capricórnio, gêmeos, peixes

O potencial, o real e o ideal

Lamentação de Cristo (c. 1305) | Giotto

Outro dia escrevi aqui sobre Gêmeos e Capricórnio, mas deixei passar um dos temas mais importantes dessa relação: a maneira como ambos personificam as figuras do puer e do senex, ou da Criança Divina e do Velho Sábio (prefiro os termos em latim porque não carregam uma conotação positiva ou negativa). Acho que o assunto tem a capacidade de mostrar como todos nós todos temos “Gêmeos” e “Capricórnio” operando em nossa dinâmica psíquica – em alguns casos mais acentuadamente, em outros menos –, o mesmo valendo para todos os outros arquétipos do zodíaco, de modo que a interação e as negociações entre eles é que configuram de fato um mapa astral.

Por outro lado, o puer e o senex são figuras arquetípicas da psicologia analítica junguiana cuja associação com apenas um signo ou par de signos seria equivocada: há traços da criança que encontramos em Leão, por exemplo, assim como há traços do velho que podemos encontrar em Aquário. Por aí vai. E, assim como ambos podem funcionar como polaridades nos conflitos de uma mesma pessoa, eles podem funcionar como polaridades nos conflitos internos de um só signo, pela maneira como um muitas vezes presume e implica o outro. Mais à frente veremos como isso funciona em Peixes, signo no qual a criança e o velho coexistem em uma unidade problemática e rica em imagens significativas.

Voltando a Gêmeos, porém. Aqui o puer aparece em sua versão 1.0: é Hermes, ou Mercúrio, filho de Zeus, irmão mais novo de Apolo, em quem ele pregou uma peça pouco depois de nascer. Isso nos faz lembrar que existe algo de malandro e travesso na “criança divina”, mas também que existe algo de divino na malandragem geminiana. E isso é algo que a gente pode facilmente deixar passar nas descrições mais caricatas ou maliciosas de Gêmeos, um signo que, por sua própria natureza, convida a esse tipo de descrição. Fica o registro, portanto: haverá sempre algo em Gêmeos que partilha do código genético dos deuses – e haverá sempre algo nos deuses que parece proteger a alma geminiana.

Em um plano arquetípico, aliás, entendo que Gêmeos pode fazer o que quiser a vida. Veio ao mundo para brincar nos campos do Senhor, em parte por contar com a condescendência dos velhos, em parte por saber entretê-los e encantá-los (o que o aproxima do pícaro, do bufão, do bobo, do comediante). Isso é até certo ponto válido para quem tem o ascendente em Gêmeos, e algo semelhante pode ser dito do ascendente em Leão (mais informações sobre essa interpretação do papel do ascendente no horóscopo, aqui). Agora, se você é geminiano, ou tem a Lua em Gêmeos, pode ir tirando seu cavalinho da chuva, porque isso já complica um pouco mais as coisas.

A puerilidade geminiana pode até ser divina, mas nem mesmo o deus Hermes esteve à salvo de tomar uns tombos na vida. Muitas vezes, para grande surpresa dele próprio. O puer tem o impulso de transitar por aí como se fosse destinado a ser bem recebido em todos os lugares – afinal, ele é tão inocente, tão despreocupado, tão engenhoso, tão engraçadinho – até se ver diante de uma porta que bate na sua cara como se dissesse: te saquei, malandro, aqui não. Deste modo, seja sob a forma de pessoas, acontecimentos ou obstáculos, o senex vai aparecer ao puer como uma força restritiva ou limitadora, da qual ele depende para conferir as virtudes da consistência e da profundidade aos resultados de seus diversos talentos.

Então, quando digo que o puer-senex é um par que existe como tal em nossa dinâmica psíquica, é porque um depende do outro para se desenvolver. Mas nada impede que um indivíduo se identifique com o puer e projete o senex em um mundo que lhe parece limitador e restritivo, ou em figuras de autoridade que considera moralistas e enrijecidas, na tentativa de preservar um estado de eterna inocência infantil, e de preservar-se das frustrações da vida. A gente vê o tempo inteiro pessoas alegando que, se não fossem as estruturas externas limitadoras, elas teriam realizado as obras geniais que existem em latência no seu espírito. O que muitas vezes está implicado aí é que essas pessoas optaram por não internalizar a estrutura restritiva – o senex, agente do esforço, da paciência e da forma, fundamental na realização de qualquer trabalho de fôlego – de modo a não ver seus ideais reduzidos ao que a realidade seria capaz de fazer deles.

Quem já se arriscou em um trabalho criativo sabe: todo tipo de realização artística implica uma dose de resignação. O senex em nós existe para que este processo seja levado até o fim. O puer existe em nós existe para que ele comece. Por outro lado, há quem se identifique unilateralmente com a figura do senex, e alega que, se não fossem os irresponsáveis, os inconsequentes, os preguiçosos – em uma palavra, os “artistas” –, nossa sociedade estaria em um estado menos deplorável. Em toda pessoa que afirma isso, existe um puer reprimido, que quer ganhar asas e voar, ou simplesmente permitir-se algumas tardes de ócio criativo. Mas, infelizmente, o ódio destrutivo se torna o substrato alquímico de quem nega a si mesmo esses prazeres.

Ou seja, um se compromete com uma linha de ação, e não vai alterá-la nem sob a mais forte inspiração divina. Outro não se compromete com nada nem ninguém, pois nada nem ninguém parece merecer o compromisso que ele guarda para quando a hora certa chegar. No campo dos relacionamentos, então, o puer estará sempre postergando a consagração de laços estáveis, quando não está simplesmente saltando de um relacionamento para o outro, e não só por imaturidade. Às vezes, ele carrega o sentimento de estar destinado a algo especial, e o rompimento precoce das relações é uma forma de evitar que se desdobrem da maneira ordinária e tão ameaçadora para o ideal.

Quanto ao padrão de comportamento do senex nessa área, vou precisar de fazer ainda um texto à parte com um estudo de caso, o do escritor russo e aquariano Anton Tchekhov, que só descobriu o puer que existia nele após seu retorno de Saturno, aos trinta anos. A história é intrincada e merece ser bem descrita. Farei isso em breve. Dá para antecipar que, enquanto a volatilidade é o traço mais marcante do puer enquanto amante, o senex ocupa com sua rigidez um polo oposto, fixo e encastelado. “Encastelada”, porém, é, curiosamente, a situação arquetípica em que encontramos a puella, a versão feminina do puer.

Ela é a princesa que, nos contos de fadas, encontra-se à espera de um milagre. Mas o comportamento ativo e volátil do puer mercurial e a atitude aparentemente passiva e fixa da puella sonhadora são iguais em sua rejeição do compromisso e do engajamento em uma história verdadeira. A propósito: que a puella se queixe da falta de seriedade ou bravura de seus pretendentes pode muito bem ser o motivo pelo qual ela escolhe pretendentes pouco sérios, ou pouco corajosos, para ter de quem se queixar. Até certo ponto, o puer e a puella vivem muito bem e despreocupadamente no plano das potencialidades abertas e imaginadas. Na medida em que o tempo passa, porém, eles podem precisar mais e mais de ter a quem culpar pelo fato de nada ter sido realizado.

Aliás, uma boa maneira de identificarmos uma possível adesão unilateral nossa a um desses arquétipos é um excesso de reclamações gratuitas a respeito do outro. Quando a gente começa a distribuir sem critério lamentos e acusações sobre a natureza pueril ou inconsequente de pessoas com quem nos relacionamos, no presente ou no passado (pessoas que talvez até possuam essas características, mas não a ponto de merecer tanto de nossas atenções e memória), é provável que exista algo em nós precisando de descanso, liberdade e ânimo criativo. Por outro lado, quando a gente começa a denunciar o moralismo ou o materialismo do resto mundo ao redor, sem que ninguém tenha pedido nossa opinião, é possível que nossa opinião esteja enviesada pelo desejo inconsciente de receber um pouco de admiração e de respeito bem mundanos (ou seja, a admiração e o respeito que as realizações mundanas outorgam ao senex).

Podemos ter uma afinidade maior com um desses arquétipos sem converter isso em uma neurose mais grave, é claro. Assim como podemos alternar entre um e outro no tempo e no espaço. Um equilíbrio absoluto entre esse tipo de polaridades é por definição impossível – tudo o que podemos tentar obter é uma espécie de equilíbrio dinâmico. Nem por isso análises pouco equilibradas do fenômeno são menos enriquecedoras, e as mais famosas se notabilizaram exatamente por tomarem partido de um ou de outro.

Recomendo, em primeiro lugar, um estudo que é notavelmente anti-puer, não necessariamente tomando o partido do senex, mas vendo-o da perspectiva do arquétipo materno feminino (que seria em parte responsável pelo menino mimado que ele se tornou, mas também capaz de lhe impor limites de uma origem mais atávica e profunda). Falo do livro de Marie-Louise Von Fraz, Puer Aeternus: a luta do adulto contra o paraíso da infância, que começa por uma análise da dimensão pueril de O Pequeno Príncipe e da personalidade de seu autor, Antoine de Saint-Exupéry. A autora, cabe lembrar, foi colaboradora de Carl Jung, e se tornou conhecida por suas análises da psicologia dos contos de fadas.

