áries, libra

O Zen e a arte de descascar batatas

A costureira (1665) | Jan Veermer

Tem aquela história de um sujeito que chegou para trabalhar em uma fazenda e deram para ele a tarefa de remendar todas as cercas do terreno. Em questão de horas elas estavam remendadas. Aí perceberam como ele era eficaz, e deram para ele um monte de lenha para partir com um machado. Em minutos já não tinha lenha nenhuma para partir. As coisas foram seguindo nessa toada até que já não havia quase mais nada para fazer, além de descascar as batatas do almoço; deram para ele mais essa missão, com a certeza de que não ia durar mais que um piscar de olhos. A única diferença era que nesse caso ele ia precisar escolher as batatas boas e dispensar as que estavam ruins. De modo que anoiteceu e ele ainda estava lá, diante da primeira batata, sem ter decidido ainda se ela entraria no primeiro ou no segundo grupo.

A anedota é simples, a moral da história é clara: algumas pessoas, por mais competentes que sejam, simplesmente não conseguem tomar decisões. Não é da natureza delas, assim como não é da natureza do vento escolher qual caminho tomar. Agora, querem ver como as coisas de repente se complicam? Eu pergunto, invocando a dúvida que me parece realmente relevante diante dos fatos narrados: esse nosso personagem simplório e hesitante, o pau-pra-toda-obra-menos-aquelas-que-envolvem-escolhas, o exímio cortador de lenha e fracassado descascador de batatas, ele é de Áries ou de Libra? Porque de um ou outro desses signos ele é, isso fica evidente de imediato. Daí a decidir qual já é outra história.

E olha que nem libriano eu sou para ficar me entretendo demais com esses dilemas. O problema é que justamente esse estereótipo do libriano indeciso me parece insuficiente para chegar à resposta. Consigo facilmente ver o protagonista da anedota como um ariano também. Quem me garante que a velocidade dele para remendar cercas não se deve a um espírito impaciente, que não se deixa demorar em segundos pensamentos antes de partir para ação? E quem me garante que a imagem dele diante das batatas a descascar não é a de um ser exasperado com a tarefa impossível de ficar tomando decisões criteriosas e fundamentadas, quando tudo o que ele queria era sair descascando geral para ir embora logo dali?

Porém, todavia, entretanto, contudo: quem me garante que essa pessoa não era um libriano inconsciente de suas mais autênticas faculdades mentais até o momento em que se encontrou, justamente, diante da necessidade de tomar uma decisão? Quem assegura que ele não conseguiu de fato ver na questão das batatas uma série de nuances, variáveis, influxos, interferências, modulações, nodos, protuberâncias, capazes de ocupar a mente por uma tarde inteira, de maneira que, a partir de um simples to peel or not to peel, brotaram algumas possíveis respostas para as mais antigas encrencas filosóficas da humanidade? Em resumo, quem me garante que nosso protagonista na verdade não era uma Hannah Arendt dos tubérculos?

Pois é. A Hannah Arendt era libriana. E era botar duas batatas na frente dela para sair um tratado de batatologia capaz de mudar completamente nossa visão do assunto. Curiosamente, trata-se de uma autora que teve na ação um dos temas fundamentais de suas reflexões. Ou melhor, curiosamente não, coerentemente: pensar sobre a ação é, basicamente, o que Libra faz da vida. Independe se isso se dá no âmbito do não-sei-se-caso-ou-compro-uma-bicicleta ou da crítica da Crítica da Razão Prática.  

Isso tampouco quer dizer que Libra é incapaz de agir; Libra é capaz de agir sim, mas no caso libriano o problema não é a precipitação, e sim a demora mesmo. Pois entre o pensamento e o ato existe uma distância que nunca será simples de transpor. Enquanto em Áries acontece o contrário: o ato vem antes do pensamento, e a distância entre eles persiste, só que no sentido oposto. O que nos dá uma boa base para explorarmos um mesmo tópico em ambos os signos. Ele diz respeito à temporalidade de nossos gestos – ou, em bom português, o problema do timimg.

As coisas vão fazer mais sentido se a gente lembrar que Libra é um signo cardinal, dos que estão de fato voltados para a ação, a iniciativa e para a resolução de problemas (os demais são Áries, Câncer e Capricórnio). O fato de associarmos a resolução de conflitos ao arquétipo libriano faz parte desse jogo. Acontece que o conflito é um tema do eixo de opostos complementares Áries-Libra do mesmo modo como a ação é: aparece em ambos os lados da figura. Em Áries, o conflito com o mundo externo é parte natural da existência imediata, e a ação rápida decorre da defesa do eu diante do outro. Em Libra, por outro lado, o conflito é internalizado, o eu e o outro coexistem na mente individual, e a ação demora porque antes eles precisam se entender.

Com frequência, então, Áries age como se estivesse sozinho no mundo, porque em sua experiência arquetípica ele está – é o caçador solitário na floresta, atento a cada movimento ao redor, capaz de aniquilar uma ameaça em um gesto, porém despreparado para lidar com o componente imprevisível do comportamento humano. Áries não lida bem com a ambiguidade, e prefere ter uma relação direta com as coisas – mesmo que seja uma relação de luta – o que implica também uma dificuldade em conviver com o conflito.  Para Áries, conviver com um conflito é como ouvir constantemente e noite após noite o barulho de um animal rondando o acampamento no escuro da floresta, e não poder fazer nada a respeito. Uma tortura.

