capricórnio, gêmeos, peixes

O potencial, o real e o ideal

Lamentação de Cristo (c. 1305) | Giotto

Outro dia escrevi aqui sobre Gêmeos e Capricórnio, mas deixei passar um dos temas mais importantes dessa relação: a maneira como ambos personificam as figuras do puer e do senex, ou da Criança Divina e do Velho Sábio (prefiro os termos em latim porque não carregam uma conotação positiva ou negativa). Acho que o assunto tem a capacidade de mostrar como todos nós todos temos “Gêmeos” e “Capricórnio” operando em nossa dinâmica psíquica – em alguns casos mais acentuadamente, em outros menos –, o mesmo valendo para todos os outros arquétipos do zodíaco, de modo que a interação e as negociações entre eles é que configuram de fato um mapa astral.

Por outro lado, o puer e o senex são figuras arquetípicas da psicologia analítica junguiana cuja associação com apenas um signo ou par de signos seria equivocada: há traços da criança que encontramos em Leão, por exemplo, assim como há traços do velho que podemos encontrar em Aquário. Por aí vai. E, assim como ambos podem funcionar como polaridades nos conflitos de uma mesma pessoa, eles podem funcionar como polaridades nos conflitos internos de um só signo, pela maneira como um muitas vezes presume e implica o outro. Mais à frente veremos como isso funciona em Peixes, signo no qual a criança e o velho coexistem em uma unidade problemática e rica em imagens significativas.

Voltando a Gêmeos, porém. Aqui o puer aparece em sua versão 1.0: é Hermes, ou Mercúrio, filho de Zeus, irmão mais novo de Apolo, em quem ele pregou uma peça pouco depois de nascer. Isso nos faz lembrar que existe algo de malandro e travesso na “criança divina”, mas também que existe algo de divino na malandragem geminiana. E isso é algo que a gente pode facilmente deixar passar nas descrições mais caricatas ou maliciosas de Gêmeos, um signo que, por sua própria natureza, convida a esse tipo de descrição. Fica o registro, portanto: haverá sempre algo em Gêmeos que partilha do código genético dos deuses – e haverá sempre algo nos deuses que parece proteger a alma geminiana.

Em um plano arquetípico, aliás, entendo que Gêmeos pode fazer o que quiser a vida. Veio ao mundo para brincar nos campos do Senhor, em parte por contar com a condescendência dos velhos, em parte por saber entretê-los e encantá-los (o que o aproxima do pícaro, do bufão, do bobo, do comediante). Isso é até certo ponto válido para quem tem o ascendente em Gêmeos, e algo semelhante pode ser dito do ascendente em Leão (mais informações sobre essa interpretação do papel do ascendente no horóscopo, aqui). Agora, se você é geminiano, ou tem a Lua em Gêmeos, pode ir tirando seu cavalinho da chuva, porque isso já complica um pouco mais as coisas.

A puerilidade geminiana pode até ser divina, mas nem mesmo o deus Hermes esteve à salvo de tomar uns tombos na vida. Muitas vezes, para grande surpresa dele próprio. O puer tem o impulso de transitar por aí como se fosse destinado a ser bem recebido em todos os lugares – afinal, ele é tão inocente, tão despreocupado, tão engenhoso, tão engraçadinho – até se ver diante de uma porta que bate na sua cara como se dissesse: te saquei, malandro, aqui não. Deste modo, seja sob a forma de pessoas, acontecimentos ou obstáculos, o senex vai aparecer ao puer como uma força restritiva ou limitadora, da qual ele depende para conferir as virtudes da consistência e da profundidade aos resultados de seus diversos talentos.

Então, quando digo que o puer-senex é um par que existe como tal em nossa dinâmica psíquica, é porque um depende do outro para se desenvolver. Mas nada impede que um indivíduo se identifique com o puer e projete o senex em um mundo que lhe parece limitador e restritivo, ou em figuras de autoridade que considera moralistas e enrijecidas, na tentativa de preservar um estado de eterna inocência infantil, e de preservar-se das frustrações da vida. A gente vê o tempo inteiro pessoas alegando que, se não fossem as estruturas externas limitadoras, elas teriam realizado as obras geniais que existem em latência no seu espírito. O que muitas vezes está implicado aí é que essas pessoas optaram por não internalizar a estrutura restritiva – o senex, agente do esforço, da paciência e da forma, fundamental na realização de qualquer trabalho de fôlego – de modo a não ver seus ideais reduzidos ao que a realidade seria capaz de fazer deles.

Quem já se arriscou em um trabalho criativo sabe: todo tipo de realização artística implica uma dose de resignação. O senex em nós existe para que este processo seja levado até o fim. O puer existe em nós existe para que ele comece. Por outro lado, há quem se identifique unilateralmente com a figura do senex, e alega que, se não fossem os irresponsáveis, os inconsequentes, os preguiçosos – em uma palavra, os “artistas” –, nossa sociedade estaria em um estado menos deplorável. Em toda pessoa que afirma isso, existe um puer reprimido, que quer ganhar asas e voar, ou simplesmente permitir-se algumas tardes de ócio criativo. Mas, infelizmente, o ódio destrutivo se torna o substrato alquímico de quem nega a si mesmo esses prazeres.

Ou seja, um se compromete com uma linha de ação, e não vai alterá-la nem sob a mais forte inspiração divina. Outro não se compromete com nada nem ninguém, pois nada nem ninguém parece merecer o compromisso que ele guarda para quando a hora certa chegar. No campo dos relacionamentos, então, o puer estará sempre postergando a consagração de laços estáveis, quando não está simplesmente saltando de um relacionamento para o outro, e não só por imaturidade. Às vezes, ele carrega o sentimento de estar destinado a algo especial, e o rompimento precoce das relações é uma forma de evitar que se desdobrem da maneira ordinária e tão ameaçadora para o ideal.

Quanto ao padrão de comportamento do senex nessa área, vou precisar de fazer ainda um texto à parte com um estudo de caso, o do escritor russo e aquariano Anton Tchekhov, que só descobriu o puer que existia nele após seu retorno de Saturno, aos trinta anos. A história é intrincada e merece ser bem descrita. Farei isso em breve. Dá para antecipar que, enquanto a volatilidade é o traço mais marcante do puer enquanto amante, o senex ocupa com sua rigidez um polo oposto, fixo e encastelado. “Encastelada”, porém, é, curiosamente, a situação arquetípica em que encontramos a puella, a versão feminina do puer.

Ela é a princesa que, nos contos de fadas, encontra-se à espera de um milagre. Mas o comportamento ativo e volátil do puer mercurial e a atitude aparentemente passiva e fixa da puella sonhadora são iguais em sua rejeição do compromisso e do engajamento em uma história verdadeira. A propósito: que a puella se queixe da falta de seriedade ou bravura de seus pretendentes pode muito bem ser o motivo pelo qual ela escolhe pretendentes pouco sérios, ou pouco corajosos, para ter de quem se queixar. Até certo ponto, o puer e a puella vivem muito bem e despreocupadamente no plano das potencialidades abertas e imaginadas. Na medida em que o tempo passa, porém, eles podem precisar mais e mais de ter a quem culpar pelo fato de nada ter sido realizado.

Aliás, uma boa maneira de identificarmos uma possível adesão unilateral nossa a um desses arquétipos é um excesso de reclamações gratuitas a respeito do outro. Quando a gente começa a distribuir sem critério lamentos e acusações sobre a natureza pueril ou inconsequente de pessoas com quem nos relacionamos, no presente ou no passado (pessoas que talvez até possuam essas características, mas não a ponto de merecer tanto de nossas atenções e memória), é provável que exista algo em nós precisando de descanso, liberdade e ânimo criativo. Por outro lado, quando a gente começa a denunciar o moralismo ou o materialismo do resto mundo ao redor, sem que ninguém tenha pedido nossa opinião, é possível que nossa opinião esteja enviesada pelo desejo inconsciente de receber um pouco de admiração e de respeito bem mundanos (ou seja, a admiração e o respeito que as realizações mundanas outorgam ao senex).

