aquário, câncer, leão, sagitário

Eu e meu irmão

Foto: Ramon Lisboa | EM | D.A. PRESS

Estava aqui pensando em estratégias para lidar com o isolamento, em como há práticas simples que podem ser valiosas nessas horas. Coisas que rendem assunto, tomam o tempo e abrem insólitas janelas em espaços confinados. Aí me lembrei de uma época em que eu e meu irmão costumávamos contar um para o outro pelo telefone de manhã os roteiros dos filmes que víamos de madrugada. Bom, a gente ainda não era irmão nessa época. Quer dizer, nós éramos, já havíamos decidido ser irmãos gêmeos inclusive, mas por outro lado éramos menos irmãos do que a gente ia ser. Complicou né? Essa história é meio tortuosa mesmo, e ao mesmo tempo é simples. Não vai dar para seguir adiante sem contá-la. Vamos deixar o confinamento e suas aflições de lado por enquanto. A partir daqui esse fica sendo um texto sobre meu irmão e eu.

O começo é fácil de entender. No papel, nós somos primos. Meu pai e a mãe dele são irmãos. Meu pai se casou com minha mãe mais ou menos na mesma época que a mãe e o pai dele se casaram, e logo em seguida ambos casais tiveram filhos, de modo que nós dois nascemos com alguns meses de diferença (ele é o mais velho). Creio que ambos os casais se separaram mais ou menos na mesma época também – ficaram juntos uns poucos anos – de modo que nós permanecemos filhos únicos durante um tempo. Os outros primos de nossas famílias tinham irmãos. Nós não. Esse foi um dos motivos pelos quais decidimos ser irmãos um do outro. E, para ganhar dos outros primos em termos de irmandade, já que gente saiu perdendo, decidimos ser mais do que isso, decidimos ser irmãos gêmeos.

Os outros motivos dessa definição – talvez os mais importantes – foram: um, a convivência, graças à proximidade física (fomos vizinhos durante um tempo, os casais do parágrafo anterior compraram apartamentos um de frente pro outro), e, dois: o imponderável, porque não dá para medir ou explicar a afinidade que sentimos desde o começo. Na minha lembrança aliás a gente nunca não-foi-irmão; preciso fazer um esforço para recordar os detalhes de antes de a gente ser. Mas, como eu disse, a gente ia ficar mais irmão ainda depois. É aqui que o enredo se complica.

Aconteceu que, cerca de uma década após as separações de nossos pais, a minha mãe e o pai dele se casaram. Não se confundam, nem se preocupem, não há nada de incestuosamente trágico nessa história; lembrem-se que os irmãos eram o meu pai e a mãe dele. A minha mãe e o pai dele então foram concunhados durante um tempo, perderam o contato (pelo menos é o que consta nos autos) durante muitos anos, reencontraram-se e se apaixonaram um pelo outro depois. Resultado: nós continuamos primos para todos os efeitos legais, mas passamos a morar juntos, com nossos pais que eram casados entre si. Já não éramos irmãos apenas por opção. Havia uma boa dose de destino também.

Esse casamento é uma história à parte, com amizades rompidas, novas suspeitas e antigas ilações. Foi um baque na tradicional família mineira (embora não comportar esse tipo de arranjo seja o menor dos problemas da tradicional família mineira, que em suas boas versões até os comporta; enquanto nas outras as perversões são tão mais sutis, que elas se tornam imunes a esse tipo de golpe). Porém, de nossa parte, minha e do meu irmão, não havia preocupação com o escândalo nem gosto em fomentá-lo. Nós estávamos ocupados demais curtindo adoidados a vida adolescente em uma Belo Horizonte que cujas ruas conquistávamos junto com um bando de amigos adolescentes também, e que tínhamos conhecido não na família, nem no colégio, nem no clube, mas na rua mesmo. E nós estávamos curtindo adoidados a vida de irmãos.

É verdade que nesse meio tempo eu e ele havíamos já ganhado irmãos de outros casamentos de nossos pais (a propósito, acho meio-irmão um termo horroroso). Até peguei para mim, de forma ainda mais ilícita e sorrateira, os irmãos que ele ganhou no segundo casamento do pai dele (essa é também toda uma outra história, que merece ser contada à parte, assim como a dos irmãos que ganhei dos outras casamentos do meu pai, mas aí a trama se enreda de maneira mais estranha e meticulosa, remetendo a segredos familiares muito bem guardados – acreditem, estou contando a parte descomplicada). Vamos então voltar àquilo que já consegui esclarecer: estamos eu, ele, minha mãe e o pai dele vivendo juntos como uma família feliz e serena e saudável. Ou melhor, talvez não tão serena, nem não tão saudável assim.

Acontece que nessa época a gente bebia muito, fumava muito, e topávamos experimentar quaisquer produtos orgânicos ou químicos que apareciam na nossa frente com a promessa de alterar nossos estados de consciência. Muitas vezes nós quatro juntos, em família. As compras de supermercado incluíam garrafas de conhaque e pacotes de cigarro que constavam no orçamento doméstico, em uma categoria prioritária, junto com o arroz e o feijão. O outro componente importante de nossa convivência era a música. Chico Buarque, Legião Urbana, The Doors, Velvet Underground, Tom Waits e Joni Mitchell viviam uma daquelas bandejas em que cabiam um seis CDs, e que ficava rodando lá em casa o dia inteiro.

