Todos os signos

Calhamaços do zodíaco

Pegando carona na onda das listas e correntes, minhas dicas separadas por signos para quem está disposto a encarar algum clássico mastodonte literário durante a quarentena:

Áries: Guerra e Paz, de Leon Tolstoi. Tem bastante guerra. Aí é só você pular as partes de paz.

Touro: As Ilusões Perdidas, de Honoré de Balzac. Vale a pena ler, nem que seja só para chegar na descrição do restaurante Flicoteaux, certamente um dos grandes momentos da literatura sobre comida e dinheiro – ou a falta dele. Balzac era taurino, aliás.

Gêmeos: Ulisses, de James Joyce. É legal se você não levar muito a sério. Por isso, o leitor ideal de Joyce é geminiano.

Câncer: Os Buddenbrooks, de Thomas Mann, ou As Irmãs Makioka, de Junichiro Tanizaki, ou a Trilogia do Cairo, de Naguib Mahfouz. Três calhamaços sobre famílias e uma pergunta: quantas gerações cabem numa quarentena?

Leão: O Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar. Para ler agora incluindo os “capítulos prescindíveis”, pulando de cá pra lá e de lá pra cá, como se fosse uma brincadeira.

Virgem: Casa Desolada, de Charles Dickens. Ah, as delícias de conhecer nos mínimos detalhes os trâmites de um caso judicial inglês.

Libra: Os Embaixadores, de Henry James. Para quem está com tempo de avaliar cada possível decisão ou gesto dos personagens em frases que duram parágrafos e parágrafos que duram páginas para no final das contas a gente descobrir que o tal fulano decidiu nem fazer nada e ficou parado onde estava mesmo.

Escorpião: Moby Dick, de Herman Melville. História de um sujeito estranho, obstinado e movido por impulsos obscuros. Modelo moral.

Sagitário: A Odisseia, de Homero. A. Maior. Viagem.

Capricórnio: Middlemarch, de George Eliot. Para quem quiser encarar a dureza da vida, nesse que Virginia Woolf classificou como um dos poucos romances ingleses escritos para adultos. E capricornianos.

Aquário: Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa. Nonada. Tem frase que seja escrita no normal das gentes nesse livro não, o senhor se espante.  

Peixes: O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes. História de um velho zureta que confunde sonho com realidade. Modelo moral.  

Acrescentaria ainda, em uma categoria à parte, Os Irmãos Karamázov, de Fiodor Dostoievski, que é sem dúvida o livro que eu levaria para uma ilha deserta (ou para uma quarentena, se tivesse que escolher um só), não necessariamente por ser o melhor livro que já li, mas porque já li umas três vezes e nunca me lembro direito do que acontece nele. Tirando, é claro, que fulano mata sicrano. O resto é simplesmente a maior bagunça. Não recomendado para virginianos.  

Todos os signos

Organização Zodiacal da Saúde: arquivos confidenciais

Em um incrível furo de reportagem, LUAS DE JÚPITER obteve acesso exclusivo a um dos documentos mais sigilosos envolvendo o novo Coronavírus. Optamos por reproduzi-lo na íntegra. Te cuida, Glenn Greenwald.


ATA DA QUINQUAGÉSIMA NONAGÉSIMA TERCEIRA REUNIÃO EXTRAORDINÁRIA DA ORGANIZAÇÃO ZODIACAL DA SAÚDE, REALIZADA NO DIA CATORZE DE MARÇO DE DOIS MIL E VINTE.

