aquário, câncer

O livro de segredos de vovó Alice

Em outubro de 2013, quando recebeu o Prêmio Nobel, a escritora canadense Alice Munro deu uma entrevista sobre seus hábitos e preferências literárias. Ao ser perguntada sobre o que considerava importante na hora de escrever um conto, ela disse que, no começo de sua carreira, o importante era que suas heroínas tivessem um final feliz. Havia inclusive começado a escrever histórias com uma versão própria da narrativa da Pequena Sereia, em que a protagonista recebia uma recompensa à altura de seus esforços para se adaptar à vida fora d’água. No entanto, Munro diz ainda que, ao amadurecer e entrar em contato com outros textos, suas inclinações mudaram: “Aí eu fui para o trágico. E eu gostei”.

O sorriso em seu rosto quando faz essa afirmação é uma imagem ao mesmo tempo esclarecedora e desconcertante. O leitor de seus livros sabe o que está por trás dele: uma infinita e extremamente complexa rede de acontecimentos que se afetam mutuamente, de maneiras nem sempre compreensíveis, mas em relações nítidas o bastante para intuirmos a estranha coerência do destino de suas personagens, por mais difíceis ou trágicos que eles possam ser. “Destino”, aliás, é uma palavra que provavelmente sequer aparece em toda sua obra – assim como, em uma charada cuja resposta seja “vermelho”, essa palavra não aparecerá nem uma única vez.

Não vou arriscar nenhuma explicação desse sorriso. Não vou oferecer uma análise da síntese que ele nos proporciona. Só queria aproveitar a oportunidade do aniversário recente da escritora para mencionar que o nome desse blog teve sua origem em um livro dela, e que uma das primeiras postagens era uma anotação breve sobre a relação entre Câncer e a tragédia. Desenvolvi um pouco mais esse ponto em um pequeno ensaio posterior, mas sempre achei que o momento de concluir minha tarefa com o assunto seria ao escrever algo mais elaborado sobre os contos de Alice Munro.

Cheguei à conclusão de que esse momento chegou. Ou melhor, entendi agora que ele nunca vai chegar. Não é que eu me recuse a reduzir uma obra à expressão do signo solar de quem a escreveu; já fiz essa brincadeira algumas vezes, com Kafka, com García Márquez, com Shakespeare. A questão é que, no caso de Alice, especificamente, a tarefa me parece de antemão fadada às mais elevadas escalas de um tipo específico de insucesso – aquele em que eu ficaria páginas e páginas de debatendo com as palavras, inutilmente, para tentar encontrar um modo de dizer algo que desde o começo eu sabia ser impossível de explicar.

Nada muito diferente do cotidiano de muitos escritores e ensaístas. Mas é algo que de vez em quando a gente prefere evitar. Até porque, nesse caso, sinto que estou diante de uma força que vai defender com unhas e dentes seu direito de me causar assombro e perplexidade (com unhas, dentes e um sorriso tão aberto quanto impenetrável).  Há, talvez, um mistério central na obra de Alice, e há certamente uma infinidade de segredos particulares em cada um de seus contos. Mas sinto que eles não estão aguardando nenhuma interpretação, nenhum desvelamento, e muito menos uma especulação hermenêutica baseada no signo da pessoa.  

De modo que este texto é basicamente uma recomendação de leitura, além de uma homenagem. Leiam o livro de segredos de vovó Alice: uma obra com mais de uma centena de contos nunca gratuitamente complicados, mas sempre incrivelmente complexos, em que as reverberações de cada gesto se entrecruzam numa figura ao mesmo tempo robusta e delicada, desenhando-se por trás de toda dor e todo o sofrimento das personagens. Vidas inteiras são despedaçadas, mas parece que isso nos revela uma forma mais profunda de integridade. Trata-se de um anteparo sempre incomum, mas nem por isso menos verdadeiro: o fato de essa rede ser indescritível em sua singularidade não implica que ela não esteja lá.

Enfim, cá estou tentando compreender o que eu disse que não ia tentar explicar. Mas me ocorreu agora que a questão da tragédia na obra de Alice Munro requer a visualização de três camadas para ser assimilada. Na primeira estão os títulos de livros como O Progresso do Amor, O Amor de uma Boa Mulher e Vida Querida, que repercutem aquela fase inicial de sua trajetória como contista, quando o importante era o final feliz. Esses títulos podem ser atribuídos à irônica permanência de uma capa de otimismo e ingenuidade em alguns de seus contos mais dilacerantes.

