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As lições de Hermes

[Loki, em um manuscrito islandês do Sec. XVIII]

Mercúrio retrógrado é que nem crase: não foi feito para humilhar ninguém, mas ajuda saber umas regrinhas básicas para quando a ocasião pedir. Esqueci uma dessas regras em um episódio da última temporada de MR, e vou fazer um breve registro aqui, que é para não fazer igual mais.

Uma amiga me ligou dizendo que estava passando dias difíceis. Entre outros motivos, havia o resultado de um exame que estava para sair. Nessas horas, sei que estou sendo consultado como astrólogo também, e não vejo problema em abrir o mapa da pessoa e ver se há algo de evidente em seus trânsitos que eu possa comentar sem uma consulta formal. Havia. Um aspecto de Netuno em trânsito com o Mercúrio do mapa natal indicava possibilidade de inquietação e ansiedade referente a diagnósticos, e que provavelmente ela estaria com uma visão distorcida da realidade nesse aspecto. Em resumo, ia ficar tudo bem.  

É o tipo de situação em que a tecnologia pode ser útil; em tese, bastaria um áudio no aplicativo de mensagens para que eu pudesse tranquilizá-la um pouco. Mas foi aí que eu errei. Pois, como se não bastasse aquele aspecto, Mercúrio retrógrado estava envolvido na história também, e a possibilidade de erros de comunicação era imensa. Resultou que mandei o áudio sem o devido cuidado que a situação exigia. Misturei o assunto mais imediato com outros, de médio e longo prazo. Acabei fazendo a informação realmente importante complicar-se num emaranhado de outros prognósticos. No dia seguinte, quando escutei a resposta, percebi que ela estava ainda mais apavorada.

Não tive o devido cuidado que seria necessário com uma pessoa que – como eu bem sabia, pela análise de seu mapa – estava propensa naquele momento a ver as coisas de um modo equivocado. O equívoco maior, portanto, foi sem dúvida o meu. Mas, além disso, ignorei Mercúrio retrógrado e sua capacidade de pregar este tipo de peça na gente. Curiosamente, meu vaticínio acabou se concretizando também por obra de minhas próprias palavras, na medida em que elas reforçaram as distorções que estavam querendo assinalar.  

Moral da história: toda consulta a um astrólogo, seja formal, informal, pontual ou ampla, implica o momento em que as perguntas são feitas e respondidas. Isso nos ajuda inclusive a lembrar que a astrologia, da maneira como a entendo pelo menos, não é um pseudociência porque não pretende ser uma ciência. Ela presume uma identidade inconsciente de sujeito e objeto e a imersão de ambos em um mesmo contexto, em que não há um observador externo capaz falar de um ponto de vista estável, mas um constante fluxo de relações que se transfiguram a todo instante.

Esse é o universo da relatividade e da complexidade, que não por acaso remete a algumas experiências do mundo antigo e do mundo oriental (e do nórdico, do africano, do ameríndio), como já foi observado com frequência na literatura científica e antropológica. Do mesmo modo, o grande desafio da experiência da astrologia não é muito diferente daquele que enfrentam em seu cotidiano os indivíduos imersos em culturas politeístas. Há que se prestar reverência a diversos deuses, muitas vezes contraditórios e caprichosos, e cujos altares se erguem em uma intrincada e labiríntica rede de templos interligados. No caso, Mercúrio retrógrado é um deles.

Mercúrio, aliás, não custa lembrar, na Grécia antiga era Hermes,  irmão mais novo de uma família que contava com Hércules, Apolo, Atena e Dionísio, entre outros; se ele não fizesse uma travessura de vez em quando, Zeus poderia mal notar sua existência. Daí a necessidade que ele sente de chamar nossa atenção por meio desses pequenos transtornos periódicos; é também uma maneira de nos fazer parar e olhar para aquilo que normalmente damos por certo. Mercúrio retrógrado é Hermes no auge da pirralhagem, mas é também um sinal de alerta para as coisas do mundo que precisam de novos cuidados. Não é culpa dele que elas tenham sido esquecidas. Não atirem no mensageiro.

E o que ele pede não é muito. Durante cerca de três semanas, três vezes ao ano, temos que ter maior cuidado em nossas comunicações, ter paciência com pequenos entraves, ter atenção com minúcias e detalhes que costumamos deixar no automático. Aquilo que foi negligenciado vai estragar, vai exigir reparos, vai exigir conserto – e isso vale tanto para aparelhos eletrodomésticos quanto para relações humanas. Mercúrio retrógrado, portanto, é sempre também uma oportunidade de restituir uma tessitura mais firme à esgarçada rede de deuses abandonados por nossas preces.

Porém nada disso exige que a gente se ajoelhe ou acenda velas aos pés de imagens. Nada contra velas e imagens, muito pelo contrário. Mas é bom enfatizar que agora nossos atos cotidianos e nossas atenções mútuas são mais do que suficientes para respeitarmos todas as divindades, Mercúrio retrógrado inclusive. Aliás, talvez mais do que nenhum outro, Mercúrio é um deus que fica satisfeito com essas miudezas do dia a dia. Através do cuidado com as miudezas do dia a dia, enfim, nós só temos a agradecê-lo com/por isso.

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O fracasso segundo Quíron

A educação de Aquiles (c. 1690) | Pierre Puget

“Você tem que amar antes”. Lembro do soco no estômago que senti ao ler essa frase. Eu estava na época começando a dar aulas em uma universidade, e, jovem professor doutor com um punhado de autores na ponta da língua, esperava ser admirado pelos meus alunos. Mais que isso: eu esperava ser amado por eles, como consequência da admiração talvez; e não entendia porque isso não acontecia, porque eu os sentia distantes, desconfiados, desconfortáveis. Então, de repente, lendo por acaso aquele conto de Harold Brodkey (“State of Grace”, em First Love and other sorrows), percebi que eu mesmo nunca tinha demonstrado carinho por meus alunos, nem admiração, nem preocupação, ocupado que estava em exibir meus títulos e conhecimentos eruditos. Percebi que estava fazendo tudo errado se o que eu queria era amor. “Você tem que amar antes, estúpido. Você tem que amar antes”.

Desde então, às vezes me lembro desse instante, sobretudo quando Quíron aparece na minha vida, através de um encontro com o arquétipo, trânsitos astrológicos, consultas, leituras e tal.  Aí recentemente me peguei tentando entender o que uma coisa tem a ver com a outra. Aconteceu depois que tive notícias que remetem a um bairro de subúrbio onde passei parte de minha infância e adolescência. Era um desses lugares baldios onde a pobreza não é o suficiente para levar ninguém ao desespero, mas é o bastante para causar uma vaga desesperança, na coexistência de jovens desocupados e tios bêbados, adultos desempregados e idosos tristes – e onde, por mais que exista uma memória de bons tempos passados, com frequência paira uma penosa sensação de fracasso no ar.

