aquário, câncer, leão, sagitário

Eu e meu irmão

Foto: Ramon Lisboa | EM | D.A. PRESS

Estava aqui pensando em estratégias para lidar com o isolamento, em como há práticas simples que podem ser valiosas nessas horas. Coisas que rendem assunto, tomam o tempo e abrem insólitas janelas em espaços confinados. Aí me lembrei de uma época em que eu e meu irmão costumávamos contar um para o outro pelo telefone de manhã os roteiros dos filmes que víamos de madrugada. Bom, a gente ainda não era irmão nessa época. Quer dizer, nós éramos, já havíamos decidido ser irmãos gêmeos inclusive, mas por outro lado éramos menos irmãos do que a gente ia ser. Complicou né? Essa história é meio tortuosa mesmo, e ao mesmo tempo é simples. Não vai dar para seguir adiante sem contá-la. Vamos deixar o confinamento e suas aflições de lado por enquanto. A partir daqui esse fica sendo um texto sobre meu irmão e eu.

O começo é fácil de entender. No papel, nós somos primos. Meu pai e a mãe dele são irmãos. Meu pai se casou com minha mãe mais ou menos na mesma época que a mãe e o pai dele se casaram, e logo em seguida ambos casais tiveram filhos, de modo que nós dois nascemos com alguns meses de diferença (ele é o mais velho). Creio que ambos os casais se separaram mais ou menos na mesma época também – ficaram juntos uns poucos anos – de modo que nós permanecemos filhos únicos durante um tempo. Os outros primos de nossas famílias tinham irmãos. Nós não. Esse foi um dos motivos pelos quais decidimos ser irmãos um do outro. E, para ganhar dos outros primos em termos de irmandade, já que gente saiu perdendo, decidimos ser mais do que isso, decidimos ser irmãos gêmeos.

Os outros motivos dessa definição – talvez os mais importantes – foram: um, a convivência, graças à proximidade física (fomos vizinhos durante um tempo, os casais do parágrafo anterior compraram apartamentos um de frente pro outro), e, dois: o imponderável, porque não dá para medir ou explicar a afinidade que sentimos desde o começo. Na minha lembrança aliás a gente nunca não-foi-irmão; preciso fazer um esforço para recordar os detalhes de antes de a gente ser. Mas, como eu disse, a gente ia ficar mais irmão ainda depois. É aqui que o enredo se complica.

Aconteceu que, cerca de uma década após as separações de nossos pais, a minha mãe e o pai dele se casaram. Não se confundam, nem se preocupem, não há nada de incestuosamente trágico nessa história; lembrem-se que os irmãos eram o meu pai e a mãe dele. A minha mãe e o pai dele então foram concunhados durante um tempo, perderam o contato (pelo menos é o que consta nos autos) durante muitos anos, reencontraram-se e se apaixonaram um pelo outro depois. Resultado: nós continuamos primos para todos os efeitos legais, mas passamos a morar juntos, com nossos pais que eram casados entre si. Já não éramos irmãos apenas por opção. Havia uma boa dose de destino também.

Esse casamento é uma história à parte, com amizades rompidas, novas suspeitas e antigas ilações. Foi um baque na tradicional família mineira (embora não comportar esse tipo de arranjo seja o menor dos problemas da tradicional família mineira, que em suas boas versões até os comporta; enquanto nas outras as perversões são tão mais sutis, que elas se tornam imunes a esse tipo de golpe). Porém, de nossa parte, minha e do meu irmão, não havia preocupação com o escândalo nem gosto em fomentá-lo. Nós estávamos ocupados demais curtindo adoidados a vida adolescente em uma Belo Horizonte que cujas ruas conquistávamos junto com um bando de amigos adolescentes também, e que tínhamos conhecido não na família, nem no colégio, nem no clube, mas na rua mesmo. E nós estávamos curtindo adoidados a vida de irmãos.

É verdade que nesse meio tempo eu e ele havíamos já ganhado irmãos de outros casamentos de nossos pais (a propósito, acho meio-irmão um termo horroroso). Até peguei para mim, de forma ainda mais ilícita e sorrateira, os irmãos que ele ganhou no segundo casamento do pai dele (essa é também toda uma outra história, que merece ser contada à parte, assim como a dos irmãos que ganhei dos outras casamentos do meu pai, mas aí a trama se enreda de maneira mais estranha e meticulosa, remetendo a segredos familiares muito bem guardados – acreditem, estou contando a parte descomplicada). Vamos então voltar àquilo que já consegui esclarecer: estamos eu, ele, minha mãe e o pai dele vivendo juntos como uma família feliz e serena e saudável. Ou melhor, talvez não tão serena, nem não tão saudável assim.

Acontece que nessa época a gente bebia muito, fumava muito, e topávamos experimentar quaisquer produtos orgânicos ou químicos que apareciam na nossa frente com a promessa de alterar nossos estados de consciência. Muitas vezes nós quatro juntos, em família. As compras de supermercado incluíam garrafas de conhaque e pacotes de cigarro que constavam no orçamento doméstico, em uma categoria prioritária, junto com o arroz e o feijão. O outro componente importante de nossa convivência era a música. Chico Buarque, Legião Urbana, The Doors, Velvet Underground, Tom Waits e Joni Mitchell viviam uma daquelas bandejas em que cabiam um seis CDs, e que ficava rodando lá em casa o dia inteiro.

Talvez, por razões óbvias, eu não me lembre de alguns detalhes dessa época. Sei que minhas notas na escola caíram muito e que terminei o ensino médio no sufoco. Meu irmão se enrolou ainda mais nesse aspecto. Mas tampouco isso era motivo de preocupação. A adolescência é uma etapa leonina e autocentrada da vida, que, dadas as condições certas, pode ser dedicada ao prazer como nenhuma outra que vem antes ou depois. Aliás, ela põe em cena os temas do eixo de opostos complementares Leão e Aquário – a sensação de ser especial e o desejo de integrar um grupo – de tal modo a criar conflitos intrincadíssimos. Mas pode também encontrar uma espécie de solução provisória para a conciliação desse eixo, e acredito que foi isso que nós vivemos.

Sim, foi isso: porque nós estávamos brincando. E a brincadeira, pela maneira como nos envolve em um entusiasmo inconsequente, é justamente o tipo de experiência capaz de articular essa negociação entre o atípico e o ordinário. Havia brincadeiras perigosas, é claro. Mas normalmente não deixavam de ser brincadeiras, sobretudo aquelas tardes conversando e compondo as canções da banda que nunca existiu, aquelas reuniões ao mesmo tempo sérias e hilárias de planejamento dos zines que nunca rodaram, aquela nossa capacidade de passar uma noite inteira dançando e pulando e gritando em um galpão mal ajambrado de Santa Tereza, para depois ver a manhã nascer com deslumbrado encanto, ou com indisfarçável exaustão, enquanto fazíamos a pé o caminho de volta pra casa, ou comíamos pasteis em uma lanchonete do centro da cidade.

Até mesmo o lugar que viria a ser um de nosso preferidos na cidade, uma boate chamada A Obra, era uma espécie de canteiro de obras de mentirinha, ainda que fosse um inferninho de verdade. Ainda é, por sinal, e a gente espera que ela sobreviva a esse perrengue do vírus. Outros lugares importantes eram o canteiro central da avenida Getúlio Vargas na Savassi, o edifício Maletta no centro, a Bródei em Santa Tereza: éramos capazes de percorrer esses lugares numa só noite como quem salta as casas de um jogo de tabuleiros, depois de tirar uma carta como “tome três flamejantes de uma vez na Casa da Vovó”, ou, “salte três casas para chegar logo ao Prado porque tem um amigo lá que está salvando”, ou, “você chegou no fim da linha, vá tomar a saideira no Mercadão”.