Outro livro importante, este mais abertamente favorável aos talentos e inspirações do puer (justamente no confronto com as limitações e rabugices do senex) é The Puer Papers, de James Hillman. E, para quem quiser ter uma visão mais ironicamente balanceada, indico o último ensaio de Liz Greene do primeiro volume dos Seminars on Psychological Astrology, que que já mencionei nas indicações bibliográficas dessa postagem aqui. Este tem a vantagem de ver o assunto na perspectiva da astrologia e do zodíaco. Mas a primeira parte do ensaio não presume nenhum conhecimento prévio nessa área, e pode ser útil mesmo para quem quiser ver as coisas de um ponto de vista estritamente psicológico.

Agora, para terminar, temos o puer e o senex em Peixes, como mencionei lá no começo. E aqui as coisas ficam bem interessantes. Porque, por mais que a gente queira matizar os raciocínios e os estereótipos, dá para ver como Gêmeos e Capricórnio costumam representar bem os comportamentos polarizados do puer e do senex, respectivamente. Quando falamos de Peixes, no entanto, a infantilidade e a senioridade coexistem no arquétipo de modo mais intrincado e sutil; em Peixes habitam uma criança e um ancião que são uma mesma pessoa, e isso gera alguma confusão, como era de se esperar, mas pode também criar uma nova espécie de beleza, através justamente do resultado do confronto entre o potencial e o real. Dá para a gente ver isso no comportamento de alguns piscianos. Mas, antes, para termos um caminho para a aproximação a esse fenômeno, dá também para gente ver como isso aparece na história de Jesus Cristo.

Pois Cristo, além de ser um inaugurador apropriado da Era de Peixes que se encerra agora, integrou também a linhagem da criança divina. Aliás, Liz Greene observa como o puer arquetípico muitas vezes aparece com as mãos ou os membros machucados ou mutilados, o que parece ser uma consequência de seu contato com o mundo, com a matéria, com a realidade. Um primeiro exemplo é Ícaro, herói tipicamente juvenil, que recebeu suas asas de Dédalo, sob advertências para que não se deixasse levar pelo entusiasmo, sendo que nem isso impediu que ele as queimasse ao ir de encontro ao sol. Jesus, por sua vez, partilha desse destino de um modo ao mesmo tempo mais trágico e menos catastrófico: sua derrocada no plano terreno é um fracasso que não deixa nunca de prometer futuros sucessos.

Notem: a humanidade a princípio não recebe muito bem sua palavra, com seus ideais elevados e pouco práticos, meio piscianos mesmo, e pelo menos parte dela, a que se encontra em posições de autoridade estabelecidas e imperiais, se mostra bem convicta de que cravá-lo em uma cruz e expor sua corporeidade humana sangrando é a melhor coisa a fazer. Dostoievski explorou esse argumento em “O Grande Inquisidor”, um conto enxertado no romance Os Irmãos Karamazov, que pode ser lido separadamente; nele, Cristo retorna e é mais uma vez crucificado por ordem de um senex da igreja inquisitorial que está plenamente consciente de sua filiação.

Mas, por mais doloroso que seja seu fim, ele depende dessa morte para permanecer como uma espécie de ideia, fomentando o sonho de que um dia o reino que prometeu chegará, será realizado, está por vir. Existe então certa cumplicidade entre a dimensão espiritual, a que se eleva para além do raso das ambições terrenas, e a material, que a traz para o chão de modo que possa alçar outro tipo de voo. O mito não diz respeito apenas ao personagem, mas está inevitavelmente ligado à sua história, a tal ponto que suas escolhas e o que lhe é imposto desde fora se entrelaçam e se confundem. Em um certo sentido, Cristo se oferece em sacrifício no plano material para manter vivo o sonho do que prometeu.

Nesse sentido, para quem já chegou aos 40, como eu, é interessante perceber que Jesus Cristo nunca chegou a ser exatamente um adulto. Ele mal superou seu retorno de Saturno e já foi correndo caçar encrenca que interromperia sua vida pouco depois. Carregou sua cruz, é verdade, mas só por um caminho bem curtinho; esse caminho pode muito bem ser sum símbolo do que todos nós temos que suportar em nossas trajetórias individuais, mas não deixa de ter sido para ele relativamente breve, levando-o a uma morte precoce. Ou seja, o Jesus histórico nunca deixou de ser um puer. Mas o Jesus simbólico é também a cruz, a matéria, e realidade que o nega e o rechaça, e, portanto, é a promessa que ainda assim sobrevive à crucificação, é o reino impalpável e imune a qualquer teste do real que nasce junto com ela.

Por isso, o tipo de sonho e de idealismo que encontramos em Peixes pode ser tão resistente à realidade dos fatos. Porque não aponta para algo que se imagine realizável nesse mundo, não se trata de um potencial a ser testado aqui. Muito pelo contrário: esse mundo pode refutar a aspiração pisciana de todos os modos possíveis, pode até mesmo pregá-la numa cruz e fazê-la sofrer humilhações e derrotas, que ainda assim ela sobreviverá, será inclusive alimentada pela frustração e pela violência. É claro que isso pode ter consequências complicadas no plano individual, e com frequência tem. Mas nem por isso deixo de ver no plano arquetípico uma bem-vinda síntese, ainda que aberta para o futuro e para o porvir, na história dos confrontos e dos encontros entre puer e senex.

capricórnio, gêmeos

Te amo, Gêmeos!

Quase Famosos (2000) | Dir. Cameron Crowe

Amo zoeira com signos, e amo mais ainda quando meus amigos se lembram de mim por causa de uma zoeira. Aí esses dias um deles me marcou em um tuíte que diz assim: “A quarentena está fazendo até capricorniano se declarar, aquariano responder na hora, sagitariano querer namorar, taurino admitir que errou e virginiano admitir que ama alguém. Geminiano não muda nada continua cada vez pior”. De acordo, em parte: sinto que sobretudo que no começo o texto está muito certo. Já mais para o final não concordo tanto. Acho que dá para resumir esses dois sentimentos na seguinte frase: amo Gêmeos e vou defendê-lo até o fim.

Aproveitem, não é sempre que capricorniano sai por aí fazendo esse tipo de declaração. Aliás esse clima de pandemia apocalíptica lembra uma cena do filme Quase Famosos, sobre uma banda de rock que chega a fazer algum sucesso e logo entra em decadência. Tem uma hora em que pela primeira vez eles usam um jatinho em uma turnê, só que no meio da viagem o jatinho começa a cair, e parece não haver esperança alguma de evitar o desastre. Nisso os integrantes da banda começam a fazer declarações e confissões uns aos outros no meio da tremedeira da queda. O avião não cai, o piloto consegue salvá-los, e eles andando na pista do aeroporto depois – aquelas caras de “nunca mais ninguém fala do assunto” – é uma das cenas mais constrangedoramente engraçadas que há.

Dá para supor que existem capricornianos e geminianos entre eles. Por motivos diferentes, esses dois estão entre os mais sujeitos a fazer desabafos ou confidências em circunstâncias extraordinárias. Exatamente porque não fazem em circunstâncias normais. É claro que Gêmeos às vezes fala tanto ou manda tanta mensagem e figurinha que uma coisa ou outra acaba passando, porém a comunicação geminiana pode muito bem existir sem qualquer referência a sentimentos, ainda mais sentimentos profundos. Já Capricórnio é pura profundidade, e não deixa nada transparecer na superfície: guarda suas cartas bem próximas ao peito, mantém o semblante impassível, e é bem capaz de só mostrá-las se o mundo estiver acabando mesmo.

Vale a pena ver como ambos se posicionam ao redor da mesa do zodíaco. Gêmeos e Capricórnio relacionam-se em um ângulo de 150 graus, ou seja, um aspecto inconjunto, que forma um quíncuce. Esses são os termos técnicos, mas acho que são um pouco mais do que isso: por mais que o jargão astrológico já seja usualmente esquisito com suas quadraturas e declinações, essas palavras “inconjunto” e “quíncuce” têm para mim um sabor a mais de desengonçada estranheza, que não deixa de estar relacionado ao que simbolizam.

Gosto de escrever sobre arquétipos que estão posicionados nesse aspecto (como já escrevi sobre Câncer e Aquário, por exemplo, nesse post aqui) porque a princípio a relação entre eles não é exatamente harmônica nem conflituosa, mas sim desajeitada, tropeçante, cega. É como se fossem duas pessoas que nem se conhecem o suficiente para ter grandes simpatias ou antipatias entre si, e então precisam antes de tudo reconhecer a existência uma da outra, para a partir daí descobrirem formas de interação e convivência.  