Como dói, às vezes, quando tenho notícias desse lugar. É aquela dor que costumamos associar ao mito de Quíron – incurável, permanente, ferida aberta que remédio algum vai inibir. E, ainda assim, volta e meia percebo como tanta coisa na minha vida foi voltada para uma tentativa de curá-la. Todas as vezes que entendi uma conquista profissional como um sucesso capaz de aliviar minhas tristezas, ou que confiei no dinheiro como único recurso para me sentir menos vulnerável, acho que estava querendo de algum modo superar o medo de ficar estagnado em um dos fins de tarde mormacentos que vivi ali, sem outra perspectiva para a noite que não fosse continuar perambulando por lá.

Acredito que, de um jeito ou de outro, todo mundo sabe bem do que estou falando. Todo mundo tem um bairro pobre pra chamar de seu. Às vezes ele vai estar no carinho minguado que recebemos de um de nossos pais, mesmo quando o dinheiro nunca faltou; às vezes vai estar na pouca inteligência e cultura que parecia existir em casa, mesmo quando não faltava afeto. Curiosamente, é aí que passamos uma vida tentando encontrar nos relacionamentos a segurança que nosso pai nunca deu, ou acumulando títulos e reputação e publicações acadêmicas em currículos intermináveis, e isso quando não saímos enumerando autores e obras diante de alunos intimidados, na expectativa de que eles enfim vão nos render as homenagens que a vida nos tem negado.

Então: esse bairro pobre, esse território de nossa psique que é atravessado por uma sensação de irremediável carência ou insegurança, é regido por Quíron. Não estou falando dos pântanos sombrios onde sofremos e cometemos os mais graves abusos – esse é o Hades de Plutão –, nem da pista de obstáculos e contrariedades que nos levam a algum tipo de sucesso – essa é a órbita de Saturno. Estou falando de um lugar que é exposto o suficiente para tentarmos escondê-lo através do acúmulo de emplastros, mas profundo o bastante para tornar um fiasco todos esses esforços. O fracasso segundo Quíron, então, é condição necessária para aceitarmos aquilo que em nós não tem conserto, quando percebemos que a maquiagem fica pior que a cicatriz, e que o problema talvez esteja na vontade de consertá-la.

Acho que associo isso tudo àquele início de minha atividade como docente por dois motivos. O primeiro é porque o Quíron da lenda era um professor, tutor de Aquiles e outros belos heróis, mas ele próprio destituído de beleza e heroísmo. Assim, se o Amor, segundo Sócrates, é aquele que busca o que não tem, e deseja o que não é, por sua vez Quíron é capaz de conceder o que nunca obteve, e distribuir o que nunca recebeu. Imagino, aliás, que essa seja uma das definições da docência, assim como é das artes terapêuticas, na medida em que o professor deseja que seus alunos obtenham sucessos e conquistas que ele mesmo nunca alcançou, e pode tornar-se uma figura essencial nesse processo.

O segundo motivo, menos evidente, porém mais decisivo, e relacionado a este último, está provavelmente no fato de que Quíron só encontra algum tipo de cura para si quando entende que vai ter que curar os outros antes. Para quem quiser um relato mais completo dessa história, fiz em outra postagem, está aqui. E o fato é que também como professor, como professor doutor, como professor doutor na universidade, talvez eu estivesse querendo mostrar aos meus amigos e aos tios bêbados lá do bairro que eu consegui sair para o mundo e me tornei uma espécie de sucesso. Queria sua estima, seu respeito, seu amor, como quis a dos primeiros alunos que tive na universidade. E fiz de tudo para conseguir isso, menos o que seria mais óbvio, menos o que seria mais fácil, que seria demonstrar minha estima e meu respeito primeiro.

Sim, eu os estimava, os tios bêbados inclusive, caso contrário não buscaria sua admiração. Mas ao querer que me admirassem por conta de meus supostos sucessos, e por ter traçado um caminho de vida tão distante (à primeira vista) do deles, eu podia muito bem estar dando a entender que os considerava fracassados, e que meus êxitos redimiriam o bairro inteiro de alguma forma. Que ilusão. A propósito, todos nós temos riquezas genuínas, que podem ser exibidas sem fazer ninguém se sentir mal. Mas, se a ostentação dos recursos obtidos para ocultar a percepção de uma falta gera desconforto, é porque sentimentos reprimidos de inferioridade criam desejos mal disfarçados de superioridade, capazes de manifestar-se de maneiras insidiosamente cruéis. Com tristeza, a gente tem que registrar que a atividade docente é terreno fértil para isso também.

Enfim, melhor ficar com a falta mesmo, melhor ficar com a ferida, melhor ficar com a derrota que nos aguarda de todo modo. Não porque ostentá-la nos tornará merecedores de carinho e atenção, mas porque aceitá-la é criar tempo e energia para outras coisas mais importantes, como amar e admirar as pessoas que amamos e respeitamos. E, se fizermos essas coisas antes, quem sabe de repente os outros assuntos estarão resolvidos, assim como a ferida de Quíron às vezes deixava de doer, sobretudo quando ele estava cuidando dos outros. Talvez desse modo a gente encontre o remédio que estava buscando, e cuja própria busca em algum momento nos afastou da cura, que estava desde o começo ao alcance da mão.

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O dia em que Plutão entrou em Escorpião

Angels in America / Dir. Mike Nicholls (2003)

Plutão em Escorpião não está nas cabeças da vontade popular, segundo a enquete ainda em andamento, mas eu não teria como deixar passar os 25 anos de Angels in America sem um comentário a esse respeito. De modo que vou deixar essa notinha aqui enquanto aguardo o resultado (até o momento temos uma emocionante disputa entre Touro e Quíron, e quem quiser pode ainda votar aqui).

Bom, para quem já está assustado com Mercúrio retrógrado em Escorpião e tudo mais, é bom adiantar que Plutão não está em Escorpião agora. Mas estava em 1991, quando estreou a peça de Tony Kushner, e havia ingressado em Escorpião em 1984, período em que se passam os momentos iniciais da história, quando o vírus HIV começava a se disseminar na comunidade gay de Nova Iorque.

Não é o caso de fazer uma análise da obra ou de suas adaptações e montagens, até porque várias já foram feitas esse ano. E, para quem não conhece, fica a recomendação de que assistam a minissérie com Meryl Streep, Al Pacino e Emma Thompson, entre outros atores e atrizes incríveis.

