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Sobre filhos e planetas

Rembrandt von Rijn

Entre idas e vindas, Saturno e Plutão estão em 2019 se ajustando para sua conjunção em janeiro de 2020, e por conta desse aspecto o ano astrológico corrente é considerado uma preparação para o próximo. Não faltam bons comentários na rede a respeito; com os planetas em questão, é natural que a apreensão e o medo apareçam em muitas dessas leituras. Mas a conjunção é um aspecto muitas vezes enganador nos pressentimentos e presságios que proporciona. É nesse ponto que eu gostaria de acrescentar uma palavrinha.

Uma conjunção estabelece uma fase nova na relação entre dois planetas. É o início de algo inédito, como a Lua Nova é um início em outra escala (a Lua Nova é uma conjunção da Lua e do Sol). A oposição, nessa lógica, é equivalente à Lua Cheia, quando a Lua e o Sol estão frente a frente no céu. Geralmente, no plano individual, não é difícil perceber como as luas cheias são pontos culminantes de processos já em curso, e como as luas novas se apresentam como o impulso para um começo que estava pouco claro antes de seu advento. No plano coletivo as coisas se complicam um pouco mais, mas não deixa de ser útil usar as fases lunares como referência.

Desse ponto de vista, estamos no período balsâmico da relação entre Saturno e Plutão: o momento mais escuro da madrugada antes do amanhecer, no ano que vem. É verdade que, em se tratando desses dois, é difícil imaginar um despertar tranquilo e luminoso, mas – isso é importante – talvez a mudança seja o suficiente para desmascarar os monstros que povoam essa etapa da noite, fazendo-os perder força à luz do dia. Quem sabe assim se dissipem os demônios subalternos que hoje nos aparecem como se fossem reais em nossos pesadelos, e como se fossem pesadelos em nossa realidade.

Até lá, a apreensão e o medo têm tudo para continuar por aí. A boa notícia é que têm tudo para estar errados, senão no diagnóstico de nossas circunstâncias atuais, ao menos no prognóstico de nossas circunstâncias futuras. E a gente sabe como essa questão do prognóstico é determinante na dinâmica da apreensão e do medo, como muitas vezes é ela que torna o presente insuportável. Mesmo quem tem a mais absoluta certeza de que é impossível prever o futuro costuma prever o futuro o tempo inteiro, elaborando cenários miseráveis, catastróficos, com frequência no mais completo prejuízo de sua própria saúde mental.

E, se tem uma coisa que aprendi com a astrologia, como já tinha aprendido com a história, é que é impossível a gente prever o futuro. Ou, ao menos, que é muito difícil, sobretudo em momentos como esse de agora, em que nada do futuro se apresenta a nós. Períodos de acentuada incerteza, de um ponto de vista astrológico, são períodos de incerteza acentuada também para os astrólogos, que compartilham o cosmos com seus ouvintes e leitores. Nós não temos como nos colocar de fora do que descrevemos.

Portanto, nós não temos nunca como estar totalmente certos de nossas projeções do futuro; mas nós podemos estar mais errados do que o normal. Isso é uma premissa importante tanto para lidar com tendências catastrofistas, quanto para evitarmos falsas esperanças, forjadas no âmago do desespero. Eu mesmo me peguei agora pensando se o que vejo de positivo nessa virada do ano que vem não teria a ver com o fato de que meu filho canceriano está para nascer agora. Isto é, se não estaria buscando uma justificativa para, como se diz por aí, colocar mais gente no mundo (digo “meu filho canceriano” porque já tenho um filho capricorniano, e se pudesse tinha um de cada; aliás, Gabriel, se você vier geminiano, papai vai te amar do mesmo jeito tá? Papai promete).

Mas então: será que não estou falando em um “amanhecer”, em um “despertar”, mesmo que com todas as ressalvas, porque há algo parecido para acontecer aqui em casa por agora? Será que não estou vendo uma possível luz no âmbito coletivo onde o que tenho é iminência de um “dar à luz” mais individual? Talvez. Mas aí resolvi olhar no que estava acontecendo quando o Tiago, meu outro filho, nasceu, dezessete anos e meio atrás. Era 2001; Saturno e Plutão estavam justamente realizando uma oposição entre si, que, como as conjunções, só acontecem de 40 em 40 anos; mas com aquele caráter de culminação, de clímax, e de ruptura, que dá um aspecto de “lua cheia” às oposições entre os planetas.