Libra, por outro lado, vai noite após noite juntando informações, pensando a respeito do que fazer para lidar com a ameaça, pensando em se será bicho ou será gente, até o momento em que a ameaça – qualquer que seja – avança sem que nada de efetivo tenha sido feito para enfrentá-la. Nessa situação, o libriano estaria em desvantagem. Agora vamos supor que ao invés de estarmos em uma floresta estamos em um tribunal de júri. Recolher informações a partir dos semblantes dos jurados, aguardar o momento certo para apresentar uma evidência, esperar a hora de fazer um discurso decisivo – tudo isso são virtudes que Libra pode exercer muito bem nesse domínio.

Mas ainda assim Libra só vai tomar uma decisão realmente certeira se tiver Áries em seu mapa ajudando de alguma forma. E vice-versa: se Áries simplesmente partir para cima do bicho por puro desespero, vai acabar sendo comido também. O interessante é que tanto em um caso como no outro o ideal não é exatamente que a reflexão venha antes da ação; o ideal é que as duas coisas aconteçam juntas. É verdade que a vida ia ser muito menos divertida se Áries e Libra não tivessem seus descompassos, que sem o erro não existiria a comédia, e que sem a comédia não existiria Charles Chaplin. Mas, quando o eixo Áries-Libra funciona bem, o gesto é perfeito, e não apenas acontece no timing correto como subverte nossas concepções usuais de tempo e espaço.

Quem entendeu isso bem foram os orientais. A gente é que com frequência não entende os orientais direito. O Tao Te Ching, de Lao-Tsé, é muitas vezes confundido como um elogio da inércia e de um deixar-se levar pela vida de traços piscianos e zeca-pagodísticos; nada mais distante da realidade (nada contra Peixes, e muito menos contra Zeca Pagodinho, muito pelo contrário; estou dizendo apenas que o pensamento pagodiniano não é aplicável aqui). O livro, em diversos momentos, se pretende inclusive como uma espécie de instrução para o governante nos moldes do que viria a ser o Príncipe de Maquiavel, e, portanto, oferece dicas e aforismos voltados para a tomada de decisões bem concretas e mundanas. Mas, sim, Lao-Tsé acredita que uma determinada atitude do espírito é mais favorável para que as decisões certas aconteçam.

Nós perderíamos muito do seu ensinamento se caracterizarmos essa atitude como particularmente ativa ou particularmente reflexiva. O desafio é justamente não decidir agir, mas criar condições para que a ação se dê por força própria em nosso corpo, no tempo exato, e ao mesmo tempo não a deter por conta da desconfiança que sentimos diante de sua espontaneidade. Quem deu um exemplo de como isso pode acontecer foi o acadêmico alemão Eugen Herrigel em O Zen e a Arte do Arco-e-Flecha, livro em que relata sua experiência como professor visitante na Universidade de Tóquio.

Lá, ele foi convidado a cursar disciplinas como Cerimônia do Chá, Arranjo de Flores, Esgrima e Arquearia, optando pela última e descrevendo depois no relato a longa experiência aí iniciada. Desculpem o spoiler, mas preciso dizer que ele vai acabar  acertando uma flecha atrás da outra bem no meio do alvo. No final da história, ele entende que sua longa série de fracassos decorreu do fato de que ele sempre decidia soltar a corda do arco e só depois a soltava; ou então ele, ao tentar evitar esse mecanismo, decidia soltar antes de decidir, aí soltava mais rápido, antes da hora, precipitadamente, por pura ansiedade.

O livro é um clássico que vale a leitura integral, mas gostaria sobretudo de lembrar uma passagem de sua conclusão. Nela, Herrigel menciona o método empregado por um mestre esgrimista com alunos que chegam a residir com ele para alcançar melhores resultados. No início da convivência doméstica, ao aluno são atribuídas tarefas rotineiras como cortar a lenha e lavar a louça. Nenhuma palavra ou lição a respeito da esgrima. Porém, para maior espanto do discípulo, ele passa a levar fortes golpes do mestre com um bastão enquanto está realizando estas atividades, sempre de maneira imprevista e intermitente. De modo que desenvolve uma tensionada prontidão para defender-se dos golpes, mas ainda assim nunca consegue antecipá-los. E pior: sempre que ele se coloca em guarda para receber uma estocada de um lado do corpo, ela acaba vindo no outro, e, sempre que se prepara para conter um golpe em determinado momento, ele acaba chegando só instantes depois.

O aluno vai então percebendo instintivamente que é inútil manter aquele estado de alerta. Não porque esteja a salvo do perigo, mas porque não há como prever qual será a ameaça e quando ela se lançará contra ele. Além disso, as energias para manter o corpo e a mente predispostos à defesa contra um possível ataque são sempre gastas inutilmente, e podem ser valiosas para a defesa contra um ataque real. Se ele aguarda o golpe vindo do lado esquerdo, por exemplo, e o recebe do lado direito, o tempo necessário para redirecionar sua força de proteção é motivo de uma demora significativa. Incapaz de solucionar o problema, incapaz de defender-se dos golpes, o aluno aceita sua sujeição à imprevisibilidade do mestre.

