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As voltas que Vênus dá

Matthew Henderson | Tumblr

Nessa semana Vênus iniciou o movimento retrógrado (aparentemente retrógrado, visto da Terra, para ser mais exato) que realiza durante cerca de 40 dias a cada ano e meio. A primeira pergunta que a gente escuta quando falamos que um planeta vai estar retrógrado nas próximas semanas ou meses é algo do tipo: “Mas como assim, outro? De novo? Por que esses trecos têm que ficar andando pra trás o tempo inteiro e atrapalhar nossa vida, qual é o problema com eles?”. Acho a pergunta pertinente; vamos às possíveis respostas.

No caso de Vênus, especificamente, a primeira explicação que me ocorre é a de que ela precisa fazer esse movimento para executar um lindo e famoso pentagrama, formado pela sucessão de pontos médios de sua distância em relação à Terra, na órbita de ambas ao redor do Sol (esse da animação). Ou seja: Vênus valoriza a beleza, a harmonia, o equilíbrio, e se, para alcançá-las, precisa dar uns passinhos para trás, transtornando por uns tempos a vida dos pobres terráqueos, paciência. Ela vai fazer sua dança assim mesmo. Você que lute.

Isso, é claro, partindo do princípio que somos meras vítimas indefesas de movimentos planetários tão mais amplos que nós. Porém, 1) o movimento aparentemente retrógrado de Vênus só existe em relação à Terra e, 2) só existe em relação a nós. Se não fôssemos “nós”, não existiria Vênus, aliás. Aquele amontado de rochas e gases com suas eternas chuvas de enxofre que faz esse caminho bonitinho apenas se tornou um símbolo da beleza da harmonia através da criatividade humana, e da nossa capacidade de produzir nexos e analogias.

Isso nos leva à refutação da segunda possível resposta: a de que os movimentos retrógrados ou aparentemente retrógrados de um planeta não têm nada a ver com os assuntos humanos. Têm sim, e basicamente por um motivo: nós os inventamos, os planetas, e seus respectivos movimentos retrógrados. Inventamo-os enquanto símbolos de nossa experiência, e talvez os tenhamos “inventado” exatamente para nos dar algumas pistas do caminho que temos a fazer para seguir adiante nessa brincadeira de esconde-esconde, ou nesse complexo jogo de tabuleiro, que é o universo. Um planeta retrógrado então pode muito bem estar dizendo: retroceda duas casas. Preste mais atenção. Os mitos e narrativas que associamos a ele servem como indícios da área da vida em que isso deve acontecer.

Outra coisa que nós humanos fazemos é identificar padrões. Só que nessas horas às vezes a gente dá uma roubada. Por exemplo: essa animação aí de cima foi baseada em dados do geocientista Steven Dutch, da Universidade de Wisconsin, que, em 2012, criou um gráfico interativo demonstrando como os movimentos de Vênus e da Terra ao redor do Sol formavam um “desenho admirável, porém não exato”, uma espécie de pentagrama “quase perfeito”, uma vez que as órbitas estão representadas como círculos, e não elipses (Vênus, porém, tem a órbita mais próxima de um círculo do sistema solar, o que torna o pentagrama realmente próximo da realidade).

Descobri isso esses dias. Mais especificamente, no dia em que Vênus começou sua retrogradação.  O que me leva à terceira resposta para as perguntas que enumerei lá no começo – e ter descoberto que a perfeita simetria na representação da relação Vênus-Terra é na verdade atravessada por falhas e imperfeições me parece significativo para ela. Afinal, os relacionamentos humanos, regidos por Vênus, também estão sujeitos a esse tipo de ilusão e de ajuste. Precisam passar por revisões periódicas e cíclicas, muitas vezes difíceis, porque tratam justamente de conflitos que foram ignorados ou reprimidos durante os 18 meses anteriores.

É isso que acontece quando Vênus começa a retrogradar. Aparecem os pontos fora da curva. Aquilo que não corresponde às nossas ideias e ideais sobre a realidade (o que deve ser particularmente válido para esse período retrô de agora, dadas as relações Vênus/Netuno no intervalo). Porém, de maneira alguma essa percepção nos coloca à mercê dos caprichos de um planeta ou de uma divindade. Ela nos coloca em contato com ela em um sistema de cooperação mútua. Lembrem-se: Vênus precisa de nós para existir. Ela precisa de nós para retrogradar. Sem nós humanos, não há o desenho perfeito, nem a percepção de suas falhas.

A oportunidade torna inevitável a menção aos também célebres versos de Leonard Cohen em Anthem: “Ring the bells that still can ring / Forget your perfect offering / There’s a crack in everything / That’s how the light gets in”. Ou seja: toquem os sinos que puderem tocar, e se esqueçam de suas oferendas perfeitas; há uma falha em todas as coisas, e é por aí que entra luz entra nelas. Enfim: Vênus retrógrada é essa falha. Mas é também essa luz. Uma coisa não existe sem a outra. Reparem bem: esse mais perfeito pentagrama aí de cima, o que omite as imperfeições da trajetória de Vênus, pode muito bem atender aos nossos anseios por um universo ordenado e harmônico e belo. Porém, nele, a não ser a que a gente perceba seus luminosos defeitos, reina a mais completa escuridão.

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Aprendendo a nadar

David Hockney | A Bigger Splash (1967)

Marte ingressa em Peixes por agora, no começo dessa quarta-feira, onde vai seguir seu curso por seis semanas. É o último signo em que deve permanecer por um tempo regular antes dos muitos meses de suas idas e vindas em Áries, a partir do final de junho. Trata-se do planeta cujas mudanças no elíptico zodiacal são mais perceptíveis para nós à flor da pele, porém seu ingresso em um determinado signo geralmente é acompanhado de efeitos muito diferentes no ânimo de cada um de nós. Os piscianos, por exemplo, com Marte em Peixes podem ter um influxo de energia de tirar o sono. Já o pessoal de Áries tem maiores chances de sentir um sono de tirar as energias.

Isso, por um lado, reforça o fato de que, mesmo em épocas de condicionamentos tão restritivos como os atuais, até mesmo indivíduos que estejam vivendo as mesmas rotinas e repetições diárias sob o mesmo teto podem ter enormes diferenças de comportamento, que independem das circunstâncias externas mais aparentes, mas não deixam de estar vinculadas a influxos mais sutis do ambiente. Nós somos “de Marte” do mesmo jeito que somos “de Lua”.  Por outro lado, é das interações, conflitos e negociações entre esses vetores que se faz a vida em comum, de modo que o Marte em Peixes aqui em mim saúda o Marte em Peixes aí em você. Espero que de alguma forma eles se entendam.

