astros, peixes

Sonhos de Cassandra

Troia em chamas (c.1759) | Johann Georg Trautmann

Diz-se que, no local da Grécia Arcaica onde seria situado o templo de Delfos (consagrado a Apolo), havia outrora uma profunda fenda no chão de um terreno onde ovelhas costumavam pastar. Se alguma delas se aproximasse demais da fenda e olhasse para dentro, começaria a “pular de maneira espantosa e balir num tom aflito, anormal”, segundo Diodoro Sículo. Os humanos que investigassem o mistério também entravam em estado de transe, e um deles, em seu delírio, passou a predizer o futuro. Por isso o local veio a ser considerado miraculoso: o povo acreditava que o oráculo havia sido uma dádiva de Gaia, a deusa da Terra.

Como muitas pessoas se perdiam e desapareciam dentro da fenda, pareceu adequado aos habitantes dos arredores designar uma única profetisa, que seria encarregada de receber seus espíritos, sob a proteção da serpente Píton. Este foi o “dragão-fêmea, monstro enorme e horrendo” que Apolo derrotaria para assumir o posto de oráculo de Delfos, na narrativa dos hinos homéricos. Esta luta e sua vitória coincidem com uma substituição de aspectos arcaicos da antiga religião por uma visão mais ordenadora e racional do mundo. Foi também nessa época que Apolo se diferenciou de seu irmão Dionísio, um deus da natureza, passando a representar a objetividade, a índole científica e a clareza lógica que caracterizou a Grécia
Clássica.

A oposição e complementação entre Apolo e Dionísio ficou conhecida através da obra de Nietzsche sobre o nascimento da tragédia. No entanto, conhecemos menos a história de Cassandra, a filha de Príamo que sonhou com a derrocada de sua família e da cidade de Troia, mas não encontrou quem acreditasse em sua profecia. Anos antes, ao frequentar o templo de Delfos, ela havia recusado um pedido de Apolo, e foi amaldiçoada pelo deus com o descrédito de todas as suas visões. Desesperada por prever um futuro terrível e não ter como prevenir os seus familiares, Cassandra passou a chamar a atenção para seus vaticínios de formas incomuns ou mesmo exageradas, sem nunca obter sucesso. Pode-se dizer que começou a balir como as ovelhas da lenda, no que viria a ser descrito no século XIX como o típico comportamento de uma mulher histérica.

A analista junguiana Laurie L. Schapira estudou a maneira como o diagnóstico da histeria esteve vinculado ao descrédito da intuição feminina nesse período. Pois se, por um lado, o poder premonitório de Cassandra se manteve na experiência de inúmeras mulheres, Apolo seguiu fazendo seu trabalho de desqualificá-las como criaturas descontroladas. O próprio Freud pode ser acusado de ter reduzido poderes verdadeiramente estranhos de feiticeiras medievais ao “meramente histérico”, acompanhando Edward Jorden, autor da primeira obra em língua inglesa sobre o assunto. O estado de transe ou de possessão fica assim compreendido como um sintoma, com a simulação de desmaios e tremores para realizar algum tipo de chantagem ou manipulação emocional.

Mas as duas coisas não são excludentes. Podemos presumir que Cassandra de fato tenha o dom de prever o futuro, e que, ao perceber-se incapaz de persuadir os outros do que vê, passa a utilizar formas mais insidiosas de convencimento, que podem acabar distorcendo sua própria visão. Ou então, diante da crueldade da barreira imposta pelo ressentimento de Apolo, ela simplesmente recai no desespero e começa a berrar feito uma louca. De um jeito ou de outro, possui motivos suficientes para sentir-se vitimizada durante boa parte de sua história, pois tem sua imagem pública e seu ego massacrados não apenas por Apolo, como também por Príamo, Agamenon, Hécuba e Clitemnestra, a tal ponto que ela mesma já não crê suas visões. O trabalho clínico que Schapiro narra diz respeito a longas trajetórias de mulheres tentando recuperar a crença em si mesmas.

Quanto à astrologia, não me parece casual que o mito de Cassandra tenha reaparecido através da questão da histeria justamente quando Netuno passou a integrar nosso mapa do cosmos, na segunda metade do XIX. Netuno é o regente de Peixes, e Peixes é sem dúvida o arquétipo mais intimamente ligado à história de Cassandra. É verdade que geralmente o associamos ao aspecto vago e delirante dos cultos dionisíacos, assumindo por esse viés o contraste com as formas e a lógica apolíneas. Mas Peixes merece mitos femininos para ser explicado e compreendido, até porque suas águas são a origem de tudo, e quando damos um nome à origem de tudo a chamamos de Grande Mãe.

Sabemos que Peixes está em contato com os mananciais intuitivos e premonitórios que corriam no fundo da fenda de Delfos. Esse poder está de acordo com a natureza psiquicamente permeável do signo. Sabemos também como esse aspecto da personalidade pode ser diminuído e desacreditado na sociedade contemporânea, ou isolado como sinal de debilidade e loucura. Com isso, cria-se sempre o risco de que Peixes reincida permanentemente no papel de vítima, ou crie relações de dependência que o tornam um chantagista do zodíaco em potencial, como tentei descrever em outra postagem. 

Assim, o desejo que têm de fazer com que os outros vejam o que surge em suas visões, o descrédito que suas estranhas percepções encontram no mundo social, e a maneira como a realidade dos sonhos é destituída de valor à luz do dia – tudo isso pode tornar a história de Cassandra bastante real para alguns piscianos. O caminho para se lidar com esse impasse é um fortalecimento do ego que não signifique a supressão da alma; basicamente, é o de descobrir-se na posição da pitonisa protegida pela serpente, uma personificação de forças naturais que assume face humana, mas não se identifica exclusivamente com a vítima ou com o algoz do mito.

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Sonho de uma noite de Leão

Firedreaming | Malcom Maloney Jagamarra

Há uma descrição da cosmologia dos aborígenes da Austrália central segundo a qual a criação se divide basicamente em duas partes. Na primeira existe o “tempo do sonho”, dreamtime: uma dimensão eterna e primordial, também chamada de Alcheringa, com paralelos em outras culturas, mas que nesse caso ganha um aspecto mais especificamente onírico, não no sentido de tratar de coisas que não existem, mas presumindo que qualquer coisa, para existir, precisa ser sonhada antes. O segundo momento da criação é o canto. Ele implica que não bastou sonhar o mundo para que ele passasse a ser: foi preciso cantá-lo também, e só partir daí ele passou a ter os contornos que tem, de modos que suas paisagens e relevos são canções. Isso mesmo: cada montanha, cada cânion, cada riacho, seria então uma espécie de partitura, inscrita na superfície da terra através da própria voz de criaturas ancestrais, que pela primeira vez os percorreram enquanto cantavam o mundo. 

Acho que são os infinitos os motivos de encanto com essa ideia. Um deles está mencionado em O Oráculo da Noite: a história e a ciência do sonho, de Sidarta Ribeiro (2019), para quem a Alcheringa permite “uma experiência tão plena e aumentada, que voltar à vigília é como regressar a um sonho e adormecer é como despertar”. Também são muitas as possibilidades de expandi-la com analogias e especulações, como fez Bruce Chatwin em seu Songlines (1987), em uma mistura de ensaio e ficção que confere maior ênfase ao ato de “cantar a terra”, segundo ele continuamente repetido por tribos nômades em suas migrações. Nas duas leituras, o enfoque é alterado, mas a interdependência do sonho e do canto permanece, ao mesmo tempo em que a autossuficiência de ambos juntos se faz sentir. Nesse sentido, trata-se de uma cosmogonia incrivelmente exata e completa; nem por isso há guerras, disputas nem labutas envolvidas na criação do mundo; ele emergiu da imprecisa dimensão primordial, mas ganhou a precisão de seus traços geológicos através das melodias que então foram entoadas.

Na parte que me toca, chama a atenção que um cosmos assim gestado precisaria apenas de dois arquétipos zodiacais para ganhar existência. O primeiro deles é Peixes, pois é aí que o sonho se aloja, embora tradicionalmente o estereótipo do pisciano sonhático tenha mais a ver como uma iludida falta de senso prático do que com o potencial ato de criação de tudo que existe. Mas sim, podemos presumir que é das águas que surge do todo o resto, sobretudo quando supomos que basta entoar o sonho com a criatividade do canto para torná-lo real. É aí que entra Leão, pois o canto é arquetipicamente leonino, como são todas as ações dramáticas e performáticas que envolvem algum tipo de prazer ou brincadeira, como por exemplo – e por que não – a própria criação do cosmos.

Aliás, talvez exista alguma mitologia segundo o qual o mundo em que vivemos surgiu por ter sido um dia brincado por crianças, a partir de sua imaginação, e essa mitologia seria igualmente leonina e pisciana. Bom, talvez tivesse com componente de Gêmeos também. Mas não vou estender esse texto para muito além daqui. A ideia é justamente entretê-los com a possibilidade de um universo que dependeu apenas dessas desses dois atributos para brotar: a imaginação e a criatividade, o sonho e o canto. Percebam como cada um deles sozinho possui ainda algo de unilateral e insuficiente, e que o modelo fica meio capenga se tirarmos uma de suas pernas; juntas, porém, elas me fazem sentir que as coisas podem ter sido mesmo assim, e que podiam inclusive ter parado por aí. No que dependesse só de Peixes e Leão, acho totalmente possível uma divisão do trabalho em que cada um teria uma dessas tarefas, e as duas juntas teriam sido responsáveis pelo surgimento do universo. O que veio depois é lucro.  

Ou prejuízo, é claro, dependendo do ponto de vista. Pois isso inclui a própria ideia de “trabalho”, e só mesmo um capricorniano para mencionar tal palavra (pior: “divisão do trabalho”, Capricórnio com Saturno em Virgem) em um texto sobre uma cosmogonia tão alheia a esse conceito. Afinal, estamos falando de um mundo cujas estruturas e linhas gerais são de responsabilidade dos sonhadores, dos artistas e dos brincantes, que são os verdadeiros sustentáculos de tudo o que viria a seguir, e que não teria vindo se não tivesse sido sonhado e cantado. Estamos falando de um mundo em que a formiga depende da cigarra basicamente para existir, e onde o ócio e arte não são recompensas pelos esforços de um longo dia de canseira, mas sim as premissas onde tudo se inicia. Parafraseando Sidarta Ribeiro, seria um mundo onde ingressar na esfera do sono e da diversão seria o movimento mais sério que você teria a fazer.