É aqui que eu queria chegar. Porque foi aqui que, mais do nunca, eu e o Érico nos tornamos irmãos: brincando juntos na cidade à noite. Rindo muito. Viajando um tanto. Cantando às vezes. É verdade que a gente já havia brincado muito antes na infância, mas acho que não com a mesma intensidade e a dedicação exigidas por uma adolescência movimentada e festeira. Pelo menos de minha parte, posso dizer que foi ali que ganhei para o resto da vida uma força e uma confiança que de modo algum possuía antes. Acho que vi isso acontecendo com outros amigos também. Tem gente que se ferra muito quando é criança, por conta das estruturas familiares ou da falta delas, mas que com sorte encontra depois nos amigos “da rua” uma fonte genuína de segurança e fraternidade, mesmo que depois essa configuração se disperse. Freud que não nos ouça, mas acho que mesmo quem sai dos primeiros anos de vida como o ego estraçalhado pode acabar tendo uma segunda chance. E, se me permitirem critérios um pouco mais relaxados, eu diria que ganhei não um, mas muitos irmãos nessa época.

Por outro lado, tive sorte incrível de que meu irmão mais próximo na rua era também meu irmão em casa, e que na adolescência minhas circunstâncias familiares eram também uma bem-vinda bagunça, parecida com a da rua, de tal modo que a vida em casa se confundia com a vida fora dela. Era tudo uma festa só. Naturalmente, quem tiver um pouco de familiaridade com roteiros de filmes de bandas de rock como The Commitments ou Quase Famosos (que mencionei outro dia nesse post aqui), ou ainda do tipo de Boogie Nights, já percebeu que, uma vez alcançado o ápice desses prazeres irresponsáveis, as coisas tendem a ir ladeira abaixo. Foi o que aconteceu.

O casamento da minha mãe e do pai do meu irmão durou poucos anos. Uns dois ou três. Parece que foi mais. Deu tempo de fazer muita besteira. Vou poupar vocês dos pormenores do final, e quem sabe como termina esse tipo de filme pode imaginar. Eu e meu irmão, porém, fugimos ao princípio entrópico por uns tempos, e conseguimos prolongar um pouco nosso clímax, embora com um pouco mais de bagagem sobre os revertérios da vida. Não nos separamos; fomos morar juntos num apartamento no centro, onde nos tornamos mais e mais irmãos, por força de uma convivência em que, aos porres homéricos e delírios idílicos, foi acrescentada a solidariedade nos períodos de grana curta, a atenção nos momentos de ansiedade extrema, o cuidado nos momentos de saúde instável. Aí já não dependíamos de ter pais casados para reforçar nosso vínculo. Não dependíamos nem de ter pais irmãos para nos sentirmos familiares. A essa altura acho que a gente nem lembrava mais que um dia havíamos sido primos.

Isso durou mais ou menos até eu vir para o Rio, quando me casei pela primeira vez. Mas ainda cheguei a voltar para lá, para o mesmo apartamento, depois da separação, uns sete anos depois, na sequência do meu retorno de Saturno; ele recebeu o tinha sobrado de mim para revivermos um pouco a adolescência perdida. Pouco depois foi ele que se casou. Hoje ele mora com a mulher e um filhinho lindo – meu afilhado – que não precisa ficar sabendo de nada desses maus exemplos do pai que estou registrando aqui (fica combinado assim: essa postagem se autodestruirá em cinco minutos).

Agora, rumando já para uma conclusão, por que é que eu resolvi contar essa história para vocês mesmo? Bom, em primeiro lugar teve o pretexto de explicar o motivo pelo qual meu irmão não era ainda totalmente meu irmão, ainda que já fosse meu irmão gêmeo, quando a gente costumava contar um para o outro os filmes que a gente via de madrugada. Isso começou quando tínhamos uns dez anos, eu morava na casa da minha mãe e ele na dele, e passamos a ficar acordados até mais tarde nas férias para assistir o Corujão. Era falando disso que eu ia começar o texto dessa semana.

O outro motivo pelo qual acabei pegando esse desvio está implicado aí. Eu gosto de contar histórias. Podem ser histórias da minha vida, roteiros de filmes que assisti, causos inventados ou acontecidos. Já tive problemas com isso quando me mudei para o Rio, e demorei a perceber que “contar histórias” não é uma prática incorporada à sociabilidade daqui como é lá em Minas Gerais. Lá em Minas, você pode muito bem estar em uma conversa animada em um bar que, se você de repente disser, “nó até lembrei de uma história aqui”, as pessoas vão parar e te escutar, o tempo que for. A história nem precisa ter um final grandioso. Você pode fazer as digressões que quiser. Basta manter os copos de cerveja cheios e ter uma tarde relativamente vazia.

Aqui no Rio, por outro lado, se você for reter a atenção das pessoas em uma mesa de bar por mais de dois minutos, elas vão entender que tudo aquilo só pode ser uma preparação para o desvelamento do significado último do universo. Ninguém fala tanto tempo de uma vez só se não tiver algo de inédito e assombroso para revelar. Em suma, demorei um tempo para perceber que eu vivia decepcionando as pessoas, até mesmo quando contava histórias interessantíssimas do meu ponto de vista como essa minha e do meu irmão. Hoje sei que, quando eu falava“nó até lembrei de uma história aqui”, as pessoas ao redor se entreolhavam

com um misto de enfado e desespero que dizia: “Putz. Lá vem. No mínimo meia hora”.

Costumo dizer que me tornei professor em parte por isso: se eu me lembrar de uma história durante uma aula e resolver contá-la, meus alunos vão ter que ouvir, alguns vão até fingir que estão interessados. Em termos de público, não preciso de mais do que isso. Talvez, pensando agora, eu tenha criado esse blog no mesmo espírito, com vantagem adicional que aqui eu nem preciso ensinar os conteúdos do semestre, e se quiser posso enxertar as narrativas que quiser em um texto sobre Gêmeos ou Netuno, assim como posso enxertar uma coisa ou outra sobre Escorpião ou Mercúrio num texto que não tenha nada a ver com isso.

Esse texto, aliás, ia ser sobre Câncer e Sagitário, ia ser sobre O Beijo da Mulher-Aranha do Manuel Puig, ia ser sobre o confinamento e a arte de contar histórias no confinamento (o romance do Puig se passa quase todo dentro de uma cela, mas um personagem está sempre contando enredos de filmes para o outro, de tal modo que o horizonte se abre de forma infinitamente vasta para quem está lendo). Acabou não sendo um texto sobre signo nenhum em particular, acabou sendo um texto sobre meu irmão. Para quem está se perguntando: ele é pisciano. Mas tampouco estou falando da relação especial que acredito existir entre Peixes e Capricórnio, e que nossos signos solares bem representam. Isso também vai ficar para outra hora.

Acho, enfim, que a verdadeira motivação do dessa semana é um tanto quanto óbvia, e ao mesmo tempo ficou encoberta por tudo que veio antes. Vou pedir a vocês mais cinco minutinhos para desenvolver esse ponto (aprendi esse tipo de polidez aqui no Rio; se fosse lá em Minas, eu dizia que o texto termina logo ali). O fato é que, como provavelmente é o caso com muita gente, a quarentena me pegou num momento em que estou perto de algumas das pessoas que mais amo, mas longe de outras. Já está bom demais que seja assim, de todo modo a situação proporciona sentimentos contraditórios. Por um lado, sou grato pelas circunstâncias da minha vida atual, pois já passei por períodos na vida em que ser surpreendido por uma pandemia significaria estar sozinho por longos meses sem ninguém para me ouvir ao vivo contar histórias. Nas atuais circunstâncias, portanto, sou feliz por estar casado com uma mineira que não só escuta minhas histórias, como conta as dela também.

Nossa relação é aliás em parte construída sobre isso: as histórias da infância dela no Canadá, as histórias da minha adolescência em Belo Horizonte. Entre tantas outras. Mesmo ficando só nesses recortes, é incrível como não param de brotar histórias. Mas agora, mais do nunca, isso tem acontecido, e acho que não só aqui em casa, pois o confinamento parece favorecer as dinâmicas da memória, abrindo janelas dentro de janelas em direção ao passado, uma vez que as voltadas para o futuro estão tão bloqueadas e sujas. Mas é interessante como as boas lembranças de épocas felizes têm o poder de renovar o ânimo para as que virão, e o fato de que algo foi um dia possível parece indicar que pode ser possível novamente. Não estamos precisando de muito mais do que isso para plantar umas sementinhas de otimismo, e é por aí que ia ser o argumento sobre Sagitário e Câncer.