Basicamente, o que eu queria dizer sobre a peça é que poucos trabalhos artísticos representam tão claramente o espírito de um determinado trânsito astrológico de longo prazo, e um arquétipo em sua força máxima. Afinal, Plutão é o próprio regente escorpiônico, em seus intensos ciclos morte e regeneração.

Vou mencionar dois trechos que exemplificam esse ponto. Ambos surgem em cenas da personagem Harper, interpretada na série por Mary-Louise Parker, que costuma ter sonhos e alucinações peculiares. No primeiro trecho, ela está na plateia de um teatro vazio, atordoada com uma série de eventos em sua vida, sentindo-se incapaz de reerguer-se e reorientar-se. Então pergunta a uma estátua de cera: “Como é que as pessoas mudam?”. E ela obtém uma resposta.

“Bom, tem a ver com Deus, então não é muito confortável”, diz a estátua, que de repente ganha movimento e voz. “Primeiro, Ele rompe sua pele com uma unha dentada da garganta até a virilha. Então enfia a mão imunda lá, começa a arrancar suas tripas, e elas escorregam e escorregam, mas ele aperta firme, até tirar de você todas as entranhas, e a dor… você não consegue imaginar a dor. Não dá nem para falar a respeito. Então ele mete tudo de volta, tudo sujo, misturado e arrebentado. Cabe da você dar os pontos”.

Não vou comentar. Quem quiser ver a cena, está aqui. Além disso, acho que vale pra esse caso o texto que já fiz em outra postagem, sobre a quadratura de Plutão, um trânsito que todos vivemos em algum momento da vida, geralmente com uns trinta e tantos anos. Todo mundo que já passou por ele sabe do que o texto da peça está falando.

O outro trecho é o monólogo final de Harper. Acontece anos depois dos primeiros eventos narrados, já no começo dos anos 1990, quando a descoberta do AZT e a evolução do conhecimento científico a respeito da AIDS tornou o ambiente menos carregado e desolador, ao menos desse ponto de vista. Ela está fazendo uma viagem, e diz:

“Voo noturno para São Francisco. Seguindo a lua através do país. Há anos que não entrava em um avião! Quando chegarmos a 35.000 pés, alcançaremos a tropopausa, o grande cinturão de ar quieto. É o mais perto que chegaremos da camada de ozônio. Eu sonhei que estávamos lá. E o avião ultrapassou a tropopausa, e chegou ao círculo de cima, à camada de ozônio, que estava rasgada e esgarçada, com os retalhos flutuando aqui e ali, e aquilo dava medo, mas vi algo que apenas eu podia ver, por causa da minha assombrosa habilidade de ver essas coisas… Almas estavam subindo, lá debaixo, lá da Terra, as almas dos mortos, de pessoas que pereceram, com a fome, com a guerra, com as pragas, como paraquedistas ao reverso, com os braços esticados, girando, e as almas desses mortos davam-se as mãos, enganchavam os calcanhares, e formavam uma teia, uma rede de almas, que eram formadas de três átomos de oxigênio, a substância do ozônio, e a camada de ozônio as absorvia, e era reparada. Nada está perdido para sempre. Há nesse mundo uma espécie de progresso doloroso, em que sentimos falta do que deixamos para trás, e sonhamos com o que virá. Pelo menos, é assim que penso”.

Acho que também essa passagem dispensa comentários. E a propósito: “O dia que Urano entrou em Escorpião” é um conto de Caio Fernando Abreu, do livro Morangos Mofados, que usei como referência para o título dessa postagem. O conto é lindo, recomendo também.

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“Testes”

Foto: Byron Harmon / Whyte Museum of the Canadian Rockies

De restrições e provações esta vida está cheia, mas nem tudo é uma etapa em um processo de autoconhecimento ou amadurecimento ou superação. Algumas coisas são só encheção de saco mesmo; outras são obstáculos que não precisam necessariamente ser contornados ou compreendidos, estão ali apenas para serem aceitos. E, em meio a tantas variantes de fenômenos que exigem tanto de nossa paciência, ou simplesmente acabam com ela, há que se encontrar formas de diferenciá-los de maneira criativa. Há que se gastar algum tempo representando-os em suas particularidades. Por exemplo:

Tem aquela história de um rapaz que queria muito receber os ensinamentos de determinado guru, e para isso subiu com esforço a montanha íngreme que levava até ele. Chegando lá, o guru disse com rispidez: “Vá embora, não tenho nada a lhe ensinar!”. E o rapaz não teve opção senão ir embora mesmo. Mas, chegando no pé da montanha, olhou para trás, e viu que o guru lhe fazia sinais para eu voltasse. Ele pensou: “Ah, essa desse ser uma daquelas situações em que o mestre impõe dificuldades ao discípulo para testar sua resistência e determinação”. Resolveu voltar, e usou suas últimas forças para subir a montanha novamente. Chegando lá o guru disse: “E mais uma coisa: não me volte mais aqui com esses disparates sobre ‘testes’!”.

Acho que qualquer um de nós já passou por alguma situação em que algo parecia exigir somente um pouco mais de esforço, paciência ou maturidade para consumar-se, e no final das contas não era para ser mesmo. Ou, pelo menos, não era para continuar sendo. Está bem representada aí a diferença na pedagogia de dois grandes ‘mestres’ astrológicos: Saturno e Plutão. Saturno tem um viés mais convencional, rigoroso porém recompensador, exigindo esforços e realizando testes que favoreçam nosso amadurecimento; Plutão é aquele que traça uma linha intransponível diante da qual qualquer insistência é inútil. Pela maneira como ambos andam se relacionando no céu ultimamente, fica difícil saber qual é qual nas manifestações com que nos deparamos aqui na Terra. Que coisas na vida estão apenas precisando de um pouco mais de trabalho. Que coisas estão precisando da mais completa aceitação.

Mas a partir de agora, e nos próximos meses, acredito que isso vai ficar mais claro. Ou pelo menos espero. Ultimamente tenho reclamado muito de algumas pessoas, comportamentos, circunstâncias. E até acredito que o mau humor é parte importante da existência, mas reclamações repetitivas sobre o mesmo assunto podem indicar que estamos insistindo onde o que se requer é desistência. Desistir das coisas é bom, dá um certo barato, pode ser feito com certa leveza, ou beleza, inclusive. Aí esses dias me apareceu a lembrança da citação de uma entrevista que o Leonard Cohen deu pouco antes de morrer. Nela, ele dizia que não deveríamos nunca “reclamar casualmente”. E que, se for para lamentar a inevitável derrota final de nos aguarda a todos, que isso seja feito com beleza e dignidade.

