astros, peixes

Aprendendo a nadar

David Hockney | A Bigger Splash (1967)

Marte ingressa em Peixes por agora, no começo dessa quarta-feira, onde vai seguir seu curso por seis semanas. É o último signo em que deve permanecer por um tempo regular antes dos muitos meses de suas idas e vindas em Áries, a partir do final de junho. Trata-se do planeta cujas mudanças no elíptico zodiacal são mais perceptíveis para nós à flor da pele, porém seu ingresso em um determinado signo geralmente é acompanhado de efeitos muito diferentes no ânimo de cada um de nós. Os piscianos, por exemplo, com Marte em Peixes podem ter um influxo de energia de tirar o sono. Já o pessoal de Áries tem maiores chances de sentir um sono de tirar as energias.

Isso, por um lado, reforça o fato de que, mesmo em épocas de condicionamentos tão restritivos como os atuais, até mesmo indivíduos que estejam vivendo as mesmas rotinas e repetições diárias sob o mesmo teto podem ter enormes diferenças de comportamento, que independem das circunstâncias externas mais aparentes, mas não deixam de estar vinculadas a influxos mais sutis do ambiente. Nós somos “de Marte” do mesmo jeito que somos “de Lua”.  Por outro lado, é das interações, conflitos e negociações entre esses vetores que se faz a vida em comum, de modo que o Marte em Peixes aqui em mim saúda o Marte em Peixes aí em você. Espero que de alguma forma eles se entendam.

Mas nada impede que a gente aproveite o momento para compartilhar um exercício de entendimento do que significa “Marte em Peixes” em um plano mais estritamente simbólico e arquetípico. A primeira expressão que me vem à cabeça é “Guerra Santa”. Por razões óbvias: Marte é planeta guerreiro, e Peixes é a região do zodíaco associada ao sacrifício. A combinação parece propícia ao martírio, bem como à luta obstinada em defesa de ilusões, justamente quando elas se mostram mais insustentáveis. Há algo em Peixes que torna Marte um agente das mais fantasiosas batalhas. No entanto, há algo também capaz de dar um fim a toda luta e sofrimento.

Nesse último sentido, Marte ingressando em Peixes é como uma flecha que cai na água. Ou como um caçador que não quer mais apenas lutar pela sobrevivência, e decide sair em busca do cálice sagrado. Se a gente parar para pensar, o que há de sagrado no cálice? O espaço em seu interior. Acontece que o espaço no interior do cálice é o mesmo espaço ao redor do caçador. Não é preciso sair para buscá-lo. É só respirar. Marte, portanto, em circunstâncias normais, trata de garantir sua sobrevivência. Mas o signo de Peixes é tudo menos “circunstâncias normais”; em Peixes, a existência se basta. Marte em Peixes se parece então com uma flecha que cai na água, aprende a ser peixe, e de repente começa a nadar.

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A curva do medo

Quillebouf, Foz do Sena (1833) | J. M. W. Turner

Essa semana comecei um grupo de estudos online sobre o papel de imagens e narrativas arquetípicas na psique humana de acordo com o pensamento de C. G. Jung. Há algo de voluntarioso e desajeitado nessas inciativas que nós professores universitários temos tomado agora para manter uma dinâmica interpessoal e intelectual; há algo de reconfortante, também. O contato que fiz com meus alunos foi breve, pontuado por falhas técnicas e ruídos estranhos, mas foi efetivo e teve seus bons momentos. Escolhi o tema deliberadamente para o período de confinamento, pois ele me parece abrir uma janela para vastos horizontes subjetivos inexplorados, expandindo nosso cosmos interior num momento em que a vida objetiva está tão confinada e empobrecida.

Por alguns instantes, foi possível esquecermos das limitações que a distância impõe, para encontrarmos pontos de contato e de encontro, talvez inclusive pontos de contato e encontro que não teriam sido identificados em uma aula presencial. Pois essas sessões virtuais de maneira alguma se equivalem à rotina acadêmica dos encontros reais. Por um lado, são incapazes de substituir o vínculo e a relação de confiança que são criados entre professores e alunos em sala de aula (de minha parte, não vejo a hora de poder voltar para o trabalho no campus). Por outro lado, as sessões virtuais talvez ofereçam algo de diferente em relação àquilo que estamos acostumados em nossas interações, então é hora de descobrirmos o quê.

A propósito, uma das coisas que os smartphones e a internet banda larga me trouxeram – e pelas quais sou imensamente grato – são os longos áudios de palestras do Alan Watts que estão disponíveis no Youtube. Watts, vale mencionar, foi um pesquisador de escolas filosóficas orientais como o Zen e o Taoísmo. Durante os anos 1960 e 70, era convidado com frequência para dar conferências a partir de suas experiências e leituras, e teve também programas dedicados ao assunto no rádio e na televisão. Ele se definia como um spiritual entertainer, o que de forma alguma soava como um epíteto depreciativo. Suas falas têm um embalo de raro poder hipnótico; elas podem ser tão tranquilizadoras, tanto no conteúdo quanto na forma, que eventualmente lembram algumas peças para piano de Eric Satie. Fica a recomendação para quem está buscando distrações para a quarentena. Vou deixar uns links no final do texto.

A título de curiosidade: Watts é mencionado no final do filme Her, de Spike Jonze (aquele em que o Joaquin Phoenix se apaixona pela voz de sua assistente virtual) como um filósofo que habita o mesmo universo paralelo de onde surge Samantha, a personagem de Scarlett Johansson. Através de sua voz, ele realmente se tornou uma presença na internet como poucas outros filósofos conseguem ser, e ganhou uma espécie de sobrevida que seus livros provavelmente não lhe teriam outorgado.   

Então: Alan Watts e C. G. Jung foram amigos, além de compartilharem o interesse pela história das religiões e pelas mitologias de diferentes povos. Aí, durante o encontro virtual do grupo de estudos – é sobre isso que quero falar, é sobre isso que é esse texto –,  me lembrei da bela palestra em que Watts descreve seu amigo Jung como uma pessoa que se sentia “à vontade consigo mesma”, inclusive com seus defeitos, inseguranças e falhas de caráter, o que fazia com que outras pessoas se sentissem à vontade em sua presença. O ato de não julgar a si mesmo de maneira rigorosa se refletia no modo como seus visitantes tampouco se sentiam julgados dessa forma.

Percebam: trata-se da dinâmica da projeção, porém nesse caso com um viés positivo. Ao invés de projetar no outro o que sentia existir de indesejável ou vil em sua personalidade, convertendo isso em motivo de desprezo ou denúncia, Jung reconhecia esses traços como seus, e os incorporava ao próprio comportamento até com certa malícia, com uma espécie de sorriso maroto por saber-se tão errado e lascivo como qualquer outra pessoa nesse mundo, por mais que fosse considerado um indivíduo extraordinário. Essa objetividade na aceitação dos próprios defeitos, por sua vez, tornava seus visitantes e pacientes confortáveis mesmo diante de um homem que respeitavam tanto, e cujo julgamento teriam temido até se verem em sua presença. De maneira mais ou menos consciente, eles percebiam como e por que esse temor havia sido infundado. Então, permitiam-se a mesma autoaceitação que Jung se permitia e inclusive exibia com certa graça.

Acho que estamos sentindo falta desse tipo de troca. Acho que algo assim pode ser possível agora, em que estamos todos tão igualmente desorientados e surpreendidos pelas circunstâncias. Infelizmente, parece que as redes sociais tendem a favorecer justamente o inverso, com a acusação rápida e o juízo sumário sobre as vilezas e deslizes dos outros ganhando proeminência, enquanto só aumenta o nossa desconforto na presença (ainda que virtual) de pessoas que sequer respeitamos, mas que ainda assim tememos,  porque parecem dotadas de convicções capazes de destruir reputações e carreiras, na mesma medida em que parecem cem por cento convictas da própria perfeição e santidade (parecem; é justamente o contrário).

Por outro lado, o fenômeno tem um componente sócio-histórico já conhecido que não passou desapercebido por Jung. Segundo o médico suíço, as condições de emergência do nazifascismo incluíram uma sociedade insegura e totalmente desconfortável na própria pele, que precisou encontrar um bode expiatório no qual seria projetado todo o mal existente no mundo, de tal maneira que sua eliminação fizesse restar somente as “pessoas de bem”. Assim, um vago mal-estar ganhava forma na figura de supostos monstros criados pela necessidade extirpar a incerteza que brotava em cada indivíduo. Estes então se aferravam desesperadamente aos simulacros de virtudes que exibiam, de modo que a percepção do diferente o reduzia à expressão de tudo o que é impuro, defeituoso e indigno de existir.

Há diferenças, evidentemente, na situação daquela época e na de agora. Mas há semelhanças também. E creio que elas estão menos nos acontecimentos em si do que nos sentimentos que fazem emergir. Em uma palavra: medo. As grandes crises econômicas e as pandemias, bem como as crises decorrentes de pandemias e as pandemias disseminadas em meio às crises, terão sempre como fatores comuns as emoções muito primárias que estimulam, com destaque para a incerteza e a insegurança que disseminam. Falo isso de uma posição relativamente confortável, de maneira alguma imune às consequências econômicas e ao risco de perder familiares queridos para a doença, porém com alguma possibilidade de atravessar o pior sem me ver totalmente destituído de recursos para enfrentá-lo.