No entanto, acabei escrevendo um texto sobre meu irmão, e aproveitei para contar uma história só pelo prazer de contá-la mesmo. Mas também porque a vida inteira tive a imensa sorte de ter uma resposta fácil para uma pergunta difícil e hoje tão imediata, que até outra dia não fazíamos a nós mesmos, por falta de motivos para que sequer a pensássemos, e que agora parece ser tão definidora na vida de cada um. Enfim, não me lembro de um instante sequer na vida em que eu não responderia rápido a questão sobre como quem gostaria de passar uma quarentena. Lógico que hoje outras pessoas estariam na lista, e que, havendo a possibilidade, eu ia querer é levar um mundão de gente para uma sitiozinho no interior de Minas, onde a gente pudesse passar o tempo contando causos um para os outros, à salvo da pestilência, em uma espécie de Decameron roceiro e capiau com cachaça, tropeiro, risos, fogueiras e serenatas.

Mas, mesmo nas épocas em que estive mais sozinho, mesmo nas épocas em que estive mais arredio ao contato humano, mesmo na época em que deliberadamente afastei as pessoas de mim ou elas se afastaram mesmo sem querer, eu não pensaria duas vezes em responder à pergunta hipotética que um hipotético interrogador me faria, sobre a remota possibilidade de um dia termos que nos manter isolados por causa de um vírus, e com quem escolheríamos passar esse tempo se nos fosse dada a oportunidade: “Meu irmão. Quer dizer, ele é meu primo. É uma longa história. Quer que eu conte? Não? Juro que é rapidinho. Ah, tudo bem. Correria né. Entendo. Mas anota aí. Se eu pudesse escolher, nesse negócio de quarentena eu ia querer estar com meu irmão.”

câncer, escorpião, peixes

Um trem aqui no meu coração

Tsunami | Katsushika Hokusai

Uma coisa que não comentei quando fiz a enquete do grande vilão do zodíaco foi o resultado por equipes. O lapso é imperdoável, mas está em tempo de corrigir. Vamos lá então: somados, os signos de Água ficaram com 52 votos, os de Ar, 44, Fogo, 23, e Terra, 15. É um resultado até surpreendente se você pensar que o temido Capricórnio está entre esses últimos, que o próprio Satanás não contribuiu para uma melhor posição do time liderado por Áries, que nem Libra conseguiu aliviar a barra de Gêmeos e Aquário, e sobretudo que entre os grandes e incontestáveis líderes estão os chuchuzinhos cancerianos e os piscianos distraídos.

Mas o resultado faz sentido se a gente considerar que a gente tem sempre medo do que não conhece. E os signos de água são exatamente aqueles que preservam sempre algo de oculto – inclusive de si mesmos – de tal forma que o mistério é inerente a esses arquétipos. Peixes é um caso extremo de vai-saber-o-que-tem-ali-dentro; mas Escorpião é também um arquétipo onde se aloja uma série de ameaças subterrâneas, e mesmo Câncer é capaz de transformar um ambiente “familiar” – como o da própria família – em algo perpassado por estranhos segredos. Além disso, quando dizemos que uma pessoa é “de lua” – a regente canceriana –, de certo modo estamos afirmando que essa pessoa é volúvel e pouco confiável.

É claro que esse resultado diz muito pouco sobre os signos de água propriamente, mas talvez diga algo sobre nós mesmos. Ele diz que o que a gente mais teme no mundo são as nossas emoções, sobretudo quando entendemos que elas estiveram ocultas ou reprimidas até o momento em que resolveram aparecer com toda força. A linguagem que usamos nesses casos com frequência é indicação disso: nós nos sentimos “tomados” por nossas emoções, como se fossem bandidos armados que nos fizeram reféns; “inundados” por sentimentos, como se não tivéssemos conseguido represá-los; e “traídos” por nossos próprios afetos, como não diríamos que somos pelos nossos pensamentos, por exemplo.

É interessante então lembrar que, para a humanidade primitiva, pensamentos não eram algo que um indivíduo “tinha” – eram simplesmente algo que ocorria a ele, um pouco como entendemos as emoções hoje. Pelo menos é assim que Jung descreve o fenômeno do pensar nos primórdios da humanidade, parecido com a perspectiva adotada por uma pessoa em estado de meditação, que vê os pensamentos lhe ocorreram e se dissiparem, como se tivessem vindo do nada e voltassem para lugar nenhum. Mas talvez para os primitivos isso de pensar tenha sido uma experiência realmente atemorizante, tipo, “gente-que-que-isso-apareceu-um-trem-aqui-na-minha-cabeça”. Ih, pensei.

Hoje, porém, estamos mais na linha do “gente-que-que-isso-apareceu-um-trem-aqui-no-meu-coração”. Ih, senti. Nesse caso não estamos falando do coração leonino, centro pulsante de onde jorra o entusiasmo vital, mas de um órgão mais abstrato, que confundimos de maneira geral com aquilo que chamamos de alma. É verdade que no caso de Escorpião acontece também de a gente de repente sentir um trem em outras partes do corpo. Mas isso é só uma das tantas maneiras como podemos perder o controle da situação, de tal modo que os signos de Água estão todos associados a alguma forma de desatino.  

Seja como for, seja como acontecer, o que a gente percebe é que esse descontrole tem sempre um papel nos desdobramentos não só da nossa vida psíquica, mas também dos fatos da existência. Trânsitos de Plutão e Netuno, por exemplo – os regentes de Escorpião e Peixes – são famosos pelas intensas transformações e desenganos que trazem, mas são também geralmente seguidos por atitudes até outro dia impensáveis, e que só se tornaram pensáveis nas novas condições.  Algo semelhante pode acontecer com uma Lua Cheia carregada de desafios e possibilidades, por conta de seus aspectos com outros planetas ou com o mapa natal de um indivíduo.

Ou seja: muita coisa que consideramos ser nossas ‘decisões’ só nos ocorrem em meio às crises causadas por esses dúbios sentimentos ocultos que súbito assomam e tomam conta do cenário. Dizer que essas decisões foram tomadas a partir de uma central de controle operações e gerenciamento de crises que existe dentro da gente, enquanto as crises e o descontrole são fenômenos que atribuímos a algo que não somos nós, é o que me parece problemático nesse caso. Tudo acontece fora e dentro ao mesmo tempo; é tudo uma coisa só.

Há, por exemplo, quadros depressivos em que o que a gente sente na alma é só um vazio mesmo. Mas mesmo esse vazio é um lugar escuro e oculto onde uma nova luz pode vir a brilhar.  O normal aí é entendermos que ‘reagimos’ a uma depressão, como se ela nos tivesse tomado de assalto, e nós no final das contas tenhamos conseguido reassumir o ânimo necessário para enfrentá-la. Acontece que esse ânimo – que pode muito bem ser um fogo sagitariano, a propósito – está totalmente vinculado ao escuro e ao vazio de onde surgiu.  

Além disso, essas ‘decisões’ que tomamos para sair de uma situação emocionalmente complicada, ou a vitalidade que pode ressurgir após um longo processo de luto, talvez sejam igualmente algo que nos ocorre, algo que nos ‘toma’, algo que nos ‘assalta’. Os antigos sabiam disso: nós somos possuídos pelo entusiasmo da mesma forma como somos afogados em lembranças. Acho essa percepção importante, para que a gente não fique achando que precisa encontrar uma solução para uma crise, forçar um reerguimento inábil, quando na verdade ela virá na hora que deve.