Mas nada impede que a gente aproveite o momento para compartilhar um exercício de entendimento do que significa “Marte em Peixes” em um plano mais estritamente simbólico e arquetípico. A primeira expressão que me vem à cabeça é “Guerra Santa”. Por razões óbvias: Marte é planeta guerreiro, e Peixes é a região do zodíaco associada ao sacrifício. A combinação parece propícia ao martírio, bem como à luta obstinada em defesa de ilusões, justamente quando elas se mostram mais insustentáveis. Há algo em Peixes que torna Marte um agente das mais fantasiosas batalhas. No entanto, há algo também capaz de dar um fim a toda luta e sofrimento.

Nesse último sentido, Marte ingressando em Peixes é como uma flecha que cai na água. Ou como um caçador que não quer mais apenas lutar pela sobrevivência, e decide sair em busca do cálice sagrado. Se a gente parar para pensar, o que há de sagrado no cálice? O espaço em seu interior. Acontece que o espaço no interior do cálice é o mesmo espaço ao redor do caçador. Não é preciso sair para buscá-lo. É só respirar. Marte, portanto, em circunstâncias normais, trata de garantir sua sobrevivência. Mas o signo de Peixes é tudo menos “circunstâncias normais”; em Peixes, a existência se basta. Marte em Peixes se parece então com uma flecha que cai na água, aprende a ser peixe, e de repente começa a nadar.

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A curva do medo

Quillebouf, Foz do Sena (1833) | J. M. W. Turner

Essa semana comecei um grupo de estudos online sobre o papel de imagens e narrativas arquetípicas na psique humana de acordo com o pensamento de C. G. Jung. Há algo de voluntarioso e desajeitado nessas inciativas que nós professores universitários temos tomado agora para manter uma dinâmica interpessoal e intelectual; há algo de reconfortante, também. O contato que fiz com meus alunos foi breve, pontuado por falhas técnicas e ruídos estranhos, mas foi efetivo e teve seus bons momentos. Escolhi o tema deliberadamente para o período de confinamento, pois ele me parece abrir uma janela para vastos horizontes subjetivos inexplorados, expandindo nosso cosmos interior num momento em que a vida objetiva está tão confinada e empobrecida.

Por alguns instantes, foi possível esquecermos das limitações que a distância impõe, para encontrarmos pontos de contato e de encontro, talvez inclusive pontos de contato e encontro que não teriam sido identificados em uma aula presencial. Pois essas sessões virtuais de maneira alguma se equivalem à rotina acadêmica dos encontros reais. Por um lado, são incapazes de substituir o vínculo e a relação de confiança que são criados entre professores e alunos em sala de aula (de minha parte, não vejo a hora de poder voltar para o trabalho no campus). Por outro lado, as sessões virtuais talvez ofereçam algo de diferente em relação àquilo que estamos acostumados em nossas interações, então é hora de descobrirmos o quê.

A propósito, uma das coisas que os smartphones e a internet banda larga me trouxeram – e pelas quais sou imensamente grato – são os longos áudios de palestras do Alan Watts que estão disponíveis no Youtube. Watts, vale mencionar, foi um pesquisador de escolas filosóficas orientais como o Zen e o Taoísmo. Durante os anos 1960 e 70, era convidado com frequência para dar conferências a partir de suas experiências e leituras, e teve também programas dedicados ao assunto no rádio e na televisão. Ele se definia como um spiritual entertainer, o que de forma alguma soava como um epíteto depreciativo. Suas falas têm um embalo de raro poder hipnótico; elas podem ser tão tranquilizadoras, tanto no conteúdo quanto na forma, que eventualmente lembram algumas peças para piano de Eric Satie. Fica a recomendação para quem está buscando distrações para a quarentena. Vou deixar uns links no final do texto.

A título de curiosidade: Watts é mencionado no final do filme Her, de Spike Jonze (aquele em que o Joaquin Phoenix se apaixona pela voz de sua assistente virtual) como um filósofo que habita o mesmo universo paralelo de onde surge Samantha, a personagem de Scarlett Johansson. Através de sua voz, ele realmente se tornou uma presença na internet como poucas outros filósofos conseguem ser, e ganhou uma espécie de sobrevida que seus livros provavelmente não lhe teriam outorgado.   

Então: Alan Watts e C. G. Jung foram amigos, além de compartilharem o interesse pela história das religiões e pelas mitologias de diferentes povos. Aí, durante o encontro virtual do grupo de estudos – é sobre isso que quero falar, é sobre isso que é esse texto –,  me lembrei da bela palestra em que Watts descreve seu amigo Jung como uma pessoa que se sentia “à vontade consigo mesma”, inclusive com seus defeitos, inseguranças e falhas de caráter, o que fazia com que outras pessoas se sentissem à vontade em sua presença. O ato de não julgar a si mesmo de maneira rigorosa se refletia no modo como seus visitantes tampouco se sentiam julgados dessa forma.

Percebam: trata-se da dinâmica da projeção, porém nesse caso com um viés positivo. Ao invés de projetar no outro o que sentia existir de indesejável ou vil em sua personalidade, convertendo isso em motivo de desprezo ou denúncia, Jung reconhecia esses traços como seus, e os incorporava ao próprio comportamento até com certa malícia, com uma espécie de sorriso maroto por saber-se tão errado e lascivo como qualquer outra pessoa nesse mundo, por mais que fosse considerado um indivíduo extraordinário. Essa objetividade na aceitação dos próprios defeitos, por sua vez, tornava seus visitantes e pacientes confortáveis mesmo diante de um homem que respeitavam tanto, e cujo julgamento teriam temido até se verem em sua presença. De maneira mais ou menos consciente, eles percebiam como e por que esse temor havia sido infundado. Então, permitiam-se a mesma autoaceitação que Jung se permitia e inclusive exibia com certa graça.

Acho que estamos sentindo falta desse tipo de troca. Acho que algo assim pode ser possível agora, em que estamos todos tão igualmente desorientados e surpreendidos pelas circunstâncias. Infelizmente, parece que as redes sociais tendem a favorecer justamente o inverso, com a acusação rápida e o juízo sumário sobre as vilezas e deslizes dos outros ganhando proeminência, enquanto só aumenta o nossa desconforto na presença (ainda que virtual) de pessoas que sequer respeitamos, mas que ainda assim tememos,  porque parecem dotadas de convicções capazes de destruir reputações e carreiras, na mesma medida em que parecem cem por cento convictas da própria perfeição e santidade (parecem; é justamente o contrário).

