peixes

Peixes ninguém entende

Ninguém entende os piscianos. Nem eu. Mas pelo menos sei que “ninguém entende os piscianos” é uma das frases que os piscianos mais gostam de ouvir. Não é exatamente que se achem pessoas muito complexas; “complexo” não é palavra suficiente para defini-los. É que se acham muito… sei lá, muito piscianos mesmo.

Todo signo se sente incompreendido ou injustiçado em relação a algo que oferece ao mundo. Por exemplo: Áries precisa que a gente admire sua honestidade; Câncer oferece cuidados mas exige afeto de volta; Leão nos oferece sua luz, e ai de nós se não for suficiente; Capricórnio precisa de respeito por todas as responsabilidades que assume.

Essa lógica vale particularmente para o signo solar, porque o Sol se orgulha do que oferece ao mundo em abundância (não por acaso é regente leonino). Então o signo solar – o signo do dia do ano em que a gente nasce – é o Sol atuando em nós de acordo com o arquétipo em que está situado, oferecendo algo de específico de acordo com a natureza desse arquétipo, e querendo reconhecimento por isso.

Mas só Peixes tem certa soberba de ser meio confuso. “Nem eu me entendo” é uma frase que piscianos dizem esperando algum grau de validação. E estão certos, a verdade é que nem eles se entendem, e essa é uma característica especial, merece algum tipo de recompensa.

Enfim, tenho piscianos incríveis ao meu redor e na minha vida, e acho que ainda vou passar boa parte da vida especulando sobre Peixes e tentando compreendê-los um pouco melhor. Mas, por ora, resolvi presenteá-los com uma postagem que começa e termina com uma das frases que mais adoram: ninguém entende os piscianos.

Nem eu, querides. Percebam meu amor por vocês: nem eu.

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Chantagistas do zodíaco

Há diversas formas de separar e classificar os signos – elementos, modalidades etc. – e uma delas é aquela que reúne Capricórnio, Peixes, Câncer e Virgem em um mesmo grupo, formado por um retângulo no zodíaco. Pode não ser fácil imaginar o que arquétipos tão diferentes têm em comum, mas por isso mesmo o exercício é atraente. Uma maneira de articulá-los é perceber como os temas da renúncia e do sacrifício se repetem em cada um deles, o que faz também com que surjam os temas da barganha e da chantagem.

Todos os arquétipos têm algo a nos oferecer, é claro. A questão com esses quatro é que sua própria identidade está vinculada a este oferecimento, pois o tipo de cuidado ou de trabalho que exercem é por natureza voltado para o benefício dos que estão ao redor. Em Câncer, por exemplo, o amor por tudo o que é próximo, a preservação do calor do lar, e a renovação de vínculos familiares ou comunitários, resultam sempre em garantias de pertencimento e segurança emocional para outros (e os demais arquétipos de fato se aproveitam disso enquanto estão preocupados com outras coisas). O problema é que não raramente Câncer apresenta a conta; e a chantagem emocional materna, em que são ressaltados o sacrifício e a renúncia em nome dos filhos e da família, aparece aí como a expressão mais estereotipada – mas nem por isso menos real – dessa dinâmica.

Em Capricórnio, algo semelhante acontece. A diferença é que Capricórnio não oferece carinho, mas trabalho, e não espera de volta afeto, mas respeito. Tudo bem com isso até certo ponto – vamos sempre nos beneficiar da responsabilidade e competência capricornianas –, mas, com frequência, em troca desse sacrifício, é exigida uma reverência que nunca chega em doses suficientes. Além de responsabilidade e competência, portanto, Capricórnio também acrescenta ao mundo bastante frustração e ressentimento por não ter seus esforços reconhecidos. Isso quando não parte para as formas mais abertas de autoritarismo, no lugar das manipulações emocionais cancerianas.

Em Virgem e Peixes isso se opera de maneira mais sutil, e por isso mesmo mais interessante. Virgem oferece ao mundo os serviços discretos e meticulosos que o mantém em funcionamento, e em troca requer distância. Assim, tudo aquilo que invade a pureza de seu espaço sagrado é visto como uma injusta intromissão – de um mundo impuro e imperfeito – na perfeição que a tanto custo alcança para si. Virgem sente que tem o direito de preservar esse distanciamento, pelo menos enquanto seu serviço estiver sendo executado com a habilidade e a devoção de sempre. E talvez até tenha, do ponto de vista de uma lógica compensatória, mas não é com essa lógica que o mundo funciona.

Em Peixes, afinal, se dá a barganha de maiores proporções: o sacrifício do ego e da individualidade em troca do amor e da aceitação incondicionais do cosmos. Isso vale tanto para o devoto ou monge que se retira do mundo para entregar-se a Deus, quanto para o indivíduo que evita toda forma de julgamento ou exigência, e em troca espera não ser julgado por nada nem exigido para coisa alguma. A famosa vitimização pisciana decorre muitas vezes desse tipo oculto de escambo, em que o paradoxo compensatório fica mais evidente, com o amor incondicional sendo oferecido com a condição de um retorno. Mas, como sabem bem muitos monges angustiados e alguns dos mais compulsivos devotos, Deus não cai nesse tipo de armadilha. Nós também não.