E, ainda assim, estou com medo, medo suficiente para que tenha se tornado uma companhia constante, e uma companhia que preciso aceitar não apenas em seus aspectos inocentes, mas também no comportamento egoísta de autoproteção que é capaz de gerar. Porque a alternativa a reconhecer meu próprio egoísmo é projetá-lo outros, acusando-os de estarem ocupados somente com a própria segurança e bem-estar (como às vezes devem estar mesmo, como eu às vezes estou), adicionando injúria ao desespero, e fazendo com se sintam duplamente mal consigo mesmos. Dá para ver então como isso facilmente se reverte numa espécie de batata quente, pela maneira como essas acusações serão passadas adiante, ou retornadas para mim em dobro.

É verdade que épocas assim favorecem também comportamentos solidários e compreensivos. Mas, infelizmente, sabemos que momentos de grande ansiedade podem reverter-se nos períodos mais sombrios da história. Isso pode estar relacionado não apenas ao medo em si, e às reações mais ostensivas que favorece, mas também à dinâmica mais sutil pela qual ele se transforma em perseguição de um outro que passa a encarnar os sentimentos brutos rejeitados pela sociedade. Além disso, com a parte de nós mesmos que abriga aquelas virtudes (a solidariedade e a compreensão), temos certa facilidade de conviver, para não dizer certo gosto, na medida em que favorecem a autoestima e a aprovação das pessoas próximas. O difícil é encarar a outra parte (a que é covarde, insegura, medrosa), e não apenas aceitá-la, como também acolhê-la.

A situação me lembra um personagem de Hilda Hilst, Isaiah o matemático, que precisa acolher um porco que do nada lhe aparece em meio à limpidez do laboratório, desajeitado, gordo, temeroso, carente, parecendo enfermo inclusive. “Não é doença, Karl, é medo”, Isaiah então se lembra de sua mãe falando dele próprio, com ternura, com o pai. “Sempre de alguma coisa temos medo”.

Sempre de alguma coisa temos medo. Nosso corpo em particular está sempre atento para um conjunto enorme de ameaças com que a espécie humana não se acostumou muito bem a conviver. A analogia do porco com o corpo me parece imediata, e a relação porco-corpo-medo também; creio que Jung a teria aprovado a ideia do porco como imagem arquetípica, que remete aos instintos corporais mais básicos, mais inclinados a reações que consideramos vis e pouco iluminadas. Diante de um vírus então, essa ameaça tão poderosamente invisível, mais do nunca de alguma coisa temos medo. E temos medo de nós mesmos também, das nossas reações e sentimentos diante de uma catástrofe humanitária, temos medo de não sermos suficientemente humanos para enfrentá-la, temos medo da nossa mesquinhez e de nosso egoísmo. A parte suja que existe em nós parece prestes a vir à tona. Pois bem: se vier, aceite-a.

Aceite-a, porque aceitá-la significa interromper o mecanismo que a reproduz exponencialmente. Aceitá-la significa mantê-la dentro dos limites bastante razoáveis em que ela existe dentro de você, que deve ser uma pessoa bem capaz de egoísmos e generosidades, como a maioria das outras também é. Nada impede que a virtude e o vício coexistam e se alternem no comportamento de uma pessoa. Agora, caso você vire o rosto para o próprio egoísmo, fatalmente ele será projetado nos outros, que vão reagir acusando-o de ser o verdadeiro culpado, o verdadeiro mesquinho, ou buscando outros bodes expiatórios para a extirpar o medo que sentem, que assim vai só crescendo a cada indivíduo que dá sua contribuição para  afastá-lo de si. Em resumo, aceite seus sentimentos, porque aceitá-los é achatar a curva do medo.

Achatar a curva do medo é, basicamente, sentir medo, e buscar algum tipo de conciliação com a parte de nós que preferimos nem ver. Tudo isso traz à tona mais uma vez a figura de Quíron, o xamã ferido, o hierofante do tarô mitológico, o centauro ao mesmo sábio e vil que foi o tutor de Aquiles na mitologia grega. Quíron era vítima de um profundo senso de inadequação com o qual precisou aprender a conviver; era capaz das mais torpes baixezas, por sentir-se excluído da sociedade humana, e também das mais altas bondades. Não vou me estender nesse ponto porque já me estendi bastante nos outros, e já tratei de Quíron com mais detalhes em outras postagens (aqui, e também aqui, por exemplo).

Enfim, me lembrei dele novamente sobretudo porque a descrição que Alan Watts oferece de Jung é bastante quironiana, como acréscimo do sorriso suavemente perverso com que ele demonstrava conviver com as próprias perversões. Acredito que toda época encontra em alguns arquétipos de chance de ganhar consciência simbólica de certas virtudes e de certas falhas que a atravessam. A figura de Quíron tem a vantagem de que não apenas certas virtudes e falhas, como também essa ambivalência. Talvez tê-la mais uma vez à mão nos ajude a perceber que é possível sentir a ferida sem revertê-la em motivo de perseguição e ódio. Muito do que teremos com que lidar agora diz respeito a esses sentimentos. Ou, como diria a mãe de Isaiah: não é doença, Carl. É medo.  


PS: neste canal aqui você encontra uma boa coleção de gravações das palestras de Alan Watts; estão em inglês, mas pelo menos a dicção dele é clara e pausada o suficiente para permitir a compreensão de um ouvinte pouco adaptado. A palestra que mencionei sobre C. G. Jung é essa aqui.

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Folia dos asteroides

Gosto da ideia de que a palavra folia remete etimologicamente à festa, à tolice e à loucura. Resulta daí que carnaval é um feriado que cada um deve mesmo passar dedicando-se aos pagodes que mais lhe apetecem. De minha parte, resolvi aproveitar para estudar uns asteroides. A brincadeira é apropriada porque, por mais que eventualmente use asteroides em interpretações de mapas e horóscopos, acho divertidíssimo pesquisá-los e conhecê-los por prazer mesmo, sem uma finalidade imediata, e inclusive por conta algumas bobagens saborosas a respeito deles que a gente encontra no caminho. São tão instigantes em seus nomes e características; são tão específicos em seus significados e relações.

Um tempo atrás descobri, por exemplo, que o asteroide 1566 ganhou o nome de Ícaro em função da órbita muito peculiar que realiza em torno do Sol. Vou deixar a imagem da órbita aí embaixo, entre um parágrafo e outro; a figura aí de cima é a do quadro de Marc Chagall para o Ícaro mitológico. Lembrando: ele foi o rapaz que ganhou asas construídas por seu pai, Dédalo, para que pudesse escapar do labirinto de Creta. Como deixou-se voar alto demais, acabou se queimando sem querer, e sofreu uma queda abrupta e veloz.

Essa é a parte astronômica e lendária. Mas, com isso, já dá para imaginar com facilidade as situações em que Ícaro participa de nossas vidas. São aquelas em que alguma forma de apoio ou incentivo nos fornece soluções para uma situação difícil, ou surgem condições para alçar maiores voos em alguma área onde estamos nos esforçando sem sair do lugar. Por outro lado, são também circunstâncias nas quais o entusiasmo ou o orgulho decorrente desse impulso requerem certas precauções, para que a gente não acabe se espatifando no chão.

No momento, Ícaro se encontra no terceiro grau de Aquário, portanto em quadratura com Urano em Touro, o que, dependendo do mapa natal da pessoa, pode de fato inspirar esse tipo de cuidado. Para quem tiver interesse nas efemérides, vou deixar aqui o link para a lista mais completa que conheço, embora goste também da lista do site da Jessica Adams, mais enxuta e visualmente mais agradável de acompanhar (nesse link aqui).

A propósito, o livro sobre o assunto que mais recomendo é o Mechanics of the Future, de Martha Lang-Wescott. Falei um pouco mais desse livro no final dessa postagem, onde menciono também o bom livro de Demetra George sobre Ceres, Vesta, Juno e Pallas, asteroides que entre 1808 e 1845 foram tidos como planetas (Ceres hoje é mais exatamente reconhecida como um planeta anão), são associados a arquétipos femininos, e estão em vias em vias de incorporação ampla à prática astrológica. É da Martha Lang-Wescott também a página mais incrivelmente bem alimentada de informações sobre o assunto que conheço; desconcertantemente bem alimentada, eu diria até.

Quem percorrê-la vai perceber que a quantidade de asteroides que já ganharam um nome e foram investigados astrologicamente é enorme. Nesse mesmo estágio em que está nosso conhecimento sobre Ícaro, por exemplo, são centenas. Uma vantagem disso é que muitos deles passaram a ser denominados a partir da mitologia e do folclore de povos diversos, e também que, quando permanecemos no âmbito da Europa, a coisa não se restringe mais a narrativas mitológicas. Há, por exemplo, um asteroide chamado Dom Quixote (número 3552), que no momento está retrógrado em 26 graus de Gêmeos. Pelo nome, não é difícil imaginar alguns de seus significados e implicações, e, portanto, não se assuste se você encontrar por aí geminianos reencenando lutas contra moinhos de vento.

Outra coisa que chama a atenção, em casos assim, é o mistério da complementaridade entre a denominação desses astros pelos astrônomos e seus significados simbólicos-astrológicos. Pelos nossos padrões usuais de relação causa e efeito, não faz muito sentido que os nomes ‘certos’ sejam os escolhidos pelos cientistas. Mas nada na astrologia faz muito sentido pelos nossos padrões usuais de causa e efeito; além disso, é difícil imaginar que a opção dos astrônomos por esse ou aquele nome seja totalmente aleatória. Então é possível também que isso seja feito a partir de alguma orientação bem pouco óbvia – uma dica intuitiva do inconsciente coletivo, por assim dizer.

