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O retorno de Tchekhov

“Se quiser a minha vida, venha e leve-a”. Esta é a frase que Nina faz chegar a Trigórin no terceiro ato de A Gaivota. Trata-se de uma peça do escritor russo Anton Tchekhov, que teve uma importante reestreia em 17 de dezembro de 1898, após uma primeira temporada de pouco êxito em São Petersburgo; de modo que o autor, então morador de uma área rural, ficou feliz em fazer uma viagem curta para ter a oportunidade de assisti-la em sua versão moscovita e mais bem-sucedida. A passagem de Anton pela cidade, no entanto, foi marcada por um outro evento menos comentado dos registros da história literária. No mesmo dia em que assistiu a peça, ele se encontrou, em uma estação de trem, pela última vez, com Lydia Avilova. Anos antes, ela lhe enviara uma mensagem de conteúdo idêntico e por meio parecido ao utilizado por Nina no espetáculo. Agora, eles despediam-se um do outro em uma plataforma enevoada e gélida, enquanto ele via se afastar para sempre aquela que havia sido o grande amor da sua vida.

A cena traz toda a melancolia que podemos esperar do encerramento de uma relação intensa e intermitente, feita de momentos apaixonados e longos intervalos de distanciamento. Segundo o biógrafo David Magarshack, Tchekhov chegou ainda a cogitar que aquela história tivesse um final semelhante ao de “Sobre o amor” (um dos tantos contos que escreveu inspirado, ao menos em parte, por sua relação com Avilova), no qual há um beijo no desfecho. Mas Lydia permanecia casada, e além disso estava acompanhada de dois de seus três filhos na estação de trem. Ela sabia bem que o tempo deles tinha passado, que suas chances de ficarem juntos – se é que existiram – tinham sido desperdiçadas, quando ela se arriscou-se ao enviar para ele aquela mensagem, por exemplo, e ficou aguardando uma resposta que não veio. Ou seja: um beijo, àquela altura, seria um motivo de embaraço e desgosto, talvez até mesmo um gesto de desespero.

Ainda assim, é um pouco triste imaginá-los renunciando definitivamente às possibilidades que uma sentiram existir para ambos. Tchekhov e Avilova haviam se conhecido dez anos antes, na casa de um irmão do marido dela. Ela faria o seguinte relato sobre essa ocasião, no livro Tchekhov em Minha Vida (ela viria a ser também uma escritora conhecida no âmbito russo): “Como é difícil às vezes explicar ou mesmo perceber o significado de um acontecimento… Na verdade, nada aconteceu. Nós simplesmente olhamos um nos olhos do outro. E, ao mesmo tempo, quantas coisas havia naquele olhar que trocamos! Eu senti como se algo estivesse explodindo dentro de mim, como se um foguete tivesse sido lançado naquele momento, triunfante e cheio de energia. Tenho certeza de que Tchekhov sentia o mesmo, e nós olhamos um para o outro, surpresos e felizes”.

Sim, de fato: como é difícil explicar ou mesmo perceber o significado de um acontecimento. E quantas coisas pode haver em um só olhar. No caso dos dois, quando a gente acompanha os movimentos seguintes, a impressão é de que naquele instante – naquele foguete – em que “nada aconteceu”, já estavam implícitos os dez anos seguintes, em que eles não teriam um segundo de sossego na vida, porque se amavam, porque queriam estar juntos, porque precisavam ficar juntos, e quando, no entanto, não podiam ficar juntos, porque não havia como, não havia onde, não havia com que desculpa, não havia com que dinheiro; só havia o porquê.

É mesmo impossível não pensar nos finais alternativos que essa história poderia ter tido. A obra de Tchekhov, como comentei, está cheia deles. O próprio “A Dama do Cachorrinho”, um dos mais belos e conhecidos contos de todos os tempos, oferece algo nesse sentido, quando os protagonistas, ambos casados com outras pessoas, e ambos apaixonados um pelo outro, após muitos desencontros e hesitações, se veem afinal recusando qualquer outro caminho que não fosse sua parceria, mas ao mesmo tempo não conseguem se desvencilhar das amarras matrimoniais e sociais que lhe estão impostas (pelos costumes, pela moral, pela igreja, pelas circunstâncias financeiras).

“Tornava-se evidente para ambos que o fim ainda estava distante e que o mais difícil e complexo apenas se iniciava”, assim termina o conto. Anton e Lydia provavelmente sentiram isso em algum momento de seu relacionamento, essa solidariedade imiscuída na paixão (“amavam-se como gente próxima e querida, como dois termos amigos, como marido e mulher”, diz ainda o narrador do conto), porém, no mais das vezes, se desentenderam e desencontraram. Quando ela estava disposta a romper seu casamento e arriscar tudo com ele, ele normalmente dava para trás. Quando era ele que a procurava, ela não sentia confiança suficiente, ou já tinha se desiludido demais para deixar-se levar pelo entusiasmo.

As coisas para ele eram mais simples, certamente. Não era ele quem tinha toda uma vida pela frente para ser visto como a mulher divorciada e que largou o pai de seus filhos para viver uma aventura com um escritor. Em se tratando de adultério, aliás, cabe lembrar que havia então na Rússia uma elevadíssima autoridade literária, intelectual e religiosa, que já havia proferido uma sentença bastante clara a respeito de mulheres inconstantes que viviam casos extraconjugais. Estou me referindo a Leon Tolstói, estou me referindo a Anna Karenina. Não vou dar spoiler, mas vai lá ler o livro para ver como é que a história acaba.

O detalhe interessante, aí, é que não apenas Lydia estava condicionada em suas decisões e hesitações por esse tipo de ambiente, em que a figura de Tolstói sobressaía em toda sua magnitude e imponência. A psique de Tchekhov, em certo sentido, era inclusive mais vulnerável às suas pregações, pois, quando conheceu Lydia, ele próprio era um seguidor do tolstoísmo. Sim, isso existia na época: uma doutrina que defendia a retomada de valores camponeses e de uma vida comunitária simples, em contraste com a decadência dos sentimentos citadinos e suas sofisticadas tramas amorosas. No caso de Tchekhov, a pregação acontecia inclusive no âmbito doméstico, onde sua posição de arrimo de família, no convívio com irmãos alcóolatras e um pai cronicamente desempregado, lhe dava o crédito moral de que precisava para lançar os mais rígidos julgamentos no mundo ao redor.

Justiça seja feita, contudo: Tolstói era um escritor tão incrível que conseguia intercalar em suas imensas parábolas alguns dos mais perfeitos parágrafos da literatura, e as construía como quem ergue o que hoje são para nós algumas esplêndidas catedrais góticas (já não importa para que elas foram erguidas, o importante é que foram, e agora podem ser admiradas). Apenas com o tempo ele se restringiu ao papel do profeta e do patriarca que recebia os discípulos em sua célebre fazenda. Mas foi já quando as coisas estavam avançando nesse sentido que Tchekhov entrou em contato com suas ideias, de modo que, quando estava com vinte e poucos anos, passou por uma espécie de conversão religiosa, cujos traços são bastante perceptíveis em sua obra de juventude.

A obra precoce de Tchekhov, aquela que ele escreveu até os 30 anos, tem, portanto, duas facetas principais. A primeira são os contos brevíssimos e de natureza humorística que ele escrevia para ganhar dinheiro em publicações semanais, e que lhe rendiam o suficiente não apenas para seu sustento, mas também para o da família, acrescidos aos ganhos com a carreira médica. Na segunda categoria, estão as narrativas pedagógicas com que ele ilustrava o pensamento de seu mestre ilustre, Leon Tolstói, tal como em “O sapateiro e força maligna”, publicado em 1888, ou seja, quando ele estava com 28 anos.

Esse é o contexto que precisamos ter em mente para tentar entender a primeira reação de Anton ao encontro com Lydia. Permitir-se aquela paixão significaria para ele perder não somente o controle de si, mas também abandonar um terreno duramente conquistado durante os anos anteriores, tanto no que se refere à conduta ética que costumava ostentar, tanto no que trata da trajetória profissional e intelectual que vinha seguindo. Não que esse caminho e essa conduta estivessem lhe proporcionando muitas alegrias; muito pelo contrário, ele reclamava bastante de tudo o que sentia estar em desacordo com seus ideais. Mas era um lugar que ele já conhecia, que havia construído para si com esforço, e onde ele podia se sentir um adulto sério em com um propósito definido na vida.