Trata-se de confiar na capacidade do corpo de voltar a funcionar a pleno vapor, mas quando o combustível para isso estiver disponível. Às vezes, o que está tendo para o momento é um convite ao descanso mesmo (e ao cuidado, ao resguardo, à intimidade). Novamente, portanto: que a gente precise atribuir esse convite ou exigência a forças externas e ocultas, torná-las objeto de desconfiança e suspeita, e inclusive conferir-lhes os atributos da vilania, é algo que talvez diga mais sobre nossa sociedade do que sobre os signos de água mesmo.

Acho até que muita coisa do que a gente entende hoje como doença faz parte de processos naturais de regeneração da alma. O problema é que a gente separa a enfermidade da cura como se fossem duas coisas distintas, enquanto não têm como deixar de ser uma coisa só. Queremos nos associar àquilo que apresentamos de saudável e animado e produtivo ao mundo, e tratar como um inconveniente alheio à nossa vontade a parte da vida que saímos de cena para cuidar de um trauma, ou lamber as feridas.

Outro dia escrevi, meio que à brinca, meio que à sério, na postagem sobre os hipocondríacos do zodíaco, que Escorpião convive bem com estados febris que duram longos períodos, e que Peixes sabe inclusive curtir uma febrinha como ninguém. É sobre isso que estou falando. Ou seja: são capazes de deixar-se tomar por sensações inusuais, improdutivas de um determinado ponto de vista, mas indispensáveis para o processo de cura de outro. Deixam-se inundar até mesmo por delírios, sonhos e outras alucinações que podem muito bem revelar-se os melhores guias para sair de um labirinto ou de um pântano.

Enfim: talvez, se a gente exercitar um pouco mais esse aprendizado, ao invés de tratar os arquétipos de água como vilões, vamos enfim vê-los como aliados. Ou melhor, vamos vê-los como uma parte de nós mesmos que não se deixa controlar por nossa vontade, para nossa salvação, pois é assim que eles lavam a nossa alma de um monte de tralhas que vão se acumulando em seus recantos. Por isso, se as águas da alma lhe parecem misteriosas e ocultas, incontroláveis e delirantes, volúveis e imprevisíveis, trate-as com a mesma deferência com que gostaria de ser tratado. Pois é a si mesmo que você estará tratando, exatamente, e,  quando vier a próxima enchente de sentimentos, saiba que você não será inundado: você será a inundação.

aquário, câncer

Inventar de novo o amor


Eu estava ouvindo esses dias a versão que meu amigo André Gardel gravou em seu último álbum para “Me and Bobby McGee”, canção que ficou famosa na voz de Janis Joplin. O Gardel é um desses librianos cariocas e descolados que a gente que é capiau do mato lá de Minas gosta de chamar de “meu amigo” em público – porque, né, dá uma incrementada na imagem. Ele costumava escrever crônicas literárias sobre futebol em que havia um personagem recorrente identificado como “o atleticano melancólico”, inspirado em minha humilíssima pessoa. Ele poderia me chamar também de “capricorniano melancólico”, ou de “capricorniano mineiro melancólico”, ou de “capricorniano mineiro atleticano melancólico”, dá mais ou menos no mesmo. Mas eu gostava do título, então nada mais justo que retribua a gentileza. 

A gravação da faixa é elegante, alto-astral, cheia de gingado (libriana, carioca, descolada). Tem a participação de uma vocalista, Samantha Jones, que também nos oferece um bem dosado tom de malemolência. Mas, talvez por isso mesmo, fiquei pensando em como a situação descrita na letra é dolorosa, e em como ela tem a ver com o par Câncer/Aquário no zodíaco. É difícil encontrar um motivo para falar desses dois num mesmo texto: Câncer diz respeito ao passado, ao apego, ao aconchego, às sensações de proximidade e pertencimento, e Aquário projeta-se para o futuro, é desapegado, livre, distante. A princípio as duas coisas andam separadas, ou pelo menos em descompasso. Mas quando a gente encontra uma canção que diz, “eu daria meu futuro / por um dia no passado [and I’d give all my tomorrows / for a single yesterday]”, a gente sabe que se deparou com as dimensões canceriana e aquariana da vida nos mesmos versos.

O fato de estarem juntos não quer dizer que estejam em sintonia. Há uma dissonância na ideia de que possamos ser apegados à liberdade. Faltou dizer que liberdade é o tema da faixa, que narra uma viagem musical de dois amantes para arremeter com o famoso refrão: “Freedom is just another word for nothing left to lose…”, a liberdade é só outra palavra para não ter nada a perder, e por aí vai. O detalhe é que canção inteira é também sobre perda, o sentimento da perda, e portanto sobre o apego àquilo que foi perdido. Todos os eventos que ela menciona estão situados em um passado distante, e não há fórmula invocatória capaz de trazê-los para o presente, a não ser sob a forma de ausências em geral e de uma pungente saudade em particular. Nenhuma barganha, e nem todos os amanhãs do mundo, vão trazer aquele momento com o Bobby de volta.

Mas é interessante como essa balada pungente e carente fez sucesso na forma de um blues roqueiro, no timbre singular de Janis Joplin. O ascendente de Janis era em Aquário, e isso deve ter alguma coisa a ver com o fato de que vamos sempre lembrar da imagem de hippie diferentona que a consagrou, com aquele jeitão meio destrambelhado de quem está na estrada sem lar e sem banho faz tempo (deve ter alguma coisa a ver também com o fato de ter se tornado um dos mais sintéticos ícones de Woodstock – segundo o cartaz, “an aquarian exposition”). Mas a Lua de Janis era em Câncer. Então, também não deve ser por acaso que sentimos lá no fundo de sua voz um blues inconsolável, de quem foi arrancado do lugar a que pertencia para ter que se virar no grande mundo.

Aliás, conheço uma outra gravação da faixa em que um de seus compositores, Kris Kristofferson, a anuncia em um show assim: “Essa é uma canção country, e é assim que ela deve ser tocada, como uma canção country”. Segue-se uma execução convencional, bonita e previsível, mais próxima do que aguardamos de uma balada sertaneja. Não conheço o histórico da polêmica ou desavença que isso parece indicar, mas esse modo meio autoritário ditar as regras para a execução de uma obra tem não apenas um sabor virginiano como também um elemento de Câncer, em seu apego à tradição de um gênero musical. Sei lá, talvez Kristofferson fosse canceriano – e a música sertaneja decididamente é, não apenas pelos temas da vida na terra natal e no campo (nesse sentido é igualmente taurina), como também pelos chororôs e pelos Xororós que a povoam, pelos chamegos que reclama, pelas dores que lamenta.

Em resumo, se me permitem a esquematização: o rock é aquariano, o country é de Câncer. Mas o rock poucas vezes se desprendeu de suas raízes no blues (os Rolling Stones, essas pedras desapegadas porém às vezes tão lamentosas, estão aí para nos mostrar isso), assim como o country e o sertanejo encontraram o futuro não somente através da guitarra elétrica, como também na frequente liberdade em relação a convenções musicais desgastadas, na experimentação com outros gêneros, no contraste entre seus fundamentos e a inserção de algum elemento totalmente particular – como a voz de Janis Joplin.

De modo que Aquário e Câncer podem sim conviver, e serão sempre mutuamente enriquecidos pela experiência de sua intersecção. Aquário, quando consegue introduzir o afeto no seu comportamento, torna-se irresistível; Câncer, quando se arrisca na inovação, é capaz de inventar de novo o amor.  Claro que não é fácil, claro que há conflito nessa relação, mas nem sempre como a gente imagina. Conheço mães que, se não são de Câncer, são do tipo canceriano, e se desesperam com a liberdade que beira a indiferença de seus filhos aquarianos. Mas conheço também mães do tipo aquariano, que estão longe de estimular o apego em seus filhos, e querem mais é que eles criem asas, ou então deixem o cabelo crescer, montem uma banda de rock e saiam mutcholokos por aí.