Signos que se relacionam por meio desse aspecto podem se encaixar muito bem, desde que se parta do princípio do desencaixe. Estamos tratando de pessoas que a princípio não sabem nem como se cumprimentar direito, mas que com tempo ou com sorte podem encontrar interessantes pontos de contato entre si. Estes, uma vez identificados, podem ser revelar tão certeiros quanto aquela pecinha do jogo de lego que existe só para uma determinada função, em um determinado tipo de brinquedo. Ou, mais exatamente, são como aqueles brilhantes improvisos que permitem a conexão entre as mais diferentes partes de um objeto ou conjunto de objetos. Leia-se gambiarra.

Gêmeos adora uma gambiarra, sobretudo uma gambiarra comunicativa. Já Capricórnio rejeita as soluções fáceis e provisórias. A relação gambiarrada entre eles deve, portanto, contar com a capacidade geminiana de adaptação e mutabilidade. No entanto, ao invés de dizer simplesmente que Gêmeos se adapta às estruturas e rigores capricornianos, podemos inferir que Capricórnio abre uma brecha em seu sistema diante de Gêmeos, nem que para isso ele precise cair numa espécie de armadilha forjada pela astúcia geminiana. Uma astúcia que, por outro lado, pode ter que se reinventar e elaborar sempre novos recursos e artimanhas diante das reservas e resistências de Capricórnio.  

Permitam-me uma digressão narrativa a esse respeito. Lembrei aqui que um tempo atrás vi Capricórnio entrevistando Gêmeos em uma edição do Actor’s Studio. Bom, não sei quais eram os signos do entrevistador e do entrevistado, mas arquetipicamente acho que era isso que estava acontecendo. O barbudinho que guiava o programa tinha até um pouco de cara de bode, além de ser responsável, consistente, dedicado à formação profissional dos jovens atores e atrizes. O convidado era um ator de comédias (não lembro exatamente qual; talvez o Steve Martin; em todo caso o ator cômico é uma figura arquetipicamente geminiana).

Aí lá pelas tantas o entrevistador citava uma antiga declaração de seu convidado, em outra entrevista, na qual ele dizia ser “uma pessoa superficial”. Capricórnio em seguida perguntava a Gêmeos, de maneira perspicaz e sóbria, em um tom ao mesmo tempo elogioso e crítico da falsa modéstia do ator: “Você disse isso mesmo? Você se considera superficial?”. O ator respondia que sim, que tinha dito aquilo. O entrevistador, porém, prosseguia, tenaz e insatisfeito com a resposta: “Mas você não acredita mesmo nisso, acredita?”. O ator: “Sim, claro, é isso mesmo, eu sou superficial.”

O entrevistador, começando a ficar meio perdido, talvez preocupado com o exemplo dado aos jovens: “Mas você se formou em Harvard…” O ator fazia uma cara de “sim e daí?” Nesse ponto, as coisas ficavam realmente desajeitadas, embaraçosas, porque o entrevistador não sabia como continuar abordando o assunto, nem conseguia mudar de tema. O ator então tomava a palavra de maneira mais generosa, passando por um momento a falar de forma mais didática, para se explicar melhor, parecendo disposto a eliminar possíveis mal-entendidos:

“Olha, eu disse isso, mas não é porque eu considere que outras pessoas são mais profundas, que eu seja mais vulgar ou banal que os outros. O que eu acho é que o ser humano é uma criatura meio superficial mesmo. A gente pode filosofar o tanto que der para filosofar, inventar a metafísica que a gente quiser inventar, mas no final das contas a gente nunca deixa de ser essas criaturas meio tontas que não sabem nem como vestir uma camisa sem se atrapalhar com os botões”. O entrevistador, aliviado por ter recebido uma resposta mais significativa: “É, vendo nessa perspectiva eu sou superficial também.”. O ator, retomando certo ar de malícia: “Sim! Claro que é”.

Ponto para Gêmeos. Mas, como disse, a relação entre eles não é de oposição ou mesmo de complementaridade, o que permite que eles comentem desvios um do outro de maneira despretensiosa e por isso mesmo mais efetiva. Então, por outro lado, Capricórnio pode ter alguma coisa a dizer a Gêmeos sobre o valor da verdade, por exemplo (geminianos se permitem uma grande margem de manobra nesse assunto). Mas não vai fazê-lo através do confronto aberto e do discurso pedagógico (Gêmeos é imune ao discurso pedagógico). Capricórnio vai dar o exemplo em silêncio e como quem não quer nada. Como ele de fato não quer nada – Capricórnio não inclui entre suas muitas obrigações neste mundo a de corrigir a conduta de Gêmeos –, acaba conseguindo mais efeito do que de outro modo. “Eu faço desse jeito, você faça do jeito que quiser”, é a mensagem que Capricórnio transmite a Gêmeos. Às vezes funciona.  

Agora, voltando ao tema a superficialidade. É sobre ele principalmente que eu queria falar, pois acho que pode ser útil agora nesse período que estamos vivendo. Porque implica a noção de impermanência, uma característica que normalmente a gente vê nas descrições estereotipadas de Gêmeos como um signo que carece de foco e de substância. Porém, no contraste com as exigências de constância e consistência autoimpostas por Capricórnio, esse traço de personalidade pode ganhar outro destaque, na medida em que permite uma livre alternância de humores e pensamentos, sem apego a uma estrutura de fundo que os reúna em uma totalidade ou em uma narrativa coerente. Gêmeos sabe que o que a gente sente hoje não tem necessariamente nada a ver com o que a gente vai sentir amanhã. Acho que esse é um dado importante de termos em mente durante esse momento de quarentena.

Pois uma coisa que a gente percebe com clareza quando acompanha as próprias alterações de humor em sincronia com trânsitos planetários é que o ânimo da gente muda fácil sem que mudem muito as circunstâncias imediatas. Ou seja, que somos todos meio geminianos. Em dias ou horas a gente vai da alegria ao desânimo e à tranquilidade e ao desespero sem ter muitos motivos concretos para isso. Pense em quantas vezes você saiu de um estado de prostração ou cansaço de repente com um impulso de entusiasmo sem nem entender o porquê. E vice-versa. De modo que, mesmo durante um confinamento em que nada de muito diferente aconteça de um dia para o outro, haverá dias mais difíceis e dias mais fáceis; não se trata de uma longa jornada linear rumo ao fundo do poço. Se hoje está complicado não quer dizer que amanhã estará também.

E essa é uma lição geminiana, mercurial, embora a gente tenha o hábito de considerar Júpiter, Saturno e Quíron como os grandes mestres na astrologia. Ela me lembra uns versos de Leonard Cohen em That Don’t Make it Junk (poucas coisas não me lembram uns versos de Leonard Cohen): “I know that I’m forgiven / but I don´t know how I know / I don´t trust my inner feelings / Inner feelings come and go”. Essa é aliás uma das faixas mais cômicas do compositor canadense, e esse “eu sei que estou perdoado” já é geminiano o suficiente para fazer valer a citação. Mas o que vem na sequência, essa ideia de que nossos sentimentos mais íntimos podem não ser confiáveis, porque estão igualmente sujeitos a fluxos e refluxos que a gente não entende nem controla – isso já vale por todo um tratado sobre Gêmeos, e sobre o que Gêmeos tem a ensinar para o mundo.  

Sim, eu sei, eu sei: não devia estar aqui dando argumento atrás de argumento para que os geminianos sejam assim tão… geminianos. Mas avisei que esse texto ia ser uma declaração de amor, e numa declaração de amor não dá para esperar que a pessoa fique fazendo críticas e ressalvas à conduta do ser amado (ainda que o ser amado mereça, isto é, ainda que o ser amado seja… geminiano). Mas, enfim, tive um filho geminiano no ano passado, e considero-me perdoado de antemão por agora achar esse signo o mais belo e justo e resplandecente e repleto de arte e poesia e urbanismo de todos os signos (junto com Capricórnio, que afinal é o signo do meu outro filho). Aliás outro dia eu literalmente encontrei uma forma de me declarar para o Gabriel depois de ouvir Piazza, New York Catcher, uma canção do Belle and Sebastian que em determinado momento diz assim: “I love you, I have a drowning grip on your adoring face / I love you, my responsability has found a place”.

Essa ideia da responsabilidade disponível que encontra um lugar no mundo no rosto cativante de outra criatura – ah, isso só pode ser a história de um pai capricorniano que tem um filho de Gêmeos. Mas é um pouco também a do irmão mais velho de Capricórnio que tem um irmão mais novo de geminiano – aliás o “irmão mais novo” é um personagem do arquétipo de Gêmeos, pois essa era uma condição muito singular de Hermes na mitologia. Como se não bastasse, meu filho que tem o Sol em Gêmeos tem a Lua em Capricórnio, o que tem a Lua em Capricórnio tem o Ascendente em Gêmeos, e eu tenho a Lua em Gêmeos e o Sol em Capricórnio. Esses dois signos estão no DNA astrológico da família e a gente parece ter sido de algum modo escolhido para tentar encontrar maneiras de fazer Gêmeos e Capricórnio conviverem e se gostarem.