Voltando então à ocasião do primeiro encontro. De imediato, tomado por sensações que não se encaixavam bem no papel de um tolstoísta digno e respeitável (a atração por uma mulher casada), ele recusou os próprios sentimentos. Porém, entrou em um período de enorme inquietude. Por um lado, não conseguia simplesmente fazer a vida voltar a um estado anterior; por outro, não conseguia dar nenhum passo adiante. Foi uma crise de proporções inéditas em sua personalidade e valores, até porque havia fracassado na escrita de um romance, gênero no qual ele precisaria ter sucesso para que suas conquistas literárias correspondessem à estatura ética que almejava. “Tudo o que escrevi até agora é apenas lixo em comparação com o que gostaria de ter escrito”, ele afirmou a seu editor em 1888. Bom, ele estava chegando aos trinta anos nessa época. Quem conhece Saturno e seus retornos sabe bem do que ele está falando.

No entanto, em meio à turbulência, ele acabou, sim, tomando uma decisão. Não exatamente uma decisão apaixonada, e é aqui que eu queria chegar, desde o começo: ele optou por renovar seu compromisso com ideais de transformação social, ao fazer uma viagem de longo prazo a Sacalina, uma ilha na Sibéria usada para o exílio de condenados pela justiça russa. O pretexto era de estudar as condições de vida na ilha (o livro resultante da viagem saiu no Brasil pela Todavia, recentemente). E, se é verdade que o gesto estava de acordo com a atitude científica e reformadora que Tchekhov vinha adotando diante das mazelas sociais da Rússia, parece-me que estava de acordo até demais. Não dá para descartar um componente saturnino enviesado, de sacrifício e repressão de qualquer possibilidade de alegria. Sacalina e Lydia eram os polos opostos de um eixo em que de um lado estava o moralismo de Tolstói, e de outro estava seu desejo e seu afeto individual. Tchekhov dobrou a aposta no primeiro.

Sei que tem gente aí agora perguntando: ok, Gustavo, até agora tudo certo, mas e o signo? E o signo, Gustavo? Primeiramente, vale ressaltar que estamos falando de um aquariano, o que, por questões técnicas, costuma ser motivo de disputa. Sim, Tchekhov nasceu no dia 16 de janeiro de 1860, e sim, é fácil relacionar seu realismo eventualmente resignado ao arquétipo de Capricórnio. Porém, singularidades do calendário russo no século XIX fizeram com que ele estivesse, por assim dizer, doze dias atrás do nosso, de modo que Tchekhov teria nascido quando o Sol estava em Aquário: os doodles do Google estão aí sempre no dia 29 de janeiro para não me deixar mentir.

Mas queria dar ênfase a outro ponto, no que se refere ao zodíaco. Pois, até aqui, estivemos o tempo todo tratando de uma fase da vida do escritor russo em que podemos reconhecer semelhanças com uma fase de nossas vidas quando, depois de 28 ou 29 primaveras, o inverno de uma experiência de autoquestionamento, bastante incisiva, costuma pedir ajustes e revisões em nosso comportamento. Nesse caso, o signo de Saturno no mapa de Tchekhov assume grande importância, assim como acontece com o signo de Saturno nos nossos mapas, uma vez que a Saturno (incluindo o signo e a casa onde está situado) relacionamos esse tipo de crise e seu desenlace. Pois bem: Tchekhov tinha Saturno em Leão.

Leão é o signo oposto complementar de Aquário. Nessa balança, se de um lado estão o impulso reformador, um comportamento mais cerebral e científico, e uma grande capacidade dedicação à coletividade e ao mesmo à humanidade como um todo, do outro estão o prazer com a vida, um espírito criativo e artístico, e a busca da autossatisfação, que se reverte em uma generosa capacidade de satisfazer. Ou seja: onde Aquário é trabalho, Leão é brinquedo, e onde Leão é desejo, Aquário é propósito. Nós todos temos ambos os signos em nossos mapas pessoais; a questão é onde, e como.

Então, podemos presumir que o aspecto leonino da personalidade de Tchekhov estava atravessado pela presença de Saturno na região de sua psique mais diretamente vinculada a atender suas vontades individuais. Funciona assim: onde nosso senhor dos anéis se situa, haverá normalmente uma espécie de atrofia das qualidades daquele arquétipo, que vai durar pelo menos até por volta dos 30 anos, quando a execução de um ciclo saturnino completo na vida do indivíduo torna possível (ou demanda) que essas qualidades sejam despertadas. Existe uma alternativa a esse padrão, que é o exagero ostensivo e forçado dos comportamentos associados ao signo de Saturno (o Saturno em Libra com uma vida amorosa agitada e vazia, o Saturno em Capricórnio com conquistas profissionais precoces até demais, por exemplo). No entanto, o mais comum é as coisas se passarem como se passaram com Tchekhov: as qualidades e comportamentos do signo oposto ganham destaque na primeira parte da vida, e o retorno de Saturno se torna um intenso puxão do outro lado da balança, chamando a pessoa a viver algo que ela negligenciou ou negou antes.

Nesse sentido, a posição do Saturno tchekhoviano é particularmente incômoda. Pois se, por um lado, Saturno se sente em casa em Aquário, signo do que é o regente tradicional (e onde se encontra no momento), por outro lado, sua força restritiva será mais desconfortável no signo de Leão. E, no entanto, será aceita, com a desculpa ou a justificativa de que o prazer e a alegria são sentimentos egoístas, que não correspondem às necessidades mais imediatas da sociedade, ou argumento parecido. Saturno em Leão (ou Saturno na casa 5) pode muito bem abrir mão de viver a própria vida amorosa em favor de algum ideal, de algum projeto, de algum bem maior coletivo, e pode também repetir esse gesto quando sentir uma íntima ameaça a essa persona trabalhosamente criada. Ou seja: ele pode até mesmo fazer uma viagem a uma ilha na Sibéria, se for para negar a si mesmo o que mais profundamente deseja e precisa.  

NO entanto, isso não quer dizer que Saturno seja mais fácil de lidar quando está em outra posição no mapa. Saturno é sempre Saturno. Reparem, por exemplo, em como o caso de Anton Tchekhov se parece com o de Franz Kafka, que, no momento exato da completude de um ciclo de Saturno em sua vida, encontrava-se massacrado por obrigações prosaicas e tarefas rotineiras de seu emprego burocrático. Mais de uma vez, expressou seu fastio com essa condição, que o impedia de escrever (Saturno em Gêmeos); mas, na hora de fazer uma mudança, escolheu acumular obrigações ainda mais fastidiosas ao seu cotidiano, tornando-se sócio de uma fábrica de amianto, dobrando a aposta nos flagelos que o oprimiam, e, por consequência, se vendo ainda mais enredado em tudo em que o impedia de avançar na vida (o que, no caso de Kafka, se confundia com fazer literatura).

Nada com que a gente não consiga se identificar, em pelo menos uma área da vida, em pelo menos uma época da existência: esse apego insistente no sofrimento, essa estranha luxúria da infelicidade. Todos temos Saturno no mapa, e com ele essa capacidade de tomar decisões que reforçam padrões de conduta, mesmo quando sua rigidez se torna um risco iminente ao próprio fluxo vital que nos alimenta.  Como disse o Felipe Charbel em uma resenha recente sobre os diários de Kafka, todo mundo tem sua versão da fábrica de amianto, “uma situação de desconforto que era melhor ter evitado, mas na qual nos envolvemos como resultado de uma escolha absurda, a pior decisão possível em um momento crucial da vida”. Acrescento: todos nós temos uma viagem a Sacalina.

Mas talvez a gente precise mesmo dobrar a aposta em algo que não faz mais sentido para descobrir o que faz. Talvez a gente só se disponha a realmente romper as amarras quando elas ficam apertadas no nível do irrespirável. Talvez o sapo proverbial, que se deixa morrer na água fervida lentamente, só consiga encontrar as forças necessárias para se libertar da fervura se for colocado numa panela de pressão. É justamente isso que o retorno de Saturno é: uma panela de pressão, na qual a fervura já não pode ser ignorada, e cujo chiado permanecerá em nossa cabeça enquanto não encontrarmos uma verdadeira saída para nossos dilemas, ao invés de simplesmente aumentar o fogo, como se isso fosse resolver alguma coisa (no caso do sapo astrológico, posso adiantar que ele encontra força e inteligência para isso em Urano; escrevi sobre isso em mais detalhes aqui).

Em outras palavras. Talvez a fábrica de amianto tenha sido indispensável para que, pouco tempo depois de se meter nessa enrascada (que lhe tomava ainda mais tempo e energia), Kafka virasse uma noite escrevendo O Veredito, que viria a ser conhecido o primeiro texto importante de sua obra. A propósito, esse é um ponto importante em que a astrologia e a psicologia de C. G. Jung (com sua atenção a narrativas e processos arquetípicos) se encontram: em ambos os casos, as coisas acontecem “em direção a”, com uma finalidade, que pode ser deduzida da natureza dos arquétipos e astros em questão, mesmo quando tratamos de movimentos aparentemente contrários ao desenlace da história. No final das contas, percebemos que eles fazem parte essencial da narrativa, que cumpriram um papel importante nela.