Até que um dia, enquanto está lavando a louça ou cortando a lenha, sem se ocupar mais que o mínimo com sua proteção, ele de repente se vê interrompendo um golpe desferido como todos os outros – em um momento inesperado, de um flanco desguarnecido. Não é nada que ele estivesse aguardando. Ele não decide se defender. Ele tampouco decide não decidir. Ele simplesmente se defende. Suas energias e talentos estão totalmente disponíveis para reter o golpe do bastão espontaneamente, no instante em que ele é percebido. A partir daí, o mestre o considera apto a iniciar a prática da esgrima.

Moral da história: há em nossa ansiedade um forte elemento de preparação para golpes que nunca chegam. Há, por outro lado, golpes que efetivamente chegam quando tudo parece indicar que estamos a salvo de seus riscos. Mas podemos nos defender deles assim como o vento decide qual caminho tomar: sem pensar duas vezes. O que não implica tomar atitudes impensadas, mas encontrar um modo de ação no qual o pensamento não aconteça nem antes nem depois do gesto, mas simultaneamente, de tal maneira que um não se diferencie do outro. Pode parecer difícil. Mas veja bem: não é nada muito diferente do que faz um bom jogador de futebol quando decide fazer um lançamento e faz. A questão aí é como a gente pode aprender com eles a fazer lançamentos na vida.

Ah, que saudade dos lançamentos do Ronaldinho Gaúcho, por falar nisso. Pena que na vida hoje em dia ele parece não pensar nem meia vez antes de fazer o que faz. Olhei aqui agora, o Ronaldinho é de Áries. Isso explica muita coisa: o poder de explosão, a intuição corporal, a decisão rápida. Aquele gol contra o São Paulo em 2013. Enfim, um jogador completo. Inteligente. Deve ter algo acentuando Libra no mapa também. E ao mesmo tempo, deve ter algo capaz de avacalhar a relação Áries-Libra em proporções ronaldescas. Enfim, há dessas pessoas no mundo, capazes de feitos olímpicos inimagináveis – mas vai saber o que acontece quando a gente pede que descasquem umas batatas.

áries

Arianas de pijamas

Resolvi tentar distrair aqui e fazer uma brincadeira sobre os signos que mais sofrem com essa história de confinamento. Mas foi só começar o zodíaco que já senti logo o baque: putz, Áries. Não é nem que arianos sejam particularmente sensíveis à reclusão; eles são capazes de fazer o que quer que seja, inclusive passar semanas enfurnados sozinhos em casa sem contato com ninguém, desde que isso tenha sido uma decisão deles. O que afeta Áries logo de cara nessa história toda é a perda de controle sobre as ações mais imediatas da vida, a necessidade de delegar decisões para outras instâncias e a imprevisibilidade do enfrentamento a um inimigo invisível e imponderável.

É claro que nem todos estão forçados a ficar em casa. Eu conheço pelo menos uma médica ariana que deve estar na linha de frente, talvez transtornada com as condições de trabalho e o direcionamento que o governo está dando assunto, mas talvez também aliviada pela sensação de que pelo menos ela está fazendo alguma coisa. O calor da batalha é o ambiente próprio desse signo. Por mais que isso implique acatar ordens que vêm de cima, na prática não é assim que a situação é encarada, pois Áries sente que está com destino nas próprias mãos desde que lhe seja outorgado o manejo de uma espada ou de um bisturi. E está.

Hércules é um herói ariano. Muita gente nem sabe por que exatamente ele teve que executar os tais doze trabalhos, mas sabe que ele conseguiu realizá-los com excelência e precisão. Que ele os tenha enfrentado para expiar a culpa por ter matado os próprios filhos parece ter menos relevância do que o simples gosto pelo desafio. É isso que motiva Áries: as tarefas de difícil conclusão, as metas de alcance improvável. Que sejam tarefas designadas por terceiros, e metas que não se justifiquem a não ser por um capricho dos deuses, importa menos que os movimentos para executá-las a partir do momento em que são aceitas.  

Os esportes competitivos acontecem no âmbito do arquétipo de Áries. Exatamente porque estabelecem objetivos que podem parecer absurdos ou engraçados quando a gente os vê de uma perspectiva externa, mas cujo questionamento seria absurdo para quem vê de dentro. Se eu contar para vocês que as pessoas se reúnem aos montes em construções gigantescas para ver quem de um punhado de jovens consegue pular mais alto usando uma vara entortada fincada no chão, talvez isso pareça meio grotesco. E, no entanto, as pessoas fazem isso o tempo inteiro, apesar do risco de arrebentarem as costas com essas brincadeiras desnecessárias.

Havia uma passagem sobre isso em uma cena que escrevi para o teatro. A personagem era tipo uma pisciana com ascendente em Gêmeos. Aí uma hora ela falava assim: “Você já viu aquele jogo de bola que eles praticam aos domingos? O das jogadas ensaiadas? É assim: eles ficam a semana inteira ensaiando. É o treino. No treino, cada um cumpre uma função muito bem específica, principalmente quando ensaiam as jogadas, e dá tudo certo. Então, no domingo, quando chega a hora da jogada, eles ficam cheios de segredos, se entreolham, e ocupam seus postos. Aí é aquele silêncio. É. Feito este. Um silêncio que parece que não vai acabar nunca. Até que alguém resolve bater na bola. E aí, pronto: acontece tudo diferente. Tudo errado, quase sempre. Então eles ficam desesperados, começam a correr atrás da bola que nem doidos, que é o jeito normal deles de ser, e sabe o que eles dizem pra explicar o erro? Eles dizem assim: treino é treino, e jogo é jogo. Você percebe a diferença? Treino é treino, e jogo é jogo. Porque no jogo tem outros que não estavam no treino. Outros onze. Para atrapalhar. É uma bagunça”.