Podemos ter uma afinidade maior com um desses arquétipos sem converter isso em uma neurose mais grave, é claro. Assim como podemos alternar entre um e outro no tempo e no espaço. Um equilíbrio absoluto entre esse tipo de polaridades é por definição impossível – tudo o que podemos tentar obter é uma espécie de equilíbrio dinâmico. Nem por isso análises pouco equilibradas do fenômeno são menos enriquecedoras, e as mais famosas se notabilizaram exatamente por tomarem partido de um ou de outro.

Recomendo, em primeiro lugar, um estudo que é notavelmente anti-puer, não necessariamente tomando o partido do senex, mas vendo-o da perspectiva do arquétipo materno feminino (que seria em parte responsável pelo menino mimado que ele se tornou, mas também capaz de lhe impor limites de uma origem mais atávica e profunda). Falo do livro de Marie-Louise Von Fraz, Puer Aeternus: a luta do adulto contra o paraíso da infância, que começa por uma análise da dimensão pueril de O Pequeno Príncipe e da personalidade de seu autor, Antoine de Saint-Exupéry. A autora, cabe lembrar, foi colaboradora de Carl Jung, e se tornou conhecida por suas análises da psicologia dos contos de fadas.

Outro livro importante, este mais abertamente favorável aos talentos e inspirações do puer (justamente no confronto com as limitações e rabugices do senex) é The Puer Papers, de James Hillman. E, para quem quiser ter uma visão mais ironicamente balanceada, indico o último ensaio de Liz Greene do primeiro volume dos Seminars on Psychological Astrology, que que já mencionei nas indicações bibliográficas dessa postagem aqui. Este tem a vantagem de ver o assunto na perspectiva da astrologia e do zodíaco. Mas a primeira parte do ensaio não presume nenhum conhecimento prévio nessa área, e pode ser útil mesmo para quem quiser ver as coisas de um ponto de vista estritamente psicológico.

Agora, para terminar, temos o puer e o senex em Peixes, como mencionei lá no começo. E aqui as coisas ficam bem interessantes. Porque, por mais que a gente queira matizar os raciocínios e os estereótipos, dá para ver como Gêmeos e Capricórnio costumam representar bem os comportamentos polarizados do puer e do senex, respectivamente. Quando falamos de Peixes, no entanto, a infantilidade e a senioridade coexistem no arquétipo de modo mais intrincado e sutil; em Peixes habitam uma criança e um ancião que são uma mesma pessoa, e isso gera alguma confusão, como era de se esperar, mas pode também criar uma nova espécie de beleza, através justamente do resultado do confronto entre o potencial e o real. Dá para a gente ver isso no comportamento de alguns piscianos. Mas, antes, para termos um caminho para a aproximação a esse fenômeno, dá também para gente ver como isso aparece na história de Jesus Cristo.

Pois Cristo, além de ser um inaugurador apropriado da Era de Peixes que se encerra agora, integrou também a linhagem da criança divina. Aliás, Liz Greene observa como o puer arquetípico muitas vezes aparece com as mãos ou os membros machucados ou mutilados, o que parece ser uma consequência de seu contato com o mundo, com a matéria, com a realidade. Um primeiro exemplo é Ícaro, herói tipicamente juvenil, que recebeu suas asas de Dédalo, sob advertências para que não se deixasse levar pelo entusiasmo, sendo que nem isso impediu que ele as queimasse ao ir de encontro ao sol. Jesus, por sua vez, partilha desse destino de um modo ao mesmo tempo mais trágico e menos catastrófico: sua derrocada no plano terreno é um fracasso que não deixa nunca de prometer futuros sucessos.

Notem: a humanidade a princípio não recebe muito bem sua palavra, com seus ideais elevados e pouco práticos, meio piscianos mesmo, e pelo menos parte dela, a que se encontra em posições de autoridade estabelecidas e imperiais, se mostra bem convicta de que cravá-lo em uma cruz e expor sua corporeidade humana sangrando é a melhor coisa a fazer. Dostoievski explorou esse argumento em “O Grande Inquisidor”, um conto enxertado no romance Os Irmãos Karamazov, que pode ser lido separadamente; nele, Cristo retorna e é mais uma vez crucificado por ordem de um senex da igreja inquisitorial que está plenamente consciente de sua filiação.

Mas, por mais doloroso que seja seu fim, ele depende dessa morte para permanecer como uma espécie de ideia, fomentando o sonho de que um dia o reino que prometeu chegará, será realizado, está por vir. Existe então certa cumplicidade entre a dimensão espiritual, a que se eleva para além do raso das ambições terrenas, e a material, que a traz para o chão de modo que possa alçar outro tipo de voo. O mito não diz respeito apenas ao personagem, mas está inevitavelmente ligado à sua história, a tal ponto que suas escolhas e o que lhe é imposto desde fora se entrelaçam e se confundem. Em um certo sentido, Cristo se oferece em sacrifício no plano material para manter vivo o sonho do que prometeu.

Nesse sentido, para quem já chegou aos 40, como eu, é interessante perceber que Jesus Cristo nunca chegou a ser exatamente um adulto. Ele mal superou seu retorno de Saturno e já foi correndo caçar encrenca que interromperia sua vida pouco depois. Carregou sua cruz, é verdade, mas só por um caminho bem curtinho; esse caminho pode muito bem ser sum símbolo do que todos nós temos que suportar em nossas trajetórias individuais, mas não deixa de ter sido para ele relativamente breve, levando-o a uma morte precoce. Ou seja, o Jesus histórico nunca deixou de ser um puer. Mas o Jesus simbólico é também a cruz, a matéria, e realidade que o nega e o rechaça, e, portanto, é a promessa que ainda assim sobrevive à crucificação, é o reino impalpável e imune a qualquer teste do real que nasce junto com ela.

Por isso, o tipo de sonho e de idealismo que encontramos em Peixes pode ser tão resistente à realidade dos fatos. Porque não aponta para algo que se imagine realizável nesse mundo, não se trata de um potencial a ser testado aqui. Muito pelo contrário: esse mundo pode refutar a aspiração pisciana de todos os modos possíveis, pode até mesmo pregá-la numa cruz e fazê-la sofrer humilhações e derrotas, que ainda assim ela sobreviverá, será inclusive alimentada pela frustração e pela violência. É claro que isso pode ter consequências complicadas no plano individual, e com frequência tem. Mas nem por isso deixo de ver no plano arquetípico uma bem-vinda síntese, ainda que aberta para o futuro e para o porvir, na história dos confrontos e dos encontros entre puer e senex.

capricórnio, gêmeos

Te amo, Gêmeos!

Quase Famosos (2000) | Dir. Cameron Crowe

Amo zoeira com signos, e amo mais ainda quando meus amigos se lembram de mim por causa de uma zoeira. Aí esses dias um deles me marcou em um tuíte que diz assim: “A quarentena está fazendo até capricorniano se declarar, aquariano responder na hora, sagitariano querer namorar, taurino admitir que errou e virginiano admitir que ama alguém. Geminiano não muda nada continua cada vez pior”. De acordo, em parte: sinto que sobretudo que no começo o texto está muito certo. Já mais para o final não concordo tanto. Acho que dá para resumir esses dois sentimentos na seguinte frase: amo Gêmeos e vou defendê-lo até o fim.