Nessa perspectiva, Kafka não seria Kafka sem sua fábrica de amianto, Tchekhov não seria Tchekhov sem a viagem a Sacalina. Em seu caso, o absurdo da escolha e o desconforto da situação foram bem descritas em suas reações à realidade da ilha siberiana – de cheiros desagradáveis e oficiais corruptos, de barracos insalubres e crianças maltrapilhas, onde as eventuais festividades eram tristes e até mesmo as cartas de amor eram “repulsivas”. É verdade que, com o relato onde estão estes registros, a viagem cumpriu o objetivo de revelar uma realidade ignorada em Moscou e São Petersburgo, e assim a dimensão mais aquariana e política do gesto não foi totalmente desperdiçada, por mais que o mero desgosto domine algumas passagens do livro. É também verdade que essa era apenas a intenção mais visível do ato, sendo que próprio Tchekhov o atribuiu à relação nascente com Lydia, em uma carta a Helen Lintrayov: “Eu simplesmente tinha que fugir a todo custo. Fugi de sensações muito fortes como um covarde foge do campo de batalha”.

No próprio relato da viagem, por outro lado, surge já uma nova faceta do escritor. Há trechos em que Tchekhov abandona o olhar moralista e científico, ou meramente desaprovador, em favor de uma visão mais compadecida e compreensiva da condição humana, a partir do que viu na ilha. Nesse ponto, ele percebe como seria despropositada seria a ideia de converter os condenados de Sacalina a uma doutrina absolutamente distante de seu cotidiano. Nesse momento, ele, através de suas palavras, concede aos seus ‘personagens’ um pouco do calor humano que lhes era negado tanto por seus carrascos quanto por seus supostos redentores, e abandona o posto do missionário que levava a palavra de Tolstói para as criaturas perdidas naquele rincão nos escanteios do mundo, começando então a falar com a voz de Anton Tchekhov, na qual sobressaía uma visão mais empática, que não deixa de ser uma expressão de Aquário, porém mais amadurecida e calejada pelas maldades deste mundo.

De modo que, em retrospectiva, a viagem a Sacalina veio a ocupar um lugar importante na trajetória pessoal de Tchekhov, embora no sentido contrário ao de suas motivações iniciais. Um forte indício disso é o fato de que, logo após o retorno da ilha, seu primeiro movimento foi ir atrás de Lydia em São Petersburgo, declarando-se então pela primeira vez para ela, que já havia demonstrado antes disposição para renunciar a tudo para ficar com ele. Mas a essa altura era ela que já não sentia ter forças para tanto, e começaram aí os muitos anos de desencontros e hesitações, incluindo uma ocasião na qual conseguiram ficar juntos e sozinhos, mas foram surpreendidos pela visita inesperada de dois amigos, bem como o episódio em que, tomada por uma onda de paixão em confiança, Lydia enviou a Tchekhov um exemplar dos Contos Reunidos dele, com um bilhete: “Página 267, linhas 6 e 7”. A referência era a um trecho onde se lia: “Se quiser a minha vida, venha e leve-a”.

Porém, quando essa mensagem o alcançou, Tchekhov estava já acometido por uma enfermidade que, a longo prazo, viria a ser fatal, e não podia ir buscar a vida que ela lhe oferecera. Mas a transformou em ótima literatura. É importante então notar que nenhum dos tristes desdobramentos dessa história elimina a importância criativa e vital da mudança ocorrida em 1890, quando Tchekhov retorna da viagem. Podem reparar: a partir daí, as parábolas moralizantes passam a ser substituídas por narrativas em que a percepção da fragilidade da condição humana ocupa um papel central, em momento algum ultrapassado pelo julgamento sumário. As infinitas e ao mesmo tampo tão precisas nuances entre o trágico e o cômico de que talvez ele foi capaz surgiram aí. O Tchekhov que a gente mais conhece e mais estima como escritor aparece nesse momento, após o encontro com Lydia, após a viagem a Sacalina, após o retorno de Saturno.

Ou, como afirma David Magarschack, para encerrar: “A viagem em si mesma, que desconcerta seus biógrafos como desconcertou sua família e amigos, permanece um completo mistério a não ser que, como observa um recente estudioso russo, ela tenha se dado ‘por uma profunda razão pessoal’. E esta razão apenas poderia ser seu amor por uma mulher jovem e casada, que ele escondeu de todos como sempre escondia seus sentimentos íntimos do resto do mundo; pois, durante a fase tolstoiniana de sua vida, Tchekhov apenas poderia encarar uma situação como aquela com desgosto e repulsa. Como seu amor por Lydia era muito forte para ser controlado, ele resolveu fazer uma longa e árdua viagem para curá-lo. Mas o grande paradoxo é que a viagem a Sacalina produziu o efeito oposto: ela não o curou de seu amor – ela o curou de suas obsessões tolstoinianas”.

Ou, traduzindo para termos zodiacais: ela não matou o Leão que ele descobriu existir dentro de si, e sim deu a ele o alimento que vinha sendo negado. O covarde que fugiu do campo de batalha voltou cavalgando a fera selvagem da paixão que o afugentara. Nascia assim o autor de algumas das mais belas – e tristes, e difíceis – histórias de amor que conhecemos. O Saturno de Tchekhov nunca deixou de estar lá, em Leão, e haveria sempre uma espécie de sombra (realista, resignada) em sua visão do destino dos apaixonados. Porém, para que as histórias de amor simplesmente comecem, é preciso uma boa dose de otimismo e entusiasmo leonino na história. Acho que foi isso que Tchekhov sentiu ao voltar da ilha e procurar Lydia naquele ano. Por um momento ele foi puro gosto pela aventura amorosa, desejo de conquista, afirmação da vida, brilho no olhar. Se terminasse aqui (e por que não terminá-la?) essa história teria sem dúvida um final feliz. Ou, pelo menos, um final aberto, no qual pudéssemos intuir uma chance de felicidade.

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Sonho de uma noite de Leão

Firedreaming | Malcom Maloney Jagamarra

Há uma descrição da cosmologia dos aborígenes da Austrália central segundo a qual a criação se divide basicamente em duas partes. Na primeira existe o “tempo do sonho”, dreamtime: uma dimensão eterna e primordial, também chamada de Alcheringa, com paralelos em outras culturas, mas que nesse caso ganha um aspecto mais especificamente onírico, não no sentido de tratar de coisas que não existem, mas presumindo que qualquer coisa, para existir, precisa ser sonhada antes. O segundo momento da criação é o canto. Ele implica que não bastou sonhar o mundo para que ele passasse a ser: foi preciso cantá-lo também, e só partir daí ele passou a ter os contornos que tem, de modos que suas paisagens e relevos são canções. Isso mesmo: cada montanha, cada cânion, cada riacho, seria então uma espécie de partitura, inscrita na superfície da terra através da própria voz de criaturas ancestrais, que pela primeira vez os percorreram enquanto cantavam o mundo. 

Acho que são os infinitos os motivos de encanto com essa ideia. Um deles está mencionado em O Oráculo da Noite: a história e a ciência do sonho, de Sidarta Ribeiro (2019), para quem a Alcheringa permite “uma experiência tão plena e aumentada, que voltar à vigília é como regressar a um sonho e adormecer é como despertar”. Também são muitas as possibilidades de expandi-la com analogias e especulações, como fez Bruce Chatwin em seu Songlines (1987), em uma mistura de ensaio e ficção que confere maior ênfase ao ato de “cantar a terra”, segundo ele continuamente repetido por tribos nômades em suas migrações. Nas duas leituras, o enfoque é alterado, mas a interdependência do sonho e do canto permanece, ao mesmo tempo em que a autossuficiência de ambos juntos se faz sentir. Nesse sentido, trata-se de uma cosmogonia incrivelmente exata e completa; nem por isso há guerras, disputas nem labutas envolvidas na criação do mundo; ele emergiu da imprecisa dimensão primordial, mas ganhou a precisão de seus traços geológicos através das melodias que então foram entoadas.

Na parte que me toca, chama a atenção que um cosmos assim gestado precisaria apenas de dois arquétipos zodiacais para ganhar existência. O primeiro deles é Peixes, pois é aí que o sonho se aloja, embora tradicionalmente o estereótipo do pisciano sonhático tenha mais a ver como uma iludida falta de senso prático do que com o potencial ato de criação de tudo que existe. Mas sim, podemos presumir que é das águas que surge do todo o resto, sobretudo quando supomos que basta entoar o sonho com a criatividade do canto para torná-lo real. É aí que entra Leão, pois o canto é arquetipicamente leonino, como são todas as ações dramáticas e performáticas que envolvem algum tipo de prazer ou brincadeira, como por exemplo – e por que não – a própria criação do cosmos.