Na segunda camada, está o que todo mundo percebe quando abre um desse livros e começa a efetivamente ler as histórias: uma imensa sensibilidade para os aspectos mais frágeis da condição humana, nossas inevitáveis experiências com a perda, a morte, a violência e a crueldade, nossas eventuais alegrias em meio a essa confusão toda, e nossa possível conciliação com todo o conjunto desses fatores (nunca com apenas uma parte deles). Eu poderia dizer que esta sensibilidade em particular é tipicamente canceriana, acrescentando algo do ascendente em Aquário para dar conta da complexidade. Mas o que eu queria dizer é que minha compreensão da própria astrologia começou com a leitura da obra de Alice Munro.

Pois, na terceira camada, o que eu sentia ao ler os contos dela é algo muito semelhante ao que sinto ao ler mapas astrológicos. Há um destino ali: suas razões podem não ser compreensíveis, seu desenho não está totalmente claro, mas há elementos suficientes para entender que os acontecimentos de uma vida, inclusive os mais sofridos, não são fatos isolados, e fazem parte de uma trama cuja urdidura se dá a conhecer por estes meios (a literatura, os astros). Então, o trágico que se manifesta inevitavelmente na trajetória de cada um tem como pano de fundo uma trama. Essa trama é uma imagem, uma textura, um jogo de oposições e ressonâncias. Então, eu comecei a aprender a ler mapas lendo Alice Munro.

Depois, é claro, vieram as técnicas, a bibliografia específica, a experiência prática. Mas foi a experiência de leitura dos contos dela que preparou esse terreno, criando o hábito da convivência com sensações que atravessaram de um lugar para o outro. Com a astrologia, há sempre a sensação de que cada mapa é infinitamente complexo, mas nunca gratuitamente complicado; de que é possível encontrar a trama que está por trás da dor e do sofrimento de cada personagem, mesmo que isso nunca deixe de causar assombro e perplexidade; e de que essa trama tem sua coerência, sua força e sua presença, revelando uma forma mais profunda de integridade.

Agradeço aos céus pelo dia em que entrei numa livraria e saí de lá com aquele livro verde com uma folha na capa de uma senhorinha canadense que eu nunca tinha ouvido falar. A partir dali, mergulhei na obra dela como só mergulharia em algo novamente ao estudar os astros e os signos. Que essas coisas estejam interligadas é um dado a mais na percepção da infinita rede de relações de que se compõem nossas vidas. No entanto, o que está por trás (mas por trás mesmo) de tudo isso é algo que eu não sei dizer, e provavelmente nunca saberei, a não ser que venha um dia a descobrir o que está por trás do sorriso no rosto de Alice.  

aquário, astros, leão

O retorno de Tchekhov

“Se quiser a minha vida, venha e leve-a”. Esta é a frase que Nina faz chegar a Trigórin no terceiro ato de A Gaivota. Trata-se de uma peça do escritor russo Anton Tchekhov, que teve uma importante reestreia em 17 de dezembro de 1898, após uma primeira temporada de pouco êxito em São Petersburgo; de modo que o autor, então morador de uma área rural, ficou feliz em fazer uma viagem curta para ter a oportunidade de assisti-la em sua versão moscovita e mais bem-sucedida. A passagem de Anton pela cidade, no entanto, foi marcada por um outro evento menos comentado dos registros da história literária. No mesmo dia em que assistiu a peça, ele se encontrou, em uma estação de trem, pela última vez, com Lydia Avilova. Anos antes, ela lhe enviara uma mensagem de conteúdo idêntico e por meio parecido ao utilizado por Nina no espetáculo. Agora, eles despediam-se um do outro em uma plataforma enevoada e gélida, enquanto ele via se afastar para sempre aquela que havia sido o grande amor da sua vida.

A cena traz toda a melancolia que podemos esperar do encerramento de uma relação intensa e intermitente, feita de momentos apaixonados e longos intervalos de distanciamento. Segundo o biógrafo David Magarshack, Tchekhov chegou ainda a cogitar que aquela história tivesse um final semelhante ao de “Sobre o amor” (um dos tantos contos que escreveu inspirado, ao menos em parte, por sua relação com Avilova), no qual há um beijo no desfecho. Mas Lydia permanecia casada, e além disso estava acompanhada de dois de seus três filhos na estação de trem. Ela sabia bem que o tempo deles tinha passado, que suas chances de ficarem juntos – se é que existiram – tinham sido desperdiçadas, quando ela se arriscou ao enviar para ele aquela mensagem, por exemplo, e ficou aguardando uma resposta que não veio. Ou seja: um beijo, àquela altura, seria um motivo de embaraço e desgosto, talvez até mesmo um gesto de desespero.