Aproveitem, não é sempre que capricorniano sai por aí fazendo esse tipo de declaração. Aliás esse clima de pandemia apocalíptica lembra uma cena do filme Quase Famosos, sobre uma banda de rock que chega a fazer algum sucesso e logo entra em decadência. Tem uma hora em que pela primeira vez eles usam um jatinho em uma turnê, só que no meio da viagem o jatinho começa a cair, e parece não haver esperança alguma de evitar o desastre. Nisso os integrantes da banda começam a fazer declarações e confissões uns aos outros no meio da tremedeira da queda. O avião não cai, o piloto consegue salvá-los, e eles andando na pista do aeroporto depois – aquelas caras de “nunca mais ninguém fala do assunto” – é uma das cenas mais constrangedoramente engraçadas que há.

Dá para supor que existem capricornianos e geminianos entre eles. Por motivos diferentes, esses dois estão entre os mais sujeitos a fazer desabafos ou confidências em circunstâncias extraordinárias. Exatamente porque não fazem em circunstâncias normais. É claro que Gêmeos às vezes fala tanto ou manda tanta mensagem e figurinha que uma coisa ou outra acaba passando, porém a comunicação geminiana pode muito bem existir sem qualquer referência a sentimentos, ainda mais sentimentos profundos. Já Capricórnio é pura profundidade, e não deixa nada transparecer na superfície: guarda suas cartas bem próximas ao peito, mantém o semblante impassível, e é bem capaz de só mostrá-las se o mundo estiver acabando mesmo.

Vale a pena ver como ambos se posicionam ao redor da mesa do zodíaco. Gêmeos e Capricórnio relacionam-se em um ângulo de 150 graus, ou seja, um aspecto inconjunto, que forma um quíncuce. Esses são os termos técnicos, mas acho que são um pouco mais do que isso: por mais que o jargão astrológico já seja usualmente esquisito com suas quadraturas e declinações, essas palavras “inconjunto” e “quíncuce” têm para mim um sabor a mais de desengonçada estranheza, que não deixa de estar relacionado ao que simbolizam.

Gosto de escrever sobre arquétipos que estão posicionados nesse aspecto (como já escrevi sobre Câncer e Aquário, por exemplo, nesse post aqui) porque a princípio a relação entre eles não é exatamente harmônica nem conflituosa, mas sim desajeitada, tropeçante, cega. É como se fossem duas pessoas que nem se conhecem o suficiente para ter grandes simpatias ou antipatias entre si, e então precisam antes de tudo reconhecer a existência uma da outra, para a partir daí descobrirem formas de interação e convivência.  

Signos que se relacionam por meio desse aspecto podem se encaixar muito bem, desde que se parta do princípio do desencaixe. Estamos tratando de pessoas que a princípio não sabem nem como se cumprimentar direito, mas que com tempo ou com sorte podem encontrar interessantes pontos de contato entre si. Estes, uma vez identificados, podem ser revelar tão certeiros quanto aquela pecinha do jogo de lego que existe só para uma determinada função, em um determinado tipo de brinquedo. Ou, mais exatamente, são como aqueles brilhantes improvisos que permitem a conexão entre as mais diferentes partes de um objeto ou conjunto de objetos. Leia-se gambiarra.

Gêmeos adora uma gambiarra, sobretudo uma gambiarra comunicativa. Já Capricórnio rejeita as soluções fáceis e provisórias. A relação gambiarrada entre eles deve, portanto, contar com a capacidade geminiana de adaptação e mutabilidade. No entanto, ao invés de dizer simplesmente que Gêmeos se adapta às estruturas e rigores capricornianos, podemos inferir que Capricórnio abre uma brecha em seu sistema diante de Gêmeos, nem que para isso ele precise cair numa espécie de armadilha forjada pela astúcia geminiana. Uma astúcia que, por outro lado, pode ter que se reinventar e elaborar sempre novos recursos e artimanhas diante das reservas e resistências de Capricórnio.  

Permitam-me uma digressão narrativa a esse respeito. Lembrei aqui que um tempo atrás vi Capricórnio entrevistando Gêmeos em uma edição do Actor’s Studio. Bom, não sei quais eram os signos do entrevistador e do entrevistado, mas arquetipicamente acho que era isso que estava acontecendo. O barbudinho que guiava o programa tinha até um pouco de cara de bode, além de ser responsável, consistente, dedicado à formação profissional dos jovens atores e atrizes. O convidado era um ator de comédias (não lembro exatamente qual; talvez o Steve Martin; em todo caso o ator cômico é uma figura arquetipicamente geminiana).

Aí lá pelas tantas o entrevistador citava uma antiga declaração de seu convidado, em outra entrevista, na qual ele dizia ser “uma pessoa superficial”. Capricórnio em seguida perguntava a Gêmeos, de maneira perspicaz e sóbria, em um tom ao mesmo tempo elogioso e crítico da falsa modéstia do ator: “Você disse isso mesmo? Você se considera superficial?”. O ator respondia que sim, que tinha dito aquilo. O entrevistador, porém, prosseguia, tenaz e insatisfeito com a resposta: “Mas você não acredita mesmo nisso, acredita?”. O ator: “Sim, claro, é isso mesmo, eu sou superficial.”

O entrevistador, começando a ficar meio perdido, talvez preocupado com o exemplo dado aos jovens: “Mas você se formou em Harvard…” O ator fazia uma cara de “sim e daí?” Nesse ponto, as coisas ficavam realmente desajeitadas, embaraçosas, porque o entrevistador não sabia como continuar abordando o assunto, nem conseguia mudar de tema. O ator então tomava a palavra de maneira mais generosa, passando por um momento a falar de forma mais didática, para se explicar melhor, parecendo disposto a eliminar possíveis mal-entendidos:

“Olha, eu disse isso, mas não é porque eu considere que outras pessoas são mais profundas, que eu seja mais vulgar ou banal que os outros. O que eu acho é que o ser humano é uma criatura meio superficial mesmo. A gente pode filosofar o tanto que der para filosofar, inventar a metafísica que a gente quiser inventar, mas no final das contas a gente nunca deixa de ser essas criaturas meio tontas que não sabem nem como vestir uma camisa sem se atrapalhar com os botões”. O entrevistador, aliviado por ter recebido uma resposta mais significativa: “É, vendo nessa perspectiva eu sou superficial também.”. O ator, retomando certo ar de malícia: “Sim! Claro que é”.

Ponto para Gêmeos. Mas, como disse, a relação entre eles não é de oposição ou mesmo de complementaridade, o que permite que eles comentem desvios um do outro de maneira despretensiosa e por isso mesmo mais efetiva. Então, por outro lado, Capricórnio pode ter alguma coisa a dizer a Gêmeos sobre o valor da verdade, por exemplo (geminianos se permitem uma grande margem de manobra nesse assunto). Mas não vai fazê-lo através do confronto aberto e do discurso pedagógico (Gêmeos é imune ao discurso pedagógico). Capricórnio vai dar o exemplo em silêncio e como quem não quer nada. Como ele de fato não quer nada – Capricórnio não inclui entre suas muitas obrigações neste mundo a de corrigir a conduta de Gêmeos –, acaba conseguindo mais efeito do que de outro modo. “Eu faço desse jeito, você faça do jeito que quiser”, é a mensagem que Capricórnio transmite a Gêmeos. Às vezes funciona.  