Por outro lado, o fenômeno tem um componente sócio-histórico já conhecido que não passou desapercebido por Jung. Segundo o médico suíço, as condições de emergência do nazifascismo incluíram uma sociedade insegura e totalmente desconfortável na própria pele, que precisou encontrar um bode expiatório no qual seria projetado todo o mal existente no mundo, de tal maneira que sua eliminação fizesse restar somente as “pessoas de bem”. Assim, um vago mal-estar ganhava forma na figura de supostos monstros criados pela necessidade extirpar a incerteza que brotava em cada indivíduo. Estes então se aferravam desesperadamente aos simulacros de virtudes que exibiam, de modo que a percepção do diferente o reduzia à expressão de tudo o que é impuro, defeituoso e indigno de existir.

Há diferenças, evidentemente, na situação daquela época e na de agora. Mas há semelhanças também. E creio que elas estão menos nos acontecimentos em si do que nos sentimentos que fazem emergir. Em uma palavra: medo. As grandes crises econômicas e as pandemias, bem como as crises decorrentes de pandemias e as pandemias disseminadas em meio às crises, terão sempre como fatores comuns as emoções muito primárias que estimulam, com destaque para a incerteza e a insegurança que disseminam. Falo isso de uma posição relativamente confortável, de maneira alguma imune às consequências econômicas e ao risco de perder familiares queridos para a doença, porém com alguma possibilidade de atravessar o pior sem me ver totalmente destituído de recursos para enfrentá-lo.

E, ainda assim, estou com medo, medo suficiente para que tenha se tornado uma companhia constante, e uma companhia que preciso aceitar não apenas em seus aspectos inocentes, mas também no comportamento egoísta de autoproteção que é capaz de gerar. Porque a alternativa a reconhecer meu próprio egoísmo é projetá-lo outros, acusando-os de estarem ocupados somente com a própria segurança e bem-estar (como às vezes devem estar mesmo, como eu às vezes estou), adicionando injúria ao desespero, e fazendo com se sintam duplamente mal consigo mesmos. Dá para ver então como isso facilmente se reverte numa espécie de batata quente, pela maneira como essas acusações serão passadas adiante, ou retornadas para mim em dobro.

É verdade que épocas assim favorecem também comportamentos solidários e compreensivos. Mas, infelizmente, sabemos que momentos de grande ansiedade podem reverter-se nos períodos mais sombrios da história. Isso pode estar relacionado não apenas ao medo em si, e às reações mais ostensivas que favorece, mas também à dinâmica mais sutil pela qual ele se transforma em perseguição de um outro que passa a encarnar os sentimentos brutos rejeitados pela sociedade. Além disso, com a parte de nós mesmos que abriga aquelas virtudes (a solidariedade e a compreensão), temos certa facilidade de conviver, para não dizer certo gosto, na medida em que favorecem a autoestima e a aprovação das pessoas próximas. O difícil é encarar a outra parte (a que é covarde, insegura, medrosa), e não apenas aceitá-la, como também acolhê-la.

A situação me lembra um personagem de Hilda Hilst, Isaiah o matemático, que precisa acolher um porco que do nada lhe aparece em meio à limpidez do laboratório, desajeitado, gordo, temeroso, carente, parecendo enfermo inclusive. “Não é doença, Karl, é medo”, Isaiah então se lembra de sua mãe falando dele próprio, com ternura, com o pai. “Sempre de alguma coisa temos medo”.

Sempre de alguma coisa temos medo. Nosso corpo em particular está sempre atento para um conjunto enorme de ameaças com que a espécie humana não se acostumou muito bem a conviver. A analogia do porco com o corpo me parece imediata, e a relação porco-corpo-medo também; creio que Jung a teria aprovado a ideia do porco como imagem arquetípica, que remete aos instintos corporais mais básicos, mais inclinados a reações que consideramos vis e pouco iluminadas. Diante de um vírus então, essa ameaça tão poderosamente invisível, mais do nunca de alguma coisa temos medo. E temos medo de nós mesmos também, das nossas reações e sentimentos diante de uma catástrofe humanitária, temos medo de não sermos suficientemente humanos para enfrentá-la, temos medo da nossa mesquinhez e de nosso egoísmo. A parte suja que existe em nós parece prestes a vir à tona. Pois bem: se vier, aceite-a.

Aceite-a, porque aceitá-la significa interromper o mecanismo que a reproduz exponencialmente. Aceitá-la significa mantê-la dentro dos limites bastante razoáveis em que ela existe dentro de você, que deve ser uma pessoa bem capaz de egoísmos e generosidades, como a maioria das outras também é. Nada impede que a virtude e o vício coexistam e se alternem no comportamento de uma pessoa. Agora, caso você vire o rosto para o próprio egoísmo, fatalmente ele será projetado nos outros, que vão reagir acusando-o de ser o verdadeiro culpado, o verdadeiro mesquinho, ou buscando outros bodes expiatórios para a extirpar o medo que sentem, que assim vai só crescendo a cada indivíduo que dá sua contribuição para  afastá-lo de si. Em resumo, aceite seus sentimentos, porque aceitá-los é achatar a curva do medo.

Achatar a curva do medo é, basicamente, sentir medo, e buscar algum tipo de conciliação com a parte de nós que preferimos nem ver. Tudo isso traz à tona mais uma vez a figura de Quíron, o xamã ferido, o hierofante do tarô mitológico, o centauro ao mesmo sábio e vil que foi o tutor de Aquiles na mitologia grega. Quíron era vítima de um profundo senso de inadequação com o qual precisou aprender a conviver; era capaz das mais torpes baixezas, por sentir-se excluído da sociedade humana, e também das mais altas bondades. Não vou me estender nesse ponto porque já me estendi bastante nos outros, e já tratei de Quíron com mais detalhes em outras postagens (aqui, e também aqui, por exemplo).

Enfim, me lembrei dele novamente sobretudo porque a descrição que Alan Watts oferece de Jung é bastante quironiana, como acréscimo do sorriso suavemente perverso com que ele demonstrava conviver com as próprias perversões. Acredito que toda época encontra em alguns arquétipos de chance de ganhar consciência simbólica de certas virtudes e de certas falhas que a atravessam. A figura de Quíron tem a vantagem de que não apenas certas virtudes e falhas, como também essa ambivalência. Talvez tê-la mais uma vez à mão nos ajude a perceber que é possível sentir a ferida sem revertê-la em motivo de perseguição e ódio. Muito do que teremos com que lidar agora diz respeito a esses sentimentos. Ou, como diria a mãe de Isaiah: não é doença, Carl. É medo.  


PS: neste canal aqui você encontra uma boa coleção de gravações das palestras de Alan Watts; estão em inglês, mas pelo menos a dicção dele é clara e pausada o suficiente para permitir a compreensão de um ouvinte pouco adaptado. A palestra que mencionei sobre C. G. Jung é essa aqui.