Às quinze horas do dia catorze de março de dois mil e vinte reuniram-se na sala 502 do edifício-sede da Organização Zodiacal da Saúde em Genebra, Suíça, os doze delegados de cada signo do zodíaco convocados em caráter de urgência para tratar de pauta única referente à pandemia do Novo Caronavírus. O delegado do signo de Capricórnio, sr. Augusto Cabreiro, pediu a palavra: “Caríssimos senhores, caríssimas senhoras. Encontramo-nos hoje reunidos nesses imponentes recintos em função da iminente crise que se avizinha. Desde tempos imemoriais dos quais bem me lembro a humanidade tem sido vítima dos mais diversos tipos de pestilências, mas tudo indica que em questão de dias estaremos diante de um inédito desafio para nossos recursos e capacidades enquanto coletivo anônimo de cidadãos historicamente imbricados na projeção de um futuro de águas turbulentas…”. O representante do signo de Áries, sr. Fikannu Sensaku, interveio: “Ele tá dizendo que vai dar merda”. O sr. Cabreiro retomou a palavra: “Sim. Estou me referindo à possível catástrofe que com alguma relutância classificaria de acordo com a síntese do colega Sensaku, porém creio que não devemos nos deter em dissonâncias, para encontrar possíveis pontos em comum no enfrentamento da doença”. Os presentes assentiram. A delegada do signo de Libra, sra. Justine Labelledejour, ponderou que justamente por isso em sua opinião mas em sua opinião e só em sua opinião mesmo o Novo Coronavírus poderia talvez quem sabe ser convidado para um encontro diplomático com autoridades mundiais em que lhe seriam apresentados argumentos matizados e convincentes para que se detivesse em sua sanha contaminante, recebendo em contrapartida honrarias antes só outorgadas a chefes de estado, de modo que tudo pudesse ser enfim resolvido em um elegante jantar de confraternização no Palácio de Versailles. Ao ouvir a palavra jantar, o delegado do signo de Touro, sr. Couves do Azeitão, que até então dava sinais de sonolência, despertou. O sr. Sensaku interveio mais uma vez: “Pessoal, é só a gente começar incorporar o hábito de lavar as mãos antes e depois das refeições. Pronto. Resolvido? Já pode ir embora?”. O sr. Azeitão ponderou que isso implicaria eventualmente um gasto insustentável de recursos hídricos, uma vez que era só fazer as contas para perceber que lavar as mãos antes e depois das refeições levaria à necessidade de que cada indivíduo lavasse as mãos cerca de vinte e duas vezes por dia. Enquanto isso, a delegada do signo de Virgem, sra. Imaculatta Condoisttê, se levantou com o semblante escandalizado e dirigiu-se aos presentes em tom de indignação: “Como assim, incorporar o hábito de lavar as mãos? Qual era o procedimento adotado antes?”. Seguiu-se um longo e constrangido silêncio, enquanto a sra. Condoisttê lentamente se afastava dos demais representantes e retirava da bolsa um frasco de álcool gel. Diante do risco de dissenção aberta e dissolução da câmara deliberativa, o sr. Cabreiro enfatizou que não era hora de questionar ações passadas, nem de perder tempo com detalhes inexpressivos, e sim de realizar ações efetivas que contribuíssem para interromper o fluxo do contágio. Em resposta, a delegada do signo de Câncer, sra. Tadi Nhaa Dimin, afirmou com meiguice: “Estou plenamente de acordo no que se refere às ações afetivas”. O sr. Cabreiro corrigiu: “Eu disse efetivas”. A sra. Nhaa Dimin prosseguiu, dessa vez com certa rispidez: “Que seja. Ainda assim queria registrar meu desalento com o fato de que, diante dessa epidemia do Novo Coronavírus, o Velho Coronavírus foi esquecido, abandonado, negligenciado, não se fala mais nele, não se reverencia mais sua memória.” O sr. Sensaku interveio irritado: “Puta que pariu, haja paciência, reverenciar vírus, era o que faltava. Se o problema é esse é só chamar de Covid-19. Já podemos ir embora?”. A sra. Labelledejour se mostrou desconfortável com a admoestação brusca e o linguajar baixo, enquanto a sra. Nhaa Dimin respondia: “A que ponto chegamos, já não existe respeito nem pelo nome da família da pobre criatura virótica!”. O sr. Cabreiro sentiu-se na obrigação de encaminhar o debate novamente em um sentido responsável e produtivo: “Senhores, senhoras, acalmem-se. Reitero a necessidade de definirmos as ações que podem ser executadas para alcançar nossos objetivos, como, por exemplo, a suspensão de jogos, espetáculos teatrais, shows musicais e performances públicas de qualquer natureza.” A sra. Luz del Fuego, delegada do signo de Leão, que se encontrava entretida com a postagem de selfies através do celular, riu e disse peremptoriamente, sem tirar os olhos do aparelho: “Nem morta, fofo. Nem morta”.  