Agora, se você parar para pensar, nada impede que as coisas sejam mesmo assim. E que cada um de nós, assim como as estrelas, os rios e os leopardos, seja uma canção que está sendo cantada nesse momento. Algumas canções são complicadas, outras são tristes, outras parecem não fazer sentido algum, e tem sempre as que dão bastante trabalho (ih, fiz de novo, foi mal). Mas nem por isso deixam de ser música, assim como as ravinas mais estreitas e os penhascos mais exaustivos não deixavam de ser o mundo tal como cantado pelos ancestrais dos aborígenes australianos, que o olhavam à sua volta como se contemplassem um espetáculo, e entendiam que só mesmo aqueles que sonham poderiam ter executado uma tão esplendorosa realidade.

aquário, peixes

A hora da virada

Paisagem com queda de Ícaro (1560) | Pieter Brueghel

Lembro de quando vi o dia raiar pela primeira vez. Bom, talvez eu já tivesse visto antes, mas não com a mesma consciência e expectativa. Eu devia estar com cinco ou seis anos, havia chegado em casa de uma festa por volta das quatro da madrugada – era a primeira vez que ficava acordado até tão tarde –, e decidi que ia fazer um esforço para não dormir antes do sol nascer. O engraçado é que por algo motivo eu acreditava que isso acontecia de uma hora para a outra; tipo, que as luzes do céu literalmente se acendiam de repente. Aí fui para a janela, para ficar de tocaia, para estar lá no instante exato do súbito desanoitecimento. Calculei que seria às seis horas em ponto, mas podia ser antes, talvez às cinco e quarenta e cinco. Quando chegou a hora, foi decepcionante descobrir que o dia ficava claro mais ou menos do mesmo jeito que ficava escuro mesmo: aos poucos, e sem nenhum dramático instante de iluminação da abóbada celeste.

Essa recordação me voltou esses dias, ao ler sobre o suposto início da Era de Aquário. Digo “suposto” não porque questione o advento em si, mas sim a ideia de que possamos determinar onde ele começa. Pois, até onde entendo, a sucessão de era zodiacais acompanha a precessão dos equinócios, causada pela leve inclinação do eixo de rotação da Terra, que em cerca de 26.000 anos realiza uma volta completa, alterando a cada dois mil e tantos anos as constelações que acompanham os solstícios e equinócios, mas sem que exista uma definição clara sobre quando uma constelação substitui a outra no rodízio.

É verdade que as constelações já são desenhos que nós mesmos criamos, e que nada nos impediria de traçar seus limites no horizonte com a mais absoluta exatidão, assim como foi feito com as regiões celestes que determinam a passagem do Sol de um signo para o outro, durante seus ciclos anuais. Mas não consta que isso tenha sido feito, de modo que, no pé em que as coisas estão, o fim da Era de Peixes e o começo da Era da Aquário só podem ser compreendidos como um processo que leva muitos anos, talvez séculos, para se completar. Em tempo: a precessão dos equinócios acontece no sentido inverso do verificado nos movimentos do Sol e outros astros em torno da faixa zodiacal. Sendo assim, a Era de Aquário vem depois da Era de Peixes, que por sua vez sucedeu a Era de Áries, e por aí vai.

Por outro lado, não há dúvidas de que estamos num momento de passagem. Torna-se natural procurar o evento que vai significar o ponto de inflexão. Muita gente fez isso recentemente com a Grande Conjunção de Júpiter e Saturno em Aquário, sabendo que não se tratava do tiro de largada para novos tempos, mas prevendo que num futuro talvez não muito distante a veremos como a linha traçada entre uma época e outra. É uma aposta semelhante à de quem situa o início da Era de Aquário no ingresso de Plutão nesse signo em 2023/24, ou de quem mobiliza todo esse conjunto de trânsitos planetários para dizer que podemos até estar vivendo um lento amanhecer, porém mais cedo ou mais tarde as coisas vão clarear de vez. Nesse sentido, quem diria, os astrólogos se assemelham a Eric Hobsbawn, o historiador que dividiu os séculos em “eras” – das revoluções, dos impérios, dos extremos – sem respeitar as divisões cronológicas mais evidentes, mas se atendo a episódios significativos que marcam grandes mudanças conjunturais, para com eles estabelecer fortes marcos de periodização.

A diferença é que a astrologia nesse caso trabalha com milênios, o que torna tudo um pouco mais abstrato e um pouco mais divertido. Tem também o fato de que astrólogos, como são metidos a saber o futuro, estão inclinados a descobrir seus indícios no presente, desvendando pistas do porvir como quem desenterra ossos soterrados de civilizações antigas, numa espécie de arqueologia às avessas, cujas grandes descobertas são sementes e não ruínas. Em resumo, e para ser mais exato, a astrologia funciona em uma temporalidade diferente da concepção linear que desfia causas e efeitos de acontecimentos, e trata da sincronia entre movimentos da história humana e dos símbolos criados durante a própria história humana (pela consciência humana) para representar a si própria. Nesse sentido, ela implica uma correlação dinâmica e simpática de todas as coisas do cosmos, incluindo pessoas, épocas e constelações.

Voltando então à questão dos primórdios da era de Peixes. Faz sentido pensar que suas primeiras luzes tenham raiado ali por volta do século V a.c., quando coexistiram sobre a Terra, por um breve lapso de tempo, novas referências espirituais como o Buda, Lao-Tsé e Confúncio. Talvez Sócrates possa ser incluído no pacote. Pois em todos esses casos estamos tratando de mestres cujos ensinamentos se voltaram para a cura da alma humana e sua libertação do sofrimento aparentemente inescapável dessa vida, seja através do despertar (Buda), seja através da aquiescência com o curso natural das coisas (Lao-Tsé), seja através do respeito aos rituais sagrados que governam a sociedade (Confúncio, embora neste caso a ênfase esteja no rito e não no sacro, o que confere ao confucionismo um teor mais virginiano, formando um contrapeso oposto e complementar às imprecisões piscianas do taoísmo de Lao-Tsé).

Sócrates, nessa linha de raciocínio, estaria mais inclinado a performar aquele lado “só sei que nada sei” do arquétipo de Peixes, por vezes também manifestado com uma autêntica confusão mental, na linha do “gente me explica que que tá acontecendo” – mas que nunca deixa de nos fazer suspeitar a existência de uma enorme sabedoria por trás dessa afirmação de dúvida e desconhecimento. Ele tem também em comum com outros líderes espirituais o fato de não ter deixado uma obra escrita de próprio punho. Há quem afirme que isso se deve à máxima arquetipicamente pisciana de que o amor verdadeiro não deixa rastros; as más línguas vão dizer que está mais para falta de senso prático ou preguiça mesmo.

No entanto, ainda estava por acontecer o episódio que iria declarar oficialmente aberta a temporada do “ama a teu próximo como a ti mesmo, ainda eu isso às vezes te faças parecer meio trouxa”. Foi com o nascimento e a palavra de Cristo que a Era de Peixes deixou para trás os tempos da brutalidade ariana daquele Jeová impaciente que criou o mundo em seis dias e fustigou as criaturas que ousaram duvidar do seu poder. Agora, as coisas iam ser diferentes, anunciaram os cronistas mais crédulos: o amor incondicional do divino pela criatura humana estava garantido pela experiência da encarnação, e o sofrimento dilacerante nesse mundo teria como contrapeso a promessa de um retorno ao lar. Nesse aspecto, a Era de Peixes pode ser compreendida também como a Era das Grandes Ilusões, embora fique sempre a suspeita de que os verdadeiros iludidos somos nós, que dizemos encarar a realidade, enquanto Peixes parece de fato conhecer algo que está por trás ou além do real: é a própria realidade cruel do mundo que para Peixes não passa de um sonho.

De um jeito ou de outro, seria possível detectar indícios significativos do começo de uma era pisciana cerca de dois mil anos atrás. Isso retrospectivamente, é claro. Pois o que fiquei me perguntando esses dias foi até que ponto estes marcos temporais puderem ser percebidos na época como sinais da aurora novos tempos. É verdade que, no caso de Jesus Cristo, pelo menos doze indivíduos acreditaram de largada nos despropósitos que de repente ele disparou a dizer; e o que realmente impressiona nesse caso é a fama que eles adquiriram depois como pessoas muito lúcidas e respeitáveis, se você parar para pensar na desconfiada recepção que esses marginais receberam na época. Certo também que Buda arregimentou um séquito razoável ainda em vida, que Lao-Tsé não foi um completo desconhecido, e que Confúncio chegou a ter um cargo de ministro em um grande reino da região da China. Mas nenhum deles deixou de parecer um doido sectário aos olhos de vários de seus contemporâneos; por outro lado, a Damares Silva também tem um cargo de ministra na república que hoje se supõe ser o Brasil, e nem por isso tem gente dizendo que a Era de Aquário vai começar numa goiabeira.

Justiça seja feita, porém. Dois mil anos atrás, segundo a lenda pelo menos, foram três astrólogos persas que cruzaram meio mundo carregando uns presentinhos mirrados (mas cheios de carga simbólica) para o menino pobre que nasceu num presépio da Judeia, e que viria a ganhar celebridade mundial como o ser mais pisciano que já esteve entre nós. Eles podem muito bem ter sido guiados por um fenômeno semelhante ao que se verificou recentemente no céu, se estiver certa a associação da Estrela de Belém com a Grande Conjunção periódica de Júpiter e Saturno, que se repetiu em dezembro de 2020. Fica assim reforçada a hipótese de que a era aquariana está começando agora, ou está dando as caras definitivamente, assim como a de Peixes teria ganhado novo fôlego quando surgiu aquele peculiar objeto brilhando no céu da Antiguidade.

Vai saber. Todas as possibilidades estão em aberto. Esse é meu ponto. Mas, se a era de Aquário está mesmo começando agora, é possível que seus representantes estejam mais inclinados a dar um fim nessa história de ficar esperando o Reino dos Céus; talvez considerem o tal amor incondicional uma conversa mole para entorpecer as massas com esplêndidas e infundadas esperanças. Como Prometeu, esses novos arautos serão filhos rebeldes dos deuses, com um intelecto fortalecido e voltado para a emancipação humana, não criaturas dóceis de afetos delicados que vão se deixar abater por dúvidas e inseguranças sentimentais. Serão contra qualquer tipo de autoridade, e talvez já tenham feito dispersar mesmo os apóstolos que começaram a acreditar em tudo o que dizem como se fosse a revelação da palavra divina. Talvez nem sejam pessoas humanas, mas uma outra forma de inteligência, vinda de outra galáxia, fazendo-se passar por um de nós, pelo menos até a gente começar a acostumar com as ideias incomuns e dádivas extraordinárias que trouxeram para nós.

Em se tratando de Aquário, afinal, as maiores chances são de que algo muito diferente do que imaginamos venha um dia a ser identificado como esse evento transformador. Talvez não tenhamos condições agora de entender exatamente o quê, por mais que o fato esteja se passando ao nosso lado. Somos um pouco como o camponês em “Paisagem com Queda de Ícaro”, a pintura de Pieter Brueghel descrita em um poema de W. H. Auden. Reparem que, por mais que um episódio de ressonância mítica seja o tema da tela, ele segue seu trabalho de maneira impassível, assim como o “delicado barco de luxo que devia ter visto / algo surpreendente, um rapaz caindo do céu / precisava ir a alguma parte e continuou calmamente a velejar” (na tradução de José Paulo Paes).

Pois bem. Ícaros talvez estejam caindo do céu e mártires talvez estejam nascendo ao nosso redor nesse exato momento. Mas é bem possível que a gente na verdade precise ser um pouco mais como o camponês de Brueghel e o navio de Auden nesse momento. Forçar a vista em busca de evidência de que uma nova era ou mesmo um ano novo muito diferente anterior estão se aproximando pode nos deixar cegos para as necessidades mais imediatas do leme ou da lavoura. Não vamos mudar as estações de ano por decreto, elas tampouco se alternam de um dia para o outro, a não ser em nossos calendários e folhinhas que num só puxão fazem um dia substituir o outro. A essa altura, e gente aprendeu que não é assim que as coisas acontecem.

