aquário, escorpião, leão, touro

Bons ventos

[Desenho: Bia Callegari]

Os arquétipos astrológicos contam muitas histórias, e uma delas é a que se narra a partir da sucessão dos signos fixos no zodíaco. Ela começa com a energia impessoal de Touro: força de sustentação dos ciclos da natureza, feita de momentos de esforço consistente e descanso merecido, onde acontecem as renovações regulares com as quais o corpo se confunde com cosmos. Touro é aquilo que garante o crescer e o florescer periódico das plantas, e aceita com dignidade seu perecimento, porque entende que ali já está contida a semente de um reinício. Touro é a constância da vida e da morte, repetindo-se indefinidamente. Não estamos falando necessariamente de uma vida ou de uma morte quando falamos de Touro.

Uma vida acontece quando um eu se isola e se reconhece nesse processo. A esse eu chamamos também de Sol, que resplandece em sua permanente juventude, independente de tudo e ao mesmo tempo centro de todas as coisas. Um centro. A energia que emana do Sol é a energia que emana de Leão, cuja vitalidade desconhece os ciclos do tempo orgânico e terreno, e se esbanja no derramar-se inesgotável do verão como se não houvesse amanhã. Porém sabemos que há, por mais distante que possa ser. Sabemos que o inverno há de vir e que o próprio Sol um dia vai acabar, porque sua vida é um evento no universo, ou melhor, um evento do universo, como todos nós somos. Algo que se destaca a ganha existência própria apenas por um instante, ainda que nesse instante exista algo de eterno – como as estrelas que brilham no céu noturno mesmo depois de terem se apagado.

De modo que a verdadeira consciência da finitude do corpo e da noite da alma se dá no âmbito de Escorpião. Essa consciência por si mesma causa transformações que não estavam no roteiro leonino. Escorpião é a descoberta de uma fissura, uma feiura, uma falha, na superfície brilhante de si enquanto Sol, e a prospecção das profundidades ocultas que agora pedem para ser integradas à personalidade. Esse processo exige a morte do eu que havia antes. Uma morte. Ela se dá em uma catarse, em uma espécie de gozo, que significa a dispersão de energias longamente represadas. Em Escorpião acontece o encerramento abrupto de uma história que por muito tempo se demorou nesse fim – e quando ele chega nunca é simples ou fácil, mas é sempre uma forma explosiva de cura e de libertação.

Enfim, atravessada a crise, a força dos fixos torna-se novamente impessoal, porém agora não mais atrelada aos ritmos do corpo, que já foi delimitado, dilacerado e curado. Aquário é a luz que brilha quando todas essas energias se dissipam no céu, como se fossem vento; é a matéria que se deixa e dissolver e espalhar quando atinge a perfeição provisória do círculo; é a libertação dos limites da forma, com a consciência do espaço ilimitado. Aquário percebe que todos os sóis do universo coabitam um mesmo espaço, e nele nascem e nele morrem nos mais diferentes formatos e tamanhos, sendo que juntos formam uma rede de sóis interligados onde todos brilham juntos e nenhum deles está no centro.

Júpiter acabou de ingressar em Aquário, onde vai permanecer por cerca de um ano; Saturno já está lá há alguns dias, e fica durante dois anos e alguns meses; em 2023, Plutão chega para uma estadia de mais de uma década. Cada vez mais essas energias tão terrenas ou telúricas vão ganhar ares aquarianos, e a capacidade de disseminar-se em todos os recantos do cosmos sem ter origem em nenhum deles especificamente. Que esses bons ventos nos levem.

escorpião, libra

O declínio do Império Escórpio-Líbrio

O jardim das delícias terrenas (detalhe, c. 1510) | Hieronymus Bosch

Os estudos acadêmicos na área de humanidades geralmente envolvem uma abordagem comparativa de seus objetos, acionando um jogo de semelhanças e diferenças em que esses vetores se alternam ou mesmo se confundem em algum momento da brincadeira. A literatura comparada, por exemplo, pode primeiro apontar distinções entre duas obras, para em seguida expor-lhes uma unidade de fundo; ou, então, notar pequenos desvios à norma ou à tradição em um corpus de textos similares, nos quais são notáveis as parecenças. De um modo geral, onde as familiaridades são evidentes, o crítico tende a buscar pontos de colisão; e, onde dois discursos mal dialogam, trata-se de buscar pontos de contato. Algo semelhante pode ser dito da signologia comparada, um ramo dos estudos astrológicos que eventualmente exerço aqui neste espaço, e ao qual será parcialmente dedicado também o presente texto, em uma perspectiva interdisciplinar, tal como exposto a seguir.

Estamos agora naquela época do ano em que o Sol deixa o signo de Libra e ingressa no signo de Escorpião. Este tipo de trânsito costuma servir para a explicação de diferenças entre os dois arquétipos do zodíaco, na medida em que é presumida uma mudança de energias através das quais as forças solares se manifestam. Tudo muito certo até aí, e de fato essa transição deve ser tão perceptível como, digamos, a mudança entre a época de Áries e a época de Touro. Mas, com base em descobertas recentes da arqueologia dos conhecimentos astrológicos, gostaria de propor agora um exercício a vocês. Vamos supor que não existissem Libra e Escorpião, não como signos isolados. Vamos supor que formassem um só arquétipo, depois dividido por conta de um movimento de separatista ainda a ser investigado pelos historiadores sígnicos, aos quais cabe a pesquisa de importantes aspectos políticos das relações interzodiacais.

Pois bem: é exatamente isso que aconteceu durante parte da antiguidade greco-romana, quando, entre finais de setembro e meados de novembro, durante um intervalo particularmente longo, entendia-se que o Sol percorria apena um signo. Este signo era Escorpião. Libra só veio a existir depois, ou, como já observei em outro texto: Libra até então nem era signo, e nem existiam librianos na época, exceto por alguns indivíduos muito à frente de seu tempo. Por outro lado, isso me faz supor que “Escorpião” tal como o entendemos hoje tampouco podia ser distinguido, pois suas características se confundiam com as do arquétipo com o qual constituía um só corpo na trama celeste, formando talvez uma espécie de escaravelho elegante e indeciso, ou uma balança vingativa com pinças cortantes no lugar dos pratos.

Mas essas soluções híbridas padecem de anacronismo. Estamos concebendo com recursos modernos aquilo que na antiguidade provavelmente era bem diferente. Para preservar o rigor acadêmico, deveríamos tentar imaginar o Librião (ou a Escobra) como uma verdadeira unidade, e não a mera adição de duas partes. Isso pode nos ajudar a compreender o movimento que culminou no divisionismo. Pois uma coisa é certa: diante dessa criatura, estaríamos lidando com uma espécie de força infalível nas artes do amor, cujos talentos para a sedução teriam um componente arcaico e instintivo que impediria o surgimento de qualquer tipo de dúvida em seu espírito de conquista. Pensem bem. Na época em que este monstro sagrado dos jogos amorosos desfilou sobre a Terra, você não tinha nenhuma chance se topasse com um deles em seu caminho. Ia direto para a alcova, atraído por algo que não dava para entender bem o quê.

Ficam poucas dúvidas quanto a saber quem é que realmente dominou o mundo naquele período histórico. Com intensidade diplomática e uso de inteligência nas guerras emocionais, creio que foi possível a criação de todo um império, embora ele tenha sido apagado dos mapas em razão dos movimentos subsequentes. Pois algo me diz que foi exatamente esse caráter de superpotência afetivo-sexual que resultou na bifurcação de Escorpião e Libra em dois países separados: imagino que o inconsciente coletivo tenha se dado conta de que o amor e o poder precisavam de representações arquetípicas distintas, do contrário corríamos o risco de passar o restante do tempo inebriados pela beleza e pelo mistério que coexistiam no espectro da junção entre ambos. Isso deve ter assumido a forma de uma decisão tomada nas mais recônditas catacumbas zodiacais, talvez sem a participação do próprio objeto da questão. Imagino os outros dez signos se reunindo escondidos e abrindo o jogo: isso tem que acabar. Ninguém aguenta mais tantas delícias. Alguém tem que por um fim nesses gozosos suplícios. Do jeito que está, não dá.