Tenho lamentado muito casualmente, de coisas que que provavelmente não são nenhum tipo de teste ou provação pela qual eu tenha que passar em meu percurso cármico sobre a Terra. Ou talvez sejam, mas se forem não é reclamando que vou resolver o assunto. Saturno, como disse, exige trabalho, dedicação, paciência. Já Plutão diz respeito à inevitável derrota final que nos aguarda a todos, e às derrotas pontuais que exigem nossa absoluta capitulação no decorrer da vida, diante das quais os lamentos precisam ter um quê de coro trágico, para fazer justiça ao massacre de nossas vastas esperanças.

Até janeiro de 2020 ambos estarão ainda se confundindo, nos últimos passos de uma dança desastrada que enfim está chegando a uma conclusão parcial, e é possível que por essa época realizem uma fusão completa, no momento da derrocada final de edificações que levaram muito tempo para ser erigidas. Pelo menos isso abrirá espaço para que algo de realmente novo seja construído no lugar. Vale tanto para alguns aspectos da experiência coletiva quanto em alguns desdobramentos de histórias pessoais. De modo que, agora, o que desejo a cada um de nós nesse meio tempo é uma variação da oração da serenidade. Uma que diria assim, “Deus me dê perseverança para insistir naquilo que requer minha insistência, falta de saco para desistir daquilo que requer minha desistência – e sabedoria para perceber a diferença”.

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Beleza dura

Foto: Henri Cartier-Bresson

De tempos em tempos Vênus e Saturno se relacionam no céu dando sequência a uma negociação complicada. O espírito que aspira à beleza e pretende realizá-la no plano físico precisa se entender com as restrições da matéria. O amante que deseja o encontro precisa respeitar os ciclos de aproximações e afastamentos, deixando o pêndulo dos encontros pender para a solidão.

Vênus é a regente de Libra, que busca a conciliação e a harmonia nas relações, mesmo que à custa de definições permanentes. Saturno rege Capricórnio, que busca definições permanentes, mesmo quando isso tem um custo para as relações. A possibilidade de uma beleza duradoura ou de acordos consistentes nasce da interação desses dois vetores a princípio contraditórios. Mas pode ser que o resultado desse contato seja também certa tristeza mesmo.

Nesses casos, é válida a consciência da lei do esforço reverso. Se lutamos contra um sentimento indesejado, ele se fortalece; se aquiescemos, a seu tempo, ele passa. A aquiescência é venusiana; o tempo, saturnino. Vênus e Saturno trabalham bem juntos desde que a gente permita que eles trabalhem. É engraçado isso do ser humano de achar que pode escolher os sentimentos que tem.

Qualquer projeto de longo prazo evolui nessas oscilações entre a angústia e a esperança. Não há obra de arte que seja concluída sem uma mistura de felicidade e resignação. Vênus e Saturno trabalharam juntos toda vez que um escultor enfrentou as restrições da matéria para encontrar a beleza que existe na pedra. Mas sem a dureza da pedra não haveria beleza nenhuma, apenas uma vaga ideia do que a beleza é ou poderia ser.

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O ascendente

[Foto: Tuk Narumol | Wikimedia]

Primeiro, uma breve informação técnica. Chamamos de ascendente a região do zodíaco que estava surgindo no horizonte no momento exato do nascimento de uma pessoa, a partir de seu ponto de observação (local de nascimento). Essas regiões do zodíaco são as doze partes de um cinturão no firmamento que atribuímos a diferentes arquétipos ou signos, associados a constelações, embora não atrelados a elas geometricamente. O lugar onde o Sol encontra o equador celeste (isto é, a linha do Equador projetada no céu) assinala grau zero do zodíaco, ou seja, o Ponto de Áries. O ascendente equivale a esse pontinho no mapa de cada pessoa, porém em cada um ele vai aparecer num lugar diferente, e bastante específico, porque muda de grau a cada quatro minutos e de signo a cada duas horas.

Tudo isso e mais alguma coisa aponta para o fato de que o ascendente marca a experiência de um início. Algo aí está surgindo, algo está nascendo, com um frescor e um poder de renovação desconhecidos para a própria pessoa que irá manifestá-lo. Trata-se de algo belo que ela apresentará ao mundo sem saber muito bem como nem por quê, mas, possivelmente, com uma satisfação destituída da ansiedade que acompanha expectativas desmedidas ou infundadas. Algo que estamos começando não é algo que dominamos completamente, não é algo em que possamos pretender a excelência – mas pode muito bem ser algo que fazemos com maior espontaneidade e alegria.

Quase todos os demais componentes de um mapa astrológico presumem uma experiência acumulada em outras vidas. Isso pode ser entendido de modo literal ou metafórico, mas em geral a teoria astrológica implica a ideia de reencarnação. Na astrologia indiana, a propósito, os planetas são conhecidos como grahas, do termo sânscrito que significa “segurar, reter”, relacionado ao inglês grabbers e ao nosso agarrar. Isso lhes confere uma dimensão cármica que também pode ser compreendida como uma espécie de “peso”, porque as coisas de fato parecem se apegar a eles, do mesmo modo como nós nos apegamos às coisas.

Dá para ter uma visão positiva dos planetas, é claro, como muitas vezes temos do nosso signo solar (tipo, “ah, sou sincero assim mesmo, sou de Sagitário”). Nada de errado nisso, e se a ideia de carma é pertinente nós temos que lidar com esse peso de alguma forma, além de aproveitar o que há de bom na bagagem que trazemos. Uma leitura de um mapa astral é em grande parte uma análise desses elementos. Mas, se me permitem a caricatura, nessa perspectiva um mapa astrológico natal é a representação de um monte de tralhas que fomos juntando no decorrer das nossas vidas anteriores, que podem inclusive ser bastante úteis ou amáveis (como diz a canção: “in these bare bones / there’s something lovely after all“), mas nunca serão o que temos de realmente novo para viver agora.

O caso do signo lunar é o mais sintomático: ele geralmente se refere a experiências e talentos que um indivíduo espera reproduzir, seja por força do hábito, seja para repetir antigos sucessos. Daí a percepção de que a “Lua” de uma pessoa indica seu signo solar na última encarnação, o que pra mim faz sentido na prática. Vejo as pessoas de fato se apegando àquilo que apreciam em seus arquétipos lunares, ou repetindo comportamentos que os caracterizam, com uma “naturalidade” que beira o automatismo. As pessoas geralmente gostam de suas luas; mais uma vez, nada de errado nisso, até certo ponto.