Há, por último, a questão dos vínculos humanos a que ambos dizem respeito. Câncer rege a família, e Aquário as relações em rede, os grupos impessoais, em última análise nosso vínculo com a Humanidade. Aqui mais uma vez dá pra ver como as relações Câncer/Aquário podem sobrepor-se e variar. O indivíduo pode tanto entender que a Humanidade é sua família, quanto sentir-se diferente e deslocado onde deveria ter um senso de pertencimento. Interessante notar também que a Era de Aquário foi saudada pela geração hippie como um momento de libertação em que os indivíduos humanos iriam reencontrar uma conexão entre si, independente dos vínculos familiares e sociais. Muitos previram que a essa altura estaríamos interconectados pela telepatia. Em certo sentido acertaram, porque em linhas gerais estavam prevendo a internet.

Foi um revertério inesperado que a internet tenha afinal servido para reforçar preconceitos e bairrismos, através – por exemplo – do grupo da família no Whatsapp. Mas Câncer não é o único arquétipo responsável pelo mau uso da rede: Gêmeos contribui com a mentira, Leão com a vaidade, Escorpião com a deep web, e o próprio arquétipo aquariano não é tão neutro quanto gostaria de parecer. Do mesmo modo, sabemos hoje como a transmissão de carinho e cuidado através de frios sinais digitais é totalmente possível. Mais uma vez, Câncer e Aquário se mostram capazes de trabalhar bem juntos, porque representam não exatamente o passado e futuro, mas duas formas de presença em que se conciliam o afeto e a liberdade.

Enfim, não será preciso reinventar o amor, porque há bastante amor circulando por aí em todos os meios e mensagens – basta sintonizar nossas antenas para recebê-lo e compartilhá-lo. A gente espera que também não seja necessário redescobrir a liberdade, mas felizmente teremos sempre Janis para nos lembrar de que um dia ela foi possível e valeu a pena. “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”, o Gardel deu um jeito genial de colocar lá em sua versão, citando livremente Pessoa. Talvez o Kristofferson não gostasse muito desse tipo de folga. Paciência. “Me and Bobby McGee” foi inventada de novo, para que a gente sinta com frescor e alegria a falta que o Bobby faz.

câncer, escorpião, peixes

Camadas de memória

[Foto: Elliot Erwitt]

“Os mortos” é um conto do escritor irlandês James Joyce em que se narra um tradicional jantar de Noite de Reis na Dublin do início do século XX. O protagonista é Gabriel Conroy, sobrinho das anfitriãs, queridinho das tias, homem de família, responsável pelo bom andamento dos ritos cerimoniais (como destrinchar o frango e controlar a língua do tio bêbado). Tudo se passa como teria se passado nos anos anteriores, exceto por uma ou outra indicação de que algo não anda bem. No final da história, Conroy vai descobrir como aquele senso de continuidade é uma espécie de ilusão, ao escutar o relato de sua mulher sobre um jovem que teria literalmente morrido de amores por ela no passado distante. Logo fica claro que, após a lembrança súbita da morte do rapaz, ela estivera pensando nele a noite inteira.

A maneira como a morte, o sofrimento e a paixão irrompem no encerramento do texto é notável. Não que elas não estivessem lá o tempo todo, ocultas, insinuadas no destrinchar do frango e nas conversas elegantes, porém reprimidas pelas rotinas civilizatórias de que falou Sigmund Freud. O mesmo Freud, aliás, que teria dito que os irlandeses são o único povo impermeável à psicanálise. Isso pode ser lido como um atestado de sua simplicidade, mas também como uma referência a seu compulsivo apego à terra pátria e suas tradições. Nesse sentido, a ruptura que se estabelece na experiência do protagonista de Joyce é significativa. Atordoado com a percepção de recantos traumáticos da memória em suas camadas sobrepostas, de repente ele se torna um irlandês complexo e, por assim dizer, psicanalisável.

É sobre essas camadas, de um modo mais geral, que eu gostaria de falar. Os arquétipos de água – Câncer, Escorpião, Peixes – são aqueles em que está o passado, aqueles em que estão nossos mortos. No caso de Câncer, o interessante é que os mortos ainda estão vivos. Eles são o papai, a mamãe, o vovô, a vovó, ou seja, as pessoas através das quais – se tudo ocorrer dentro do esperado – nós entraremos em contato com a finitude. Exatamente por ser uma experiência de continuidade e pertencimento, Câncer aloja a percepção mais imediata da ruptura. É a perda do que temos de mais familiar. A memória canceriana é a lembrança de coisas que estiveram aqui há pouco tempo, a lembrança de lugares em que vivemos até outro dia, e de pessoas com quem convivemos o suficiente para tornar sua presença um hábito doce e confortável.

Já o jogo de desenterrar do passado coisas estranhas das quais já não havia resquício de lembrança foi inventado por Escorpião (e, em certo sentido, por Sigmund Freud). É uma brincadeira perigosa, mas potencialmente terapêutica e restauradora, pois o que foi reprimido emerge destruindo o que já não tem condições de existir. Os mortos e esquecidos ganham vida para mostrar que o que parece vivo na verdade já está morto. A crise plutônica é um abalo sísmico, que deixa um lastro de destruição de tudo o que considerávamos mais inabalável; por outro lado, o terremoto faz surgir ruínas arqueológicas em que nos reconhecemos. Não importa que sejam sejam indícios de épocas violentas. O passado em Escorpião é justamente aquilo que foi soterrado para dar lugar a uma versão mais sensata e civilizada de nós mesmos.

Agora, se em Câncer os mortos são familiares que se afastam, se em Escorpião os mortos são estranhos que se reaproximam, em Peixes estão TODOS os mortos. A memória pisciana é a presença indistinta de ancestrais longínquos e das pessoas próximas; em última instância, do mesmo modo como perde a noção de realidade e de sonho, ela não consegue distinguir uns dos outros. Porém essa imersão no oceano da ancestralidade cria a possibilidade de percepção daquilo que preexiste a cada indivíduo, e que se revela em cada história individual, ou seja: um inconsciente coletivo traduzido na forma de arquétipos. A diferença da abordagem psicológica junguiana em relação à de Freud reside sobretudo no delineamento dessas histórias, e da maneira como as representamos. Não por acaso, Jung dedicou todo um livro ao “arquétipo do si-mesmo”, que seria um arquétipo em separado e ao mesmo tempo uma reunião de todos os arquétipos, correspondendo em todos os aspectos a símbolos piscianos.

Há portanto a experiência de uma vinculação imediata ao passado, que se traduz na percepção da perda; uma relação fraturada com o passado, que se revela na crise, na lembrança do trauma, na chance da restauração; e uma imersão oceânica no passado, em que está a imprecisa memória de todas as coisas próximas e distantes. No conto de Joyce, as três se sucedem, de tal modo que no final da história Gabriel Conroy vai até a janela: “Sua alma desmaiava lentamente, enquanto ele ouvia a neve cair suave através do universo, cair brandamente, como se lhes descesse a hora final, sobre todos os vivos e todos os mortos”. Uma solução pisciana para um texto que começa em Câncer (o jantar em família), prossegue em Escorpião (o retorno do reprimido), e termina reunindo-os todos sob a mesma neve. Há nesse desfecho uma promessa de descanso que pode muito bem ser uma ilusão. Seja como for, ele termina juntinho com o zodíaco: buscando a paz em uma saída de cena, e na conclusão de todas as histórias que existiram, existem, e estão por existir.

câncer, escorpião, libra, touro

Quatro casamentos e um funeral

[Marc Chagall | As luzes do casamento (1945)]

No dia em que eu defender minha tese no Instituto Hogwarts de Altos Estudos Astrológicos, ela provavelmente vai se chamar Da Natureza do Escorpião: um estudo comparativo do mais capetudo arquétipo do zodíaco. A seguir, algumas anotações também sobre Touro, Câncer e Libra, para o capítulo 7, “A questão do casamento”.