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Folia dos asteroides

Gosto da ideia de que a palavra folia remete etimologicamente à festa, à tolice e à loucura. Resulta daí que carnaval é um feriado que cada um deve mesmo passar dedicando-se aos pagodes que mais lhe apetecem. De minha parte, resolvi aproveitar para estudar uns asteroides. A brincadeira é apropriada porque, por mais que eventualmente use asteroides em interpretações de mapas e horóscopos, acho divertidíssimo pesquisá-los e conhecê-los por prazer mesmo, sem uma finalidade imediata, e inclusive por conta algumas bobagens saborosas a respeito deles que a gente encontra no caminho. São tão instigantes em seus nomes e características; são tão específicos em seus significados e relações.

Um tempo atrás descobri, por exemplo, que o asteroide 1566 ganhou o nome de Ícaro em função da órbita muito peculiar que realiza em torno do Sol. Vou deixar a imagem da órbita aí embaixo, entre um parágrafo e outro; a figura aí de cima é a do quadro de Marc Chagall para o Ícaro mitológico. Lembrando: ele foi o rapaz que ganhou asas construídas por seu pai, Dédalo, para que pudesse escapar do labirinto de Creta. Como deixou-se voar alto demais, acabou se queimando sem querer, e sofreu uma queda abrupta e veloz.

Essa é a parte astronômica e lendária. Mas, com isso, já dá para imaginar com facilidade as situações em que Ícaro participa de nossas vidas. São aquelas em que alguma forma de apoio ou incentivo nos fornece soluções para uma situação difícil, ou surgem condições para alçar maiores voos em alguma área onde estamos nos esforçando sem sair do lugar. Por outro lado, são também circunstâncias nas quais o entusiasmo ou o orgulho decorrente desse impulso requerem certas precauções, para que a gente não acabe se espatifando no chão.

No momento, Ícaro se encontra no terceiro grau de Aquário, portanto em quadratura com Urano em Touro, o que, dependendo do mapa natal da pessoa, pode de fato inspirar esse tipo de cuidado. Para quem tiver interesse nas efemérides, vou deixar aqui o link para a lista mais completa que conheço, embora goste também da lista do site da Jessica Adams, mais enxuta e visualmente mais agradável de acompanhar (nesse link aqui).

A propósito, o livro sobre o assunto que mais recomendo é o Mechanics of the Future, de Martha Lang-Wescott. Falei um pouco mais desse livro no final dessa postagem, onde menciono também o bom livro de Demetra George sobre Ceres, Vesta, Juno e Pallas, asteroides que entre 1808 e 1845 foram tidos como planetas (Ceres hoje é mais exatamente reconhecida como um planeta anão), são associados a arquétipos femininos, e estão em vias em vias de incorporação ampla à prática astrológica. É da Martha Lang-Wescott também a página mais incrivelmente bem alimentada de informações sobre o assunto que conheço; desconcertantemente bem alimentada, eu diria até.

Quem percorrê-la vai perceber que a quantidade de asteroides que já ganharam um nome e foram investigados astrologicamente é enorme. Nesse mesmo estágio em que está nosso conhecimento sobre Ícaro, por exemplo, são centenas. Uma vantagem disso é que muitos deles passaram a ser denominados a partir da mitologia e do folclore de povos diversos, e também que, quando permanecemos no âmbito da Europa, a coisa não se restringe mais a narrativas mitológicas. Há, por exemplo, um asteroide chamado Dom Quixote (número 3552), que no momento está retrógrado em 26 graus de Gêmeos. Pelo nome, não é difícil imaginar alguns de seus significados e implicações, e, portanto, não se assuste se você encontrar por aí geminianos reencenando lutas contra moinhos de vento.

Outra coisa que chama a atenção, em casos assim, é o mistério da complementaridade entre a denominação desses astros pelos astrônomos e seus significados simbólicos-astrológicos. Pelos nossos padrões usuais de relação causa e efeito, não faz muito sentido que os nomes ‘certos’ sejam os escolhidos pelos cientistas. Mas nada na astrologia faz muito sentido pelos nossos padrões usuais de causa e efeito; além disso, é difícil imaginar que a opção dos astrônomos por esse ou aquele nome seja totalmente aleatória. Então é possível também que isso seja feito a partir de alguma orientação bem pouco óbvia – uma dica intuitiva do inconsciente coletivo, por assim dizer.

O certo é que, por serem quase anedóticos em suas singularidades – embora não deixem de ter um enorme potencial para um uso sério e pragmático –, os asteroides são capazes de tornar o estudo da astrologia algo ainda mais envolvente do que normalmente é. A linguagem astrológica só tem a ganhar com este tipo de enriquecimento. Algo semelhante acontece com as partes árabes e pontos mais frequentemente usados na astrologia védica, como os já recorrentes nodos lunares, também conhecidos como cauda e cabeça do dragão.

No mais, para mim pelo menos, isso tudo ainda funciona do mesmo modo como funcionava de acordo com essa notinha a seguir, que escrevi uns anos atrás, quando não existia ainda esse blog, eu estava começando a estudar a astrologia com maior profundidade, e ao mesmo tempo comecei a me entreter com esses encantadores detalhes cósmicos:

Há um asteroide para as facas. Há um asteroide para as estratégias. Há um asteroide para determinados tipos de drogas. Há um asteroide para soluções práticas que vêm acompanhadas de dilemas morais.

Há um asteroide para paixões breves. Há um asteroide para momentos eternos. Há um asteroide para a medicina preventiva. Há um asteroide para as dores que não se pode curar.

Há uma posição do Nodo Norte que transforma zumbis em diplomatas. Há uma posição do Nodo Sul que transforma vigaristas em profetas. Há um ponto no mapa para relações inevitáveis e fatais. Há um ponto no mapa para decisões em que os astros não podem ajudar.

Há um ângulo entre a lua e o ascendente que, dependendo da posição de Netuno, pode muito bem fazer com que o Papa reencarne para tornar-se um Buda. Há outro em que um Buda reencarna para ser um general e entender melhor as artes da guerra. Isso se ele quiser, é claro. Ele pode muito bem continuar sendo só um Buda mesmo. Mas é possível que vá ficando cada vez mais cansado e rabugento.

Há posições de Saturno que indicam partos demorados. Há posições de Plutão que favorecem mortes gloriosas. De tempos em tempos, Vênus e Mercúrio estão de tal maneira relacionados que apontam uma forte possibilidade de encontrarmos um gato perdido miando baixinho no quintal de nossa casa. Isso vai mudar as nossas vidas. Ou então a lembrança desse dia vai mudar as nossas vidas, quando chegarmos aos 49 anos de idade.

Aprender astrologia é como estudar uma língua estrangeira: a melhor parte são as palavras e expressões que existem para coisas que sua própria língua não consegue nomear.