Ninguém ousou replicar. O sr. Cabreiro conteve o desespero que começava a se revelar em sua face, e retomou a palavra com tenaz perseverança: “Bom, acho que devemos ao menos recomendar que certa distância entre os corpos seja mantida. Que o contato humano mais direto seja evitado a partir de agora”. A sra. Condoisttê, que a essa altura acompanhava a reunião remotamente, dirigiu-se aos presentes com um semblante aterrorizado através da tela de videoconferência: “Como assim, evitar o contato humano mais direto a partir de agora? Qual era o procedimento adotado antes?”. No entanto, a delegada do signo de Escorpião, sra. Indhira Khama Sutra, que até então encontrava-se perscrutando o ambiente com um penetrante silêncio, pontuou de modo ambíguo e misterioso, enquanto mantinha o olhar fixo na sra. Luz del Fuego: “Ah, sim, claro. Evitar o contato humano. Contato. Humano. Acho que devemos continuar essa discussão depois que a reunião terminar”. A sra. Condoisttê apagou a tela da videoconferência após exibir uma última expressão de pânico. O encontro parecia ter chegado a um carregado impasse. Até que o delegado do signo de Aquário, sr. Ezqzwit Ezqzwitsson, se manifestou na bem intencionada tentativa de salvar a empreitada: “Bom, não sei se entendi direito a proposta da sra. Sutra, mas sou a favor de continuarmos a reunião. Aliás acho que devemos fazer outras reuniões, muitas reuniões, o destino da humanidade está em nossas mãos. De mãos dadas podemos fazer mais! Ninguém solta a mão de ninguém!”. E deu as mãos para os colegas de ambos os lados, o sr. Cabreiro e o sr. Tokantanus Nachuvas, delegado do signo de Peixes. Nenhum dos dois correspondeu ao gesto. O sr. Sensaku resumiu o sentimento geral: “Pegar na mão não pode. Ninguém pega na mão de ninguém. Aliás não devia poder nem ter esse tanto de gente junta na mesma sala. Essa reunião era pra ser um email. Já pode ir embora?”. Houve uma espécie de assentimento geral, que pareceu mais devido ao cansaço do que à satisfação com os resultados obtidos. Até mesmo o sr. Cabreiro parecia disposto a capitular. Porém, enquanto isso, foi observado que o sr. Nachuvas permanecia com um ar de divagante dispersão desde o início do encontro, e que no seu caso a falta de ressonância em relação ao gesto do colega aquariano teria acontecido mais por desatenção do que por razões sanitárias. “Sr. Nachuvas”, disse o sr. Cabreiro, demonstrando uma última esperança, “o sr. não teria por acaso alguma espécie de sugestão criativa e inusual sobre como procedermos nesse caso do Coronavírus?”. “Coronavírus?”, respondeu o sr. Nachuvas. “Ai, desculpa, gente, achei que essa era a reunião do G-20”. Na sequência soltou um espirro. Enquanto o sr. Nachuvas assoava o nariz com um lencinho ao deixar a sala, houve grande azáfama entre os delegados. Alguns recolhiam seus pertences sem que a reunião tivesse sido oficialmente encerrada, o que motivou um último esforço do sr. Cabreiro no sentido de determinar alguma medida concreta: “Enfim, vocês não acham que devemos recomendar às pessoas que fiquem em casa?”. A sra. Nhaa Dimin respondeu: “Sim, claro! Ficar em casa! Apoiado!”. O sr. Cabreiro se empolgou: “Vocês não acham que certo isolamento é necessário?” O sr. Sensaku repercutiu: “Sem dúvida! Isolamento total! Apoiado!”. O sr. Cabreiro não se conteve: “Podemos então divulgar um comunicado dizendo que está tudo sob controle? De que foram estabelecidos limites para a disseminação da doença?”. Nisso foi ouvida a risada do sr. Massimo Destempero, delegado do signo de Sagitário, que geralmente tem essa reação sempre que ouve falar sobre controle e limites. Como o regimento da organização prevê que a gargalhada do sr. Destempero invalida quaisquer decisões previamente tomadas em uma reunião, mais uma vez terminamos sem nenhuma definição, como aliás costuma acontecer em nossas reuniões, para frustração do sr. Cabreiro. Em tom de derrota, antes de ir embora ele me instruiu a emitir para a população vagas orientações gerais sobre os riscos do contágio através de fluidos salivares, instruções essas que, a julgar pelos sons que chegam da sala ao lado, já não estão sendo cumpridas pelas próprias sras. Sutra e del Fuego. O sr. Azeitão parece também participar da brincadeira cumprindo um papel que eu não saberia definir a partir dos barulhos. Sem mais assuntos a tratar, foi lavrada essa ata, assinada por mim, Billy Bo Bagen, delegado do signo de Gêmeos, e só por mim mesmo, porque a essa altura os demais delegados foram embora com pressa e sem cerimônias. Sei que de minha parte deveria levar mais a sério o risco de contágio, até porque agora há pouco o sr. Nachuvas retornou espirrando e perguntando se é aqui a reunião do G-20, mas no dia que eu conseguir levar realmente a sério alguma coisa vocês podem saber que me trocaram de corpo com o sr. Cabreiro. Aliás o próprio me ordenou que eu mantenha esse documento do mais absoluto sigilo. Afirmei que ia obedecê-lo com rigor, só para me livrar dele mesmo, porque sem dúvida vou acabar contando tudo para o primeiro jornalista que me aparecer quando sair daqui. É a vida.