Tenho muitos amigos geminianos também (escrevi mais especificamente sobre o arquétipo do amigo geminiano aqui). Agora, o amigo que me marcou no tuíte que citei lá no começo, ele é de Câncer. Ele se chama Gabriel também e no ano passado eu tinha dito a ele que provavelmente teria um filho com o mesmo nome e o mesmo signo dele. Acabou que o meu Gabriel nasceu um pouco antes, como vocês a essa altura já sabem. Aí já acho que não foi à toa que o Gabriel canceriano me marcou naquela postagem dizendo que Gêmeos não tem jeito é o pior signo e só tá piorando etc.. Canceriano é difícil, né? Fica magoado fácil, acho que até hoje ele ainda não aceitou muito bem, então entrou nessa de disseminar zoeira com os geminianos.

Pois então, Gabriel, aproveite que o amor de Capricórnio está em liquidação e a gente anda distribuindo afagos por aí como se fosse nosso último dia sobre a Terra. Te amo também, querido. Beijos de luz. Mas vamos parar de espalhar fake news sobre o signo do seu xará, pode ser? Se não eu vou ter que ficar te respondendo cada tuíte e cada postagem. Aliás por via das dúvidas vou lançar de uma vez a campanha Eu Defendo os Geminianos. Quem vai comigo? Eu ouvi um amém? Hashtag #somostodessuperficiais.

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O lugar bom

Essa postagem é para quem assistiu ou está assistindo The Good Place, a série da NBC que estreou em 2016 e terminou em 2020 (tem na Netflix). Vi o último episódio esses dias, e série tem esse negócio de a gente ficar com saudade dos personagens. Então – prometo não estragar o final para ninguém, pelo menos não para quem já passou da primeira temporada – me deu vontade de explorar um pouco mais a brincadeira dos signos com eles. A propósito, já mencionei o Michael (Ted Danson) em um texto sobre Capricórnio, e indiquei a Eleonor (Kristen Bell) para o Oscar do zodíaco que propus uma vez aqui, na categoria Personagem de Áries. A essa altura, estou convencido de que ela merece o prêmio.

Isso porque ela é uma ariana que vai ficando mais suave no decorrer da série, menos tensionada no confronto com o mundo, e, por mais que esse seja um caminho esperado em uma narrativa cômica convencional, ela nos convence de que isso é possível. Não é só porque aprende a falar palavrões com certa civilidade (tipo “holy fork!”, eventualmente traduzido por “fruta que caiu!”); ela faz com que seja verossímil uma heroína de Áries do bem, na medida do possível, é claro. De todas as transformações que vemos no decorrer das temporadas, para mim a dela é a mais notável. Não quer dizer que fique menos ariana, pois conheço muita gente desse signo que já parte desse lugar em que o restante da humanidade não é visto apenas como uma ameaça, e sabe que dá até para conviver com gente, às vezes até gosta. Em se tratando de Áries, já é bastante coisa.

Chidi (William Harper), por sua vez, é o clássico libriano que precisa aprender a tomar decisões. Não por acaso é o par oposto-complementar de Eleonor. Mas acho interessante que seja um filósofo. É comum as pessoas acharem Libra um signo romântico, mas a gente sabe como eles conseguem ser incrivelmente frios e cerebrais. Falta-lhes o fogo das paixões leoninas, o poço dos sentimentos escorpiônicos, a sensibilidade ao ambiente de Touro ou Virgem. É lógico que nessa perspectiva falta um traço de Libra também todos os outros arquétipos, e falta mesmo. Sobretudo quando a gente conhece um libriano que, não obstante sua librianice, e inclusive por causa dela, sabe decidir que sobremesa escolher depois de colocar todas as opções na balança.

Jason Mendoza (Manny Jacinto) é um caso singular. Peixes, sem dúvida. O interessante é que ele é pisciano tanto em sua versão de mentirinha quanto depois que ficamos sabendo quem ele realmente é após os episódios iniciais da série. Nesse caso acho que não conta como spoiler porque a coisa se revela logo ali no segundo ou terceiro capítulo: ele passa de um monge tibetano de olhos puxados que vive à base de meditação e água fresca para um morador da Flórida de origem filipina de olhos puxados que vive à base de todo tipo de porcaria e pequenos roubos de gasolina. Embora o monge seja um personagem típico do arquétipo de Peixes, a versão verdadeira de Jason é até mais pisciana que a outra.

O legal é que ele não deixa nunca de ser um personagem ingênuo e encantador. Avoado, iludido, totalmente incapaz para os assuntos práticos da vida, mas nunca menos “espiritualizado” que sua versão monástica, mesmo quando se lembra do dia que passou atirando em ratos no lixão de Jacksonville com um primo de Blake Bortles. Porque ele espera ser aceito pelo mundo da mesma maneira como o aceita, e representa o papel do bobo em tudo o que tem de plena receptividade e espelhamento do mundo ao redor. Além de ser engraçado, é claro. Tem uma cena, por exemplo, em que está todo mundo dando opinião ao mesmo tempo sobre algum problema, aí ele entra e dispara a falar um monte de coisas nada a ver. Quando perguntam o que deu nele, responde: “Sei lá, estava todo mundo falando junto achei que era para eu falar também”. Tipicamente pisciano.

Quanto à Tahani (Jameela Jamil), aí já fico na dúvida. Ela tem a rivalidade geminiana pela atenção dos pais com a irmã, mas não tem agilidade de raciocínio de Gêmeos; participa do encanto leonino com o universo das celebridades, mas falta-lhe magnetismo e confiança para ser ela própria uma Leoa. No final das contas, fico achando que é de um signo de Terra. Mas nesse caso estou disposto a aceitar ajuda, então se alguém aí tiver um opinião a respeito pode falar. Vejam só que coisa bizarra estou me tornando: uma capricorniano que admite que não sabe uma coisa e até pede conselho pros outros. Tipo o Michael.

Voltando então rapidamente ao Michael: o engraçado é que, além de ser uma figura evidentemente capricorniana em sua função de gerenciar a coisa toda e saber tudo a respeito de tudo, ele a princípio tem ainda aquele traço de Capricórnio que não aceita a necessidade de ajuda. Precisa estar sempre no controle, sem precisar nem do palpite de mais ninguém. É lógico que isso já vai mudando a partir da segunda temporada, vai ficando mais claro como na verdade tudo o que ele precisa (e no fundo quer) é assumir a forma falível e imperfeita dos humanos. É muito exaustivo isso de se responsabilizar pelo universo o tempo inteiro. Algo semelhante poderia ser dito de muitos capricornianos. 

E tem a Janet (D’Arcy Carden), é claro. A Janet é um caso à parte. Aí eu perguntei pro pessoal da internet qual é o signo da Janet, e a resposta que mais me apareceu foi Virgem. Eu respeito essa posição e até entendo. Ela tem um gestual contido e um jeito de se vestir que são bem virginianos. Ela presta um serviço inestimável, aparece sempre que alguém precisa de alguma coisa, é uma funcionária exemplar do cosmos e e nem humana ela é. Pra muita gente, isso é mais que suficiente para cravar: virginiana.

Mas eu sou Capricórnio com ascendente em Escorpião, então quando peço conselho ou palpite pros outros vocês podem suspeitar que é só jogo de cena. Já formei minha opinião há tempos e nada me fará arredar dela. Acho que os gestos controlados e aparentemente metódicos da Janet têm mais a ver com fato de que ela não tem muita familiaridade com a forma humana que assumiu. Aí vocês precisam que considerar que, quando a gente fala que Virgem não é muito humano, isso é mais num nível metafórico; é lógico que não é literal. Tem só um signo que corresponde a essa característica sem precisar de licença poética. Tem só um signo de gente que veio de outras galáxias e está ainda se acostumando a viver entre nós.

Pois então: Aquário. Em primeiro lugar, exatamente por isso, porque nem humana ela é. Digo isso na certeza de que os aquarianos queridos do meu coração vão entender como um elogio: tipo, você nem é humano, você é uma Janet. E, como se não bastasse, ela é capaz de prover os humanos com aquilo que normalmente é reservado aos deuses, como fez Prometeu, protagonista do mito mais significativamente aquariano. O fato de que vai acabar se apaixonando por uma pessoa de carne e osso, e conhecer um pouco mais os desejos do corpo que a princípio lhe é estranho – isso também acontece com frequência no âmbito do arquétipo de Aquário. E a maneira como a mente dela se conecta como uma espécie de supercomputador a tudo o que acontece no universo só me faz ter mais certeza do meu ponto.