“Calma. Só aos poucos é que o escuro fica claro”, escreveu Guimarães Rosa. Também de Rosa: “Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo”. Vai ver que os milagres são tímidos, a ponto de se retraírem quando tentamos expô-los à força, ou quando ficamos tempo demais na moita encarando uma paisagem, à espera de surpreendê-los. Ainda assim, nada impede que sigamos observando o amanhecer pela janela, não com a expectativa de que ele vá acontecer de uma só vez e de repente, mas sabendo que ele não deixa de ser milagroso só porque acontece todos os dias, de um modo sempre meio casual e previsível. A próxima virada do ano tampouco trará esse momento de iluminação que tanto aguardamos, mas respire, mantenha a calma, continue tocando o barco, e perceba. Pode ser que já tenha uma luzinha aparecendo ali por trás da montanha. Daqui a pouco aparece outra. Um tom diferente de azul, pelo menos. Depois fica mais claro acolá. Sim, é assim que o dia amanhece.

astros, peixes

Aprendendo a nadar

David Hockney | A Bigger Splash (1967)

Marte ingressa em Peixes por agora, no começo dessa quarta-feira, onde vai seguir seu curso por seis semanas. É o último signo em que deve permanecer por um tempo regular antes dos muitos meses de suas idas e vindas em Áries, a partir do final de junho. Trata-se do planeta cujas mudanças no elíptico zodiacal são mais perceptíveis para nós à flor da pele, porém seu ingresso em um determinado signo geralmente é acompanhado de efeitos muito diferentes no ânimo de cada um de nós. Os piscianos, por exemplo, com Marte em Peixes podem ter um influxo de energia de tirar o sono. Já o pessoal de Áries tem maiores chances de sentir um sono de tirar as energias.

Isso, por um lado, reforça o fato de que, mesmo em épocas de condicionamentos tão restritivos como os atuais, até mesmo indivíduos que estejam vivendo as mesmas rotinas e repetições diárias sob o mesmo teto podem ter enormes diferenças de comportamento, que independem das circunstâncias externas mais aparentes, mas não deixam de estar vinculadas a influxos mais sutis do ambiente. Nós somos “de Marte” do mesmo jeito que somos “de Lua”.  Por outro lado, é das interações, conflitos e negociações entre esses vetores que se faz a vida em comum, de modo que o Marte em Peixes aqui em mim saúda o Marte em Peixes aí em você. Espero que de alguma forma eles se entendam.

Mas nada impede que a gente aproveite o momento para compartilhar um exercício de entendimento do que significa “Marte em Peixes” em um plano mais estritamente simbólico e arquetípico. A primeira expressão que me vem à cabeça é “Guerra Santa”. Por razões óbvias: Marte é planeta guerreiro, e Peixes é a região do zodíaco associada ao sacrifício. A combinação parece propícia ao martírio, bem como à luta obstinada em defesa de ilusões, justamente quando elas se mostram mais insustentáveis. Há algo em Peixes que torna Marte um agente das mais fantasiosas batalhas. No entanto, há algo também capaz de dar um fim a toda luta e sofrimento.

Nesse último sentido, Marte ingressando em Peixes é como uma flecha que cai na água. Ou como um caçador que não quer mais apenas lutar pela sobrevivência, e decide sair em busca do cálice sagrado. Se a gente parar para pensar, o que há de sagrado no cálice? O espaço em seu interior. Acontece que o espaço no interior do cálice é o mesmo espaço ao redor do caçador. Não é preciso sair para buscá-lo. É só respirar. Marte, portanto, em circunstâncias normais, trata de garantir sua sobrevivência. Mas o signo de Peixes é tudo menos “circunstâncias normais”; em Peixes, a existência se basta. Marte em Peixes se parece então com uma flecha que cai na água, aprende a ser peixe, e de repente começa a nadar.

capricórnio, gêmeos, peixes

O potencial, o real e o ideal

Lamentação de Cristo (c. 1305) | Giotto

Outro dia escrevi aqui sobre Gêmeos e Capricórnio, mas deixei passar um dos temas mais importantes dessa relação: a maneira como ambos personificam as figuras do puer e do senex, ou da Criança Divina e do Velho Sábio (prefiro os termos em latim porque não carregam uma conotação positiva ou negativa). Acho que o assunto tem a capacidade de mostrar como todos nós todos temos “Gêmeos” e “Capricórnio” operando em nossa dinâmica psíquica – em alguns casos mais acentuadamente, em outros menos –, o mesmo valendo para todos os outros arquétipos do zodíaco, de modo que a interação e as negociações entre eles é que configuram de fato um mapa astral.

Por outro lado, o puer e o senex são figuras arquetípicas da psicologia analítica junguiana cuja associação com apenas um signo ou par de signos seria equivocada: há traços da criança que encontramos em Leão, por exemplo, assim como há traços do velho que podemos encontrar em Aquário. Por aí vai. E, assim como ambos podem funcionar como polaridades nos conflitos de uma mesma pessoa, eles podem funcionar como polaridades nos conflitos internos de um só signo, pela maneira como um muitas vezes presume e implica o outro. Mais à frente veremos como isso funciona em Peixes, signo no qual a criança e o velho coexistem em uma unidade problemática e rica em imagens significativas.

Voltando a Gêmeos, porém. Aqui o puer aparece em sua versão 1.0: é Hermes, ou Mercúrio, filho de Zeus, irmão mais novo de Apolo, em quem ele pregou uma peça pouco depois de nascer. Isso nos faz lembrar que existe algo de malandro e travesso na “criança divina”, mas também que existe algo de divino na malandragem geminiana. E isso é algo que a gente pode facilmente deixar passar nas descrições mais caricatas ou maliciosas de Gêmeos, um signo que, por sua própria natureza, convida a esse tipo de descrição. Fica o registro, portanto: haverá sempre algo em Gêmeos que partilha do código genético dos deuses – e haverá sempre algo nos deuses que parece proteger a alma geminiana.

Em um plano arquetípico, aliás, entendo que Gêmeos pode fazer o que quiser a vida. Veio ao mundo para brincar nos campos do Senhor, em parte por contar com a condescendência dos velhos, em parte por saber entretê-los e encantá-los (o que o aproxima do pícaro, do bufão, do bobo, do comediante). Isso é até certo ponto válido para quem tem o ascendente em Gêmeos, e algo semelhante pode ser dito do ascendente em Leão (mais informações sobre essa interpretação do papel do ascendente no horóscopo, aqui). Agora, se você é geminiano, ou tem a Lua em Gêmeos, pode ir tirando seu cavalinho da chuva, porque isso já complica um pouco mais as coisas.

A puerilidade geminiana pode até ser divina, mas nem mesmo o deus Hermes esteve à salvo de tomar uns tombos na vida. Muitas vezes, para grande surpresa dele próprio. O puer tem o impulso de transitar por aí como se fosse destinado a ser bem recebido em todos os lugares – afinal, ele é tão inocente, tão despreocupado, tão engenhoso, tão engraçadinho – até se ver diante de uma porta que bate na sua cara como se dissesse: te saquei, malandro, aqui não. Deste modo, seja sob a forma de pessoas, acontecimentos ou obstáculos, o senex vai aparecer ao puer como uma força restritiva ou limitadora, da qual ele depende para conferir as virtudes da consistência e da profundidade aos resultados de seus diversos talentos.

Então, quando digo que o puer-senex é um par que existe como tal em nossa dinâmica psíquica, é porque um depende do outro para se desenvolver. Mas nada impede que um indivíduo se identifique com o puer e projete o senex em um mundo que lhe parece limitador e restritivo, ou em figuras de autoridade que considera moralistas e enrijecidas, na tentativa de preservar um estado de eterna inocência infantil, e de preservar-se das frustrações da vida. A gente vê o tempo inteiro pessoas alegando que, se não fossem as estruturas externas limitadoras, elas teriam realizado as obras geniais que existem em latência no seu espírito. O que muitas vezes está implicado aí é que essas pessoas optaram por não internalizar a estrutura restritiva – o senex, agente do esforço, da paciência e da forma, fundamental na realização de qualquer trabalho de fôlego – de modo a não ver seus ideais reduzidos ao que a realidade seria capaz de fazer deles.

Quem já se arriscou em um trabalho criativo sabe: todo tipo de realização artística implica uma dose de resignação. O senex em nós existe para que este processo seja levado até o fim. O puer existe em nós existe para que ele comece. Por outro lado, há quem se identifique unilateralmente com a figura do senex, e alega que, se não fossem os irresponsáveis, os inconsequentes, os preguiçosos – em uma palavra, os “artistas” –, nossa sociedade estaria em um estado menos deplorável. Em toda pessoa que afirma isso, existe um puer reprimido, que quer ganhar asas e voar, ou simplesmente permitir-se algumas tardes de ócio criativo. Mas, infelizmente, o ódio destrutivo se torna o substrato alquímico de quem nega a si mesmo esses prazeres.

Ou seja, um se compromete com uma linha de ação, e não vai alterá-la nem sob a mais forte inspiração divina. Outro não se compromete com nada nem ninguém, pois nada nem ninguém parece merecer o compromisso que ele guarda para quando a hora certa chegar. No campo dos relacionamentos, então, o puer estará sempre postergando a consagração de laços estáveis, quando não está simplesmente saltando de um relacionamento para o outro, e não só por imaturidade. Às vezes, ele carrega o sentimento de estar destinado a algo especial, e o rompimento precoce das relações é uma forma de evitar que se desdobrem da maneira ordinária e tão ameaçadora para o ideal.

Quanto ao padrão de comportamento do senex nessa área, vou precisar de fazer ainda um texto à parte com um estudo de caso, o do escritor russo e aquariano Anton Tchekhov, que só descobriu o puer que existia nele após seu retorno de Saturno, aos trinta anos. A história é intrincada e merece ser bem descrita. Farei isso em breve. Dá para antecipar que, enquanto a volatilidade é o traço mais marcante do puer enquanto amante, o senex ocupa com sua rigidez um polo oposto, fixo e encastelado. “Encastelada”, porém, é, curiosamente, a situação arquetípica em que encontramos a puella, a versão feminina do puer.

Ela é a princesa que, nos contos de fadas, encontra-se à espera de um milagre. Mas o comportamento ativo e volátil do puer mercurial e a atitude aparentemente passiva e fixa da puella sonhadora são iguais em sua rejeição do compromisso e do engajamento em uma história verdadeira. A propósito: que a puella se queixe da falta de seriedade ou bravura de seus pretendentes pode muito bem ser o motivo pelo qual ela escolhe pretendentes pouco sérios, ou pouco corajosos, para ter de quem se queixar. Até certo ponto, o puer e a puella vivem muito bem e despreocupadamente no plano das potencialidades abertas e imaginadas. Na medida em que o tempo passa, porém, eles podem precisar mais e mais de ter a quem culpar pelo fato de nada ter sido realizado.