TOURO: A questão do casamento surge em Touro. Mas não é ainda um problema cultural intrincado, talvez nem seja exatamente uma “questão”. A união é assunto de subsistência, tem um vínculo imediato com ritmos naturais de reprodução, e envolve um tipo de sensualidade imediatamente vinculada às necessidades e preferências do corpo. Sexo taurino é sexo simples e gostoso. Taurino é o casamento camponês de Levin e Kitty com que Tolstoi encerra o Anna Karenina. Mas simplicidade não significa escassez. O banquete da casamento como celebração da fertilidade do solo e da abundância dos frutos da terra é um fenômeno que acontece no arquétipo de Touro.

CÂNCER: Em Câncer, o casamento ganha uma dimensão social. Envolve não apenas os noivos como também a família, a aldeia, a comunidade. Marc Chagall era canceriano. Suas pinturas de casamentos têm uma ambientação com elementos piscianos, um clima de sonho, mas não deixam de nunca de evocar as tradições da aldeia eslava ou balcânica. Em Câncer, o casamento acontece não apenas na aldeia, mas é algo que acontece à aldeia como um todo. Nesse sentido, casamentos não são apenas uniões e constituição de novas famílias, mas também separações nos lares de que se despedem os noivos. E esse é um dos motivos pelos quais casamentos são felizes e tristes ao mesmo tempo; seu aspecto sentimental é arquetipicamente canceriano.

LIBRA: Em Libra o casamento é o triunfo da inteligência e da diplomacia humanas na resolução de conflitos. Aquilo que Northrop Frye chamou de “predominância do princípio de sociabilidade” ao tratar das comédias de Shakespeare, que geralmente terminam em casamentos. Assim como os casamentos de Chagall compõe-se de Peixes + Câncer, Sonho de uma noite de verão, a comédia shakespereana mais onírica, é Libra + Peixes. Tão destituída de elementos terrenos que praticamente se desprende do solo, porém ainda dependente de algum grau de estratégia para chegar a um final feliz. Qualquer comédia romântica tem um forte componente libriano, é claro. Ao mesmo tempo, em Libra o casamento é um contrato, que prevê equidade e equilíbrio.

ESCORPIÃO: Em Escorpião o casamento não é uma necessidade, não é uma celebração, não é um contrato: é uma morte. Confunde-se com a união sexual, a “pequena morte” do orgasmo, que o simboliza e sacramenta. Mas não é o sexo reprodutivo ou mesmo o sexo gostoso de Touro: trata-se de uma fusão transformadora radical que se dá por trás dos panos, por meio da liberação de energias represadas por um longo tempo. O bom senso taurino, a comunalidade canceriana e a justiça libriana não dão as caras. O que acontece aqui pode muito bem ser bizarro, isolado e desigual.

Em Libra, a propósito, a união presume certa distância, capaz de resguardar o casamento dos riscos da indistinção entre o eu e o outro. Em Escorpião assume-se esse risco. O casamento libriano requer qualidades que atribuímos à amizade, como a admiração mútua e o respeito; o casamento escorpiônico pode prescindir delas. Um amigo uma vez me disse que “o casamento é a relação mais promíscua que existe”. Dá para entender bem essa frase se pensarmos no casamento em Escorpião, não exatamente por causa do sexo, mas por causa do tipo de fusão (e confusão) emocional da intimidade monogâmica, da permissividade afetiva gerada pelo convívio cotidiano. O fim de todos os limites do respeito e da moralidade podem ser experimentados através do casamento. Naturalmente, o ideal é que não seja assim, ou que os limites da moralidade sejam rompidos entre quatro paredes de formas mais renovadoras e catárticas.

Mas o fato é que atitudes e sentimentos normalmente considerados indesejáveis encontram seu lugar no mundo no arquétipo de Escorpião. Acho que fiquei com vontade de fazer essas anotações depois que outro dia li o seguinte nas reflexões diárias um astrólogo que admiro: “Não se permita o exercício da maldade, a não ser que seja por vingança”. Tive que ler duas vezes antes de pensar: ah, é claro, a lua está em Escorpião. Em Escorpião vingança pode, tem justificativa cósmica e licença poética. Por causa da história da fusão e da confusão. Ódio também é ok, às vezes. Mau humor nem se fala: o mau humor é totalmente permitido quando as coisas estão em Escorpião.

O fascinante nesse signo é como o certo se torna errado e o errado, certo. Quanto a parcerias e casamentos, cada um é de um jeito e todos têm um pouco de todos os tipos. Comida, sexo, comunhão e equilíbrio são sempre importantes. Mas existe sempre algo estranho que foge à nossa visão ordinária de como as coisas são ou devem ser. Esse algo é fundamental.

capricórnio, câncer

Gratidão pelos morros

[Alberto da Veiga Guignard, Paisagem Imaginante]

“Ele olha em direção aos aos morros, através da porta de vidro e do muro de pedra no fundo do pátio. Tem uma sensação de gratidão, e não sabe direito por quê, talvez seja gratidão pelos morros”. Essa passagem está no primeiro capítulo do Não Diga Noite, um romance do escritor israelense Amós Oz. Sempre achei que há algo de capricorniano nesse personagem, nesse romance, nesse deserto. Porém esse post não é sobre Capricórnio – quer dizer, é também, mas é mais sobre gratidão mesmo. Essa gratidão pelos morros.

É que ontem, quando fui dormir, às cinco e meia da manhã, senti um frio úmido que me fez lembrar a época em que era professor substituto na federal de Ouro Preto, uns nove anos atrás. Mas as semelhanças terminam aí. Naquele tempo eu tinha acabado de me separar, acumulava um monte de dívidas, estava exausto não só de trabalho mas também de ansiedade, e “morava” em um quartinho isolado de uma pequena pousada, que nem sempre tinha cobertores capazes de aguentar o inverno da cidade.

Eu gostava de dar aulas lá, amava os alunos (se alguém estiver lendo: love u), mas estava longe do meu filho, que ficou morando com a mãe no Rio de Janeiro. Essa parte não foi nem um pouco fácil pra ela também. Agora, em 2019, quando não durmo à noite, é felizmente porque estou perto demais do meu outro filho: perto o suficiente para escutar cada respiração, cada ranhetada, cada início de choro. Minhas dívidas estão pagas, vivo em um apartamento bastante confortável. O filho mais velho chega daqui a pouco para ver o irmão. Mesmo dormindo pouco, só sinto frio no instante antes de me aquecer bem sob as cobertas. Apesar de todo o resto que anda acontecendo no Brasil e no mundo, tenho que reconhecer que para mim as coisas andam bem.

Isso me fez lembrar dois poemas do Raymond Carver, um autor estadunidense, que traduzi um tempo atrás. Vou deixá -los aqui no final desse post. Outro dia escrevi sobre a dinâmica do conforto e da privação no eixo Câncer-Capricórnio, a maneira como esses dois arquétipos lidam com as dificuldades e o sofrimento (a justa revolta canceriana contra a dor, a estoica aceitação capricorniana das privações da vida), e só agora percebi como o assunto está presente nesses poemas.

Em um deles, se sucedem alguns sonhos e imagens de uma noite intranquila e mal-dormida. Carver se vê dentro de um avião taxiando pela pista durante uma viagem à Argentina com a mulher. Logo surge a lembrança de uma época anterior, em que morava precariamente em um motel de beira de estrada em Palo Alto. Ele menciona uma manhã em que, sentado na cama do motel, “barbeado”, finalmente conseguiu decidir ligar para um amigo para pedir 75 dólares emprestados (o amigo não tinha o dinheiro).

O poema prossegue com mais uma passagem sobre o avião no lusco-fusco em Buenos Aires; termina com uma menção ao momento presente, na manhã depois do sono atravessado por essas imagens. Ele está na sala se casa, com a mulher. Ambos olham pela janela, está nevando lá fora. Ele diz a ela que não conseguiu dormir bem, ela diz que ela também não. “Nós estamos extraordinariamente calmos e cuidadosos / um com o outro, como se percebêssemos / o frágil estado de nervos de cada um. / Como se um soubesse o que o outro está sentindo. Nós / não sabemos, é claro. Nós nunca sabemos. Mas não importa. / É sobre o cuidado que estou falando. / Essa é a dádiva que hoje de manhã / me fez levantar da cama e começar o dia. / Como em todas as outras manhãs”.