Ainda assim, é um pouco triste imaginá-los renunciando definitivamente às possibilidades que uma sentiram existir para ambos. Tchekhov e Avilova haviam se conhecido dez anos antes, na casa de um irmão do marido dela. Ela faria o seguinte relato sobre essa ocasião, no livro Tchekhov em Minha Vida (ela viria a ser também uma escritora conhecida no âmbito russo): “Como é difícil às vezes explicar ou mesmo perceber o significado de um acontecimento… Na verdade, nada aconteceu. Nós simplesmente olhamos um nos olhos do outro. E, ao mesmo tempo, quantas coisas havia naquele olhar que trocamos! Eu senti como se algo estivesse explodindo dentro de mim, como se um foguete tivesse sido lançado naquele momento, triunfante e cheio de energia. Tenho certeza de que Tchekhov sentia o mesmo, e nós olhamos um para o outro, surpresos e felizes”.

Sim, de fato: como é difícil explicar ou mesmo perceber o significado de um acontecimento. E quantas coisas pode haver em um só olhar. No caso dos dois, quando a gente acompanha os movimentos seguintes, a impressão é de que naquele instante – naquele foguete – em que “nada aconteceu”, já estavam implícitos os dez anos seguintes, em que eles não teriam um segundo de sossego na vida, porque se amavam, porque queriam estar juntos, porque precisavam ficar juntos, e quando, no entanto, não podiam ficar juntos, porque não havia como, não havia onde, não havia com que desculpa, não havia com que dinheiro; só havia o porquê.

É mesmo impossível não pensar nos finais alternativos que essa história poderia ter tido. A obra de Tchekhov, como comentei, está cheia deles. O próprio “A Dama do Cachorrinho”, um dos mais belos e conhecidos contos de todos os tempos, oferece algo nesse sentido, quando os protagonistas, ambos casados com outras pessoas, e ambos apaixonados um pelo outro, após muitos desencontros e hesitações, se veem afinal recusando qualquer outro caminho que não fosse sua parceria, mas ao mesmo tempo não conseguem se desvencilhar das amarras matrimoniais e sociais que lhe estão impostas (pelos costumes, pela moral, pela igreja, pelas circunstâncias financeiras).

“Tornava-se evidente para ambos que o fim ainda estava distante e que o mais difícil e complexo apenas se iniciava”, assim termina o conto. Anton e Lydia provavelmente sentiram isso em algum momento de seu relacionamento, essa solidariedade imiscuída na paixão (“amavam-se como gente próxima e querida, como dois termos amigos, como marido e mulher”, diz ainda o narrador do conto), porém, no mais das vezes, se desentenderam e desencontraram. Quando ela estava disposta a romper seu casamento e arriscar tudo com ele, ele normalmente dava para trás. Quando era ele que a procurava, ela não sentia confiança suficiente, ou já tinha se desiludido demais para deixar-se levar pelo entusiasmo.

As coisas para ele eram mais simples, certamente. Não era ele quem tinha toda uma vida pela frente para ser visto como a mulher divorciada e que largou o pai de seus filhos para viver uma aventura com um escritor. Em se tratando de adultério, aliás, cabe lembrar que havia então na Rússia uma elevadíssima autoridade literária, intelectual e religiosa, que já havia proferido uma sentença bastante clara a respeito de mulheres inconstantes que viviam casos extraconjugais. Estou me referindo a Leon Tolstói, estou me referindo a Anna Karenina. Não vou dar spoiler, mas vai lá ler o livro para ver como é que a história acaba.

O detalhe interessante, aí, é que não apenas Lydia estava condicionada em suas decisões e hesitações por esse tipo de ambiente, em que a figura de Tolstói sobressaía em toda sua magnitude e imponência. A psique de Tchekhov, em certo sentido, era inclusive mais vulnerável às suas pregações, pois, quando conheceu Lydia, ele próprio era um seguidor do tolstoísmo. Sim, isso existia na época: uma doutrina que defendia a retomada de valores camponeses e de uma vida comunitária simples, em contraste com a decadência dos sentimentos citadinos e suas sofisticadas tramas amorosas. No caso de Tchekhov, a pregação acontecia inclusive no âmbito doméstico, onde sua posição de arrimo de família, no convívio com irmãos alcóolatras e um pai cronicamente desempregado, lhe dava o crédito moral de que precisava para lançar os mais rígidos julgamentos no mundo ao redor.