Agora, voltando ao tema a superficialidade. É sobre ele principalmente que eu queria falar, pois acho que pode ser útil agora nesse período que estamos vivendo. Porque implica a noção de impermanência, uma característica que normalmente a gente vê nas descrições estereotipadas de Gêmeos como um signo que carece de foco e de substância. Porém, no contraste com as exigências de constância e consistência autoimpostas por Capricórnio, esse traço de personalidade pode ganhar outro destaque, na medida em que permite uma livre alternância de humores e pensamentos, sem apego a uma estrutura de fundo que os reúna em uma totalidade ou em uma narrativa coerente. Gêmeos sabe que o que a gente sente hoje não tem necessariamente nada a ver com o que a gente vai sentir amanhã. Acho que esse é um dado importante de termos em mente durante esse momento de quarentena.

Pois uma coisa que a gente percebe com clareza quando acompanha as próprias alterações de humor em sincronia com trânsitos planetários é que o ânimo da gente muda fácil sem que mudem muito as circunstâncias imediatas. Ou seja, que somos todos meio geminianos. Em dias ou horas a gente vai da alegria ao desânimo e à tranquilidade e ao desespero sem ter muitos motivos concretos para isso. Pense em quantas vezes você saiu de um estado de prostração ou cansaço de repente com um impulso de entusiasmo sem nem entender o porquê. E vice-versa. De modo que, mesmo durante um confinamento em que nada de muito diferente aconteça de um dia para o outro, haverá dias mais difíceis e dias mais fáceis; não se trata de uma longa jornada linear rumo ao fundo do poço. Se hoje está complicado não quer dizer que amanhã estará também.

E essa é uma lição geminiana, mercurial, embora a gente tenha o hábito de considerar Júpiter, Saturno e Quíron como os grandes mestres na astrologia. Ela me lembra uns versos de Leonard Cohen em That Don’t Make it Junk (poucas coisas não me lembram uns versos de Leonard Cohen): “I know that I’m forgiven / but I don´t know how I know / I don´t trust my inner feelings / Inner feelings come and go”. Essa é aliás uma das faixas mais cômicas do compositor canadense, e esse “eu sei que estou perdoado” já é geminiano o suficiente para fazer valer a citação. Mas o que vem na sequência, essa ideia de que nossos sentimentos mais íntimos podem não ser confiáveis, porque estão igualmente sujeitos a fluxos e refluxos que a gente não entende nem controla – isso já vale por todo um tratado sobre Gêmeos, e sobre o que Gêmeos tem a ensinar para o mundo.  

Sim, eu sei, eu sei: não devia estar aqui dando argumento atrás de argumento para que os geminianos sejam assim tão… geminianos. Mas avisei que esse texto ia ser uma declaração de amor, e numa declaração de amor não dá para esperar que a pessoa fique fazendo críticas e ressalvas à conduta do ser amado (ainda que o ser amado mereça, isto é, ainda que o ser amado seja… geminiano). Mas, enfim, tive um filho geminiano no ano passado, e considero-me perdoado de antemão por agora achar esse signo o mais belo e justo e resplandecente e repleto de arte e poesia e urbanismo de todos os signos (junto com Capricórnio, que afinal é o signo do meu outro filho). Aliás outro dia eu literalmente encontrei uma forma de me declarar para o Gabriel depois de ouvir Piazza, New York Catcher, uma canção do Belle and Sebastian que em determinado momento diz assim: “I love you, I have a drowning grip on your adoring face / I love you, my responsability has found a place”.

Essa ideia da responsabilidade disponível que encontra um lugar no mundo no rosto cativante de outra criatura – ah, isso só pode ser a história de um pai capricorniano que tem um filho de Gêmeos. Mas é um pouco também a do irmão mais velho de Capricórnio que tem um irmão mais novo de geminiano – aliás o “irmão mais novo” é um personagem do arquétipo de Gêmeos, pois essa era uma condição muito singular de Hermes na mitologia. Como se não bastasse, meu filho que tem o Sol em Gêmeos tem a Lua em Capricórnio, o que tem a Lua em Capricórnio tem o Ascendente em Gêmeos, e eu tenho a Lua em Gêmeos e o Sol em Capricórnio. Esses dois signos estão no DNA astrológico da família e a gente parece ter sido de algum modo escolhido para tentar encontrar maneiras de fazer Gêmeos e Capricórnio conviverem e se gostarem.

Tenho muitos amigos geminianos também (escrevi mais especificamente sobre o arquétipo do amigo geminiano aqui). Agora, o amigo que me marcou no tuíte que citei lá no começo, ele é de Câncer. Ele se chama Gabriel também e no ano passado eu tinha dito a ele que provavelmente teria um filho com o mesmo nome e o mesmo signo dele. Acabou que o meu Gabriel nasceu um pouco antes, como vocês a essa altura já sabem. Aí já acho que não foi à toa que o Gabriel canceriano me marcou naquela postagem dizendo que Gêmeos não tem jeito é o pior signo e só tá piorando etc.. Canceriano é difícil, né? Fica magoado fácil, acho que até hoje ele ainda não aceitou muito bem, então entrou nessa de disseminar zoeira com os geminianos.

Pois então, Gabriel, aproveite que o amor de Capricórnio está em liquidação e a gente anda distribuindo afagos por aí como se fosse nosso último dia sobre a Terra. Te amo também, querido. Beijos de luz. Mas vamos parar de espalhar fake news sobre o signo do seu xará, pode ser? Se não eu vou ter que ficar te respondendo cada tuíte e cada postagem. Aliás por via das dúvidas vou lançar de uma vez a campanha Eu Defendo os Geminianos. Quem vai comigo? Eu ouvi um amém? Hashtag #somostodessuperficiais.

escorpião, gêmeos, peixes, virgem

Hipocondríacos do zodíaco

O doente imaginário (1862) | Honoré Daumier

Nem sei se devia estar brincando com isso, mas apesar de astrólogo não sou supersticioso, então vamos lá: quando começaram as notícias do novo-coronavírus-chega-ao-Brasil, vocês sabem quem é que em questão de horas já estava sentido todos os sintomas? Acertou em cheio quem disse os piscianos. Pelo menos no meu painel foi assim; começaram a pipocar postagens do tipo “gente to sentindo aqui febre coriza dor de cabeça tudo junto é coronavírus né?”; quando você ia ver o aniversário da pessoa, ou ele tinha acabado de passar, ou estava chegando a data (sim, eu olho a data de aniversário das pessoas no Facebook para saber o signo delas; é para isso que pago a internet).

É bem verdade que Virgem também não demorou a suspeitar daquela tosse esquisita dos últimos dias. Mas, nesse caso, eles já foram logo para o hospital, fizeram um exame, descobriram o que era, tomaram um remédio e voltaram ao trabalho. O problema de Virgem é que logo eles percebem que estão também com uma dorzinha nas costas, e que também ela pode melhorar se for tratada com atenção, então eles voltam suas atenções para dorzinha, e não sossegam enquanto não tiverem resolvido o problema. Eles então resolvem o problema, e logo percebem uma outra fonte de desconforto que não tinham percebido antes – que precisa ser igualmente averiguada de maneira pragmática e objetiva.

Enquanto isso, o pisciano, já resignado por ter sido a segunda vítima registrada da pandemia no Brasil, pesquisa na rede um artigo sobre formas de tratamento que envolvem a aceitação plena do papel do vírus na ordem natural das coisas e a meditação transcendental como eixo de integração corpo-alma-mente-vírus. O fato é que, de um jeito ou de outro, com suas diferentes antenas, ambos os signos estiveram totalmente antenados com as notícias do dia no âmbito da saúde pública. Afinal, os maiores hipocondríacos do zodíaco encontram-se nesse eixo de opostos complementares Virgem-Peixes. Mas não somente aí. Acho que Gêmeos e Escorpião também entram no time, por motivos distintos.