O segundo poema é mais breve. Fala de uma situação em que ele e a mulher estão procurando um par de pantufas pela casa, e da alegria que sentem ao encontrá-lo. O contraste, no caso, é com a situação de um casal que conhecem e que está prestes a se separar. Os versos repetem a situação de “Iniciantes”, também conhecido como “Do que falamos quando falamos de amor”, o conto mais famoso de Carver. Em “Distância”, outro relato desse mesmo livro, ele trata de um jovem casal que passa a noite acordado por causa de um bebê, da maneira como brigam e se reconciliam abraçando-se e dançando na cozinha na manhã seguinte, e de como o pai conta essa história para filha muitos anos depois, quando ele e a mãe dela já estão separados.

Ou seja: essas cenas cancerianas de felicidade doméstica, de conforto e de conciliação, de entendimento e calor humano, sempre surgem em contraste com o frio lá fora, com as circunstâncias mais difíceis de outras pessoas, com as circunstâncias mais difíceis de outros tempos, com as circunstâncias diferentes do longo prazo, do futuro. É o eixo Câncer-Capricórnio, do aconchego e da privação, dos ciclos lunares e saturninos, em pleno funcionamento.

E é esse contraste que nos faz perceber a importância e o valor de coisas pequenas mas inestimáveis, e de outras nem tão pequenas assim. Entende-se que elas também são transitórias, que os tempos mais fáceis também vão passar para uns, enquanto retornam para outros. Casamentos se desfazem aqui e ressurgem ali, o dinheiro desaparece e volta a entrar. Carver tem uma noção clara desses ciclos, talvez por ter vivido todos esses contrastes em sua vida pessoal.

A poesia do final da sua vida é basicamente sobre a gratidão, no período tranquilo em que ele conseguiu sobreviver a uma série de problemas de saúde decorrentes do alcoolismo. Alguns poemas são quase piegas, pra falar a verdade. Capricórnio odeia piegas; para mim a própria palavra “piegas” é de uma pieguice sem tamanho. Mas às vezes eu gostaria de ser piegas que nem o Raymond Carver.

E agora, num momento em que vejo tantos amigos passando momentos difíceis, exaustos de trabalho e de ansiedade, com medo do futuro, queria conseguir ser pelo menos um pouco piegas, para dizer a eles que esses ciclos são verdadeiros e que os bons tempos ainda virão, que as coisas vão melhorar, que a gente vai ser feliz se novo. Eu acredito nisso. Capricórnio odeia ser piegas, mas a gente gosta de ser realista, e isso de que a vida tem essas oscilações é pra mim a realidade.

Lembro que, na pousadinha lá em Ouro Preto, às vezes eu não conseguia dormir, e não tinha o que fazer a não ser sair do quarto um pouquinho. Lá fora dava pra ver algumas montanhas de Minas. Acho que não disse isso antes, mas, além de capricorniano, sou mineiro. Tenho uma amiga que disse que isso nem devia ser permitido, mas agora que já nasci tá valendo. Então, mesmo com todos os problemas, era bom ver aquelas montanhas, estar perto delas, sentir que elas estavam ali, imóveis, perenes, silenciosas.

Mas, aqui em casa, quem é especialista nesse sentimento de pertencimento à terra natal é minha mulher, que é mineira e canceriana (permitiram isso também). De minha parte, acabei deixando as montanhas pra trás, sem muito remorso nem sentimentalismo. Se agora lembro daqueles morros, e sinto gratidão por eles, é porque sem eles – e sem aquele momento da minha vida – eu dificilmente saberia como esse momento de agora é bom, porque eles me fizeram entender alguns ciclos, porque tudo que me acontece hoje de certa forma já estava lá.

Sem o frio que senti naquela época, eu não saberia como está quentinho aqui agora. Uma coisa nem existe sem a outra. Então, o Gustavo que levantava no meio da noite naquele quartinho de pousada para olhar as montanhas está olhando para esse que está aqui agora. Nós nos reconhecemos, tristes, capricornianos, mineiros. Mas, por um momento, ainda assim, estamos sorrindo.


CUIDADO

Raymond Carver (trad. Gustavo Naves)

Uma chuva fina começou a cair durante a noite. Gotas

minúsculas escorrendo pela janela, a chuva

cobrindo o horizonte. Observei por um tempo, deitado

na cama. Feliz por estar aqui, e em nenhum outro lugar.

Tinha esfriado. Ajustei o aquecedor, cobri seu ombro.

E voltei para a cama, fechando os olhos em seguida.

Mas por alguma razão, antes de voltar a dormir,

me lembrei de uma cena no aeroporto de Buenos Aires

na noite em que deixamos a cidade.

Como o lugar estava deserto e parado!

Totalmente quieto, exceto pelo som de nossas turbinas

enquanto o avião colocava-se em movimento

taxiando para a pista de decolagem sob a chuva fina.

As janelas do edifício do aeroporto estavam escuras.

Ninguém por perto, nem mesmo uma equipe de solo.

“É como se o lugar inteiro estivesse de luto”, você disse.

Abri os olhos. Por sua respiração

Percebi que você dormia profundamente. Da Argentina

minha memória me levou para um lugar

em que morei por um tempo em Palo Alto. Não chovia nunca

em Palo Alto. Mas eu tinha um quarto

com duas janelas de frente para a estrada de Bayshore.

Uma geladeira ficava ao lado da cama.

Quando eu ficava desidratado no meio da noite

tudo o que eu tinha que fazer para matar a sede

era esticar o braço e abrir a porta. A luz lá dentro

mostrava o caminho para uma garrafa de água gelada.

Havia uma panela e um ebulidor no banheiro.

Enquanto eu me barbeava, a água fervia

ao lado de um pote de café.

Uma manhã eu estava sentado na cama, vestido, barbeado,

tomando café, adiando o que tinha decidido fazer. Finalmente,

disquei o número de Jim Houston em Santa Cruz.

E pedi 75 dólares emprestados. Ele disse que não tinha.

A mulher dele tinha ido para o México naquela semana.

Ele simplesmente não tinha o dinheiro. Andava apertado

naquele mês. “Tudo bem”, eu disse. “Eu entendo”.

E eu entendia. Nós conversamos um pouco mais,

e então desligamos. Ele não tinha o dinheiro. Terminei

o café mais ou menos enquanto o avião decolava.

Me virei no assento para uma última olhada

nas luzes de Buenos Aires. Então fechei os olhos

para a longa viagem de volta.

Esta manhã uma neblina cobriu tudo. Nós falamos sobre isso.

Você me diz que não dormiu bem. Eu digo

que também não. Você teve uma noite terrível. “Eu também”.

Nós estamos extraordinariamente calmos e cuidadosos

um com o outro, como se percebêssemos

o lamentável estado de espírito de cada um.

Como se um soubesse o que o outro está sentindo. Nós

não sabemos, é claro. Nós nunca sabemos. Mas não importa.

É sobre o cuidado que estou falando.

Essa é a dádiva que hoje de manhã

me fez levantar da cama e começar o dia.

Como em todas outras as manhãs.


PANTUFAS

Raymond Carver (trad. Gustavo Naves)

Quatro de nós conversando naquela tarde.

Caroline contando seu sonho. Como uma noite

ela acordou latindo. E com seu cachorrinho, Teddy,

assistindo tudo ao lado da cama. O homem

que era o marido dela na época também estava lá

enquanto ela contava o sonho.  Ouvia atentamente.

Até sorriu.  Mas havia algo em seus olhos. Um jeito de olhar,

e um semblante. Todos nós já passamos por isso…

Na época ele já estava apaixonado por uma mulher

chamada Jane, embora este não seja um juízo

sobre ele, ou Jane, ou qualquer outra pessoa.

Todos passaram a contar um sonho.

Eu não tinha nenhum para contar.