O certo é que, por serem quase anedóticos em suas singularidades – embora não deixem de ter um enorme potencial para um uso sério e pragmático –, os asteroides são capazes de tornar o estudo da astrologia algo ainda mais envolvente do que normalmente é. A linguagem astrológica só tem a ganhar com este tipo de enriquecimento. Algo semelhante acontece com as partes árabes e pontos mais frequentemente usados na astrologia védica, como os já recorrentes nodos lunares, também conhecidos como cauda e cabeça do dragão.

No mais, para mim pelo menos, isso tudo ainda funciona do mesmo modo como funcionava de acordo com essa notinha a seguir, que escrevi uns anos atrás, quando não existia ainda esse blog, eu estava começando a estudar a astrologia com maior profundidade, e ao mesmo tempo comecei a me entreter com esses encantadores detalhes cósmicos:

Há um asteroide para as facas. Há um asteroide para as estratégias. Há um asteroide para determinados tipos de drogas. Há um asteroide para soluções práticas que vêm acompanhadas de dilemas morais.

Há um asteroide para paixões breves. Há um asteroide para momentos eternos. Há um asteroide para a medicina preventiva. Há um asteroide para as dores que não se pode curar.

Há uma posição do Nodo Norte que transforma zumbis em diplomatas. Há uma posição do Nodo Sul que transforma vigaristas em profetas. Há um ponto no mapa para relações inevitáveis e fatais. Há um ponto no mapa para decisões em que os astros não podem ajudar.

Há um ângulo entre a lua e o ascendente que, dependendo da posição de Netuno, pode muito bem fazer com que o Papa reencarne para tornar-se um Buda. Há outro em que um Buda reencarna para ser um general e entender melhor as artes da guerra. Isso se ele quiser, é claro. Ele pode muito bem continuar sendo só um Buda mesmo. Mas é possível que vá ficando cada vez mais cansado e rabugento.

Há posições de Saturno que indicam partos demorados. Há posições de Plutão que favorecem mortes gloriosas. De tempos em tempos, Vênus e Mercúrio estão de tal maneira relacionados que apontam uma forte possibilidade de encontrarmos um gato perdido miando baixinho no quintal de nossa casa. Isso vai mudar as nossas vidas. Ou então a lembrança desse dia vai mudar as nossas vidas, quando chegarmos aos 49 anos de idade.

Aprender astrologia é como estudar uma língua estrangeira: a melhor parte são as palavras e expressões que existem para coisas que sua própria língua não consegue nomear.

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Os amores difíceis

Corações Livres (2002) | Dir. Susanne Bier

“Tornava-se claro para ambos que o fim ainda estava distante, e que o mais difícil e complexo apenas se iniciava”. Essa frase – referindo-se a um começo – curiosamente encerra A Dama do Cachorrinho, um relato do escritor russo Anton Tchekhov que frequenta todas as listas de melhores contos de todos os tempos. O trecho surge quando o par romântico da história percebe que não encontrará tão cedo solução para o problema que enfrenta durante a narrativa: o de se amarem, mas já estarem casados com outras pessoas. Seja por circunstâncias históricas, seja por questões éticas, parece-lhes impossível resolver o assunto em um lance só. Não enfrentar o problema, porém, tampouco é uma opção. De tal modo que se veem enredados em condições bastante complicadas, que não dizem respeito diretamente aos seus sentimentos mútuos, mas são incontornáveis para que esses sentimentos possam se expressar.

Me lembrei desse conto em particular porque Juno está pairando sobre nós com particular intensidade esses dias, e eu diria inclusive nos últimos tempos. Em consultas e com amigos, andei conversando com muita gente – direta ou indiretamente – sobre Juno. Do ponto de vista astronômico, trata-se de um grande asteroide, conhecido por esse nome desde 1804. Do ponto de vista astrológico, diz respeito a acordos, condições e contratos que regem os relacionamentos. Creio que este é um assunto cuja dificuldade e complexidade só aumentou desde que Tchekhov publicou seu relato em 1899 (de fato, as coisas estavam apenas começando), e isso se reflete nas maneiras bastante concretas como ele se apresenta agora cada um de nós.

Mas permitam-me uma digressão: lá atrás, já encontramos a figura de Juno vinculada a assuntos como a infidelidade, a quebra de contratos, e o que cada um está disposto a aceitar para manter uma relação. Juno foi a esposa de Júpiter na mitologia romana, assim como Hera foi de Zeus na mitologia grega. Ganhou fama de ciumenta e intratável por conta de suas reações diante das escapadelas do marido, porém era bastante engenhosa na hora de traçar os limites do tolerável. Podia agir com uma capacidade de definição que não tinha de irracional ou colérica, quando decidia que havia chegado o momento de tomar uma atitude mais brusca. Já a partir daí, podemos ter uma ideia não apenas dos temas que são regidos por Juno, mas também do tipo de comportamento que ela estimula ou incita.

A gênia dos asteroides Martha Lang-Wescott se refere a Juno como um “ponto do casamento”, que conecta as energias de Vênus e Plutão. Em Vênus, os afetos se manifestam em uma feliz troca de cortesias e carinhos que não precisa nunca se deter em negociações e definições restritivas, ou lidar com as realidades duras da vida; em Plutão, tudo é definitivo em um plano sexual e espiritual mais oculto ou profundo, onde acontecem as fusões dos pares e as separações irrevogáveis como a morte. Se Juno está entre uma coisa e outra, ela é responsável justamente pela dimensão prática, cotidiana ou contratual que não encontramos em nenhum desses lados, mas é parte importantíssima dos relacionamentos. Até porque, em última instância, pode fazer com que relacionamentos comecem e, sobretudo, terminem – mesmo quando o amor e a atração sexual nunca deixaram de existir entre duas pessoas.

Juno retém de Plutão, portanto, uma dimensão trágica nos assuntos que a envolvem, mas tem na conexão com Vênus o recurso à diplomacia e aos acertos retificadores de um mundo em vias de dilacerar-se. Se as coisas vão andar num caminho em outro é o que muita gente está se perguntando agora. Pode acontecer, por exemplo, da questão sobre ter ou não filhos assomar e tornar-se tão complicada quanto incontornável entre duas pessoas. Não há alternativa, nesse caso, que não seja colocar o assunto sobre a mesa, para descobrir se há uma solução negociada ou não há solução alguma. O mesmo pode acontecer nos acordos a respeito de relacionamentos à distância, nas opções por relacionamentos não-monogâmicos, nas reverberações de casos extraconjugais: Juno pede disposição para a conversa, mas não garante que ela seja o suficiente para se encontrar uma saída.

Então, se Juno diz respeito ao casamento, tem tudo a ver com separações também. É aí que sua capacidade de tomar uma decisão difícil mais claramente se sobrepõe às flutuações venusianas. Até porque seus piores traços se manifestam quando uma decisão dessa natureza é evitada em nome de uma suposta harmonia, gerando um possível ciclo de agressões, ressentimentos e vinganças. Aliás, Juno é também sobre o balanço de créditos e débitos que nunca deixa de existir em parcerias, eventualmente envolvendo questões financeiras mesmo, que requerem uma abordagem ao mesmo tempo prática e sensível às circunstâncias. Considerar a realidade desses trâmites é parte importante do tipo de atenção de Juno requer e proporciona, quando está particularmente ativa no céu ou em relação a um mapa pessoal.

Ela nos permite entender melhor aquilo que é inegociável, e as condições sem quais não estamos dispostos a prosseguir. É natural que a gente aceite algumas decisões em comum a contragosto numa relação, mas o peso desses gestos para nós pode muito bem acarretar um desequilíbrio que não terá como ser corrigido depois. Há casais que se mantêm por anos em uma divisão de papéis no qual o lugar de quem “abriu mão de muita coisa” é ocupado um dos parceiros com certa luxúria recriminatória e inclinações passivo-agressivas, que não têm como chegar a bom termo. Chegar a um termo já é uma conquista nesse caso.

Por outro lado, e pelos mesmos mecanismos, Juno nos faz perceber aquilo que pode ser sim objeto de concessões e acordos. Mas isso não necessariamente é sinal de facilidades, muito pelo contrário: parte daquilo que se complicou para nós desde a publicação do conto de Tchekhov decorre da ampliação do espectro de temas que precisam ser discutidos e acertados com frequência em um relacionamento. Santa complicação: assuntos que em outros tempos eram definidos pela tradição, pelos costumes religiosos ou pelos papeis sociais de gênero, por exemplo, passaram a ser colocados sobre a mesa em uma base diária, requisitando uma busca de soluções tão criativas quanto provisórias. É bom que seja assim, por mais que a gente tenha ainda muito o que aprender com o tipo de flexibilidade e dinamismo que isso envolve.

Minha impressão, portanto, é a de que nossa sensibilidade para esse tipo de demanda nos relacionamentos só vai aumentar – e que com isso eles vão continuar ficando mais difíceis, complicados e recompensadores. Pensem: até outro dia as pessoas não podiam nem se separar, as mulheres eram subjugadas das formas mais ostensivamente legais (do ponto de vista jurídico), e ter amantes regulares era uma opção vulgarizada para contornar os efeitos dessa rigidez. O conto de Tchekhov acontece justamente quando duas pessoas decidem se insurgir contra essas circunstâncias, mas ainda não sabem por onde fazê-lo, mas não conseguem desistir de tentar.