Aliás, talvez exista alguma mitologia segundo o qual o mundo em que vivemos surgiu por ter sido um dia brincado por crianças, a partir de sua imaginação, e essa mitologia seria igualmente leonina e pisciana. Bom, talvez tivesse com componente de Gêmeos também. Mas não vou estender esse texto para muito além daqui. A ideia é justamente entretê-los com a possibilidade de um universo que dependeu apenas dessas desses dois atributos para brotar: a imaginação e a criatividade, o sonho e o canto. Percebam como cada um deles sozinho possui ainda algo de unilateral e insuficiente, e que o modelo fica meio capenga se tirarmos uma de suas pernas; juntas, porém, elas me fazem sentir que as coisas podem ter sido mesmo assim, e que podiam inclusive ter parado por aí. No que dependesse só de Peixes e Leão, acho totalmente possível uma divisão do trabalho em que cada um teria uma dessas tarefas, e as duas juntas teriam sido responsáveis pelo surgimento do universo. O que veio depois é lucro.  

Ou prejuízo, é claro, dependendo do ponto de vista. Pois isso inclui a própria ideia de “trabalho”, e só mesmo um capricorniano para mencionar tal palavra (pior: “divisão do trabalho”, Capricórnio com Saturno em Virgem) em um texto sobre uma cosmogonia tão alheia a esse conceito. Afinal, estamos falando de um mundo cujas estruturas e linhas gerais são de responsabilidade dos sonhadores, dos artistas e dos brincantes, que são os verdadeiros sustentáculos de tudo o que viria a seguir, e que não teria vindo se não tivesse sido sonhado e cantado. Estamos falando de um mundo em que a formiga depende da cigarra basicamente para existir, e onde o ócio e arte não são recompensas pelos esforços de um longo dia de canseira, mas sim as premissas onde tudo se inicia. Parafraseando Sidarta Ribeiro, seria um mundo onde ingressar na esfera do sono e da diversão seria o movimento mais sério que você teria a fazer.

Agora, se você parar para pensar, nada impede que as coisas sejam mesmo assim. E que cada um de nós, assim como as estrelas, os rios e os leopardos, seja uma canção que está sendo cantada nesse momento. Algumas canções são complicadas, outras são tristes, outras parecem não fazer sentido algum, e tem sempre as que dão bastante trabalho (ih, fiz de novo, foi mal). Mas nem por isso deixam de ser música, assim como as ravinas mais estreitas e os penhascos mais exaustivos não deixavam de ser o mundo tal como cantado pelos ancestrais dos aborígenes australianos, que o olhavam à sua volta como se contemplassem um espetáculo, e entendiam que só mesmo aqueles que sonham poderiam ter executado uma tão esplendorosa realidade.

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Bons ventos

[Desenho: Bia Callegari]

Os arquétipos astrológicos contam muitas histórias, e uma delas é a que se narra a partir da sucessão dos signos fixos no zodíaco. Ela começa com a energia impessoal de Touro: força de sustentação dos ciclos da natureza, feita de momentos de esforço consistente e descanso merecido, onde acontecem as renovações regulares com as quais o corpo se confunde com cosmos. Touro é aquilo que garante o crescer e o florescer periódico das plantas, e aceita com dignidade seu perecimento, porque entende que ali já está contida a semente de um reinício. Touro é a constância da vida e da morte, repetindo-se indefinidamente. Não estamos falando necessariamente de uma vida ou de uma morte quando falamos de Touro.

Uma vida acontece quando um eu se isola e se reconhece nesse processo. A esse eu chamamos também de Sol, que resplandece em sua permanente juventude, independente de tudo e ao mesmo tempo centro de todas as coisas. Um centro. A energia que emana do Sol é a energia que emana de Leão, cuja vitalidade desconhece os ciclos do tempo orgânico e terreno, e se esbanja no derramar-se inesgotável do verão como se não houvesse amanhã. Porém sabemos que há, por mais distante que possa ser. Sabemos que o inverno há de vir e que o próprio Sol um dia vai acabar, porque sua vida é um evento no universo, ou melhor, um evento do universo, como todos nós somos. Algo que se destaca a ganha existência própria apenas por um instante, ainda que nesse instante exista algo de eterno – como as estrelas que brilham no céu noturno mesmo depois de terem se apagado.

De modo que a verdadeira consciência da finitude do corpo e da noite da alma se dá no âmbito de Escorpião. Essa consciência por si mesma causa transformações que não estavam no roteiro leonino. Escorpião é a descoberta de uma fissura, uma feiura, uma falha, na superfície brilhante de si enquanto Sol, e a prospecção das profundidades ocultas que agora pedem para ser integradas à personalidade. Esse processo exige a morte do eu que havia antes. Uma morte. Ela se dá em uma catarse, em uma espécie de gozo, que significa a dispersão de energias longamente represadas. Em Escorpião acontece o encerramento abrupto de uma história que por muito tempo se demorou nesse fim – e quando ele chega nunca é simples ou fácil, mas é sempre uma forma explosiva de cura e de libertação.

Enfim, atravessada a crise, a força dos fixos torna-se novamente impessoal, porém agora não mais atrelada aos ritmos do corpo, que já foi delimitado, dilacerado e curado. Aquário é a luz que brilha quando todas essas energias se dissipam no céu, como se fossem vento; é a matéria que se deixa e dissolver e espalhar quando atinge a perfeição provisória do círculo; é a libertação dos limites da forma, com a consciência do espaço ilimitado. Aquário percebe que todos os sóis do universo coabitam um mesmo espaço, e nele nascem e nele morrem nos mais diferentes formatos e tamanhos, sendo que juntos formam uma rede de sóis interligados onde todos brilham juntos e nenhum deles está no centro.

Júpiter acabou de ingressar em Aquário, onde vai permanecer por cerca de um ano; Saturno já está lá há alguns dias, e fica durante dois anos e alguns meses; em 2023, Plutão chega para uma estadia de mais de uma década. Cada vez mais essas energias tão terrenas ou telúricas vão ganhar ares aquarianos, e a capacidade de disseminar-se em todos os recantos do cosmos sem ter origem em nenhum deles especificamente. Que esses bons ventos nos levem.

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Eu e meu irmão

Foto: Ramon Lisboa | EM | D.A. PRESS

Estava aqui pensando em estratégias para lidar com o isolamento, em como há práticas simples que podem ser valiosas nessas horas. Coisas que rendem assunto, tomam o tempo e abrem insólitas janelas em espaços confinados. Aí me lembrei de uma época em que eu e meu irmão costumávamos contar um para o outro pelo telefone de manhã os roteiros dos filmes que víamos de madrugada. Bom, a gente ainda não era irmão nessa época. Quer dizer, nós éramos, já havíamos decidido ser irmãos gêmeos inclusive, mas por outro lado éramos menos irmãos do que a gente ia ser. Complicou né? Essa história é meio tortuosa mesmo, e ao mesmo tempo é simples. Não vai dar para seguir adiante sem contá-la. Vamos deixar o confinamento e suas aflições de lado por enquanto. A partir daqui esse fica sendo um texto sobre meu irmão e eu.

O começo é fácil de entender. No papel, nós somos primos. Meu pai e a mãe dele são irmãos. Meu pai se casou com minha mãe mais ou menos na mesma época que a mãe e o pai dele se casaram, e logo em seguida ambos casais tiveram filhos, de modo que nós dois nascemos com alguns meses de diferença (ele é o mais velho). Creio que ambos os casais se separaram mais ou menos na mesma época também – ficaram juntos uns poucos anos – de modo que nós permanecemos filhos únicos durante um tempo. Os outros primos de nossas famílias tinham irmãos. Nós não. Esse foi um dos motivos pelos quais decidimos ser irmãos um do outro. E, para ganhar dos outros primos em termos de irmandade, já que gente saiu perdendo, decidimos ser mais do que isso, decidimos ser irmãos gêmeos.

Os outros motivos dessa definição – talvez os mais importantes – foram: um, a convivência, graças à proximidade física (fomos vizinhos durante um tempo, os casais do parágrafo anterior compraram apartamentos um de frente pro outro), e, dois: o imponderável, porque não dá para medir ou explicar a afinidade que sentimos desde o começo. Na minha lembrança aliás a gente nunca não-foi-irmão; preciso fazer um esforço para recordar os detalhes de antes de a gente ser. Mas, como eu disse, a gente ia ficar mais irmão ainda depois. É aqui que o enredo se complica.