Era 2001, e agora me lembro como foi assistir o ataque suicida às torres gêmeas quando poucos meses depois ia assistir tão de perto a chegada de alguém no mundo. Lembro da consternação, da perplexidade, do susto. Lembro que por um instante nada do que estava vivendo naquele momento fez muito sentido, e que a imagem do futuro de repente se tornou para mim algo completamente apocalíptico e tenebroso.

Mas lembro também que poucos dias depois estava pensando em outra coisa. E depois em outra. E depois em outra. Talvez algumas dessas outras coisas tenham sido também previsões meio sombrias sobre meu futuro individual, profissional, afetivo. Outras certamente foram projeções entusiásticas de meu futuro individual, profissional, afetivo. Tal como as imaginava, nenhuma delas se realizou.

Se fosse astrólogo na época, provavelmente eu teria olhado para essa difícil oposição entre Saturno e Plutão como um fator importante do mundo em que meu filho ia viver. E era, mas nem de longe era definidora desse mundo, e muito menos do mundo dele, o mundo que nasceu junto com ele, o mundo que existe através dos olhos dele. Era um mundo também de milhares de outros aspectos, trânsitos e planetas, para ficar só na riqueza dos fatores astrológicos que conhecemos, e que podem nos fazer esquecer amanhã mesmo aquilo que hoje nos parece tão tenso e difícil.

Ainda bem que eu não era astrólogo na época, pois talvez ainda não tivesse maturidade suficiente para entender isso, talvez me perguntasse ao olhar para os trânsitos do momento: filho numa hora dessas? Ainda bem que eu não era astrólogo, era só um pouco irresponsável, abençoadamente irresponsável, considerando a companhia incrível que tive nesses últimos dezoito anos, e que continuo tendo, agora que Saturno e Plutão vão se encontrar e reiniciar seu ciclo, e que vou ter essa outra alegria em meio às incertezas de um presente também inquietante.

Em certo sentido – em um sentido astrológico – trata-se, agora, de um presente até mais inquietante, porém mais inquietante exatamente por não termos nenhuma ideia do que está acontecendo, quando do futuro só podemos afirmar que nada será do jeito que a gente imagina. O problema é que ainda assim a gente imagina, e com frequência imagina o pior, com base em um presente que pode ser tudo menos sólido e consistente.

A outra coisa importante que aprendi com a astrologia (reforçando mais uma vez o que tinha aprendido com a história) é que as coisas mudam, e que nossas ideias do futuro mudam junto com as coisas. A gente tem dias bons, dias ruins e dias médios, inclusive para prever o futuro. O bom dos dias ruins é que logo a gente está pensando em outra coisa. E depois em outra. E depois em outra.

Que o Gabi venha com todas as conjunções, oposições, trígonos, quadraturas, sesqui-quadraturas, inconjuntos e paralelos que ele tem direito. Uma coisa é garantida: não vai dar par saber a pessoa maravilhosa que ele vai ser através de seu mapa natal. Vai ser só vendo mesmo, disso eu tenho certeza.

PS: o Gabriel nasceu às 00h06m do dia 19 de junho de 2019, com a Lua em Capricórnio, o Sol em Gêmeos e o Ascendente em Áries (sobre o nascimento e o ascendente falei um pouco mais aqui). Estou escrevendo esse pós-escrito no dia em que ele completa seis meses. A primeira coisa que me chamou a atenção em seu mapa foi que os três componentes principais são um rearranjo dos mesmos signos que figuram no mapa do irmão, que daqui a três dias completará dezoito anos, e que tem a Lua em Áries (exatamente no mesmo ponto onde está ascendente do Gabriel), Sol em Capricórnio e Ascendente em Gêmeos. Segundo uma análise combinatória elementar, devo ter mais sete filhos para completar todas as combinações possíveis desses três signos. Mas acho que vou precisar de mais umas três vidas pra isso.

Ah, e sim: o Gabi acabou se apressando um pouquinho, nasceu antes do previsto, mas quando deu vontade nele, e correu tudo muito bem, como escrevi nas postagem sobre seu nascimento. Veio geminiano. E a essa altura eu já não amo ele “de mesmo jeito” por causa disso – amo muito, mas muito mais.