Não sei qual é o mapa astral do conto, não cheguei a ver em quais condições estelares Dimitri e Anna se conheceram, mas suspeito estavam sob uma forte influência de Juno. Ela, que antigamente era vista como a deusa do casamento, responsável pela dimensão contratual das parcerias afetivas, passou a ser também deusa das separações – e das infinitas zonas de sombra que existem entre uma coisa e outra. Quanto a essas zonas de sombra, acho também que muito do que caracterizam como o ‘amor líquido contemporâneo’ decorre da nostalgia de um tempo em que as convenções sociais conferiam uma espécie de rígida estabilidade aos relacionamentos. O que temos agora é realmente mais incerto, mas nem por isso é menos consistente.

Muito pelo contrário. Enfim, se eu estiver certo, e Juno passar a fazer cada vez mais parte de nossas vidas, estaremos justamente repassando a cada dia os acordos e definições que temos como nossos parceiros. Isso não nos transformará em frios advogados de causas interminavelmente recorridas por um motivo simples: há, sim, uma importante dimensão afetiva nesses diálogos, por mais pragmáticos que possam parecer. Se o ressentimento e a agressão impensada são decorrentes de assuntos mal manejados nessa esfera, isso quer dizer que o respeito, o cuidado e a inteligência são as virtudes necessárias para manejá-los bem. Contratos não são apenas representações de afetos: eles são também um lugar onde os afetos acontecem. Ajustá-los com atenção e justiça é também uma forma de carinho. Juno não diz respeito apenas a problemas e conflitos práticos que precisam ser resolvidos. Ela vê os problemas e conflitos como um outro espaço em que o amor pode se manifestar.

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O Sol e a Sombra

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“O Sol é o único objeto natural que não conhece dilema íntimo”. Lembrei dessa definição de C. G. Jung diante do resultado da enquete que fiz aqui sobre quem seria o grande vilão do zodíaco. Nada a ver com o primeiro lugar que Gêmeos conquistou, com folga até, pois esse título era aguardado e não surpreendeu ninguém. A gente sabe que Gêmeos é o signo mais de boa que tem, a gente sabe que é o que menos leva a sério esse tipo de brincadeira. Então, na hora de brincar sobre quem é o maior vilão do zodíaco, a gente vai lá e vota em Gêmeos, nem que seja só para dar aquela zoada básica em quem vai saber zoar de volta.

Tampouco o que me chamou no resultado foram o segundo ou terceiro colocados. Foi o último. Porque lá atrás, com um votinho apenas, destacou-se, por contraste, a lamentável performance leonina. Confesso que esperava mais; até entendo, por exemplo, que Touro tenha sido deixado no fim da fila também; mas o fato de Leão não ter ganhado nem de Touro é algo a se observar. Fiquei até curioso de saber quem foi a alma que remou contra a corrente e encontrou motivos para cravar o voto solitário. No fim das contas, Leão ganhou uma espécie de título também: o de signo menos demonizado do zodíaco.

O engraçado é que conheço gente que tem uma preguiça enorme de Leão e de suas vaidades, caprichos, exuberâncias. Mas acho que até essas pessoas, na hora de escolher um vilão zodiacal, acabaram escolhendo outro signo, porque por algum motivo não tem graça implicar com leoninos. Eles realmente não vão ligar muito, vão no máximo dar aquela olhadela para baixo e notar meio que de passagem nossas diversões bobas e levemente ridículas, mas não o suficiente para merecer um comentário. Em seguida, vão voltar para o que estavam fazendo antes.

Porque Leão é isso: esse envolvimento autossuficiente naquilo que se está fazendo, esse prazer desinteressado naquilo que se está criando. Por isso, o jogo, a arte e a brincadeira se alojam no arquétipo leonino. É verdade que, como disse antes, a brincadeira tem uma dimensão geminiana também, mas nesse caso estamos falando mais propriamente dos jogos e truques com a linguagem que fazem a gente suspeitar que existe algo de irremediavelmente encapetado em Gêmeos. Já em Leão, reina a inocência dos divertimentos infantis.

É essa inocência que no trecho de Jung aparece como um “desconhecimento de dilemas íntimos”, onde a “discrepância que se apoderou da alma humana pode se desfazer harmoniosamente”. Porque o Sol é o regente de Leão. Jung, a propósito, era leonino também. Curiosamente, o conceito de sombra é fundamental em sua obra: um aspecto desconhecido ou oculto da personalidade, rejeitado pelo ego por não se adequar a expectativas e valores sociais, e passível de um trabalho que o incorpore à consciência através da psicoterapia.

Acontece que o Sol não tem sombra, literalmente falando. Pois como poderia ter uma sombra, o Sol? Algo semelhante acontece no arquétipo de Leão: é feito de pura luz, e se compraz em queimar suas energias infindáveis, ao mesmo tempo generoso e indiferente aos seres que estão em volta. Agora, antes que se dê a entender que estou livrando a cara dos leoninos de quaisquer acusações de vilania, duas ressalvas. A primeira, mais óbvia, é que justamente por ser assim, Leão pode se tornar particularmente cego para as próprias falhas.

Pois, sim, o Sol desconhece dilemas e harmoniza discrepâncias – mas só mesmo ele, o Sol, faz isso. Nós somos apenas humanos recorrendo a alguns símbolos para tentar entender melhor o que somos e o que nos acontece. Aquele entre nós que realmente se acreditar em posse de atributos solares será como o Rei que já não escuta senão elogios para si próprio. A propósito, a figura do Rei se encontra no arquétipo de Leão, não apenas em seus aspectos luminosos, mas nos sombrios também.

A outra ressalva é a de que, de certo modo, o Sol recebeu todos os votos da enquete. Porque aquilo que reconhecemos como nosso signo ou o signo de nossos amigos e conhecidos é na verdade o signo solar de cada um de nós. Vejam só que maravilha essa virada de jogo: o regente leonino passa assim em um só golpe da última para uma primeira e invencível colocação. Porém, se o que a gente entende como o signo das pessoas é o fogo que elas queimam, de maneira alguma isso serve como síntese das qualidades que estão em jogo em um mapa astrológico natal.

O Sol, decerto, é parte importante dessa brincadeira, e sobretudo uma parte evidente, que se expõe ao escrutínio público, e por isso se torna a maneira como identificamos vilões e heróis no zodíaco. Nesse sentido, não surpreende que as pessoas tenham o hábito de tatuar na pele símbolos de seus signos solares. Nosso Sol é algo de que a gente se orgulha, e não precisa nem ser um Sol em Leão. Pode ser um Solzinho em Virgem, mais humilde mesmo. Mesmo os geminianos, por mais que possam participar de nossos rituais de avacalhação de seu signo, no final das contas acham o máximo ser de Gêmeos.

Aproveitando, uma vez escrevi aqui um texto sobre o ascendente e prometi que depois explicaria como entendo que se dá a relação entre o signo ascendente e a aparência física das pessoas. Essa é uma boa oportunidade. O símbolo do ascendente não é algo que a gente tatua na pele porque o ascendente é a própria pele. Melhor dizendo: é nossa aparência, da maneira como a produzimos e expomos sem maiores cálculos e ponderações, do mesmo modo como a gente realiza outras atividades corporais de maneira impensada, como bater o coração e correr o sangue pelas veias.

Sim, isso são coisas que a gente faz, embora não sejam coisas que a gente decide fazer. Passarinho não decide voar porque acaba de nascer: de repente ele vai lá e voa. Por isso o ascendente é uma energia que vibra em nós de maneira positiva, espontânea, natural, como uma árvore produzindo seus frutos, porque produzir seus frutos é algo que a árvore faz. É a maneira como lhe coube participar dessa imensa dança que é o universo, sem que em momento algum ela tenha que ter deliberado a respeito.

No caso de nós humanos, as coisas são mais complicadas, é claro. No entanto, vez ou outra elas são simples assim. Quando isso acontece, presenciamos os arquétipos zodiacais agindo com inteireza: não sem dilemas íntimos, mas os aceitando com menos dificuldade, e não sem manifestar sua sombra, mas ficando à vontade com ela. Isso acontece através do ascendente, e se ele se torna mais identificável em nosso comportamento em algum momento da vida, isso é um bom sinal, de que estamos nos preocupando menos com o escrutínio público e as expectativas sociais – e por isso mesmo, às vezes, recebendo um retorno muito mais positivo do ambiente imediato.

Mas no geral o que fazemos é tentar articular as energias mais contraditórias, tal como se apresentam nos signos solares, lunares e em todos os demais planetas do horóscopo. O zodíaco, portanto, não tem um grande vilão, e todos nós de uma maneira ou de outra mobilizamos todos os arquétipos em uma combinação única e irrepetível de suas cumplicidades e conflitos. “As forças psíquicas não têm uma direção única e muitas vezes se dirigem umas contra as outras”, escreveu também Jung em outra formulação que cabe bem aqui.

Então: algumas colisões são simples, e podem se reduzir aos humores variáveis de um dia. Outras são mais complicadas e podem levar uma vida que chegar a bom termo, como por exemplo a das forças psíquicas que chamamos de Sol, Lua, Vênus, Marte, Saturno, Ascendente, etc., tal como aparecem em nosso mapa natal. Pois tudo isso compõe essa magnífica mandala que todo mundo carrega consigo, com as linhas rajadas que nela se entrecruzam tecendo em nós uma complexa rede de relações que aos poucos a gente vai entendendo melhor – desde o começo de tudo. E também, é claro, desde o nosso nascimento.

astros

Escrito nas estrelas

Existe um filme dos anos 1990 em que Deus aparece para os personagens através de um grande painel luminoso de beira de estrada. Eu me lembro de pouca coisa desse filme; sei que era com a Sarah Jessica Parker e com o Steve Martin, e que Deus aparecia para eles através de um grande painel luminoso de beira de estrada. O engraçado disso era a maneira escancarada e nada enigmática com que Ele se comunicava, sendo ao mesmo tempo capaz de passar totalmente desapercebido (porque, né, quem ia acreditar que era o Próprio se manifestando ali em letras garrafais, ao lado das varandas de um motel ferrado nos arredores de Los Angeles). A razão pela qual me lembrei agora desse filme e dessas cenas é a mesma que me fez ter vontade de deixar aqui mais algumas observações sobre os trânsitos astrológicos de 2020.