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Venha para o cabaré

Tenho um resultado de enquete ainda para honrar, mas antes disso acho que chegou a hora de discutir um assunto importante com vocês leitores. É que alguns já me disseram que com frequência não sabem se estou brincando ou escrevendo a sério nessas postagens (naquela sobre Aquário-o-grande-vilão-do-zodíaco, por exemplo). Explico então: nem eu sei. Sério mesmo (ou melhor, mais ou menos): o limite entre a gravidade e a zoeira aqui é muito tênue, e é bastante possível que eu passe de uma coisa para outra sem nem perceber. Isso tem a ver com meu jeito de escrever e com fato de que esse para mim é um espaço de distração e brincadeira. Mas isso está também totalmente relacionado ao próprio assunto da página, e é aí que as coisas ficam bem interessantes.

Astrologia é um assunto engraçado. E é bom que seja assim. Do arquétipo ao estereótipo é um pulo, e se o salto for bem executado a gente está disposto a perdoar todo tipo de galhofa com as patetices dos nossos signos. Mas existe algo a mais no fato de que a astrologia é sempre um assunto engraçado, ao mesmo tempo em que está longe de ser irrisório. Não conheço nenhum outro fenômeno com esse poder. Mesmo em épocas sombrias, e mesmo quando falamos a sério, costumamos falar de astrologia meio que rindo. Trata-se de um reconhecimento do enorme descompasso entre o absurdo de suas premissas e das premissas com que tocamos nosso cotidiano. Ao mesmo tempo, trata-se da inquietante percepção de que nem por isso a astrologia deixa de ser com frequência inteiramente razoável.

Rimos com a astrologia, portanto, porque ela não faz o menor sentido, e ao mesmo tempo na prática a gente percebe que faz. Existe nesse riso um leve temor e tremor existencial diante das implicações de qualquer acerto astrológico carrega consigo, por mínimo que seja, e ainda que seja o acerto de um estereótipo, desses que proliferam em memes e tuítes correndo soltos por aí (tipo os da página deliciosamente intitulada Não acredito em astrologia, mas…). Muitas vezes é um riso de nervoso, mas também de libertação, que vem da percepção de que não estamos no controle das coisas com nossa razão e nossa ciência. É o bobo da corte dentro de nós escarnecendo da vaidade do soberano que gostamos de ostentar, e sinalizando que há, sim, mais coisas entre o céu e terra do que supõe nossa vã filosofia (aliás, cuidado com astrólogos que se levam muito a sério: eles acham que retomaram o controle das coisas por outros meios).

De minha parte, sou de ficar estatelado achando graça de como alguns aspectos e trânsitos astrológicos se manifestam na minha vida, dos meus amigos e na das pessoas que fazem consultas comigo. Tem algo de muito bizarro acontecendo aí. Essa incredulidade de fundo me causa um constante e sempre renovado assombro com o fato de que, segundo uma série de evidências, existe no universo algo em operação que não entendemos com clareza, que nos envolve em um drama de proporções cósmicas, e para o qual não temos palavras em nosso vocabulário regular, mas cuja descrição conta já com um conjunto de símbolos e termos técnicos bem consolidados. Ajudar a desenvolver e aprimorar ainda mais estes símbolos, aqui nesse espaço, é tarefa que me investe de imensa pompa e galhardia. Sério mesmo. Até onde dá pra ser.

Desse modo, a experiência da astrologia não precisa ser compreendida apenas pelo lado da dissolução de certezas e hábitos mentais enrijecidos que nos isolam do cosmos que nos rodeia. Ao nos colocar em contato com esse cosmos, ela pode muito bem nos fazer dançar junto com ele. Conhecer o mapa astrológico do nosso nascimento, então, nos permite entender um pouco melhor como a banda toca para cada um de nós. A propósito, há quem acredite que somos todos um único Ser brincando de dividir-se em diversas personalidades e aparências. A visão de mundo que a astrologia oferece pode muito bem ser entendida assim, como a de um baile de máscaras em que o Ser se fantasiou de Áries, de Leão, de Capricórnio etc. (e das infinitas combinações entre esses arquétipos que encontramos em cada mapa astrológico) para se perder e se encontrar por meio dessas fantasias.

