aquário, câncer, leão, sagitário

Eu e meu irmão

Foto: Ramon Lisboa | EM | D.A. PRESS

Estava aqui pensando em estratégias para lidar com o isolamento, em como há práticas simples que podem ser valiosas nessas horas. Coisas que rendem assunto, tomam o tempo e abrem insólitas janelas em espaços confinados. Aí me lembrei de uma época em que eu e meu irmão costumávamos contar um para o outro pelo telefone de manhã os roteiros dos filmes que víamos de madrugada. Bom, a gente ainda não era irmão nessa época. Quer dizer, nós éramos, já havíamos decidido ser irmãos gêmeos inclusive, mas por outro lado éramos menos irmãos do que a gente ia ser. Complicou né? Essa história é meio tortuosa mesmo, e ao mesmo tempo é simples. Não vai dar para seguir adiante sem contá-la. Vamos deixar o confinamento e suas aflições de lado por enquanto. A partir daqui esse fica sendo um texto sobre meu irmão e eu.

O começo é fácil de entender. No papel, nós somos primos. Meu pai e a mãe dele são irmãos. Meu pai se casou com minha mãe mais ou menos na mesma época que a mãe e o pai dele se casaram, e logo em seguida ambos casais tiveram filhos, de modo que nós dois nascemos com alguns meses de diferença (ele é o mais velho). Creio que ambos os casais se separaram mais ou menos na mesma época também – ficaram juntos uns poucos anos – de modo que nós permanecemos filhos únicos durante um tempo. Os outros primos de nossas famílias tinham irmãos. Nós não. Esse foi um dos motivos pelos quais decidimos ser irmãos um do outro. E, para ganhar dos outros primos em termos de irmandade, já que gente saiu perdendo, decidimos ser mais do que isso, decidimos ser irmãos gêmeos.

Os outros motivos dessa definição – talvez os mais importantes – foram: um, a convivência, graças à proximidade física (fomos vizinhos durante um tempo, os casais do parágrafo anterior compraram apartamentos um de frente pro outro), e, dois: o imponderável, porque não dá para medir ou explicar a afinidade que sentimos desde o começo. Na minha lembrança aliás a gente nunca não-foi-irmão; preciso fazer um esforço para recordar os detalhes de antes de a gente ser. Mas, como eu disse, a gente ia ficar mais irmão ainda depois. É aqui que o enredo se complica.

Aconteceu que, cerca de uma década após as separações de nossos pais, a minha mãe e o pai dele se casaram. Não se confundam, nem se preocupem, não há nada de incestuosamente trágico nessa história; lembrem-se que os irmãos eram o meu pai e a mãe dele. A minha mãe e o pai dele então foram concunhados durante um tempo, perderam o contato (pelo menos é o que consta nos autos) durante muitos anos, reencontraram-se e se apaixonaram um pelo outro depois. Resultado: nós continuamos primos para todos os efeitos legais, mas passamos a morar juntos, com nossos pais que eram casados entre si. Já não éramos irmãos apenas por opção. Havia uma boa dose de destino também.

Esse casamento é uma história à parte, com amizades rompidas, novas suspeitas e antigas ilações. Foi um baque na tradicional família mineira (embora não comportar esse tipo de arranjo seja o menor dos problemas da tradicional família mineira, que em suas boas versões até os comporta; enquanto nas outras as perversões são tão mais sutis, que elas se tornam imunes a esse tipo de golpe). Porém, de nossa parte, minha e do meu irmão, não havia preocupação com o escândalo nem gosto em fomentá-lo. Nós estávamos ocupados demais curtindo adoidados a vida adolescente em uma Belo Horizonte que cujas ruas conquistávamos junto com um bando de amigos adolescentes também, e que tínhamos conhecido não na família, nem no colégio, nem no clube, mas na rua mesmo. E nós estávamos curtindo adoidados a vida de irmãos.

É verdade que nesse meio tempo eu e ele havíamos já ganhado irmãos de outros casamentos de nossos pais (a propósito, acho meio-irmão um termo horroroso). Até peguei para mim, de forma ainda mais ilícita e sorrateira, os irmãos que ele ganhou no segundo casamento do pai dele (essa é também toda uma outra história, que merece ser contada à parte, assim como a dos irmãos que ganhei dos outras casamentos do meu pai, mas aí a trama se enreda de maneira mais estranha e meticulosa, remetendo a segredos familiares muito bem guardados – acreditem, estou contando a parte descomplicada). Vamos então voltar àquilo que já consegui esclarecer: estamos eu, ele, minha mãe e o pai dele vivendo juntos como uma família feliz e serena e saudável. Ou melhor, talvez não tão serena, nem não tão saudável assim.

Acontece que nessa época a gente bebia muito, fumava muito, e topávamos experimentar quaisquer produtos orgânicos ou químicos que apareciam na nossa frente com a promessa de alterar nossos estados de consciência. Muitas vezes nós quatro juntos, em família. As compras de supermercado incluíam garrafas de conhaque e pacotes de cigarro que constavam no orçamento doméstico, em uma categoria prioritária, junto com o arroz e o feijão. O outro componente importante de nossa convivência era a música. Chico Buarque, Legião Urbana, The Doors, Velvet Underground, Tom Waits e Joni Mitchell viviam uma daquelas bandejas em que cabiam um seis CDs, e que ficava rodando lá em casa o dia inteiro.

Talvez, por razões óbvias, eu não me lembre de alguns detalhes dessa época. Sei que minhas notas na escola caíram muito e que terminei o ensino médio no sufoco. Meu irmão se enrolou ainda mais nesse aspecto. Mas tampouco isso era motivo de preocupação. A adolescência é uma etapa leonina e autocentrada da vida, que, dadas as condições certas, pode ser dedicada ao prazer como nenhuma outra que vem antes ou depois. Aliás, ela põe em cena os temas do eixo de opostos complementares Leão e Aquário – a sensação de ser especial e o desejo de integrar um grupo – de tal modo a criar conflitos intrincadíssimos. Mas pode também encontrar uma espécie de solução provisória para a conciliação desse eixo, e acredito que foi isso que nós vivemos.