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Calisto, Io, Ganímedes, Europa

“As Luas de Júpiter” é um conto e um livro da escritora canadense Alice Munro. No conto, são descritas as visitas de uma mulher a seu pai doente em um hospital de Toronto. Boa parte da história se passa nos intervalos entre uma visita e outra, enquanto ela aguarda notícias, tomando café, comprando roupas, visitando museus. Uma passagem pelo planetário da cidade dá o mote para o título do conto; o pai da protagonista ainda consegue se lembrar do nome de quatro luas de Júpiter no último diálogo que tem com a filha antes de morrer.

Faz tempo que sou fascinado pela obra de Munro. Nunca entendi bem o motivo, ou nunca quis entender. Sou professor de um departamento de Letras, trabalho no ramo da autópsia de narrativas literárias, mas seus contos sempre me pareceram vivos demais, pulsantes demais, para que me sentisse autorizado a abri-los com os bisturis da teoria crítica. No entanto, a partir de determinado momento, passei a notar que havia uma semelhança entre o tipo de espanto que suas narrativas me causavam e uma outra forma de perplexidade, que sentia e sinto através da experiência da astrologia.

Pretendo ainda escrever com calma sobre isso. Assim como pretendo escrever mais sobre os astros e sobre os 12 arquétipos do zodíaco. A propósito dos arquétipos (ou seja, os 12 signos), sinto que no ambiente cultural empobrecido em que vivemos eles são mais do que nunca importantes, por seu potencial de se tornarem símbolos de experiências compartilhadas, nos quais reconhecemos a riqueza de nossa humanidade em seus múltiplos aspectos e manifestações. Isso, é claro, desde que os símbolos/signos não se empobreçam através de definições rasas, já que seu estudo permite a infinita proliferação de imagens e narrativas a partir de alguns temas centrais.

“Ambíguos, cheios de pressentimentos e, em última instância, inesgotáveis”. Assim C. G. Jung descreveu os arquétipos do inconsciente coletivo, e creio que a mesma coisa vale para os arquétipos astrológicos. É possível ficar falando e escrevendo sobre eles sem nunca se chegar a uma conclusão, e por isso criei essa página, em que ficarão expostos e arquivados os textos que tenho escrito sobre o assunto. Devo postar textos novos geralmente aos domingos, e aos poucos vou incluindo aqui durante a semana alguns dos que já escrevi e publiquei em redes sociais.

Geralmente uso como ponto de partida algum aspecto ou posição do céu da semana. Mas o resultado não costuma ser um horóscopo ou uma previsão, e sim uma notinha ou pequeno ensaio sobre os temas que surgem daí. Nada contra horóscopos e previsões, posso inclusive recomendar astrólogo/as brilhantes que publicam horóscopos na internet (as recomendações estão aqui). Talvez faça também uma ou outra resenha sobre livros de astrologia (acabei fazendo um punhado de indicações bibliográficas em um post só, aqui), além da eventual digressão sobre mitologias, cosmologias, poesia e teorias da narrativa.

Se me ocorrer presságio quanto ao futuro também aviso vocês. Pressentimentos e presságios, aliás, são um tema recorrente na obra de Alice Munro, podendo acontecer enquanto as pessoas tomam café, compram roupas, visitam museus, sempre como uma indicação de que há algo além do que a vista alcança nesses momentos aparentemente prosaicos da vida. E a astrologia é justamente uma reivindicação de que momentos prosaicos podem ser momentos luminosos, de que todo instante está em relação com a eternidade, de que cada traço de nosso comportamento é a manifestação de algum arquétipo ancestral, e cada átomo do nosso corpo guarda a lembrança de ter sido um dia matéria das estrelas.

Acho que os átomos das estrelas também pressentem que um dia serão parte de outros corpos. Talvez discutam a possível influência das pessoas em suas vidas. É tudo muito complicado, é tudo meio engraçado também. Mas, no meio dessa esplêndida confusão que é o cosmos, espero que este espaço ao menos sirva para que alguns átomos dispersos se encontrem e se reconheçam. Sejam bem-vindos.