Para terminar, ufa, tem a série como um todo. Estreou em 19 de setembro de 2016. Essa sim é, portanto, virginiana. Para mim faz sentido: a narrativa costuma ser até bem metódica em sua sobreposição de universos como se fossem bonecas russas, mesmo quando flerta com o caos. Agora, eu apostaria que existe alguma coisa ali que articula muito bem Sagitário e Touro. Talvez a Lua no primeiro, o ascendente no outro. Pois o pano de fundo é sagitariano, de modo que toda a brincadeira é organizada em torno de uma indagação sobre o sentido da vida e a finalidade da existência. Ela pode não alcançar muita profundidade nesse sentido; mas isso, pelo menos para mim, não é necessariamente uma falha ou deficiência. É aí que entra a perspectiva taurina.

Pois, no final das contas, após as milhões de referências a Kant e Heidegger e Pascal, a série acaba recorrendo ao pensamento oriental para dar uma última resposta provisória ao enigma do existir. Sobre esse aspecto dos últimos episódios, sem entregar o enredo, vou me permitir uma pincelada, até porque o recurso é mais que previsível, e não apenas pelo andamento da série, mas pela própria linguagem seriada de que ela é um bom exemplo. A ideia de que o “fim” pode ser infinitamente postergado para uma outra temporada – e de que podem existir mundos infinitos dentro de infinitos mundos – faz, curiosamente, com que o momento presente seja mais valorizado. Se a própria morte não é conclusão de um processo, mas faz parte de um conjunto incessante de ciclos, não tem porque você se afligir com uma finitude ilusória, e você pode muito bem encontrar o infinito que existe contido no agora.

Buda, como já disse aqui vez ou outra, para todos os efeitos era taurino. Seu aniversário é comemorado no dia 07 de maio. Isso para mim está relacionado não apenas à paciência e à perseverança, mas também à capacidade que Touro tem de aproveitar as coisas boas da vida. Digo, aquelas coisas materiais e momentâneas mesmo, como uma boa refeição, um bom vinho, uma boa companhia ou a simples possibilidade de respirar fundo um ar puro e tranquilo. É por isso que para mim a série termina onde começa a grande lição de Touro para nós. Que é um pouco a lição de Buda também. Não saia daí. Respire. Aproveite a vida. Aproveite o momento. O lugar bom é onde você está.

capricórnio

Mulher de Capricórnio

[Edward Hopper | Compartment C, Car 193]

Não sei se devia confessar isso aqui, mas a essa altura já confessei: em outros tempos, tive um preconceito astrológico contra as mulheres de Capricórnio. Ele começou na infância, por conta de uma situação que envolvia uma tia meio astróloga e outra tia meio pilantra, com a primeira repetindo sempre o mesmo parecer diante das patifarias da outra: “Ah, mas isso é coisa de mulher de Capricórnio!”. Cresci ouvindo aquilo e aquilo me marcou, a tal ponto que cheguei a evitar capricornianas em minhas primeiras interações afetivas. Mas o feitiço se quebrou quando tive uma namorada capricorniana por volta dos 20 anos (acho que demorei a saber a data de aniversário dela), e a partir daí conheci outras tantas capricornianas que me fizeram rever radicalmente meus conceitos.

Então esses dias me perguntei o porquê do preconceito da minha tia, e qual seria o motivo da ressalva ser voltada para mulheres capricornianas especificamente, e não capricornianes em geral. Devia haver um componente de machismo estrutural aí, mas a questão é qual componente, o que exatamente ela via nas capricornianas que lhe parecia condenável de antemão nas mulheres e não nos homens. “Capricornianas são dissimuladas”, me lembrei dela dizendo, com insistência e nitidez. Parei para pensar nas capricornianas que conheço. Não, elas não me parecem particularmente dissimuladas, muito pelo contrário. Parecem antes ter todos os cuidados para que a gente não se engane: você vê o que você leva, você leva o que você vê.

Tenho, porém, uma hipótese a respeito do ponto de onde ela estava partindo. Pois o que realmente chama minha atenção nas mulheres de Capricórnio é sua capacidade de manter a calma e o senso prático em situações limítrofes e emocionalmente carregadas. Isso vale tanto para o término de relacionamentos quanto para a administração de mantimentos em meio a uma catástrofe: a capricorniana será aquela que consegue traçar limites claros e evitar o pior, assumindo o controle quando todo mundo está perdendo o juízo. O semblante blasé que é capaz de preservar nessas horas decorre, por um lado, da concentração na tarefa em curso, e por outro de um melancólico senso de repetição das mesmas cenas e das mesmas catástrofes. A capricorniana sente que já esteve ali antes, que já administrou a mesma crise outras vezes – e que ninguém aprendeu muita coisa desde a última vez.

Homens de Capricórnio, é verdade, também são capazes de fazer isso. Eles simplesmente não serão objeto de um mesmo tipo de julgamento por terem ostentado um semblante prático e melancólico quando o mundo começou a ruir. Sei que eu, por exemplo, nunca tive problemas com os aspectos mais áridos da minha personalidade, e pelo silêncio resignado com que às vezes expresso minhas emoções. Por outro lado, da mulher se espera certa exibição de traços sentimentais que, quando ausentes, a tornam suspeita de estar escondendo alguma coisa. Daí o “dissimulada” da minha tia. Ele passa antes pelo “insensível”. Acontece que a sensibilidade de Capricórnio funciona em outro tempo, o que lhe permite plena eficácia prática mesmo quando um significativo trabalho de luto está acontecendo em segundo plano.

A capricorniana que executa seu compromisso com a eficiência e a ética no manejo dos assuntos mundanos, portanto, o faz a partir da consciência profunda de uma perda, e de que nunca será possível reparar de fato o que foi perdido. Só é possível uma aproximação nesse sentido – mas o que for possível será feito, ao menos no que depender dela. Essa dedicação obstinada não deixa muita margem para cuidar das aparências, através da exibição dos sentimentos condizentes com o que a etiqueta social pede dessa ou daquela situação. Aliás, Capricórnio consegue ser tão contrário a ser julgado pelas aparências (você vê o que leva, leva o que vê), que chega a aparentar o inverso do que realmente é. Aqui, possivelmente, existe sim um curioso mecanismo de dissimulação.  

Pois, se o imenso cuidado com o mundo da mulher de Capricórnio pode passar por desinteresse ou fastio (uma vez que se expressa através de atos concretos que são executados com as mãos, enquanto olhamos para seu rosto), eventualmente ela vai esconder sua tristeza na mesma medida em que os julgamentos sociais a acusem de não sentir tristeza nenhuma. Não digo que venha a dissimular seus sentimentos; ela apenas não vai fazer esforço algum para ostentá-los. Daí o risco de que assuma uma feição mais ríspida ou indiferente. Tanta falta de esforço num determinado sentido pode se tornar uma espécie de esforço no sentido contrário.

Mas isso apenas em alguns casos. No geral, a mulher de Capricórnio não precisa mesmo esconder nada para que acreditem que está escondendo alguma coisa. É verdade que isso acontece também nos arquétipos de Ar e de Fogo – mulheres sendo julgadas por não se adaptarem a expectativas e modelos sociais –, mas talvez o caso de Capricórnio seja particularmente notável porque todos os signos de Terra são femininos. Algo muito semelhante, aliás, poderia ser dito sobre as virginianas, considerando o tipo de controle que elas possuem sobre o ambiente imediato e sobre si mesmas. Touro, porém, traz com maior evidência um componente que não deixa de ser essencial para os outros dois, quando nos faz lembrar que os arquétipos de Terra dizem respeito ao corpo.

E os assuntos do corpo, enfim, são conhecidos pelas mulheres de um modo que a gente nem imagina. Eu pelo menos só posso suspeitar. Mas sei que passa por aí a mais profunda afinidade entre os signos de Terra e o feminino. Em todos eles, a dimensão sensível e palpável da experiência é a que vem antes de tudo, o que torna ainda mais equivocado que às capricornianas seja atribuída qualquer forma de insensibilidade. O que elas possuem (as taurinas e virginianas também) é força suficiente para sentir e fazer ao mesmo tempo – e talvez essa sobreposição seja aquilo que minha tia chamava de “dissimular”. Ou não, sei lá, vai ver que a outra tia era meio pilantra mesmo. Só não venham me dizer que ela era assim porque era uma mulher de Capricórnio.

capricórnio

A alma e as formas

Natividade | Giotto di Bondone (c. 1305)

Reparando aqui: a Noite de Reis e o dia do astrólogo (sim isso existe) acontecem na mesma data, seis de janeiro. Não é difícil identificar a relação entre as duas coisas. Eram astrólogos persas, ou magi, os “três homens sábios” que leram os sinais dos céus para encontrar o local de nascimento do menino Jesus, segundo o Evangelho de Mateus. O império persa, a propósito, foi um dos que conferiu à prática da astrologia um amplo papel social, depois do babilônico e do egípcio. Seus magos eram reconhecidos no oriente como sábios não apenas pelos conhecimentos técnicos e científicos que acumularam, como também pela participação em momentos chave da vida política da região. É possível inclusive que o evangelista os tenha incluído na história de Cristo para conferir maior legitimidade à sua narrativa.

