. É principalmente para esses que meu convite é direcionado.

Notem: a astrologia, a princípio, não é mesmo exatamente uma crença, mas uma percepção e uma experiência, que pode ser vivida em diferentes graus, mas cuja natureza é sempre a mesma. Portanto, se você se identifica com características atribuídas ao seu signo solar; se já identificou essas características em amigos e conhecidos; se já disse algo como “ah, isso é porque eu sou de Áries”, ou, “isso é muito coisa de geminiano mesmo”, você já está dizendo uma sandice sem tamanho. Você está dizendo que a posição de um corpo celeste situado a não sei quantos milhões de quilômetros da Terra no momento em que uma pessoa nasceu tem alguma relação com o comportamento dessa pessoa muitos anos depois. Ou seja, maluco. Completamente pirado. Não tem mais volta. Junte-se a nós.

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Signos e séries

Fleabag

O pessoal do departamento de marketing aqui do blog sugeriu que eu fizesse um post sobre signos e séries, juntando tudo de bom que tem na internet. Melhor que isso, só se fosse sobre signos, séries e gatos. Nem chego a tanto, mas andei reservando alguns instantes de ócio criativo para conceder prêmios imaginários a personagens de séries pela representação de traços dos arquétipos do zodíaco em suas atuações. A lista está em construção, pode ter ajustes, e aceito críticas ou sugestões, mas no pé em que as coisas estão THE LUAS DE JÚPITER HERMES AWARDS GOES TO:

Áries

Nancy Botwin (Marie-Louise Parker, em Weeds). Faz o que precisa ser feito, é pioneira em seu campo de negócios, não fica esperando os outros resolverem o problema. Uma lutadora. Mas não que ela se importe com a minha ou a sua opinião.

Mas o prêmio principal pode ir também para a professora Rita Madsen (Mille Dinesen, em Rita). Independente, carismática, impulsiva. Não leva desaforo pra casa. Prefere tudo às claras. Vive metendo os pés pelas mãos.

Menção honrosa para Eleonor Shellstrop (Kristen Bell, em The Good Place). Fala palavrão, não tem paciência para a companhia dos humanos, mas acaba liderando o grupo. Seu par romântico, Chidi, é o típico libriano indeciso.

É claro que em Game of Thrones deve ter uns dois ou três guerreiros valorosos e sanguinários que mereceriam uma indicação também. Mas nunca me lembro do nome dos personagens de GoT. Pra resolver o problema, está criado o prêmio especial de elenco de Áries. Vai para Game of Thrones.

Touro

O prêmio principal vai para Earnest “Earn” Marks (Donald Glover, em Atlanta). Vive na pindaíba; o nome “Earn” só pode ser brincadeira. Mas tem no semblante aquela coisa taurínea que a gente não sabe se é serenidade, obstinação ou sarcasmo, e deve ser um pouco disso tudo ao mesmo tempo.

Já disse que em Touro dinheiro é uma questão, sobretudo pelo medo de faltar. Comida também. Junte isso à honestidade, à simplicidade, à constância, e premiamos também o Chaves (Roberto Bolaños, em El Chavo). Aquele humor que oferece segurança, com a repetição incessante das mesmas boas e velhas piadas. A propósito, pelos mesmos motivos, indico apaixonadamente a todos a série canadense Trailer Park Boys.

Tem ainda a Claire Foy como a Rainha Elizabeth em The Crown. Porque a rainha é taurina né? Pragmática, consistente, até previsível na comparação com a irmã. É interessante ver como ela vai se tornando o baluarte do bom e velho bom senso britânico.

Aliás, por falar em constância, a menção honrosa fica para Grey’s Anatomy. Pela persistência, pela perseverança, pela teimosia.

Gêmeos

Prêmio principal para a Fleabag (Phoebe Waller-Bridge), da série de mesmo nome. Conversa consigo mesmo, fala com quem nem está lá, vive agindo que nem criança. E se safando com isso.

A comédia em pé é território caracteristicamente geminiano, o raciocínio rápido também, e o segundo prêmio vai para Miriam Maisel (Amy Sherman-Palladino, em The Marvelous Mrs. Maisel). Ou então para Jerry Seinfeld.  

Tem também o Jimmy McGill (Bob Odenkirk), de Better Call Saul. Não porque se trata de uma peça sobre um advogado vigarista e trambiqueiro (não só por isso), mas porque é sobre um irmão mais novo tentando conquistar a admiração de um irmão mais velho.