Talvez, por razões óbvias, eu não me lembre de alguns detalhes dessa época. Sei que minhas notas na escola caíram muito e que terminei o ensino médio no sufoco. Meu irmão se enrolou ainda mais nesse aspecto. Mas tampouco isso era motivo de preocupação. A adolescência é uma etapa leonina e autocentrada da vida, que, dadas as condições certas, pode ser dedicada ao prazer como nenhuma outra que vem antes ou depois. Aliás, ela põe em cena os temas do eixo de opostos complementares Leão e Aquário – a sensação de ser especial e o desejo de integrar um grupo – de tal modo a criar conflitos intrincadíssimos. Mas pode também encontrar uma espécie de solução provisória para a conciliação desse eixo, e acredito que foi isso que nós vivemos.

Sim, foi isso: porque nós estávamos brincando. E a brincadeira, pela maneira como nos envolve em um entusiasmo inconsequente, é justamente o tipo de experiência capaz de articular essa negociação entre o atípico e o ordinário. Havia brincadeiras perigosas, é claro. Mas normalmente não deixavam de ser brincadeiras, sobretudo aquelas tardes conversando e compondo as canções da banda que nunca existiu, aquelas reuniões ao mesmo tempo sérias e hilárias de planejamento dos zines que nunca rodaram, aquela nossa capacidade de passar uma noite inteira dançando e pulando e gritando em um galpão mal ajambrado de Santa Tereza, para depois ver a manhã nascer com deslumbrado encanto, ou com indisfarçável exaustão, enquanto fazíamos a pé o caminho de volta pra casa, ou comíamos pasteis em uma lanchonete do centro da cidade.

Até mesmo o lugar que viria a ser um de nosso preferidos na cidade, uma boate chamada A Obra, era uma espécie de canteiro de obras de mentirinha, ainda que fosse um inferninho de verdade. Ainda é, por sinal, e a gente espera que ela sobreviva a esse perrengue do vírus. Outros lugares importantes eram o canteiro central da avenida Getúlio Vargas na Savassi, o edifício Maletta no centro, a Bródei em Santa Tereza: éramos capazes de percorrer esses lugares numa só noite como quem salta as casas de um jogo de tabuleiros, depois de tirar uma carta como “tome três flamejantes de uma vez na Casa da Vovó”, ou, “salte três casas para chegar logo ao Prado porque tem um amigo lá que está salvando”, ou, “você chegou no fim da linha, vá tomar a saideira no Mercadão”.

É aqui que eu queria chegar. Porque foi aqui que, mais do nunca, eu e o Érico nos tornamos irmãos: brincando juntos na cidade à noite. Rindo muito. Viajando um tanto. Cantando às vezes. É verdade que a gente já havia brincado muito antes na infância, mas acho que não com a mesma intensidade e a dedicação exigidas por uma adolescência movimentada e festeira. Pelo menos de minha parte, posso dizer que foi ali que ganhei para o resto da vida uma força e uma confiança que de modo algum possuía antes. Acho que vi isso acontecendo com outros amigos também. Tem gente que se ferra muito quando é criança, por conta das estruturas familiares ou da falta delas, mas que com sorte encontra depois nos amigos “da rua” uma fonte genuína de segurança e fraternidade, mesmo que depois essa configuração se disperse. Freud que não nos ouça, mas acho que mesmo quem sai dos primeiros anos de vida como o ego estraçalhado pode acabar tendo uma segunda chance. E, se me permitirem critérios um pouco mais relaxados, eu diria que ganhei não um, mas muitos irmãos nessa época.

Por outro lado, tive sorte incrível de que meu irmão mais próximo na rua era também meu irmão em casa, e que na adolescência minhas circunstâncias familiares eram também uma bem-vinda bagunça, parecida com a da rua, de tal modo que a vida em casa se confundia com a vida fora dela. Era tudo uma festa só. Naturalmente, quem tiver um pouco de familiaridade com roteiros de filmes de bandas de rock como The Commitments ou Quase Famosos (que mencionei outro dia nesse post aqui), ou ainda do tipo de Boogie Nights, já percebeu que, uma vez alcançado o ápice desses prazeres irresponsáveis, as coisas tendem a ir ladeira abaixo. Foi o que aconteceu.

O casamento da minha mãe e do pai do meu irmão durou poucos anos. Uns dois ou três. Parece que foi mais. Deu tempo de fazer muita besteira. Vou poupar vocês dos pormenores do final, e quem sabe como termina esse tipo de filme pode imaginar. Eu e meu irmão, porém, fugimos ao princípio entrópico por uns tempos, e conseguimos prolongar um pouco nosso clímax, embora com um pouco mais de bagagem sobre os revertérios da vida. Não nos separamos; fomos morar juntos num apartamento no centro, onde nos tornamos mais e mais irmãos, por força de uma convivência em que, aos porres homéricos e delírios idílicos, foi acrescentada a solidariedade nos períodos de grana curta, a atenção nos momentos de ansiedade extrema, o cuidado nos momentos de saúde instável. Aí já não dependíamos de ter pais casados para reforçar nosso vínculo. Não dependíamos nem de ter pais irmãos para nos sentirmos familiares. A essa altura acho que a gente nem lembrava mais que um dia havíamos sido primos.