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Os amores difíceis

Corações Livres (2002) | Dir. Susanne Bier

“Tornava-se claro para ambos que o fim ainda estava distante, e que o mais difícil e complexo apenas se iniciava”. Essa frase – referindo-se a um começo – curiosamente encerra A Dama do Cachorrinho, um relato do escritor russo Anton Tchekhov que frequenta todas as listas de melhores contos de todos os tempos. O trecho surge quando o par romântico da história percebe que não encontrará tão cedo solução para o problema que enfrenta durante a narrativa: o de se amarem, mas já estarem casados com outras pessoas. Seja por circunstâncias históricas, seja por questões éticas, parece-lhes impossível resolver o assunto em um lance só. Não enfrentar o problema, porém, tampouco é uma opção. De tal modo que se veem enredados em condições bastante complicadas, que não dizem respeito diretamente aos seus sentimentos mútuos, mas são incontornáveis para que esses sentimentos possam se expressar.

Me lembrei desse conto em particular porque Juno está pairando sobre nós com particular intensidade esses dias, e eu diria inclusive nos últimos tempos. Em consultas e com amigos, andei conversando com muita gente – direta ou indiretamente – sobre Juno. Do ponto de vista astronômico, trata-se de um grande asteroide, conhecido por esse nome desde 1804. Do ponto de vista astrológico, diz respeito a acordos, condições e contratos que regem os relacionamentos. Creio que este é um assunto cuja dificuldade e complexidade só aumentou desde que Tchekhov publicou seu relato em 1899 (de fato, as coisas estavam apenas começando), e isso se reflete nas maneiras bastante concretas como ele se apresenta agora cada um de nós.

Mas permitam-me uma digressão: lá atrás, já encontramos a figura de Juno vinculada a assuntos como a infidelidade, a quebra de contratos, e o que cada um está disposto a aceitar para manter uma relação. Juno foi a esposa de Júpiter na mitologia romana, assim como Hera foi de Zeus na mitologia grega. Ganhou fama de ciumenta e intratável por conta de suas reações diante das escapadelas do marido, porém era bastante engenhosa na hora de traçar os limites do tolerável. Podia agir com uma capacidade de definição que não tinha de irracional ou colérica, quando decidia que havia chegado o momento de tomar uma atitude mais brusca. Já a partir daí, podemos ter uma ideia não apenas dos temas que são regidos por Juno, mas também do tipo de comportamento que ela estimula ou incita.

A gênia dos asteroides Martha Lang-Wescott se refere a Juno como um “ponto do casamento”, que conecta as energias de Vênus e Plutão. Em Vênus, os afetos se manifestam em uma feliz troca de cortesias e carinhos que não precisa nunca se deter em negociações e definições restritivas, ou lidar com as realidades duras da vida; em Plutão, tudo é definitivo em um plano sexual e espiritual mais oculto ou profundo, onde acontecem as fusões dos pares e as separações irrevogáveis como a morte. Se Juno está entre uma coisa e outra, ela é responsável justamente pela dimensão prática, cotidiana ou contratual que não encontramos em nenhum desses lados, mas é parte importantíssima dos relacionamentos. Até porque, em última instância, pode fazer com que relacionamentos comecem e, sobretudo, terminem – mesmo quando o amor e a atração sexual nunca deixaram de existir entre duas pessoas.

Juno retém de Plutão, portanto, uma dimensão trágica nos assuntos que a envolvem, mas tem na conexão com Vênus o recurso à diplomacia e aos acertos retificadores de um mundo em vias de dilacerar-se. Se as coisas vão andar num caminho em outro é o que muita gente está se perguntando agora. Pode acontecer, por exemplo, da questão sobre ter ou não filhos assomar e tornar-se tão complicada quanto incontornável entre duas pessoas. Não há alternativa, nesse caso, que não seja colocar o assunto sobre a mesa, para descobrir se há uma solução negociada ou não há solução alguma. O mesmo pode acontecer nos acordos a respeito de relacionamentos à distância, nas opções por relacionamentos não-monogâmicos, nas reverberações de casos extraconjugais: Juno pede disposição para a conversa, mas não garante que ela seja o suficiente para se encontrar uma saída.

Então, se Juno diz respeito ao casamento, tem tudo a ver com separações também. É aí que sua capacidade de tomar uma decisão difícil mais claramente se sobrepõe às flutuações venusianas. Até porque seus piores traços se manifestam quando uma decisão dessa natureza é evitada em nome de uma suposta harmonia, gerando um possível ciclo de agressões, ressentimentos e vinganças. Aliás, Juno é também sobre o balanço de créditos e débitos que nunca deixa de existir em parcerias, eventualmente envolvendo questões financeiras mesmo, que requerem uma abordagem ao mesmo tempo prática e sensível às circunstâncias. Considerar a realidade desses trâmites é parte importante do tipo de atenção de Juno requer e proporciona, quando está particularmente ativa no céu ou em relação a um mapa pessoal.

Ela nos permite entender melhor aquilo que é inegociável, e as condições sem quais não estamos dispostos a prosseguir. É natural que a gente aceite algumas decisões em comum a contragosto numa relação, mas o peso desses gestos para nós pode muito bem acarretar um desequilíbrio que não terá como ser corrigido depois. Há casais que se mantêm por anos em uma divisão de papéis no qual o lugar de quem “abriu mão de muita coisa” é ocupado um dos parceiros com certa luxúria recriminatória e inclinações passivo-agressivas, que não têm como chegar a bom termo. Chegar a um termo já é uma conquista nesse caso.

Por outro lado, e pelos mesmos mecanismos, Juno nos faz perceber aquilo que pode ser sim objeto de concessões e acordos. Mas isso não necessariamente é sinal de facilidades, muito pelo contrário: parte daquilo que se complicou para nós desde a publicação do conto de Tchekhov decorre da ampliação do espectro de temas que precisam ser discutidos e acertados com frequência em um relacionamento. Santa complicação: assuntos que em outros tempos eram definidos pela tradição, pelos costumes religiosos ou pelos papeis sociais de gênero, por exemplo, passaram a ser colocados sobre a mesa em uma base diária, requisitando uma busca de soluções tão criativas quanto provisórias. É bom que seja assim, por mais que a gente tenha ainda muito o que aprender com o tipo de flexibilidade e dinamismo que isso envolve.

Minha impressão, portanto, é a de que nossa sensibilidade para esse tipo de demanda nos relacionamentos só vai aumentar – e que com isso eles vão continuar ficando mais difíceis, complicados e recompensadores. Pensem: até outro dia as pessoas não podiam nem se separar, as mulheres eram subjugadas das formas mais ostensivamente legais (do ponto de vista jurídico), e ter amantes regulares era uma opção vulgarizada para contornar os efeitos dessa rigidez. O conto de Tchekhov acontece justamente quando duas pessoas decidem se insurgir contra essas circunstâncias, mas ainda não sabem por onde fazê-lo, mas não conseguem desistir de tentar.