Enfim, Gêmeos é sobre comunicação, distribuição de informações, interceptação de informações. O prêmio de Melhor Série Geminiana vai para The Wire. O prêmio de Série Geminiana Também fica com Gossip Girl.

Câncer

Aqui não tem concorrência, o grande prêmio vai para Tony Soprano (James Gandolfini, em Família Soprano). Um homem de família, sensível, analisado, cheio que questões com a mãe. Chora quando morre o cavalo. Aprecia a vida no lar.  

Prêmio de participação especial para Mags Bennet (a personagem de Margo Martindale na segunda temporada de Justified). Mãezona e chefona de um clã de caipiras traficantes capangas. Aprecia a vida no trailer.

O prêmio especial de elenco por ora fica dividido entre Transparent, Modern Family e The Simpsons. E, sim, no meu entendimento o Homer é canceriano.

Leão

Selina Meyer (Julia Louis-Dreyfus, em Veep). Liderança e egocentrismo. Desde que existem reis e rainhas, felizmente existem atores e atrizes para nos mostrar como essas duas coisas juntas podem ser engraçadas.

Bojack Horseman (voz de Will Arnett, em Bojack Horseman). Egocentrismo e decadência. Desde que existem atores e atrizes, felizmente existem cavalos e éguas e outros animais para nos mostrar como essas duas coisas juntas podem ser engraçadas.

Prêmio de elenco para as meninas de Glow. Puro amor pelo palco, e pelo ringue.

Virgem

Dexter (Michael C. Hall, em Dexter). Limpo, metódico, organizado, como precisa ser em sua área de atividade. Todo serial killer é um virginiano em potencial. Ou seria o contrário?

Dr. Gregory House (Hugh Laurie, em House). Fiquei na dúvida se era aqui mesmo que o House entrava. Agradeço o eventual parecer do leitor. Escolhi Virgem porque tem a questão da atenção aos detalhes, da concentração no trabalho de diagnóstico. É verdade que ele não obedece a protocolo nenhum, apenas aos dele. Mas, sei lá, acho que o House é virginiano sim, e conheço virginianos que são um pouco que nem o House.

São virginianas também as rotinas do escritório e do ambiente de trabalho. Prêmio de elenco para The Office.

Libra

Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker, em Sex and the City). Vive ouvindo e dando conselhos pras amigas, é especialista em relacionamentos, mas o dela mesmo vive enrolado. Ainda assim, mantém a elegância.

Ou então Alicia Florrick (Julianna Margulies, em The Good Wife). Começa bem libriana, vai mostrando seu lado vingativo-escorpiônico, e a gente percebe que ele está lá, mas ela nunca atravessa completamente pro outro lado da força. Ou, quando atravessa, acaba tentando ainda assim equilibrar os pratos.

Não consegui decidir entre as duas. Fui tomado pelo arquétipo. O que eu queria mesmo era uma terceira alternativa para solucionar o problema. Conselhos? Sugestões?

Já o Prêmio de Melhor Roteiro Libriano para Séries Descoladinhas que Tratam das Dificuldades nos Relacionamentos Contemporâneos a princípio ficou entre Easy e Modern Love. Mas acabou decididamente concedido a esta última, com a ressalva de que os episódios da série utilizam roteiros adaptados de relatos autobiográficos, com desenlaces mais esperançosos ou menos cínicos do que as tramas estritamente ficcionais da outra. Fica a pergunta: a realidade é menos difícil do que a gente imagina, ou foi Libra que deu um jeito de encontrar soluções negociadas para os perrengues do amor?

Escorpião

Donald Draper (John Hamm, em Mad Men). Jeitão misterioso, tem um segredo no passado, já morreu uma vez. Trabalha mexendo com a cabeça das pessoas.

Concorre também a detetive Olivia Benson (Mariska Hargitai, em Law and Order: Special Victims Unity). Escorpião é o arquétipo dos indivíduos capazes de lidar com o lado mais obscuro do ser humano, como os investigadores de crimes sexuais.

Prêmio de série escorpiônica para Stranger Things, por reencenar na primeira temporada a abdução de Perséfone para o Hades. O “upside down” é definitivamente território de Escorpião.

Recomendo também Happy Valley, ou Broadchurch, ou qualquer série britânica sobre uma cidadezinha pacata que guarda terríveis segredos.

Sagitário

Walter White (Bryan Cranston, em Breaking Bad). Mas o prêmio é na verdade para Heisenberg, o lendário mega-traficante que ele se tornou. Sagitário é sobre sair do ponto A e chegar em um ponto B completamente diferente. É também sobre excessos. Heisenberg é uma lenda jupiteriana.