Criação, de Gore Vidal, é um belo romance histórico sobre a Pérsia e arredores alguns séculos antes do nascimento de Cristo. Ele se passa durante o reinado de Xerxes, portanto no século V a.c., e é narrado por um embaixador do império nas terras do oriente e do ocidente, que durante suas viagens entra em contato direta ou indiretamente com personagens como Sócrates, Buda e Confúncio. Afinal, esse foi o período em que foram concebidas as transformações filosóficas, espirituais e políticas que mudaram o curso do mundo antigo e criaram os fundamentos de muito do que veio a seguir. Com a astrologia não poderia ser diferente, de modo que nesse intervalo, até a queda do Império Romano, estabeleceram-se não apenas uma, mas diversas e antinômicas bases possíveis – éticas, científicas, espirituais – pelas quais podemos hoje nos guiar no estudo dos astros.

A antiguidade astrológica deixou como legado vários livros e nomes importantes, mas gostaria de mencionar agora particularmente um deles, hoje menos conhecido. Jâmblico, ou Iamblichus, foi um filósofo e astrólogo de origem síria que veio a ser também biógrafo de Pitágoras. Até determinado ponto, seguiu filósofos neoplatônicos como Plotino e Porfírio em suas reflexões sobre os possíveis caminhos e saídas para que a alma encarcerada no mundo físico pudesse dele escapar. Mas, no decorrer de seus estudos, concluiu que a vinculação da alma à matéria não era de todo indesejável, possuindo potencialidades que estavam ainda por ser exploradas, o que justificava o aprimoramento dos instrumentos de orientação da nossa vida nesse corpo e nessa Terra (para quem quiser saber mais sobre o assunto, recomendo muito essa palestra de Robert Hand sobre astrologia, moralidade e ética; a parte seguinte desse texto se baseou nela).

Jâmblico sugeriu que o instante do nascimento de indivíduo era aquele em que as potencialidades de desenvolvimento da alma em um determinado corpo ficavam estabelecidas de acordo como retrato do movimento dos planetas. Esse retrato, por sua vez, representava um ideal ao qual a experiência humana em um determinado corpo podia apenas almejar – mas não devia deixar de almejar. O estudo da astrologia serviria então exatamente para que a alma, através de um determinado corpo, encontrasse uma maneira única de expressar-se e aprimorar-se, segundo as especificidades de uma configuração planetária ao mesmo tempo eterna e momentânea. Desse modo, a alma individual não estava exatamente submetida à dinâmica celeste como uma fatalidade imposta desde cima: ela era essa dinâmica, e ao mesmo tempo uma manifestação parcial dela aqui nesse mundo, que contava com as pistas deixadas lá em cima para reencontrar-se consigo mesma.

Hoje em dia, muita gente pensa que os adeptos da astrologia buscam uma espécie de reino encantado e esotérico para não encarar os sofrimentos e dificuldades da vida terrena, e que ela não possui nada a oferecer além disso. Outros entendem que a astrologia até funciona, e pode funcionar muito bem, mas não tem dimensão ética alguma, e é somente uma técnica que pode estar a serviço dos objetivos menos nobres. Há precedentes para sustentar as duas hipóteses. Mas a posição de figuras como Jâmblico representa uma alternativa no mínimo interessante nesse cenário, uma vez que reafirma o valor do mundo físico tal como o conhecemos, e ao mesmo tempo indica que ele pode sim orientar-se eticamente de acordo com coordenadas astrológicas.

Nessa perspectiva, faz sentido que a astrologia seja comemorada em uma data capricorniana. Pois Capricórnio é sobre honrar o mundo físico, desenvolver suas potencialidades, aproveitar seus recursos com inteligência, e entender que suas limitações são a única maneira pela qual a alma passa a existir nas formas. Disso tudo se deduz a possibilidade de um determinado comportamento moral, sem que precise ser moralista. A ética capricorniana passa pelo real e não deixa nunca de utilizá-lo como ponto de partida; assim, longe de conferir à matéria um aspecto vil, isolado do espírito, Capricórnio mostra como ela é justamente o veículo pelo qual o conhecemos, e o instrumento para aprimorá-lo através de nosso corpo por meio do trabalho de uma vida.

Mas Capricórnio pode ser, sim, um signo pesado. Isso acontece sempre que faz o caminho inverso – e, no lugar de elevar a dimensão da matéria, traz para o chão, por força de sua gravidade, tudo aquilo que lhe parece de um idealismo sem bases no mundo concreto. Por outro lado, a leveza possível de Capricórnio está justamente em sua capacidade de erguer o mundo concreto alguns centímetros acima do solo. Curiosamente, talvez isso nos diga algo também sobre a história de um deus que encarna em um corpo humano, e termina por ter a data de seu nascimento associada a esse arquétipo. Sua história termina com uma pesadíssima cruz na qual ele está preso como uma alma estaria presa ao corpo humano, segundo os neoplatônicos. Mas ela começa com a infusão de uma alma divina em um corpo humano, de tal modo que sua carne e pele e ossos não são um obstáculo a ser recusado ou um pecado merecedor de flagelos: são justamente um instrumento que a Alma encontrou para se movimentar entre nós.

Por último, queria enfatizar que o etos do aconselhamento astrológico não prevê nunca uma recomendação de renúncia ao mundo e seus desejos, ambições e disputas. Mas é papel do astrólogo identificar quais desejos, ambições e disputas recebem o suporte do retrato tirado do cosmos no instante do nascimento de um indivíduo, em interação com os que estão acontecendo no momento da consulta. É como se os ciclos planetários formassem uma intrincada rede de fluxos para a qual buscamos uma espécie de adaptação do corpo, embora o corpo neles esteja imerso o tempo inteiro, e não tenha como escapar deles nem querendo – o que torna tão mais significativa a possibilidade de acompanhá-los como quem participa de uma espécie de dança. O fato desses movimentos serem sempre contraditórios e ambivalentes é, por sua vez, o que torna tudo mais difícil, interessante e divertido.

Uma coisa é certa: o fatalismo que a astrologia antiga ou medieval conheceu tem um papel restrito nos atendimentos hoje em dia. Por outro lado, existe certa tendência em consentir com o uso da astrologia para finalidades desprovidas de qualquer justificativa moral, como se fosse apenas uma técnica isenta de premissas e implicações nesse campo. Mas as premissas cosmológicas da experiência da astrologia continuam sendo, ao menos para mim, motivo do maior assombro diante do que enunciam sobre a relação entre o homem e o universo. Acho difícil vê-las assim sem deduzir algumas orientações éticas no meu trabalho e nas minhas relações com os outros. Sou capricorniano, no final das contas.

Além disso, por fim, o fato de poder verificar, diariamente, algumas confirmações exatas da interação entre assuntos humanos com os símbolos do cosmos que temos disponíveis, é motivo sempre para reafirmar o mergulho nesse mundo como o meio para encontrarmos as mais perenes verdades. Por ora, bastam-me inclusive as verdades provisórias com que me deparei até o momento para suspeitar de que um astrólogo sírio que viveu há mais de dois mil anos tem algo de muito certeiro para dizer sobre nosso mundo. Talvez eu não saiba ainda expressar com total exatidão o que vejo de tão correto em sua perspectiva. Mas, se estou aqui nesse corpo, regido por tais e tais configurações astrológicas, ao que tudo indica me sobram motivos para continuar tentando.

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Ditadores do zodíaco

O Grande Ditador (1940) / Dir. Charlie Chaplin

Acredito que todos os arquétipos do zodíaco conhecem um caminho próprio para o autoritarismo, tendo como ponto de partida inclusive as virtudes de cada um, mas em alguns casos esse percurso é mais evidente. Podemos imaginar como e porque uma ditadura se instala de acordo com as inclinações de diferentes signos específicos; o exercício será tão útil quanto uma horinha de academia para nossas articulações psico-astrológicas, com a vantagem de não deixar nossos bíceps fatigados.

Em Capricórnio, por exemplo, existe uma inteligente competência para lidar com assuntos mundanos; ele pode ser até mesmo convidado a exercer essa qualidade, assumindo posições centrais no governo sem o intermédio de uma escolha popular, em circunstâncias de desorientação coletiva; mas ninguém garante que vai abrir mão do poder obtido, depois que as coisas se acalmarem. A figura do capricorniano como um ditador é célebre, e em muitos casos decorre desse apego ao controle, a uma pretensiosa imaginação de que sem Capricórnio o mundo recai no caos e na bandalheira. Mas também não custa lembrar que o termo “ditador” foi criado na Roma Antiga para designar o magistrado escolhido para exercer um governo com prerrogativas emergenciais – e, portanto, não necessariamente presumia um golpe ou um regime despótico, mas uma espécie de janela para o restabelecimento da ordem institucional e para a retomada das práticas regulares do Estado.