As más línguas vão dizer que quem convocou a cúpula com esse tipo de conversa foi Capricórnio (porque àquela altura ninguém trabalhava mais, estava todo mundo largando tudo para ir atrás dos lendários jardins onde reinava o mais refinado e intenso prazer, e até mesmo o senado deveria ser o cenário de agradáveis orgias). Muito justo, e eu como capricorniano tenho que reconhecer essa possibilidade. Porém, convenhamos: independente de quem deu início ao processo, uma ruptura de tal escala jamais teria acontecido sem a participação de inconfidentes de diversas naturezas, capazes de articular toda uma série de movimentos conspiratórios que culminariam na cisão do império Escórpio-Líbrio. Dividir para conquistar, suponho que tenha sido o lema da insurreição. Ou dividir para não ser conquistado, para sempre.

A propósito (vou me permitir aqui um parêntese interdisciplinar de fôlego): quando digo “convenhamos”, não estou apenas forçando uma cumplicidade com o leitor por meio de um truque retórico. O zodíaco tal como o conhecemos é uma convenção, do latim conventio, que significa assembleia, reunião, e acordo, contrato. Isso, por um lado, reforça a ideia de que o fenômeno estudado ganhou corpo em uma espécie de Convenção de Viena astrológica; por outro lado, faz lembrar que divisão da faixa do elíptico solar em doze espaços de igual tamanho é de fato uma convenção, no sentido de ter sido uma resultante de definições e disputas de agentes históricos, e não uma conjunto de leis recebidas dos céus e registradas em tábuas sagradas.

Isso faz com que sua disposição esteja sujeita a diferenças não somente no tempo, como também no espaço: na Índia, por exemplo, utiliza-se hoje o zodíaco sideral, bem mais engastado nas posições das constelações a que os nomes dos signos fazem referência. Já o zodíaco que utilizamos no ocidente desde antiguidade greco-romana é o tropical, vinculado às constelações de modo mais indireto e simbólico, e que nem tenta enganar na hora de parecer que é uma evidência do universo. O acordo tácito que resultou nos símbolos e casas zodiacais que usamos hoje teve seu momento decisivo justamente no século I a.c., em parte por obra e sugestão de Ptolomeu, em parte consolidando tradições advindas da Mesopotâmia e da Pérsia.

Quanto à explicação de como as pessoas acabam ainda hoje se comportando de acordo com as características do signo sob o qual nasceram nesse esquema arbitrário definido dois mil anos atrás, isso deixo para vocês que acreditam nesse negócio de signo. Porque eu mesmo não “acredito”, para ser sincero. Estou tão envolvido no jogo, ele faz tanto sentido para mim, que não se trata de uma questão de crença, mas de experiência. Aceito minha posição capricorniana no plano zodiacal um pouco como aceito minha nacionalidade brasileira no plano internacional, até certo ponto por ter sido condicionado pela cultura e pela política, mas também por ter confirmações diárias de que atuo no mundo como brasileiro e capricorniano em diferentes esferas da existência. Por mais que em ambos os casos estejamos falando de construções convencionais, realizadas no transcurso da história humana, que de maneira alguma estão inscritas na natureza.

É verdade, entretanto, que os limites territoriais entre as nações podem ser razoavelmente explicados por movimentos históricos onde eles começam e terminam. No caso dos signos, a coisa parece ir um pouco além, e vir de um momento anterior ou de uma dimensão paralela àquilo que concebemos como a História da humanidade, em um plano temporal linear. Em resumo, e como eu vinha dizendo um tanto metaforicamente, podemos sim imaginar algo na natureza humana – ou na natureza do cosmos, manifestando-se por meio de humanos – que optou por fazer as distinções astrológicas. Podemos sim supor uma razão segundo a qual Escorpião e Libra deveriam existir separadamente. Porém, a melhor metáfora para isso talvez não seja a da nacionalidade.

Pois, além de serem resultado de um processo histórico, as nações, tal como existem hoje, representam uma espécie de destino inescapável para o indivíduo que brota em seu território. Ou, como afirmou o escritor Jorge Luis Borges a respeito de si próprio e de seus compatriotas: “Ser argentino é uma fatalidade”. Quer dizer que, se você nasce em tal e tal lugar, e em tal e tal momento, você logo terá imputada à sua identidade (quer queira quer não) um determinada rotulagem que te acompanhará em todos documentos que assinar no decorrer da vida. A relação do sujeito com sua nacionalidade pode nem ir muito além disso, mas dificilmente fica aquém: você precisa ter uma, e aquela que ficou definida por motivo do território onde ocorreu seu nascimento acaba sendo uma solução razoável, na maioria dos casos.

Por outro lado, nunca vi Borges falando que ser virginiano era um destino incontornável, com o qual ele teria que lidar de um jeito ou de outro. Isso por dois motivos. O primeiro, mais evidente, é que o fato de você ser de Gêmeos ou de Leão ou de Peixes muda pouca coisa nos trâmites práticos da vida; normalmente, não te impedem de entrar nos Estados Unidos simplesmente porque o país cortou as relações diplomáticas com Sagitário. Assumir um signo e incorporá-lo à sua identidade pessoal é uma escolha, por mais que você não possa escolher qual signo, assim como não pode escolher ser italiano. A diferença está no fato de que uma nacionalidade, no mundo de hoje, você tem que ter. Signo é só para quem quer mesmo, o que já uma boa margem de manobra, em termos de liberdade individual.

O segundo motivo, mais importante, é que Borges não era apenas virginiano. Ele tinha o Sol em Virgem, é verdade, mas tinha também a Lua em Áries, Marte em Libra e o Ascendente em Câncer, entre vários outros componentes, tão inescapáveis quanto ignoráveis em comparação com seu signo solar. Todos somos assim, do ponto de vista da astrologia: uma combinação única e irrepetível de um conjunto de forças diferentes e dissonantes, que, ao serem mobilizadas por variados canais de manifestações em nós mesmos, acionam processo ininterrupto de conflito e harmonização, cooperação e disputa – pois sempre que um equilíbrio é alcançado de um lado da balança de poder, outro surge e exige nossa atenção em uma área diferente da vida.

A astrologia, portanto, decorre de uma cosmovisão democrática e politeísta de mundo, em que nosso corpo e nosso espírito se tornam o palco dos encontros e colisões entre os deuses, conhecidos também por meio da analogia com os corpos celestes e seus movimentos. Por mais que a gente tente tomar o controle desse jogo, ninguém – nem mesmo nosso Sol, nosso ego – está em condições de assumir poderes imperiais sobre o restante das peças do tabuleiro.  Daí chegamos a uma conclusão muito semelhante à de Carl Jung em seu Símbolos da Transformação, quando fala da coexistência de diversos arquétipos em uma só experiência individual: “O acordo com a libido é hipótese alguma é um simples deixar-se levar, pois as forças psíquicas muitas vezes não têm uma direção única e muitas vezes até se dirigem umas contra as outras (…) Colisões, conflitos e enganos são inevitáveis”.

Ou seja: é como se o mapa astral de cada um de nós representasse uma espécie de mapa-múndi individual, no qual as nações não são externas ao indivíduo e maiores do que ele, mas sim agentes internos em confronto e diálogo, que ao mesmo tempo encontram equivalência naquilo que conhecemos de mais afastado de nós (as estrelas). Por isso não temos um único signo (ou mesmo de dois, considerando o ascendente), como temos só uma ou duas nacionalidades. Somos uma determinada composição de todos os agentes dessa geopolítica fantástica, com suas negociações multilaterais, órgãos multinacionais, localismos exacerbados e expatriados em trânsito, sem que identificação com um só desses fatores seja possível. Mas somos também uma possibilidade única de coordenação e acordo entre eles, pois, como afirmou o próprio Borges naquele mesmo texto que mencionei antes, “nosso patrimônio é o universo”.

Voltando então ao problema de onde partimos, fica evidente que, se durante um período da história surgiu a ameaça de que um signo adquirisse supremacia sobre os outros, ela precisou ser evitada por um movimento de dissipação de seu poderio imperial. Esse é um modo de entender os acontecimentos. Outro é supor uma capacidade do próprio espírito do cosmos de localizar e corrigir as carências que identifica em sua manifestação humana. Ou seja: se houve um momento específico em que a alma decidiu que precisava de Libra para representar um faixa importante do prisma de sua experiência, é porque realmente estava faltando um símbolo para dar conta dessa parte de sua cartografia interna, que calha de ser também a cartografia dos céus.