Tudo parece reduzir-se a um jogo ou a uma brincadeira, porém qualquer um que já se envolveu em um jogo ou em uma brincadeira sabe como jogo e brincadeira são coisas sérias. Ao mesmo tempo, qualquer um que já se envolveu em coisas sérias sabe como, mudando um pouco o ponto de vista, elas podem ser infinitamente engraçadas. Mais uma vez, o limite entre uma coisa e outra quase não existe, e tenho a sensação de que conviver com essa ambiguidade é antes um hábito sanativo do que uma ameaça à nossa lucidez. Por isso, em cada texto que posto aqui, percebam que há sempre um subtexto, uma mensagem subliminar, que é uma espécie de convite. Percebam que na trilha sonora dessa página tem sempre Liza Minelli ou Louis Armstrong cantando lá no fundo: “Life is a cabaret, old chum. Come to the cabaret”.

A vida é um cabaré, meu velho. Venha para o cabaré. Ou, dizendo de outro modo, como já comentei antes. Conheci dois tipos de malucos na vida: os que acreditam em astrologia e os que não acreditam. Destes últimos, há os que possuem a excentricidade adicional de querer discutir o assunto, mas respeito muito a maluquice das pessoas, e não faço questão de convencer outros doidos de que a minha loucura está com a razão. A ajuda que posso oferecer é para quem não sabe se está em um grupo ou no outro. Isto é, a turma do “Eu até vejo que minha mãe é bem capricorniana, mas sei lá, não acredito muito nesse negócio de signo”. É principalmente para esses que meu convite é direcionado.

Notem: a astrologia, a princípio, não é mesmo exatamente uma crença, mas uma percepção e uma experiência, que pode ser vivida em diferentes graus, mas cuja natureza é sempre a mesma. Portanto, se você se identifica com características atribuídas ao seu signo solar; se já identificou essas características em amigos e conhecidos; se já disse algo como “ah, isso é porque eu sou de Áries”, ou, “isso é muito coisa de geminiano mesmo”, você já está dizendo uma sandice sem tamanho. Você está dizendo que a posição de um corpo celeste situado a não sei quantos milhões de quilômetros da Terra no momento em que uma pessoa nasceu tem alguma relação com o comportamento dessa pessoa muitos anos depois. Ou seja, maluco. Completamente pirado. Não tem mais volta. Junte-se a nós.

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Enquete: Literatura Comparada

Não tive como escrever uma postagem nova hoje, mas imaginei um punhado. É que estou querendo fazer uma série partindo da comparação de trechos das obras de escritores com o mesmo signo solar. A brincadeira envolve encontrar semelhanças onde as diferenças são óbvias, e enfatizar diferenças onde as parecenças são mais evidentes de antemão.

Formulei algumas duplas a partir da minha lista de autores preferidos, mas vou precisar de ajuda para escolher por onde começar, daí a enquete. Estou secretamente na torcida por algumas das opções, mas não por serem as mais fáceis de elaborar, muito pelo contrário. Capricórnio gosta de resolver esse tipo de encrenca. Quem quiser pode assinalar mais de uma opção. Obrigado a todo mundo que votar.

Todos os signos

Enquete: quem é o grande vilão do zodíaco?

Estava aqui pensando em um post para domingo sobre aquele que considero o signo mais maligno, encapetado e demoníaco de todos. Então resolvi fazer um levantamento sobre a percepção pública quando o assunto é esse. No próximo texto revelo minha opinião, e o seguinte vou fazer com base no resultado da pesquisa. Então, nós aqui do DATAGUS queremos saber: qual você acha que é o maior vilão do zodíaco?

[edit: a enquete está encerrada; declarei meu voto nessa postagem, e comentei o resultado final aqui]

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Signos e séries

Fleabag

O pessoal do departamento de marketing aqui do blog sugeriu que eu fizesse um post sobre signos e séries, juntando tudo de bom que tem na internet. Melhor que isso, só se fosse sobre signos, séries e gatos. Nem chego a tanto, mas andei reservando alguns instantes de ócio criativo para conceder prêmios imaginários a personagens de séries, pela representação de traços dos arquétipos do zodíaco em suas atuações. A lista está em construção, pode ter ajustes, e aceito críticas ou sugestões, mas no pé em que as coisas estão THE LUAS DE JÚPITER HERMES AWARDS GOES TO:

Áries

Nancy Botwin (Marie-Louise Parker, em Weeds). Faz o que precisa ser feito, é pioneira em seu campo de negócios, não fica esperando os outros resolverem o problema. Uma lutadora. Mas não que ela se importe com a minha ou a sua opinião.