Isso durou mais ou menos até eu vir para o Rio, quando me casei pela primeira vez. Mas ainda cheguei a voltar para lá, para o mesmo apartamento, depois da separação, uns sete anos depois, na sequência do meu retorno de Saturno; ele recebeu o tinha sobrado de mim para revivermos um pouco a adolescência perdida. Pouco depois foi ele que se casou. Hoje ele mora com a mulher e um filhinho lindo – meu afilhado – que não precisa ficar sabendo de nada desses maus exemplos do pai que estou registrando aqui (fica combinado assim: essa postagem se autodestruirá em cinco minutos).

Agora, rumando já para uma conclusão, por que é que eu resolvi contar essa história para vocês mesmo? Bom, em primeiro lugar teve o pretexto de explicar o motivo pelo qual meu irmão não era ainda totalmente meu irmão, ainda que já fosse meu irmão gêmeo, quando a gente costumava contar um para o outro os filmes que a gente via de madrugada. Isso começou quando tínhamos uns dez anos, eu morava na casa da minha mãe e ele na dele, e passamos a ficar acordados até mais tarde nas férias para assistir o Corujão. Era falando disso que eu ia começar o texto dessa semana.

O outro motivo pelo qual acabei pegando esse desvio está implicado aí. Eu gosto de contar histórias. Podem ser histórias da minha vida, roteiros de filmes que assisti, causos inventados ou acontecidos. Já tive problemas com isso quando me mudei para o Rio, e demorei a perceber que “contar histórias” não é uma prática incorporada à sociabilidade daqui como é lá em Minas Gerais. Lá em Minas, você pode muito bem estar em uma conversa animada em um bar que, se você de repente disser, “nó até lembrei de uma história aqui”, as pessoas vão parar e te escutar, o tempo que for. A história nem precisa ter um final grandioso. Você pode fazer as digressões que quiser. Basta manter os copos de cerveja cheios e ter uma tarde relativamente vazia.

Aqui no Rio, por outro lado, se você for reter a atenção das pessoas em uma mesa de bar por mais de dois minutos, elas vão entender que tudo aquilo só pode ser uma preparação para o desvelamento do significado último do universo. Ninguém fala tanto tempo de uma vez só se não tiver algo de inédito e assombroso para revelar. Em suma, demorei um tempo para perceber que eu vivia decepcionando as pessoas, até mesmo quando contava histórias interessantíssimas do meu ponto de vista como essa minha e do meu irmão. Hoje sei que, quando eu falava“nó até lembrei de uma história aqui”, as pessoas ao redor se entreolhavam

com um misto de enfado e desespero que dizia: “Putz. Lá vem. No mínimo meia hora”.

Costumo dizer que me tornei professor em parte por isso: se eu me lembrar de uma história durante uma aula e resolver contá-la, meus alunos vão ter que ouvir, alguns vão até fingir que estão interessados. Em termos de público, não preciso de mais do que isso. Talvez, pensando agora, eu tenha criado esse blog no mesmo espírito, com vantagem adicional que aqui eu nem preciso ensinar os conteúdos do semestre, e se quiser posso enxertar as narrativas que quiser em um texto sobre Gêmeos ou Netuno, assim como posso enxertar uma coisa ou outra sobre Escorpião ou Mercúrio num texto que não tenha nada a ver com isso.

Esse texto, aliás, ia ser sobre Câncer e Sagitário, ia ser sobre O Beijo da Mulher-Aranha do Manuel Puig, ia ser sobre o confinamento e a arte de contar histórias no confinamento (o romance do Puig se passa quase todo dentro de uma cela, mas um personagem está sempre contando enredos de filmes para o outro, de tal modo que o horizonte se abre de forma infinitamente vasta para quem está lendo). Acabou não sendo um texto sobre signo nenhum em particular, acabou sendo um texto sobre meu irmão. Para quem está se perguntando: ele é pisciano. Mas tampouco estou falando da relação especial que acredito existir entre Peixes e Capricórnio, e que nossos signos solares bem representam. Isso também vai ficar para outra hora.

Acho, enfim, que a verdadeira motivação do dessa semana é um tanto quanto óbvia, e ao mesmo tempo ficou encoberta por tudo que veio antes. Vou pedir a vocês mais cinco minutinhos para desenvolver esse ponto (aprendi esse tipo de polidez aqui no Rio; se fosse lá em Minas, eu dizia que o texto termina logo ali). O fato é que, como provavelmente é o caso com muita gente, a quarentena me pegou num momento em que estou perto de algumas das pessoas que mais amo, mas longe de outras. Já está bom demais que seja assim, de todo modo a situação proporciona sentimentos contraditórios. Por um lado, sou grato pelas circunstâncias da minha vida atual, pois já passei por períodos na vida em que ser surpreendido por uma pandemia significaria estar sozinho por longos meses sem ninguém para me ouvir ao vivo contar histórias. Nas atuais circunstâncias, portanto, sou feliz por estar casado com uma mineira que não só escuta minhas histórias, como conta as dela também.

Nossa relação é aliás em parte construída sobre isso: as histórias da infância dela no Canadá, as histórias da minha adolescência em Belo Horizonte. Entre tantas outras. Mesmo ficando só nesses recortes, é incrível como não param de brotar histórias. Mas agora, mais do nunca, isso tem acontecido, e acho que não só aqui em casa, pois o confinamento parece favorecer as dinâmicas da memória, abrindo janelas dentro de janelas em direção ao passado, uma vez que as voltadas para o futuro estão tão bloqueadas e sujas. Mas é interessante como as boas lembranças de épocas felizes têm o poder de renovar o ânimo para as que virão, e o fato de que algo foi um dia possível parece indicar que pode ser possível novamente. Não estamos precisando de muito mais do que isso para plantar umas sementinhas de otimismo, e é por aí que ia ser o argumento sobre Sagitário e Câncer.