Aconteceu que, cerca de uma década após as separações de nossos pais, a minha mãe e o pai dele se casaram. Não se confundam, nem se preocupem, não há nada de incestuosamente trágico nessa história; lembrem-se que os irmãos eram o meu pai e a mãe dele. A minha mãe e o pai dele então foram concunhados durante um tempo, perderam o contato (pelo menos é o que consta nos autos) durante muitos anos, reencontraram-se e se apaixonaram um pelo outro depois. Resultado: nós continuamos primos para todos os efeitos legais, mas passamos a morar juntos, com nossos pais que eram casados entre si. Já não éramos irmãos apenas por opção. Havia uma boa dose de destino também.

Esse casamento é uma história à parte, com amizades rompidas, novas suspeitas e antigas ilações. Foi um baque na tradicional família mineira (embora não comportar esse tipo de arranjo seja o menor dos problemas da tradicional família mineira, que em suas boas versões até os comporta; enquanto nas outras as perversões são tão mais sutis, que elas se tornam imunes a esse tipo de golpe). Porém, de nossa parte, minha e do meu irmão, não havia preocupação com o escândalo nem gosto em fomentá-lo. Nós estávamos ocupados demais curtindo adoidados a vida adolescente em uma Belo Horizonte que cujas ruas conquistávamos junto com um bando de amigos adolescentes também, e que tínhamos conhecido não na família, nem no colégio, nem no clube, mas na rua mesmo. E nós estávamos curtindo adoidados a vida de irmãos.

É verdade que nesse meio tempo eu e ele havíamos já ganhado irmãos de outros casamentos de nossos pais (a propósito, acho meio-irmão um termo horroroso). Até peguei para mim, de forma ainda mais ilícita e sorrateira, os irmãos que ele ganhou no segundo casamento do pai dele (essa é também toda uma outra história, que merece ser contada à parte, assim como a dos irmãos que ganhei dos outras casamentos do meu pai, mas aí a trama se enreda de maneira mais estranha e meticulosa, remetendo a segredos familiares muito bem guardados – acreditem, estou contando a parte descomplicada). Vamos então voltar àquilo que já consegui esclarecer: estamos eu, ele, minha mãe e o pai dele vivendo juntos como uma família feliz e serena e saudável. Ou melhor, talvez não tão serena, nem não tão saudável assim.

Acontece que nessa época a gente bebia muito, fumava muito, e topávamos experimentar quaisquer produtos orgânicos ou químicos que apareciam na nossa frente com a promessa de alterar nossos estados de consciência. Muitas vezes nós quatro juntos, em família. As compras de supermercado incluíam garrafas de conhaque e pacotes de cigarro que constavam no orçamento doméstico, em uma categoria prioritária, junto com o arroz e o feijão. O outro componente importante de nossa convivência era a música. Chico Buarque, Legião Urbana, The Doors, Velvet Underground, Tom Waits e Joni Mitchell viviam uma daquelas bandejas em que cabiam um seis CDs, e que ficava rodando lá em casa o dia inteiro.

Talvez, por razões óbvias, eu não me lembre de alguns detalhes dessa época. Sei que minhas notas na escola caíram muito e que terminei o ensino médio no sufoco. Meu irmão se enrolou ainda mais nesse aspecto. Mas tampouco isso era motivo de preocupação. A adolescência é uma etapa leonina e autocentrada da vida, que, dadas as condições certas, pode ser dedicada ao prazer como nenhuma outra que vem antes ou depois. Aliás, ela põe em cena os temas do eixo de opostos complementares Leão e Aquário – a sensação de ser especial e o desejo de integrar um grupo – de tal modo a criar conflitos intrincadíssimos. Mas pode também encontrar uma espécie de solução provisória para a conciliação desse eixo, e acredito que foi isso que nós vivemos.

Sim, foi isso: porque nós estávamos brincando. E a brincadeira, pela maneira como nos envolve em um entusiasmo inconsequente, é justamente o tipo de experiência capaz de articular essa negociação entre o atípico e o ordinário. Havia brincadeiras perigosas, é claro. Mas normalmente não deixavam de ser brincadeiras, sobretudo aquelas tardes conversando e compondo as canções da banda que nunca existiu, aquelas reuniões ao mesmo tempo sérias e hilárias de planejamento dos zines que nunca rodaram, aquela nossa capacidade de passar uma noite inteira dançando e pulando e gritando em um galpão mal ajambrado de Santa Tereza, para depois ver a manhã nascer com deslumbrado encanto, ou com indisfarçável exaustão, enquanto fazíamos a pé o caminho de volta pra casa, ou comíamos pasteis em uma lanchonete do centro da cidade.

Até mesmo o lugar que viria a ser um de nosso preferidos na cidade, uma boate chamada A Obra, era uma espécie de canteiro de obras de mentirinha, ainda que fosse um inferninho de verdade. Ainda é, por sinal, e a gente espera que ela sobreviva a esse perrengue do vírus. Outros lugares importantes eram o canteiro central da avenida Getúlio Vargas na Savassi, o edifício Maletta no centro, a Bródei em Santa Tereza: éramos capazes de percorrer esses lugares numa só noite como quem salta as casas de um jogo de tabuleiros, depois de tirar uma carta como “tome três flamejantes de uma vez na Casa da Vovó”, ou, “salte três casas para chegar logo ao Prado porque tem um amigo lá que está salvando”, ou, “você chegou no fim da linha, vá tomar a saideira no Mercadão”.

É aqui que eu queria chegar. Porque foi aqui que, mais do nunca, eu e o Érico nos tornamos irmãos: brincando juntos na cidade à noite. Rindo muito. Viajando um tanto. Cantando às vezes. É verdade que a gente já havia brincado muito antes na infância, mas acho que não com a mesma intensidade e a dedicação exigidas por uma adolescência movimentada e festeira. Pelo menos de minha parte, posso dizer que foi ali que ganhei para o resto da vida uma força e uma confiança que de modo algum possuía antes. Acho que vi isso acontecendo com outros amigos também. Tem gente que se ferra muito quando é criança, por conta das estruturas familiares ou da falta delas, mas que com sorte encontra depois nos amigos “da rua” uma fonte genuína de segurança e fraternidade, mesmo que depois essa configuração se disperse. Freud que não nos ouça, mas acho que mesmo quem sai dos primeiros anos de vida como o ego estraçalhado pode acabar tendo uma segunda chance. E, se me permitirem critérios um pouco mais relaxados, eu diria que ganhei não um, mas muitos irmãos nessa época.

Por outro lado, tive sorte incrível de que meu irmão mais próximo na rua era também meu irmão em casa, e que na adolescência minhas circunstâncias familiares eram também uma bem-vinda bagunça, parecida com a da rua, de tal modo que a vida em casa se confundia com a vida fora dela. Era tudo uma festa só. Naturalmente, quem tiver um pouco de familiaridade com roteiros de filmes de bandas de rock como The Commitments ou Quase Famosos (que mencionei outro dia nesse post aqui), ou ainda do tipo de Boogie Nights, já percebeu que, uma vez alcançado o ápice desses prazeres irresponsáveis, as coisas tendem a ir ladeira abaixo. Foi o que aconteceu.

O casamento da minha mãe e do pai do meu irmão durou poucos anos. Uns dois ou três. Parece que foi mais. Deu tempo de fazer muita besteira. Vou poupar vocês dos pormenores do final, e quem sabe como termina esse tipo de filme pode imaginar. Eu e meu irmão, porém, fugimos ao princípio entrópico por uns tempos, e conseguimos prolongar um pouco nosso clímax, embora com um pouco mais de bagagem sobre os revertérios da vida. Não nos separamos; fomos morar juntos num apartamento no centro, onde nos tornamos mais e mais irmãos, por força de uma convivência em que, aos porres homéricos e delírios idílicos, foi acrescentada a solidariedade nos períodos de grana curta, a atenção nos momentos de ansiedade extrema, o cuidado nos momentos de saúde instável. Aí já não dependíamos de ter pais casados para reforçar nosso vínculo. Não dependíamos nem de ter pais irmãos para nos sentirmos familiares. A essa altura acho que a gente nem lembrava mais que um dia havíamos sido primos.

Isso durou mais ou menos até eu vir para o Rio, quando me casei pela primeira vez. Mas ainda cheguei a voltar para lá, para o mesmo apartamento, depois da separação, uns sete anos depois, na sequência do meu retorno de Saturno; ele recebeu o tinha sobrado de mim para revivermos um pouco a adolescência perdida. Pouco depois foi ele que se casou. Hoje ele mora com a mulher e um filhinho lindo – meu afilhado – que não precisa ficar sabendo de nada desses maus exemplos do pai que estou registrando aqui (fica combinado assim: essa postagem se autodestruirá em cinco minutos).