Uma Lua em Leão, por exemplo, pode indicar indivíduos que têm a sensação de ter pertencido à realeza ou de ter recebido uma enorme atenção do público em outras vidas, e por isso, durante boa parte dessa vida, aguardam um tipo de respeito e reverência especiais. Há uma legítima reivindicação aí. O risco é tornarem-se excessivamente suscetíveis a quaisquer pequenos sinais de desatenção ou menosprezo do mundo, uma espécie de síndrome do orgulho ferido. Já um ascendente em Leão pode muito bem exercer o fascínio que a realeza e as estrelas de cinema exercem, porém sem ter essa expectativa, sem ter esse objetivo. Fazem isso através do amor que demonstram em atividades performativas, do prazer que têm na criação artística, ou no convívio lúdico com crianças, por exemplo.

Minha sensação é de que no ascendente estamos diante de algo livre da tralha cármica das sucessivas encarnações, das expectativas de retorno que não são nunca satisfeitas, da busca por resultados que se depara sempre com constrangimentos e frustrações. Nessa leitura, ele se torna o ponto mais positivo do mapa de uma pessoa, ao contrário de outras interpretações que o reduzem a uma idiossincrasia ou máscara social do indivíduo. Ele certamente tem a ver com o conceito de persona, tal como o propôs o psicólogo C. G. Jung, e isso está relacionado à maturidade que requer para manifestar-se. Mas seria necessário qualificar o termo junguiano para que o vínculo seja compreendido.

Vou escrever um pouco mais sobre isso em uma segunda parte desse texto, e devo falar mais sobre a relação do ascendente com a aparência – acho esse tema fascinante – e quem sabe escrever uma série de postagens sobre o ascendente em cada signo do zodíaco. Por ora, queria compartilhar a percepção e a hipótese de que as ações através das quais o ascendente se manifesta têm uma leveza que não se verifica no signo solar. É uma espécie de arte não premeditada, que pode surgir em atos cotidianos, na vida pública, ou em interações pessoais, sempre nas maneiras menos deliberadas com que nos apresentamos no mundo.

Com muita frequência percebo que o que mais aprecio e admiro em uma pessoa são traços de personalidade e de comportamento vinculados a seu ascendente. Mesmo em relação a gente com quem tenho pouco contato, conhecidos pelas redes sociais por exemplo, isso costuma acontecer. Geralmente nesses casos dá pra sentir que há certa despreocupação com o resultado de um gesto, que não há intenção de agradar, que não há medo do julgamento público (as pessoas causam más impressões pelos motivos de sempre, e boas impressões por razões que elas nem imaginam). Geralmente isso acontece também através de ações e comportamento muito específicos; é aquela história do ascendente como idiossincrasia, mas na qual vejo um componente mais interessante e promissor.

Se você for meu amigo ou conhecido em redes sociais, pode me contar seu ascendente, que eu vou ficar feliz em saber. Sim, depois disso vou ficar reparando, até porque nunca esqueço um ascendente depois que me dizem, mas é pelos melhores motivos. Tem gente que tatua o símbolo do signo solar na pele; no caso do ascendente, creio que a pele já é tatuagem, mas aí há tantas variações do símbolo quanto há pessoas no mundo. E tem aquela pergunta: uma zebra é um cavalo preto pintado de listras brancas ou um cavalo branco pintado de listas pretas? Resposta: é um cavalo invisível que foi pintado de branco e preto pra gente não tropeçar nele. Acredito que o ascendente é esse tipo de tinta. Gosto de ficar observando seus matizes.

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Mercúrio e os símbolos

[Frederik de Wit – mapa celestial holandês do século XVII]

Mercúrio ganhou fama pelo movimento aparentemente retrógrado que três vezes por ano sincroniza-se com atrasos e equívocos nos assuntos humanos. Mas, como rege a linguagem e as comunicações, Mercúrio governa também os símbolos, de modo é essencial para o próprio uso da astrologia, embora seja um planeta menos comentado. Uma consulta astrológica é sempre uma nova chance de dar uma forma, uma narrativa ou uma manifestação simbólica àquilo que foi vivido mas nunca atingiu o plano de uma expressão consciente de seus significados e desdobramentos. Ao mesmo tempo, ela oferece uma terminologia capaz de criar novas relações com o que estamos vivendo no momento presente e o que será experimentado num futuro próximo.

Boa parte do papel da astrologia consiste em oferecer símbolos para a experiência. Quando alguém diz que passou ou está passando por um ‘retorno de Saturno’, é ela, a pessoa, que está passando pelo trânsito, mas a consciência disso lhe oferece uma perspectiva nova, de tal forma que ela está também assistindo ao que acontece, observando como Saturno realiza seu retorno através de si, como um personagem de sua história. Quando alguém diz ‘ah, mas minha Vênus em Câncer é assim mesmo’, está dando um símbolo a um aspecto de sua personalidade que consegue ver de maneira destacada das demais, mas isso não quer dizer que este aspecto de fato exista de maneira independente (é a linguagem, no caso a linguagem astrológica, que nos permite vê-lo assim).

Astrólogos não criam nem inventam a relação entre esses planetas, trânsitos e outros aspectos com a personalidade ou a vida das pessoas. Eles os identificam, de acordo com técnicas ao mesmo tempo antigas e sempre renovadas, e com a tecnologia isso vai se tornando uma das partes mais fáceis. O complicado está na maneira como lidamos com a questão da responsabilidade e da culpa a partir dessas descobertas. Dizer que uma pessoa foi ‘vítima’ de um trânsito difícil, em um período depressivo por exemplo, é uma forma de aliená-la de partes importantes da trajetória da sua vida; por outro lado, existe sim um papel para esta separação entre o sofrimento e sua expressão simbólica ou narrativa. Alertar alguém sobre a possibilidade de um momento mais complicado, relacionando-o a um trânsito de Plutão, é oferecer um modo que a pessoa terá de viver e narrar este momento ao mesmo tempo, o que pode torná-lo mais significativo e valioso.