No entanto, acabei escrevendo um texto sobre meu irmão, e aproveitei para contar uma história só pelo prazer de contá-la mesmo. Mas também porque a vida inteira tive a imensa sorte de ter uma resposta fácil para uma pergunta difícil e hoje tão imediata, que até outra dia não fazíamos a nós mesmos, por falta de motivos para que sequer a pensássemos, e que agora parece ser tão definidora na vida de cada um. Enfim, não me lembro de um instante sequer na vida em que eu não responderia rápido a questão sobre como quem gostaria de passar uma quarentena. Lógico que hoje outras pessoas estariam na lista, e que, havendo a possibilidade, eu ia querer é levar um mundão de gente para uma sitiozinho no interior de Minas, onde a gente pudesse passar o tempo contando causos um para os outros, à salvo da pestilência, em uma espécie de Decameron roceiro e capiau com cachaça, tropeiro, risos, fogueiras e serenatas.

Mas, mesmo nas épocas em que estive mais sozinho, mesmo nas épocas em que estive mais arredio ao contato humano, mesmo na época em que deliberadamente afastei as pessoas de mim ou elas se afastaram mesmo sem querer, eu não pensaria duas vezes em responder à pergunta hipotética que um hipotético interrogador me faria, sobre a remota possibilidade de um dia termos que nos manter isolados por causa de um vírus, e com quem escolheríamos passar esse tempo se nos fosse dada a oportunidade: “Meu irmão. Quer dizer, ele é meu primo. É uma longa história. Quer que eu conte? Não? Juro que é rapidinho. Ah, tudo bem. Correria né. Entendo. Mas anota aí. Se eu pudesse escolher, nesse negócio de quarentena eu ia querer estar com meu irmão.”

aquário, escorpião, leão, touro

Dr. Sigmund de sapatos novos

Em suas memórias, o médico suíço e leonino Carl Gustav Jung trata da ruptura de sua amizade com o neurologista austríaco e taurino Sigmund Freud como uma experiência muito difícil e dolorosa. Jung e Freud entraram mais abertamente em conflito em torno de 1910, por causa de divergências na evolução do pensamento de ambos, e sobretudo por aquilo que Freud considerava uma excessiva inclinação para o “ocultismo” nos estudos de seu discípulo. Tauríneamente, Freud não arredou um dedo da convicção nos sólidos postulados científicos sobre os quais procurava erigir a psicanálise; Jung, por sua vez, afirmou que, na época do desentendimento, sentiu-se tão perdido que não encontrou alternativa a não ser buscar nas imagens de seu próprio inconsciente alguma saída para a crise.

Então teria se fixado em uma memória de sua infância, de quando estava com 11 ou 12 anos, e se dedicava apaixonadamente a brinquedos de construção. O impulso criativo reanimaria seu espírito adulto, na medida em que ele retomou a atividade lúdica, saindo para catar conchas e outros materiais de manhã e separando um tempo para utilizá-los nos intervalos do trabalho no hospital. “Mal terminado o almoço, ‘brincava’ até o momento em que os doentes começavam a chegar; à tarde, se meu trabalho estivesse terminado a tempo, voltava às construções. Com isso meus pensamentos se tornavam claros e conseguia apreender de modo mais preciso fantasias das quais até então tivera apenas um vago pressentimento”.

Esse recurso ao potencial terapêutico da brincadeira, da criatividade, do jogo e do ócio não é apenas uma característica de Leão; é também uma marca daquele tempo. Roger Caillois, em Os Jogos e os Homens, observa que as primeiras miniaturas de carros foram produzidas por operários de fábricas automotivas em que a divisão do trabalho não lhes permitia acompanhar o processo de produção do começo ao fim. Assim, chegando em casa, eles podiam reassumir o controle de todas as fases da composição de um artefato, nem que fosse como um hobby compensatório, e conseguindo com isso restituir a si mesmos uma relação artesanal com a inteireza do objeto.

Mas o arquétipo de Leão de fato atualizou esse impulso de formas diferentes através dos séculos. Cada texto que começo e termino para esse blogue, por exemplo, é uma espécie de jogo em que me envolvo com prazer e incerteza, sem saber ao certo de onde estou partindo nem onde vou chegar, mas sentindo que algo de esclarecedor – para mim pelo menos, espero que para vocês também – se realiza no percurso.

Nunca sei exatamente de onde vai surgir a peça com que começarei a montar cada texto. Nessa semana, por exemplo, ela apareceu na leitura desse trecho autobiográfico de Jung. Aí me ocorreu que é meio engraçado que ele e Freud tenham sido ambos de signos fixos (Touro e Leão), os quais existem em uma relação tensa e produtiva. Mas reparei em seguida que a coisa não para por aí: Freud tinha o ascendente em Escorpião, e Jung em Aquário, ambos no signo oposto complementar de seus signos solares. Isso quer dizer, basicamente, que a cruz dos quatro signos fixos esteve envolvida nas aproximações e afastamentos entre os dois grandes pensadores da psicologia no século XX. Opa, pensei: tem jogo aí.