Sim, foi isso: porque nós estávamos brincando. E a brincadeira, pela maneira como nos envolve em um entusiasmo inconsequente, é justamente o tipo de experiência capaz de articular essa negociação entre o atípico e o ordinário. Havia brincadeiras perigosas, é claro. Mas normalmente não deixavam de ser brincadeiras, sobretudo aquelas tardes conversando e compondo as canções da banda que nunca existiu, aquelas reuniões ao mesmo tempo sérias e hilárias de planejamento dos zines que nunca rodaram, aquela nossa capacidade de passar uma noite inteira dançando e pulando e gritando em um galpão mal ajambrado de Santa Tereza, para depois ver a manhã nascer com deslumbrado encanto, ou com indisfarçável exaustão, enquanto fazíamos a pé o caminho de volta pra casa, ou comíamos pasteis em uma lanchonete do centro da cidade.

Até mesmo o lugar que viria a ser um de nosso preferidos na cidade, uma boate chamada A Obra, era uma espécie de canteiro de obras de mentirinha, ainda que fosse um inferninho de verdade. Ainda é, por sinal, e a gente espera que ela sobreviva a esse perrengue do vírus. Outros lugares importantes eram o canteiro central da avenida Getúlio Vargas na Savassi, o edifício Maletta no centro, a Bródei em Santa Tereza: éramos capazes de percorrer esses lugares numa só noite como quem salta as casas de um jogo de tabuleiros, depois de tirar uma carta como “tome três flamejantes de uma vez na Casa da Vovó”, ou, “salte três casas para chegar logo ao Prado porque tem um amigo lá que está salvando”, ou, “você chegou no fim da linha, vá tomar a saideira no Mercadão”.

É aqui que eu queria chegar. Porque foi aqui que, mais do nunca, eu e o Érico nos tornamos irmãos: brincando juntos na cidade à noite. Rindo muito. Viajando um tanto. Cantando às vezes. É verdade que a gente já havia brincado muito antes na infância, mas acho que não com a mesma intensidade e a dedicação exigidas por uma adolescência movimentada e festeira. Pelo menos de minha parte, posso dizer que foi ali que ganhei para o resto da vida uma força e uma confiança que de modo algum possuía antes. Acho que vi isso acontecendo com outros amigos também. Tem gente que se ferra muito quando é criança, por conta das estruturas familiares ou da falta delas, mas que com sorte encontra depois nos amigos “da rua” uma fonte genuína de segurança e fraternidade, mesmo que depois essa configuração se disperse. Freud que não nos ouça, mas acho que mesmo quem sai dos primeiros anos de vida como o ego estraçalhado pode acabar tendo uma segunda chance. E, se me permitirem critérios um pouco mais relaxados, eu diria que ganhei não um, mas muitos irmãos nessa época.

Por outro lado, tive sorte incrível de que meu irmão mais próximo na rua era também meu irmão em casa, e que na adolescência minhas circunstâncias familiares eram também uma bem-vinda bagunça, parecida com a da rua, de tal modo que a vida em casa se confundia com a vida fora dela. Era tudo uma festa só. Naturalmente, quem tiver um pouco de familiaridade com roteiros de filmes de bandas de rock como The Commitments ou Quase Famosos (que mencionei outro dia nesse post aqui), ou ainda do tipo de Boogie Nights, já percebeu que, uma vez alcançado o ápice desses prazeres irresponsáveis, as coisas tendem a ir ladeira abaixo. Foi o que aconteceu.

O casamento da minha mãe e do pai do meu irmão durou poucos anos. Uns dois ou três. Parece que foi mais. Deu tempo de fazer muita besteira. Vou poupar vocês dos pormenores do final, e quem sabe como termina esse tipo de filme pode imaginar. Eu e meu irmão, porém, fugimos ao princípio entrópico por uns tempos, e conseguimos prolongar um pouco nosso clímax, embora com um pouco mais de bagagem sobre os revertérios da vida. Não nos separamos; fomos morar juntos num apartamento no centro, onde nos tornamos mais e mais irmãos, por força de uma convivência em que, aos porres homéricos e delírios idílicos, foi acrescentada a solidariedade nos períodos de grana curta, a atenção nos momentos de ansiedade extrema, o cuidado nos momentos de saúde instável. Aí já não dependíamos de ter pais casados para reforçar nosso vínculo. Não dependíamos nem de ter pais irmãos para nos sentirmos familiares. A essa altura acho que a gente nem lembrava mais que um dia havíamos sido primos.

Isso durou mais ou menos até eu vir para o Rio, quando me casei pela primeira vez. Mas ainda cheguei a voltar para lá, para o mesmo apartamento, depois da separação, uns sete anos depois, na sequência do meu retorno de Saturno; ele recebeu o tinha sobrado de mim para revivermos um pouco a adolescência perdida. Pouco depois foi ele que se casou. Hoje ele mora com a mulher e um filhinho lindo – meu afilhado – que não precisa ficar sabendo de nada desses maus exemplos do pai que estou registrando aqui (fica combinado assim: essa postagem se autodestruirá em cinco minutos).

Agora, rumando já para uma conclusão, por que é que eu resolvi contar essa história para vocês mesmo? Bom, em primeiro lugar teve o pretexto de explicar o motivo pelo qual meu irmão não era ainda totalmente meu irmão, ainda que já fosse meu irmão gêmeo, quando a gente costumava contar um para o outro os filmes que a gente via de madrugada. Isso começou quando tínhamos uns dez anos, eu morava na casa da minha mãe e ele na dele, e passamos a ficar acordados até mais tarde nas férias para assistir o Corujão. Era falando disso que eu ia começar o texto dessa semana.

O outro motivo pelo qual acabei pegando esse desvio está implicado aí. Eu gosto de contar histórias. Podem ser histórias da minha vida, roteiros de filmes que assisti, causos inventados ou acontecidos. Já tive problemas com isso quando me mudei para o Rio, e demorei a perceber que “contar histórias” não é uma prática incorporada à sociabilidade daqui como é lá em Minas Gerais. Lá em Minas, você pode muito bem estar em uma conversa animada em um bar que, se você de repente disser, “nó até lembrei de uma história aqui”, as pessoas vão parar e te escutar, o tempo que for. A história nem precisa ter um final grandioso. Você pode fazer as digressões que quiser. Basta manter os copos de cerveja cheios e ter uma tarde relativamente vazia.