Correndo por fora, temos Kimmy Schmidt (Ellie Kemper, em Unbreakable Kimmy Schimidt). Aquele entusiasmo e otimismo inquebrantáveis dos sagitarianos, às vezes insuportavelmente inquebrantáveis, mesmo depois de décadas vivendo em um bunker.

Porém aprendi que Sagitário pode ser tão pessimista quanto otimista – geralmente está em um dos extremos. É sagitariano o ambiente das seitas apocalípticas e das profecias alucinadas. O prêmio de série sagitariana vai para The Leftovers. Vejam, sobretudo a segunda temporada, que vale a pena.

Capricórnio

Eric “Coach” Taylor (Kyle Chandler, em Friday Night Lights). Paizão dedicado, profissional estimado, orgulho da cidade. Reapareceu interpretando um personagem semelhante em Bloodline, com a diferença que aí ele mostrou o que um capricorniano estressado é capaz de fazer.

Tem também ” El Profesor” (Álvaro Morte) de La Casa de Papel. Capaz de gerenciar um projeto de larga escala cuidando ao mesmo tempo do conjunto da operação e dos mínimos detalhes. Ambicioso, controlador e obstinado, mas com uns probleminhas emocionais.

Menção especial para Logan Roy (Brian Cox, em Succession). Fundador de um mega-conglomerado de empresas que, como Saturno, tem o hábito de engolir os filhos.

Prêmio de elenco para The West Wing. Políticos moderados e bem intencionados querendo fazer o bem pelo mundo com uma boa dose de pragmatismo. Capricórnio às vezes tenta nos fazer acreditar que as coisas podem funcionar desse jeito. Se consegue é outra história.

Aquário

Leslie Knope (Amy Poehler, em Parks and Recreation). Leslie tem características tauríneas e virginianas, mas sua empolgação com esforços coletivos em prol do bem público lhe rendeu a indicação nessa categoria.

Mas sabemos como Aquário também pode ser cerebral, frio e calculista. Quase não-humano. Ponto para Sheldon Cooper (Jim Parsons, em The Big Bang Theory).

E, para fazer justiça às potencialidades criminosas do arquétipo, proponho o prêmio especial de aquariano coadjuvante, concedido a Gus Fring (Giancarlo Sposito, em Breaking Bad e Better Call Saul), que ainda tem a vantagem de habitar uma espécie de universo expandido em rede onde se conectam diferentes séries – algo arquetipicamente aquariano.

Tem ainda o Eliott Alderson (Rami Malek) de Mr. Robot: esquisito, genial, entende tudo de tecnologia e comunicação em rede, mas vai saber o que ele anda fazendo com isso.

E preciso acrescentar a Janet (D’Arcy Carden), de The Good Place também. Fiz até uma pesquisa na internet para saber de qual signo o pessoal acha que ela é. Minhas conclusões estão nessa postagem aqui.

Peixes

Daniel Holden (Aden Young, em Rectify). Vítima de uma grande injustiça, passou anos meditando na prisão, e não entende bem o que está acontecendo.

Prêmio de roteiro original para Westworld. A vida é sonho? Somos apenas sombras? Quantos mundos cabem na palma da mão? Gente, me explica, o que que tá acontecendo?

Menção especialíssima para Derek (Ricky Gervais, em Derek). Coração do tamanho do mundo, trabalha em um asilo de idosos, junto com outros marginalizados.

Ah, e tem ainda o prêmio de Melhor Canção Original Pisciana, para Phoebe Buffay cantando “Smelly Cat” em Friends.

Pronto, produção, aí está: signos, séries e… gatos!

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Os signos fazendo uma coisa

[Breaking Bad ]

Pouca gente percebe, mas o zodíaco não é só repleto de arte e poesia e cosmologia e urbanismo, ele tem bastante engenharia da produção também. Funciona assim quando os signos se reúnem para realizar um projeto:

Áries começa. Não precisa nem saber o que está começando, onde aquilo vai dar, se vai terminar um dia. Simplesmente começa, nem que seja por falta de paciência para esperar o outro começar.

Touro continua. Alguém precisa pegar um daqueles tantos projetos que Áries começou e dar prosseguimento. Para isso, ele avalia se há recursos humanos e materiais. Se o projeto é viável. Se tem comida pra todo mundo aguentar até o final.  