Não sei qual é o mapa astral do conto, não cheguei a ver em quais condições estelares Dimitri e Anna se conheceram, mas suspeito estavam sob uma forte influência de Juno. Ela, que antigamente era vista como a deusa do casamento, responsável pela dimensão contratual das parcerias afetivas, passou a ser também deusa das separações – e das infinitas zonas de sombra que existem entre uma coisa e outra. Quanto a essas zonas de sombra, acho também que muito do que caracterizam como o ‘amor líquido contemporâneo’ decorre da nostalgia de um tempo em que as convenções sociais conferiam uma espécie de rígida estabilidade aos relacionamentos. O que temos agora é realmente mais incerto, mas nem por isso é menos consistente.

Muito pelo contrário. Enfim, se eu estiver certo, e Juno passar a fazer cada vez mais parte de nossas vidas, estaremos justamente repassando a cada dia os acordos e definições que temos como nossos parceiros. Isso não nos transformará em frios advogados de causas interminavelmente recorridas por um motivo simples: há, sim, uma importante dimensão afetiva nesses diálogos, por mais pragmáticos que possam parecer. Se o ressentimento e a agressão impensada são decorrentes de assuntos mal manejados nessa esfera, isso quer dizer que o respeito, o cuidado e a inteligência são as virtudes necessárias para manejá-los bem. Contratos não são apenas representações de afetos: eles são também um lugar onde os afetos acontecem. Ajustá-los com atenção e justiça é também uma forma de carinho. Juno não diz respeito apenas a problemas e conflitos práticos que precisam ser resolvidos. Ela vê os problemas e conflitos como um outro espaço em que o amor pode se manifestar.

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O Sol e a Sombra

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“O Sol é o único objeto natural que não conhece dilema íntimo”. Lembrei dessa definição de C. G. Jung diante do resultado da enquete que fiz aqui sobre quem seria o grande vilão do zodíaco. Nada a ver com o primeiro lugar que Gêmeos conquistou, com folga até, pois esse título era aguardado e não surpreendeu ninguém. A gente sabe que Gêmeos é o signo mais de boa que tem, a gente sabe que é o que menos leva a sério esse tipo de brincadeira. Então, na hora de brincar sobre quem é o maior vilão do zodíaco, a gente vai lá e vota em Gêmeos, nem que seja só para dar aquela zoada básica em quem vai saber zoar de volta.

Tampouco o que me chamou no resultado foram o segundo ou terceiro colocados. Foi o último. Porque lá atrás, com um votinho apenas, destacou-se, por contraste, a lamentável performance leonina. Confesso que esperava mais; até entendo, por exemplo, que Touro tenha sido deixado no fim da fila também; mas o fato de Leão não ter ganhado nem de Touro é algo a se observar. Fiquei até curioso de saber quem foi a alma que remou contra a corrente e encontrou motivos para cravar o voto solitário. No fim das contas, Leão ganhou uma espécie de título também: o de signo menos demonizado do zodíaco.

O engraçado é que conheço gente que tem uma preguiça enorme de Leão e de suas vaidades, caprichos, exuberâncias. Mas acho que até essas pessoas, na hora de escolher um vilão zodiacal, acabaram escolhendo outro signo, porque por algum motivo não tem graça implicar com leoninos. Eles realmente não vão ligar muito, vão no máximo dar aquela olhadela para baixo e notar meio que de passagem nossas diversões bobas e levemente ridículas, mas não o suficiente para merecer um comentário. Em seguida, vão voltar para o que estavam fazendo antes.

Porque Leão é isso: esse envolvimento autossuficiente naquilo que se está fazendo, esse prazer desinteressado naquilo que se está criando. Por isso, o jogo, a arte e a brincadeira se alojam no arquétipo leonino. É verdade que, como disse antes, a brincadeira tem uma dimensão geminiana também, mas nesse caso estamos falando mais propriamente dos jogos e truques com a linguagem que fazem a gente suspeitar que existe algo de irremediavelmente encapetado em Gêmeos. Já em Leão, reina a inocência dos divertimentos infantis.

É essa inocência que no trecho de Jung aparece como um “desconhecimento de dilemas íntimos”, onde a “discrepância que se apoderou da alma humana pode se desfazer harmoniosamente”. Porque o Sol é o regente de Leão. Jung, a propósito, era leonino também. Curiosamente, o conceito de sombra é fundamental em sua obra: um aspecto desconhecido ou oculto da personalidade, rejeitado pelo ego por não se adequar a expectativas e valores sociais, e passível de um trabalho que o incorpore à consciência através da psicoterapia.

Acontece que o Sol não tem sombra, literalmente falando. Pois como poderia ter uma sombra, o Sol? Algo semelhante acontece no arquétipo de Leão: é feito de pura luz, e se compraz em queimar suas energias infindáveis, ao mesmo tempo generoso e indiferente aos seres que estão em volta. Agora, antes que se dê a entender que estou livrando a cara dos leoninos de quaisquer acusações de vilania, duas ressalvas. A primeira, mais óbvia, é que justamente por ser assim, Leão pode se tornar particularmente cego para as próprias falhas.

Pois, sim, o Sol desconhece dilemas e harmoniza discrepâncias – mas só mesmo ele, o Sol, faz isso. Nós somos apenas humanos recorrendo a alguns símbolos para tentar entender melhor o que somos e o que nos acontece. Aquele entre nós que realmente se acreditar em posse de atributos solares será como o Rei que já não escuta senão elogios para si próprio. A propósito, a figura do Rei se encontra no arquétipo de Leão, não apenas em seus aspectos luminosos, mas nos sombrios também.

A outra ressalva é a de que, de certo modo, o Sol recebeu todos os votos da enquete. Porque aquilo que reconhecemos como nosso signo ou o signo de nossos amigos e conhecidos é na verdade o signo solar de cada um de nós. Vejam só que maravilha essa virada de jogo: o regente leonino passa assim em um só golpe da última para uma primeira e invencível colocação. Porém, se o que a gente entende como o signo das pessoas é o fogo que elas queimam, de maneira alguma isso serve como síntese das qualidades que estão em jogo em um mapa astrológico natal.

O Sol, decerto, é parte importante dessa brincadeira, e sobretudo uma parte evidente, que se expõe ao escrutínio público, e por isso se torna a maneira como identificamos vilões e heróis no zodíaco. Nesse sentido, não surpreende que as pessoas tenham o hábito de tatuar na pele símbolos de seus signos solares. Nosso Sol é algo de que a gente se orgulha, e não precisa nem ser um Sol em Leão. Pode ser um Solzinho em Virgem, mais humilde mesmo. Mesmo os geminianos, por mais que possam participar de nossos rituais de avacalhação de seu signo, no final das contas acham o máximo ser de Gêmeos.