Não restam dúvidas, hoje, que, se Libra não existia antigamente, devia fazer uma falta danada. No final das contas, Libra é sobre equilíbrio – mas é também sobre a oposição, sobre a percepção da oposição, a compreensão da oposição, isto é, das dualidades que atravessam o espírito e criam separações onde a unidade é só aparência. O genuíno amor libriano é uma tentativa de aproximação entre o que é diferente e distante, não um espelho narcísico onde só importa o encontro com o igual – mas para isso é preciso um olhar agudo para a dessemelhança. No jogo comparativo que a astrologia propõe, o eixo libriano é o do afastamento, que confere uma nova perspectiva ao olhar, e cria chances de negociação onde a pressuposição de uma unidade levaria à catástrofe. Na falta desse afastamento (e dos questionamentos que ele proporciona), supõe-se que facilmente rumávamos em direção ao abismo sem grandes hesitações.

Assim, se Libra surgiu de uma costela de Escorpião, pode muito bem ter sido porque um mergulho nas profundezas da psique revelou verdades que tornaram necessário esse tipo de distância. O jardim de delícias que imaginei ao supor a fusão dos dois signos pode ter se tornado um inferno, e só Deus sabe como deter todo o poder do mundo nas mãos é no mínimo um transtorno, talvez uma tortura. É verdade também que o “inferno” da lenda tem lá suas qualidades quentes e úmidas, e que sem conhecermos o caminho para esse lugar nossa experiência estaria igualmente destituída de uma faceta radicalmente transformadora. Onde Libra trata do discernimento intelectual, Escorpião sugere uma fusão corporal, gerando uma tal concentração de energias que deve mesmo resultar em uma espécie de orgasmo, que é sempre um pequeno apocalipse.

Enfim, parece que até mesmo o fim do mundo é uma experiência possível nos mundos que carregamos dentro de nós. Por isso é possível desdobrar esses raciocínios comparativos em direção ao infinito. Tanto melhor que seja assim, e que tenhamos todos esses signos e arquétipos para enriquecer a vida com símbolos e histórias e narrativas, assim como a comparação interna entre eles enriquece nossa compreensão de cada um. De semelhanças e diferenças se fazem todas as abordagens comparativas: e precisamos de Libra e de Escorpião para conhecer as separações e fusões possíveis que existem dentro de nós. Por isso nos livramos de seu domínio, embora tenha ficado uma doce lembrança de quando éramos subjugados por seus deliciosos prazeres.

câncer, escorpião, peixes

Um trem aqui no meu coração

Tsunami | Katsushika Hokusai

Uma coisa que não comentei quando fiz a enquete do grande vilão do zodíaco foi o resultado por equipes. O lapso é imperdoável, mas está em tempo de corrigir. Vamos lá então: somados, os signos de Água ficaram com 52 votos, os de Ar, 44, Fogo, 23, e Terra, 15. É um resultado até surpreendente se você pensar que o temido Capricórnio está entre esses últimos, que o próprio Satanás não contribuiu para uma melhor posição do time liderado por Áries, que nem Libra conseguiu aliviar a barra de Gêmeos e Aquário, e sobretudo que entre os grandes e incontestáveis líderes estão os chuchuzinhos cancerianos e os piscianos distraídos.

Mas o resultado faz sentido se a gente considerar que a gente tem sempre medo do que não conhece. E os signos de água são exatamente aqueles que preservam sempre algo de oculto – inclusive de si mesmos – de tal forma que o mistério é inerente a esses arquétipos. Peixes é um caso extremo de vai-saber-o-que-tem-ali-dentro; mas Escorpião é também um arquétipo onde se aloja uma série de ameaças subterrâneas, e mesmo Câncer é capaz de transformar um ambiente “familiar” – como o da própria família – em algo perpassado por estranhos segredos. Além disso, quando dizemos que uma pessoa é “de lua” – a regente canceriana –, de certo modo estamos afirmando que essa pessoa é volúvel e pouco confiável.

É claro que esse resultado diz muito pouco sobre os signos de água propriamente, mas talvez diga algo sobre nós mesmos. Ele diz que o que a gente mais teme no mundo são as nossas emoções, sobretudo quando entendemos que elas estiveram ocultas ou reprimidas até o momento em que resolveram aparecer com toda força. A linguagem que usamos nesses casos com frequência é indicação disso: nós nos sentimos “tomados” por nossas emoções, como se fossem bandidos armados que nos fizeram reféns; “inundados” por sentimentos, como se não tivéssemos conseguido represá-los; e “traídos” por nossos próprios afetos, como não diríamos que somos pelos nossos pensamentos, por exemplo.

É interessante então lembrar que, para a humanidade primitiva, pensamentos não eram algo que um indivíduo “tinha” – eram simplesmente algo que ocorria a ele, um pouco como entendemos as emoções hoje. Pelo menos é assim que Jung descreve o fenômeno do pensar nos primórdios da humanidade, parecido com a perspectiva adotada por uma pessoa em estado de meditação, que vê os pensamentos lhe ocorreram e se dissiparem, como se tivessem vindo do nada e voltassem para lugar nenhum. Mas talvez para os primitivos isso de pensar tenha sido uma experiência realmente atemorizante, tipo, “gente-que-que-isso-apareceu-um-trem-aqui-na-minha-cabeça”. Ih, pensei.

Hoje, porém, estamos mais na linha do “gente-que-que-isso-apareceu-um-trem-aqui-no-meu-coração”. Ih, senti. Nesse caso não estamos falando do coração leonino, centro pulsante de onde jorra o entusiasmo vital, mas de um órgão mais abstrato, que confundimos de maneira geral com aquilo que chamamos de alma. É verdade que no caso de Escorpião acontece também de a gente de repente sentir um trem em outras partes do corpo. Mas isso é só uma das tantas maneiras como podemos perder o controle da situação, de tal modo que os signos de Água estão todos associados a alguma forma de desatino.  

Seja como for, seja como acontecer, o que a gente percebe é que esse descontrole tem sempre um papel nos desdobramentos não só da nossa vida psíquica, mas também dos fatos da existência. Trânsitos de Plutão e Netuno, por exemplo – os regentes de Escorpião e Peixes – são famosos pelas intensas transformações e desenganos que trazem, mas são também geralmente seguidos por atitudes até outro dia impensáveis, e que só se tornaram pensáveis nas novas condições.  Algo semelhante pode acontecer com uma Lua Cheia carregada de desafios e possibilidades, por conta de seus aspectos com outros planetas ou com o mapa natal de um indivíduo.

Ou seja: muita coisa que consideramos ser nossas ‘decisões’ só nos ocorrem em meio às crises causadas por esses dúbios sentimentos ocultos que súbito assomam e tomam conta do cenário. Dizer que essas decisões foram tomadas a partir de uma central de controle operações e gerenciamento de crises que existe dentro da gente, enquanto as crises e o descontrole são fenômenos que atribuímos a algo que não somos nós, é o que me parece problemático nesse caso. Tudo acontece fora e dentro ao mesmo tempo; é tudo uma coisa só.

Há, por exemplo, quadros depressivos em que o que a gente sente na alma é só um vazio mesmo. Mas mesmo esse vazio é um lugar escuro e oculto onde uma nova luz pode vir a brilhar.  O normal aí é entendermos que ‘reagimos’ a uma depressão, como se ela nos tivesse tomado de assalto, e nós no final das contas tenhamos conseguido reassumir o ânimo necessário para enfrentá-la. Acontece que esse ânimo – que pode muito bem ser um fogo sagitariano, a propósito – está totalmente vinculado ao escuro e ao vazio de onde surgiu.  

Além disso, essas ‘decisões’ que tomamos para sair de uma situação emocionalmente complicada, ou a vitalidade que pode ressurgir após um longo processo de luto, talvez sejam igualmente algo que nos ocorre, algo que nos ‘toma’, algo que nos ‘assalta’. Os antigos sabiam disso: nós somos possuídos pelo entusiasmo da mesma forma como somos afogados em lembranças. Acho essa percepção importante, para que a gente não fique achando que precisa encontrar uma solução para uma crise, forçar um reerguimento inábil, quando na verdade ela virá na hora que deve.