Aliás, uma boa maneira de identificarmos uma possível adesão unilateral nossa a um desses arquétipos é um excesso de reclamações gratuitas a respeito do outro. Quando a gente começa a distribuir sem critério lamentos e acusações sobre a natureza pueril ou inconsequente de pessoas com quem nos relacionamos, no presente ou no passado (pessoas que talvez até possuam essas características, mas não a ponto de merecer tanto de nossas atenções e memória), é provável que exista algo em nós precisando de descanso, liberdade e ânimo criativo. Por outro lado, quando a gente começa a denunciar o moralismo ou o materialismo do resto mundo ao redor, sem que ninguém tenha pedido nossa opinião, é possível que nossa opinião esteja enviesada pelo desejo inconsciente de receber um pouco de admiração e de respeito bem mundanos (ou seja, a admiração e o respeito que as realizações mundanas outorgam ao senex).

Podemos ter uma afinidade maior com um desses arquétipos sem converter isso em uma neurose mais grave, é claro. Assim como podemos alternar entre um e outro no tempo e no espaço. Um equilíbrio absoluto entre esse tipo de polaridades é por definição impossível – tudo o que podemos tentar obter é uma espécie de equilíbrio dinâmico. Nem por isso análises pouco equilibradas do fenômeno são menos enriquecedoras, e as mais famosas se notabilizaram exatamente por tomarem partido de um ou de outro.

Recomendo, em primeiro lugar, um estudo que é notavelmente anti-puer, não necessariamente tomando o partido do senex, mas vendo-o da perspectiva do arquétipo materno feminino (que seria em parte responsável pelo menino mimado que ele se tornou, mas também capaz de lhe impor limites de uma origem mais atávica e profunda). Falo do livro de Marie-Louise Von Fraz, Puer Aeternus: a luta do adulto contra o paraíso da infância, que começa por uma análise da dimensão pueril de O Pequeno Príncipe e da personalidade de seu autor, Antoine de Saint-Exupéry. A autora, cabe lembrar, foi colaboradora de Carl Jung, e se tornou conhecida por suas análises da psicologia dos contos de fadas.

Outro livro importante, este mais abertamente favorável aos talentos e inspirações do puer (justamente no confronto com as limitações e rabugices do senex) é The Puer Papers, de James Hillman. E, para quem quiser ter uma visão mais ironicamente balanceada, indico o último ensaio de Liz Greene do primeiro volume dos Seminars on Psychological Astrology, que que já mencionei nas indicações bibliográficas dessa postagem aqui. Este tem a vantagem de ver o assunto na perspectiva da astrologia e do zodíaco. Mas a primeira parte do ensaio não presume nenhum conhecimento prévio nessa área, e pode ser útil mesmo para quem quiser ver as coisas de um ponto de vista estritamente psicológico.

Agora, para terminar, temos o puer e o senex em Peixes, como mencionei lá no começo. E aqui as coisas ficam bem interessantes. Porque, por mais que a gente queira matizar os raciocínios e os estereótipos, dá para ver como Gêmeos e Capricórnio costumam representar bem os comportamentos polarizados do puer e do senex, respectivamente. Quando falamos de Peixes, no entanto, a infantilidade e a senioridade coexistem no arquétipo de modo mais intrincado e sutil; em Peixes habitam uma criança e um ancião que são uma mesma pessoa, e isso gera alguma confusão, como era de se esperar, mas pode também criar uma nova espécie de beleza, através justamente do resultado do confronto entre o potencial e o real. Dá para a gente ver isso no comportamento de alguns piscianos. Mas, antes, para termos um caminho para a aproximação a esse fenômeno, dá também para gente ver como isso aparece na história de Jesus Cristo.

Pois Cristo, além de ser um inaugurador apropriado da Era de Peixes que se encerra agora, integrou também a linhagem da criança divina. Aliás, Liz Greene observa como o puer arquetípico muitas vezes aparece com as mãos ou os membros machucados ou mutilados, o que parece ser uma consequência de seu contato com o mundo, com a matéria, com a realidade. Um primeiro exemplo é Ícaro, herói tipicamente juvenil, que recebeu suas asas de Dédalo, sob advertências para que não se deixasse levar pelo entusiasmo, sendo que nem isso impediu que ele as queimasse ao ir de encontro ao sol. Jesus, por sua vez, partilha desse destino de um modo ao mesmo tempo mais trágico e menos catastrófico: sua derrocada no plano terreno é um fracasso que não deixa nunca de prometer futuros sucessos.

Notem: a humanidade a princípio não recebe muito bem sua palavra, com seus ideais elevados e pouco práticos, meio piscianos mesmo, e pelo menos parte dela, a que se encontra em posições de autoridade estabelecidas e imperiais, se mostra bem convicta de que cravá-lo em uma cruz e expor sua corporeidade humana sangrando é a melhor coisa a fazer. Dostoievski explorou esse argumento em “O Grande Inquisidor”, um conto enxertado no romance Os Irmãos Karamazov, que pode ser lido separadamente; nele, Cristo retorna e é mais uma vez crucificado por ordem de um senex da igreja inquisitorial que está plenamente consciente de sua filiação.

Mas, por mais doloroso que seja seu fim, ele depende dessa morte para permanecer como uma espécie de ideia, fomentando o sonho de que um dia o reino que prometeu chegará, será realizado, está por vir. Existe então certa cumplicidade entre a dimensão espiritual, a que se eleva para além do raso das ambições terrenas, e a material, que a traz para o chão de modo que possa alçar outro tipo de voo. O mito não diz respeito apenas ao personagem, mas está inevitavelmente ligado à sua história, a tal ponto que suas escolhas e o que lhe é imposto desde fora se entrelaçam e se confundem. Em um certo sentido, Cristo se oferece em sacrifício no plano material para manter vivo o sonho do que prometeu.

Nesse sentido, para quem já chegou aos 40, como eu, é interessante perceber que Jesus Cristo nunca chegou a ser exatamente um adulto. Ele mal superou seu retorno de Saturno e já foi correndo caçar encrenca que interromperia sua vida pouco depois. Carregou sua cruz, é verdade, mas só por um caminho bem curtinho; esse caminho pode muito bem ser sum símbolo do que todos nós temos que suportar em nossas trajetórias individuais, mas não deixa de ter sido para ele relativamente breve, levando-o a uma morte precoce. Ou seja, o Jesus histórico nunca deixou de ser um puer. Mas o Jesus simbólico é também a cruz, a matéria, e realidade que o nega e o rechaça, e, portanto, é a promessa que ainda assim sobrevive à crucificação, é o reino impalpável e imune a qualquer teste do real que nasce junto com ela.

Por isso, o tipo de sonho e de idealismo que encontramos em Peixes pode ser tão resistente à realidade dos fatos. Porque não aponta para algo que se imagine realizável nesse mundo, não se trata de um potencial a ser testado aqui. Muito pelo contrário: esse mundo pode refutar a aspiração pisciana de todos os modos possíveis, pode até mesmo pregá-la numa cruz e fazê-la sofrer humilhações e derrotas, que ainda assim ela sobreviverá, será inclusive alimentada pela frustração e pela violência. É claro que isso pode ter consequências complicadas no plano individual, e com frequência tem. Mas nem por isso deixo de ver no plano arquetípico uma bem-vinda síntese, ainda que aberta para o futuro e para o porvir, na história dos confrontos e dos encontros entre puer e senex.

peixes

Cem anos de piscianos (e os peixinhos do Aureliano)

[Ilustração: Luisa Rivera]

Algumas semanas atrás fiz aqui uma enquete literária. Escolhi dois autores de cada signo e pedi para votarem na dupla que merecia um texto. Ganhou Peixes, com Gabriel García Márquez e Philip Roth. Foi aí que decidi reler Cem Anos de Solidão (é verdade que a releitura teve também outro motivo, mais inusual ainda; é que, no ano passado, como alguns de vocês sabem, minha mulher e eu tivemos um filho chamado Gabriel; o autor colombiano – e não o artilheiro do Flamengo, como em outros casos da mesma geração – foi um dos argumentos que tive para emplacar esse nome; ela a princípio queria Francisco, mas tive que alertá-la que um filho chamado Francisco Franco não ficaria bem, por causa do ditador espanhol; e eu queria que ele tivesse o mesmo sobrenome do irmão mais velho – do meu primeiro casamento –, não fosse isso ficaria feliz em usar o sobrenome da minha família materna, Naves, como ela fez com o dela; daí ele acabou se chamando Gabriel Siman Franco, mas nascendo geminiano e no dia do aniversário do Francisco Buarque de Hollanda, o Chico, o que funcionou como uma espécie de compensação).

Pois bem. Cá estava eu aqui relendo o livro do Gabriel pisciano quando começaram a chegar as notícias mais impactantes a respeito do Coronavírus, e pouco depois iniciou-se o período de reclusão daqueles que podem permanecer em casa. Antes de continuar devo dizer que estou no mínimo tão preocupado com a situação quanto a maioria de meus conhecidos. Até mesmo em pânico dependendo da hora do dia e das notícias que chegam, e exausto com as exigências das circunstâncias extraordinárias. Por isso mesmo esse blog, que completou um ano de vida essa semana, tornou-se mais do que nunca um passatempo valioso e uma distração conveniente. Enquanto escrevo essas linhas o número de casos deve ter aumentado em números amedrontadores, mas não vai dar para passar as próximas semanas acompanhando em tempo real o número de casos.

De modo que, para além das funções compartilhadas de cuidar da casa e cuidar do bebê, das horas dedicadas ao trabalho remoto e a manter contato com amigos e familiares, vou tentar continuar postando enquanto/se tiver condições. E devo continuar relendo Cem Anos de Solidão. Quem conhece o livro pode imaginar os sentimentos ambíguos que venho tendo com a narrativa nos últimos dias, nos poucos momentos em que foi possível continuar a leitura: por um lado, o mais puro prazer da experiência de um estilo que nos permite mergulhar em um mundo à parte em sua luxúria poética e imaginativa; por outro, a eventual sensação de que há algo de distópico no realismo fantástico de García Márquez, assim como há algo de realismo fantástico na distopia que estamos vivendo.  

O que tem me chamado a atenção é sobretudo como os eventos que afetam os personagens do romance têm um caráter coletivo e inescapável para as gerações que os enfrentam. As pestes, as inovações científicas, as transformações políticas, os eventos econômicos: tudo isso é relatado de tal forma que nos deslumbramos com a invenção do gelo, por exemplo, tal como foi experimentada por um Buendía, mas os Buendía não deixam nunca de ser uma metonímia de todo o universo do romance, que é não apenas Macondo, mas também a nação onde acontecem as insurreições armadas lideradas pelo primeiro Aureliano, a região caribenha para onde fogem os insurretos perseguidos pelo governos conservador, o grande mundo de onde veem os árabes da Rua dos Turcos e do qual afinal chegam os funcionários gringos da companhia bananeira.