Aqui no Rio, por outro lado, se você for reter a atenção das pessoas em uma mesa de bar por mais de dois minutos, elas vão entender que tudo aquilo só pode ser uma preparação para o desvelamento do significado último do universo. Ninguém fala tanto tempo de uma vez só se não tiver algo de inédito e assombroso para revelar. Em suma, demorei um tempo para perceber que eu vivia decepcionando as pessoas, até mesmo quando contava histórias interessantíssimas do meu ponto de vista como essa minha e do meu irmão. Hoje sei que, quando eu falava“nó até lembrei de uma história aqui”, as pessoas ao redor se entreolhavam

com um misto de enfado e desespero que dizia: “Putz. Lá vem. No mínimo meia hora”.

Costumo dizer que me tornei professor em parte por isso: se eu me lembrar de uma história durante uma aula e resolver contá-la, meus alunos vão ter que ouvir, alguns vão até fingir que estão interessados. Em termos de público, não preciso de mais do que isso. Talvez, pensando agora, eu tenha criado esse blog no mesmo espírito, com vantagem adicional que aqui eu nem preciso ensinar os conteúdos do semestre, e se quiser posso enxertar as narrativas que quiser em um texto sobre Gêmeos ou Netuno, assim como posso enxertar uma coisa ou outra sobre Escorpião ou Mercúrio num texto que não tenha nada a ver com isso.

Esse texto, aliás, ia ser sobre Câncer e Sagitário, ia ser sobre O Beijo da Mulher-Aranha do Manuel Puig, ia ser sobre o confinamento e a arte de contar histórias no confinamento (o romance do Puig se passa quase todo dentro de uma cela, mas um personagem está sempre contando enredos de filmes para o outro, de tal modo que o horizonte se abre de forma infinitamente vasta para quem está lendo). Acabou não sendo um texto sobre signo nenhum em particular, acabou sendo um texto sobre meu irmão. Para quem está se perguntando: ele é pisciano. Mas tampouco estou falando da relação especial que acredito existir entre Peixes e Capricórnio, e que nossos signos solares bem representam. Isso também vai ficar para outra hora.

Acho, enfim, que a verdadeira motivação do dessa semana é um tanto quanto óbvia, e ao mesmo tempo ficou encoberta por tudo que veio antes. Vou pedir a vocês mais cinco minutinhos para desenvolver esse ponto (aprendi esse tipo de polidez aqui no Rio; se fosse lá em Minas, eu dizia que o texto termina logo ali). O fato é que, como provavelmente é o caso com muita gente, a quarentena me pegou num momento em que estou perto de algumas das pessoas que mais amo, mas longe de outras. Já está bom demais que seja assim, de todo modo a situação proporciona sentimentos contraditórios. Por um lado, sou grato pelas circunstâncias da minha vida atual, pois já passei por períodos na vida em que ser surpreendido por uma pandemia significaria estar sozinho por longos meses sem ninguém para me ouvir ao vivo contar histórias. Nas atuais circunstâncias, portanto, sou feliz por estar casado com uma mineira que não só escuta minhas histórias, como conta as dela também.

Nossa relação é aliás em parte construída sobre isso: as histórias da infância dela no Canadá, as histórias da minha adolescência em Belo Horizonte. Entre tantas outras. Mesmo ficando só nesses recortes, é incrível como não param de brotar histórias. Mas agora, mais do nunca, isso tem acontecido, e acho que não só aqui em casa, pois o confinamento parece favorecer as dinâmicas da memória, abrindo janelas dentro de janelas em direção ao passado, uma vez que as voltadas para o futuro estão tão bloqueadas e sujas. Mas é interessante como as boas lembranças de épocas felizes têm o poder de renovar o ânimo para as que virão, e o fato de que algo foi um dia possível parece indicar que pode ser possível novamente. Não estamos precisando de muito mais do que isso para plantar umas sementinhas de otimismo, e é por aí que ia ser o argumento sobre Sagitário e Câncer.

No entanto, acabei escrevendo um texto sobre meu irmão, e aproveitei para contar uma história só pelo prazer de contá-la mesmo. Mas também porque a vida inteira tive a imensa sorte de ter uma resposta fácil para uma pergunta difícil e hoje tão imediata, que até outra dia não fazíamos a nós mesmos, por falta de motivos para que sequer a pensássemos, e que agora parece ser tão definidora na vida de cada um. Enfim, não me lembro de um instante sequer na vida em que eu não responderia rápido a questão sobre como quem gostaria de passar uma quarentena. Lógico que hoje outras pessoas estariam na lista, e que, havendo a possibilidade, eu ia querer é levar um mundão de gente para uma sitiozinho no interior de Minas, onde a gente pudesse passar o tempo contando causos um para os outros, à salvo da pestilência, em uma espécie de Decameron roceiro e capiau com cachaça, tropeiro, risos, fogueiras e serenatas.

Mas, mesmo nas épocas em que estive mais sozinho, mesmo nas épocas em que estive mais arredio ao contato humano, mesmo na época em que deliberadamente afastei as pessoas de mim ou elas se afastaram mesmo sem querer, eu não pensaria duas vezes em responder à pergunta hipotética que um hipotético interrogador me faria, sobre a remota possibilidade de um dia termos que nos manter isolados por causa de um vírus, e com quem escolheríamos passar esse tempo se nos fosse dada a oportunidade: “Meu irmão. Quer dizer, ele é meu primo. É uma longa história. Quer que eu conte? Não? Juro que é rapidinho. Ah, tudo bem. Correria né. Entendo. Mas anota aí. Se eu pudesse escolher, nesse negócio de quarentena eu ia querer estar com meu irmão.”