Mas alguém precisa fazer a comunicação. Gêmeos então sai falando por aí: “Então, a gente está fazendo um projeto”. Quando diz “a gente”, Gêmeos presume que tem alguém efetivamente fazendo as coisas.

A essa altura, Câncer percebe que não existe um vínculo verdadeiro entre os membros da equipe. Reúne todo mundo para um almoço de domingo em sua casa. Termina todo mundo bêbado e cantando junto canções do Roberto Carlos.

No dia seguinte a equipe está de ressaca. De repente, Leão posta para o mundo uma foto deslumbrante com cabelos revoltosos e a seguinte legenda: “Oi gente, EU estou realizando um projeto!”. Ninguém entende como ele se recuperou tão rápido, aí se lembram de que Leão nem foi no almoço, ficou em casa fazendo a produção da foto. Em tempo: quando diz “EU”, Leão presume que tem alguém efetivamente fazendo as coisas.

Nesse ponto vocês sabem muito bem quem está efetivamente fazendo as coisas. O problema é que Virgem em algum momento começa a consertar tudo o que os outros fazem também. Põe defeito até na juba do Leão. É aí que começam as brigas.

Libra entra em cena. Tenta conciliar todo mundo. Não consegue. Desiste. Tenta de novo. Pensa melhor. Desiste de novo. Tenta novamente. Pensa em outra coisa.

Escorpião entra em cena. Não, eu não vou dizer pra vocês a primeira coisa que me vem à mente nesse caso quando pensei em Escorpião. É a maior sacanagem, isso de ficar reforçando estereótipos.

Além disso, logo surge Sagitário e profere um discurso lembrando que a equipe tem ainda uma missão a cumprir, e exortando todos a fazer algo MAIOR, algo MELHOR, algo EXTRAORDINÁRIO. No final ninguém sabe mais do que ele está falando, mas parece mesmo ser algo incrível.

Nesse momento Capricórnio se desespera, porque desse jeito eles nunca vão realmente concluir nada. Assume o controle da operação, gerencia a equipe para alcançar o resultado pretendido (de acordo com metas realistas), apresenta o relatório final a seu superior imediato, e tenta descansar. Mas no dia seguinte já está envolvido em outro projeto.

Aquário olha para produto final e se pergunta qual é no final das contas a contribuição do projeto para a humanidade. Isso, claro, quando o aquariano faz parte da humanidade.

Todo mundo olha para Peixes, para ver se ele tem uma resposta. “Produto?”, “Projeto?”, “Humanidade?”, pergunta-se Peixes. Tudo isso lhe parece muito curioso. Como se nunca tivesse realmente acontecido. Uma espécie de sonho.

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Estatísticas

Agradeço a todo mundo que atendeu ao meu apelo para contar o ascendente pelas redes sociais. Agora enfim tenho uma amostra considerável para oferecer minha contribuição ao desenvolvimento da ciência astrológica com o máximo rigor metodológico. Em seguida, apresento alguns dados do DATAGUS acompanhados das respectivas análises qualitativas:

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em ÁRIES foi de 5,8% do total. Porém, sabe-se que a conclusão da amostragem não corresponde à realidade. Tem muita gente com ascendente em Áries que já não está em rede social nenhuma. Saíram fora dessa.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em TOURO foi de 8,33333%. Foi o único signo cujo número correspondeu a exatamente 1/12 do total. O pessoal de ascendente em Touro é objetivo. Quando a gente pergunta o ascendente eles respondem “Touro”, e mantêm-se impassíveis, como que esperando a gente dizer alguma coisa a respeito. Mas nessas horas costumo perceber lá no fundo de seus olhos um desconcertante lampejo de sarcasmo.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em GÊMEOS foi de 8,8% do total. Desses, quase metade respondeu “Gêmeos kkkkkkkkk”. Deve ser divertido ter o ascendente em Gêmeos.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em CÂNCER foi de 7,5% do total. Infelizmente, nenhum deles me convidou para tomar um café e comer um bolinho na casa deles. Tomar café e comer bolinho na casa do ascendente em Câncer é especial. Convida aí, pessoal, que eu aceito.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em LEÃO foi de 12,3% do total. Outro número que com certeza não corresponde à realidade. Ter ascendente em Leão é o máximo. Tem gente que diz só pra aparecer.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em VIRGEM foi de 10,3% do total. É um número alto, mas possivelmente correspondente ao número de indivíduos vivos com este ascendente. Mesmo o pessoal com a Lua em Peixes ou Marte em Gêmeos uma hora resolve fazer tudo certinho e manter uma rotina saudável, se tiver o ascendente em Virgem. O percentual se explica pela longevidade.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em LIBRA de foi 8,6% do total. Uma breve análise das fotos de perfil confirma a fama desse ascendente. Ô gente bonita, meu Deus.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em ESCORPIÃO foi de 4,2% do total. O índice extremamente baixo é fácil de explicar. Um ascendente em Escorpião não vai sair contando isso por aí (eu, por exemplo, não conto). A propósito, 100% dos indivíduos que responderam com “quero ver vc adivinhar” tinham ascendente em Escorpião. Já três indivíduos perguntaram se isso de ter ascendente em Escorpião é grave. Dois deles, anonimamente.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em SAGITÁRIO foi de 8,0% do total. Metade desses já sabia tudo sobre ter ascendente em Sagitário. A outra metade pediu bibliografia.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em CAPRICÓRNIO foi de 6,9% do total. Aqui também acho que há uma distorção. Muitos não responderam a pesquisa porque estavam trabalhando em um projeto. Ascendente em Capricórnio está sempre trabalhando em um projeto.