O caso de Gêmeos é interessante, porque o mesmo Mercúrio que em Virgem funciona bem (obsessivamente bem) na hora de buscar diagnósticos objetivos e remédios certeiros, aqui se perde na infinita multiplicação de números e siglas que acompanham os exames. Gêmeos adora um exame, não pela chateação de realizar o exame em si, mas pelo resultado, que lhe oferece uma representação algébrica daquilo que está se passando em seu corpo, em um formato que facilita transformar tudo em assunto de conversa. Gêmeos adora ser assunto de conversa; daí a realmente seguir a prescrição médica é outra história. Além disso, Gêmeos no fundo tem medo da morte, embora pense pouco a respeito, e quando fale no assunto é para fazer troça ou piada. Não que seja supersticioso, mas, se depois de contar uma anedota de funeral, ou compartilhar um meme meio mórbido, Gêmeos começa a sentir uma pontada no ombro, acha melhor fazer logo um exame.

Com Escorpião ocorre o inverso: a morte frequenta seus pensamentos, e Escorpião tem até intimidade com a morte. As diferentes formas de morrer são assunto de sua predileção. Não que goste de exames, não que goste de hospitais: tudo isso lhe parece asséptico e impessoal demais para se associar a um tema tão nobre quanto as doenças e suas eventuais complicações. Escorpião trata a própria saúde com solenidade, fala sobre o assunto em um tom grave, e mantém sobre o corpo uma atenção concentrada que por si só é capaz de criar um estado febril no qual o indivíduo pode permanecer por longos períodos investigativos. Por isso sua hipocondria é a menos divertida, embora possa alcançar patamares existenciais e filosóficos: “a vida é uma doença incurável” é o tipo de frase que você pode ouvir de Escorpião.

Mas Peixes, ah, com Peixes o negócio fica mesmo engraçado. É alguém espirrar na China que Peixes já pega uma pneumonia. Por outro lado, fico então pensando se isso não tem algo a ver com o lado empático do signo, a capacidade que ele tem de sentir e carregar as dores da humanidade inteira; se alguém espirrar na China é bem capaz de Peixes sentir que esse espirro é um pouco seu também. Então, se todo mundo começar a ficar doente, Peixes é bem capaz de ficar culpado se ele não ficar junto, e talvez por isso se apresse tanto em ser o primeirão a sentir os efeitos do novo vírus. A vantagem é que Peixes sabe ficar doente melhor do ninguém. Nenhum outro signo é mais capaz de se entregar ao delírio na hora de curtir uma febrinha.

O contraste é enorme quando a gente pensa em Áries, por exemplo. É um signo que tem orgulho de sua força, odeia ficar doente e não quer nunca perder o controle. Agora, vai ver que por isso mesmo acabem sendo responsáveis pela proliferação de vírus variados pelo mundo. Enfim, quem sou eu para ficar estimulando preconceitos astrológicos, mas se fosse o pessoal dos aeroportos perguntava o signo de todo mundo que chegasse no país. Os hipocondríacos eu deixava passar fácil, porque esses eu sei que vão se cuidar ou procurar cuidados ao menor sinal dos sintomas. Agora, os outros, com essa história de deixa-isso-pra-lá-é-só-uma-febrinha-de-nada, esses eu deixava em quarentena mesmo. Montava um cercadinho só pros capricornianos.

gêmeos

O amigo geminiano

Quando estava com uns oito ou nove anos, eu tinha um amigo que era bastante malcriado com a mãe. Eu gostava de ir na casa dele sobretudo por isso – porque ele era malcriado com a mãe. Mas não do jeito que vocês estão pensando. Os dois pareciam ter uma espécie de pacto, em que ele fazia as vezes do filho exasperante, ela ficava no papel da mãe exasperada, e eu assistia a tudo como se fosse uma pantomima envolvendo gritos e fugas e chinelos sem grande risco de desandar para a catástrofe. Era engraçado, embora com frequência eu tivesse que segurar o riso. E certamente devia haver algum limite que ele não podia cruzar para que as coisas permanecessem assim. Seu nome era Emiliano.

O Emiliano era geminiano. Bom, não sei se era mesmo, mas passou a ser a partir do momento que que resolvi escrever esse texto. Não simplesmente porque ele era travesso, mas porque ele era bom nisso: era travesso com estilo, era levado com arte. Não se tratava apenas de rebeldia; dava para notar que ele estava testando os limites da mãe e do mundo, verificando até onde podia ir nas diabruras sem ficar de castigo, arriscando-se em pequenos desvios e contravenções experimentais, que me causavam a fascinada excitação de quem vê um amigo cruzando um círculo de fogo e saindo ileso do outro lado.

Ou melhor, pensando agora: ele era um pouco como um atacante ligeiro que faz firulas com a bola sob o risco de tomar uma bordoada. Pois há sempre um limite que atacante habilidoso não deve ultrapassar diante de um zagueiro casca grossa. E o Emiliano – assim como os geminianos – não era nem zagueiro casca grossa, nem lateral elegante (Libra), nem volante de contenção (Touro), nem meia armador criativo de lançamentos longos (Sagitário). Ele era aquele ponta que finta para o lado só para ver se consegue se safar sem uma rasteira. O atacante irreverente que tenta sempre um drible a mais só por amor à arte de fazer troça dos marcadores. O Edilson Capetinha do zodíaco.

Por falar em capetinha, uma das cenas mais deliciosas da mitologia grega é aquela em que Hermes, ou Mercúrio, o regente de Gêmeos, prega uma peça em seu irmão mais velho, Apolo, e é descoberto. Ele nega até o fim: “Como assim, Apolo, vê se pode, nasci não faz nem dois dias, tudo que quero nessa vida é dormir e tomar banho quentinho e beber o leitinho da mamãe”. Seu discurso segue nessa mesma toada inocente e petulante até chegar em Zeus, chamado para arbitrar a disputa dos filhos, e o próprio Zeus não consegue deixar de rir da audácia do fedelho. Hermes, é claro, acaba se safando.

Em resumo, Gêmeos gosta de cutucar a onça com vara curta, e improvisa uma graça para desarmar a onça se ela ficar enfurecida demais. É claro que isso pode acontecer de diversas maneiras. Gêmeos com ascendente em Aquário, por exemplo, pode usar esse talento em favor de causas coletivas ou humanitárias, cutucando os padrões tradicionais de conduta; Gêmeos com Escorpião pode testar os limites da exposição em público daquilo que é normalmente ocultado na vida social, em uma interessante mistura de leveza e intensidade. Há também os geminianos que são cem por cento recatados pessoalmente, sem nenhum indício do moleque travesso da lenda, mas estão sempre ameaçando fechar a internet por conta dos comentários que fazem e memes que compartilham. “Postei e saí correndo” é uma frase tipicamente geminiana. 

“Publiquei e saí correndo” também existe, em se tratando de livros, poemas, canções; é só uma versão um pouco mais elaborada e mais antiga do mesmo procedimento. A propósito, tenho outro amigo, geminiano e escritor, que escreveu um livro e me deu para ler antes de publicar. Ele queria minha apreciação, mas queria também saber o que eu achava de algumas passagens em que ele poderia ter sido impertinente ou ofensivo ou sincero além da conta, inclusive na auto-exposição, ou referindo-se a situações e pessoas que podiam ser facilmente identificadas. O livro inteiro era um pouco sobre essa questão da sinceridade, até por ser em formato de diário, então ele precisava correr alguns riscos nesse sentido. Mas demonstrou preocupação com uma eventual reação mais agressiva, a bordoada de um zagueiro bravo, de um crítico zeloso ou de um leitor sensível.