Trata-se de confiar na capacidade do corpo de voltar a funcionar a pleno vapor, mas quando o combustível para isso estiver disponível. Às vezes, o que está tendo para o momento é um convite ao descanso mesmo (e ao cuidado, ao resguardo, à intimidade). Novamente, portanto: que a gente precise atribuir esse convite ou exigência a forças externas e ocultas, torná-las objeto de desconfiança e suspeita, e inclusive conferir-lhes os atributos da vilania, é algo que talvez diga mais sobre nossa sociedade do que sobre os signos de água mesmo.

Acho até que muita coisa do que a gente entende hoje como doença faz parte de processos naturais de regeneração da alma. O problema é que a gente separa a enfermidade da cura como se fossem duas coisas distintas, enquanto não têm como deixar de ser uma coisa só. Queremos nos associar àquilo que apresentamos de saudável e animado e produtivo ao mundo, e tratar como um inconveniente alheio à nossa vontade a parte da vida que saímos de cena para cuidar de um trauma, ou lamber as feridas.

Outro dia escrevi, meio que à brinca, meio que à sério, na postagem sobre os hipocondríacos do zodíaco, que Escorpião convive bem com estados febris que duram longos períodos, e que Peixes sabe inclusive curtir uma febrinha como ninguém. É sobre isso que estou falando. Ou seja: são capazes de deixar-se tomar por sensações inusuais, improdutivas de um determinado ponto de vista, mas indispensáveis para o processo de cura de outro. Deixam-se inundar até mesmo por delírios, sonhos e outras alucinações que podem muito bem revelar-se os melhores guias para sair de um labirinto ou de um pântano.

Enfim: talvez, se a gente exercitar um pouco mais esse aprendizado, ao invés de tratar os arquétipos de água como vilões, vamos enfim vê-los como aliados. Ou melhor, vamos vê-los como uma parte de nós mesmos que não se deixa controlar por nossa vontade, para nossa salvação, pois é assim que eles lavam a nossa alma de um monte de tralhas que vão se acumulando em seus recantos. Por isso, se as águas da alma lhe parecem misteriosas e ocultas, incontroláveis e delirantes, volúveis e imprevisíveis, trate-as com a mesma deferência com que gostaria de ser tratado. Pois é a si mesmo que você estará tratando, exatamente, e,  quando vier a próxima enchente de sentimentos, saiba que você não será inundado: você será a inundação.

aquário, escorpião, leão, touro

Dr. Sigmund de sapatos novos

Em suas memórias, o médico suíço e leonino Carl Gustav Jung trata da ruptura de sua amizade com o neurologista austríaco e taurino Sigmund Freud como uma experiência muito difícil e dolorosa. Jung e Freud entraram mais abertamente em conflito em torno de 1910, por causa de divergências na evolução do pensamento de ambos, e sobretudo por aquilo que Freud considerava uma excessiva inclinação para o “ocultismo” nos estudos de seu discípulo. Tauríneamente, Freud não arredou um dedo da convicção nos sólidos postulados científicos sobre os quais procurava erigir a psicanálise; Jung, por sua vez, afirmou que, na época do desentendimento, sentiu-se tão perdido que não encontrou alternativa a não ser buscar nas imagens de seu próprio inconsciente alguma saída para a crise.

Então teria se fixado em uma memória de sua infância, de quando estava com 11 ou 12 anos, e se dedicava apaixonadamente a brinquedos de construção. O impulso criativo reanimaria seu espírito adulto, na medida em que ele retomou a atividade lúdica, saindo para catar conchas e outros materiais de manhã e separando um tempo para utilizá-los nos intervalos do trabalho no hospital. “Mal terminado o almoço, ‘brincava’ até o momento em que os doentes começavam a chegar; à tarde, se meu trabalho estivesse terminado a tempo, voltava às construções. Com isso meus pensamentos se tornavam claros e conseguia apreender de modo mais preciso fantasias das quais até então tivera apenas um vago pressentimento”.

Esse recurso ao potencial terapêutico da brincadeira, da criatividade, do jogo e do ócio não é apenas uma característica de Leão; é também uma marca daquele tempo. Roger Caillois, em Os Jogos e os Homens, observa que as primeiras miniaturas de carros foram produzidas por operários de fábricas automotivas em que a divisão do trabalho não lhes permitia acompanhar o processo de produção do começo ao fim. Assim, chegando em casa, eles podiam reassumir o controle de todas as fases da composição de um artefato, nem que fosse como um hobby compensatório, e conseguindo com isso restituir a si mesmos uma relação artesanal com a inteireza do objeto.

Mas o arquétipo de Leão de fato atualizou esse impulso de formas diferentes através dos séculos. Cada texto que começo e termino para esse blogue, por exemplo, é uma espécie de jogo em que me envolvo com prazer e incerteza, sem saber ao certo de onde estou partindo nem onde vou chegar, mas sentindo que algo de esclarecedor – para mim pelo menos, espero que para vocês também – se realiza no percurso.

Nunca sei exatamente de onde vai surgir a peça com que começarei a montar cada texto. Nessa semana, por exemplo, ela apareceu na leitura desse trecho autobiográfico de Jung. Aí me ocorreu que é meio engraçado que ele e Freud tenham sido ambos de signos fixos (Touro e Leão), os quais existem em uma relação tensa e produtiva. Mas reparei em seguida que a coisa não para por aí: Freud tinha o ascendente em Escorpião, e Jung em Aquário, ambos no signo oposto complementar de seus signos solares. Isso quer dizer, basicamente, que a cruz dos quatro signos fixos esteve envolvida nas aproximações e afastamentos entre os dois grandes pensadores da psicologia no século XX. Opa, pensei: tem jogo aí.

Acho que em ambos os casos o signo solar aparece como a base da personalidade, e o ascendente refere-se à contribuição que ofereceram em suas obras. No caso de Freud, o vínculo com Escorpião é mais que evidente: de Totem e Tabu a Moisés e o Monoteísmo, desenvolve-se um concentrado esforço arqueológico em que são desenterrados os ossos de crimes antigos (o assassinato do pai pela horda primitiva, o assassinato de Moisés pelas tribos do êxodo), que teriam correlações exatas em episódios de cada trajetória individual, habitando os subterrâneos do inconsciente. Os sentimentos de inadequação, culpa, remorso ou angústia que surgem da repressão dessas memórias podem então ter sua origem identificada. Com isso, torna-se possível e necessário encarar os demônios ocultos na psique, para alcançar a lucidez após um intenso mergulho nas profundezas do passado.

Tudo converge para o Complexo de Édipo, também um assassino de seu pai, ao mesmo tempo detetive e criminoso, cujo expurgo de Tebas revela-se necessário para a regeneração da cidade. Aqui uma importante diferença entre as obras de Freud e Jung pode ser notada, pois no segundo caso há uma profusão de arquétipos, narrativas e símbolos que nunca se deixam reduzir a uma única história. Assim, enquanto Escorpião tende à obsessiva e quase paranoica busca de vestígios capazes de reafirmar o ponto central de suas investigações, Aquário abre mão do “uno” em favor do “múltiplo”, observando e afirmando diferenças ex-cêntricas onde outros vêm similaridades.

A ênfase no caráter sexual da libido, a propósito, não deixa de ser um componente escorpiônico das lições de Freud. Também aqui ele e Jung divergiram frontalmente da maneira como Escorpião e Aquário divergem no zodíaco. Pois o primeiro é uma força corporal, intensa, concentrada, enquanto o segundo é um arquétipo que se dispersa no ar em uma complexíssima profusão de relações em rede. Jung considerava a ênfase de Freud nas pulsões sexuais uma inclinação “reducionista”, na medida em que designava uma só fonte como energia motriz de todos os esforços e humanos. Ele acreditava que o impulso criativo, por exemplo, existia por si mesmo, e não como um excedente de desejos reprimidos.