Agora, rumando já para uma conclusão, por que é que eu resolvi contar essa história para vocês mesmo? Bom, em primeiro lugar teve o pretexto de explicar o motivo pelo qual meu irmão não era ainda totalmente meu irmão, ainda que já fosse meu irmão gêmeo, quando a gente costumava contar um para o outro os filmes que a gente via de madrugada. Isso começou quando tínhamos uns dez anos, eu morava na casa da minha mãe e ele na dele, e passamos a ficar acordados até mais tarde nas férias para assistir o Corujão. Era falando disso que eu ia começar o texto dessa semana.

O outro motivo pelo qual acabei pegando esse desvio está implicado aí. Eu gosto de contar histórias. Podem ser histórias da minha vida, roteiros de filmes que assisti, causos inventados ou acontecidos. Já tive problemas com isso quando me mudei para o Rio, e demorei a perceber que “contar histórias” não é uma prática incorporada à sociabilidade daqui como é lá em Minas Gerais. Lá em Minas, você pode muito bem estar em uma conversa animada em um bar que, se você de repente disser, “nó até lembrei de uma história aqui”, as pessoas vão parar e te escutar, o tempo que for. A história nem precisa ter um final grandioso. Você pode fazer as digressões que quiser. Basta manter os copos de cerveja cheios e ter uma tarde relativamente vazia.

Aqui no Rio, por outro lado, se você for reter a atenção das pessoas em uma mesa de bar por mais de dois minutos, elas vão entender que tudo aquilo só pode ser uma preparação para o desvelamento do significado último do universo. Ninguém fala tanto tempo de uma vez só se não tiver algo de inédito e assombroso para revelar. Em suma, demorei um tempo para perceber que eu vivia decepcionando as pessoas, até mesmo quando contava histórias interessantíssimas do meu ponto de vista como essa minha e do meu irmão. Hoje sei que, quando eu falava“nó até lembrei de uma história aqui”, as pessoas ao redor se entreolhavam

com um misto de enfado e desespero que dizia: “Putz. Lá vem. No mínimo meia hora”.

Costumo dizer que me tornei professor em parte por isso: se eu me lembrar de uma história durante uma aula e resolver contá-la, meus alunos vão ter que ouvir, alguns vão até fingir que estão interessados. Em termos de público, não preciso de mais do que isso. Talvez, pensando agora, eu tenha criado esse blog no mesmo espírito, com vantagem adicional que aqui eu nem preciso ensinar os conteúdos do semestre, e se quiser posso enxertar as narrativas que quiser em um texto sobre Gêmeos ou Netuno, assim como posso enxertar uma coisa ou outra sobre Escorpião ou Mercúrio num texto que não tenha nada a ver com isso.

Esse texto, aliás, ia ser sobre Câncer e Sagitário, ia ser sobre O Beijo da Mulher-Aranha do Manuel Puig, ia ser sobre o confinamento e a arte de contar histórias no confinamento (o romance do Puig se passa quase todo dentro de uma cela, mas um personagem está sempre contando enredos de filmes para o outro, de tal modo que o horizonte se abre de forma infinitamente vasta para quem está lendo). Acabou não sendo um texto sobre signo nenhum em particular, acabou sendo um texto sobre meu irmão. Para quem está se perguntando: ele é pisciano. Mas tampouco estou falando da relação especial que acredito existir entre Peixes e Capricórnio, e que nossos signos solares bem representam. Isso também vai ficar para outra hora.

Acho, enfim, que a verdadeira motivação do dessa semana é um tanto quanto óbvia, e ao mesmo tempo ficou encoberta por tudo que veio antes. Vou pedir a vocês mais cinco minutinhos para desenvolver esse ponto (aprendi esse tipo de polidez aqui no Rio; se fosse lá em Minas, eu dizia que o texto termina logo ali). O fato é que, como provavelmente é o caso com muita gente, a quarentena me pegou num momento em que estou perto de algumas das pessoas que mais amo, mas longe de outras. Já está bom demais que seja assim, de todo modo a situação proporciona sentimentos contraditórios. Por um lado, sou grato pelas circunstâncias da minha vida atual, pois já passei por períodos na vida em que ser surpreendido por uma pandemia significaria estar sozinho por longos meses sem ninguém para me ouvir ao vivo contar histórias. Nas atuais circunstâncias, portanto, sou feliz por estar casado com uma mineira que não só escuta minhas histórias, como conta as dela também.

Nossa relação é aliás em parte construída sobre isso: as histórias da infância dela no Canadá, as histórias da minha adolescência em Belo Horizonte. Entre tantas outras. Mesmo ficando só nesses recortes, é incrível como não param de brotar histórias. Mas agora, mais do nunca, isso tem acontecido, e acho que não só aqui em casa, pois o confinamento parece favorecer as dinâmicas da memória, abrindo janelas dentro de janelas em direção ao passado, uma vez que as voltadas para o futuro estão tão bloqueadas e sujas. Mas é interessante como as boas lembranças de épocas felizes têm o poder de renovar o ânimo para as que virão, e o fato de que algo foi um dia possível parece indicar que pode ser possível novamente. Não estamos precisando de muito mais do que isso para plantar umas sementinhas de otimismo, e é por aí que ia ser o argumento sobre Sagitário e Câncer.

No entanto, acabei escrevendo um texto sobre meu irmão, e aproveitei para contar uma história só pelo prazer de contá-la mesmo. Mas também porque a vida inteira tive a imensa sorte de ter uma resposta fácil para uma pergunta difícil e hoje tão imediata, que até outra dia não fazíamos a nós mesmos, por falta de motivos para que sequer a pensássemos, e que agora parece ser tão definidora na vida de cada um. Enfim, não me lembro de um instante sequer na vida em que eu não responderia rápido a questão sobre como quem gostaria de passar uma quarentena. Lógico que hoje outras pessoas estariam na lista, e que, havendo a possibilidade, eu ia querer é levar um mundão de gente para uma sitiozinho no interior de Minas, onde a gente pudesse passar o tempo contando causos um para os outros, à salvo da pestilência, em uma espécie de Decameron roceiro e capiau com cachaça, tropeiro, risos, fogueiras e serenatas.

Mas, mesmo nas épocas em que estive mais sozinho, mesmo nas épocas em que estive mais arredio ao contato humano, mesmo na época em que deliberadamente afastei as pessoas de mim ou elas se afastaram mesmo sem querer, eu não pensaria duas vezes em responder à pergunta hipotética que um hipotético interrogador me faria, sobre a remota possibilidade de um dia termos que nos manter isolados por causa de um vírus, e com quem escolheríamos passar esse tempo se nos fosse dada a oportunidade: “Meu irmão. Quer dizer, ele é meu primo. É uma longa história. Quer que eu conte? Não? Juro que é rapidinho. Ah, tudo bem. Correria né. Entendo. Mas anota aí. Se eu pudesse escolher, nesse negócio de quarentena eu ia querer estar com meu irmão.”

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Dr. Sigmund de sapatos novos

Em suas memórias, o médico suíço e leonino Carl Gustav Jung trata da ruptura de sua amizade com o neurologista austríaco e taurino Sigmund Freud como uma experiência muito difícil e dolorosa. Jung e Freud entraram mais abertamente em conflito em torno de 1910, por causa de divergências na evolução do pensamento de ambos, e sobretudo por aquilo que Freud considerava uma excessiva inclinação para o “ocultismo” nos estudos de seu discípulo. Tauríneamente, Freud não arredou um dedo da convicção nos sólidos postulados científicos sobre os quais procurava erigir a psicanálise; Jung, por sua vez, afirmou que, na época do desentendimento, sentiu-se tão perdido que não encontrou alternativa a não ser buscar nas imagens de seu próprio inconsciente alguma saída para a crise.

Então teria se fixado em uma memória de sua infância, de quando estava com 11 ou 12 anos, e se dedicava apaixonadamente a brinquedos de construção. O impulso criativo reanimaria seu espírito adulto, na medida em que ele retomou a atividade lúdica, saindo para catar conchas e outros materiais de manhã e separando um tempo para utilizá-los nos intervalos do trabalho no hospital. “Mal terminado o almoço, ‘brincava’ até o momento em que os doentes começavam a chegar; à tarde, se meu trabalho estivesse terminado a tempo, voltava às construções. Com isso meus pensamentos se tornavam claros e conseguia apreender de modo mais preciso fantasias das quais até então tivera apenas um vago pressentimento”.