Em Escorpião, como de costume, as coisas ficam “interessantes” (leia-se: ganham uma conotação sexual), e nesse caso porque o poder puro e simples – incluindo os poderes mais obscuros – é um tema de Escorpião. Aqui o fato de que determinados seres exercem força sobre outros, não porque merecem, não porque precisam, não porque desejam, mas simplesmente PORQUE SIM, é parte importante do mistério da vida. Em Escorpião estão os fenômenos – como a morte – que precisam ser aceitos, por mais que a gente os considere injustos ou despropositados (para mais detalhes sobre esse tema, tem esse texto). Em Escorpião está o Dragão, esta força da natureza que causa destruição e carnificina de acordo com seus humores, e que esconde um inestimável tesouro oculto em sua caverna (nesse caso tem esse outro). Por isso em Escorpião também está o Tirano: aquele que mata por prazer, que quer o controle pelo controle mesmo, para o exercício da manipulação e do ódio.

O problema aqui não está no fenômeno do poder absoluto e desumano em si, mas nessa sua manifestação mundana e humana através de um indivíduo. Ela torna pontual e contingente algo que tem uma dimensão cósmica inegociável, conferindo sempre um elemento de banalidade ao Mal Radical que exige respeito e reverência. O dragão é o Dragão – e o Tirano, no final das contas, é só uma pessoa. Além disso, todo autêntico poder escorpiônico tem sua origem no oculto e no mistério, e é de caráter experimental, alquímico, investigativo, como por exemplo aquele que se obtêm através do estudo da astrologia; não se tem licença para exercê-lo em assuntos de outra ordem, que os desvirtuam e rebaixam. Uma plutocracia é um governo dos muito ricos – os que acumulam tesouros em suas cavernas – ou de forças ocultas – aquelas que transitam nos porões de ditaduras. As duas coisas muitas vezes andam juntas. Num caso como no outro, as virtudes plutônicas da concentração de energia e da transubstanciação alquímica se manifestam em versões mais vis, as da concentração de dinheiro e a da manipulação conspiratória.

Agora, sobre Virgem, uma notinha rápida: nesse caso estamos falando menos de um personagem vultuosamente ditatorial, e mais de um possível exército de tiraninhos que regulam os mais ínfimos detalhes da vida cotidiana, uma máquina burocrática que continua funcionando mesmo quando destituída de uma figura central. Em O Processo, de Kafka, encontramos algo parecido, pois ali já não importa nem qual é a Lei que está sendo obedecida, mas que os protocolos do código processual sejam todos seguidos. Há também um elemento virginiano em Gilead, a locação da distopia de The Handmaid’s Tale, de Margaret Atwood, com seus cenários ordenados, seus figurinos repetitivos e suas aias submetidas a vários protocolos de conduta restritíssimos. A impressão do elo com Virgem é reforçada pelos tenebrosos ritos sexuais que ocorrem em ambientes assépticos, para a suposta salvação da humanidade. Como comentei com mais calma aqui, há algo dessa busca de uma cura através do sexo (por práticas secretas de funcionárias do estado) no caso das virgens vestais da Grécia Antiga. No entanto, nada mais distante do potencial de Virgem para a cura e a fertilidade do que a violência de Estado travestida em um ritual sacro, seja na Grécia ou em Gilead.

Por fim, temos o déspota clássico, o Rei-Sol, o Rei-Leão. Aqui o que impressiona não são as variações modernas da tradição, mas a persistência de manifestações tradicionais em roupagens que são sempre as mesmas. Em Leão, idealmente, a autoconfiança e a autossuficiência geram a admiração pública, mas não têm esse objetivo, até porque a alma leonina se contenta com a contemplação do próprio aspecto régio, não precisa que ninguém o confirme, e por isso mesmo a audiência confirma: reconhece o Rei que merece esse nome. Porém poucos merecem, e é frequente que o caminho para a tirania esteja na própria insegurança do governante, que sente depender de sua imagem de invencibilidade, na qual não acredita de fato, de modo que não se permite nenhuma exposição de fraqueza. Assim ele vem a assumir as medidas mais autoritárias e desproporcionais – isto é, motivadas pela insegurança que não permite ameaça ao seu frágil reinado.

Em Édipo Rei, por exemplo – a tragédia clássica de Sófocles que também já traduzida como Édipo Tirano –, a confiança da população de Tebas é provisoriamente conquistada por Édipo quando ele chega à cidade e soluciona o enigma da esfinge. No entanto, num cenário de novas mazelas, e diante das más notícias e presságios que chegam ao castelo, Édipo se mostra irritadiço, melindroso, e não demora a repetir (para o cego Tirésias, para o cunhado Creonte, para os mensageiros) algumas variações das frases que caracterizam a figura do orgulhoso ditador no arquétipo de Leão. “Cortem-lhe a cabeça”, “expulse o forasteiro”, “destruam-se as provas”: o que importa aqui é menos o ato em si do que o que ele revela a respeito do governante. Ele revela basicamente que o governante está com medo. E um governante leonino pode ser uma beleza de exemplo e inspiração para os que o seguem; mas um governante leonino amedrontado (dá para ver isso inclusive em seus traços, em suas expressões) está a caminho de tornar-se um déspota.

Leão é também um dos signos que tem maior dificuldade em reconhecer a própria sombra. Talvez por isso Édipo só venha a compreender que é ele o assassino violento, o filho incestuoso e a raiz dos males de Tebas diante de um terrível impacto trágico. Toda tirania está sujeita a uma força ou outra que em última instância será o seu fim – nem que essa força seja outro regime despótico, que se coloque em seu lugar. A história da humanidade às vezes parece mesmo ser uma sucessão de tiranias que se distinguem só pelo tipo: há as capricornianas, as escorpiônicas, as virginianas, as leoninas. Mas é perfeitamente possível, pelo menos teoricamente, que cada um desses arquétipos nos ofereça o quem tem de melhor, inclusive no plano político. Como disse, mesmo seus piores gestos só se tornam possíveis por causa das virtudes que têm o potencial de manifestar.

capricórnio, câncer

Gratidão pelos morros

[Alberto da Veiga Guignard, Paisagem Imaginante]

“Ele olha em direção aos aos morros, através da porta de vidro e do muro de pedra no fundo do pátio. Tem uma sensação de gratidão, e não sabe direito por quê, talvez seja gratidão pelos morros”. Essa passagem está no primeiro capítulo do Não Diga Noite, um romance do escritor israelense Amós Oz. Sempre achei que há algo de capricorniano nesse personagem, nesse romance, nesse deserto. Porém esse post não é sobre Capricórnio – quer dizer, é também, mas é mais sobre gratidão mesmo. Essa gratidão pelos morros.

É que ontem, quando fui dormir, às cinco e meia da manhã, senti um frio úmido que me fez lembrar a época em que era professor substituto na federal de Ouro Preto, uns nove anos atrás. Mas as semelhanças terminam aí. Naquele tempo eu tinha acabado de me separar, acumulava um monte de dívidas, estava exausto não só de trabalho mas também de ansiedade, e “morava” em um quartinho isolado de uma pequena pousada, que nem sempre tinha cobertores capazes de aguentar o inverno da cidade.

Eu gostava de dar aulas lá, amava os alunos (se alguém estiver lendo: love u), mas estava longe do meu filho, que ficou morando com a mãe no Rio de Janeiro. Essa parte não foi nem um pouco fácil pra ela também. Agora, em 2019, quando não durmo à noite, é felizmente porque estou perto demais do meu outro filho: perto o suficiente para escutar cada respiração, cada ranhetada, cada início de choro. Minhas dívidas estão pagas, vivo em um apartamento bastante confortável. O filho mais velho chega daqui a pouco para ver o irmão. Mesmo dormindo pouco, só sinto frio no instante antes de me aquecer bem sob as cobertas. Apesar de todo o resto que anda acontecendo no Brasil e no mundo, tenho que reconhecer que para mim as coisas andam bem.

Isso me fez lembrar dois poemas do Raymond Carver, um autor estadunidense, que traduzi um tempo atrás. Vou deixá -los aqui no final desse post. Outro dia escrevi sobre a dinâmica do conforto e da privação no eixo Câncer-Capricórnio, a maneira como esses dois arquétipos lidam com as dificuldades e o sofrimento (a justa revolta canceriana contra a dor, a estoica aceitação capricorniana das privações da vida), e só agora percebi como o assunto está presente nesses poemas.

Em um deles, se sucedem alguns sonhos e imagens de uma noite intranquila e mal-dormida. Carver se vê dentro de um avião taxiando pela pista durante uma viagem à Argentina com a mulher. Logo surge a lembrança de uma época anterior, em que morava precariamente em um motel de beira de estrada em Palo Alto. Ele menciona uma manhã em que, sentado na cama do motel, “barbeado”, finalmente conseguiu decidir ligar para um amigo para pedir 75 dólares emprestados (o amigo não tinha o dinheiro).