Há algo de ambivalente na maneira como esses episódios têm algo de histórico e de mítico. O crítico Roberto González Echevarría matou a charada em um dos mais respeitados livros sobre a literatura latino-americana: Cem Anos de Solidão é mito e arquivo, é invenção e memória, é um delírio exuberante de um cigano louco e também a realidade dura de um exército sanguinário que atira sobre a multidão grevista na praça central da cidade. É pleno de vida embora seja o tempo inteiro atravessado por incontáveis mortes; trata de dores infinitas e sofrimentos dilacerantes, mas com uma beleza que encanta e inebria; é um romance populoso sobre uma casa onde as pessoas vivem amontoadas e aos berros – e nem pode isso deixa de ser um romance de ásperos silêncios, nem por isso deixa de ser um romance sobre a solidão.

Há lutos que se emendam com outros lutos. Há uma chuva que dura quatro anos, onze meses e dois dias, e que deixa a cidade em ruínas, “desmantelada”, com “esqueletos de animais cobertos de lírios colorados”. Há a epidemia da insônia, há toques de recolher, há fuzilamentos na calada da noite. A viúva Rebeca Buendía passa décadas sozinha esquecida dentro da casa onde vão morrer os pássaros. Reclusão, confinamento e quarentena são palavras que aparecem no romance o tempo inteiro. Por isso, e um tanto curiosamente, minha experiência de reler o livro agora acabou sendo não exatamente de fuga da realidade imediata em direção a um mundo fantástico, e sim de encontro com uma realidade que estava desde sempre na Macondo de García Márquez, e que agora me parece muito mais palpável e factível.

No entanto, embora não seja uma experiência escapista, não deixa de ser uma experiência de (re)leitura com características piscianas. Mesmo considerando tudo isso, continuo me deixando levar pelas imagens oníricas que perpassam a narrativa, como que submergindo em um oceano de adjetivos tão exatos quanto abundantes, na deliciosa tradução de Eric Nepomuceno. Tem também a questão dos nomes: chega uma hora em que a gente não sabe mais exatamente de qual Aureliano ou de qual José Arcádio o narrador está falando, mas aí isso já nem importa muito, pois o estilo de García Márquez nos convida à vertigem dos nomes como se nos envolvesse em um sonho onde os detalhes sobre quem é quem já não fazem tanta diferença. E essa lânguida entrega à leitura, àquilo de Coleridge chamou de “suspensão da descrença”, acontece em Cem Anos de Solidão tal como acontece no âmbito do arquétipo de Peixes, pois é nele que habitamos universos paralelos onde os limites entre a realidade e ficção ficam totalmente borrados.

Acho que é aí que Gabriel García Márquez e Philip Roth se encontram. Roth é também um autor envolvente, que se espalha em extensas frases perfeitamente arrematadas com um engate exato na frase seguinte. Lembro do prazer que senti ao ler Pastoral Americana ou A Marca Humana, por exemplo. Muitas vezes os fatos narrados eram terríveis, ou ultrajantes, ou repulsivos, porém isso era feito de tal maneira quo o terrível e o ultrajante e o repulsivo podiam prosseguir indefinidamente, no que dependesse da vontade do leitor, tal seu poder de entretenimento. Difícil encontrar dois autores tão grandiosos nesse sentido. Aliás, uma coisa que me chamou a atenção qu ando escolhi esses dois para Peixes na enquete é que somente esse signo estava representado por escritores tão enormemente reconhecidos por público e crítica, em função das imensas obras que construíram.

Em tempos como estes, portanto, mergulhar de cabeça em um romance de Roth ou de García Márquez é recomendável. Eu pelo menos recomendo. Mas saiba que ao explorar esses oceanos você pode dar de cara com passagens que vão te trazer de volta para tempos como esses. Peixes é também sobre essas passagens, esses limiares, além de ser especificamente o arquétipo que trata da questão da reclusão e do confinamento (os personagens arquetípicos de Peixes – o monge, o doente, o louco, o viciado – com frequência vivem em estado de afastamento voluntário ou forçado de todo contato social). Além disso, Peixes, como já devo ter dito aqui algumas vezes, é sobre estar sujeito a forças que não podemos controlar.

Agora, se eu fosse me ater a um detalhe de Cem Anos de Solidão, sem dúvida seriam os peixinhos de ouro do coronel Aureliano Buendía. Refrescando a memória: antes e depois de ter promovido “trinta e duas rebeliões armadas, escapado de catorze atentados, setenta e três emboscadas e um pelotão de fuzilamento”, o coronel permaneceu longos anos trancado na oficina que foi de seu pai e depois do cigano Melquíades, produzindo peixinhos de ouro que trocava por moedas de ouro, para então fundir as moedas e vender os peixinhos forjados a partir delas. O aspecto cíclico da atividade é ressaltado a princípio como um indício dos vãos esforços que marcam a trajetória dos Buendía, enquanto Úrsula, a matriarca da família, volta e meia se vê diante do comportamento de algum Aureliano ou algum José Arcádio que parece reproduzir padrões de conduta dos antepassados. “É como se o mundo estivesse dando voltas”, ela repete mais de uma vez no livro.  

No entanto, essas recorrências guardam um segredo e um mistério. Peixes é também sobre como não somos tão diferentes de nossos antepassados como acreditamos ser. Somos novas manifestações do mesmo material a partir do qual se proliferam infinitamente as vidas humanas, como as ondas que quebram ininterruptas e abundantes na praia são sempre novas manifestações do mar, que não se desprendem nunca da matriz a ponto de estarem completamente separadas dela. Os peixinhos de Aureliano são um símbolo disso. E não são peixinhos por acaso.

Para terminar, lembro que em Aion: estudos sobre o simbolismo do si-mesmo, C. G. Jung investigou as múltiplas reiterações e ressonâncias de imagens piscianas no inconsciente coletivo durante os últimos dois mil anos, isto é, durante a Era de Peixes. Se fôssemos complementar esse estudo hoje, ele não estaria completo sem os peixinhos de ouro que encontramos na obra de García Márquez. Afinal, o símbolo trata da maneira como as vidas individuais se veem mergulhadas nos mares da história e da memória, sujeitas às marés dos tempos e às intempéries das correntes subaquáticas.

De todo modo, espero que a gente passe por essa de agora sem ter que enfrentar as infindáveis dores e os permanentes lutos de que se ocupam os personagens do autor colombiano. Que tenhamos constância dos Aurelianos, a força das Úrsulas, a pertinácia dos Josés Arcádios, a tenacidade das Amarantas. Que sejam alguns meses apenas, que tenhamos uma segunda chance sobre a Terra. E que esse período, se possível, não seja atravessado por ninguém na mais completa solidão.

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O lugar bom

Essa postagem é para quem assistiu ou está assistindo The Good Place, a série da NBC que estreou em 2016 e terminou em 2020 (tem na Netflix). Vi o último episódio esses dias, e série tem esse negócio de a gente ficar com saudade dos personagens. Então – prometo não estragar o final para ninguém, pelo menos não para quem já passou da primeira temporada – me deu vontade de explorar um pouco mais a brincadeira dos signos com eles. A propósito, já mencionei o Michael (Ted Danson) em um texto sobre Capricórnio, e indiquei a Eleonor (Kristen Bell) para o Oscar do zodíaco que propus uma vez aqui, na categoria Personagem de Áries. A essa altura, estou convencido de que ela merece o prêmio.

Isso porque ela é uma ariana que vai ficando mais suave no decorrer da série, menos tensionada no confronto com o mundo, e, por mais que esse seja um caminho esperado em uma narrativa cômica convencional, ela nos convence de que isso é possível. Não é só porque aprende a falar palavrões com certa civilidade (tipo “holy fork!”, eventualmente traduzido por “fruta que caiu!”); ela faz com que seja verossímil uma heroína de Áries do bem, na medida do possível, é claro. De todas as transformações que vemos no decorrer das temporadas, para mim a dela é a mais notável. Não quer dizer que fique menos ariana, pois conheço muita gente desse signo que já parte desse lugar em que o restante da humanidade não é visto apenas como uma ameaça, e sabe que dá até para conviver com gente, às vezes até gosta. Em se tratando de Áries, já é bastante coisa.

Chidi (William Harper), por sua vez, é o clássico libriano que precisa aprender a tomar decisões. Não por acaso é o par oposto-complementar de Eleonor. Mas acho interessante que seja um filósofo. É comum as pessoas acharem Libra um signo romântico, mas a gente sabe como eles conseguem ser incrivelmente frios e cerebrais. Falta-lhes o fogo das paixões leoninas, o poço dos sentimentos escorpiônicos, a sensibilidade ao ambiente de Touro ou Virgem. É lógico que nessa perspectiva falta um traço de Libra também todos os outros arquétipos, e falta mesmo. Sobretudo quando a gente conhece um libriano que, não obstante sua librianice, e inclusive por causa dela, sabe decidir que sobremesa escolher depois de colocar todas as opções na balança.

Jason Mendoza (Manny Jacinto) é um caso singular. Peixes, sem dúvida. O interessante é que ele é pisciano tanto em sua versão de mentirinha quanto depois que ficamos sabendo quem ele realmente é após os episódios iniciais da série. Nesse caso acho que não conta como spoiler porque a coisa se revela logo ali no segundo ou terceiro capítulo: ele passa de um monge tibetano de olhos puxados que vive à base de meditação e água fresca para um morador da Flórida de origem filipina de olhos puxados que vive à base de todo tipo de porcaria e pequenos roubos de gasolina. Embora o monge seja um personagem típico do arquétipo de Peixes, a versão verdadeira de Jason é até mais pisciana que a outra.

O legal é que ele não deixa nunca de ser um personagem ingênuo e encantador. Avoado, iludido, totalmente incapaz para os assuntos práticos da vida, mas nunca menos “espiritualizado” que sua versão monástica, mesmo quando se lembra do dia que passou atirando em ratos no lixão de Jacksonville com um primo de Blake Bortles. Porque ele espera ser aceito pelo mundo da mesma maneira como o aceita, e representa o papel do bobo em tudo o que tem de plena receptividade e espelhamento do mundo ao redor. Além de ser engraçado, é claro. Tem uma cena, por exemplo, em que está todo mundo dando opinião ao mesmo tempo sobre algum problema, aí ele entra e dispara a falar um monte de coisas nada a ver. Quando perguntam o que deu nele, responde: “Sei lá, estava todo mundo falando junto achei que era para eu falar também”. Tipicamente pisciano.

Quanto à Tahani (Jameela Jamil), aí já fico na dúvida. Ela tem a rivalidade geminiana pela atenção dos pais com a irmã, mas não tem agilidade de raciocínio de Gêmeos; participa do encanto leonino com o universo das celebridades, mas falta-lhe magnetismo e confiança para ser ela própria uma Leoa. No final das contas, fico achando que é de um signo de Terra. Mas nesse caso estou disposto a aceitar ajuda, então se alguém aí tiver um opinião a respeito pode falar. Vejam só que coisa bizarra estou me tornando: uma capricorniano que admite que não sabe uma coisa e até pede conselho pros outros. Tipo o Michael.