Para ser direto, até porque esse texto é um também um pouco sobre como as mensagens do cosmos podem ser claras, luminosas e garrafais, eu diria que Deus pode estar se comunicando com cada um de nós exatamente assim nesse início de ano. Está se expressando de maneira inequívoca, grosseira, até escrachada, porém por meio de artifícios tão ostensivos que por isso mesmo podem não parecer, digamos assim, divinos. Nós esperamos de Deus que se comporte com certa dignidade, que respeite o decoro do cargo, que mantenha um mínimo de compostura – não que nos jogue verdades na cara como uma tia bêbada que perdeu a paciência com as sutilezas da família na ceia de natal. Jesus Cristo, por exemplo, trouxe sua palavra através de delicadas e elegantes parábolas, e inclusive recusou lançar mão de quaisquer recursos cênicos milagrosos para provar seu poder e aumentar seu rebanho.

Agora, já que Jesus entrou na história, é bom deixar claro de que tipo de deus estou falando. E o deus de que estou falando atende pelo nome de Plutão, ou Hades, o soberano dos infernos na mitologia grega, e que na astrologia responde pelas camadas mais profundas da psique, por nossa relação com a mortalidade, e pelos comportamentos mais desviantes ou abusivos do ser humano. De modo que é uma mensagem vinda lá de baixo, de um lugar para onde normalmente não queremos olhar, sobre assuntos que normalmente não queremos remexer, que está sendo enunciada, sublinhada, destacada, gritada, berrada e balida para muita gente esses dias. O fato de ser uma mensagem possivelmente indesejada não a torna menos bem-vinda, e talvez ela esteja recebendo esse tratamento agora exatamente para que a gente enfim a aceite, e, com isso, a vida possa seguir adiante.

De um ponto de vista técnico, a percepção condiz com o significativo conjunto de planetas que está formando um quase inédito alinhamento em torno de Plutão até meados de janeiro de 2020. Vale notar que o fenômeno inclui Mercúrio, o mensageiro dos deuses, também aquele que fazia a ligação do plano terreno com o submundo – e, portanto, em sua aparente superficialidade, um agente fundamental da sincronia entre fenômenos psíquicos profundos e as vastas dimensões astrais. Mas creio que todos os integrantes da trupe estarão cada um à sua maneira enfatizando uma verdade que já está aí há algum tempo, mas que podemos ter tentado evitar de todo jeito até agora. Não mais: é a definitiva consciência dessa mensagem, por mais difícil que seja, que vai nos permitir começar de novo e voltar ao jogo em 2020.

É também disso que estava falando quando disse na última postagem que “o fim está próximo”. O fim é essa consciência de algo não tem mais jeito, não tem conserto, não tem remédio, nem nunca teve, na verdade. Ou, como descreveu a psicóloga e astróloga Liz Greene: “Plutão, ao que parece, rege aquilo que não muda nem vai mudar. Essa é uma questão particularmente dolorosa na época das terapias de autoajuda e da disseminada crença de que podemos ser o que quisermos (…) É irônico, e paradoxal, que a genuína aceitação do imutável seja a chave para transformações profundas na psique humana. Essa ironia de fato não parece ser comunicável a não ser nas chamas da vida. Então ela permanece um segredo, não porque ninguém irá contá-la, mas porque ninguém vai acreditar nela, a não ser que tenha sobrevivido ao fogo.”

Greene acrescenta ainda: “Terapias e meditações e dietas e encontros não têm efeito aqui; e a decisão não é mais sobre a coisa certa a se fazer, mas se devo sacrificar o braço direito ou o esquerdo”. Nesse ponto imagino a impotência que ela mesma deve ter sentido como psicóloga para ajudar seus clientes a contornar crises dessa natureza, diante da ineficácia de seus recursos e técnicas e truques terapêuticos. Estamos falando, por exemplo, do momento em que uma mulher compreende que a maneira como foi tocada por um parente quando menina foi sexualmente abusiva, ou que determinado episódio com um ex-namorado violento foi na verdade um caso de estupro – e que isso, o fato de ter sido estuprada, já não se acomoda às explicações que criou ou aceitou para evitar dar o nome às coisas, tornando-se então parte incontornável daquilo que ela é, foi e virá a ser.

Sei que, para quem começou esse texto lendo uma leve e simpática menção a uma comédia romântica, talvez aguardando uma otimista previsão de ano novo, chegamos a um ponto meio sombrio demais para os incautos. Paciência, é isso que que você recebe quando resolve ler alguém o blog de alguém com lua em Gêmeos e ascendente em Escorpião. E a partir daqui não tem mais volta. “A PARTIR DAQUI NÃO TEM MAIS VOLTA”: leia, é o que estão dizendo os sinais. Mas, naturalmente, eles vão afetar uns mais que outros, de acordo com os planetas em seus mapas natais, de maneira que o incontornável pode se apresentar de maneiras mais ou menos intensas para cada um, e pode relacionar-se com assuntos mais prosaicos, embora sempre com um certo grau de evidência e mesmo de acintosa honestidade.

Um exemplo simples é o de alguém que, diante de uma pessoa querida, porém bastante mais velha, de repente percebe com toda clareza a decadência corporal e finitude que essa pessoa encontrará em um futuro não muito distante. Outro é de um indivíduo que vem insistindo no sonho de uma determinada carreira, e se depara com um empregador descuidado, que em uma entrevista irá lhe dizer que não, de maneira alguma, ele não leva o menor jeito para aquilo. Como provavelmente seria o caso nessa situação, quando Plutão e suas barreiras intransponíveis aparecem para nós, a primeira e natural reação é de raiva, ou desespero, ou a mais absoluta impotência. Só com o tempo somos capazes de nos tornar gratos ao entrevistador que nos tirou as mais preciosas esperanças e nos encaminhou a contragosto para uma outra atividade, ou à enfermeira que nos deu uma notícia triste de maneira honesta, ou ao terapeuta que nos levou até o submundo de nossas memórias para revirar o lixo que existe lá. Só com o tempo – se é que.

Se é que: mas gratidão nesse caso é um sentimento de menor importância. Aceitar já basta. E como é difícil, às vezes, aceitar mesmo aquilo que está piscando em luzes ofuscantes diante da gente. Esses dias, para dar um último exemplo, uma pessoa que já mentiu muito para mim no passado – em uma triste história que envolve segredos familiares, manipulação e violência, o pacote completo – resolveu inventar uma história para justificar um comportamento inadequado mais recente. Foi esse o acontecimento que me fez lembrar do filme com Deus no pisca-pisca da beira da estrada.

Bom, eu estava acostumado a pensar que essa pessoa mentiu para mim no passado – não que isso permanecesse como um hábito, não que a história lá de trás continuasse de algum modo agora, com outras pessoas envolvidas. Então precisei escutar uma história escancaradamente mentirosa para cair em mim: mas é claro, essa pessoa mente, sempre mentiu, simplesmente nada mudou. Nesse caso em particular, sinto hoje o distanciamento necessário para ser capaz inclusive agradecer ao destino pelo descalabro da versão dos fatos que me foi apresentada nessa situação presente, até porque ela é bem menos ofensiva do que as anteriores. Era como um outdoor de todo tamanho feito para que eu percebesse: veja, é uma mentira. E não há como ser de outro jeito.

O que eu queria mesmo, é claro, era que me fosse contada a verdade, e sobretudo que a verdade do que vivi e vi lá atrás quando era criança fosse reconhecida, que alguma espécie de retratação me fosse concedida, ou algum traço de arrependimento presenciado. Mas é nessas horas que o destino intervém para dizer: NÃO VAI ROLAR. Disso eu até já sabia há algum tempo, mas Plutão tem esse jeito que reaparecer para a gente às vezes, quando começamos a reassumir esperanças sobre os assuntos que ele governa em nossas vidas. A vantagem é que, depois, a energia que sobra para outros assuntos é imensa, simplesmente porque as energias que gastamos confrontando o inconfrontável, durante grande parte da vida, é desmedida também.

Enfim, outro dia minha mulher me perguntou se é possível identificar um serial killer por seu mapa astral. Tive que dizer a verdade: muitos são parecidos com o meu. Segundo a própria Liz Greene, pessoas com mapas assim (tenho o Sol e Marte em quadratura exata com Plutão, entre outros detalhes adicionais) ou viram assassinos, ou viram psicólogos e coisa parecida. “Astrólogo” foi a coisa parecida que encontrei para mim. De modo que vocês podem continuar contando comigo durante o ano que virá para escrever sobre os astros. Outro dia disse que provavelmente ficaria sem escrever por uns tempos. Mas vejam bem, saímos no lucro com mais essa postagem sobre Plutão, pois tenho que manifestar de algum modo as influências íntimas que ele sempre exerceu em minha vida, e essa parece ser uma das mais inofensivas e saudáveis.