O poema prossegue com mais uma passagem sobre o avião no lusco-fusco em Buenos Aires; termina com uma menção ao momento presente, na manhã depois do sono atravessado por essas imagens. Ele está na sala se casa, com a mulher. Ambos olham pela janela, está nevando lá fora. Ele diz a ela que não conseguiu dormir bem, ela diz que ela também não. “Nós estamos extraordinariamente calmos e cuidadosos / um com o outro, como se percebêssemos / o frágil estado de nervos de cada um. / Como se um soubesse o que o outro está sentindo. Nós / não sabemos, é claro. Nós nunca sabemos. Mas não importa. / É sobre o cuidado que estou falando. / Essa é a dádiva que hoje de manhã / me fez levantar da cama e começar o dia. / Como em todas as outras manhãs”.

O segundo poema é mais breve. Fala de uma situação em que ele e a mulher estão procurando um par de pantufas pela casa, e da alegria que sentem ao encontrá-lo. O contraste, no caso, é com a situação de um casal que conhecem e que está prestes a se separar. Os versos repetem a situação de “Iniciantes”, também conhecido como “Do que falamos quando falamos de amor”, o conto mais famoso de Carver. Em “Distância”, outro relato desse mesmo livro, ele trata de um jovem casal que passa a noite acordado por causa de um bebê, da maneira como brigam e se reconciliam abraçando-se e dançando na cozinha na manhã seguinte, e de como o pai conta essa história para filha muitos anos depois, quando ele e a mãe dela já estão separados.

Ou seja: essas cenas cancerianas de felicidade doméstica, de conforto e de conciliação, de entendimento e calor humano, sempre surgem em contraste com o frio lá fora, com as circunstâncias mais difíceis de outras pessoas, com as circunstâncias mais difíceis de outros tempos, com as circunstâncias diferentes do longo prazo, do futuro. É o eixo Câncer-Capricórnio, do aconchego e da privação, dos ciclos lunares e saturninos, em pleno funcionamento.

E é esse contraste que nos faz perceber a importância e o valor de coisas pequenas mas inestimáveis, e de outras nem tão pequenas assim. Entende-se que elas também são transitórias, que os tempos mais fáceis também vão passar para uns, enquanto retornam para outros. Casamentos se desfazem aqui e ressurgem ali, o dinheiro desaparece e volta a entrar. Carver tem uma noção clara desses ciclos, talvez por ter vivido todos esses contrastes em sua vida pessoal.

A poesia do final da sua vida é basicamente sobre a gratidão, no período tranquilo em que ele conseguiu sobreviver a uma série de problemas de saúde decorrentes do alcoolismo. Alguns poemas são quase piegas, pra falar a verdade. Capricórnio odeia piegas; para mim a própria palavra “piegas” é de uma pieguice sem tamanho. Mas às vezes eu gostaria de ser piegas que nem o Raymond Carver.

E agora, num momento em que vejo tantos amigos passando momentos difíceis, exaustos de trabalho e de ansiedade, com medo do futuro, queria conseguir ser pelo menos um pouco piegas, para dizer a eles que esses ciclos são verdadeiros e que os bons tempos ainda virão, que as coisas vão melhorar, que a gente vai ser feliz se novo. Eu acredito nisso. Capricórnio odeia ser piegas, mas a gente gosta de ser realista, e isso de que a vida tem essas oscilações é pra mim a realidade.

Lembro que, na pousadinha lá em Ouro Preto, às vezes eu não conseguia dormir, e não tinha o que fazer a não ser sair do quarto um pouquinho. Lá fora dava pra ver algumas montanhas de Minas. Acho que não disse isso antes, mas, além de capricorniano, sou mineiro. Tenho uma amiga que disse que isso nem devia ser permitido, mas agora que já nasci tá valendo. Então, mesmo com todos os problemas, era bom ver aquelas montanhas, estar perto delas, sentir que elas estavam ali, imóveis, perenes, silenciosas.

Mas, aqui em casa, quem é especialista nesse sentimento de pertencimento à terra natal é minha mulher, que é mineira e canceriana (permitiram isso também). De minha parte, acabei deixando as montanhas pra trás, sem muito remorso nem sentimentalismo. Se agora lembro daqueles morros, e sinto gratidão por eles, é porque sem eles – e sem aquele momento da minha vida – eu dificilmente saberia como esse momento de agora é bom, porque eles me fizeram entender alguns ciclos, porque tudo que me acontece hoje de certa forma já estava lá.

Sem o frio que senti naquela época, eu não saberia como está quentinho aqui agora. Uma coisa nem existe sem a outra. Então, o Gustavo que levantava no meio da noite naquele quartinho de pousada para olhar as montanhas está olhando para esse que está aqui agora. Nós nos reconhecemos, tristes, capricornianos, mineiros. Mas, por um momento, ainda assim, estamos sorrindo.


CUIDADO

Raymond Carver (trad. Gustavo Naves)

Uma chuva fina começou a cair durante a noite. Gotas

minúsculas escorrendo pela janela, a chuva

cobrindo o horizonte. Observei por um tempo, deitado

na cama. Feliz por estar aqui, e em nenhum outro lugar.

Tinha esfriado. Ajustei o aquecedor, cobri seu ombro.

E voltei para a cama, fechando os olhos em seguida.

Mas por alguma razão, antes de voltar a dormir,

me lembrei de uma cena no aeroporto de Buenos Aires

na noite em que deixamos a cidade.

Como o lugar estava deserto e parado!

Totalmente quieto, exceto pelo som de nossas turbinas

enquanto o avião colocava-se em movimento

taxiando para a pista de decolagem sob a chuva fina.

As janelas do edifício do aeroporto estavam escuras.

Ninguém por perto, nem mesmo uma equipe de solo.

“É como se o lugar inteiro estivesse de luto”, você disse.

Abri os olhos. Por sua respiração

Percebi que você dormia profundamente. Da Argentina

minha memória me levou para um lugar

em que morei por um tempo em Palo Alto. Não chovia nunca

em Palo Alto. Mas eu tinha um quarto

com duas janelas de frente para a estrada de Bayshore.

Uma geladeira ficava ao lado da cama.

Quando eu ficava desidratado no meio da noite

tudo o que eu tinha que fazer para matar a sede

era esticar o braço e abrir a porta. A luz lá dentro

mostrava o caminho para uma garrafa de água gelada.

Havia uma panela e um ebulidor no banheiro.

Enquanto eu me barbeava, a água fervia

ao lado de um pote de café.

Uma manhã eu estava sentado na cama, vestido, barbeado,

tomando café, adiando o que tinha decidido fazer. Finalmente,

disquei o número de Jim Houston em Santa Cruz.

E pedi 75 dólares emprestados. Ele disse que não tinha.

A mulher dele tinha ido para o México naquela semana.

Ele simplesmente não tinha o dinheiro. Andava apertado

naquele mês. “Tudo bem”, eu disse. “Eu entendo”.

E eu entendia. Nós conversamos um pouco mais,

e então desligamos. Ele não tinha o dinheiro. Terminei

o café mais ou menos enquanto o avião decolava.

Me virei no assento para uma última olhada

nas luzes de Buenos Aires. Então fechei os olhos

para a longa viagem de volta.

Esta manhã uma neblina cobriu tudo. Nós falamos sobre isso.

Você me diz que não dormiu bem. Eu digo

que também não. Você teve uma noite terrível. “Eu também”.

Nós estamos extraordinariamente calmos e cuidadosos

um com o outro, como se percebêssemos

o lamentável estado de espírito de cada um.

Como se um soubesse o que o outro está sentindo. Nós

não sabemos, é claro. Nós nunca sabemos. Mas não importa.

É sobre o cuidado que estou falando.

Essa é a dádiva que hoje de manhã

me fez levantar da cama e começar o dia.

Como em todas outras as manhãs.


PANTUFAS

Raymond Carver (trad. Gustavo Naves)

Quatro de nós conversando naquela tarde.

Caroline contando seu sonho. Como uma noite

ela acordou latindo. E com seu cachorrinho, Teddy,

assistindo tudo ao lado da cama. O homem

que era o marido dela na época também estava lá

enquanto ela contava o sonho.  Ouvia atentamente.

Até sorriu.  Mas havia algo em seus olhos. Um jeito de olhar,

e um semblante. Todos nós já passamos por isso…

Na época ele já estava apaixonado por uma mulher

chamada Jane, embora este não seja um juízo

sobre ele, ou Jane, ou qualquer outra pessoa.

Todos passaram a contar um sonho.

Eu não tinha nenhum para contar.

Olhei para seus pés, recolhidos sobre o sofá,

de pantufas.  Tudo que pude pensar em dizer,

mas não disse, foi em como aquelas pantufas

ainda estavam quentes

na noite em que as peguei

onde você as tinha deixado.

Mas uma colcha caiu e deixou-as cobertas

durante a noite. Na manhã seguinte,

você as procurou por todos os lados.

Até que sorriu e disse, “Achei!”

É uma coisa simples, eu sei, e entre nós.  Ainda assim

é uma coisa importante. Aquelas pantufas perdidas. E

aquele sorriso alegre.

Tudo bem que aconteceu

um ano ou mais atrás. Poderia ter sido ontem,

ou anteontem. Qual a diferença?

alegria, e um sorriso.