Curiosamente, portanto, embora Jung fosse o ”ocultista” da relação, havia algo na ciência de Freud em que ele detectava uma obsessão compulsiva com o tema do sexo e da autoridade paterna. Não é incomum que Aquário veja Escorpião por esse prisma, no qual se ressalta sua perspectiva desencarnada, indiferente em relação aos instintos primitivos que lhe parecem vis ou demasiadamente humanos. Mas isso envolve também a dimensão iluminista e prometeica do arquétipo aquariano, na medida em que busca alçar o humano para além de seus limites usuais. Desse modo, e mais uma vez curiosamente, as Luzes estão do lado de Jung, embora Freud fosse o cientista da relação.

Acontece que Jung também se outorgava esse título, tinha apreço por ele, porém entendendo a ciência de um modo mais heterodoxo. De ambos, se não me engano, foi quem acompanhou mais de perto as inovações da Teoria da Relatividade e e Física Quântica, sem deixar escapar as relações da cosmovisão que essas novidades ofereciam com elementos das religiões orientais. Freud, enquanto isso, manteve-se centrado na tradição judaico-cristã, ferozmente dedicado ao problema de Deus, ou ao problema do Pai.

Enfim, Jung roubou o fogo de seu próprio Sol leonino para levá-lo aos homens através de seu ascendente aquariano; Freud manteve-se até o fim da vida irremovível do caminho em que Touro o havia situado, porém correndo riscos e desencavando desejos que apenas são aceitos e reconhecidos quando acionamos o tipo de coragem que reside no arquétipo de Escorpião. Da tensão produtiva desses cruzamentos, ambos descobriram razões que reforçaram suas crenças e os mantiveram em suas trajetórias, que, antinômicas como são, não deixam de se complementar (caberia ainda mencionara os aspectos complementares das noções de inconsciente individual e inconsciente coletivo, que estão mais propriamente atreladas aos arquétipos de Escorpião e de Peixes, tal como já comentei aqui).

Resta saber como Freud terá reagido à ruptura que levou Jung aos brinquedos de construção. Algo pode ser deduzido da correspondência entre ambos – ele alegou ter sido “despojado da autoridade paterna” de que o próprio jovem Jung o investira anos antes –, mas acho que nesse caso ele deve também ter buscado no seu Sol taurino algum tipo de conforto. No mínimo, deve ter se recostado em uma poltrona aconchegante, procurando quem sabe um bom lugar pra ler um livro, sem outro propósito além dar maciez à sua tristeza. Freud, é bom lembrar, fez o caminho de volta de Escorpião a Touro (dos mistérios ocultos à verdades elementares) quando lhe perguntaram insidiosamente a respeito de seu prazer com o fumo: “Às vezes, um charuto é apenas um charuto”.

O que então me vem à mente é uma tela do pintor Konstatin Christoff que vi em uma exposição no Palácio das Artes de Belo Horizonte muitos anos atrás. Ela se chamava “Dr. Sigmund de sapatos novos” – e mostrava um Freud felizão e sorridente com um novo par de sapatos brilhosos que teria comprado. O efeito da pintura estava na associação de uma figura tão imponente e misteriosa como a de Freud com alegria de ter comprado um par de sapatos novos. É como imaginar Escorpião contente diante de um belo prato de macarronada.

Ou seja, talvez tenha sido assim que ele lidou com a perda da amizade do discípulo: como um bom e velho taurino. Talvez a materialidade das coisas e as sensações que elas provocam não tenham deixado nunca de ser para ele uma espécie de refúgio em tempos de crise, a base de sua existência e sua personalidade, o ponto central e solar a partir do qual irradiou seu brilho para as regiões sombrias da alma humana. Assim como a criatividade e os jogos foram para Jung.

Só queria ainda acrescentar que Konstantin Christoff foi um artista búlgaro que, aos nove anos de idade, foi parar com a família em Montes Claros, no norte de Minas Gerais. Formado em Medicina pela UFMG, trabalhou como cirurgião-geral a vida inteira, mas nunca abandonou a pintura, além de ter publicado várias ilustrações na imprensa brasileira. Mais um médico artista, portanto. Descobri isso agora, ao fazer a pesquisa para tentar descobrir a imagem do quadro de Freud com sapatos novos. É engraçado o tipo de coisa que descubro e que encontro ao juntar as peças para esses jogos que vou montando aqui.

Mas infelizmente não encontrei a imagem, então terei que pedir um esforço da imaginação de vocês para terminar. Visualizem aí, com candura, sem maldade: Dr. Sigmund. Uma poltrona confortável. Pernas cruzadas. Sorrisão na cara. Charutão na mão. Sapatos novos.

astros, escorpião

O dia em que Plutão entrou em Escorpião

Angels in America / Dir. Mike Nicholls (2003)

Plutão em Escorpião não está nas cabeças da vontade popular, segundo a enquete ainda em andamento, mas eu não teria como deixar passar os 25 anos de Angels in America sem um comentário a esse respeito. De modo que vou deixar essa notinha aqui enquanto aguardo o resultado (até o momento temos uma emocionante disputa entre Touro e Quíron, e quem quiser pode ainda votar aqui).

Bom, para quem já está assustado com Mercúrio retrógrado em Escorpião e tudo mais, é bom adiantar que Plutão não está em Escorpião agora. Mas estava em 1991, quando estreou a peça de Tony Kushner, e havia ingressado em Escorpião em 1984, período em que se passam os momentos iniciais da história, quando o vírus HIV começava a se disseminar na comunidade gay de Nova Iorque.

Não é o caso de fazer uma análise da obra ou de suas adaptações e montagens, até porque várias já foram feitas esse ano. E, para quem não conhece, fica a recomendação de que assistam a minissérie com Meryl Streep, Al Pacino e Emma Thompson, entre outros atores e atrizes incríveis.

Basicamente, o que eu queria dizer sobre a peça é que poucos trabalhos artísticos representam tão claramente o espírito de um determinado trânsito astrológico de longo prazo, e um arquétipo em sua força máxima. Afinal, Plutão é o próprio regente escorpiônico, em seus intensos ciclos morte e regeneração.

Vou mencionar dois trechos que exemplificam esse ponto. Ambos surgem em cenas da personagem Harper, interpretada na série por Mary-Louise Parker, que costuma ter sonhos e alucinações peculiares. No primeiro trecho, ela está na plateia de um teatro vazio, atordoada com uma série de eventos em sua vida, sentindo-se incapaz de reerguer-se e reorientar-se. Então pergunta a uma estátua de cera: “Como é que as pessoas mudam?”. E ela obtém uma resposta.

“Bom, tem a ver com Deus, então não é muito confortável”, diz a estátua, que de repente ganha movimento e voz. “Primeiro, Ele rompe sua pele com uma unha dentada da garganta até a virilha. Então enfia a mão imunda lá, começa a arrancar suas tripas, e elas escorregam e escorregam, mas ele aperta firme, até tirar de você todas as entranhas, e a dor… você não consegue imaginar a dor. Não dá nem para falar a respeito. Então ele mete tudo de volta, tudo sujo, misturado e arrebentado. Cabe da você dar os pontos”.

Não vou comentar. Quem quiser ver a cena, está aqui. Além disso, acho que vale pra esse caso o texto que já fiz em outra postagem, sobre a quadratura de Plutão, um trânsito que todos vivemos em algum momento da vida, geralmente com uns trinta e tantos anos. Todo mundo que já passou por ele sabe do que o texto da peça está falando.

O outro trecho é o monólogo final de Harper. Acontece anos depois dos primeiros eventos narrados, já no começo dos anos 1990, quando a descoberta do AZT e a evolução do conhecimento científico a respeito da AIDS tornou o ambiente menos carregado e desolador, ao menos desse ponto de vista. Ela está fazendo uma viagem, e diz:

“Voo noturno para São Francisco. Seguindo a lua através do país. Há anos que não entrava em um avião! Quando chegarmos a 35.000 pés, alcançaremos a tropopausa, o grande cinturão de ar quieto. É o mais perto que chegaremos da camada de ozônio. Eu sonhei que estávamos lá. E o avião ultrapassou a tropopausa, e chegou ao círculo de cima, à camada de ozônio, que estava rasgada e esgarçada, com os retalhos flutuando aqui e ali, e aquilo dava medo, mas vi algo que apenas eu podia ver, por causa da minha assombrosa habilidade de ver essas coisas… Almas estavam subindo, lá debaixo, lá da Terra, as almas dos mortos, de pessoas que pereceram, com a fome, com a guerra, com as pragas, como paraquedistas ao reverso, com os braços esticados, girando, e as almas desses mortos davam-se as mãos, enganchavam os calcanhares, e formavam uma teia, uma rede de almas, que eram formadas de três átomos de oxigênio, a substância do ozônio, e a camada de ozônio as absorvia, e era reparada. Nada está perdido para sempre. Há nesse mundo uma espécie de progresso doloroso, em que sentimos falta do que deixamos para trás, e sonhamos com o que virá. Pelo menos, é assim que penso”.