Então: esse é o ponto de vista externo de que falei. O olhar de quem percebe a comédia humana transcorrendo por aí em suas deliciosas patetices. Áries, porém, não é um signo cômico nesse sentido. Áries está envolvido no jogo. Pode ser um signo engraçado pela maneira como vive metendo os pés pelas mãos, seja por impaciência ou por ingenuidade, mas vai ser sempre antes um jogador atrapalhado do que um espectador cínico. E os equívocos que eventualmente comete implicam uma vontade de acertar que não encontra rival em nenhum outro signo do zodíaco. Talvez Virgem. Mas a busca pela perfeição virginiana está a serviço do bom funcionamento do cosmos, ou, no mínimo, do bom funcionamento do Estado, do Lar ou do Corpo. A busca ariana pela excelência é em um certo sentido mais pura e intocada. É simplesmente a necessidade de fazer acontecer mesmo.

Por isso, existe algo de extremamente lúcido da parte de quem participa dos jogos. Na ponta da prancha, enquanto prepara o pulo, o atleta de saltos ornamentais não vai nunca pensar “e agora, salto ou não salto?”, ou que tipo de benefício seu salto pode trazer para a sociedade (assim como o artilheiro na cara do gol não vai se perguntar se chuta ou não chuta, às vezes mesmo que esteja na cara do gol errado). O saltador, então, vai apenas dedicar-se de corpo inteiro à execução mais completa do ato, para assombro daqueles que o assistem sabendo que tal e tal giro duplo mortal carpado era até outro dia impossível. É dessa lucidez do corpo que estou falando – da maneira como ele á capaz de se concentrar em uma proeza com total esquecimento de todas as outras questões.

De modo que a dedicação a um feito inédito é algo capaz de mobilizar esse signo. O difícil vai ser encontrar feitos inéditos para realizar no caminho do quarto para a sala e da sala para a cozinha por esses dias. É verdade que o atual esforço coletivo em “achatar a curva” pode motivar alguns arianos a ficar em casa: isso tem lá seu desafio, com a vantagem de ser possível acompanhar os gráficos como quem acompanha as estatísticas de um campeonato. Mas, convenhamos, o que Áries queria mesmo é estar por aí trucidando uns vírus. Dá para imaginá-lo sonhando com cenas em que abre caminho no meio de um exército de coronas com machadadas certeiras e sanguinárias, decepando suas cápsulas proteicas em glorioso furor implacável.

O que não dá para imaginar é Áries tomando cuidados extremos para esfregar com álcool gel aquela partezinha atrás da unha, a não ser que isso seja entendido como uma espécie de batalha. Tudo nesse mundo tem limite; a paciência de Áries nem se fala. A recomendação que fica é a de encararem tudo como uma guerra mesmo. Ou talvez como as Olimpíadas. Lembrando que Áries é velocista de provas curtas, e um ótimo candidato à medalha de ouro em provas como o Declathlon (que, aliás, tem toda a pinta de ter sido inspirado nos doze trabalhos de Hércules), porém não vai tão bem em testes de resistência e de esforço continuado, nos quais se sobressaem Escorpião e Capricórnio.

Maratonar séries no Netflix, portanto, pode não ser a melhor alternativa. Mas basta um pouco de criatividade para encontrar formas de livre exercício do espírito atlético de Áries entre quatro paredes. Recomendo, por exemplo, os Três Metros Rasos na Pista do Corredor, ou o Arremesso Artístico de Papel no Cesto do Lixo, ou, para quem tem filhos, a Corrida de Obstáculos Pulando os Brinquedos Espalhados na Sala. Para quem não tem, um joguinho de dardos bem afiados pode ser interessante. Para acertar bem no centro do alvo, ajuda se você tiver um retrato do presidente.

Outro caminho, enfim, é entender a ressonância mítica de que estão investidos alguns de nossos atos mais cotidianos. A propósito, um dos doze trabalhos de Hércules foi limpar os estábulos de Áugias, rei de Élida, cujo gado produzia uma assombrosa quantidade de esterco. Daí a sugestão: na próxima vez que estiver diante daquela pia de pratos acumulados durante dias, você que é de Áries pode muito bem encarar a tarefa como uma missão heroica. Não se engane com a aparente banalidade da função, pois nosso amigo Hércules também achou o fim aquela história de estábulos. Mas não sabendo que era impossível foi lá e fez – saiba, então, que por trás daquela pilha de louça suja podem estar lhe aguardando a glória e a imortalidade.

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O lugar bom

Essa postagem é para quem assistiu ou está assistindo The Good Place, a série da NBC que estreou em 2016 e terminou em 2020 (tem na Netflix). Vi o último episódio esses dias, e série tem esse negócio de a gente ficar com saudade dos personagens. Então – prometo não estragar o final para ninguém, pelo menos não para quem já passou da primeira temporada – me deu vontade de explorar um pouco mais a brincadeira dos signos com eles. A propósito, já mencionei o Michael (Ted Danson) em um texto sobre Capricórnio, e indiquei a Eleonor (Kristen Bell) para o Oscar do zodíaco que propus uma vez aqui, na categoria Personagem de Áries. A essa altura, estou convencido de que ela merece o prêmio.