Esse recurso ao potencial terapêutico da brincadeira, da criatividade, do jogo e do ócio não é apenas uma característica de Leão; é também uma marca daquele tempo. Roger Caillois, em Os Jogos e os Homens, observa que as primeiras miniaturas de carros foram produzidas por operários de fábricas automotivas em que a divisão do trabalho não lhes permitia acompanhar o processo de produção do começo ao fim. Assim, chegando em casa, eles podiam reassumir o controle de todas as fases da composição de um artefato, nem que fosse como um hobby compensatório, e conseguindo com isso restituir a si mesmos uma relação artesanal com a inteireza do objeto.

Mas o arquétipo de Leão de fato atualizou esse impulso de formas diferentes através dos séculos. Cada texto que começo e termino para esse blogue, por exemplo, é uma espécie de jogo em que me envolvo com prazer e incerteza, sem saber ao certo de onde estou partindo nem onde vou chegar, mas sentindo que algo de esclarecedor – para mim pelo menos, espero que para vocês também – se realiza no percurso.

Nunca sei exatamente de onde vai surgir a peça com que começarei a montar cada texto. Nessa semana, por exemplo, ela apareceu na leitura desse trecho autobiográfico de Jung. Aí me ocorreu que é meio engraçado que ele e Freud tenham sido ambos de signos fixos (Touro e Leão), os quais existem em uma relação tensa e produtiva. Mas reparei em seguida que a coisa não para por aí: Freud tinha o ascendente em Escorpião, e Jung em Aquário, ambos no signo oposto complementar de seus signos solares. Isso quer dizer, basicamente, que a cruz dos quatro signos fixos esteve envolvida nas aproximações e afastamentos entre os dois grandes pensadores da psicologia no século XX. Opa, pensei: tem jogo aí.

Acho que em ambos os casos o signo solar aparece como a base da personalidade, e o ascendente refere-se à contribuição que ofereceram em suas obras. No caso de Freud, o vínculo com Escorpião é mais que evidente: de Totem e Tabu a Moisés e o Monoteísmo, desenvolve-se um concentrado esforço arqueológico em que são desenterrados os ossos de crimes antigos (o assassinato do pai pela horda primitiva, o assassinato de Moisés pelas tribos do êxodo), que teriam correlações exatas em episódios de cada trajetória individual, habitando os subterrâneos do inconsciente. Os sentimentos de inadequação, culpa, remorso ou angústia que surgem da repressão dessas memórias podem então ter sua origem identificada. Com isso, torna-se possível e necessário encarar os demônios ocultos na psique, para alcançar a lucidez após um intenso mergulho nas profundezas do passado.

Tudo converge para o Complexo de Édipo, também um assassino de seu pai, ao mesmo tempo detetive e criminoso, cujo expurgo de Tebas revela-se necessário para a regeneração da cidade. Aqui uma importante diferença entre as obras de Freud e Jung pode ser notada, pois no segundo caso há uma profusão de arquétipos, narrativas e símbolos que nunca se deixam reduzir a uma única história. Assim, enquanto Escorpião tende à obsessiva e quase paranoica busca de vestígios capazes de reafirmar o ponto central de suas investigações, Aquário abre mão do “uno” em favor do “múltiplo”, observando e afirmando diferenças ex-cêntricas onde outros vêm similaridades.

A ênfase no caráter sexual da libido, a propósito, não deixa de ser um componente escorpiônico das lições de Freud. Também aqui ele e Jung divergiram frontalmente da maneira como Escorpião e Aquário divergem no zodíaco. Pois o primeiro é uma força corporal, intensa, concentrada, enquanto o segundo é um arquétipo que se dispersa no ar em uma complexíssima profusão de relações em rede. Jung considerava a ênfase de Freud nas pulsões sexuais uma inclinação “reducionista”, na medida em que designava uma só fonte como energia motriz de todos os esforços e humanos. Ele acreditava que o impulso criativo, por exemplo, existia por si mesmo, e não como um excedente de desejos reprimidos.

Curiosamente, portanto, embora Jung fosse o ”ocultista” da relação, havia algo na ciência de Freud em que ele detectava uma obsessão compulsiva com o tema do sexo e da autoridade paterna. Não é incomum que Aquário veja Escorpião por esse prisma, no qual se ressalta sua perspectiva desencarnada, indiferente em relação aos instintos primitivos que lhe parecem vis ou demasiadamente humanos. Mas isso envolve também a dimensão iluminista e prometeica do arquétipo aquariano, na medida em que busca alçar o humano para além de seus limites usuais. Desse modo, e mais uma vez curiosamente, as Luzes estão do lado de Jung, embora Freud fosse o cientista da relação.

Acontece que Jung também se outorgava esse título, tinha apreço por ele, porém entendendo a ciência de um modo mais heterodoxo. De ambos, se não me engano, foi quem acompanhou mais de perto as inovações da Teoria da Relatividade e e Física Quântica, sem deixar escapar as relações da cosmovisão que essas novidades ofereciam com elementos das religiões orientais. Freud, enquanto isso, manteve-se centrado na tradição judaico-cristã, ferozmente dedicado ao problema de Deus, ou ao problema do Pai.

Enfim, Jung roubou o fogo de seu próprio Sol leonino para levá-lo aos homens através de seu ascendente aquariano; Freud manteve-se até o fim da vida irremovível do caminho em que Touro o havia situado, porém correndo riscos e desencavando desejos que apenas são aceitos e reconhecidos quando acionamos o tipo de coragem que reside no arquétipo de Escorpião. Da tensão produtiva desses cruzamentos, ambos descobriram razões que reforçaram suas crenças e os mantiveram em suas trajetórias, que, antinômicas como são, não deixam de se complementar (caberia ainda mencionara os aspectos complementares das noções de inconsciente individual e inconsciente coletivo, que estão mais propriamente atreladas aos arquétipos de Escorpião e de Peixes, tal como já comentei aqui).

Resta saber como Freud terá reagido à ruptura que levou Jung aos brinquedos de construção. Algo pode ser deduzido da correspondência entre ambos – ele alegou ter sido “despojado da autoridade paterna” de que o próprio jovem Jung o investira anos antes –, mas acho que nesse caso ele deve também ter buscado no seu Sol taurino algum tipo de conforto. No mínimo, deve ter se recostado em uma poltrona aconchegante, procurando quem sabe um bom lugar pra ler um livro, sem outro propósito além dar maciez à sua tristeza. Freud, é bom lembrar, fez o caminho de volta de Escorpião a Touro (dos mistérios ocultos à verdades elementares) quando lhe perguntaram insidiosamente a respeito de seu prazer com o fumo: “Às vezes, um charuto é apenas um charuto”.

O que então me vem à mente é uma tela do pintor Konstatin Christoff que vi em uma exposição no Palácio das Artes de Belo Horizonte muitos anos atrás. Ela se chamava “Dr. Sigmund de sapatos novos” – e mostrava um Freud felizão e sorridente com um novo par de sapatos brilhosos que teria comprado. O efeito da pintura estava na associação de uma figura tão imponente e misteriosa como a de Freud com alegria de ter comprado um par de sapatos novos. É como imaginar Escorpião contente diante de um belo prato de macarronada.

Ou seja, talvez tenha sido assim que ele lidou com a perda da amizade do discípulo: como um bom e velho taurino. Talvez a materialidade das coisas e as sensações que elas provocam não tenham deixado nunca de ser para ele uma espécie de refúgio em tempos de crise, a base de sua existência e sua personalidade, o ponto central e solar a partir do qual irradiou seu brilho para as regiões sombrias da alma humana. Assim como a criatividade e os jogos foram para Jung.

Só queria ainda acrescentar que Konstantin Christoff foi um artista búlgaro que, aos nove anos de idade, foi parar com a família em Montes Claros, no norte de Minas Gerais. Formado em Medicina pela UFMG, trabalhou como cirurgião-geral a vida inteira, mas nunca abandonou a pintura, além de ter publicado várias ilustrações na imprensa brasileira. Mais um médico artista, portanto. Descobri isso agora, ao fazer a pesquisa para tentar descobrir a imagem do quadro de Freud com sapatos novos. É engraçado o tipo de coisa que descubro e que encontro ao juntar as peças para esses jogos que vou montando aqui.

Mas infelizmente não encontrei a imagem, então terei que pedir um esforço da imaginação de vocês para terminar. Visualizem aí, com candura, sem maldade: Dr. Sigmund. Uma poltrona confortável. Pernas cruzadas. Sorrisão na cara. Charutão na mão. Sapatos novos.

leão

Leão e o coração

Os arquétipos do zodíaco estão vinculados a diferentes partes do corpo humano, interagindo uns com os outros de acordo com relação entre essas partes, que manifestam características dos signos a que estão associadas. Acho interessante nesse sentido o caso de Leão/Aquário, opostos complementares que regem o coração e o aparelho circulatório, respectivamente. Da mesma forma como o Sol, regente leonino, signo de fogo, depende do céu (Ouranos, regente aquariano, signo de ar) para difundir sua luz, o coração precisa das veias e artérias para fazer chegar o sangue a regiões distantes do corpo.