Acho que em ambos os casos o signo solar aparece como a base da personalidade, e o ascendente refere-se à contribuição que ofereceram em suas obras. No caso de Freud, o vínculo com Escorpião é mais que evidente: de Totem e Tabu a Moisés e o Monoteísmo, desenvolve-se um concentrado esforço arqueológico em que são desenterrados os ossos de crimes antigos (o assassinato do pai pela horda primitiva, o assassinato de Moisés pelas tribos do êxodo), que teriam correlações exatas em episódios de cada trajetória individual, habitando os subterrâneos do inconsciente. Os sentimentos de inadequação, culpa, remorso ou angústia que surgem da repressão dessas memórias podem então ter sua origem identificada. Com isso, torna-se possível e necessário encarar os demônios ocultos na psique, para alcançar a lucidez após um intenso mergulho nas profundezas do passado.

Tudo converge para o Complexo de Édipo, também um assassino de seu pai, ao mesmo tempo detetive e criminoso, cujo expurgo de Tebas revela-se necessário para a regeneração da cidade. Aqui uma importante diferença entre as obras de Freud e Jung pode ser notada, pois no segundo caso há uma profusão de arquétipos, narrativas e símbolos que nunca se deixam reduzir a uma única história. Assim, enquanto Escorpião tende à obsessiva e quase paranoica busca de vestígios capazes de reafirmar o ponto central de suas investigações, Aquário abre mão do “uno” em favor do “múltiplo”, observando e afirmando diferenças ex-cêntricas onde outros vêm similaridades.

A ênfase no caráter sexual da libido, a propósito, não deixa de ser um componente escorpiônico das lições de Freud. Também aqui ele e Jung divergiram frontalmente da maneira como Escorpião e Aquário divergem no zodíaco. Pois o primeiro é uma força corporal, intensa, concentrada, enquanto o segundo é um arquétipo que se dispersa no ar em uma complexíssima profusão de relações em rede. Jung considerava a ênfase de Freud nas pulsões sexuais uma inclinação “reducionista”, na medida em que designava uma só fonte como energia motriz de todos os esforços e humanos. Ele acreditava que o impulso criativo, por exemplo, existia por si mesmo, e não como um excedente de desejos reprimidos.

Curiosamente, portanto, embora Jung fosse o ”ocultista” da relação, havia algo na ciência de Freud em que ele detectava uma obsessão compulsiva com o tema do sexo e da autoridade paterna. Não é incomum que Aquário veja Escorpião por esse prisma, no qual se ressalta sua perspectiva desencarnada, indiferente em relação aos instintos primitivos que lhe parecem vis ou demasiadamente humanos. Mas isso envolve também a dimensão iluminista e prometeica do arquétipo aquariano, na medida em que busca alçar o humano para além de seus limites usuais. Desse modo, e mais uma vez curiosamente, as Luzes estão do lado de Jung, embora Freud fosse o cientista da relação.

Acontece que Jung também se outorgava esse título, tinha apreço por ele, porém entendendo a ciência de um modo mais heterodoxo. De ambos, se não me engano, foi quem acompanhou mais de perto as inovações da Teoria da Relatividade e e Física Quântica, sem deixar escapar as relações da cosmovisão que essas novidades ofereciam com elementos das religiões orientais. Freud, enquanto isso, manteve-se centrado na tradição judaico-cristã, ferozmente dedicado ao problema de Deus, ou ao problema do Pai.

Enfim, Jung roubou o fogo de seu próprio Sol leonino para levá-lo aos homens através de seu ascendente aquariano; Freud manteve-se até o fim da vida irremovível do caminho em que Touro o havia situado, porém correndo riscos e desencavando desejos que apenas são aceitos e reconhecidos quando acionamos o tipo de coragem que reside no arquétipo de Escorpião. Da tensão produtiva desses cruzamentos, ambos descobriram razões que reforçaram suas crenças e os mantiveram em suas trajetórias, que, antinômicas como são, não deixam de se complementar (caberia ainda mencionara os aspectos complementares das noções de inconsciente individual e inconsciente coletivo, que estão mais propriamente atreladas aos arquétipos de Escorpião e de Peixes, tal como já comentei aqui).

Resta saber como Freud terá reagido à ruptura que levou Jung aos brinquedos de construção. Algo pode ser deduzido da correspondência entre ambos – ele alegou ter sido “despojado da autoridade paterna” de que o próprio jovem Jung o investira anos antes –, mas acho que nesse caso ele deve também ter buscado no seu Sol taurino algum tipo de conforto. No mínimo, deve ter se recostado em uma poltrona aconchegante, procurando quem sabe um bom lugar pra ler um livro, sem outro propósito além dar maciez à sua tristeza. Freud, é bom lembrar, fez o caminho de volta de Escorpião a Touro (dos mistérios ocultos à verdades elementares) quando lhe perguntaram insidiosamente a respeito de seu prazer com o fumo: “Às vezes, um charuto é apenas um charuto”.

O que então me vem à mente é uma tela do pintor Konstatin Christoff que vi em uma exposição no Palácio das Artes de Belo Horizonte muitos anos atrás. Ela se chamava “Dr. Sigmund de sapatos novos” – e mostrava um Freud felizão e sorridente com um novo par de sapatos brilhosos que teria comprado. O efeito da pintura estava na associação de uma figura tão imponente e misteriosa como a de Freud com alegria de ter comprado um par de sapatos novos. É como imaginar Escorpião contente diante de um belo prato de macarronada.