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O lugar bom

Essa postagem é para quem assistiu ou está assistindo The Good Place, a série da NBC que estreou em 2016 e terminou em 2020 (tem na Netflix). Vi o último episódio esses dias, e série tem esse negócio de a gente ficar com saudade dos personagens. Então – prometo não estragar o final para ninguém, pelo menos não para quem já passou da primeira temporada – me deu vontade de explorar um pouco mais a brincadeira dos signos com eles. A propósito, já mencionei o Michael (Ted Danson) em um texto sobre Capricórnio, e indiquei a Eleonor (Kristen Bell) para o Oscar do zodíaco que propus uma vez aqui, na categoria Personagem de Áries. A essa altura, estou convencido de que ela merece o prêmio.

Isso porque ela é uma ariana que vai ficando mais suave no decorrer da série, menos tensionada no confronto com o mundo, e, por mais que esse seja um caminho esperado em uma narrativa cômica convencional, ela nos convence de que isso é possível. Não é só porque aprende a falar palavrões com certa civilidade (tipo “holy fork!”, eventualmente traduzido por “fruta que caiu!”); ela faz com que seja verossímil uma heroína de Áries do bem, na medida do possível, é claro. De todas as transformações que vemos no decorrer das temporadas, para mim a dela é a mais notável. Não quer dizer que fique menos ariana, pois conheço muita gente desse signo que já parte desse lugar em que o restante da humanidade não é visto apenas como uma ameaça, e sabe que dá até para conviver com gente, às vezes até gosta. Em se tratando de Áries, já é bastante coisa.

Chidi (William Harper), por sua vez, é o clássico libriano que precisa aprender a tomar decisões. Não por acaso é o par oposto-complementar de Eleonor. Mas acho interessante que seja um filósofo. É comum as pessoas acharem Libra um signo romântico, mas a gente sabe como eles conseguem ser incrivelmente frios e cerebrais. Falta-lhes o fogo das paixões leoninas, o poço dos sentimentos escorpiônicos, a sensibilidade ao ambiente de Touro ou Virgem. É lógico que nessa perspectiva falta um traço de Libra também todos os outros arquétipos, e falta mesmo. Sobretudo quando a gente conhece um libriano que, não obstante sua librianice, e inclusive por causa dela, sabe decidir que sobremesa escolher depois de colocar todas as opções na balança.

Jason Mendoza (Manny Jacinto) é um caso singular. Peixes, sem dúvida. O interessante é que ele é pisciano tanto em sua versão de mentirinha quanto depois que ficamos sabendo quem ele realmente é após os episódios iniciais da série. Nesse caso acho que não conta como spoiler porque a coisa se revela logo ali no segundo ou terceiro capítulo: ele passa de um monge tibetano de olhos puxados que vive à base de meditação e água fresca para um morador da Flórida de origem filipina de olhos puxados que vive à base de todo tipo de porcaria e pequenos roubos de gasolina. Embora o monge seja um personagem típico do arquétipo de Peixes, a versão verdadeira de Jason é até mais pisciana que a outra.

O legal é que ele não deixa nunca de ser um personagem ingênuo e encantador. Avoado, iludido, totalmente incapaz para os assuntos práticos da vida, mas nunca menos “espiritualizado” que sua versão monástica, mesmo quando se lembra do dia que passou atirando em ratos no lixão de Jacksonville com um primo de Blake Bortles. Porque ele espera ser aceito pelo mundo da mesma maneira como o aceita, e representa o papel do bobo em tudo o que tem de plena receptividade e espelhamento do mundo ao redor. Além de ser engraçado, é claro. Tem uma cena, por exemplo, em que está todo mundo dando opinião ao mesmo tempo sobre algum problema, aí ele entra e dispara a falar um monte de coisas nada a ver. Quando perguntam o que deu nele, responde: “Sei lá, estava todo mundo falando junto achei que era para eu falar também”. Tipicamente pisciano.

Quanto à Tahani (Jameela Jamil), aí já fico na dúvida. Ela tem a rivalidade geminiana pela atenção dos pais com a irmã, mas não tem agilidade de raciocínio de Gêmeos; participa do encanto leonino com o universo das celebridades, mas falta-lhe magnetismo e confiança para ser ela própria uma Leoa. No final das contas, fico achando que é de um signo de Terra. Mas nesse caso estou disposto a aceitar ajuda, então se alguém aí tiver um opinião a respeito pode falar. Vejam só que coisa bizarra estou me tornando: uma capricorniano que admite que não sabe uma coisa e até pede conselho pros outros. Tipo o Michael.

Voltando então rapidamente ao Michael: o engraçado é que, além de ser uma figura evidentemente capricorniana em sua função de gerenciar a coisa toda e saber tudo a respeito de tudo, ele a princípio tem ainda aquele traço de Capricórnio que não aceita a necessidade de ajuda. Precisa estar sempre no controle, sem precisar nem do palpite de mais ninguém. É lógico que isso já vai mudando a partir da segunda temporada, vai ficando mais claro como na verdade tudo o que ele precisa (e no fundo quer) é assumir a forma falível e imperfeita dos humanos. É muito exaustivo isso de se responsabilizar pelo universo o tempo inteiro. Algo semelhante poderia ser dito de muitos capricornianos. 

E tem a Janet (D’Arcy Carden), é claro. A Janet é um caso à parte. Aí eu perguntei pro pessoal da internet qual é o signo da Janet, e a resposta que mais me apareceu foi Virgem. Eu respeito essa posição e até entendo. Ela tem um gestual contido e um jeito de se vestir que são bem virginianos. Ela presta um serviço inestimável, aparece sempre que alguém precisa de alguma coisa, é uma funcionária exemplar do cosmos e e nem humana ela é. Pra muita gente, isso é mais que suficiente para cravar: virginiana.

Mas eu sou Capricórnio com ascendente em Escorpião, então quando peço conselho ou palpite pros outros vocês podem suspeitar que é só jogo de cena. Já formei minha opinião há tempos e nada me fará arredar dela. Acho que os gestos controlados e aparentemente metódicos da Janet têm mais a ver com fato de que ela não tem muita familiaridade com a forma humana que assumiu. Aí vocês precisam que considerar que, quando a gente fala que Virgem não é muito humano, isso é mais num nível metafórico; é lógico que não é literal. Tem só um signo que corresponde a essa característica sem precisar de licença poética. Tem só um signo de gente que veio de outras galáxias e está ainda se acostumando a viver entre nós.