Aproveitando, uma vez escrevi aqui um texto sobre o ascendente e prometi que depois explicaria como entendo que se dá a relação entre o signo ascendente e a aparência física das pessoas. Essa é uma boa oportunidade. O símbolo do ascendente não é algo que a gente tatua na pele porque o ascendente é a própria pele. Melhor dizendo: é nossa aparência, da maneira como a produzimos e expomos sem maiores cálculos e ponderações, do mesmo modo como a gente realiza outras atividades corporais de maneira impensada, como bater o coração e correr o sangue pelas veias.

Sim, isso são coisas que a gente faz, embora não sejam coisas que a gente decide fazer. Passarinho não decide voar porque acaba de nascer: de repente ele vai lá e voa. Por isso o ascendente é uma energia que vibra em nós de maneira positiva, espontânea, natural, como uma árvore produzindo seus frutos, porque produzir seus frutos é algo que a árvore faz. É a maneira como lhe coube participar dessa imensa dança que é o universo, sem que em momento algum ela tenha que ter deliberado a respeito.

No caso de nós humanos, as coisas são mais complicadas, é claro. No entanto, vez ou outra elas são simples assim. Quando isso acontece, presenciamos os arquétipos zodiacais agindo com inteireza: não sem dilemas íntimos, mas os aceitando com menos dificuldade, e não sem manifestar sua sombra, mas ficando à vontade com ela. Isso acontece através do ascendente, e se ele se torna mais identificável em nosso comportamento em algum momento da vida, isso é um bom sinal, de que estamos nos preocupando menos com o escrutínio público e as expectativas sociais – e por isso mesmo, às vezes, recebendo um retorno muito mais positivo do ambiente imediato.

Mas no geral o que fazemos é tentar articular as energias mais contraditórias, tal como se apresentam nos signos solares, lunares e em todos os demais planetas do horóscopo. O zodíaco, portanto, não tem um grande vilão, e todos nós de uma maneira ou de outra mobilizamos todos os arquétipos em uma combinação única e irrepetível de suas cumplicidades e conflitos. “As forças psíquicas não têm uma direção única e muitas vezes se dirigem umas contra as outras”, escreveu também Jung em outra formulação que cabe bem aqui.

Então: algumas colisões são simples, e podem se reduzir aos humores variáveis de um dia. Outras são mais complicadas e podem levar uma vida que chegar a bom termo, como por exemplo a das forças psíquicas que chamamos de Sol, Lua, Vênus, Marte, Saturno, Ascendente, etc., tal como aparecem em nosso mapa natal. Pois tudo isso compõe essa magnífica mandala que todo mundo carrega consigo, com as linhas rajadas que nela se entrecruzam tecendo em nós uma complexa rede de relações que aos poucos a gente vai entendendo melhor – desde o começo de tudo. E também, é claro, desde o nosso nascimento.

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Escrito nas estrelas

Existe um filme dos anos 1990 em que Deus aparece para os personagens através de um grande painel luminoso de beira de estrada. Eu me lembro de pouca coisa desse filme; sei que era com a Sarah Jessica Parker e com o Steve Martin, e que Deus aparecia para eles através de um grande painel luminoso de beira de estrada. O engraçado disso era a maneira escancarada e nada enigmática com que Ele se comunicava, sendo ao mesmo tempo capaz de passar totalmente desapercebido (porque, né, quem ia acreditar que era o Próprio se manifestando ali em letras garrafais, ao lado das varandas de um motel ferrado nos arredores de Los Angeles). A razão pela qual me lembrei agora desse filme e dessas cenas é a mesma que me fez ter vontade de deixar aqui mais algumas observações sobre os trânsitos astrológicos de 2020.

Para ser direto, até porque esse texto é um também um pouco sobre como as mensagens do cosmos podem ser claras, luminosas e garrafais, eu diria que Deus pode estar se comunicando com cada um de nós exatamente assim nesse início de ano. Está se expressando de maneira inequívoca, grosseira, até escrachada, porém por meio de artifícios tão ostensivos que por isso mesmo podem não parecer, digamos assim, divinos. Nós esperamos de Deus que se comporte com certa dignidade, que respeite o decoro do cargo, que mantenha um mínimo de compostura – não que nos jogue verdades na cara como uma tia bêbada que perdeu a paciência com as sutilezas da família na ceia de natal. Jesus Cristo, por exemplo, trouxe sua palavra através de delicadas e elegantes parábolas, e inclusive recusou lançar mão de quaisquer recursos cênicos milagrosos para provar seu poder e aumentar seu rebanho.

Agora, já que Jesus entrou na história, é bom deixar claro de que tipo de deus estou falando. E o deus de que estou falando atende pelo nome de Plutão, ou Hades, o soberano dos infernos na mitologia grega, e que na astrologia responde pelas camadas mais profundas da psique, por nossa relação com a mortalidade, e pelos comportamentos mais desviantes ou abusivos do ser humano. De modo que é uma mensagem vinda lá de baixo, de um lugar para onde normalmente não queremos olhar, sobre assuntos que normalmente não queremos remexer, que está sendo enunciada, sublinhada, destacada, gritada, berrada e balida para muita gente esses dias. O fato de ser uma mensagem possivelmente indesejada não a torna menos bem-vinda, e talvez ela esteja recebendo esse tratamento agora exatamente para que a gente enfim a aceite, e, com isso, a vida possa seguir adiante.

De um ponto de vista técnico, a percepção condiz com o significativo conjunto de planetas que está formando um quase inédito alinhamento em torno de Plutão até meados de janeiro de 2020. Vale notar que o fenômeno inclui Mercúrio, o mensageiro dos deuses, também aquele que fazia a ligação do plano terreno com o submundo – e, portanto, em sua aparente superficialidade, um agente fundamental da sincronia entre fenômenos psíquicos profundos e as vastas dimensões astrais. Mas creio que todos os integrantes da trupe estarão cada um à sua maneira enfatizando uma verdade que já está aí há algum tempo, mas que podemos ter tentado evitar de todo jeito até agora. Não mais: é a definitiva consciência dessa mensagem, por mais difícil que seja, que vai nos permitir começar de novo e voltar ao jogo em 2020.

É também disso que estava falando quando disse na última postagem que “o fim está próximo”. O fim é essa consciência de algo não tem mais jeito, não tem conserto, não tem remédio, nem nunca teve, na verdade. Ou, como descreveu a psicóloga e astróloga Liz Greene: “Plutão, ao que parece, rege aquilo que não muda nem vai mudar. Essa é uma questão particularmente dolorosa na época das terapias de autoajuda e da disseminada crença de que podemos ser o que quisermos (…) É irônico, e paradoxal, que a genuína aceitação do imutável seja a chave para transformações profundas na psique humana. Essa ironia de fato não parece ser comunicável a não ser nas chamas da vida. Então ela permanece um segredo, não porque ninguém irá contá-la, mas porque ninguém vai acreditar nela, a não ser que tenha sobrevivido ao fogo.”