Gêmeos pedir a Capricórnio (no caso, eu) esse tipo de juízo é uma situação arquetípica. Afinal, Gêmeos confia em Capricórnio para lhe dizer quais as barreiras da moral e dos bons costumes que ele não deve ultrapassar. Porque aí ele vai lá e faz, nem que seja pra ver o que acontece. Capricórnio, naturalmente, ficou escandalizado com algumas passagens do livro, e disse a Gêmeos que de jeito nenhum ele devia publicar aquilo revelando aquilo outro sobre aquelas pessoas, nem sobre ele mesmo, porque vai saber como elas iam se sentir, como ele ia se sentir no futuro, e o que se passa na cabeça das pessoas e aí por diante. Mas, secretamente, eu queria mesmo era que ele publicasse tudo para ver no que dava, ver até onde se podia ir. Igualzinho acontecia lá na casa do Emiliano.

Acabou que o livro foi publicado na versão que li, e meu amigo se safou sem nenhuma chinelada, com boas críticas inclusive, até porque trata-se de um romance com estilo e inteligência de sobra para distrair até as onças mais bravas (se você ficou curioso, e se você for de Gêmeos você ficou, é esse livro aqui). Mas era previsível que ele se safasse; conheço esse geminiano há bastante tempo; tem uns vinte anos que ele é meu novo Emiliano. Embora seja uma pessoa séria, prudente e até comedida em público, é também aquele que, numa mesa de bar entre amigos, faz os comentários mais agudos, de um humor no limite do aceitável, mesmo para ambientes descontraídos, e mesmo quando o motivo da piada é ele mesmo (acontece com frequência). Coisas em que eu até poderia pensar com uns dias de atraso, e jamais chegaria a dizer, por ficar com medo de serem malcriadas demais, ou auto-depreciativas demais, afetando a sensibilidade deste ou daquele ouvinte, ou minha imagem perante a audiência.

Ou seja: perco a piada para não perder amigos, sobretudo quando os amigos são valiosos e as piadas não são lá essas coisas. Mas há indivíduos para ao quais esse dilema não existe. Ganham amigos através das piadas, inclusive as piadas ruins, e sobretudo com as piadas sobre si mesmos. Às vezes as duas coisas (a piada ruim e piada sobre si mesmo) andam juntas em uma fusão performática: o trocadilho infame, por exemplo, entra nessa categoria, pois o engraçado não é exatamente o trocadilho, mas o fato de que alguém chegou a pensá-lo e dizê-lo. Por isso é uma arte geminiana, e assim entendemos que a tentativa de fazer graça tem valor por si própria, independente de seus resultados, ou ainda mais quando eles são ridículos ou irrisórios.

Afinal, o trocadilho infame, de tão infame, é uma forma de ser notado. E querer ser notado pode muito bem ser uma forma de modéstia, pelo valor que atribui à atenção dos outros sobre nossos atos. É aqui que eu queria chegar. Gêmeos precisa de atenção por razões mais complexas ou profundas do que a mera vaidade. É claro que a experimentação e a curiosidade em relação ao ambiente imediato têm valor próprio, e podem ser praticadas como um fim em si mesmas; mas quando os objetos começam a ser derrubados das prateleiras, às vezes não é só para descobrir que barulho eles fazem ao se quebrar. O engraçado, aí, é como a criança geminiana que tiver feito isso para receber uma repreensão vai acatá-la com uma face ligeiramente triunfante. Ao mesmo tempo, não perderá nunca certo ar de desamparo por trás da malícia. Seu sorriso será sempre um sorriso meio sem jeito, encantadoramente sem jeito, ao mesmo tempo feliz e constrangido por ter conseguido o que queria.

Gêmeos precisa de atenção porque é assim que aprendeu a receber amor. O geminiano arquetípico é o irmão mais novo de uma família que conta com Hércules, Apolo, Atena e Dionísio, entre outros; se ele não fizesse uma travessura de vez em quando, Zeus poderia mal notar sua existência. Hermes sente que precisa entreter para adquirir valor, e pode fazer isso através da pena, da lira ou da mera traquinagem. A propósito, eu esqueci de incluir Better Call Saul na parte sobre Gêmeos do meu post sobre signos e séries, e deveria ter incluído, não porque se trata de uma peça sobre um advogado vigarista e trambiqueiro (não só por isso), mas porque é sobre um irmão mais novo tentando conquistar a admiração de um irmão mais velho.

Então é assim: Gêmeos pode ser tão carente quanto Câncer, mas onde um apela para o choro, o outro arrisca uma careta. O Emiliano, claro, fazia aquelas traquinagens todas porque estava querendo o amor e buscando a atenção da mãe. Dava certo, eles formavam uma boa dupla. Há ainda crianças que, quando começam a “gostar” de outras crianças, reagem fazendo todo tipo de maldades inofensivas ou ofensas elogiosas, que nunca deixam de ser uma engraçada forma de reverência. Conheço casais que passaram a vida praticando uma saudável zombaria mútua, um refinado sarcasmo, no qual está implicado um profundo respeito. É claro que também aqui há um limite que não deve ser ultrapassado, mas é exatamente porque esse limite existe que existe o jogo, de tal modo que podemos correr riscos pontuais dentro de suas regras, sem colocar sob ameaça a relação como um todo.

Quanto a amigos em geral, e amigos geminianos em particular, me contento em supor que o Emiliano também queria minha atenção, na qualidade de plateia de suas estripulias. No final das contas, é para o público na arquibancada que o driblador faz suas graças. Isso quer dizer que ele respeita o público, assim como o humorista respeita sua audiência, mesmo quando arrisca um comentário que pode suscitar um “alto lá!”. Afinal, não faltam escritores capazes de entender a famosa frase de Gabriel García Márquez: “Escrevo para ser querido pelos meus amigos”. Mas tampouco faltam aqueles que vão atiçar a amizade experimentando seus limites com a sátira e a ironia. Talvez as amizades que comportem uma boa dose de humor sejam inclusive as mais duradouras. Vai ver que é por isso que até hoje eu lembro do Emiliano.

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O jardim de Gêmeos

Às vezes eu gosto de imaginar que nesse mundo existem apenas crianças, como nas historinhas da turma do Charlie Brown – os adultos até estão lá, mas falam uma língua estranha e nunca aparecem no enquadramento da cena. Gosto de pensar esse enquadramento como uma espécie de limite da nossa experiência terrena, que nunca deixa de nos colocar as questões e angústias mais básicas, isto é, aquelas que apareceram na infância, por mais que a gente passe a elaborá-las em sofisticados problemas éticos ou metafísicos.

Quando faço isso, as pessoas que logo se encaixam nessa imagem do mundo são meus amigos de Gêmeos. São aqueles que – com todo carinho – mais facilmente surgem para mim como meninos e meninas disfarçados de gente grande. É claro que, se você for pensar nos personagens da tirinha, dá para encontrar diversos signos. O Charlie Brown mesmo talvez seja pisciano, ou de Capricórnio; o Linus, de Câncer; a Sally, Áries; a Patty Pimentinha, Sagitário; e a Lucy, Escorpião (as personagens femininas são notavelmente mais assertivas). Snoopy provavelmente será taurino, Woodstock com certeza é de Aquário. Mas o universo de Peanuts, como um todo, esse é geminiano.

Exceto talvez pelo aspecto sentimental de algumas cenas e situações, mas tenho a Lua em Gêmeos, para mim pelo menos as duas coisas se articulam bem. E acho que os traços mais lógicos ou cerebrais de Gêmeos são apenas uma manifestação entre outras de uma experiência não-hierárquica do mundo, onde as coisas podem ser niveladas tanto através de símbolos algébricos quanto através de desenhos e palavras. Gêmeos é um arquétipo democrático, embora “arquétipo” e “democrático” talvez já sejam palavras longas demais para Gêmeos. Em resumo, Gêmeos é um signo de boa; Gêmeos é um signo do bem.