Ou seja, cada um desses arquétipos tem de fato muito a oferecer ao mundo – afeto, trabalho, responsabilidade, amor incondicional – mas cada um também está sujeito a distorções a partir de cálculos mais ou menos conscientes do que esperam receber em troca. O problema aí é que não temos notícia de um universo que funcione de acordo com esse toma-lá-dá-cá; as coisas nessa dimensão acontecem de formas muito mais interessantes e surpreendentes. A própria noção de carma, que em suas versões mais popularizadas atende a esse critério, não passa aí de jogo de soma zero no qual outras vidas trarão as recompensas aguardadas. Não sei se trarão, mas suspeito de que só o fato de serem ‘aguardadas’ seja um indício do contrário.

Parafraseando Kafka, há justiça nesse mundo, justiça infinita, justiça suficiente – mas não para nós. Ou pelo menos não uma justiça que sejamos capazes de compreender. Por outro lado, cada um de nós tem talentos e habilidades e virtudes cujo exercício podem nos fazer esquecer por alguns instantes o que o futuro nos trará ou deixará de trazer. É nesse momento, enquanto estamos desavisadamente, espontaneamente executando essas tarefas e manifestando essas qualidades, que recebemos em troca tudo o que precisamos. E aí sim: o universo agradece.

peixes, virgem

O eixo Virgem-Peixes

Virgem e Peixes são signos opostos complementares, ainda mais opostos e ainda mais complementares porque colocam em interação os extremos da ordem e do caos. À primeira vista, não é difícil distribuir as funções: a ordem é virginiana e o caos é pisciano. Mas as coisas felizmente não são tão simples assim, e a compreensão das nuances entre esses dois arquétipos é um passatempo meticuloso e delicado.

A ordem virginiana tem na origem o propósito de assegurar que objetos e implementos de rituais de purificação estejam todos no lugar, garantindo seu bom funcionamento, através de criação de canais apropriados ao fluxo e à circulação de energias. A relação com a saúde está aí também, mas sem deixar de entender o corpo como uma esfera de atuação do sagrado, pois o local onde Virgem atua é sempre uma espécie de templo. Virgem, portanto, conhece o caos, sabe que ele está sempre à espreita, e por isso se empenha em mantê-lo do lado de fora, ao mesmo tempo em que deixa entrar a luz divina. Porém, tudo aquilo que é estranho à inteligência humana pode parecer caótico aos nossos olhos, apenas por tratar-se de um tipo de ordem que não compreendemos.

A própria divindade entra nessa categoria, e aqui surge o paradoxo virginiano: as práticas que surgem para nos proporcionar um contato com o Outro podem ser aquelas que acabam por manter qualquer alteridade além das muralhas do templo. Não há mais fluxo, não há mais circulação, não há mais movimento, e aí a ordem que se estabelece começa a deteriorar-se a partir de dentro, levando-a à morte. Como o pontinho escuro na parte clara do símbolo do Tao, é necessário permitir certa desordem no interior dos recintos sagrados, porque aquilo que chamamos de ‘caos’ pode ser só um outro nome para a ‘vida’. Não existe perfeição assim percebida por nós que não seja estritamente humana, e a verdadeira Perfeição é algo que não seríamos capazes de perceber.

Mas poderíamos, talvez, vivenciá-la em um instante de sorte; e Peixes tem entre seus atributos a aspiração por essa experiência. Sua permeabilidade ao não-humano, àquilo que foi deixado fora de nossas rotinas ordinárias, admite o convívio com máculas e demônios jamais admitidos no ordenamento dos ritos purificadores: Peixes tem inclusive a lembrança de nossa existência aquática, é atravessado por mistérios mais antigos que a espécie humana e que vão sobreviver a ela. O sonho e a vigília, então, se misturam de tal modo que o próprio corpo já não existe com limites exatos. O ego se dissolve não por força de um ato de vontade, mas porque nunca esteve lá como algo independente do mundo ao redor.

Por outro lado, Peixes é bem capaz de intuir uma Ordem superior por trás dessa bagunça toda em que está imerso. E, assim como Virgem percebe a alteridade como impureza, pode encontrar nela o veículo do grande sacrifício em que a purificação final será alcançada, ou mesmo sacrificar a riqueza e a multiplicidade desse mundo em nome da unidade de uma Ideia delirante. Esses signos aparentemente tão inocentes têm por isso sua parte de responsabilidade nas tiranias e fanatismos desse mundo. A experiência pisciana da Totalidade é totalitária se não for efêmera, e desconhecer os limites entre o eu e o outro é tão perigoso quanto sacramentá-los.

O símbolo do Tao, naturalmente, tem também um pontinho claro na parte escura. É a ordem que existe em meio ao caos, e não por trás dele. Esses pontos parecem os olhinhos de dois peixes que nadam em direção opostas e complementares, tudo coordenado por uma geometria exata e perfeita que a gente pode perceber claramente. Trata-se de um símbolo humano, criado por mentes e mãos humanas, mas que trata de algo que vai além da experiência humana; e Peixes precisa desses símbolos para ter alguma representação do mundo indizível onde vive.

Já Virgem precisa saber que o mundo não tem como ser ordenado como um símbolo, que a linguagem não nos basta e que o divino está naquilo que é deixado do lado de fora de nossas palavras. Embora os símbolos, incluindo os signos do zodíaco, sejam também possíveis portais de um encontro com o sagrado, ou seja, a maneira como as mais diversas divindades – das mais sublimes às mais demoníacas – circulam entre nós.