Voltando então rapidamente ao Michael: o engraçado é que, além de ser uma figura evidentemente capricorniana em sua função de gerenciar a coisa toda e saber tudo a respeito de tudo, ele a princípio tem ainda aquele traço de Capricórnio que não aceita a necessidade de ajuda. Precisa estar sempre no controle, sem precisar nem do palpite de mais ninguém. É lógico que isso já vai mudando a partir da segunda temporada, vai ficando mais claro como na verdade tudo o que ele precisa (e no fundo quer) é assumir a forma falível e imperfeita dos humanos. É muito exaustivo isso de se responsabilizar pelo universo o tempo inteiro. Algo semelhante poderia ser dito de muitos capricornianos. 

E tem a Janet (D’Arcy Carden), é claro. A Janet é um caso à parte. Aí eu perguntei pro pessoal da internet qual é o signo da Janet, e a resposta que mais me apareceu foi Virgem. Eu respeito essa posição e até entendo. Ela tem um gestual contido e um jeito de se vestir que são bem virginianos. Ela presta um serviço inestimável, aparece sempre que alguém precisa de alguma coisa, é uma funcionária exemplar do cosmos e e nem humana ela é. Pra muita gente, isso é mais que suficiente para cravar: virginiana.

Mas eu sou Capricórnio com ascendente em Escorpião, então quando peço conselho ou palpite pros outros vocês podem suspeitar que é só jogo de cena. Já formei minha opinião há tempos e nada me fará arredar dela. Acho que os gestos controlados e aparentemente metódicos da Janet têm mais a ver com fato de que ela não tem muita familiaridade com a forma humana que assumiu. Aí vocês precisam que considerar que, quando a gente fala que Virgem não é muito humano, isso é mais num nível metafórico; é lógico que não é literal. Tem só um signo que corresponde a essa característica sem precisar de licença poética. Tem só um signo de gente que veio de outras galáxias e está ainda se acostumando a viver entre nós.

Pois então: Aquário. Em primeiro lugar, exatamente por isso, porque nem humana ela é. Digo isso na certeza de que os aquarianos queridos do meu coração vão entender como um elogio: tipo, você nem é humano, você é uma Janet. E, como se não bastasse, ela é capaz de prover os humanos com aquilo que normalmente é reservado aos deuses, como fez Prometeu, protagonista do mito mais significativamente aquariano. O fato de que vai acabar se apaixonando por uma pessoa de carne e osso, e conhecer um pouco mais os desejos do corpo que a princípio lhe é estranho – isso também acontece com frequência no âmbito do arquétipo de Aquário. E a maneira como a mente dela se conecta como uma espécie de supercomputador a tudo o que acontece no universo só me faz ter mais certeza do meu ponto.

Para terminar, ufa, tem a série como um todo. Estreou em 19 de setembro de 2016. Essa sim é, portanto, virginiana. Para mim faz sentido: a narrativa costuma ser até bem metódica em sua sobreposição de universos como se fossem bonecas russas, mesmo quando flerta com o caos. Agora, eu apostaria que existe alguma coisa ali que articula muito bem Sagitário e Touro. Talvez a Lua no primeiro, o ascendente no outro. Pois o pano de fundo é sagitariano, de modo que toda a brincadeira é organizada em torno de uma indagação sobre o sentido da vida e a finalidade da existência. Ela pode não alcançar muita profundidade nesse sentido; mas isso, pelo menos para mim, não é necessariamente uma falha ou deficiência. É aí que entra a perspectiva taurina.

Pois, no final das contas, após as milhões de referências a Kant e Heidegger e Pascal, a série acaba recorrendo ao pensamento oriental para dar uma última resposta provisória ao enigma do existir. Sobre esse aspecto dos últimos episódios, sem entregar o enredo, vou me permitir uma pincelada, até porque o recurso é mais que previsível, e não apenas pelo andamento da série, mas pela própria linguagem seriada de que ela é um bom exemplo. A ideia de que o “fim” pode ser infinitamente postergado para uma outra temporada – e de que podem existir mundos infinitos dentro de infinitos mundos – faz, curiosamente, com que o momento presente seja mais valorizado. Se a própria morte não é conclusão de um processo, mas faz parte de um conjunto incessante de ciclos, não tem porque você se afligir com uma finitude ilusória, e você pode muito bem encontrar o infinito que existe contido no agora.

Buda, como já disse aqui vez ou outra, para todos os efeitos era taurino. Seu aniversário é comemorado no dia 07 de maio. Isso para mim está relacionado não apenas à paciência e à perseverança, mas também à capacidade que Touro tem de aproveitar as coisas boas da vida. Digo, aquelas coisas materiais e momentâneas mesmo, como uma boa refeição, um bom vinho, uma boa companhia ou a simples possibilidade de respirar fundo um ar puro e tranquilo. É por isso que para mim a série termina onde começa a grande lição de Touro para nós. Que é um pouco a lição de Buda também. Não saia daí. Respire. Aproveite a vida. Aproveite o momento. O lugar bom é onde você está.

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Um trem aqui no meu coração

Tsunami | Katsushika Hokusai

Uma coisa que não comentei quando fiz a enquete do grande vilão do zodíaco foi o resultado por equipes. O lapso é imperdoável, mas está em tempo de corrigir. Vamos lá então: somados, os signos de Água ficaram com 52 votos, os de Ar, 44, Fogo, 23, e Terra, 15. É um resultado até surpreendente se você pensar que o temido Capricórnio está entre esses últimos, que o próprio Satanás não contribuiu para uma melhor posição do time liderado por Áries, que nem Libra conseguiu aliviar a barra de Gêmeos e Aquário, e sobretudo que entre os grandes e incontestáveis líderes estão os chuchuzinhos cancerianos e os piscianos distraídos.

Mas o resultado faz sentido se a gente considerar que a gente tem sempre medo do que não conhece. E os signos de água são exatamente aqueles que preservam sempre algo de oculto – inclusive de si mesmos – de tal forma que o mistério é inerente a esses arquétipos. Peixes é um caso extremo de vai-saber-o-que-tem-ali-dentro; mas Escorpião é também um arquétipo onde se aloja uma série de ameaças subterrâneas, e mesmo Câncer é capaz de transformar um ambiente “familiar” – como o da própria família – em algo perpassado por estranhos segredos. Além disso, quando dizemos que uma pessoa é “de lua” – a regente canceriana –, de certo modo estamos afirmando que essa pessoa é volúvel e pouco confiável.

É claro que esse resultado diz muito pouco sobre os signos de água propriamente, mas talvez diga algo sobre nós mesmos. Ele diz que o que a gente mais teme no mundo são as nossas emoções, sobretudo quando entendemos que elas estiveram ocultas ou reprimidas até o momento em que resolveram aparecer com toda força. A linguagem que usamos nesses casos com frequência é indicação disso: nós nos sentimos “tomados” por nossas emoções, como se fossem bandidos armados que nos fizeram reféns; “inundados” por sentimentos, como se não tivéssemos conseguido represá-los; e “traídos” por nossos próprios afetos, como não diríamos que somos pelos nossos pensamentos, por exemplo.

É interessante então lembrar que, para a humanidade primitiva, pensamentos não eram algo que um indivíduo “tinha” – eram simplesmente algo que ocorria a ele, um pouco como entendemos as emoções hoje. Pelo menos é assim que Jung descreve o fenômeno do pensar nos primórdios da humanidade, parecido com a perspectiva adotada por uma pessoa em estado de meditação, que vê os pensamentos lhe ocorreram e se dissiparem, como se tivessem vindo do nada e voltassem para lugar nenhum. Mas talvez para os primitivos isso de pensar tenha sido uma experiência realmente atemorizante, tipo, “gente-que-que-isso-apareceu-um-trem-aqui-na-minha-cabeça”. Ih, pensei.

Hoje, porém, estamos mais na linha do “gente-que-que-isso-apareceu-um-trem-aqui-no-meu-coração”. Ih, senti. Nesse caso não estamos falando do coração leonino, centro pulsante de onde jorra o entusiasmo vital, mas de um órgão mais abstrato, que confundimos de maneira geral com aquilo que chamamos de alma. É verdade que no caso de Escorpião acontece também de a gente de repente sentir um trem em outras partes do corpo. Mas isso é só uma das tantas maneiras como podemos perder o controle da situação, de tal modo que os signos de Água estão todos associados a alguma forma de desatino.  

Seja como for, seja como acontecer, o que a gente percebe é que esse descontrole tem sempre um papel nos desdobramentos não só da nossa vida psíquica, mas também dos fatos da existência. Trânsitos de Plutão e Netuno, por exemplo – os regentes de Escorpião e Peixes – são famosos pelas intensas transformações e desenganos que trazem, mas são também geralmente seguidos por atitudes até outro dia impensáveis, e que só se tornaram pensáveis nas novas condições.  Algo semelhante pode acontecer com uma Lua Cheia carregada de desafios e possibilidades, por conta de seus aspectos com outros planetas ou com o mapa natal de um indivíduo.

Ou seja: muita coisa que consideramos ser nossas ‘decisões’ só nos ocorrem em meio às crises causadas por esses dúbios sentimentos ocultos que súbito assomam e tomam conta do cenário. Dizer que essas decisões foram tomadas a partir de uma central de controle operações e gerenciamento de crises que existe dentro da gente, enquanto as crises e o descontrole são fenômenos que atribuímos a algo que não somos nós, é o que me parece problemático nesse caso. Tudo acontece fora e dentro ao mesmo tempo; é tudo uma coisa só.

Há, por exemplo, quadros depressivos em que o que a gente sente na alma é só um vazio mesmo. Mas mesmo esse vazio é um lugar escuro e oculto onde uma nova luz pode vir a brilhar.  O normal aí é entendermos que ‘reagimos’ a uma depressão, como se ela nos tivesse tomado de assalto, e nós no final das contas tenhamos conseguido reassumir o ânimo necessário para enfrentá-la. Acontece que esse ânimo – que pode muito bem ser um fogo sagitariano, a propósito – está totalmente vinculado ao escuro e ao vazio de onde surgiu.  

Além disso, essas ‘decisões’ que tomamos para sair de uma situação emocionalmente complicada, ou a vitalidade que pode ressurgir após um longo processo de luto, talvez sejam igualmente algo que nos ocorre, algo que nos ‘toma’, algo que nos ‘assalta’. Os antigos sabiam disso: nós somos possuídos pelo entusiasmo da mesma forma como somos afogados em lembranças. Acho essa percepção importante, para que a gente não fique achando que precisa encontrar uma solução para uma crise, forçar um reerguimento inábil, quando na verdade ela virá na hora que deve.

Trata-se de confiar na capacidade do corpo de voltar a funcionar a pleno vapor, mas quando o combustível para isso estiver disponível. Às vezes, o que está tendo para o momento é um convite ao descanso mesmo (e ao cuidado, ao resguardo, à intimidade). Novamente, portanto: que a gente precise atribuir esse convite ou exigência a forças externas e ocultas, torná-las objeto de desconfiança e suspeita, e inclusive conferir-lhes os atributos da vilania, é algo que talvez diga mais sobre nossa sociedade do que sobre os signos de água mesmo.