Ou seja, talvez tenha sido assim que ele lidou com a perda da amizade do discípulo: como um bom e velho taurino. Talvez a materialidade das coisas e as sensações que elas provocam não tenham deixado nunca de ser para ele uma espécie de refúgio em tempos de crise, a base de sua existência e sua personalidade, o ponto central e solar a partir do qual irradiou seu brilho para as regiões sombrias da alma humana. Assim como a criatividade e os jogos foram para Jung.

Só queria ainda acrescentar que Konstantin Christoff foi um artista búlgaro que, aos nove anos de idade, foi parar com a família em Montes Claros, no norte de Minas Gerais. Formado em Medicina pela UFMG, trabalhou como cirurgião-geral a vida inteira, mas nunca abandonou a pintura, além de ter publicado várias ilustrações na imprensa brasileira. Mais um médico artista, portanto. Descobri isso agora, ao fazer a pesquisa para tentar descobrir a imagem do quadro de Freud com sapatos novos. É engraçado o tipo de coisa que descubro e que encontro ao juntar as peças para esses jogos que vou montando aqui.

Mas infelizmente não encontrei a imagem, então terei que pedir um esforço da imaginação de vocês para terminar. Visualizem aí, com candura, sem maldade: Dr. Sigmund. Uma poltrona confortável. Pernas cruzadas. Sorrisão na cara. Charutão na mão. Sapatos novos.

leão

Leão e o coração

Os arquétipos do zodíaco estão vinculados a diferentes partes do corpo humano, interagindo uns com os outros de acordo com relação entre essas partes, que refletem características dos signos a que estão associadas. Acho interessante nesse sentido o caso de Leão/Aquário, opostos complementares que regem o coração e o aparelho circulatório, respectivamente. Da mesma forma como o Sol, regente leonino, signo de fogo, depende do céu (Ouranos, regente aquariano, signo de ar) para difundir sua luz, o coração precisa das veias e artérias para fazer chegar o sangue a regiões distantes do corpo.

Mas o vínculo Leão-Coração vai além de tudo o que os outros signos conhecem. Porque aqui já não se trata apenas de uma parte ou função de nosso organismo, mas de um dos símbolos mais presentes em nossa cultura, de uma ideia, que está espalhada em nossa poesia, em nossa dramaturgia, em nosso cancioneiro. Quando falamos em “coração”, estamos falando em tudo o que existe de mais importante em nossa experiência anímica e afetiva. Trata-se de um caminho rápido para nos colocarmos em cena com a maior inteireza, ainda que ameaçada.

Corações machucados, corações dilacerados, corações despedaçados, não são exatamente moléstias que possam se resolver com um curativo, ou mesmo com uma cirurgia. “Você partiu meu coração” é um frase em que um pedacinho nosso é usado como se fosse o ser inteiro de cada um de nós. Não dá pra dizer que a mesma coisa aconteça com os pés (Peixes), com os ossos (Capricórnio) ou mesmo com a cabeça (Áries). “Você quebrou o meu fêmur” geralmente vai ser lido de modo mais literal mesmo – e talvez por isso seja um verso pouco promissor, poeticamente.

O coração, por outro lado, está presente também em tudo que fazemos com gosto, em tudo o que fazemos com entusiasmo, em tudo o que fazemos com amor. Por isso é pródigo na vitalidade que distribui: ele é a própria vitalidade, é aquilo que em nós pulsa de desejo e de prazer. Muito antes de ser compreendido como um órgão, o coração era um ritmo, que repercutia em todo o corpo e não se diferenciava dele. O coração sustenta em cada batida a vida do organismo, e portanto pode não ser exatamente uma parte dele, mas algo que está em todas as partes, através da reverberação do seu pulsar.

Escrevi antes, aqui, sobre como os símbolos do arquétipo de Leão têm esse poder de síntese e simplificação. Gosto de fazer esses links porque meu coração está, entre outras coisas, com a astrologia: amo escrever esses textos, estou inteiramente neles. É uma experiência leonina que tenho, pelo prazer que me dá. Imagino que o bom mesmo é ser leonino, ser esse coração cheio de vida que pulsa e distribui energia para todos ao redor. Mas já sou feliz em ter esse aspecto da vida em posso exercer minha leonice – através dessas pequenas pulsações literárias, que a partir daqui percorrem as veias aquarianas de um mundo interconectado.

capricórnio, escorpião, leão, virgem

Ditadores do zodíaco

O Grande Ditador (1940) / Dir. Charlie Chaplin

Acredito que todos os arquétipos do zodíaco conhecem um caminho próprio para o autoritarismo, tendo como ponto de partida inclusive as virtudes de cada um, mas em alguns casos esse percurso é mais evidente. Podemos imaginar como e porque uma ditadura se instala de acordo com as inclinações de diferentes signos específicos; o exercício será tão útil quanto uma horinha de academia para nossas articulações psico-astrológicas, com a vantagem de não deixar nossos bíceps fatigados.

Em Capricórnio, por exemplo, existe uma inteligente competência para lidar com assuntos mundanos; ele pode ser até mesmo convidado a exercer essa qualidade, assumindo posições centrais no governo sem o intermédio de uma escolha popular, em circunstâncias de desorientação coletiva; mas ninguém garante que vai abrir mão do poder obtido, depois que as coisas se acalmarem. A figura do capricorniano como um ditador é célebre, e em muitos casos decorre desse apego ao controle, a uma pretensiosa imaginação de que sem Capricórnio o mundo recai no caos e na bandalheira. Mas também não custa lembrar que o termo “ditador” foi criado na Roma Antiga para designar o magistrado escolhido para exercer um governo com prerrogativas emergenciais – e, portanto, não necessariamente presumia um golpe ou um regime despótico, mas uma espécie de janela para o restabelecimento da ordem institucional e para a retomada das práticas regulares do Estado.