Mas o prêmio principal pode ir também para a professora Rita Madsen (Mille Dinesen, em Rita). Independente, carismática, impulsiva. Não leva desaforo pra casa. Prefere tudo às claras. Vive metendo os pés pelas mãos.

Pensei em dar uma menção honrosa para Eleonor Shellstrop (Kristen Bell, em The Good Place). Fala palavrão, não tem paciência para a companhia dos humanos, mas acaba liderando o grupo. Seu par romântico, Chidi, é o típico libriano indeciso.

É claro que em Game of Thrones deve ter uns dois ou três guerreiros valorosos e sanguinários que mereceriam uma indicação também. Mas nunca me lembro do nome dos personagens de GoT. Pra resolver o problema, está criado o prêmio especial de elenco de Áries. Vai para Game of Thrones.

Touro

O prêmio principal vai para Earnest “Earn” Marks (Donald Glover, em Atlanta). Vive na pindaíba; o nome “Earn” só pode ser brincadeira. Mas tem no semblante aquela coisa taurínea que a gente não sabe se é serenidade, obstinação ou sarcasmo, e deve ser um pouco disso tudo ao mesmo tempo.

Já disse que em Touro dinheiro é uma questão, sobretudo pelo medo de faltar. Comida também. Junte isso à honestidade, à simplicidade, à constância, e premiamos também o Chaves (Roberto Bolaños, em El Chavo). Aquele humor que oferece segurança, com a repetição incessante das mesmas boas e velhas piadas.

Tem ainda a Claire Foy como a Rainha Elizabeth em The Crown. Porque a rainha é taurina né? Pragmática, consistente, até previsível na comparação com a irmã. É interessante ver como ela vai se tornando o baluarte do bom e velho bom senso britânico.

Aliás, por falar em constância, a menção honrosa fica para Grey’s Anatomy. Pela persistência, pela perseverança, pela teimosia.

Gêmeos

Prêmio principal para a Fleabag (Phoebe Waller-Bridge), da série de mesmo nome. Conversa consigo mesmo, fala com quem nem está lá, vive agindo que nem criança. E se safando com isso.

A comédia em pé é território caracteristicamente geminiano, o raciocínio rápido também, e o segundo prêmio vai para Miriam Maisel (Amy Sherman-Palladino, em The Marvelous Mrs. Maisel). Ou então para Jerry Seinfeld.  

Tem também o Jimmy McGill (Bob Odenkirk), de Better Call Saul. Não porque se trata de uma peça sobre um advogado vigarista e trambiqueiro (não só por isso), mas porque é sobre um irmão mais novo tentando conquistar a admiração de um irmão mais velho.

Enfim, Gêmeos é sobre comunicação, distribuição de informações, interceptação de informações. O prêmio de Melhor Série Geminiana vai para The Wire. O prêmio de Série Geminiana Também fica com Gossip Girl.

Câncer

Aqui não tem concorrência, o grande prêmio vai para Tony Soprano (James Gandolfini, em Família Soprano). Um homem de família, sensível, analisado, cheio que questões com a mãe. Chora quando morre o cavalo. Aprecia a vida no lar.  

Prêmio de participação especial para Mags Bennet (a personagem de Margo Martindale na segunda temporada de Justified). Mãezona e chefona de um clã de caipiras traficantes capangas. Aprecia a vida no trailer.

O prêmio especial de elenco por ora fica dividido entre Transparent, Modern Family e The Simpsons. E, sim, no meu entendimento o Homer é canceriano.

Leão

Selina Meyer (Julia Louis-Dreyfus, em Veep). Liderança e egocentrismo. Desde que existem reis e rainhas, felizmente existem atores e atrizes para nos mostrar como essas duas coisas juntas podem ser engraçadas.

Bojack Horseman (voz de Will Arnett, em Bojack Horseman). Egocentrismo e decadência. Desde que existem atores e atrizes, felizmente existem cavalos e éguas e outros animais para nos mostrar como essas duas coisas juntas podem ser engraçadas.

Prêmio de elenco para as meninas de Glow. Puro amor pelo palco, e pelo ringue.

Virgem

Dexter (Michael C. Hall, em Dexter). Limpo, metódico, organizado, como precisa ser em sua área de atividade. Todo serial killer é um virginiano em potencial. Ou seria o contrário?

Dr. Gregory House (Hugh Laurie, em House). Fiquei na dúvida se era aqui mesmo que o House entrava. Agradeço o eventual parecer do leitor. Escolhi Virgem porque tem a questão da atenção aos detalhes, da concentração no trabalho de diagnóstico. É verdade que ele não obedece a protocolo nenhum, apenas aos dele. Mas, sei lá, acho que o House é virginiano sim, e conheço virginianos que são um pouco que nem o House.