Aí ontem vi uma imagem com um texto que resume bem o que estou tentando dizer sobre os trânsitos desse fim de ano desde a postagem anterior (quem não leu e quiser ler, é só clicar aqui). Ela dizia algo assim: “2017 me mudou. 2018 me quebrou. 2019 me abriu os olhos. É 2020, e estou de volta”. Então, acho que esse comecinho de ano é uma espécie de última chamada para quem precisa ter os olhos abertos, mesmo sobre assuntos complicados, e principalmente sobre eles. Para nossa sorte – se é que a palavra é essa – Deus estará se comunicando conosco através de sinais bem evidentes. Bom, talvez não exatamente Deus, mas vários deles, ao mesmo tempo, de uma vez só. Portanto apertem os cintos, fiquem atentos aos luminosos – e que esse seja um ótimo ano novo para todos nós.

astros

O fim está próximo

O Sol ingressa em Capricórnio por volta do dia 22 de dezembro de cada ano. Para os romanos, essa era a época das Saturnálias: uma semana de festa, com comida e bebida à vontade, em que a autoridade era subvertida, a ordem social era suspensa e identidades eram alteradas. No dia 24, trocavam-se presentes. O cristianismo situou seu principal feriado próximo a esta data porque seria impossível abolir a celebração popular, então era melhor cooptá-la. Já os puritanos ingleses depois rebelaram-se contra a missa de Cristo, a Christ Mass, e Cromwell chegou a aboli-la, argumentando com certa razão de que não passava de uma orgia pagã com um verniz cristianizado.

As Saturnálias começavam sob a regência de Júpiter, e terminavam sob a de Saturno. Portanto, acompanhavam a passagem do bastão de Sagitário para o signo da Cabra. Faz sentido: um último período de licenciosidade e abundância antes do início de uma época de restrições, com a perspectiva de futuros constrangimentos motivando toda uma semana de excessos. Mas Capricórnio não precisa ser visto como um arquétipo tão árido. Após o momento sagitariano do zodíaco, ele trata, sim, da necessidade de alcançar certo equilíbrio, através de ações responsáveis e intervenções consequentes no mundo. Porém o tipo de ajuste que está em jogo agora pode ter uma importante dimensão espiritual, e é bom ter isso em mente nessa passagem de 2019 para 2020, quando a coisa toda ganhará outras proporções.

Agora, o ingresso do Sol em Capricórnio o levará de encontro a Júpiter, Saturno, Plutão e Ceres. Por volta do dia 10 de janeiro, quase todos esses astros (com o acréscimo de Mercúrio) estarão alinhados com exatidão em 20º de Capricórnio, o mesmo grau onde acontecerá então um eclipse lunar em Câncer – portanto em oposição ao aglomerado capricorniano. Quem tiver planetas no mapa natal em torno de 20º de Capricórnio, Câncer, Áries ou Libra tende a sentir o fenômeno com mais impacto. Isso vale, por exemplo, para quem está por volta dos 40 anos agora, e tem Plutão nessa região do signo de Libra, ou para quem faz aniversário por volta dos dias 09 de abril, 11 de julho, 13 de outubro e 10 de janeiro mesmo. Mas esses trânsitos têm força suficiente para ter repercussão na vida de todo mundo.

Esse é inclusive o tipo de configuração que em outros momentos seria o suficiente para criar a expectativa pela vinda do Anticristo, bastando para isso a conjunção de Saturno e Plutão que irá se consumar. A propósito, a última vez que essa conjunção aconteceu em Capricórnio foi em 1517, um mês depois de Martinho Lutero afixar suas 95 teses na igreja do castelo de Wittenberg, portanto em perfeita sincronicidade com o início da reforma protestante (que pode ser vista como um ajuste de grandes proporções diante do momento de excessos na Igreja Católica). Se os astrólogos da época soubessem a respeito de Plutão e seus demônios, isso acrescentaria um elemento talvez decisivo nas muitas polêmicas em torno do mapa de Lutero. Mas o sistema solar ia só até Saturno mesmo, o que já era o suficiente para que se chegasse a previsões bastante precisas a respeito do Apocalipse.

No entanto, é para o plano individual, para nossa experiência diária, para a mente e o espírito de cada um de nós, que, na minha opinião, todas as nossas atenções e cuidados devem estar voltados nas próximas semanas. O conjunto de trânsitos e aspectos que vão se suceder a partir da Lua Nova e do eclipse solar do dia 26 de dezembro não são o fim do mundo – e acho até que farão desse intervalo um momento de rara oportunidade para retomarmos o prumo que foi perdido nos últimos anos. É sobretudo isso que estará em jogo nesse início de 2020, creio eu: uma chance de recomeçar a partir de novas bases. E esse recomeço passa por uma definição final a respeito daquilo que não nos serve mais, e que continua fazendo parte de nossas vidas por força do hábito ou de uma exaustiva e esgotada insistência.

Isso pode acontecer em diferentes áreas da experiência, variando de acordo com o arquétipo solar e outros componentes do mapa individual. Libra, por exemplo, pode viver esse tipo de definição em relação à família, e nesse caso, curiosamente, toda essa energia no eixo Câncer-Capricórnio, tão familiar e apegado às tradições, servirá para ceifar de vez aquilo que se desgastou e vem capengando no âmbito das relações familiares. Para todos os signos, porém, esse deve ser um momento para dar um fim efetivo ao que já está acabado. Até porque, a essa altura, o que está acabado já vem acabando há tempos, e nesse processo de lento acabar-se está acabando com nossa paz de espírito e nossa saúde mental.

É disso que estou falando quando me refiro à energia que haverá disponível agora para retomarmos um certo equilíbrio. Tenho visto muita gente vivendo o desespero da tentativa de preservar o que já está findo ou remediar o que não tem conserto. Nisso, ganham em volume e estridência as discussões que parecem se dar em um mundo anterior à queda, porque presumem proximidades onde há distâncias, ou parecem querer restaurar o paraíso perdido, nem que seja na marra e na base do murro. O momento que vamos viver agora é de reconhecimento que nada disso tem volta. O que pode ser uma coisa triste, mas a essa altura creio que para muitos de a percepção virá com uma boa dose de alívio.

Amigos já me perguntaram umas duas ou três vezes, meio à brinca e meio a sério, se com esse encontro tão exato de tantos planetas e um eclipse ainda por cima o mundo finalmente acaba, depois de tantas previsões infundadas. Minha resposta tem sido que o mundo já acabou, e que agora nós estamos na expectativa é dele recomeçar. Mas, quando digo isso, penso sobretudo nas experiências individuais que estão implicadas na ideia de “mundo”: é o mundo de cada um de nós, pelo menos um aspecto importante dele, que vai encarar de vez a finitude no começo de 2020, para abrir espaço para que tudo comece de novo nessa área da vida. Então, para que isso se execute, será mesmo bem-vinda uma boa dose de energia capricorniana.

Isso, em primeiro lugar, porque Capricórnio sabe traçar limites como nenhum outro signo. Capricórnio tolera muita coisa, suporta o que der e vier, mas tem sempre um “alto lá” para quem se exceder nas liberdades com a cabra – até porque ela entende que certas coisas são inegociáveis. Em segundo lugar, Capricórnio é um tipo que conhece o silêncio, convive bem com a solidão, e acredito que boas doses de silêncio e solidão vão ser importantes nesse processo. Conjunções planetárias são fenômeno cuja sincronicidade experimentamos com nosso corpo e coração inteiros, de acordo com sentimentos que vêm de dentro, sem necessariamente serem acionados por acontecimentos externos. Mas, para vivê-los, a gente precisa deixar que elas aconteçam em nós.

Passadas as festividades natalinas, portanto, virá o tempo de preparação para essa virada significativa, muito mais significativa que a virada de ano. Terminadas as Saturnálias, será tempo de entender o que mais tem que findar. Repito que a transição tem um forte componente espiritual, apesar de tratar também de fatos concretos e realidades duras da vida. A Lua Nova do dia 26 será um belo e harmonioso impulso para o instante mais denso que há de chegar uma quinzena depois. Quem tiver um pouco de senso usará essa largada para colocar-se em posição de escuta em relação às próprias emoções e aos próprios pensamentos, pois são eles que trarão as respostas que cada um de nós aguarda, e os gestos com que vamos delimitar o primeiro dia do resto de nossas vidas. Finalmente: nós já estamos esperando isso há algum tempo.

Para terminar, lembrei de um poema de Leonard Cohen, intitulado “Discussão”, cujos primeiros versos dizem: “Você talvez seja uma pessoa que gosta de discutir com a Eternidade”. Da maneira como o poema se desenvolve, entendo esse ‘discutir com a Eternidade’ como uma discussão com finitude e com a morte. De um modo ou de outro, todos nós discutimos com a morte, tentamos confrontá-la, expressamos nossa contrariedade em relação a ela, ou diante do fato de que as coisas acabam (assim como o amor acaba, no texto de Paulo Mendes Campos). Mas chega o momento em que perdemos nossas forças para continuar essa discussão, percebemos que não há como vencê-la, e com isso – quem diria – a vida se renova e segue adiante.