O número de indivíduos que declararam ter ascendente em AQUÁRIO foi de 9,1% do total. Aqui temos um caso muito singular, mesmo para meu círculo de conhecidos: dois a cada três desses indivíduos são estudantes de humanos. Ops, de humanas. Mas faz sentido. Sempre tenho a sensação de que Aquário é gente de outros planetas que resolveu passar um tempo na Terra por algum motivo. No caso do ascendente agora está claro. Vieram nos pesquisar.

Enfim, o número de indivíduos que declararam ter ascendente em PEIXES foi de 6,4% do total. Aqui acontece algo aparecido com o ascendente em Áries. A diferença é que o ascendente em Peixes não está fora só das redes sociais. Ele está a caminho de estar fora da sociedade mesmo. Faz muito bem.

A propósito, dos 1,7% que responderam “ih não lembro”, presume -se que a maioria tenha ascendente em Peixes.

Por enquanto é isso. Estaremos em contínuo trabalho de processamento e análise das informações. A qualquer momento pode sair um novo relatório. Mais uma vez obrigado.

Todos os signos

Como morrem os signos

O Sétimo Selo, dir. Ingmar Bergman (1957)

Áries morre no calor do combate. Nem chega a ver o rosto da morte. Não sofre por antecipação: o golpe é fatal, súbito e exato.

Touro vê a morte de longe, depois vê a morte chegando, e vai se aproximando dela, até que se encontram. Nada altera seu caminho.

Gêmeos pode até aceitar a morte, só queria ter uma conversa com ela antes: “Isso de morrer, precisa mesmo?”, “esse seu trabalho, é meio pesado né?”, “lá pra onde a gente vai, tem internet?”

Câncer odeia a morte. Queria que ela morresse. Mas ia ficar triste se morresse mesmo.

Leão desafia a morte. Não tem chance de vencê-la, mas faz parecer que tem. Sua morte é uma derrota, mas uma derrota trágica, bela e gloriosa.

A morte de Virgem é um rito. Ela é recebida em um lugar adequado e com os utensílios corretos. Até para morrer existe um jeito certo.

Libra também conversa com a morte, e começa tentando fazê-la mudar de ideia. Depois aceita que a morte é inevitável. Acaba concordando com ela em inúmeros outros assuntos também.

Escorpião morre várias vezes na vida. Tantas que faz amizade com a morte. É com carinho que a recebe na última visita. “Vem cá minha velha”, diz, cheio de intimidades.

Sagitário tem uma teoria a respeito da morte, e vai explicá-la para a morte quando a morte chegar. Vai ser a maior viagem, mas a morte vai achar interessante e vai ouvir até o fim.

Capricórnio respeita a morte, sabe que ela está aí há muito tempo. Morrer é uma coisa que todo mundo faz, não vai ser ele que vai inventar moda do contrário.

Aquário recebe a morte como um convite para entrar em um clube, tipo ingressar em uma associação: “Tô nessa, quero participar também”. Mas Aquário pode sentir exatamente o contrário, a morte como oportunidade de deixar de participar do clube dos vivos: “enfim”, diz, “tire-me daqui”.

Peixes se rende à morte como se rende ao sono, deixa que ela leve peça por peça, entrega os pontos. E, se tem alguém que consegue enganar a morte, esse alguém é Peixes, quando finge que está jogando para vencer, e na verdade não está nem prestando atenção no placar do jogo.