Acho até que muita coisa do que a gente entende hoje como doença faz parte de processos naturais de regeneração da alma. O problema é que a gente separa a enfermidade da cura como se fossem duas coisas distintas, enquanto não têm como deixar de ser uma coisa só. Queremos nos associar àquilo que apresentamos de saudável e animado e produtivo ao mundo, e tratar como um inconveniente alheio à nossa vontade a parte da vida que saímos de cena para cuidar de um trauma, ou lamber as feridas.

Outro dia escrevi, meio que à brinca, meio que à sério, na postagem sobre os hipocondríacos do zodíaco, que Escorpião convive bem com estados febris que duram longos períodos, e que Peixes sabe inclusive curtir uma febrinha como ninguém. É sobre isso que estou falando. Ou seja: são capazes de deixar-se tomar por sensações inusuais, improdutivas de um determinado ponto de vista, mas indispensáveis para o processo de cura de outro. Deixam-se inundar até mesmo por delírios, sonhos e outras alucinações que podem muito bem revelar-se os melhores guias para sair de um labirinto ou de um pântano.

Enfim: talvez, se a gente exercitar um pouco mais esse aprendizado, ao invés de tratar os arquétipos de água como vilões, vamos enfim vê-los como aliados. Ou melhor, vamos vê-los como uma parte de nós mesmos que não se deixa controlar por nossa vontade, para nossa salvação, pois é assim que eles lavam a nossa alma de um monte de tralhas que vão se acumulando em seus recantos. Por isso, se as águas da alma lhe parecem misteriosas e ocultas, incontroláveis e delirantes, volúveis e imprevisíveis, trate-as com a mesma deferência com que gostaria de ser tratado. Pois é a si mesmo que você estará tratando, exatamente, e,  quando vier a próxima enchente de sentimentos, saiba que você não será inundado: você será a inundação.

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Histórias de Cronópios e Peixes

Mercúrio logo vai começar mais uma temporada retrô. Dessa vez em Peixes, e meu sentimento diante de um trânsito como esse é o de que somos cronópios partindo para uma viagem. Falei outro dia brevemente aqui a respeito dessas criaturas piscianas e lendárias que encontramos na obra do escritor virginiano e argentino Julio Cortázar: são verdes, úmidas, adoram cantar e recitar versos, porém são muito distraídas, vivem sendo atropeladas e choram. Muito ao contrário, os famas, com quem os cronópios coabitam um universo imaginário, são criaturas práticas e organizadas, meio taurinas, meio virginianas, meio que de Capricórnio – em resumo, de um signo de Terra qualquer. Daí o contraste entre a maneira de viajar entre esses tipos tão diferentes:  

“Quando os famas saem em viagem, seus costumes ao pernoitarem numa cidade são os seguintes: um fama vai ao hotel e indaga cautelosamente os preços, a qualidade dos lençóis e a cor dos tapetes. O segundo se dirige à delegacia e lavra uma ata declarando os móveis e imóveis dos três, assim como o inventário do conteúdo de suas malas. O terceiro fama vai ao hospital e copia as listas dos médicos de plantão e suas especializações (…) Quando os cronópios saem em viagem, encontram os hotéis cheios, os trens já partiram, chove a cântaros e os táxis não querem levá-los ou lhes cobram preços altíssimos. Os cronópios não desanimam porque acreditam piamente que estas coisas acontecem a todo o mundo, e na hora de dormir dizem uns aos outros: ‘Que bela cidade, que belíssima cidade!’ E sonham a noite toda que na cidade há grandes festas e que eles foram convidados. E no dia seguinte levantam contentíssimos e é assim que viajam os cronópios”.

Perceberam a diferença? De um lado está a constância de Touro, o detalhismo de Virgem, o planejamento capricorniano; do outro está o mais incauto otimismo de Peixes.  Mas o que eu queria comentar é menos essa virtude da imprevidência cronopiana do que a reação deles aos contratempos e imprevistos. Tem uma coisa aí que acho interessante e que tem a ver com o arquétipo de Peixes de maneira mais ampla. Isso porque a ilusão e o autoengano são temas piscianos por excelência, e, por mais que os cronópios sejam fofos, a gente pode muito bem ler o resultado de suas viagens nessa chave. Eles simplesmente não querem encarar a realidade, e por isso imaginam uma cidade que não existe, onde os trens saem na hora, não chove a cântaros e os táxis os levam para as festas para as quais foram convidados.

Essa talvez seja inclusive a reação típica de Peixes diante dos pequenos inconvenientes de um Mercúrio retrógrado: ao invés de lidar com o problema, imaginar um mundo onde ele sequer existiu um dia. No entanto, eu não estaria aqui escrevendo sobre o assunto se supusesse que a relação de Peixes com a dura realidade das coisas e dos fatos se interrompe aí, no plano do estereótipo. Sim, o estereótipo existe e está por todos os lados, mas o arquétipo está igualmente espalhado pelo mundo, e com ele a gente tem muito a aprender. Curiosamente, acho que dá para explicar a diferença entre uma coisa e outra a partir da reputação que Peixes tem de ser meio trouxa.

Sim, Peixes é meio trouxa; porém sua trouxice se manifesta em duas etapas diferentes, e na segunda, cá entre nós, Peixes está sendo mil vezes mais esperto que a gente. Vou tentar esclarecer esse ponto separando a característica em dois momentos de um mesmo arco narrativo. No primeiro, Peixes é meio trouxa de maneira estereotipada mesmo: deixa-se enganar, iludir, deslumbrar, e prefere acreditar em belas palavras ou viver em sonho a despertar para a vida como ela é. Por isso, a experiência arquetípica pisciana passa sempre por um choque de realidade, e a história de Peixes só começa mesmo com a descoberta que as coisas não são exatamente como lhe parecem.  

Para dar uma dimensão concreta a essa narrativa, podemos imaginar uma criança que cresce admirando o pai por sua inteligência ou integridade, quando ele na verdade comete seus deslizes, ou não é lá de grandes feitos mentais, o que todo mundo ao redor consegue perceber. Mais cedo ou mais tarde (geralmente mais tarde) isso vai se tornar evidente, às vezes em um simples gesto, ou por causa de uma palavra entreouvida a respeito dele. Reparem, o que acontece aí não é exatamente que o pai tenha sido incapaz de sustentar a máscara a longo prazo; quando se trata de Peixes, ninguém precisa usar máscara nenhuma, porque o pisciano mesmo vai se encarregar da idealização. Por isso, ele se torna responsável pelo pai herói que criou, e que se revelou uma farsa, sem que pai mesmo jamais tenha sido um farsante.

Mas é aqui mesmo que a mágica acontece. Ela depende, claro, de que Peixes não reincida em seus delírios e encontre desculpas para desacreditar o real. Ela, a mágica, vai emergir do próprio real e conferir-lhe um novo aspecto de sonho, porém agora com outro tipo de fundamento. Porque é aqui que o famoso amor incondicional pisciano surge: na hora que ele descobre que não precisa admirar o pai para amá-lo, e que aquela criatura tímida, meio tola, meio limitada, que acabou de se revelar para ele, pode ser também o objeto da mais terna e mais ilimitada compaixão.  

É a própria realidade, então, que se torna motivo da mais profunda aceitação e da mais autêntica ternura para Peixes. Isso pode acontecer também, por exemplo, com alguém que acredita ter um talento especial para o canto, um dia descobre que não tem talento nenhum, e justamente aí descobre que mesmo assim ama cantar. Tal como no discurso final de Nina, a protagonista da peça A Gaivota, de Anton Tchekhov. Isso tudo, é claro, não acontece sem uma dose de resignação, mas do outro lado está a experiência de uma felicidade que passou pelo teste mais difícil que há.

Por esse motivo, o amor segundo Peixes, no plano arquetípico, é incondicional: não porque esteja disposto a aceitar quaisquer condições, mas porque já aceitou justamente aquelas que lhe causaram a maior reversão de expectativas. Nesse sentido, a tarefa pisciana é tão enorme que não surpreende que seja o último signo da roda zodiacal. Peixes aparece quando já não há mais nada a fazer a não ser conhecer a realidade, aceitar a realidade e amar a realidade mesmo assim. Um pouco como os cronópios amam as cidades que visitam, mesmo quando elas parecem rejeitá-los.

Podemos chamar essa trouxice de trouxice de segundo grau. E, se digo que há uma espécie de esperteza aí, é porque o amor incondicional é um amor verdadeiramente livre, não implica nenhum tipo de apego, e, portanto, não deixa ninguém preso a uma relação. Um pisciano que tenha sido enganado em uma parceria afetiva, por exemplo, pode até perdoar quem o iludiu, ao entender que também participou do engano; mas isso não quer dizer que vá voltar de coração aberto para uma relação abusiva. O perdão é libertador na medida em que realiza a transformação alquímica da mágoa em compaixão, mas uma compaixão que se dá a certa distância, que mantém uma perspectiva. Essa transformação se dá no âmbito de Peixes.

Além disso, o amor incondicional não é nunca o amor por uma pessoa específica, e muito menos por um aproveitador sacana: é por algo que existe nele também, mas que pode ser igualmente encontrado em outras pessoas menos nocivas e perigosas. Se Peixes é capaz de oferecer a outra face ao agressor, portanto, muitas vezes é porque já está livre da raiva que ele lhe causou, e então já está mesmo olhando para o outro lado, cuidando de outros assuntos, sem forjar nenhuma atitude específica para responder à agressão. A capacidade que essa postura tem de desarmar um oponente é inestimável, e essa é a grande esperteza de Peixes: a de agir sem esperteza nenhuma.

O poeta Walt Whitman nasceu sob uma conjunção exata de Saturno e Plutão em Peixes, ambos muito próximos de seu ascendente. Um mapa assim pode tornar um indivíduo o porta-voz de sensações piscianas de toda uma geração. Ele se celebrizou como um sujeito meio doido e meio pateta que andava pelas ruas catando assunto para seus cantos. Porém, era notável a maneira como era capaz de simplesmente elencar imagens do real em seus poemas, e acolhê-las e aceitá-las de maneira ao mesmo tempo desiludida e maravilhada, em todas as suas imperfeições e singularidades. Tal como no poema em que ele vai falando dos rostos que encontra pelas ruas, dos mais lamentáveis aos mais imponentes, dos mais graciosos aos mais debilitados, para complementar de repente: “I see them, and complain not, and am content with all / Do you suppose I could be content with all if I thought them their own finale?”.

Eu as vejo, e não reclamo, e estou satisfeito com as coisas como elas são. Mas você acha que estaria satisfeito se acreditasse que as coisas terminam aí? Essa é uma afirmação pisciana, tanto em sua aceitação do mundo, quanto na percepção de que o mundo como é, com seus defeitos e desgraças inclusive, implica algo que ainda está por vir e que valerá a pena conhecer. Ou, mais objetivamente: “Estou ciente e quero continuar”. Essa é a frase da maturidade pisciana, com ênfase no “ciente”, na consciência de uma imagem do mundo que pode não ser a ideal, mas é bela e maravilhosa inclusive pelas falhas que apresenta.