Acho que também essa passagem dispensa comentários. E a propósito: “O dia que Urano entrou em Escorpião” é um conto de Caio Fernando Abreu, do livro Morangos Mofados, que usei como referência para o título dessa postagem. O conto é lindo, recomendo também.

escorpião

Escorpião é foda

Percebi uma coisa importante ontem, sobre Escorpião. Vou deixar anotado aqui para não esquecer. Foi assim: já comentei que no momento sou diretor da unidade de ensino onde trabalho. Cumpro essa função capricorniana no mundo às vezes com gosto, às vezes com enfado, às vezes com desespero. Aí tem uma funcionária no prédio que não era exatamente da minha equipe, mas fazia o trabalho (geminiano) de ascensorista, entre outros serviços menos formais que envolvem a comunicação e a sociabilidade. Só que ela não é de Gêmeos, ela é de Escorpião. E em um determinado momento começou a me chamar de “chefe”.

“Bom dia, chefe”, “até amanhã, chefe”, ela começou a dizer. Um jeito simpático de demostrar afeto e reconhecimento. Mas às vezes ela dizia coisas tipo: “Já fez o meu café, chefe?”, e lá ia eu correndo fazer o café que ainda não tinha feito. Ou então, “tô sem nenhum livro pra ler, chefe” – e lá ia eu arrumar o livro. A mera menção de que alguma coisa estava faltando ou atrasada ou insuficiente já era o bastante para me deixar ansioso para resolver o problema logo. Ela não precisava mandar, não precisava dar ênfase. Só precisava “sugerir” mesmo.  

Infelizmente, o contrato da empresa em que ela trabalha com a universidade terminou e ela foi removida. Uma tristeza enorme, além das dificuldades operacionais. Vai fazer uma falta danada, já está fazendo.  Mas o engraçado foi que de repente, ontem, lá estava eu quando outro funcionário do edifício perguntou: “Boa tarde professor, já fez o café?”. Eu respondi, meio que brincando, meio que sério: “Não, vou fazer ainda. Mas peraí, você manda em mim agora?”. E ele: “Não, eu não, mas a Josi mandava. A Josi você obedecia”.  

Eu pensei na hora: é verdade. Escorpião é foda. A Josi eu obedecia. Ela inventou essa história de me chamar de chefe mas no final das contas quem mandava em mim era ela. Taí uma coisa que Escorpião faz bem: deixa Áries, Leão ou Capricórnio achar que está no comando, mas por trás dos panos é quem realmente controla os acontecimentos. Que nem aquela criatura do filme Monstros S. A., que de repente surgia como a verdadeira comandante oculta de toda a operação da empresa dos monstros. Ou um desses conselheiros palacianos que transitam nos bastidores e tomam todas as decisões, mas a gente não sabe quem são porque eles não mencionados nos livros de história.

Eu não sei como eles fazem – não sei nem se eles sabem – mas é só Escorpião falar um ah que o mundo se move para fazer o que eles querem. Mesmo quando o mundo não percebe que está fazendo o que eles querem. Ou então não é só um ah, eu que estou achando que é só um ah, no fundo tem todo um método, toda uma insinuação, todo um trâmite emocional complexo e instintivo; ou talvez eles saibam como fazem sim, só não deixam a gente perceber que sabem.

Jamais saberemos. De um jeito ou de outro, tem alguma coisa no jeito deles de dizer, no modo de olhar, que dá um certo medo do Escorpião, que inspira uma espécie de reverência. Mesmo quando eles nos aparecem com toda a leveza, com todo o afeto, tem uma coisa. Sabe-se lá com o quê essas pessoas andaram mexendo, a gente pensa; o tipo de poder que têm, o que é que andam escondendo da gente. Fica sempre a impressão de que é melhor fazer o que elas estão pedindo, e que se elas estão pedindo de um jeito simpático é só porque não precisam pedir de outro jeito.

Outro dia me disseram que tudo que escrevo sobre Escorpião é sempre muito pesado, que eu devia tentar fazer algo mais divertido e bobo. Aceitei o desafio – mas considerar isso um “desafio” pode ter sido só um mecanismo que encontrei para justificar minha pressa em atender àquilo que, desde o início, soou pra mim como uma ordem. É lógico que o fato de ter percebido esse mecanismo psicológico intrincado, com suas manipulações e delicadezas, deveria funcionar para mim como uma libertação. Mas que libertação o quê, eu é que não sou doido de deixar de fazer o que eles mandam. Enfim, bem ou mal, está aqui o texto. Tá pronto o café, chefe!

câncer, escorpião, peixes

Camadas de memória

[Foto: Elliot Erwitt]

“Os mortos” é um conto do escritor irlandês James Joyce em que se narra um tradicional jantar de Noite de Reis na Dublin do início do século XX. O protagonista é Gabriel Conroy, sobrinho das anfitriãs, queridinho das tias, homem de família, responsável pelo bom andamento dos ritos cerimoniais (como destrinchar o frango e controlar a língua do tio bêbado). Tudo se passa como teria se passado nos anos anteriores, exceto por uma ou outra indicação de que algo não anda bem. No final da história, Conroy vai descobrir como aquele senso de continuidade é uma espécie de ilusão, ao escutar o relato de sua mulher sobre um jovem que teria literalmente morrido de amores por ela no passado distante. Logo fica claro que, após a lembrança súbita da morte do rapaz, ela estivera pensando nele a noite inteira.

A maneira como a morte, o sofrimento e a paixão irrompem no encerramento do texto é notável. Não que elas não estivessem lá o tempo todo, ocultas, insinuadas no destrinchar do frango e nas conversas elegantes, porém reprimidas pelas rotinas civilizatórias de que falou Sigmund Freud. O mesmo Freud, aliás, que teria dito que os irlandeses são o único povo impermeável à psicanálise. Isso pode ser lido como um atestado de sua simplicidade, mas também como uma referência a seu compulsivo apego à terra pátria e suas tradições. Nesse sentido, a ruptura que se estabelece na experiência do protagonista de Joyce é significativa. Atordoado com a percepção de recantos traumáticos da memória em suas camadas sobrepostas, de repente ele se torna um irlandês complexo e, por assim dizer, psicanalisável.

É sobre essas camadas, de um modo mais geral, que eu gostaria de falar. Os arquétipos de água – Câncer, Escorpião, Peixes – são aqueles em que está o passado, aqueles em que estão nossos mortos. No caso de Câncer, o interessante é que os mortos ainda estão vivos. Eles são o papai, a mamãe, o vovô, a vovó, ou seja, as pessoas através das quais – se tudo ocorrer dentro do esperado – nós entraremos em contato com a finitude. Exatamente por ser uma experiência de continuidade e pertencimento, Câncer aloja a percepção mais imediata da ruptura. É a perda do que temos de mais familiar. A memória canceriana é a lembrança de coisas que estiveram aqui há pouco tempo, a lembrança de lugares em que vivemos até outro dia, e de pessoas com quem convivemos o suficiente para tornar sua presença um hábito doce e confortável.

Já o jogo de desenterrar do passado coisas estranhas das quais já não havia resquício de lembrança foi inventado por Escorpião (e, em certo sentido, por Sigmund Freud). É uma brincadeira perigosa, mas potencialmente terapêutica e restauradora, pois o que foi reprimido emerge destruindo o que já não tem condições de existir. Os mortos e esquecidos ganham vida para mostrar que o que parece vivo na verdade já está morto. A crise plutônica é um abalo sísmico, que deixa um lastro de destruição de tudo o que considerávamos mais inabalável; por outro lado, o terremoto faz surgir ruínas arqueológicas em que nos reconhecemos. Não importa que sejam sejam indícios de épocas violentas; o passado em Escorpião é justamente aquilo que foi soterrado para dar lugar a uma versão mais sensata e civilizada de nós mesmos.