Nada disso nos exime de responsabilidades, muito pelo contrário: ser responsável por mobilizar da melhor forma um Quíron na casa 5, ou por viver verdadeiramente uma oposição de Urano sem causar todo tipo de transtorno à nossa volta, é coisa para caramba. Astrólogos podem oferecer aconselhamento e orientação para que o indivíduo manifeste de maneira consciente esses aspectos de um mapa natal. Isso vai depender também do momento, pois esses componentes do mapa podem ser acionados de maneira mais aguda em determinadas passagens da vida; também por isso, uma consulta assinala os instantes no futuro em que algo de significativo e que permanece em estado de latência pode assumir o primeiro plano na vida de uma pessoa, enquanto outras questões, até então mais impactantes, tornam-se de repente quase irrelevantes. A percepção dessas mudanças é extremante valiosa para que as pessoas se permitam acompanhar mais livremente os fluxos e alterações de foco de sua consciência, uma vez percebida a correlação entre nossas extremas ou inesperadas mudanças de ânimo e a dança dos símbolos cósmicos com que se relacionam. É também tarefa do astrólogo oferecer uma outra linguagem para a narrativa dessas variações, uma linguagem que estabelece correspondências e corresponsabilidades, e não aquela que vê os astros como culpados pelas tristezas e sofrimentos que vivemos nesse mundo.

Os símbolos astrológicos oferecem-se assim como transformadores da experiência (Jung usou esse termo para falar dos símbolos da psicologia analítica). Têm o potencial de transubstanciar os fatos da vida de modo qualitativo e alquímico; nesse sentido terapêutico, vinculam-se ao arquétipo de Virgem. Uma vez deixei aqui um texto cogitando a possível substituição do tradicional regente virginiano por outro astro, como Vesta. No entanto, reconheço que Mercúrio realiza através da linguagem algo muito semelhante ao que as sacerdotisas vestais faziam com os implementos sagrados, cuidando de sua disposição para os rituais de purificação. Da mesma forma como elas transformavam as energias que circulavam nos recintos antigos com o uso de objetos específicos, e eram capazes de converter momentos prosaicos em instantes de reverência, Mercúrio e a astrologia fazem uso de palavras especiais para converter até nossas experiências mais corriqueiras em histórias de planetas, deuses e heróis.

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Sobre Quíron

[Quíron, Peleus e Aquiles / Golden Porch: a book of Greek Fairy Tales / Flickr]

O pessoal lá na firma sabe que se me pedem para falar em Quíron é senta que lá vem a história. Se não pedem também. Tem de tudo nesse mundo: tem o maluco que gosta de falar de carros, tem o que gosta de falar de futebol, tem o que gosta de falar de Quíron. Tenho aqui uns três pequenos textos a respeito, esses dias me deu vontade de escrever mais um. Este é o primeiro, introdutório. Na sequência vou publicando os outros.

Trata-se de um asteroide com uma órbita meio estranha entre Saturno e Urano. Há quem o considere um cometa incomum. É um pouco como se fizesse a conexão entre Capricórnio e Aquário, porque da cabra ele retém o lado solitário e competente, mas acrescentando um comportamento excêntrico, marginal. É também um potencial regente de Virgem, por conta de suas funções de cura, atreladas a uma profunda consciência de imperfeições pessoais.

O Quíron mitológico foi um centauro, meio cavalo e meio humano, tutor de Aquiles, que um dia se feriu com uma flechada na perna. Aí ele passou a estudar todo tipo de tratamentos e remédios para sua ferida, mas nunca conseguiu saná-la. Por outro lado, percebeu que o conhecimento adquirido, embora não servisse a ele próprio, servia para curar os outros. Assim passou a ser conhecido como o xamã ferido, “the wounded healer” (aquele que, apesar da fratura exposta e incurável em seu corpo, torna-se capaz de curar).

Quíron é regente dos terapeutas. Ao menos daqueles que não ocultam as próprias tristezas e frustrações, não se apresentam como pessoas bem resolvidas e iluminadas. Aliás, todo tipo de aconselhamento pessoal – inclusive o astrológico – incorpora o arquétipo quironiano, na medida em que pressupõe uma pessoa cheia de medos e incertezas tratando das incertezas e medos de outra pessoa.

Trânsitos de Quíron podem inclusive trazer o instante de reconhecimento que uma antiga mágoa continuará nos acompanhando por toda a vida. Ou seja, uma mágoa que se tornará nossa companheira. Quando a manifestação de Quíron interfere na aparência de uma pessoa (Quíron na casa 1, por exemplo), temos alguém com uma cicatriz ou uma mancha aparente no rosto, ou um evidente senso de inadequação física, que termina sendo parte indistinguível de sua imagem.

O arquétipo tem ainda um monte de outras expressões, muitas delas inesperadas. Mas uma delas em particular acho muito bonita. É episódica: diz respeito a acontecimentos pontuais, às vezes corriqueiros, às vezes transformadores. Acontece quando, diante de um impasse em nossas vidas, de repente nos deparamos com o conselho ou a orientação mais acertada vinda de uma fonte imprevista, de aparência excêntrica ou traços marginais, que do nada aparece com a solução ou a advertência de que estávamos precisando, e depois some de novo.

Conselho quironiano: fiquem atentos às mensagens que chegam através de gente “doida”, gente bêbada, gente ferrada na vida. Eles podem não ter o remédio para os próprios problemas, mas têm algo de valioso a oferecer para todos nós.

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A oposição de Júpiter

Before Sunrise (1995) | Dir. Richard Linklater

Esses dias publiquei aqui textos sobre trânsitos que antecedem idades redondas (o retorno de Saturno para os trinta anos, a quadratura de Plutão para quem está chegando aos quarenta), e fiquei pensando se haveria algo equivalente antes dos vinte. Acho que há. Ali por volta dos dezoito anos todos vivemos uma oposição de Júpiter, que vai acontecer regularmente de tempos em tempos na sequência, mas que nessa época tende a ser mais importante e acentuada, demonstrando uma evidente sincronia com experiências comuns – mas nem por isso ordinárias – dessa etapa da vida.

Talvez eu tenha pensado especificamente em Júpiter por causa do Antes do Amanhecer, um filme que me diz muito sobre esse momento, e que, junto com os outros dois filmes da trilogia que se seguiu, pode muito bem representar as três etapas a que estou me referindo. O primeiro filme é a história de um casal que se conhece em um trem durante uma viagem, e os outros são os desdobramentos de sua relação nas décadas posteriores. Acho o procedimento seriado interessante, e gostei do segundo filme também. Mas é no primeiro mesmo que está o grande feito do diretor, na minha opinião, pois ali ele conseguiu representar uma a experiência de modo quase arquetípico mesmo, inclusive correndo o risco de cair no estereótipo.

Júpiter, portanto. Está relacionado a todo tipo de expansão, de projeção para além dos limites conhecidos, e por isso sua associação direta com o tema da viagem. É verdade que nem todos os jovens realizarão uma viagem decisiva ou importante nessa época da vida, mas algum tipo de acontecimento ou mudança costuma sempre trazer uma ampliação equivalente de horizontes – com frequência através do conhecimento e da educação superior, que são os outros temas jupiterianos por excelência.  