São virginianas também as rotinas do escritório e do ambiente de trabalho. Prêmio de elenco para The Office.

Libra

Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker, em Sex and the City). Vive ouvindo e dando conselhos pras amigas, é especialista em relacionamentos, mas o dela mesmo vive enrolado. Ainda assim, mantém a elegância.

Ou então Alicia Florrick (Julianna Margulies, em The Good Wife). Começa bem libriana, vai mostrando seu lado vingativo-escorpiônico, e a gente percebe que ele está lá, mas ela nunca atravessa completamente pro outro lado da força. Ou, quando atravessa, acaba tentando ainda assim equilibrar os pratos.

Não consegui decidir entre as duas. Fui tomado pelo arquétipo. O que eu queria mesmo era uma terceira alternativa para solucionar o problema. Conselhos? Sugestões?

Escorpião

Donald Draper (John Hamm, em Mad Men). Jeitão misterioso, tem um segredo no passado, já morreu uma vez. Trabalha mexendo com a cabeça das pessoas.

Concorre também a detetive Olivia Benson (Mariska Hargitai, em Law and Order: Special Victims Unity). Escorpião é o arquétipo dos indivíduos capazes de lidar com o lado mais obscuro do ser humano, como os investigadores de crimes sexuais.

Prêmio de série escorpiônica para Stranger Things, por reencenar na primeira temporada a abdução de Perséfone para o Hades. O “upside down” é definitivamente território de Escorpião.

Recomendo também Happy Valley, ou Broadchurch, ou qualquer série britânica sobre uma cidadezinha pacata que guarda terríveis segredos.

Sagitário

Walter White (Bryan Cranston, em Breaking Bad). Mas o prêmio é na verdade para Heisenberg, o lendário mega-traficante que ele se tornou. Sagitário é sobre sair do ponto A e chegar em um ponto B completamente diferente. É também sobre excessos. Heisenberg é uma lenda jupiteriana.

Correndo por fora, temos Kimmy Schmidt (Ellie Kemper, em Unbreakable Kimmy Schimidt). Aquele entusiasmo e otimismo inquebrantáveis dos sagitarianos, às vezes insuportavelmente inquebrantáveis, mesmo depois de décadas vivendo em um bunker.

Porém aprendi que Sagitário pode ser tão pessimista quanto otimista – geralmente está em um dos extremos. É sagitariano o ambiente das seitas apocalípticas e das profecias alucinadas. O prêmio de série sagitariana vai para The Leftovers. Vejam, sobretudo a segunda temporada, que vale a pena.

Capricórnio

Eric “Coach” Taylor (Kyle Chandler, em Friday Night Lights). Paizão dedicado, profissional estimado, orgulho da cidade. Reapareceu interpretando um personagem semelhante em Bloodline, com a diferença que aí ele mostrou o que um capricorniano estressado é capaz de fazer.

Tem também ” El Profesor” (Álvaro Morte) de La Casa de Papel. Capaz de gerenciar um projeto de larga escala cuidando ao mesmo tempo do conjunto da operação e dos mínimos detalhes. Ambicioso, controlador e obstinado, mas com uns probleminhas emocionais.

Menção especial para Logan Roy (Brian Cox, em Succession). Fundador de um mega-conglomerado de empresas que, como Saturno, tem o hábito de engolir os filhos.

Prêmio de elenco para The West Wing. Políticos moderados e bem intencionados querendo fazer o bem pelo mundo com uma boa dose de pragmatismo. Capricórnio às vezes tenta nos fazer acreditar que as coisas podem funcionar desse jeito. Se consegue é outra história.

Aquário

Leslie Knope (Amy Poehler, em Parks and Recreation). Leslie tem características tauríneas e virginianas, mas sua empolgação com esforços coletivos em prol do bem público lhe rendeu a indicação nessa categoria.

Mas sabemos como Aquário também pode ser cerebral, frio e calculista. Quase não-humano. Ponto para Sheldon Cooper (Jim Parsons, em The Big Bang Theory).

E, para fazer justiça às potencialidades criminosas do arquétipo, proponho o prêmio especial de aquariano coadjuvante, concedido a Gus Fring (Giancarlo Sposito, em Breaking Bad e Better Call Saul), que ainda tem a vantagem de habitar uma espécie de universo expandido em rede onde se conectam diferentes séries – algo arquetipicamente aquariano.