Agora, se em Câncer os mortos são familiares que se afastam, se em Escorpião os mortos são estranhos que se reaproximam, em Peixes estão TODOS os mortos. A memória pisciana é a presença indistinta de ancestrais longínquos e das pessoas próximas; em última instância, do mesmo modo como perde a noção de realidade e de sonho, ela não consegue distinguir uns dos outros. Porém essa imersão no oceano da ancestralidade cria a possibilidade de percepção daquilo que preexiste a cada indivíduo, e que se revela em cada história individual, ou seja: um inconsciente coletivo traduzido na forma de arquétipos. A diferença da abordagem psicológica junguiana em relação à de Freud reside sobretudo no delineamento dessas histórias, e da maneira como as representamos. Não por acaso, Jung dedicou todo um livro ao “arquétipo do si-mesmo”, que seria um arquétipo em separado e ao mesmo tempo uma reunião de todos os arquétipos, correspondendo em todos os aspectos a símbolos piscianos.

Há, portanto, a experiência de uma vinculação imediata ao passado, que se traduz na percepção da perda; uma relação fraturada com o passado, que se revela na crise, na lembrança do trauma, na chance da restauração; e uma imersão oceânica no passado, em que está a imprecisa memória de todas as coisas próximas e distantes. No conto de Joyce, as três se sucedem, de tal modo que no final da história Gabriel Conroy vai até a janela: “Sua alma desmaiava lentamente, enquanto ele ouvia a neve cair suave através do universo, cair brandamente, como se lhes descesse a hora final, sobre todos os vivos e todos os mortos”. Uma solução pisciana para um texto que começa em Câncer (o jantar em família), prossegue em Escorpião (o retorno do reprimido), e termina reunindo-os todos sob a mesma neve. Há nesse desfecho uma promessa de descanso que pode muito bem ser uma ilusão. Seja como for, ele termina juntinho com o zodíaco: buscando a paz em uma saída de cena, e na conclusão de todas as histórias que existiram, existem, e estão por existir.

câncer, escorpião, libra, touro

Quatro casamentos e um funeral

[Marc Chagall | As luzes do casamento (1945)]

No dia em que eu defender minha tese no Instituto Hogwarts de Altos Estudos Astrológicos, ela provavelmente vai se chamar Da Natureza do Escorpião: um estudo comparativo do mais capetudo arquétipo do zodíaco. A seguir, algumas anotações também sobre Touro, Câncer e Libra, para o capítulo 7, “A questão do casamento”.

TOURO: A questão do casamento surge em Touro. Mas não é ainda um problema cultural intrincado, talvez nem seja exatamente uma “questão”. A união é assunto de subsistência, tem um vínculo imediato com ritmos naturais de reprodução, e envolve um tipo de sensualidade imediatamente vinculada às necessidades e preferências do corpo. Sexo taurino é sexo simples e gostoso. Taurino é o casamento camponês de Levin e Kitty com que Tolstoi encerra o Anna Karenina. Mas simplicidade não significa escassez. O banquete da casamento como celebração da fertilidade do solo e da abundância dos frutos da terra é um fenômeno que acontece no arquétipo de Touro.

CÂNCER: Em Câncer, o casamento ganha uma dimensão social. Envolve não apenas os noivos como também a família, a aldeia, a comunidade. Marc Chagall era canceriano. Suas pinturas de casamentos têm uma ambientação com elementos piscianos, um clima de sonho, mas não deixam de nunca de evocar as tradições da aldeia eslava ou balcânica. Em Câncer, o casamento acontece não apenas na aldeia, mas é algo que acontece à aldeia como um todo. Nesse sentido, casamentos não são apenas uniões e constituição de novas famílias, mas também separações nos lares de que se despedem os noivos. E esse é um dos motivos pelos quais casamentos são felizes e tristes ao mesmo tempo; seu aspecto sentimental é arquetipicamente canceriano.

LIBRA: Em Libra o casamento é o triunfo da inteligência e da diplomacia humanas na resolução de conflitos. Aquilo que Northrop Frye chamou de “predominância do princípio de sociabilidade” ao tratar das comédias de Shakespeare, que geralmente terminam em casamentos. Assim como os casamentos de Chagall compõe-se de Peixes + Câncer, Sonho de uma noite de verão, a comédia shakespereana mais onírica, é Libra + Peixes. Tão destituída de elementos terrenos que praticamente se desprende do solo, porém ainda dependente de algum grau de estratégia para chegar a um final feliz. Qualquer comédia romântica tem um forte componente libriano, é claro. Ao mesmo tempo, em Libra o casamento é um contrato, que prevê equidade e equilíbrio.

ESCORPIÃO: Em Escorpião o casamento não é uma necessidade, não é uma celebração, não é um contrato: é uma morte. Confunde-se com a união sexual, a “pequena morte” do orgasmo, que o simboliza e sacramenta. Mas não é o sexo reprodutivo ou mesmo o sexo gostoso de Touro: trata-se de uma fusão transformadora radical que se dá por trás dos panos, por meio da liberação de energias represadas por um longo tempo. O bom senso taurino, a comunalidade canceriana e a justiça libriana não dão as caras. O que acontece aqui pode muito bem ser bizarro, isolado e desigual.

Em Libra, a propósito, a união presume certa distância, capaz de resguardar o casamento dos riscos da indistinção entre o eu e o outro. Em Escorpião assume-se esse risco. O casamento libriano requer qualidades que atribuímos à amizade, como a admiração mútua e o respeito; o casamento escorpiônico pode prescindir delas. Um amigo uma vez me disse que “o casamento é a relação mais promíscua que existe”. Dá para entender bem essa frase se pensarmos no casamento em Escorpião, não exatamente por causa do sexo, mas por causa do tipo de fusão (e confusão) emocional da intimidade monogâmica, da permissividade afetiva gerada pelo convívio cotidiano. O fim de todos os limites do respeito e da moralidade podem ser experimentados através do casamento. Naturalmente, o ideal é que não seja assim, ou que os limites da moralidade sejam rompidos entre quatro paredes de formas mais renovadoras e catárticas.

Mas o fato é que atitudes e sentimentos normalmente considerados indesejáveis encontram seu lugar no mundo no arquétipo de Escorpião. Acho que fiquei com vontade de fazer essas anotações depois que outro dia li o seguinte nas reflexões diárias um astrólogo que admiro: “Não se permita o exercício da maldade, a não ser que seja por vingança”. Tive que ler duas vezes antes de pensar: ah, é claro, a lua está em Escorpião. Em Escorpião vingança pode, tem justificativa cósmica e licença poética. Por causa da história da fusão e da confusão. Ódio também é ok, às vezes. Mau humor nem se fala: o mau humor é totalmente permitido quando as coisas estão em Escorpião.

O fascinante nesse signo é como o certo se torna errado e o errado, certo. Quanto a parcerias e casamentos, cada um é de um jeito e todos têm um pouco de todos os tipos. Comida, sexo, comunhão e equilíbrio são sempre importantes. Mas existe sempre algo estranho que foge à nossa visão ordinária de como as coisas são ou devem ser. Esse algo é fundamental.

escorpião

Mamãe em Escorpião

Lua Cheia em Escorpião é aquela história: todo ano tem, e ainda assim é sempre um susto. Imaginar que a lua vai atingir seu momento de plenitude e transbordamento nesse signo capetudo das trevas (pardon, queridos, mas vá lá, vocês até que gostam da fama) é meio atemorizante; e todo ano tem gente perguntando o que exatamente isso quer dizer. A interpretação de qualquer trânsito astrológico vai depender sempre de seus aspectos, no plano geral, e no âmbito individual precisamos partir no mínimo de uma relação com signos solares, de preferência com o mapa natal de uma pessoa como um todo. Mas podemos aproveitar esses fenômenos para compreender a interação dos arquétipos que eles põem em cena.