Isso, é claro, desde que esse ‘do bem’ aí não presuma um mal radical e profundo ao qual ele se opõe. O mesmo atributo capaz de fazer com que no espectro geminiano estejam vigaristas e psicopatas torna possível uma autêntica inocência, destituída de conhecimento do pecado. Nem sempre a distinção entre uma coisa e outra é clara, e acho que os geminianos mesmo geralmente oscilam entre momentos de verdadeira pureza e outros com algumas doses de psicopatia. Mas o fato é que, arquetipicamente, em Gêmeos não estão colocadas algumas questões éticas fundamentais que nos afligem e nas quais nos perdemos, como a distinção entre a mentira e a verdade, por exemplo. Não é que não se tenha solução para elas, elas simplesmente não existem ainda.

Paul McCartney é geminiano. Lembro de ter lido um ensaio dizendo que, enquanto Lennon queria que sua música fosse um a chamado à revolução, McCartney queria que a sua fosse um picolé. O ensaísta era a favor do picolé. A leveza geminiana então decorre de sua capacidade de retirar o peso das coisas através da linguagem, desmanchando no ar tudo que é sólido, ou melhor: desconhecendo as profundezas das coisas ao perder-se no encanto com suas saborosas superfícies. Tudo a favor das superfícies. Geminianos sabem que mesmo nossas experiências mais profundas continuam sendo experiências humanas, e portanto têm algo de comum e risível, de tal maneira que inclusive a notícia de uma morte trágica pode se intercalar com os movimentos mais ligeiros de um dia na vida, em um jogo de montar e desmontar sentimentos através das peças de uma só canção (woke up, fell out of the bed / dragged a comb across my head…”).    

Brincar, montar, desmontar, entender: isso tudo são atividades infantis, e tudo isso são atividades geminianas. Áries pode ser o primeiro signo do zodíaco, mas Gêmeos é o que tem mais claramente a sensação de que está encarnando pela primeira vez. Talvez por isso sinta que não tem a mesma responsabilidade que os outros signos – os ‘adultos’ estão aí para cuidar das partes chatas, os virginianos estão aí para cuidar das partes chatíssimas, John Lennon está aí para fazer a revolução. De modo que Gêmeos se vê livre para explorar o ambiente imediato, por força da pura curiosidade.

Aliás, um último tema geminiano que vale mencionar nesse contexto é a vizinhança. Pois a vizinhança é o palco da infância, tanto para a turma do Charlie Brown quanto para a turma da Mônica ou para a turma do Chaves, por exemplo (a ‘turma’ é um tema geminiano também). O bairro, a vila e os arredores são nesses casos limites que só parecem restritos aos nossos olhos, que os veem de fora, porque para as crianças eles comportam o universo. Vida de Inseto é um filme geminiano, não só pela atenção ao pequeno e ao detalhe, mas também pela ação circunscrita a um cantinho no jardim onde podem se passar todas os dramas do mundo.

Enfim, Marcelo Gleiser usa a metáfora da ‘ilha do conhecimento’ para dizer que toda expansão do nosso saber implica uma ampliação ainda maior do desconhecido. As fronteiras que nos separam de algo além se afastam na medida em que tentamos alcançá-las. De modo semelhante, dá pra imaginar que, conforme a gente vai crescendo a ficando adulto, ao invés de ultrapassar a linha que separa os homens dos meninos, essa linha vai subindo, até que a gente para de crescer, olha em volta, e percebe que ainda somos apenas crianças.

É verdade que no mundo dos adultos há profissões, responsabilidades, deveres; mas nas brincadeiras infantis essas coisas já existem, a diferença é que resolvemos levá-las mais a sério. Exceto, às vezes, por Gêmeos, que, se puder, vai continuar brincando vida afora. O interessante é que das crianças eventualmente se diz que elas vivem ‘no mundinho delas’, como se fosse algo à parte, algo restrito, algo a ser superado. O jardim de Gêmeos é esse mundinho, mas talvez nós estejamos nele até hoje, nunca tenhamos saído de seus limites evasivos, e apenas perdemos o encanto e a curiosidade necessários para apreciá-lo.

gêmeos, sagitário

O riso e o escárnio

Gêmeos e Sagitário. Dos signos mutáveis, os que mais obviamente implicam movimento estão neste eixo de opostos complementares. Gêmeos é o arquétipo das viagens curtas, do pensamento rápido e da curiosidade inconstante. Sagitário diz respeito a longas distâncias, longas argumentações, ao engajamento em um propósito e ao entusiasmo com suas chances de sucesso. Num caso, o raciocínio analítico decompõe o mundo nas peças de um jogo ou de um brinquedo, fazendo com que a pessoa seja capaz de reinventá-lo em mil formas tão diferentes quanto provisórias. No outro, existe o desejo por uma síntese final e absoluta, por uma definição que não está disponível de imediato, e que precisa ser procurada em peregrinações mundo afora (ou jornadas noite adentro, através do estudo e dos livros).

O contraste faz lembrar um texto que eu e um amigo geminiano traduzimos muitos anos atrás, chamado “A Flexibilidade do Self na Literatura do Renascimento”. O autor, Thomas Greene, investiga como teria surgido entre indivíduos renascentistas uma ambição por elevar o próprio homem à condição divina, em movimentos verticais, voltados para o alto, para o céu, para o absoluto, onde estaria o mais completo entendimento dos mecanismos da criação. Ao mesmo tempo, ele assinala como não deixou de haver na época uma mobilidade de tipo horizontal, de maior desenvoltura e habilidade prática para resolver e aprontar encrencas pontuais, capaz de brincar com a vida de modo menos sério.

Greene associa esse comportamento às heroínas das comédias de Shakespeare, ao talento que tinham para ocupar diferentes papéis em uma trama, fazendo-se passar pelo que não eram. Podemos também vê-lo na imagem do Malandro, do Trickster e do Coringa (“why so serious?”), que pode ser qualquer personagem do baralho, e ao mesmo tempo não é nenhum (sem identidade pessoal alguma para desenvolver, mas movimentando-se lateralmente com total liberdade). Assim, tudo indica que nosso riso mais cotidiano tem a ver com a percepção do múltiplo e do relativo – enquanto na possibilidade do absoluto e da realização de feitos extraordinários está um prazer de outra natureza, mais entusiástico e elevado. No entanto, já presenciei gargalhadas sagitarianas tão épicas quanto destruidoras de quaisquer certezas e convicções, e fico pensando que tipo de desconstrução entra em jogo nesse caso.

A propósito, nossa época reviveu uma busca renascentista: a do Desenho Inteligente do Cosmos, ou da Teoria de Tudo. O Grande Colisor de Hádrons de Genebra está envolvido nisso e é uma extravagante e sagitariana estrutura voltada para o conhecimento dos fundamentos dos cosmos. Por mais que tudo se justifique em nome da ciência, um empreendimento dessa dimensão não teria sido realizado se não houvesse em sua origem desejos e anseios de outra natureza. O mundo foi geminianamente decomposto em minúsculas pecinhas, mas para que em seguida se anunciasse com estrondo a descoberta de uma pecinha especial: o Bóson de Higgs, a “partícula de Deus”, em torno da qual tudo se reuniria novamente.