Pois então: Aquário. Em primeiro lugar, exatamente por isso, porque nem humana ela é. Digo isso na certeza de que os aquarianos queridos do meu coração vão entender como um elogio: tipo, você nem é humano, você é uma Janet. E, como se não bastasse, ela é capaz de prover os humanos com aquilo que normalmente é reservado aos deuses, como fez Prometeu, protagonista do mito mais significativamente aquariano. O fato de que vai acabar se apaixonando por uma pessoa de carne e osso, e conhecer um pouco mais os desejos do corpo que a princípio lhe é estranho – isso também acontece com frequência no âmbito do arquétipo de Aquário. E a maneira como a mente dela se conecta como uma espécie de supercomputador a tudo o que acontece no universo só me faz ter mais certeza do meu ponto.

Para terminar, ufa, tem a série como um todo. Estreou em 19 de setembro de 2016. Essa sim é, portanto, virginiana. Para mim faz sentido: a narrativa costuma ser até bem metódica em sua sobreposição de universos como se fossem bonecas russas, mesmo quando flerta com o caos. Agora, eu apostaria que existe alguma coisa ali que articula muito bem Sagitário e Touro. Talvez a Lua no primeiro, o ascendente no outro. Pois o pano de fundo é sagitariano, de modo que toda a brincadeira é organizada em torno de uma indagação sobre o sentido da vida e a finalidade da existência. Ela pode não alcançar muita profundidade nesse sentido; mas isso, pelo menos para mim, não é necessariamente uma falha ou deficiência. É aí que entra a perspectiva taurina.

Pois, no final das contas, após as milhões de referências a Kant e Heidegger e Pascal, a série acaba recorrendo ao pensamento oriental para dar uma última resposta provisória ao enigma do existir. Sobre esse aspecto dos últimos episódios, sem entregar o enredo, vou me permitir uma pincelada, até porque o recurso é mais que previsível, e não apenas pelo andamento da série, mas pela própria linguagem seriada de que ela é um bom exemplo. A ideia de que o “fim” pode ser infinitamente postergado para uma outra temporada – e de que podem existir mundos infinitos dentro de infinitos mundos – faz, curiosamente, com que o momento presente seja mais valorizado. Se a própria morte não é conclusão de um processo, mas faz parte de um conjunto incessante de ciclos, não tem porque você se afligir com uma finitude ilusória, e você pode muito bem encontrar o infinito que existe contido no agora.

Buda, como já disse aqui vez ou outra, para todos os efeitos era taurino. Seu aniversário é comemorado no dia 07 de maio. Isso para mim está relacionado não apenas à paciência e à perseverança, mas também à capacidade que Touro tem de aproveitar as coisas boas da vida. Digo, aquelas coisas materiais e momentâneas mesmo, como uma boa refeição, um bom vinho, uma boa companhia ou a simples possibilidade de respirar fundo um ar puro e tranquilo. É por isso que para mim a série termina onde começa a grande lição de Touro para nós. Que é um pouco a lição de Buda também. Não saia daí. Respire. Aproveite a vida. Aproveite o momento. O lugar bom é onde você está.

sagitário

O mundo de Sagitário

Quando jogos de computador começaram a existir, ou pelo menos quando passei a ter contato com eles, o meu preferido era um chamado Where in the World Is Carmen Sandiego?. A personagem do título era uma criminosa ladina e cosmopolita procurada no mundo inteiro pela Interpol, e a tarefa do jogador era reunir pistas em diferentes lugares para descobrir onde ela estava se escondendo. As cidades visitadas durante a investigação (Cairo, Reykjavik, Kathmandu, Buenos Aires, Oslo, Bagdá, Bancoc, e por aí vai) apareciam com ícones de sua arquitetura ou paisagem ao fundo, enquanto a fonte do detetive fornecia uma informação que podia ser importante na busca. Mas metade da graça do jogo estava em ficar indo de uma cidade para a outra, com seus nomes estranhos e familiares ao mesmo tempo.  

A investigação é uma arte que se aloja no arquétipo de Escorpião. Porém, nesse caso, metade da graça do jogo era sagitariana. Pois é em Sagitário que sentimos esse frêmito de excitação diante de coisas que são simultaneamente próximas e distantes, cujos símbolos conhecidos atiçam nosso desejo e curiosidade, porém dizem respeito àquilo que não está acessível de imediato. Quando digo “próximas”, portanto, não falo de coisas ou cidades que estejam perto: digo apenas que essas coisas existem e fazem parte deste mundo, são realidades possíveis e inclusive já realizadas pela humanidade, estão aí faz tempo e não vão embora tão cedo. Roma, no jogo como na vida, tinha a vantagem de ser Roma e de nem por isso ser uma invenção de um filme ou de um livro ou de um jogo. Istambul era não apenas uma cidade fantástica e quase inconcebível com suas mesquitas e minaretes, era isso e era também um lugar que um dia eu ia conhecer.

Funciona assim: primeiramente, a criança entra em contato com o mundo através daquilo que está ao alcance da mão. Seu raio de atuação e conhecimento se expandem um pouco nos primeiros anos – para a vizinhança, o bairro, a escola – mas até certo ponto tudo permanece no âmbito do arquétipo de Gêmeos. Em algum momento, entretanto, ela conhecerá também sinais e vestígios de todo um enorme mundo a ser explorado. Basta um mapa-mundi para colocá-la em contato com uma espécie de vastidão que não é a vastidão do cosmos, e sim a vastidão do globo, portanto uma enormidade, mas uma enormidade de proporções humanas, compatível com nossos cálculos e medições rotineiros, passível de ser percorrida por aviões e caravelas.

Tudo isso acontece em Sagitário, em movimentos simultâneos de redução e expansão: um globo terrestre cabe na prateleira de um escritório, porém para a mente sagitariana não deixa nunca de ser uma representação de outras coisas incríveis que realmente existem lá fora. Quem colecionou aqueles álbuns com as bandeiras de todos os países sabe do que estou falando. As figurinhas mesmo podiam ser simples, um conjunto de formas e cores sem maior ambição artística, mas cada bandeirinha no álbum tinha a enorme de virtude de não ser simplesmente um desenho. Elas sempre remetiam a algo de muito diferente, que existia em alguma parte do globo terrestre, e por isso existia um pouco também ali, através daquela bandeira.