Isso porque ela é uma ariana que vai ficando mais suave no decorrer da série, menos tensionada no confronto com o mundo, e, por mais que esse seja um caminho esperado em uma narrativa cômica convencional, ela nos convence de que isso é possível. Não é só porque aprende a falar palavrões com certa civilidade (tipo “holy fork!”, eventualmente traduzido por “fruta que caiu!”); ela faz com que seja verossímil uma heroína de Áries do bem, na medida do possível, é claro. De todas as transformações que vemos no decorrer das temporadas, para mim a dela é a mais notável. Não quer dizer que fique menos ariana, pois conheço muita gente desse signo que já parte desse lugar em que o restante da humanidade não é visto apenas como uma ameaça, e sabe que dá até para conviver com gente, às vezes até gosta. Em se tratando de Áries, já é bastante coisa.

Chidi (William Harper), por sua vez, é o clássico libriano que precisa aprender a tomar decisões. Não por acaso é o par oposto-complementar de Eleonor. Mas acho interessante que seja um filósofo. É comum as pessoas acharem Libra um signo romântico, mas a gente sabe como eles conseguem ser incrivelmente frios e cerebrais. Falta-lhes o fogo das paixões leoninas, o poço dos sentimentos escorpiônicos, a sensibilidade ao ambiente de Touro ou Virgem. É lógico que nessa perspectiva falta um traço de Libra também todos os outros arquétipos, e falta mesmo. Sobretudo quando a gente conhece um libriano que, não obstante sua librianice, e inclusive por causa dela, sabe decidir que sobremesa escolher depois de colocar todas as opções na balança.

Jason Mendoza (Manny Jacinto) é um caso singular. Peixes, sem dúvida. O interessante é que ele é pisciano tanto em sua versão de mentirinha quanto depois que ficamos sabendo quem ele realmente é após os episódios iniciais da série. Nesse caso acho que não conta como spoiler porque a coisa se revela logo ali no segundo ou terceiro capítulo: ele passa de um monge tibetano de olhos puxados que vive à base de meditação e água fresca para um morador da Flórida de origem filipina de olhos puxados que vive à base de todo tipo de porcaria e pequenos roubos de gasolina. Embora o monge seja um personagem típico do arquétipo de Peixes, a versão verdadeira de Jason é até mais pisciana que a outra.

O legal é que ele não deixa nunca de ser um personagem ingênuo e encantador. Avoado, iludido, totalmente incapaz para os assuntos práticos da vida, mas nunca menos “espiritualizado” que sua versão monástica, mesmo quando se lembra do dia que passou atirando em ratos no lixão de Jacksonville com um primo de Blake Bortles. Porque ele espera ser aceito pelo mundo da mesma maneira como o aceita, e representa o papel do bobo em tudo o que tem de plena receptividade e espelhamento do mundo ao redor. Além de ser engraçado, é claro. Tem uma cena, por exemplo, em que está todo mundo dando opinião ao mesmo tempo sobre algum problema, aí ele entra e dispara a falar um monte de coisas nada a ver. Quando perguntam o que deu nele, responde: “Sei lá, estava todo mundo falando junto achei que era para eu falar também”. Tipicamente pisciano.

Quanto à Tahani (Jameela Jamil), aí já fico na dúvida. Ela tem a rivalidade geminiana pela atenção dos pais com a irmã, mas não tem agilidade de raciocínio de Gêmeos; participa do encanto leonino com o universo das celebridades, mas falta-lhe magnetismo e confiança para ser ela própria uma Leoa. No final das contas, fico achando que é de um signo de Terra. Mas nesse caso estou disposto a aceitar ajuda, então se alguém aí tiver um opinião a respeito pode falar. Vejam só que coisa bizarra estou me tornando: uma capricorniano que admite que não sabe uma coisa e até pede conselho pros outros. Tipo o Michael.

Voltando então rapidamente ao Michael: o engraçado é que, além de ser uma figura evidentemente capricorniana em sua função de gerenciar a coisa toda e saber tudo a respeito de tudo, ele a princípio tem ainda aquele traço de Capricórnio que não aceita a necessidade de ajuda. Precisa estar sempre no controle, sem precisar nem do palpite de mais ninguém. É lógico que isso já vai mudando a partir da segunda temporada, vai ficando mais claro como na verdade tudo o que ele precisa (e no fundo quer) é assumir a forma falível e imperfeita dos humanos. É muito exaustivo isso de se responsabilizar pelo universo o tempo inteiro. Algo semelhante poderia ser dito de muitos capricornianos. 

E tem a Janet (D’Arcy Carden), é claro. A Janet é um caso à parte. Aí eu perguntei pro pessoal da internet qual é o signo da Janet, e a resposta que mais me apareceu foi Virgem. Eu respeito essa posição e até entendo. Ela tem um gestual contido e um jeito de se vestir que são bem virginianos. Ela presta um serviço inestimável, aparece sempre que alguém precisa de alguma coisa, é uma funcionária exemplar do cosmos e e nem humana ela é. Pra muita gente, isso é mais que suficiente para cravar: virginiana.