Em Escorpião, como de costume, as coisas ficam “interessantes” (leia-se: ganham uma conotação sexual), e nesse caso porque o poder puro e simples – incluindo os poderes mais obscuros – é um tema de Escorpião. Aqui o fato de que determinados seres exercem força sobre outros, não porque merecem, não porque precisam, não porque desejam, mas simplesmente PORQUE SIM, é parte importante do mistério da vida. Em Escorpião estão os fenômenos – como a morte – que precisam ser aceitos, por mais que a gente os considere injustos ou despropositados (para mais detalhes sobre esse tema, tem esse texto). Em Escorpião está o Dragão, esta força da natureza que causa destruição e carnificina de acordo com seus humores, e que esconde um inestimável tesouro oculto em sua caverna (nesse caso tem esse outro). Por isso em Escorpião também está o Tirano: aquele que mata por prazer, que quer o controle pelo controle mesmo, para o exercício da manipulação e do ódio.

O problema aqui não está no fenômeno do poder absoluto e desumano em si, mas nessa sua manifestação mundana e humana através de um indivíduo. Ela torna pontual e contingente algo que tem uma dimensão cósmica inegociável, conferindo sempre um elemento de banalidade ao Mal Radical que exige respeito e reverência. O dragão é o Dragão – e o Tirano, no final das contas, é só uma pessoa. Além disso, todo autêntico poder escorpiônico tem sua origem no oculto e no mistério, e é de caráter experimental, alquímico, investigativo, como por exemplo aquele que se obtêm através do estudo da astrologia; não se tem licença para exercê-lo em assuntos de outra ordem, que os desvirtuam e rebaixam. Uma plutocracia é um governo dos muito ricos – os que acumulam tesouros em suas cavernas – ou de forças ocultas – aquelas que transitam nos porões de ditaduras. As duas coisas muitas vezes andam juntas. Num caso como no outro, as virtudes plutônicas da concentração de energia e da transubstanciação alquímica se manifestam em versões mais vis, as da concentração de dinheiro e a da manipulação conspiratória.

Agora, sobre Virgem, uma notinha rápida: nesse caso estamos falando menos de um personagem vultuosamente ditatorial, e mais de um possível exército de tiraninhos que regulam os mais ínfimos detalhes da vida cotidiana, uma máquina burocrática que continua funcionando mesmo quando destituída de uma figura central. Em O Processo, de Kafka, encontramos algo parecido, pois ali já não importa nem qual é a Lei que está sendo obedecida, mas que os protocolos do código processual sejam todos seguidos. Há também um elemento virginiano em Gilead, a locação da distopia de The Handmaid’s Tale, de Margaret Atwood, com seus cenários ordenados, seus figurinos repetitivos e suas aias submetidas a vários protocolos de conduta restritíssimos. A impressão do elo com Virgem é reforçada pelos tenebrosos ritos sexuais que ocorrem em ambientes assépticos, para a suposta salvação da humanidade. Como comentei com mais calma aqui, há algo dessa busca de uma cura através do sexo (por práticas secretas de funcionárias do estado) no caso das virgens vestais da Grécia Antiga. No entanto, nada mais distante do potencial de Virgem para a cura e a fertilidade do que a violência de Estado travestida em um ritual sacro, seja na Grécia ou em Gilead.

Por fim, temos o déspota clássico, o Rei-Sol, o Rei-Leão. Aqui o que impressiona não são as variações modernas da tradição, mas a persistência de manifestações tradicionais em roupagens que são sempre as mesmas. Em Leão, idealmente, a autoconfiança e a autossuficiência geram a admiração pública, mas não têm esse objetivo, até porque a alma leonina se contenta com a contemplação do próprio aspecto régio, não precisa que ninguém o confirme, e por isso mesmo a audiência confirma: reconhece o Rei que merece esse nome. Porém poucos merecem, e é frequente que o caminho para a tirania esteja na própria insegurança do governante, que sente depender de sua imagem de invencibilidade, na qual não acredita de fato, de modo que não se permite nenhuma exposição de fraqueza. Assim ele vem a assumir as medidas mais autoritárias e desproporcionais – isto é, motivadas pela insegurança que não permite ameaça ao seu frágil reinado.

Em Édipo Rei, por exemplo – a tragédia clássica de Sófocles que também já traduzida como Édipo Tirano –, a confiança da população de Tebas é provisoriamente conquistada por Édipo quando ele chega à cidade e soluciona o enigma da esfinge. No entanto, num cenário de novas mazelas, e diante das más notícias e presságios que chegam ao castelo, Édipo se mostra irritadiço, melindroso, e não demora a repetir (para o cego Tirésias, para o cunhado Creonte, para os mensageiros) algumas variações das frases que caracterizam a figura do orgulhoso ditador no arquétipo de Leão. “Cortem-lhe a cabeça”, “expulse o forasteiro”, “destruam-se as provas”: o que importa aqui é menos o ato em si do que o que ele revela a respeito do governante. Ele revela basicamente que o governante está com medo. E um governante leonino pode ser uma beleza de exemplo e inspiração para os que o seguem; mas um governante leonino amedrontado (dá para ver isso inclusive em seus traços, em suas expressões) está a caminho de tornar-se um déspota.