É lógico que a gente vai sempre se lembrar com carinho de alguns detalhes interessantes ou enigmáticos: a estrelinha na bandeira da Tunísia, os escritos na bandeira da Arábia, a folhinha na bandeira do Canadá. Assim como existem lugares no mundo que dá vontade de conhecer só por causa do nome, como o rapaz que protagoniza O Que Diz Molero, um romance do português Dinis Machado, e que no final do livro percorre o mundo escolhendo destinos de acordo com a sonoridade das palavras: a Pensilvânia, a Groenlândia, o Panamá. Ainda assim, por mais exóticos que possam ser os símbolos e os nomes de territórios sobre a Terra, insisto no ponto principal: todos esses lugares têm a virtude de existirem. Não são invisitáveis, por assim dizer – e isso é muito mais do que podemos dizer de muitos outros lugares.

Por exemplo: imagino que, para uma criança sagitariana e fã de Harry Potter, seja um pouco duro descobrir que Hoghwarts é um lugar fictício. A essa altura ela já fez planos de ir até lá. Para uma criança de Peixes, vamos supor, isso talvez seja um problema menor: tudo bem, ela vai pensar, Hoghwarts pode não ser algo que exista nesse mundo, mas isso nunca foi pré-requisito para as coisas existirem na minha imaginação. Sagitário, por sua vez, é imaginativo, mas está sempre antecipando com entusiasmo acontecimentos possíveis – ainda que pouco prováveis, ainda que exagerados – dos quais se vê um indício, mínimo que seja, de que um dia venham a acontecer.

Aí eu fico pensando em como deve ser o envelhecer, para esse arquétipo em particular. Se já é complicado pra mim, nem consigo imaginar como deve difícil para Sagitário aceitar as limitações que se impõem na vida na medida em que o tempo passa – como, por exemplo, a de que a gente não vai chegar a conhecer todas aquelas cidades do joguinho da Carmen Sandiego. Pois uma coisa é aceitar que a gente nunca vai chegar à Terra do Nunca do Peter Pan; outra coisa é perceber que podemos morrer sem ter conhecido a Cordilheira dos Andes ou a República Tcheca. Afinal, tudo nessa vida envolve escolhas e concessões, e, por mais dolorosa que seja essa constatação, há coisas nesse mundo mesmo que no final das contas só terão existido para nós sob a forma de uma bandeira ou um nome ou um filme.

O mesmo raciocínio vale para livros que nunca vamos ler, obras inteiras que vamos morrer sem ter conhecido. Sempre que falamos em Sagitário, essa equivalência é válida, pois nesse arquétipo há tanto os que percorrem aeroportos e hospedarias quanto aqueles que habitam livrarias e bibliotecas, sobretudo quando Mercúrio se encontra em Sagitário também. Já para quem tem Vênus em Sagitário, por exemplo, a dor do possível tornado inviável pode valer também para os encontros que nunca teremos, inclusive aqueles que eram de antemão totalmente improváveis e absurdos. Como, vamos supor, um encontro com a Rainha da Inglaterra.

Sim, a Rainha da Inglaterra. Provavelmente ela apareceu aqui porque mencionei a República Tcheca, e é de um poeta tcheco o belíssimo poema chamado Um Guarda Chuva de Picadilly (Jaroslav Seifert), que trata de um eventual flerte do leitor com a monarca britânica. Ele foi traduzido pela poeta brasileira Marília Garcia, e pode ser encontrado aqui. Aliás, bem a propósito, a Marília é uma poeta brasileira e (salvo engano) sagitariana que escreveu livros como Engano Geográfico e Paris Não Tem Centro, e cuja obra tem como marca o trânsito cosmopolita entre línguas e lugares.

Seifert menciona o tal possível encontro do leitor com a Rainha da Inglaterra na primeira estrofe do poema. É claro que esse encontro não vai acontecer; ele não é totalmente impossível, está dentro dos limites do concebível (trata-se da Rainha da Inglaterra, e não de um elfo das terras médias), mas, convenhamos, não é algo que eu ou você vamos experimentar nessa vida. Na sequência, portanto, o poeta oferece razões sábias e maduras para aceitarmos essa impossibilidade, e menciona um guarda-chuva que o filho lhe trouxe uma vez de Picadilly em Londres, para a partir daí falar de seu próprio envelhecimento, e das tantas coisas que foram se tornando impossíveis como tempo. No final, o encontro malogrado com a rainha torna-se um símbolo de todas essas coisas que, ele agora precisa aceitar, tornaram-se igualmente improváveis em sua vida (mesmo as mais simples e prosaicas, como flertar com uma mulher).

A juventude, enfim, é a parte verdadeiramente sagitariana da vida porque nela tudo é possível. Ou melhor, porque nela, tudo o que é possível de um modo geral, é possível ainda individualmente para nós. Com o tempo, mesmo aquilo que não contraria nenhum tipo de lei da física pode tornar-se uma miragem: as sete línguas que iríamos apender (incluindo alemão e russo) tornam-se um inglês instrumental que dá para o gasto, e já nem inventamos desculpas para adiar aquele curso de francês, ele simplesmente não aconteceu. No entanto, se tivermos sorte, nunca perdemos a capacidade de nos deslumbrar com pedacinhos do mundão desconhecido que chegam até nós, como bandeiras de países distantes, palavras de línguas estranhas, ícones de cidades incríveis. Se tivermos sorte, permaneceremos um pouco sagitarianos.