Sou professor universitário, e, talvez por gostar de assistir essa expansão, gosto de dar aulas no primeiro período. Tenho alunos mais velhos também, gosto de ter, mas existe algo de singular na situação de quem entra na universidade por volta dos vinte anos. É um enorme conjunto de mudanças para o qual a vida universitária é não somente um ambiente propício como também uma espécie de símbolo, que aponta justamente para a ‘ampliação’ – do conhecimento, do círculo social, muitas vezes do próprio universo geográfico do aluno. ‘Ir para a universidade’ nunca é só ir para a universidade. É ir para um outro mundo, e muitas vezes ir para o mundo, no contraste com a limitação das fronteiras antes conhecidas.

A experiência, é claro, conhece variações, e implica frustrações, dúvidas, medos. Mas de modo geral não há mudança maior do que aquela verificada entre o começo e o fim do semestre de uma turma de primeiro período. Não estamos falando só da libertação de uma fase embaraçosa da adolescência (o fim do ensino médio pode ser sentido assim), mas sobretudo da percepção de que de fato existe algo além dos muros da escola a ser desbravado e conquistado. Não se trata apenas de romper com um passado morto, mas também de criar uma visão vívida do futuro, por mais imprecisa que ainda possa ser.

É também verdade que nem todo mundo encontrará essa ampliação de horizontes na universidade, e além da viagem há ainda outras possibilidades. Mas felizmente a educação superior tornou-se mais acessível aqui no Brasil. Pensando nisso, me ocorreu agora que, embora todos os signos tenham motivos de sobra para estar enfastiados com o atual governo – os capricornianos pela incompetência, os virginianos pela bagunça, os librianos pela vulgaridade, etc etc –, os alvos primordiais parecem estar nos arquétipos de fogo: Áries, Leão e Sagitário. Os impulsos para a liberdade, para o prazer e para o conhecimento parecem inclusive ser vítimas preferenciais de toda a onda reacionária recente no mundo.

De modo que esta pode ser uma época histórica particularmente difícil para se ter 18, 19, vinte anos. É uma etapa da vida em que a gente costuma ficar pleno de futuro, até bêbado de futuro, tamanhas são as novidades que surgem e possibilidades que se abrem, todas elas contendo promessas variadas, que vão se sucedendo e sobrepondo. No entanto, temos aí gente empenhada em realizar uma espécie de bloqueio do futuro, de maneira ostensivamente contrária à liberdade, ao prazer e ao conhecimento, por motivos pessoais mesquinhos inclusive. Mas estes felizmente são os que têm menos fôlego para o longo prazo.

Talvez eu esteja pensando nisso tudo também porque tenho um filho chegando nessa idade. Então, Tiago, se você estiver lendo, não desanime, como espero que meus alunos mais jovens não desanimem. As promessas que Júpiter é capaz de proporcionar continuarão sendo muito maiores do que isso que está aí. Se vão se realizar ou não é outra história; elas não existem exatamente para serem concretizadas, mas para injetar ânimo e entusiasmo em projetos que podem até ficar no meio do caminho. Pois a primeira metade do caminho basta para alimentarem a sensação de que a vida vale a pena, e essa sensação é propósito suficiente para sua existência provisória.

There’s nothing that keeps its promise, “não há nada que cumpra sua promessa”: lembrei dessa frase que abre o Teatro de Sabbath do Philip Roth enquanto pensava em Júpiter. Philip Roth é um autor jupiteriano, por sinal: dado a excessos, tagarela, expansivo, e por isso mesmo capaz de atingir mares nunca antes navegados (chequei aqui agora, pisciano com ascendente em Sagitário). Pensei duas vezes antes de incluir a frase nesse texto; não é o tipo de notícia que você quer dar para jovens empolgados com o futuro. Mas, na segunda vez, pensei assim: eles não se importam.

Eles não se importam. Tenho alunos que ao ouvir isso jamais ficariam lamentando o descumprimento iminente de suas expectativas. Eles iriam querer saber quem é esse Philip Roth, o que foi que ele escreveu, o que está traduzido, e talvez se animassem com a ideia de estudar mais inglês para conhecer a parte da obra dele que não está editada aqui, e assim quem sabe conhecer outros autores também, e um dia talvez fazer um doutorado em uma universidade americana sobre isso, ou então aproveitar o conhecimento da língua para realizar um trabalho voluntário em outro continente – ou então aprender não só inglês mas também italiano para ler Dante no original e russo para ler Dostoievski, e aí terminando o Dostoievski talvez escrever um romance em português mesmo porém em um português que ninguém nunca viu igual, talvez sobre as experiências de uma viagem ao redor do mundo, incluindo a história da pessoa que conheceram em um trem e depois passaram uma noite com ela em Viena ou em Istambul ou em Guadalajara.

A oposição de Júpiter é isso aí. Não há nada que seja capaz de conter suas promessas, nada mesmo, nem as ironias de velhos escritores geniais, nem as mesquinharias de estúpidos governantes. Sair de casa, viajar, conhecer o mundo, conhecer o mundo para além das fronteiras do bairro, conhecer os livros que trazem o mundo para dentro de nossa casa: tudo isso contém em si uma semente de mudanças cuja dimensão concreta é a princípio a que menos importa. A injeção de ânimo e otimismo de que precisamos pode estar nesses gestos, e através deles podemos talvez recuperar muito do prazer e da liberdade perdidos. E então perceberemos que nada disso na verdade foi perdido em momento algum, e que nosso fogo continua aí, aguardando essas faíscas, para se reacender.

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A quadratura de Plutão

Stranger Things (2016)

Alguns trânsitos astrológicos importantes acontecem para todo mundo mais ou menos na mesma idade. Assim como os trinta anos costumam coincidir com últimos ajustes e redefinições do retorno de Saturno, aos quarenta estamos lidando com o que ficou da quadratura de Plutão. Trata-se de um aspecto que nada tem de ordinário, mesmo sendo comum. Costuma acontecer em momentos variáveis a partir dos 37 anos, por conta do ritmo um pouco menos regular da órbita plutônica.

Há motivos para que essa passagem seja menos comentada. Plutão é um agente incorporado à prática astrológica há não muito tempo, está ainda sendo estudado e conhecido, e além disso trata por definição de temas ocultos e tabus. Então, mesmo entre profissionais do aconselhamento, há aqueles que não se dispõem a perscrutar as profundidades psicológicas que alcança. Isso pode acontecer por diferenças de abordagem e de comportamento pessoal, naturalmente, mas desconfio que há também aí uma reticência diante da ameaça que ele representa para panaceias disseminadas no meio astrológico, como o ‘pensamento positivo’ e o autoconhecimento.