Greene acrescenta ainda: “Terapias e meditações e dietas e encontros não têm efeito aqui; e a decisão não é mais sobre a coisa certa a se fazer, mas se devo sacrificar o braço direito ou o esquerdo”. Nesse ponto imagino a impotência que ela mesma deve ter sentido como psicóloga para ajudar seus clientes a contornar crises dessa natureza, diante da ineficácia de seus recursos e técnicas e truques terapêuticos. Estamos falando, por exemplo, do momento em que uma mulher compreende que a maneira como foi tocada por um parente quando menina foi sexualmente abusiva, ou que determinado episódio com um ex-namorado violento foi na verdade um caso de estupro – e que isso, o fato de ter sido estuprada, já não se acomoda às explicações que criou ou aceitou para evitar dar o nome às coisas, tornando-se então parte incontornável daquilo que ela é, foi e virá a ser.

Sei que, para quem começou esse texto lendo uma leve e simpática menção a uma comédia romântica, talvez aguardando uma otimista previsão de ano novo, chegamos a um ponto meio sombrio demais para os incautos. Paciência, é isso que que você recebe quando resolve ler alguém o blog de alguém com lua em Gêmeos e ascendente em Escorpião. E a partir daqui não tem mais volta. “A PARTIR DAQUI NÃO TEM MAIS VOLTA”: leia, é o que estão dizendo os sinais. Mas, naturalmente, eles vão afetar uns mais que outros, de acordo com os planetas em seus mapas natais, de maneira que o incontornável pode se apresentar de maneiras mais ou menos intensas para cada um, e pode relacionar-se com assuntos mais prosaicos, embora sempre com um certo grau de evidência e mesmo de acintosa honestidade.

Um exemplo simples é o de alguém que, diante de uma pessoa querida, porém bastante mais velha, de repente percebe com toda clareza a decadência corporal e finitude que essa pessoa encontrará em um futuro não muito distante. Outro é de um indivíduo que vem insistindo no sonho de uma determinada carreira, e se depara com um empregador descuidado, que em uma entrevista irá lhe dizer que não, de maneira alguma, ele não leva o menor jeito para aquilo. Como provavelmente seria o caso nessa situação, quando Plutão e suas barreiras intransponíveis aparecem para nós, a primeira e natural reação é de raiva, ou desespero, ou a mais absoluta impotência. Só com o tempo somos capazes de nos tornar gratos ao entrevistador que nos tirou as mais preciosas esperanças e nos encaminhou a contragosto para uma outra atividade, ou à enfermeira que nos deu uma notícia triste de maneira honesta, ou ao terapeuta que nos levou até o submundo de nossas memórias para revirar o lixo que existe lá. Só com o tempo – se é que.

Se é que: mas gratidão nesse caso é um sentimento de menor importância. Aceitar já basta. E como é difícil, às vezes, aceitar mesmo aquilo que está piscando em luzes ofuscantes diante da gente. Esses dias, para dar um último exemplo, uma pessoa que já mentiu muito para mim no passado – em uma triste história que envolve segredos familiares, manipulação e violência, o pacote completo – resolveu inventar uma história para justificar um comportamento inadequado mais recente. Foi esse o acontecimento que me fez lembrar do filme com Deus no pisca-pisca da beira da estrada.

Bom, eu estava acostumado a pensar que essa pessoa mentiu para mim no passado – não que isso permanecesse como um hábito, não que a história lá de trás continuasse de algum modo agora, com outras pessoas envolvidas. Então precisei escutar uma história escancaradamente mentirosa para cair em mim: mas é claro, essa pessoa mente, sempre mentiu, simplesmente nada mudou. Nesse caso em particular, sinto hoje o distanciamento necessário para ser capaz inclusive agradecer ao destino pelo descalabro da versão dos fatos que me foi apresentada nessa situação presente, até porque ela é bem menos ofensiva do que as anteriores. Era como um outdoor de todo tamanho feito para que eu percebesse: veja, é uma mentira. E não há como ser de outro jeito.

O que eu queria mesmo, é claro, era que me fosse contada a verdade, e sobretudo que a verdade do que vivi e vi lá atrás quando era criança fosse reconhecida, que alguma espécie de retratação me fosse concedida, ou algum traço de arrependimento presenciado. Mas é nessas horas que o destino intervém para dizer: NÃO VAI ROLAR. Disso eu até já sabia há algum tempo, mas Plutão tem esse jeito que reaparecer para a gente às vezes, quando começamos a reassumir esperanças sobre os assuntos que ele governa em nossas vidas. A vantagem é que, depois, a energia que sobra para outros assuntos é imensa, simplesmente porque as energias que gastamos confrontando o inconfrontável, durante grande parte da vida, é desmedida também.

Enfim, outro dia minha mulher me perguntou se é possível identificar um serial killer por seu mapa astral. Tive que dizer a verdade: muitos são parecidos com o meu. Segundo a própria Liz Greene, pessoas com mapas assim (tenho o Sol e Marte em quadratura exata com Plutão, entre outros detalhes adicionais) ou viram assassinos, ou viram psicólogos e coisa parecida. “Astrólogo” foi a coisa parecida que encontrei para mim. De modo que vocês podem continuar contando comigo durante o ano que virá para escrever sobre os astros. Outro dia disse que provavelmente ficaria sem escrever por uns tempos. Mas vejam bem, saímos no lucro com mais essa postagem sobre Plutão, pois tenho que manifestar de algum modo as influências íntimas que ele sempre exerceu em minha vida, e essa parece ser uma das mais inofensivas e saudáveis.

Aí ontem vi uma imagem com um texto que resume bem o que estou tentando dizer sobre os trânsitos desse fim de ano desde a postagem anterior (quem não leu e quiser ler, é só clicar aqui). Ela dizia algo assim: “2017 me mudou. 2018 me quebrou. 2019 me abriu os olhos. É 2020, e estou de volta”. Então, acho que esse comecinho de ano é uma espécie de última chamada para quem precisa ter os olhos abertos, mesmo sobre assuntos complicados, e principalmente sobre eles. Para nossa sorte – se é que a palavra é essa – Deus estará se comunicando conosco através de sinais bem evidentes. Bom, talvez não exatamente Deus, mas vários deles, ao mesmo tempo, de uma vez só. Portanto apertem os cintos, fiquem atentos aos luminosos – e que esse seja um ótimo ano novo para todos nós.