Leão é também um dos signos que tem maior dificuldade em reconhecer a própria sombra. Talvez por isso Édipo só venha a compreender que é ele o assassino violento, o filho incestuoso e a raiz dos males de Tebas diante de um terrível impacto trágico. Toda tirania está sujeita a uma força ou outra que em última instância será o seu fim – nem que essa força seja outro regime despótico, que se coloque em seu lugar. A história da humanidade às vezes parece mesmo ser uma sucessão de tiranias que se distinguem só pelo tipo: há as capricornianas, as escorpiônicas, as virginianas, as leoninas. Mas é perfeitamente possível, pelo menos teoricamente, que cada um desses arquétipos nos ofereça o quem tem de melhor, inclusive no plano político. Como disse, mesmo seus piores gestos só se tornam possíveis por causa das virtudes que têm o potencial de manifestar.

leão

O dia do Leão

Foto: Kedar Misani

Hoje é domingo, ‘dies solis’, dia do Sol, regente leonino. Domingo pode ser o mais excitante e o mais previsível de todos os dias. De forma semelhante, acho que o Sol é ao mesmo tempo o mais especial e o mais ordinário dos astros. Especial por sua posição de centralidade, sua visibilidade evidente, sua plena soberba diante dos corpos celestes ao redor. Ordinário porque é feito basicamente de luz, e luz é algo que existe por todos os cantos, é aquilo que produz todas as coisas. Afinal, como disse Goethe, como nosso olho reconheceria o Sol se ele mesmo não fosse solar?

O Sol, então, não é exatamente uma ‘coisa’, um objeto separado dos demais; é uma concentração de energia, do ‘ânimo’ que existe em todo o resto. E ânimo é uma palavra leonina, junto com prazer, paixão, brilho. Em Leão está a possibilidade de que tudo o que a gente faz seja feito com gosto, com deleite: pode ser jogo, pode ser trabalho, pode ser luta, pode ser preguiça. Leão é ao mesmo tempo mais e menos que um arquétipo; mais porque seus limites são indefiníveis como os do Sol, e menos pelo mesmo motivo, uma vez que isso faz dele um princípio animador presente em tudo e em todos.

Curiosamente, é mesmo difícil identificar mitos e narrativas que correspondam ao signo. Nada parece dar conta, e tudo vai um pouco além, como se qualquer história implicasse uma restrição ou uma ampliação indesejada. Há a imagem do Rei, assim como a do próprio Leão, mas elas podem muito bem permanecer intocadas em sua pureza por quaisquer outras especificações e detalhes. São o que são, se bastam, assim como o Apolo grego ficou conhecido não por suas complexidades, mas pela síntese de vitalidade e beleza que era capaz de oferecer num só olhar.

Há complexidades na alma leonina, é claro; seu orgulho não passa ileso por este mundo; o Rei às vezes reage a desatenções e contrariedades de um jeito meio exagerado; sua generosidade pode ser também acima do comum. Mas a alma – ‘anima’ – de todos nós contém esse elemento solar de um jeito ou de outro. O que chamamos de nosso ‘signo’, a propósito, é o nosso signo solar: a maneira como o Sol se manifesta em nós, de um jeito mais ostensivo e evidente, mais generoso mesmo, que os outros astros, e portanto de um jeito mais claramente identificável.

Assim, da mesma forma como a alma leonina contém outros astros – e sombras – misturados à sua luz, cada um de nós tem em si uma fonte especial de ânimo para realizar as mais distintas atividades: jogo, trabalho, luta, preguiça. O Sol em Capricórnio, por exemplo, é o Sol aparecendo em forma de cabra. O Sol em Áries é o Sol em forma de Carneiro. O Sol existe na casca no Escorpião, na pele do Sagitário, nos pratos da balança, nadando como um peixe. Em cada um desses disfarces ele encontra prazer, em cada uma dessas formas ele se exibe com gosto.

Porque pode ser trabalho, pode ser preguiça, pode ser luta, mas jogo sempre é. Lembrando que Leão é também o lugar da performance cênica. O Sol então brinca de ser cada uma dessas coisas, se diverte assumindo cada uma dessas personalidades, e, quando espera o aplauso no final, é porque o aplauso renova o ânimo, lava a alma, recompõe o combustível que queimou. Prazer, paixão, gosto: tudo isso gasta energia. Não é pedir demais que a gente devolva um pouco de energia ao Sol.

E, no final das contas, é tudo uma coisa só – aquele que aplaude e aquele que é aplaudido. Se o olhar humano foi uma maneira que o universo encontrou de contemplar a si mesmo, foi também uma maneira que encontrou de admirar a si mesmo. E, portanto, ele deve se considerar admirável, mas isso é só consequência da delícia que ele já sentia antes ao brincar e dançar sozinho, sem ninguém vendo, por puro deleite com as próprias habilidades.

Lembro de um professor de filosofia dizendo uma vez que a grande questão é porque existe algo, ao invés de nada. A resposta leonina para esta questão é: as coisas existem porque gostam de existir. O Ser sente prazer em Ser. O resto é silêncio. Ou melhor, é a música que toca em cada um de nós para que sejamos assim também.