Porque é igualmente sagitariana aquela parte de nós que – não importa a idade – vai se inscrever no curso de alemão, vai comprar a passagem para Istambul, e vai marcar um encontro no Hype Park com uma senhora inglesa que conhecemos pela internet. Por que não? O mundo de Sagitário comporta essas coisas, e a literatura nos conta também que essas coisas nunca deixarão de provocar um frêmito de excitação, para aqueles que se mantiverem encantados com o mundo e suas possibilidades. Que algumas coisas estrangeiras permaneçam estrangeiras é então fundamental para que a gente tenha com o quê se entusiasmar, em qualquer época, em quaisquer circunstâncias. Em um paradoxo apenas aparente, é sagitariana essa necessidade que temos de nunca realmente conhecer o mundo inteiro – para que possamos continuar a imaginá-lo, enquanto estivermos a caminho, durante nossas viagens para lá.

sagitário

Sagitário não faz sentido

Sagitário é a constelação que está alinhada com o centro da Via Láctea, da perspectiva da Terra. Às vezes me pego pensando se isso tem algum significado. Parece fazer sentido que a seta do centauro esteja apontada para a fonte emissora de ondas de rádio situado no núcleo galáctico, que foi adequadamente chamada de Sagittarius A* pelo astrônomo Robert Brown (a fonte de rádio era ‘excitante’, e o asterisco é usado para indicar átomos em estado de excitação).

Parece fazer sentido. Não dá para saber se faz mesmo – mas o interessante é que a questão, ela própria, é sagitariana. A busca pelo significado das coisas e de suas relações encontra-se nesse arquétipo, com ênfase na procura e na exploração, não necessariamente nos próprios significados já obtidos. O sagitariano que alcance um ponto de vista privilegiado no alto de uma montanha vai sempre querer chegar ao cume da montanha seguinte, continuando o movimento que foi tão revitalizante da primeira vez. O que ‘faz sentido’ é a busca pelo sentido, e pela visão mais abrangente do mundo ao redor.

Há quem diga que o ser humano foi uma maneira que o universo encontrou de contemplar a si mesmo. Já no caso da mente sagitariana, creio que foi uma maneira que o universo encontrou de significar a si mesmo, criando relações onde há distâncias, depois que tudo se espalhou em um imenso e vertiginoso carrossel de estrelas, galáxias e planetas. Isso presume um movimento constante de ampliação do conhecimento disponível. A contemplação pura e simples não basta – haverá sempre algo além do que a vista alcança, mas que o corpo e o espírito podem ainda conquistar.

Por isso, em Sagitário, há também quem viaje compulsivamente, quem leia compulsivamente, quem discuta compulsivamente, sempre em busca do conhecimento, da expansão e da excitação que essas experiências oferecem. No entanto, onde de fato há uma dinâmica compulsiva, existe o risco de que ela se sobreponha a uma ‘falta de sentido’ da vida que precisa ser experimentada de vez em quando. Nem tudo precisa ter um significado, nem tudo precisa ter um motivo, nem tudo precisa ter um propósito. Às vezes respiramos o ar da montanha só por respirar.

Acho que por isso existe uma relação de Sagitário com a depressão, ou com a sensação aguda de que as coisas no mundo ‘perderam o sentido’. Pode parecer estranho, em se tratando de um arquétipo tão carismático e luminoso, mas uma coisa tem a ver com a outra. Não é que sagitarianos sejam mais deprimidos; é que os temas que surgem em seu espectro criam condições para essa experiência, e que em Sagitário (ou, com frequência, em trânsitos difíceis na casa 9 de um mapa astrológico) ela segue uma dinâmica específica.

Pensemos, por exemplo, em como as viagens internacionais são um tema sagitariano. É comum que as pessoas tenham agudas crises de depressão justamente durante viagens internacionais. De repente, nada faz sentido: essas ruas, essa língua, essas pessoas.  Justamente quando o mundo se expande criando a possibilidade de inúmeras novas conexões, tudo parece desconectado, e a gente parece desconectado do mundo, transformado em um amontoado de coisas sem razão e sem propósito.

São episódios difíceis inclusive por seu caráter totalmente inesperado. Todos os arquétipos de fogo podem estar relacionados à depressão (em Áries está a energia vital, em Leão está o prazer com a vida); mas é em Sagitário que a última fronteira da motivação para a existência parece ser atingida, e dá-se o golpe fatal no ânimo e na alma, pois envolve a questão do sentido. Por outro lado, sagitarianos são particularmente capazes de se recuperar gloriosamente desses episódios, ressurgindo com esplendor como se nada tivesse acontecido. Ou melhor: como se o nada tivesse acontecido. Porque é por aí mesmo, o nada aconteceu.

Estamos falando de um momento vazio, em que prevaleceu uma sensação hamletiana, de que “vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, sem sentido algum”. Uma espécie de intervalo do não-ser entre dois momentos de ser. Ao contrário, por exemplo, das crises de Escorpião, que implicam morte, transformação e renascimento (em Escorpião a crise tem um propósito, ela própria é dotada de sentido), aqui estamos diante de algo como um vagalume que volta brilhar com a mesma luz após um instante de escuridão. Um super-vagalume, é verdade; um vagalume sagitariano.

Sua luz é como as ondas de rádio que chegam até nós desde o centro galáctico: atinge as maiores lonjuras. Por outro lado, ele pode aprender com outros arquétipos a obter algo mais do ambiente imediato. Sagitário é capaz de recorrer aos mais sofisticados sistemas filosóficos para entender algo que esteve disponível aqui o tempo inteiro, ou de viajar até a Ásia para descobrir aquilo que o jardineiro no quintal do vizinho pode estar dizendo ao assoviar uma melodia simples.  

Um momento vazio pode ser um momento do vazio: um instante em que as necessidades de ação e de motivação estão suspensas, e a respiração basta, e a vida é vivida, sem que ninguém se pergunte se ela faz sentido ou não. Ninguém precisa ir até o Himalaia para saber isso. Nós que aqui estamos tal como aqui vivemos podemos não ser plenos de significados, tampouco significados nos faltam; ninguém precisa conquistar o mundo ou desbravar as galáxias que restam quando tudo o que se precisa está ao alcance da mão.