Mas eu sou Capricórnio com ascendente em Escorpião, então quando peço conselho ou palpite pros outros vocês podem suspeitar que é só jogo de cena. Já formei minha opinião há tempos e nada me fará arredar dela. Acho que os gestos controlados e aparentemente metódicos da Janet têm mais a ver com fato de que ela não tem muita familiaridade com a forma humana que assumiu. Aí vocês precisam que considerar que, quando a gente fala que Virgem não é muito humano, isso é mais num nível metafórico; é lógico que não é literal. Tem só um signo que corresponde a essa característica sem precisar de licença poética. Tem só um signo de gente que veio de outras galáxias e está ainda se acostumando a viver entre nós.

Pois então: Aquário. Em primeiro lugar, exatamente por isso, porque nem humana ela é. Digo isso na certeza de que os aquarianos queridos do meu coração vão entender como um elogio: tipo, você nem é humano, você é uma Janet. E, como se não bastasse, ela é capaz de prover os humanos com aquilo que normalmente é reservado aos deuses, como fez Prometeu, protagonista do mito mais significativamente aquariano. O fato de que vai acabar se apaixonando por uma pessoa de carne e osso, e conhecer um pouco mais os desejos do corpo que a princípio lhe é estranho – isso também acontece com frequência no âmbito do arquétipo de Aquário. E a maneira como a mente dela se conecta como uma espécie de supercomputador a tudo o que acontece no universo só me faz ter mais certeza do meu ponto.

Para terminar, ufa, tem a série como um todo. Estreou em 19 de setembro de 2016. Essa sim é, portanto, virginiana. Para mim faz sentido: a narrativa costuma ser até bem metódica em sua sobreposição de universos como se fossem bonecas russas, mesmo quando flerta com o caos. Agora, eu apostaria que existe alguma coisa ali que articula muito bem Sagitário e Touro. Talvez a Lua no primeiro, o ascendente no outro. Pois o pano de fundo é sagitariano, de modo que toda a brincadeira é organizada em torno de uma indagação sobre o sentido da vida e a finalidade da existência. Ela pode não alcançar muita profundidade nesse sentido; mas isso, pelo menos para mim, não é necessariamente uma falha ou deficiência. É aí que entra a perspectiva taurina.

Pois, no final das contas, após as milhões de referências a Kant e Heidegger e Pascal, a série acaba recorrendo ao pensamento oriental para dar uma última resposta provisória ao enigma do existir. Sobre esse aspecto dos últimos episódios, sem entregar o enredo, vou me permitir uma pincelada, até porque o recurso é mais que previsível, e não apenas pelo andamento da série, mas pela própria linguagem seriada de que ela é um bom exemplo. A ideia de que o “fim” pode ser infinitamente postergado para uma outra temporada – e de que podem existir mundos infinitos dentro de infinitos mundos – faz, curiosamente, com que o momento presente seja mais valorizado. Se a própria morte não é conclusão de um processo, mas faz parte de um conjunto incessante de ciclos, não tem porque você se afligir com uma finitude ilusória, e você pode muito bem encontrar o infinito que existe contido no agora.

Buda, como já disse aqui vez ou outra, para todos os efeitos era taurino. Seu aniversário é comemorado no dia 07 de maio. Isso para mim está relacionado não apenas à paciência e à perseverança, mas também à capacidade que Touro tem de aproveitar as coisas boas da vida. Digo, aquelas coisas materiais e momentâneas mesmo, como uma boa refeição, um bom vinho, uma boa companhia ou a simples possibilidade de respirar fundo um ar puro e tranquilo. É por isso que para mim a série termina onde começa a grande lição de Touro para nós. Que é um pouco a lição de Buda também. Não saia daí. Respire. Aproveite a vida. Aproveite o momento. O lugar bom é onde você está.

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Iniciantes

Eu estava no meio de uma aula quando minha mulher ligou dizendo que estava a caminho da maternidade. Algumas horas depois o Gabriel tinha nascido, em um parto imprevisto e antecipado, mas normal, e ao mesmo tempo quase fora da normalidade de tão tranquilo (eu diria até “fácil” se não tivesse sido particularmente fácil para mim, que fiz as vezes de chefe de torcida; mas o ânimo da obstetra e da equipe era de uma genuína descontração, e a Maíra fez o trabalho pesado como se já tivesse parido umas dez vezes antes).

É claro que quando ele nasceu eu já tinha quase todo o mapa astrológico natal dele na cabeça. Faltava o ascendente, que muda rápido, de acordo com a rotação da Terra, passando duas horas em cada signo por dia, uns minutinhos em cada grau. O interessante aí é que a posição exata do ascendente influi em todas as outras posições de um mapa, e é uma espécie de princípio organizador do espaço onde vão se distribuir todas as outras informações. O ascendente é para mim o assunto mais fascinante da astrologia, e se ainda não escrevi em detalhes a respeito é porque me faltou tempo para tentar explicar com calma o porquê.

