cosmológicas

A graça de ser humano

Uma dica para os detratores da astrologia que gostam de questionar as bases científicas do zodíaco. É comum vê-los dizendo que, com a mudança de posição das constelações em relação à Terra, o zodíaco tal como foi definido há milênios já não faz nenhum sentido. Acontece que nessa perspectiva ele não fez nenhum sentido de largada. Já desde a Grécia Antiga a definição dos signos teve como critério uma divisão do firmamento em doze faixas equivalentes a partir do equinócio de primavera no hemisfério norte, onde estaria o grau zero de Áries; de maneira alguma essas casas estiveram fisicamente vinculadas às constelações; a associação era apenas simbólica e por proximidade. Não é preciso ser um Stephen Hawking para perceber que isso tem zero de chance de ter qualquer efeito no paradigma científico moderno, segundo o causalismo newtoniano por exemplo, ou mesmo considerando a Teoria da Relatividade.

Uma dica para os defensores da astrologia que gostariam de vê-la legitimada com argumentos científicos: vocês perderam essa, mas não desanimem. Esse é o ponto de partida, e não o ponto de chegada, de qualquer discussão mais consistente sobre os fundamentos da astrologia. Porque ela é assunto que diz respeito à consciência humana, e quanto às explicações para a emergência e desenvolvimento da consciência humana no cosmos o paradigma científico moderno não tem nada a oferecer. Nem Newton nem Einstein nem Hawking sequer esbarraram com qualquer demonstração de seu modo de funcionamento: como surge, como evolui, se é restrita ao indivíduo, se é compartilhada pela espécie, se nasce e morre como cada um de nós ou se estabelece relações em rede no espaço e no tempo. O que temos quanto a isso por parte da ciência institucionalizada é por vezes uma declarada perplexidade, às vezes um embaraçoso silêncio.

Assim, a maneira como a humanidade decidiu separar o firmamento em doze casas iguais associadas às constelações que lhe eram próximas e o comportamento de um indivíduo em seu cotidiano milênios depois podem estar, sim, o relacionados. O fenômeno, é claro, ocorre em um âmbito onde nossos instrumentos de medição estatística não operam, e talvez não devam operar mesmo, eles têm mais o que fazer. Os recursos coletivos de pesquisa precisam mesmo estar destinados para a vacina do Coronavírus ou o desenvolvimento de fontes renováveis de energia; quanto a isso estamos de acordo, e não vejo astrólogos requisitando financiamentos para as investigações que continuam sendo feitas à margem dos trâmites regulares da sociedade. Porém daí a reacender as fogueiras para nos queimar em uma inquisição esclarecida e escandalizada contra o “obscurantismo” da astrologia vai um longo caminho.

Gente, tem certas coisas nesse mundo que são meio obscuras mesmo. Ou talvez sejam claras, não sei. A questão é que ninguém consegue explicá-las. Faz parte da graça de ser humano.

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Eclipses

Deus criando a Lua e o Sol (1649) | Rafael

Sempre fui fascinado por eclipses. Em um caderno de minha adolescência tem uma anotação/poema que diz assim: “Em dias de chuva, faço sol. Em dias de sol, faço versos. Em dias de versos, eclipses”.

Depois, ao encanto, somou-se a constatação de que eclipses são tão exatos por causa de uma esplêndida coincidência: o Sol e a Lua têm o mesmo tamanho vistos da Terra porque a Lua é 400 vezes menor que o Sol, e o Sol está 400 vezes mais distante.

Acho que a única explicação científica para isso que já foi levantada é a do princípio antrópico. Segundo ele, por algum motivo ainda desconhecido, o fenômeno seria necessário para a existência de vida em um planeta, e, portanto, se estamos aqui para fazer a pergunta, isso já é uma resposta.

É o mesmo princípio que justifica a hipótese dos multiversos. Implica que nosso universo não é o único possível, mas que ele reúne condições muito específicas para existência de planetas e estrelas e constelações harmoniosamente dispostos, e portanto para a existência de um sistema solar como o nosso.

E a Lua que temos, do tamanho que tem, na posição em que está, é indispensável para a existência da vida em nosso planeta. Tanto quanto as constelações, tanto quanto o inteiro universo. Não estou nem falando do aspecto simbólico ou poético. Estou falando de uma questão de equilíbrio mesmo.

Pelo menos assim afirmam os autores do livro Terra Rara, tal como citado por Marcelo Gleiser: “A vida multicelular complexa depende de fatores muito específicos – mesmo se todas as condições químicas forem satisfeitas – para ser comum. Um deles é a existência de uma lua grande. Com exceção de Mercúrio, todos os planetas do sistema solar giram em torno de si mesmos como piões inclinados a um certo ângulo. Se a Terra não tivesse a Lua, sua inclinação de 23,4 graus com relação à vertical variaria caoticamente, com consequências desastrosas para vida complexa” (em Criação Imperfeita, p. 323).

Não deixa de ser irônico que a mesma Lua que mantém a Terra no prumo seja aquela que nos tira dos eixos, uma vez por mês pelo menos. A não ser que você seja do tipo que – como diz o poeta – não muda quando é Lua Cheia (“vamos pedir piedade, Senhor piedade, pra essa gente careta e covarde”).

Por mais que nossos telescópios e sondas evoluam, então, vai ser difícil encontrar em outro lugar as condições que encontramos aqui. Ainda assim, isso não diz nada sobre a equivalência de tamanho da Lua e o Sol vistos da Terra. O princípio antrópico aplicado aqui supõe que por algum motivo isso é necessário para a vida complexa, mas não sabemos qual.

Talvez seja só um coincidência mesmo. Nesse caso, vai ser difícil é encontrar outro planeta com detalhes charmosos como este.

E que coincidência, né? Tenho um amigo que diz que isso deve ser um pequena sacanagem que o universo fez só pra passar a impressão de que as coisas aqui fazem algum sentido.

Herman Melville desenvolveu um argumento semelhante no capítulo XLIX de Moby Dick: “Há certas circunstâncias e ocasiões bizarras neste estranho e caótico negócio que chamamos de vida nos quais um homem considera todo o universo uma grande piada” [ou uma practical joke, no original].

O universo como pegadinha. Parece até título de tese. O universo como pegadinha: a equivalência de tamanho relativo da Lua e do Sol como indício da natureza ardilosa do cosmos.

No entanto, a navalha de Occam (a explicação para qualquer fenômeno deve assumir a menor quantidade de premissas possível) parece claramente privilegiar outra explicação que me deram esses dias. Essas coisas que os astrofísicos às vezes ignoram até porque são evidentes demais.

Nesse caso em particular dos eclipses, pelo menos, o negócio é tão perfeito, tão exato, que é como se quem fez tivesse uma espécie de meticulosa e detalhista obsessão pelo melhor ordenamento do cosmos.

É simples, é claro, é óbvio.

Deus é virginiano.