Acho que esse momento vai chegar pra muita gente em breve. Da maneira como as coisas estão se arranjando no céu, vejo Plutão como o agente da finitude e da morte que estamos confrontando há algum tempo. O Sol, a Lua Cheia eclipsada e os demais planetas que vão se reunir em torno dela me parecem ter vindo para encerrar essa briga, não necessariamente pacificando os ânimos, mas silenciando-os o suficiente para que entendam: já não há pelo quê brigar. As coisas se moveram e se transformaram a ponto de terem desfeito o próprio mundo onde a briga começou. A partir daqui a história é outra, e qual será nós não sabemos – mas tenho esperança de que, também em breve, a gente saberá por onde começá-la. Feliz 2020 para todos nós.


astros

As separações segundo Ceres

Eu estava com meu filho de cinco meses quando aconteceu. Ele me deu o sorriso. Não um sorriso, não qualquer sorriso, mas o sorriso: inquestionável, arrasador, fulminante, destituído das ambiguidades desse mundo, amplo e aberto como a própria vida, irradiando o mais puro prazer sem dentes e a mais pura alegria sem propósitos, como se a existência fosse motivo de excitação suficiente para o contorcer de todos os músculos da face em uma inesperadamente harmônica profusão de luz em forma de lábios arqueados e olhos vívidos. Bebês são bons nessas coisas. Na hora, pensei: ih, tô apaixonado. No entanto, pensei também: que difícil, isso.

Bom, não sei se pensei essas coisas. Devo ter sentido algo assim, e ao mesmo tempo algo tão difícil de explicar que a explicação mais fácil fica sendo tão correta quanto as outras. Mas, se não é incomum a gente sentir alegria e dor ao mesmo tempo, a pontada de lamento atravessando essa cena doméstica foi meio inesperada. Mesmo para mim, que sou um capricorniano dado a ambivalências e melancolias, essa singular mistura de sentimentos saiu não sei de onde.

Fui então olhar quais eram os trânsitos astrológicos mais significativos naquele momento, para verificar que símbolos do horóscopo estavam interagindo entre si, e se eles me diziam algo a respeito. Em uma primeira checada, nada. Mas, olhando outra vez, percebi que, ao atentar para os planetas canônicos principais, estava deixando passar o corpo celeste que naquela situação específica era o mais importante.

Estou falando de Ceres, que, sim, estava incrivelmente ativa no céu do dia e em relação ao meu mapa. Havia acabado de ingressar em Capricórnio, após um longo período de idas e vindas em Sagitário que durou mais da metade do ano passado. Realizava um aspecto difícil e exato com Quíron naquela manhã mesmo, o que tornava potencialmente dolorosas as experiências relacionadas a filhos para todos nós. Mas por si só Ceres já carrega certa dose de tristeza, ainda que não necessariamente em assuntos relacionados à prole, e não de maneira irreversível ou extrema – pois ela diz a respeito ao possível equilíbrio que podemos alcançar nos ritmos pendulares que são a regra em boa parte de nossas experiências.

Ceres foi o nome que os romanos deram para Deméter, deusa da agricultura e das colheitas na mitologia grega. Já falei um pouco mais a esse respeito em uma brincadeira que fiz com os taurinos (nesse post aqui). Ela relaciona-se com Touro não apenas através da questão da alimentação, mas também através dos ciclos produtivos e reprodutivos, que implicam uma determinada relação com o trabalho. Naquele mesmo dia, por exemplo, li uma postagem de uma amiga escritora e capricorniana falando de como lida com os períodos “improdutivos” entre um livro e outro, alternando entre o medo de ter perdido a mão e a reparadora confiança de que lá na frente a mão vai voltar.

Ela volta. Pelo menos no mito ela volta. Porque Ceres/Deméter é justamente sobre a perda e o retorno cíclico de algo ou alguém. Mãe de Perséfone, ela teve a filha raptada por Hades/Plutão e acabou conseguindo um acordo para que a filha passasse metade do ano com ela e metade do ano no submundo. Ceres é sobre a regularidade das estações do ano, sobre a relativa previsibilidade com que perdemos e renovamos nossas energias e talentos, mas é também sobre as concessões que a gente faz para garantir esses retornos. Pense nessas concessões como uma espécie de repouso. Se deixarmos o solo quieto por uns tempos, a primavera há de florescer na terra descansada.

Eu sei, eu sei: falando assim é tudo muito bonito. Na vida mesmo tem umas horas que esses ciclos e suas rupturas (ainda que previsíveis, ainda eu reversíveis) doem demais, e doem com regularidade. Eu me lembro de quando eu e mãe do meu primeiro filho nos separamos. O fim de um casamento não costuma ter nada de rotineiro, e conosco não foi diferente; Plutão, Netuno e Urano estavam envolvidos; transformação, desilusão, instabilidade nos avassalaram. A princípio foi o caos, inclusive em termos práticos, pois tive que me mudar de cidade por uns meses, e meu convívio com ele ficou condicionado por muitos imprevistos. Até que consegui um emprego no Rio, me mudei de volta para cá, e ele passou a estar comigo em intervalos regulares, que com frequência terminavam aos domingos.

Aí as coisas entraram nos eixos novamente. Mas aqueles domingos podiam ser difíceis exatamente porque integravam o ciclo normal das coisas. Depois que eu o deixava na casa da mãe e voltava para o meu apartamento, era às vezes tomado por uma sensação de falta que acontecia sempre do mesmo jeito, e era ao mesmo tempo inesperada. Não havia outros motivos de angústia; como na lenda, eu e a mãe dele nos entendemos e chegamos a um bom arranjo; ele parecia feliz com as duas casas (sim, Perséfone acabou gostando se tornar a rainha dos infernos, pelo menos durante parte do ano). Mas ficava a percepção de que mesmo os melhores acordos reparadores do mundo vão estar sempre condicionados às perdas irreparáveis que os antecederam. Uma vez raptada, Perséfone nunca volta a ser o que era. Uma perda não se torna fácil pelo simples fato de se tornar repetitiva ou cotidiana.

Não parei para olhar os trânsitos que vivi nessa época, mas às vezes a astrologia consegue ser incrivelmente literal, e aspectos de Ceres podem indicar questões envolvendo a guarda de filhos. Ou então envolve as brigas, separações e acordos dos nossos pais. Uma amiga virginiana postou esses dias sobre o filho adolescente que está para se mudar de cidade; Ceres está transitando justamente a casa que para Virgem se refere mais especificamente aos filhos mesmo, e em especial aos filhos adolescentes. Porém, às vezes as coisas são mais sutis, e envolvem o aprendizado do convívio com algum outro tipo de ciclo – como quando, depois de um início animador de um relacionamento, a gente percebe o entusiasmo refluindo, como se estivesse indo embora mesmo. Se for um relacionamento feito pra durar, isso fatalmente vai acontecer. Depois ele volta, amadurecido e mais constante. É Ceres que dita os ritmos a partir daí.

Agora, meu filho mais velho está fazendo os vestibulares, está se despedindo de muitas coisas, considerando até a possibilidade de estudar em outras cidades. Isso nessa idade é parte da curso regular da vida, e ainda assim dá uma sensação mais aguda de que o tempo passa e os ciclos continuam sua marcha ordinária tão inclemente. Na foto aí de cima, nós dois estamos imantados em um quadro de metal daquele apartamento, em meio a outras lembranças, foto com fotos tornada memória das memórias daquele tempo. E, de novo, estou diante de uma situação de chegadas e partidas a princípio metafóricas mas possivelmente bastante reais num futuro próximo. Acho que, por mais destituído de ambiguidades que tenha sido o sorriso do Gabi, minha percepção dele foi atravessada pelo fato de que pouco antes eu havia falado sobre esses assuntos com o Tiago.

Parece-me então que as grandes rupturas e transformações podem criar a sensação de que estamos à mercê de forças além do nosso alcance, mas é nas perdas mais cíclicas, rotineiras ou previsíveis, que se aloja o verdadeiro mistério. Quando o trágico é evidente, a gente pode recorrer a filosofias e metafísicas para dar um sentido ao inexplicável; quando nem se nota, contamos apenas com nossos próprios recursos para engolir o choro e seguir adiante.

Enfim, tem certas coisas com que a gente não se acostuma nunca, e não tem dia em que a gente não perca algo de muito valioso. Por outro lado, isso quer dizer também que que todos os dias recuperamos algo muito importante, e todo amanhecer é o renascimento de um sol que morreu para boa parte do mundo horas antes. Só que, para que isso aconteça, é preciso que a gente o deixe ir embora, que renuncie à guarda do Sol e aceite que ele tem outras coisas para fazer na vida. Ou, dito de um modo não menos verdadeiro: para que isso aconteça, é preciso que a gente se permita descansar.

astros

As lições de Hermes

[Loki, em um manuscrito islandês do Sec. XVIII]

Mercúrio retrógrado é que nem crase: não foi feito para humilhar ninguém, mas ajuda saber umas regrinhas básicas para quando a ocasião pedir. Esqueci uma dessas regras em um episódio da última temporada de MR, e vou fazer um breve registro aqui, que é para não fazer igual mais.

Uma amiga me ligou dizendo que estava passando dias difíceis. Entre outros motivos, havia o resultado de um exame que estava para sair. Nessas horas, sei que estou sendo consultado como astrólogo também, e não vejo problema em abrir o mapa da pessoa e ver se há algo de evidente em seus trânsitos que eu possa comentar sem uma consulta formal. Havia. Um aspecto de Netuno em trânsito com o Mercúrio do mapa natal indicava possibilidade de inquietação e ansiedade referente a diagnósticos, e que provavelmente ela estaria com uma visão distorcida da realidade nesse aspecto. Em resumo, ia ficar tudo bem.  