Enfim, estamos agora nos aproximando de uma lua cheia em Sagitário. Isso quer dizer que ela cresce enquanto prepara seu alinhamento com a Terra, com o Sol e com o Centro Galáctico. Não que isso faça algum sentido. Mas o sistema solar como um todo também se move ao redor do centro a uma velocidade de 828.000 km/h, e a própria galáxia se desloca ao se afastar das demais com a expansão do universo, sem falar na rotação da terra sob nossos pés. Nós participamos de todos esses movimentos e não lhes oferecemos resistência alguma. Nem pensamos a respeito. A gente é todo mundo zen e nem sabe.

gêmeos, sagitário

O riso e o escárnio

Gêmeos e Sagitário. Dos signos mutáveis, os que mais obviamente implicam movimento estão neste eixo de opostos complementares. Gêmeos é o arquétipo das viagens curtas, do pensamento rápido e da curiosidade inconstante. Sagitário diz respeito a longas distâncias, longas argumentações, ao engajamento em um propósito e ao entusiasmo com suas chances de sucesso. Num caso, o raciocínio analítico decompõe o mundo nas peças de um jogo ou de um brinquedo, fazendo com que a pessoa seja capaz de reinventá-lo em mil formas tão diferentes quanto provisórias. No outro, existe o desejo por uma síntese final e absoluta, por uma definição que não está disponível de imediato, e que precisa ser procurada em peregrinações mundo afora (ou jornadas noite adentro, através do estudo e dos livros).

O contraste faz lembrar um texto que eu e um amigo geminiano traduzimos muitos anos atrás, chamado “A Flexibilidade do Self na Literatura do Renascimento”. O autor, Thomas Greene, investiga como teria surgido entre indivíduos renascentistas uma ambição por elevar o próprio homem à condição divina, em movimentos verticais, voltados para o alto, para o céu, para o absoluto, onde estaria o mais completo entendimento dos mecanismos da criação. Ao mesmo tempo, ele assinala como não deixou de haver na época uma mobilidade de tipo horizontal, de maior desenvoltura e habilidade prática para resolver e aprontar encrencas pontuais, capaz de brincar com a vida de modo menos sério.

Greene associa esse comportamento às heroínas das comédias de Shakespeare, ao talento que tinham para ocupar diferentes papéis em uma trama, fazendo-se passar pelo que não eram. Podemos também vê-lo na imagem do Malandro, do Trickster e do Coringa (“why so serious?”), que pode ser qualquer personagem do baralho, e ao mesmo tempo não é nenhum (sem identidade pessoal alguma para desenvolver, mas movimentando-se lateralmente com total liberdade). Assim, tudo indica que nosso riso mais cotidiano tem a ver com a percepção do múltiplo e do relativo – enquanto na possibilidade do absoluto e da realização de feitos extraordinários está um prazer de outra natureza, mais entusiástico e elevado. No entanto, já presenciei gargalhadas sagitarianas tão épicas quanto destruidoras de quaisquer certezas e convicções, e fico pensando que tipo de desconstrução entra em jogo nesse caso.

A propósito, nossa época reviveu uma busca renascentista: a do Desenho Inteligente do Cosmos, ou da Teoria de Tudo. O Grande Colisor de Hádrons de Genebra está envolvido nisso e é uma extravagante e sagitariana estrutura voltada para o conhecimento dos fundamentos dos cosmos. Por mais que tudo se justifique em nome da ciência, um empreendimento dessa dimensão não teria sido realizado se não houvesse em sua origem desejos e anseios de outra natureza. O mundo foi geminianamente decomposto em minúsculas pecinhas, mas para que em seguida se anunciasse com estrondo a descoberta de uma pecinha especial: o Bóson de Higgs, a “partícula de Deus”, em torno da qual tudo se reuniria novamente.

No entanto, alguns desdobramentos subsequentes da investigação ameaçam jogar por terra todas as conquistas anteriores, no que se refere à revelação de um universo de leis inteligentes e articuladas (tem um ótimo documentário sobre isso na Netflix, “Particle Fever”). Cientistas que passaram uma vida criando modelos em que todas as peças do cosmos encaixariam de novo em uma imagem coerente estão se defrontando com evidências e resultados contraditórios, que não se adequam à suas expectativas e podem inclusive enterrá-las para sempre. Uma possível explicação para o fracasso desses modelos é a hipótese de que vivemos em um universo entre muitos outros, que não seria o resultado de um desenho inteligente, mas de um conjunto de felizes acasos. De modo que, onde eles vêm o uno, existe o múltiplo, e por isso, de onde esperam números absolutos, tudo o que recebem são variáveis relativas ao ambiente em que se encontram. Nasceu assim a hipótese do multiverso.

A divulgação desses resultados foi motivo de intensas crises existenciais por parte alguns pesquisadores, que vinham nutrindo um incontido entusiasmo com as chances de sucesso que vislumbraram. Mas será que não podemos receber a notícia desses fenomenais reveses também com um trovejante e jupiteriano riso, estrondoso, libertador? O múltiplo e o relativo não são igualmente engraçados nessa escala? Não é divertida em um nível intergaláctico a ideia de termos não um, mas múltiplos universos, cada um com seu jeitão e suas manias?

Acho que os sagitarianos, pelo menos, sabem que sim. Acho que a gargalhada sagitariana pode muito bem ser essa gargalhada cósmica diante da futilidade dos mais elevados esforços. Pois a gargalhada sagitariana, em qualquer manifestação ou momento, não é simplesmente um riso diante das patetices do dia-a-dia; é uma espécie de prazenteiro escárnio niilista diante do vislumbre de uma derrota final e redentora, que nos salva de nossas limitadas ambições terrenas, e nos coloca de volta no caminho de uma busca que só faz sentido se não tiver chance de terminar, porque haverá sempre novos caminhos a desbravar e novos universos a descobrir.

Já no âmbito geminiano, por outro lado, talvez isso nos faça descobrir que há algo de solene na impermanência. Que as inúmeras variações das formas do mundo não são apenas divertidas: são também o que temos de mais verdadeiro. Deste modo, será possível descobrir a verdade naquilo que temos de mais próximo e disponível. Sagitário e Gêmeos, afinal, são arquétipos que envolvem as figuras do professor e do aluno, e neles é possível atualizar a máxima zen que trata das relações entre mestre e discípulo: diante de assuntos sagrados, dê uma gargalhada; diante de assuntos cotidianos, sorria, e perceba, o sagrado está aí.