No entanto, alguns desdobramentos subsequentes da investigação ameaçam jogar por terra todas as conquistas anteriores, no que se refere à revelação de um universo de leis inteligentes e articuladas (tem um ótimo documentário sobre isso na Netflix, “Particle Fever”). Cientistas que passaram uma vida criando modelos em que todas as peças do cosmos encaixariam de novo em uma imagem coerente estão se defrontando com evidências e resultados contraditórios, que não se adequam à suas expectativas e podem inclusive enterrá-las para sempre. Uma possível explicação para o fracasso desses modelos é a hipótese de que vivemos em um universo entre muitos outros, que não seria o resultado de um desenho inteligente, mas de um conjunto de felizes acasos. De modo que, onde eles vêm o uno, existe o múltiplo, e por isso, de onde esperam números absolutos, tudo o que recebem são variáveis relativas ao ambiente em que se encontram. Nasceu assim a hipótese do multiverso.

A divulgação desses resultados foi motivo de intensas crises existenciais por parte alguns pesquisadores, que vinham nutrindo um incontido entusiasmo com as chances de sucesso que vislumbraram. Mas será que não podemos receber a notícia desses fenomenais reveses também com um trovejante e jupiteriano riso, estrondoso, libertador? O múltiplo e o relativo não são igualmente engraçados nessa escala? Não é divertida em um nível intergaláctico a ideia de termos não um, mas múltiplos universos, cada um com seu jeitão e suas manias?

Acho que os sagitarianos, pelo menos, sabem que sim. Acho que a gargalhada sagitariana pode muito bem ser essa gargalhada cósmica diante da futilidade dos mais elevados esforços. Pois a gargalhada sagitariana, em qualquer manifestação ou momento, não é simplesmente um riso diante das patetices do dia-a-dia; é uma espécie de prazenteiro escárnio niilista diante do vislumbre de uma derrota final e redentora, que nos salva de nossas limitadas ambições terrenas, e nos coloca de volta no caminho de uma busca que só faz sentido se não tiver chance de terminar, porque haverá sempre novos caminhos a desbravar e novos universos a descobrir.

Já no âmbito geminiano, por outro lado, talvez isso nos faça descobrir que há algo de solene na impermanência. Que as inúmeras variações das formas do mundo não são apenas divertidas: são também o que temos de mais verdadeiro. Deste modo, será possível descobrir a verdade naquilo que temos de mais próximo e disponível. Sagitário e Gêmeos, afinal, são arquétipos que envolvem as figuras do professor e do aluno, e neles é possível atualizar a máxima zen que trata das relações entre mestre e discípulo: diante de assuntos sagrados, dê uma gargalhada; diante de assuntos cotidianos, sorria, e perceba, o sagrado está aí.

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Igual Gêmeos na chuva

Harold Perrineau / Romeu + Julieta (1996)

Caía uma chuva estrondosa no Rio de Janeiro. Sou diretor de uma unidade de ensino, e nessas horas faz parte do meu trabalho trocar informações para decidir sobre uma possível suspensão das aulas e outras atividades. Em dias assim, é muita gente ansiosa por notícias, muita gente que precisa ser consultada, muita gente que precisa ser avisada, e é muita informação que circula também. Claro que isso está longe de ser uma das grandes encrencas que um temporal causa, mas para mim a situação é motivo de certo desespero, o suficiente para querer chutar o balde e jogar o celular pela janela.

Tenho Mercúrio em Capricórnio; minhas comunicações cotidianas são pragmáticas. Então, parte do meu transtorno está na quantidade de informação inútil que chega nessas horas. Em meio ao caos, o que não falta são mensagens de whatsapp que não passam de interjeições soltas no vácuo, postagens em que sou marcado com a melhor das intenções e a mais completa falta de noção, comentários interessantes que posso muito bem deixar para responder daqui a uns três anos (normalmente, além de pragmático, sou lento). Lógico que nem todo mundo precisa saber o tipo de informação que quero/preciso e que estou no meio desse pequeno perrengue particular. Mas, às vezes, justamente as pessoas que sabem são as que oferecem mais motivos para minha exasperação.

A Lua estava em Gêmeos. Marte estava em Gêmeos. E, se você for parar pra pensar, isso de compartilhar informações e trocar mensagens sem motivo pragmático nenhum, isso é uma coisa muito geminiana. De modo que de repente me vi praguejando contra todas as gerações de geminianos desde Hermes Trimegisto: p***, Gêmeos, me deixa concentrar no meu trabalho! O mundo tá caindo e você aí me passando correntes e memes e piadas! Ou, mesmo quando tá passando notícias: dá um tempo, Gêmeos, eu sei usar o Google! Conclusão: Gêmeos, a princípio, é o último signo que você quer por perto em meio a uma catástrofe.

Nessas horas a gente precisa de Áries, Touro, Escorpião. Ou mesmo Câncer, para dar um pouco de calor humano, e Virgem, para organizar a distribuição de mantimentos. Mas Gêmeos? Pra quê Gêmeos? Tudo bem que nessas horas a gente precisa de informação, mas em tese é de informação com foco, informação com motivo, e nesse caso Sagitário dá conta do recado. Quer dizer, em tese, né. Porque, me peguei pensando logo depois, às vezes tudo o que a gente precisa é de uma informação que chega sem foco e sem motivo nenhum. Às vezes , em meio à catástrofe, tudo o que a gente precisa é dos geminianos.

Não estou dizendo que a gente precisa de uma distração, de um desvio, de uma fofoca. Estou dizendo que as informações mais úteis que chegam até nós nessas horas podem ser aquelas que alguém saiu distribuindo sem nenhuma intenção específica, simplesmente porque é da natureza da pessoa distribuir informação. Naquela ocasião mesmo o que acabou fazendo realmente diferença pra mim (para decidir suspender as aulas) foi uma notícia que alguém compartilhou não exatamente tentando me ajudar, mas porque a pessoa sai compartilhando tudo quanto é tipo de notícia, das mais irrisórias às mais sérias. A que me ajudou estava entre as irrisórias. Quando a gente pensa em episódios como essas chuvas torrenciais que às vezes caem no Rio, fica fácil imaginar como se dá esse processo.

Em momentos assim, as pessoas saem divulgando todo e qualquer pedacinho de conhecimento da situação que tenham, saem falando igual Gêmeos na chuva, sem que saibam exatamente qual pedacinho vai servir pra quem. Mas o que salva a vida de uma pessoa é muitas vezes um pedacinho desses. O arquétipo de Gêmeos, portanto, mesmo que não saiba exatamente o que fazer diante da terra devastada, pode muito bem ser aquele que evita uma devastação maior, e sem querer querendo vai nos guiando no meio da bagunça, às vezes totalmente sem querer mesmo – inclusive através de uma distração, de um desvio, de uma fofoca.

Eu fico pensando. Romeu e Julieta, por exemplo. É uma tragédia, mas será que seria uma tragédia se tivéssemos um geminiano no elenco? Se tivesse alguém pra espalhar por lá a notícia de que a Julieta não ia se matar coisa nenhuma, de que ela ia estar só sob o efeito temporário de um remédio, de que tinha armado aquele teatro para que os dois pudessem ficar juntos? O problema é que ficaram dependendo daquele padre pra dar a notícia. Faltou alguém para dar uma fofocada mesmo, falar por falar, sair por aí contando o esquema. Quem sabe assim a história do plano não teria chegado ao Romeu, e só pro Romeu mesmo, não pros seus inimigos, por uma misteriosa concatenação de forças?

Parte da beleza de Gêmeos está aí: ele não controla a informação que distribui, fica contente em distribuí-la sem maiores propósitos e intenções. E o mundo se quiser pode muito bem fazer com que isso tenha bons resultados. Na peça, é claro, a tristeza é que Mercutio, seu personagem mercurial, morre logo no começo. Enfim, há tragédias que acabam acontecendo simplesmente porque os geminianos saem de cena. Por favor, queridos/as: continuem aí.