Tem ainda o Eliott Alderson (Rami Malek) de Mr. Robot: esquisito, genial, entende tudo de tecnologia e comunicação em rede, mas vai saber o que ele anda fazendo com isso.

E preciso acrescentar a Janet (D’Arcy Carden), de The Good Place também. Fiz até uma pesquisa na internet para saber de qual signo o pessoal acha que ela é. Minhas conclusões estão nessa postagem aqui.

Peixes

Daniel Holden (Aden Young, em Rectify). Vítima de uma grande injustiça, passou anos meditando na prisão, e não entende bem o que está acontecendo.

Prêmio de roteiro original para Westworld. A vida é sonho? Somos apenas sombras? Quantos mundos cabem na palma da mão? Gente, me explica, o que que tá acontecendo?

Menção especialíssima para Derek (Ricky Gervais, em Derek). Coração do tamanho do mundo, trabalha em um asilo de idosos, junto com outros marginalizados.

Por algum motivo, todas minhas indicações piscianas são de séries que amo mas pouca gente viu. Mas não, peraí. Vai ter um prêmio de melhor performance cênico-vocal pisciana, para Phoebe Buffay cantando “Smelly Cat” em Friends.

Pronto, produção, aí está: signos, séries e… gatos!

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Os signos fazendo uma coisa

[Breaking Bad ]

Pouca gente percebe, mas o zodíaco não é só repleto de arte e poesia e cosmologia e urbanismo, ele tem bastante engenharia da produção também. Funciona assim quando os signos se reúnem para realizar um projeto:

Áries começa. Não precisa nem saber o que está começando, onde aquilo vai dar, se vai terminar um dia. Simplesmente começa, nem que seja por falta de paciência para esperar o outro começar.

Touro continua. Alguém precisa pegar um daqueles tantos projetos que Áries começou e dar prosseguimento. Para isso, ele avalia se há recursos humanos e materiais. Se o projeto é viável. Se tem comida pra todo mundo aguentar até o final.  

Mas alguém precisa fazer a comunicação. Gêmeos então sai falando por aí: “Então, a gente está fazendo um projeto”. Quando diz “a gente”, Gêmeos presume que tem alguém efetivamente fazendo as coisas.

A essa altura, Câncer percebe que não existe um vínculo verdadeiro entre os membros da equipe. Reúne todo mundo para um almoço de domingo em sua casa. Termina todo mundo bêbado e cantando junto canções do Roberto Carlos.

No dia seguinte a equipe está de ressaca. De repente, Leão posta para o mundo uma foto deslumbrante com cabelos revoltosos e a seguinte legenda: “Oi gente, EU estou realizando um projeto!”. Ninguém entende como ele se recuperou tão rápido, aí se lembram de que Leão nem foi no almoço, ficou em casa fazendo a produção da foto. Em tempo: quando diz “EU”, Leão presume que tem alguém efetivamente fazendo as coisas.

Nesse ponto vocês sabem muito bem quem está efetivamente fazendo as coisas. O problema é que Virgem em algum momento começa a consertar tudo o que os outros fazem também. Põe defeito até na juba do Leão. É aí que começam as brigas.

Libra entra em cena. Tenta conciliar todo mundo. Não consegue. Desiste. Tenta de novo. Pensa melhor. Desiste de novo. Tenta novamente. Pensa em outra coisa.

Escorpião entra em cena. Não, eu não vou dizer pra vocês a primeira coisa que me vem à mente nesse caso quando pensei em Escorpião. É a maior sacanagem, isso de ficar reforçando estereótipos.

Além disso, logo surge Sagitário e profere um discurso lembrando que a equipe tem ainda uma missão a cumprir, e exortando todos a fazer algo MAIOR, algo MELHOR, algo EXTRAORDINÁRIO. No final ninguém sabe mais do que ele está falando, mas parece mesmo ser algo incrível.

Nesse momento Capricórnio se desespera, porque desse jeito eles nunca vão realmente concluir nada. Assume o controle da operação, gerencia a equipe para alcançar o resultado pretendido (de acordo com metas realistas), apresenta o relatório final a seu superior imediato, e tenta descansar. Mas no dia seguinte já está envolvido em outro projeto.

Aquário olha para produto final e se pergunta qual é no final das contas a contribuição do projeto para a humanidade. Isso, claro, quando o aquariano faz parte da humanidade.

Todo mundo olha para Peixes, para ver se ele tem uma resposta. “Produto?”, “Projeto?”, “Humanidade?”, pergunta-se Peixes. Tudo isso lhe parece muito curioso. Como se nunca tivesse realmente acontecido. Uma espécie de sonho.