Olhei para seus pés, recolhidos sobre o sofá,

de pantufas.  Tudo que pude pensar em dizer,

mas não disse, foi em como aquelas pantufas

ainda estavam quentes

na noite em que as peguei

onde você as tinha deixado.

Mas uma colcha caiu e deixou-as cobertas

durante a noite. Na manhã seguinte,

você as procurou por todos os lados.

Até que sorriu e disse, “Achei!”

É uma coisa simples, eu sei, e entre nós.  Ainda assim

é uma coisa importante. Aquelas pantufas perdidas. E

aquele sorriso alegre.

Tudo bem que aconteceu

um ano ou mais atrás. Poderia ter sido ontem,

ou anteontem. Qual a diferença?

alegria, e um sorriso.

capricórnio, câncer

Saudade e melancolia

[Édouard Manet – Un bar aux Folies-Bergère]

Câncer e Capricórnio. Quando me sugeriram um texto sobre esses dois pensei que a maior dificuldade seria o recorte. Trata-se de um eixo de opostos complementares onde acontece a conexão de algumas dualidades importantes: a memória e a história, a família e o estado, a pátria e a nação, a vida comunitária e a ordem social, o afeto e a responsabilidade. Mas não tinha me tocado ainda de que o maior problema seria de ordem pessoal. Sou capricorniano, casado com uma canceriana, e falar sobre a interação desses dois arquétipos será sempre falar sobre meu casamento, ou pelo menos a partir dele.

Agora talvez mais do que nunca. Porque com o nascimento do Gabriel nós nos tornamos uma mãe canceriana e um pai capricorniano (tradicionalmente, o elemento materno e o paterno estão no eixo Câncer-Capricórnio). E embora a gente não corresponda à imagem estereotípica dessa combinação – cá está o “pai capricorniano” falando de assuntos domésticos num blog sobre astrologia, enquanto a mãe aproveita a soneca do bebê para revisar um artigo sobre questões militares para ser publicado na Cambridge University Press ou algo parecido –, nós, de fato, vestimos a carapuça do arquétipo em alguns aspectos. Ou em muitos, na verdade. O difícil, de novo, é escolher.

Mas anteontem passamos por um desses momentos importantes e decisivos de um casal cuidando de um recém-nascido: as primeiras cólicas. E, naquele momento, acho que fui totalmente capricorniano, e ela, a verdadeira encarnação de Câncer. Não é que eu tenha sido ríspido ou impaciente, e ela excessivamente sentimental; as coisas são mais interessantes e sutis do que isso. A questão é que, enquanto ela se desdobrava em pesquisas e consultas para tentar resolver o problema, eu adotava a postura de quem já viu isso antes, e não vê outra solução que não seja deixar passar.

De fato, já vi isso antes, porque já tive outro filho. Mas faz tempo, e é bem possível que tenha mantido a mesma postura impassível na primeira vez. Aliás, poucas coisas irritam mais o não-capricornianos do que essa nossa tendência manter um certo ar de que está “tudo sob controle” durante a catástrofe, mesmo quando não tem nada sob controle. No caso, não havia; vocês sabem do que estou falando; aquele momento em que a criaturinha mal chegada da maternidade mostra que é capaz de despertar a vizinhança inteira se quiser. E o pai capricorniano lá, plácido e impassível, achando até bonita aquela expressão das forças elementares da natureza no processo de evolução orgânica de um corpo saudável.

Não sei quem é mais maluco, se eu ou ela que achou que ia resolver o assunto com uma massagenzinha milagrosa que descobriu em um canal do youtube (malucos somos todes, é claro). O ponto aqui não é quem tem razão, mas a base de cada uma desses sentimentos e atitudes. Pois creio que, no caso de Câncer, ela está em sua capacidade de considerar a dor algo extraordinário e inaceitável, motivo de revolta inclusive, uma vez que seu vínculo com uma sensação uterina de bem-estar no mundo é imediato, sua lembrança do conforto é recente, e, portanto, o rompimento com esse estado só pode ser visto com assombro (e com a urgência de revertê-lo). Enquanto em Capricórnio o conforto e o bem-estar são apenas reminiscências distantes, incluindo aí o calor humano da família e do lar.

A cabra vive em um território áspero e seco, longe do convívio com os outros bichos. Fatalista, aprendeu a tolerar alguns sofrimentos que considera inevitáveis. E além disso vê o mundo de cima, em uma perspectiva panorâmica que retira singularidade dos objetos e dos fenômenos, reunindo-os em um mesmo conjunto de coisas e acontecimentos. Sua melancolia decorre do sentimento de que não há nada de novo sobre a terra; de que tudo já foi vivido, experimentado, pensado; de que os ciclos se repetem com a força dos ritmos geológicos e planetários, e há pouco que se possa fazer para evitá-los, o jeito é aguentar.

Já do ponto de vista do caranguejo, tudo conta; cada mínimo episódio de sua existência é insubstituível; nada daquilo voltará a acontecer tal como aconteceu, quando aconteceu, onde aconteceu. A saudade canceriana é pungente porque carrega o sentimento de que algo único foi perdido, e pode ser dilacerante quando nela se dá a imprevista percepção do irremediável. Não há argumentos, por mais inteligentes que sejam, que façam Câncer alcançar o ponto de vista da cabra, primeiro porque a inteligência tem muitas faces, e segundo porque vão ser sempre argumentos, contra os quais ele apresentará os fatos de nossa humana condição.

Marcel Proust era canceriano. Em Busca do Tempo Perdido é um título canceriano até demais. Não surpreende que seja um portentoso empreendimento literário de recuperação das sensações mais efêmeras, dos momentos mais prosaicos, das situações mais singulares da vida do narrador – sempre ostentando seu fracasso em reverter a trágica perda de todas as coisas passadas, na medida em que prossegue nos sete volumes de seus sucessos poéticos. Franz Kafka também era canceriano, mas no seu caso, como sempre em Kafka, a questão é aquilo que não está lá: a felicidade doméstica, o pertencimento a um lugar, o conforto em família. Primeiro Amor e Outras Tristezas, de Harold Brodkey, é outro belíssimo livro sobre a perda, cujo título e cujos contos estão no âmbito do arquétipo de Câncer.

Os Anéis de Saturno, de W. G. Sebald, obviamente, é um romance capricorniano, assim como são todos esses caudalosos relatos que tratam da passagem do tempo e da transitoriedade das coisas, sem deixar de lembrança nenhuma passagem ou paisagem específica, mas uma melancólica sensação de entrega do indivíduo e seus anseios às forças do inevitável. Seria possível estender essa lista caudalosamente – mas acho que já deu para ter uma ideia.

O ponto mais importante, aqui, é como essas inclinações interagem. A saudade canceriana e seus sentimentos de perda podem envolver doses justificáveis de choro, mas os excessos de drama podem se beneficiar de certa resignação. Já a melancolia de Capricórnio explica em parte sua fama de insensível, mas, sempre que ele se distanciar para platitudes muito ermas, será válido dar uma sacudidela em suas emoções mais imediatas. Um beliscão no braço basta para ele perceber que a dor humana é real, e cada episódio de sofrimento merece nossas atenções e cuidados, por mais transitório que possa ser.

Enfim, a massagenzinha do youtube até que funcionava, ajudou um pouco, nem que fosse pela sensação de que nós estávamos “fazendo alguma coisa” (quem quiser passo o link). Agora, continuo achando que cólica de bebê às vezes não tem remédio mesmo, o jeito é manter a calma e esperar passar. Câncer e Capricórnio são bons exemplos de signos que funcionam bem quando a oração da serenidade é evocada: “Deus me dê coragem para mudar as coisas que posso mudar, paciência para aceitar as que não posso, e sabedoria para saber a diferença”. Coragem. Paciência. Sabedoria. Se a gente conseguir reunir um pouquinho de cada uma dessas virtudes, as cólicas vão passar quando tiverem que passar, vão ser remediadas quanto tiverem remédio, e o Gabriel estará bem.