É o tipo de situação em que a tecnologia pode ser útil; em tese, bastaria um áudio no aplicativo de mensagens para que eu pudesse tranquilizá-la um pouco. Mas foi aí que eu errei. Pois, como se não bastasse aquele aspecto, Mercúrio retrógrado estava envolvido na história também, e a possibilidade de erros de comunicação era imensa. Resultou que mandei o áudio sem o devido cuidado que a situação exigia. Misturei o assunto mais imediato com outros, de médio e longo prazo. Acabei fazendo a informação realmente importante complicar-se num emaranhado de outros prognósticos. No dia seguinte, quando escutei a resposta, percebi que ela estava ainda mais apavorada.

Não tive o devido cuidado que seria necessário com uma pessoa que – como eu bem sabia, pela análise de seu mapa – estava propensa naquele momento a ver as coisas de um modo equivocado. O equívoco maior, portanto, foi sem dúvida o meu. Mas, além disso, ignorei Mercúrio retrógrado e sua capacidade de pregar este tipo de peça na gente. Curiosamente, meu vaticínio acabou se concretizando também por obra de minhas próprias palavras, na medida em que elas reforçaram as distorções que estavam querendo assinalar.  

Moral da história: toda consulta a um astrólogo, seja formal, informal, pontual ou ampla, implica o momento em que as perguntas são feitas e respondidas. Isso nos ajuda inclusive a lembrar que a astrologia, da maneira como a entendo pelo menos, não é um pseudociência porque não pretende ser uma ciência. Ela presume uma identidade inconsciente de sujeito e objeto e a imersão de ambos em um mesmo contexto, em que não há um observador externo capaz falar de um ponto de vista estável, mas um constante fluxo de relações que se transfiguram a todo instante.

Esse é o universo da relatividade e da complexidade, que não por acaso remete a algumas experiências do mundo antigo e do mundo oriental (e do nórdico, do africano, do ameríndio), como já foi observado com frequência na literatura científica e antropológica. Do mesmo modo, o grande desafio da experiência da astrologia não é muito diferente daquele que enfrentam em seu cotidiano os indivíduos imersos em culturas politeístas. Há que se prestar reverência a diversos deuses, muitas vezes contraditórios e caprichosos, e cujos altares se erguem em uma intrincada e labiríntica rede de templos interligados. No caso, Mercúrio retrógrado é um deles.

Mercúrio, aliás, não custa lembrar, na Grécia antiga era Hermes,  irmão mais novo de uma família que contava com Hércules, Apolo, Atena e Dionísio, entre outros; se ele não fizesse uma travessura de vez em quando, Zeus poderia mal notar sua existência. Daí a necessidade que ele sente de chamar nossa atenção por meio desses pequenos transtornos periódicos; é também uma maneira de nos fazer parar e olhar para aquilo que normalmente damos por certo. Mercúrio retrógrado é Hermes no auge da pirralhagem, mas é também um sinal de alerta para as coisas do mundo que precisam de novos cuidados. Não é culpa dele que elas tenham sido esquecidas. Não atirem no mensageiro.

E o que ele pede não é muito. Durante cerca de três semanas, três vezes ao ano, temos que ter maior cuidado em nossas comunicações, ter paciência com pequenos entraves, ter atenção com minúcias e detalhes que costumamos deixar no automático. Aquilo que foi negligenciado vai estragar, vai exigir reparos, vai exigir conserto – e isso vale tanto para aparelhos eletrodomésticos quanto para relações humanas. Mercúrio retrógrado, portanto, é sempre também uma oportunidade de restituir uma tessitura mais firme à esgarçada rede de deuses abandonados por nossas preces.

Porém nada disso exige que a gente se ajoelhe ou acenda velas aos pés de imagens. Nada contra velas e imagens, muito pelo contrário. Mas é bom enfatizar que agora nossos atos cotidianos e nossas atenções mútuas são mais do que suficientes para respeitarmos todas as divindades, Mercúrio retrógrado inclusive. Aliás, talvez mais do que nenhum outro, Mercúrio é um deus que fica satisfeito com essas miudezas do dia a dia. Através do cuidado com as miudezas do dia a dia, enfim, nós só temos a agradecê-lo com/por isso.

astros, peixes

Sonhos de Cassandra

Troia em chamas (c.1759) | Johann Georg Trautmann

Diz-se que, no local da Grécia Arcaica onde seria situado o templo de Delfos (consagrado a Apolo), havia outrora uma profunda fenda no chão de um terreno onde ovelhas costumavam pastar. Se alguma delas se aproximasse demais da fenda e olhasse para dentro, começaria a “pular de maneira espantosa e balir num tom aflito, anormal”, segundo Diodoro Sículo. Os humanos que investigassem o mistério também entravam em estado de transe, e um deles, em seu delírio, passou a predizer o futuro. Por isso o local veio a ser considerado miraculoso: o povo acreditava que o oráculo havia sido uma dádiva de Gaia, a deusa da Terra.

Como muitas pessoas se perdiam e desapareciam dentro da fenda, pareceu adequado aos habitantes dos arredores designar uma única profetisa, que seria encarregada de receber seus espíritos, sob a proteção da serpente Píton. Este foi o “dragão-fêmea, monstro enorme e horrendo” que Apolo derrotaria para assumir o posto de oráculo de Delfos, na narrativa dos hinos homéricos. Esta luta e sua vitória coincidem com uma substituição de aspectos arcaicos da antiga religião por uma visão mais ordenadora e racional do mundo. Foi também nessa época que Apolo se diferenciou de seu irmão Dionísio, um deus da natureza, passando a representar a objetividade, a índole científica e a clareza lógica que caracterizou a Grécia
Clássica.

A oposição e complementação entre Apolo e Dionísio ficou conhecida através da obra de Nietzsche sobre o nascimento da tragédia. No entanto, conhecemos menos a história de Cassandra, a filha de Príamo que sonhou com a derrocada de sua família e da cidade de Troia, mas não encontrou quem acreditasse em sua profecia. Anos antes, ao frequentar o templo de Delfos, ela havia recusado um pedido de Apolo, e foi amaldiçoada pelo deus com o descrédito de todas as suas visões. Desesperada por prever um futuro terrível e não ter como prevenir os seus familiares, Cassandra passou a chamar a atenção para seus vaticínios de formas incomuns ou mesmo exageradas, sem nunca obter sucesso. Pode-se dizer que começou a balir como as ovelhas da lenda, no que viria a ser descrito no século XIX como o típico comportamento de uma mulher histérica.

A analista junguiana Laurie L. Schapira estudou a maneira como o diagnóstico da histeria esteve vinculado ao descrédito da intuição feminina nesse período. Pois se, por um lado, o poder premonitório de Cassandra se manteve na experiência de inúmeras mulheres, Apolo seguiu fazendo seu trabalho de desqualificá-las como criaturas descontroladas. O próprio Freud pode ser acusado de ter reduzido poderes verdadeiramente estranhos de feiticeiras medievais ao “meramente histérico”, acompanhando Edward Jorden, autor da primeira obra em língua inglesa sobre o assunto. O estado de transe ou de possessão fica assim compreendido como um sintoma, com a simulação de desmaios e tremores para realizar algum tipo de chantagem ou manipulação emocional.

Mas as duas coisas não são excludentes. Podemos presumir que Cassandra de fato tenha o dom de prever o futuro, e que, ao perceber-se incapaz de persuadir os outros do que vê, passa a utilizar formas mais insidiosas de convencimento, que podem acabar distorcendo sua própria visão. Ou então, diante da crueldade da barreira imposta pelo ressentimento de Apolo, ela simplesmente recai no desespero e começa a berrar feito uma louca. De um jeito ou de outro, possui motivos suficientes para sentir-se vitimizada durante boa parte de sua história, pois tem sua imagem pública e seu ego massacrados não apenas por Apolo, como também por Príamo, Agamenon, Hécuba e Clitemnestra, a tal ponto que ela mesma já não crê suas visões. O trabalho clínico que Schapiro narra diz respeito a longas trajetórias de mulheres tentando recuperar a crença em si mesmas.

Quanto à astrologia, não me parece casual que o mito de Cassandra tenha reaparecido através da questão da histeria justamente quando Netuno passou a integrar nosso mapa do cosmos, na segunda metade do XIX. Netuno é o regente de Peixes, e Peixes é sem dúvida o arquétipo mais intimamente ligado à história de Cassandra. É verdade que geralmente o associamos ao aspecto vago e delirante dos cultos dionisíacos, assumindo por esse viés o contraste com as formas e a lógica apolíneas. Mas Peixes merece mitos femininos para ser explicado e compreendido, até porque suas águas são a origem de tudo, e quando damos um nome à origem de tudo a chamamos de Grande Mãe.

Sabemos que Peixes está em contato com os mananciais intuitivos e premonitórios que corriam no fundo da fenda de Delfos. Esse poder está de acordo com a natureza psiquicamente permeável do signo. Sabemos também como esse aspecto da personalidade pode ser diminuído e desacreditado na sociedade contemporânea, ou isolado como sinal de debilidade e loucura. Com isso, cria-se sempre o risco de que Peixes reincida permanentemente no papel de vítima, ou crie relações de dependência que o tornam um chantagista do zodíaco em potencial, como tentei descrever em outra postagem. 

Assim, o desejo que têm de fazer com que os outros vejam o que surge em suas visões, o descrédito que suas estranhas percepções encontram no mundo social, e a maneira como a realidade dos sonhos é destituída de valor à luz do dia – tudo isso pode tornar a história de Cassandra bastante real para alguns piscianos. O caminho para se lidar com esse impasse é um fortalecimento do ego que não signifique a supressão da alma; basicamente, é o de descobrir-se na posição da pitonisa protegida pela serpente, uma personificação de forças naturais que assume face humana, mas não se identifica exclusivamente com a vítima ou com o algoz do mito.