Do mesmo modo, enfim, o encanto dos cronópios com as cidades que os rejeitam, sua aceitação das condições com que são recebidos, revertem assim as expectativas de quem espera que tais contratempos sejam apenas motivo de fastio e irritação. Em um plano mais cotidiano, isso não deixa de ser algo que podemos muito bem exercitar com Mercúrio retrógrado em Peixes, e prometo que não faltarão oportunidades. A partir de agora os aplicativos vão pifar, os táxis estarão lotados, choverá a cântaros, e a internet vai cair o tempo todo. O pacote completo. Mas, se tivermos aprendido alguma coisa com os cronópios, a despeito de Mercúrio e seus pequenos contratempos, ainda assim vamos dormir pensando: “Que bela cidade, que belíssima cidade”.

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O poder de Peixes

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Hoje vou contar pra vocês um caso estranhíssimo que se passou comigo. Começou quando passei a falar de astrologia na internet. A princípio eram comentários eventuais de amigos ou conhecidos: “Escreve mais sobre Peixes”, “Por que você não escreve sobre Peixes?”, “Sou pisciane me explica aí plmdds kkkkkk”. Até certo ponto, era possível atribuir o comportamento ao estereótipo do signo (Peixes tem mesmo suas carências), e eu não iria muito além disso me pedissem para explicar a razão dos apelos esparsos. Aí aconteceu o inexplicável.  

De repente, do nada, sem aviso prévio, as requisições começaram a chegar de todos os lados. Já não eram só amigos, e a coisa se deu de tal maneira que cheguei a desconfiar de que havia até robôs forjados na deep web para advogar pela causa pisciana. Era como se eu estivesse devendo um tratado inteiro sobre o arquétipo; como se nunca tivesse escrito nem uma palavrinha sobre ele; como se minha vida dependesse disso. Até meu filho mais velho, que não é pisciano nem nada, referiu-se a um amigo que lê o blog e que teria lhe dito: “Fala pro seu pai que é pra ele escrever sobre Peixes”.

Pois bem. Cá estou eu escrevendo sobre Peixes. Não é que tenha me sentido forçado a isso, mas preciso reconhecer que eles conseguiram o que queriam, sobretudo depois dessa última leva de investidas. O que ela teve de especial foi parecer um movimento quase organizado de múltiplas frentes e braços que me atacou por todos os lados sem deixar margem de manobra, envolvendo na operação até meus familiares mais próximos e queridos. Então me pergunto: por que isso aconteceu assim precisamente agora, se os pedidos esparsos já vinham desde antes? E como eles conseguiram isso?

É aqui que, a meu ver, as coisas ficam interessantes. Desconfio que a resposta tem a ver com a questão do carma, e com a maneira como ela se expressa em Peixes, o que por sua vez se relaciona com uma espécie de superpoder que piscianos têm em comparação com outros signos. É isso que vou tentar explicar na sequência. Não sei até que ponto vou conseguir, porque um dos problemas que tenho com Peixes é que a respeito desse arquétipo suspeito de muita coisa, mas não tenho certeza de nada. O ponto de partida da investigação é o momento exato em que as pressões aparentemente articuladas começaram a chegar. Isso aconteceu exatamente logo depois que eu disse que a página ficaria sem novas publicações por um tempo.

Bom, eu estava precisando de um descanso, ou pelo menos achei que precisava. Acontece que eu estava, de fato, devendo um texto sobre Peixes. Então, na hora que anunciei minha retirada de cena, ainda que provisória, criaturas marinhas de todos os tipos apareceram para cobrar a minha dívida. Se você parar para pensar, faz sentido que as coisas funcionem assim. Você não anuncia que vai sair da cidade sem criar uma fila de credores na porta da sua casa. Se você quiser mesmo ir embora, você não diz o que vai fazer: você simplesmente vai.

Essa é inclusive a metáfora que alguns comentaristas do Zen e de outras filosofias orientais utilizam para referir-se ao possível despertar que tem o potencial de nos libertar da roda cármica (o nirvana, ou sartori, ou seja o que for). Não é recomendado, portanto, que quem vá se submeter a rigores espirituais em busca da iluminação saia por aí divulgando seu objetivo. Na verdade, o indivíduo não deve nem chegar a enunciá-lo para si próprio. As dívidas cármicas têm um apurado sexto sentido, e vão perceber fácil se você estiver planejando uma escapada. São elas que vão se apinhar no seu encalço já no dia seguinte.

Nessa lógica, o texto novo sobre Peixes que já havia prometido algumas vezes antes era o débito que eu precisava quitar; e tratá-lo como uma obrigação de caráter espiritual, sujeita ao controle do Grande Escritório de Deveres Acumulados e Promessas Não Cumpridas, não me parece totalmente despropositado, em se tratando justamente de Peixes. Pois é nesse arquétipo do zodíaco que desembocam todos os outros, e é nele que se dá o balanço de encerramento da roda zodiacal. Talvez por isso os próprios piscianos com frequência parecem carregar todos os sofrimentos do mundo nas costas. E, talvez por isso, o tema da fuga (para o mato, para o sonho, para o convento, para a enfermidade, para as drogas) seja tão comum quando se fala em Peixes.

Ou seja: piscianos precisam às vezes fugir do mundo, ou pensam nisso com frequência, porque recebem um influxo desproporcional de percepções a respeito do mal que existe nele. Nem sempre se colocam do lado de quem cobra, de quem se vitimiza, de quem sente que tem crédito com a humanidade; com frequência pendem para o de quem sente que tem uma conta enorme a pagar. Essa conta é na verdade a conta de todos nós, como se Peixes tivesse sido deixado sozinho na mesa do bar depois de todos os outros signos encherem a cara a noite inteira. O que Peixes faz nessa hora? Pede outra dose, ou dá no pé, claro. De um jeito ou de outro, a ideia é não estar mais ali.

Agora, não acho que a fuga pisciana esteja sempre condenada ao insucesso. Se a pessoa tem o ascendente em Peixes, por exemplo, ela tem mais é que encontrar mesmo sua porta de saída para toda essa encrenca que aprontamos aqui, e que será também uma porta de entrada para um mundo diferente (pode ser o mato, pode ser o sonho, pode ser a meditação, ou algum alucinógeno com o qual se entenda bem). Uma pessoa com um ascendente em Peixes, um barulho de água e uma brisa no rosto não quer guerra. Uma pessoa com um ascendente em Peixes não deve nada a ninguém.

Peixes, portanto, tem um potencial verdadeiro para se desvencilhar num pulo das labutas desse mundo. E tenho muito a aprender com Peixes para a próxima vez que resolver tirar um descanso. Mas não é exatamente esse, ainda, o poder de que falei no título. Isso não explica o curioso fenômeno do ataque do cardume cobrador, pelo menos não em seu aspecto de um esforço articulado e bem-sucedido. Esse tema explica o momento em que o ataque se formou – Peixes pode sim estar do lado de quem cobra, que quem se vitimiza, de quem reclama que o mundo não lhe dá os créditos devidos -, mas não sua abrangência e eficácia.

Pensem bem, como é impressionante isso de terem me encurralado tão logo fiz conhecer meu desejo de repouso. Até meu filho capricorniano entrou na história. Mas não creio que Peixes estivesse me manipulando emocionalmente, de maneira insidiosa, ao recorrer a meu filho; esse seria o caso de Escorpião, e já escrevi inclusive um texto sobre isso, está aqui. Não: Peixes estava conseguindo o que queria meio que sem querer mesmo. Quer dizer, sem querer querendo.

Como disse antes, é sempre meio complicado explicar as coisas que acontecem nesse arquétipo. Mas passa por aí: do mesmo modo como Peixes colhe o que não plantou em termos de culpas e fardos de outras pessoas, ele também consegue o que não necessariamente construiu com suas próprias mãos, o que não necessariamente planejou em sua mente, e até o que não necessariamente quis, pelo menos não querendo mesmo. O universo conspira a favor de Peixes tal como conspira contra Peixes, fazendo com que o arquétipo reúna tanto o papel de vítima (e esponjinha receptora da truculência do cosmos), quanto o de supremo ganhador da loteria universal (capaz de ganhar inclusive sem ter apostado). Naturalmente, se o pisciano se identificar com somente um desses aspectos, estará sujeito ao tipo de desequilíbrio que afeta todos os signos de uma forma ou de outra. Nesse caso, alguns vão se perguntar porque as coisas sempre dão errado para eles; outros, vão acreditar que não precisam fazer nada para dar tudo certo no final.

Existe, porém, uma razão genuína para essa última atitude, que não deve ser desconsiderada. É aí que está o poder de Peixes. O zodíaco conhece duas formas destacadas de otimismo: na primeira, sagitariana, as coisas vão dar certo porque vão acontecer como a gente imagina; na outra, pisciana, as coisas estarão certas do que jeito que acontecerem. Peixes, com isso, é bem capaz de delegar o rumo das coisas para forças além do seu alcance. Boa parte da ansiedade típica do signo, aliás, decorre de um bloqueio dessa função de estar de boa com o cosmos, tão importante de ser desenvolvida em alguma medida, quando se trata de Peixes. Importante porque, se você vai lidar com o cosmos como um todo (e é isso basicamente que Peixes faz), é bom você estar em condições de aceitar que ele tomará um rumo certo independente de seu controle. Porque você pode até tentar controlar sua casa, você pode até manipular as pessoas – mas controle do universo é algo que por definição você nunca vai ter.

E a verdade é que ninguém controla nada, no final das contas. Mas, enquanto nós outros podemos manter essa ilusão em uma área ou outra da vida, Peixes, olhem que coisa engraçada, o arquétipo aparentemente mais iludido do zodíaco, não se deixa enganar nesse sentido. E, diante dessa verdade inescapável do descontrole, ele não tem alternativa a não ser de fato render-se, entregar-se, renunciar à vontade pessoal como quem se entrega ao sono e ao sonho. Daí começam a expressar seus desejos como quem na verdade não quer nada, como quem não espera que aquilo seja realmente seja realizado. E a partir desse momento o inexplicável ocorre: o universo passa a funcionar do jeito que eles querem.

De modo que, para concluir a investigação, devo dizer que nunca houve nenhuma grande conspiração da Máfia dos Mares, mas apenas palavras ao vento que chegaram a mim de um jeito ou de outro. Talvez os piscianos mesmo já nem fizessem muita questão de que eu escrevesse o texto prometido; com certeza já estavam pensando em outra coisa, e foi aí que tudo se encaixou para que seus desejos fossem atendidos. Essa espécie de mágica, enfim, não deixa de ser a grande ironia que nos aguarda a todos no fim da roda cármica, pois escapar dela não depende de terminarmos o pagamento de qualquer tipo de dívida. Assim como assumir o controle do cosmos depende de entender que é impossível fazê-lo.

Enfim, o momento do despertar acontece quando a gente percebe, de repente, que nunca houve dívida alguma, e que a gente nunca paga nossa dívida cármica: a gente simplesmente sai da cidade e esquece que ela um dia existiu. Por via das dúvidas, enquanto estou funcionando nesse plano, aqui está, para todos os efeitos fiscais, o texto que eu tinha prometido sobre Peixes. Mas, quem sabe, mais cedo ou mais tarde, eu não escapo desse tipo de precaução, eu não me livro desse tipo de cálculo. Suponho que isso possa acontecer um dia – sobretudo se eu conseguir entender realmente, um dia, do que estamos falando quando falamos de Peixes.