Assim, depois de ter cuidado de assuntos médicos e de saber que ele estava bem, fui conferir qual era o ascendente dele com curiosidade e expectativa. Mas não imaginava que o resultado seria tão singular, improvável mesmo. Ele tem o ascendente o grau zero de Áries, ou seja, no inicinho do zodíaco, que é outro dos meus temas astrológicos favoritos, que foi inclusive o tema de uma incrível troca de mensagens que tive com a Cal Garrison no começo do ano, de um comentário dela em seu blog sobre essas conversas, e de alguns textos e comentários que publiquei.

Seria de se presumir que com isso a imagem do mapa dele teria ficado completa para mim. Mas é aqui que as coisas ficam mais interessantes. Porque o grau zero de Áries é fascinante exatamente porque ele é o ponto do zodíaco do qual nada pode ser dito além do fato de que ali as coisas começam. O que começa, como começa, para onde vai, nada disso importa. É a própria ideia de início que está implicada. E, com ela, a liberdade, pois tudo o que realmente se inicia – ou seja, tudo o que nasce – é livre para tornar-se algo novo, algo que nunca antes veio a ser (a Hannah Arendt fala bastante disso em A Condição Humana).

Qualquer leitura de um mapa astral responde a perguntas que fazemos a ele. Nesse caso, à pergunta sobre “como será o meu filho”, o mapa dele respondeu: você não faz ideia, você não tem como saber. Ele entrou no mundo através de um portal muito específico, que existe durante quatro minutos a cada dia, e que enfatiza o aspecto inédito de cada existência. Um dos motivos pelos quais o ascendente é um ótimo assunto está no fato de que ele está sempre relacionado ao nascimento, à liberdade e à espontaneidade criativa do cosmos; para todo mundo ele é esse portal. Mas, no caso do Gabriel, a coincidência do ascendente com o grau zero de Áries enfatiza que sua liberdade – inclusive perante todos os demais símbolos astrológicos – é absoluta e inegociável.

Em um texto no Facebook sobre Quíron, que ainda vou republicar aqui, escrevi o seguinte no começo do ano: “Quíron está entrando no grau zero de Áries, o local onde aquilo que desconhecemos se inicia”. Em outro texto, sobre o arquétipo de Áries, que já está no blog, comentei o seguinte: “O éden de Áries não é um lugar; é um gesto, um momento de independência e libertação. Mesmo que nos leve ao desconhecido, mesmo que cause incerteza, será preferido a qualquer sensação de segurança que exista às custas da verdadeira vida”. É engraçado perceber agora que de certa forma eu estava escrevendo para mim mesmo, para esse pai que, agora, querendo ou não, estava em busca de alguma previsibilidade e segurança, ao montar o mapa astral do filho na cabeça antes mesmo do parto, para depois arrematá-lo com um dado que desmontava toda a construção anterior.   

Sem dúvida, o que temos aqui em casa agora – essa criaturinha que grita, chora, mama, dorme, quase ri – é a verdadeira vida. Uma vida iniciante inclusive nas artes da respiração, com pais que precisam aprender e reaprender tanta coisa que é como se estivessem eles próprios no princípio de tudo. Os dias vão passando e eu certamente voltarei a olhar para o mapa de meu filho tentando identificar traços de sua personalidade, de seu destino, de suas vidas passadas. Mas esse ascendente no grau zero de Áries estará sempre lá, para me lembrar que que tudo está sujeito à contínua renovação, de que não sabemos de nada com certeza e segurança, e de que estamos sempre apenas no começo.

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O paraíso de Áries

Mestre de Boucicaut | Getty Museum

Sobre Áries, vamos tentar ser diretos: é quando aquilo que desconhecemos se inicia. O signo está relacionado a partos e nascimentos, e é em seu arquétipo que se dá à luz o novo e o inesperado. No entanto, Marte, o regente de Áries, é também regente de incisões e rupturas, então o que acontece nesse ponto não é exatamente uma gênese a partir do nada. Algo acontece que nos leva de um estado protegido e restritivo para uma realidade externa que atrai e propõe desafios; se formos buscar uma referência bíblica, podemos dizer que é aí que somos expulsos do paraíso.

Áries sucede Peixes na roda zodiacal, e ambos representam impulsos antagônicos. No âmbito pisciano buscamos um retorno à matriz, a imersão no cosmos, o reencontro com Deus – chame como quiser – mesmo que às custas de nosso ego e individualidade. Ou seja, queremos voltar para o paraíso, após um longo processo que atravessa as doze casas do zodíaco. Em Áries, por outro lado, a individualidade e a vontade são afirmadas, ou reafirmadas, a despeito das circunstâncias, da família, do Estado, e inclusive de um Deus que limita e constrange. Em Áries está o impulso de separação, que é também um impulso para a liberdade.

O processo então é cíclico, e o gesto ariano precisa ser periodicamente reencenado. Isso porque aquilo que chamamos de paraíso é nesse mundo muitas vezes uma prisão. Aliás, a palavra “paraíso” tem uma origem persa que se refere a um “lugar murado”, “para-daeza”, entre paredes. E a dissolução pisciana do ego de fato nos leva eventualmente a lugares enclausurados, onde nossa vontade individual é submetida a autoridades maiores (penitenciárias, sanatórios, mosteiros).