Pois em Plutão encontramos as mais diferentes formas de expressão do trágico, que não poderiam ser evitadas nem com todo o pensamento positivo do mundo. Do mesmo modo, não há autoconhecimento que nos prepare para suas pancadas nem antecipe nossas reações diante delas. Em maior ou menor grau, dependendo de outros fatores, a quadratura de Plutão é um desses momentos em que nos deparamos com as forças do inevitável, que nos deixam sem ação e sem recursos. E isso com frequência estará relacionado muito literalmente aos temas de sua área de atuação: a morte, o dinheiro e o sexo.

O que vou dizer a respeito é baseado em experiências pessoais, em relatos que escutei e em algumas leituras. Em termos gerais, o que mais se percebe é algum tipo de experiência da mortalidade e de limitações absolutamente intransponíveis, seja através da doença de alguém querido, do término de um relacionamento desgastado, do fracasso definitivo de algum projeto, ou do abandono doloroso de um sonho ou aspiração. As especificações dependem muito da posição de Plutão no mapa natal da pessoa, mas, de um jeito ou de outro – e ao contrário do retorno de Saturno, que comporta redefinições moduladas e algum controle consciente do processo –, neste caso estamos diante de uma exigência de absoluta rendição, em que alguma coisa era e de repente não é mais.

Não há como ensinar nem aprender essa experiência. Não há nem como repeti-la, assim como não há morte que seja igual a outra. A própria revolta com que aí enfrentamos as injustiças da vida e do cosmos não é exatamente um aprendizado; é, antes, uma espécie de caminho para o necessário esgotamento de nossas forças. No entanto, isso não quer dizer que este tipo de trânsito deixe apenas destruição no seu rastro. Ele é, sim, destrutivo, mas com frequência o que aniquila são as mais rígidas carcaças que utilizamos para ingressar na vida adulta.

Em um tipo de experiência, pelo menos, isso me parece bastante óbvio. Ela merece umas palavrinhas a mais para ser tratada com cuidado. Não é das mais fáceis, nem das mais evidentes no âmbito público, mas tem uma recorrência que justifica a menção. Falo de pessoas que, durante o trânsito, desenterram memórias reprimidas de atos de abuso ou violência sofridos durante a infância. Reúnem-se aí vários elementos da crise plutônica: a exposição de algo soterrado, a crise diante de forças maiores que nos tomam de assalto, o retorno investigativo à cena de um crime, e a revolta desesperada com algo – um passado – que não se pode mudar.

Talvez a própria tomada de consciência de Plutão e suas energias ou influências pelas últimas gerações tenha favorecido essa dinâmica. Porém, isso não quer dizer que crianças não fossem igualmente vítimas de toda forma de violência antes. Aliás, o tema nos remete à própria história do rapto de Perséfone por Hades, o Plutão da mitologia grega, que em um ato disruptivo a levou para o submundo e a violentou quando era apenas uma menina.

Como a história prossegue a partir daí é uma outra história; o gesto tem força arquetípica em si mesmo, e toda criança vítima de abuso e violência é de certa forma Perséfone no momento em que o solo se abre sob seus pés. Outras tradições conhecem mitos semelhantes, com algumas variações, mas a agressão sempre acontece em um lugar oculto e subterrâneo. E assim permanece na consciência das crianças que são abusadas, seja pela repressão das lembranças, seja pela maneira como o mundo adulto as faz questionar os próprios sentidos e percepções, de maneira mais ou menos perversa.

De um jeito ou de outro, certa inconsciência e ocultamento do passado parecem necessários para os primeiros passos do indivíduo na maturidade. É como se algo lhe dissesse: “Não, não vai dar para lidar com isso agora; você precisa estudar, arrumar um emprego, ser uma pessoa ‘normal’; deixa pra outra hora, não mexe nisso aí, fique com a história que te contaram sobre o que aconteceu ou deixou de acontecer, vai ser melhor assim”.

E assim se criam as carcaças da identidade que se sobrepõem àquilo que uma pessoa pode ter de mais definidor de sua experiência do mundo adulto. Tornamo-nos engenheiros, médicos, professores, pais, mães – e nos esquecemos de que somos Perséfone. Até que o Plutão conhecido na infância reapareça quando menos imaginamos, quando acreditamos que estamos a salvo não apenas de sua ação como também de sua lembrança. Só que agora, mesmo que iniciando uma crise, mesmo que desenterrando ossos, ele surge não mais como um fator de violação, mas como um agente de cura.

Pode ser difícil, quase impossível reconhecê-lo assim. Mas a questão do reconhecimento, aqui, é fundamental. Pois, junto com a memória de cenas e acontecimentos, ele traz à tona a reparação da confiança de em algum momento perdemos em nossos sentidos e percepções, e no estabelecimento da verdade de um modo geral. Ele se apresenta e diz: “Sim, eu existo; fui eu mesmo que você viu quando era pequeno; não acredite nas lendas que te contaram sobre mim; eu sou a violência, eu sou a morte, eu sou a crueldade, essas coisas existem no mundo e você as conhece bem desde cedo; não deixe ninguém tirar isso de você.”

Plutão não tem culpa de nada, no final das contas. É uma maneira que encontramos para simbolizar algumas experiências indesejáveis, embora o verbo ‘encontrar’ nesse caso tenha algumas sutilezas interessantes, assim como ‘indesejável’ é um adjetivo que merece algumas nuances. Pois, se a morte é indesejável, muito mais seria uma vida individual que não acabasse nunca. Enquanto o sexo, em si mesmo, está longe de ser indesejável, e em algumas de suas expressões mais regeneradoras e transcendentes encontram-se também sob a regência de Plutão.

Enfim, para aqueles que já passaram por suas quadraturas pessoais, ou por outro trânsito mais intenso de Plutão em outro momento da vida, e se depararam aí com algumas assombrações bastante reais, fica aqui meu carinho. Pois há quem chegando aos quarenta terá uma primeira experiência mais impactante da finitude e da fragilidade humana; mas há também os precisam despertar em si a criança que conheceu o inferno, sabe que conheceu, e consegue descrevê-lo em detalhes. Para estes, recomendo que reconheçam essa parte de sua identidade e não permitam que as fotos dessa viagem ao submundo sejam novamente soterradas sob fotos de viagens à Disney ou a Cabo Frio. Com a quadratura de Plutão, a cura está na rememoração do inferno mesmo, não na lembrança destes paraísos artificiais.