Mas o vínculo Leão-Coração vai além de tudo o que os outros signos conhecem. Porque aqui já não se trata apenas de uma parte ou função de nosso organismo, mas de um dos símbolos mais presentes em nossa cultura, de uma ideia, que está espalhada em nossa poesia, em nossa dramaturgia, em nosso cancioneiro. Quando falamos em ‘coração’, estamos falando em tudo o que existe de mais importante em nossa experiência anímica e afetiva. Trata-se de um caminho rápido para nos colocarmos em cena com a maior inteireza, ou de afirmar que todo nosso ser está em jogo, um pouco como nos famosos versos do poeta russo Vladimir Maiakovski (“mas comigo a anatomia ficou louca / sou todo coração”), com o qual todos nós já nos identificamos em um momento ou outro da vida.

Maiakovski tinha Vênus em Leão, o Sol em Câncer. Já Caetano Veloso é leonino com Vênus canceriana, e talvez por isso tenha escrito os versos em que uma alma dilacerada pela memória ainda assim ambiciona abarcar a totalidade do espaço e do tempo no centro do peito: “Meu coração vagabundo / quer guardar o mundo / em mim”. Ou seja: experiência leonina arquetípica é a de um envolvimento pleno e inegociável no sentimento que pulsa, na ação em curso, no gesto em cena, mesmo que seja a afirmação de uma carência e de uma falta. Em seu melhor, Leão transforma em ouro tudo o que toca, e faz brilhar mesmo os recantos mais doloridos e escuros da alma, trazendo-os à luz do dia – como o rei Mufasa erguendo seu pequeno filhote, alto e sobranceiro, no cume do despenhadeiro.

Nossa cultura pop, aliás, está atravessada por imagens em que ele está lá, o coração, como símbolo de totalidade, e ao mesmo tempo indício de sua perda, porém de tal forma que o ato criativo transforma tudo de novo em uma coisa só, e é de certa forma, ele próprio, a cura necessária para as dores e angústias que declara. Corações machucados, corações dilacerados, corações despedaçados, não são exatamente moléstias que possam se resolver com um curativo, ou mesmo com uma cirurgia, mas nossas canções preferidas são sempre capazes de reverter esse quadro no mesmo instante do diagnóstico, sobretudo quando elas literalmente nos levam de volta pra pista. E de novo: “você partiu meu coração” é um frase em que um pedacinho nosso é usado como se fosse o ser inteiro de cada um de nós. Não dá pra dizer que a mesma coisa aconteça com os pés (Peixes), com os ossos (Capricórnio) ou mesmo com a cabeça (Áries). “Você quebrou o meu fêmur” geralmente vai ser lido de modo mais literal mesmo – e talvez por isso seja um verso pouco promissor, poeticamente.

O coração, por outro lado, está presente também em tudo que fazemos com gosto, em tudo o que fazemos com entusiasmo, em tudo o que fazemos com amor. Por isso é pródigo na vitalidade que distribui: ele é a própria vitalidade, é aquilo que em nós pulsa de desejo e de prazer. Muito antes de ser compreendido como um órgão, o coração era um ritmo, que repercutia em todo o corpo e não se diferenciava dele. O coração sustenta em cada batida a vida do organismo, e portanto pode não ser exatamente uma parte dele, mas algo que está em todas as partes, através da reverberação do seu pulsar.

Escrevi antes, aqui, sobre como os símbolos do arquétipo de Leão têm esse poder de síntese e simplificação. Gosto de fazer esses links porque meu coração está, entre outras coisas, com a astrologia: amo escrever esses textos, estou inteiramente neles. É uma experiência leonina que tenho, pelo prazer que me dá. Imagino que o bom mesmo é ser leonino, ser esse coração cheio de vida que pulsa e distribui energia para todos ao redor, e que mesmo quando está dilacerado consegue reverter a dor em beleza, e exercê-la com a mais nobre e desesperada dignidade. Enfim, acho que queria ser leonino inclusive para sofrer como um leonino. Mas sou feliz em ter aqui esse aspecto da vida em posso exercer minha leonice, através dessas pequenas pulsações literárias, que percorrem as veias aquarianas de um mundo interconectado.

leão

Dies Solis

Foto: Kedar Misani

Hoje é domingo, ‘dies solis’, dia do Sol, regente leonino. Domingo pode ser o mais excitante e o mais previsível de todos os dias. De forma semelhante, acho que o Sol é ao mesmo tempo o mais especial e o mais ordinário dos astros. Especial por sua posição de centralidade, sua visibilidade evidente, sua plena soberba diante dos corpos celestes ao redor. Ordinário porque é feito basicamente de luz, e luz é algo que existe por todos os cantos, é aquilo que produz todas as coisas. Afinal, como disse Goethe, como nosso olho reconheceria o Sol se ele mesmo não fosse solar?

O Sol, então, não é exatamente uma ‘coisa’, um objeto separado dos demais; é uma concentração de energia, do ‘ânimo’ que existe em todo o resto. E ânimo é uma palavra leonina, junto com prazer, paixão, brilho. Em Leão está a possibilidade de que tudo o que a gente faz seja feito com gosto, com deleite: pode ser jogo, pode ser trabalho, pode ser luta, pode ser preguiça. Leão é ao mesmo tempo mais e menos que um arquétipo; mais porque seus limites são indefiníveis como os do Sol, e menos pelo mesmo motivo, uma vez que isso faz dele um princípio animador presente em tudo e em todos.

Curiosamente, é mesmo difícil identificar mitos e narrativas que correspondam ao signo. Nada parece dar conta, e tudo vai um pouco além, como se qualquer história implicasse uma restrição ou uma ampliação indesejada. Há a imagem do Rei, assim como a do próprio Leão, mas elas podem muito bem permanecer intocadas em sua pureza por quaisquer outras especificações e detalhes. São o que são, se bastam, assim como o Apolo grego ficou conhecido não por suas complexidades, mas pela síntese de vitalidade e beleza que era capaz de oferecer num só olhar.

Há complexidades na alma leonina, é claro; seu orgulho não passa ileso por este mundo; o Rei às vezes reage a desatenções e contrariedades de um jeito meio exagerado; sua generosidade pode ser também acima do comum. Mas a alma – ‘anima’ – de todos nós contém esse elemento solar de um jeito ou de outro. O que chamamos de nosso ‘signo’, a propósito, é o nosso signo solar: a maneira como o Sol se manifesta em nós, de um jeito mais ostensivo e evidente, mais generoso mesmo, que os outros astros, e portanto de um jeito mais claramente identificável.

Assim, da mesma forma como a alma leonina contém outros astros – e sombras – misturados à sua luz, cada um de nós tem em si uma fonte especial de ânimo para realizar as mais distintas atividades: jogo, trabalho, luta, preguiça. O Sol em Capricórnio, por exemplo, é o Sol aparecendo em forma de cabra. O Sol em Áries é o Sol em forma de Carneiro. O Sol existe na casca no Escorpião, na pele do Sagitário, nos pratos da balança, nadando como um peixe. Em cada um desses disfarces ele encontra prazer, em cada uma dessas formas ele se exibe com gosto.

Porque pode ser trabalho, pode ser preguiça, pode ser luta, mas jogo sempre é. Lembrando que Leão é também o lugar da performance cênica. O Sol então brinca de ser cada uma dessas coisas, se diverte assumindo cada uma dessas personalidades, e, quando espera o aplauso no final, é porque o aplauso renova o ânimo, lava a alma, recompõe o combustível que queimou. Prazer, paixão, gosto: tudo isso gasta energia. Não é pedir demais que a gente devolva um pouco de energia ao Sol.

E, no final das contas, é tudo uma coisa só – aquele que aplaude e aquele que é aplaudido. Se o olhar humano foi uma maneira que o universo encontrou de contemplar a si mesmo, foi também uma maneira que encontrou de admirar a si mesmo. E, portanto, ele deve se considerar admirável, mas isso é só consequência da delícia que ele já sentia antes ao brincar e dançar sozinho, sem ninguém vendo, por puro deleite com as próprias habilidades.

Lembro de um professor de filosofia dizendo uma vez que a grande questão é porque existe algo, ao invés de nada. A resposta leonina para esta questão é: as coisas existem porque gostam de existir. O Ser sente prazer em Ser. O resto é silêncio. Ou melhor, é a música que toca em cada um de nós para que sejamos assim também.