Embora ‘compreender’, no caso, talvez não seja uma boa palavra. Não sei se tem muito o que compreender em uma lua cheia em Escorpião. Dizer que ela precisa ser sentida também não é exato, pois toda lua cheia é antes de tudo sentimento. Talvez o melhor caminho aqui seja dizer que ela traz um ‘sentimento do incompreensível’, em um sentido muito específico. Afinal, o incompreensível está também em Peixes, por exemplo, mas aí ele já se manifesta como algo vago e desconcertante cujo entendimento em algum plano de nossa consciência não está totalmente fora de questão. Ou seja, uma lua cheia em Peixes é antes um ‘sentimento incompreensível’ do que um sentimento do incompreensível.

Já em Escorpião, parece existir algo que NÃO É PARA COMPREENDER, algo que existe explicitamente para não ser assimilado pelo intelecto, algo que não exatamente nos escapa (o que nos ‘escapa’ é Peixes), mas nos confronta e deliberadamente nos transtorna em nossos mecanismos lógicos de apreensão do mundo. Algo que está aí para ser acatado apesar de não fazer sentido algum, porque não faz sentido algum. Vocês me compreendem?

Daria pra ficar doze luas explicando isso e não chegar a lugar nenhum. Se não é para compreender, não é para explicar. Mas o que acho interessante, ao colocarmos a lua nessa paisagem, é imaginar que a plenitude e o transbordamento que ela encontra agora têm a ver com sentimentos, mas igualmente com um determinado tipo de autoridade. A autoridade das trevas, se vocês quiserem, mas naquilo que as trevas têm de necessário contraponto à luz e ao logos. O que se sente é em grande medida um contato com forças desconhecidas que se definem por esse desconhecimento – isto é, por permanecerem recônditas e ocultas e inimagináveis, das quais emana um poder que não requer nada além da nossa rendição.

Ou, colocando isso de uma maneira de mais concreta. Quase todo mundo já ouviu da mãe essas frases: “porque sim”, “porque não”, “porque eu estou mandando”. Não necessariamente em um tom histriônico ou autoritário; são frases que podem ser ditas como uma mera constatação dos fatos. Nelas está implícita a seguinte mensagem: eu poderia até explicar, mas não é para você entender, porque o que importa aqui é a obediência, e não sua capacidade de assentir de maneira informada e esclarecida ao meu comando (você vai ter que acatá-lo de modo desinformado e no escuro mesmo). Existe um aprendizado aí, e um aprendizado possivelmente necessário para sabermos distinguir, no decorrer da vida, as forças verdadeiramente substanciais que têm o poder de exigir nossa anuência por motivos incompreensíveis, e aquelas que são apenas simulacros autoritários sem nenhuma autoridade real (estas têm o hábito de gritar mais alto que o necessário, e nos mandar calar boca por mero desespero ou insegurança).

Enfim, lua cheia em Escorpião tem todo ano, e costuma cair perto do dia das mães, talvez porque é com a Mãe que a gente aprende a reverência necessária ao poder instituído em ventres e catacumbas. Sorte de quem teve mãe capaz de ser malvada na medida certa. Aprendeu que tem coisas nessa vida que é melhor a gente aceitar, que não é pra gente entender, respeitando na mais absoluta cegueira (porque sim, porque não, porque eu estou mandando). Mas aprendeu também que essas coisas são poucas, muito poucas, e que para todas as outras existe nosso juízo crítico, nossa capacidade de não aceitar cegamente o despotismo e a submissão.

escorpião

Escorpião e o dragão

São Jorge e o dragão (c. 1455) | Paolo Ucello

Há signos mais complexos, há signos mais queridos, porém o mais fascinante é Escorpião. É só dar uma olhada no número de visualizações em vídeos sobre astrologia na internet para ter uma medida estatística desse fenômeno. Trata-se de um arquétipo de água, porém olhamos para Escorpião como quem olha para o fogo: encantados, atraídos, hipnotizados, e ao mesmo tempo com um medo ancestral das forças destrutivas que existem em suas formas. Algo semelhante se dá com a imagem do dragão em nossas lendas e mitos, tanto no que se refere ao encanto, quanto no que diz respeito à destruição.

Dragões nunca deixaram de ser motivo de fascínio, e sua morte não é a morte de um inimigo qualquer. São Jorge, por exemplo, foi por séculos apenas um santo guerreiro entre outros – um santo marcial, mais especificamente – até difundir-se a história da serpente alada e flamejante que ele teria vencido na Líbia. A partir daí, o tipo de proteção que sua figura simboliza não se restringe à defesa contra adversários no campo aberto das guerras militares. Ela se sobressai na luta contra inimigos estranhos, fantásticos, insidiosos, cuja força devastadora ameaça tudo o que temos de mais seguro, e que aparecem subitamente na calada da noite, ou pelos flancos desguarnecidos de nossas defesas espirituais.

O dragão não deixa de ser uma criatura aquática, apesar de sua associação ao fogo. Costuma morar nas profundezas de lagos de águas plácidas, com sutis ondulações aqui e ali denunciando o caos que pode emergir a qualquer momento. A associação com as profundezas psicológicas de que emergem as questões escorpiônicas é imediata, e o descontrole e o pânico das cidadelas atacadas existem em nós também. Nunca sabemos quando vai despertar o monstro que nos habita, e pouco adianta ficar de prontidão contra aquilo que tem o poder de incendiar as ingênuas paliçadas de nossas humanas precauções.

No entanto, Escorpião tem nesse caso uma coisa a nos ensinar, e essa coisa é a convivência com o monstro, ou, mais especificamente, a fusão com o monstruoso como forma de renovação da vida. Escorpião é aquele que morre e faz morrer no confronto com a besta, sabendo que dependemos disso para reencontrar energias vitais que se perderam em nossas distinções desgastadas entre o bem e o mal.  Há algo de sagrado no dragão da maldade, assim como há algo de luminoso em Lúcifer, e os guerreiros que venham a derrotá-los terão sempre que prestar as devidas homenagens às origens de sua fama. A morte do dragão é o nascimento de um tipo específico de herói, de caráter espiritual, não apenas por ter derrotado as forças malignas, mas por ter permanecido vinculado a elas para sempre.

Áries, que prefere a batalha em campo aberto e sem armadilhas emocionais, busca a mera eliminação do inimigo para o ter o caminho de sua liberdade desimpedido. Libra, seu oposto complementar, trata da convivência negociada com o outro. Já o par Touro/Escorpião diz respeito aos ciclos de reprodução da vida, que em ambos os casos inclui a morte. Porém em Touro isso se dá em processos marcados pela constância e pela repetição, como as estações do ano e o tempo das colheitas, enquanto em Escorpião a morte tem um aspecto de fato destrutivo, e portanto um aspecto de fato regenerador. Diante das carcaças que resistem às forças naturais do tempo, a destruição impiedosa se torna a única força capaz de gerar as metamorfoses que criam algo de verdadeiramente novo neste mundo.

O fato de Marte ter sido regente de Áries e de Escorpião durante muito tempo tem, portanto, um motivo, e não apenas o de caráter sexual; Escorpião é, sim, um signo guerreiro; a diferença é que suas batalhas se dão contra potências que ele precisa metabolizar, e não simplesmente extinguir, em um intenso processo de transformação. Se em Libra temos a percepção e a convivência de opostos, em Escorpião temos a própria destruição se fundindo e se confundindo com o gesto criativo, em um embate que não tem exatamente vencedores, mas se consagra na imagem sintética que resulta do confronto/casamento entre ambos.

Dragões muitas vezes moram em cavernas, e guardam tesouros preciosos em suas tocas infernais. De modo semelhante, todo o ouro que existe no universo foi e é produzido nas últimas etapas de contração que precedem a explosão das supernovas, quando a temperatura em seus núcleos atinge patamares impensáveis, e esse estado alterado das coisas permite a formação de minerais raros e resistentes. Há algo nesses processos que podemos associar ao arquétipo de Escorpião, seus ritmos e desdobramentos plutônicos. Do mesmo modo, há algo em Escorpião que faz com que não seja exatamente nem a besta nem o herói, mas o lugar onde o herói e a besta se tornam uma coisa só.