Mas, às vezes, a busca de reconstruir o paraíso na terra leva a formas mais sutis ou insuspeitas de restringir nossa liberdade ou constranger nossos movimentos. É sobretudo aí que o arquétipo ariano precisa agir, reencenando nosso nascimento como uma forma de libertação. Pois toda busca por estarmos plácida e confortavelmente instalados entre paredes é frustrada ou resulta em distorções; somente as paredes uterinas um dia serviram para este fim. Por isso, a cada vez que a liberdade do indivíduo é sacrificada em nome de um sonho de absoluta segurança, precisamos da bravura de Áries para derrubar aquilo que o medo construiu tentando se proteger [edit: estou revisando esse texto durante a quarentena do Coronavírus e preciso acrescentar: agora não, Áries, agora não precisamos de bravura não; comporte-se aí por enquanto, e, a não ser que você não tenha alternativa, ou possa ajudar de outra maneira, mantenha-se seguro entre quatro paredes].

Enfim, o éden de Áries não é um lugar; é um gesto, um momento de independência e libertação. Mesmo que nos leve ao desconhecido, mesmo que cause incerteza, será preferido a qualquer sensação de segurança que exista às custas da verdadeira vida. Em uma época em que condomínios fechados são vendidos como lugares paradisíacos, por mais infernal que possa ser a existência em seu interior (e no interior dos espaços mentais que ajudam a restringir), espero que chegue a hora de provarmos a árvore do conhecimento mais uma vez. Fica então o pedido: arianos do mundo, não desanimem [não desanimem]. Em algum momento vamos ter que nascer de novo. Precisaremos de vocês.

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Calma, Áries

Leonard Cohen

Hoje me deu vontade de escrever sobre Áries, e aprendi com os arianos da minha vida que é totalmente ok fazer uma coisa só porque deu vontade, então vamos lá. Mas escrever sobre Áries é sempre um problema, a gente fica com receio de que lá pela terceira ou quarta frase os próprios arianos tenham perdido a paciência com o texto. E não acho que isso se deva somente à objetividade ou irritabilidade dos nativos desse signo: essas características estão de acordo com o estereótipo, é claro, e são muitas vezes verdadeiras, mas nas imagens e narrativas vinculadas ao arquétipo encontramos elementos mais interessantes para justificá-las. Por exemplo: Siegfried, um dos personagens que encontramos nessa coleção, é um herói praticamente invencível, mas vulnerável quando é atacado por trás.

Em geral os guerreiros marciais apresentam alguma variação dessa característica, em que se mostram dispostos e aptos para qualquer batalha em campo aberto, mas encontram dificuldades sempre que existem reentrâncias a serem consideradas. Da mesma forma, Áries estará em seu ambiente na luta contra um inimigo honesto, mas ficará desconcertado diante de um adversário malicioso, que trabalha por trás dos panos para sabotá-lo. Isso é uma virtude e é uma fraqueza, mas serve também para mostrar que Áries está longe de ser um demônio, e nem de longe possui o tipo de talento que satanás possui para a manipulação de suas vítimas. Suas habilidades são outras, seus defeitos também, e não há entre eles nenhum que não seja exposto à luz do dia.

Daí a desconfiança diante de quaisquer subterfúgios retóricos e orações subordinadas que prolonguem além da conta a elaboração de um raciocínio. Uma pessoa que fale ou escreva desse jeito só pode estar escondendo alguma coisa. Ou, pior, talvez esteja querendo alguma coisa, mas sem dizer exatamente o quê. Áries, com sua capacidade de saber o que quer, dizer o que quer, e buscar o que quer, não vai nunca compreender porque as pessoas tomam caminhos tão sinuosos para expressar e satisfazer seus desejos. “Eu quero” é uma frase tipicamente ariana, a outra é “diz logo onde você quer chegar”.

Nessa objetividade reside sua astúcia e sua esperteza. Podem não ser as criaturas mais sofisticadas, mas aprenderam que a sofisticação é uma das máscaras da malícia, e não vão se deixar cair facilmente nesse truque. Já receberam muitas facadas pelas costas quando supunham que estava tudo à vista, e chega o momento em que conseguem lutar também contra sutilezas e chantagens emocionais de que alguns outros arquétipos são tão capazes. Não que se tornem eles próprios peritos nesse tipo de embate. Mas, como Hércules lutando contra a Hidra, uma hora percebem que só precisam trazer seu oponente para a superfície.

Por isso, se, durante uma discussão com Áries, você disser “calma, Áries”, ou algo do tipo, e isso não surtir efeito, pode saber que isso acontece não apenas por uma questão de temperamento. Para eles, não manter a calma é um legítimo recurso estratégico. Sabem que um debate ponderado pode muito bem ser um debate desigual, em que uma série de minúcias são mobilizadas para desorientá-los, e que às vezes só pedimos tranquilidade porque queremos ganhar tempo. É sempre possível ocultar nossas verdadeiras intenções entre diversas vírgulas e advérbios, e bem mais difícil fazer isso com sujeito-verbo-predicado.

Por outro lado, conheço também arianos perfeitamente tranquilos e pacíficos, que inclusive não se reconhecem muito nas descrições do signo, mas nunca deixam de ser ligeiramente obtusos diante de algumas complicações da vida, ou vulneráveis aos ataques desleais com que ela às vezes nos atinge. Isso é uma virtude e uma fraqueza, mas para mim é sobretudo uma lembrança de que o arquétipo de Áries tem ele mesmo suas complexidades, e que nunca será possível defini-lo em uma frase, por mais simples e diretos que a gente tente ser.