Justiça seja feita, contudo: Tolstói era um escritor tão incrível que conseguia intercalar em suas imensas parábolas alguns dos mais perfeitos parágrafos da literatura, e as construía como quem ergue o que hoje são para nós algumas esplêndidas catedrais góticas (já não importa para que elas foram erguidas, o importante é que foram, e agora podem ser admiradas). Apenas com o tempo ele se restringiu ao papel do profeta e do patriarca que recebia os discípulos em sua célebre fazenda. Mas foi já quando as coisas estavam avançando nesse sentido que Tchekhov entrou em contato com suas ideias, de modo que, quando estava com vinte e poucos anos, passou por uma espécie de conversão religiosa, cujos traços são bastante perceptíveis em sua obra de juventude.

A obra precoce de Tchekhov, aquela que ele escreveu até os 30 anos, tem, portanto, duas facetas principais. A primeira são os contos brevíssimos e de natureza humorística que ele escrevia para ganhar dinheiro em publicações semanais, e que lhe rendiam o suficiente não apenas para seu sustento, mas também para o da família, acrescidos aos ganhos com a carreira médica. Na segunda categoria, estão as narrativas pedagógicas com que ele ilustrava o pensamento de seu mestre ilustre, Leon Tolstói, tal como em “O sapateiro e força maligna”, publicado em 1888, ou seja, quando ele estava com 28 anos.

Esse é o contexto que precisamos ter em mente para tentar entender a primeira reação de Anton ao encontro com Lydia. Permitir-se aquela paixão significaria para ele perder não somente o controle de si, mas também abandonar um terreno duramente conquistado durante os anos anteriores, tanto no que se refere à conduta ética que costumava ostentar, tanto no que trata da trajetória profissional e intelectual que vinha seguindo. Não que esse caminho e essa conduta estivessem lhe proporcionando muitas alegrias; muito pelo contrário, ele reclamava bastante de tudo o que sentia estar em desacordo com seus ideais. Mas era um lugar que ele já conhecia, que havia construído para si com esforço, e onde ele podia se sentir um adulto sério em com um propósito definido na vida.

Voltando então à ocasião do primeiro encontro. De imediato, tomado por sensações que não se encaixavam bem no papel de um tolstoísta digno e respeitável (a atração por uma mulher casada), ele recusou os próprios sentimentos. Porém, entrou em um período de enorme inquietude. Por um lado, não conseguia simplesmente fazer a vida voltar a um estado anterior; por outro, não conseguia dar nenhum passo adiante. Foi uma crise de proporções inéditas em sua personalidade e valores, até porque havia fracassado na escrita de um romance, gênero no qual ele precisaria ter sucesso para que suas conquistas literárias correspondessem à estatura ética que almejava. “Tudo o que escrevi até agora é apenas lixo em comparação com o que gostaria de ter escrito”, ele afirmou a seu editor em 1888. Bom, ele estava chegando aos trinta anos nessa época. Quem conhece Saturno e seus retornos sabe bem do que ele está falando.

No entanto, em meio à turbulência, ele acabou, sim, tomando uma decisão. Não exatamente uma decisão apaixonada, e é aqui que eu queria chegar, desde o começo: ele optou por renovar seu compromisso com ideais de transformação social, ao fazer uma viagem de longo prazo a Sacalina, uma ilha na Sibéria usada para o exílio de condenados pela justiça russa. O pretexto era de estudar as condições de vida na ilha (o livro resultante da viagem saiu no Brasil pela Todavia, recentemente). E, se é verdade que o gesto estava de acordo com a atitude científica e reformadora que Tchekhov vinha adotando diante das mazelas sociais da Rússia, parece-me que estava de acordo até demais. Não dá para descartar um componente saturnino enviesado, de sacrifício e repressão de qualquer possibilidade de alegria. Sacalina e Lydia eram os polos opostos de um eixo em que de um lado estava o moralismo de Tolstói, e de outro estava seu desejo e seu afeto individual. Tchekhov dobrou a aposta no primeiro.

Sei que tem gente aí agora perguntando: ok, Gustavo, até agora tudo certo, mas e o signo? E o signo, Gustavo? Primeiramente, vale ressaltar que estamos falando de um aquariano, o que, por questões técnicas, costuma ser motivo de disputa. Sim, Tchekhov nasceu no dia 16 de janeiro de 1860, e sim, é fácil relacionar seu realismo eventualmente resignado ao arquétipo de Capricórnio. Porém, singularidades do calendário russo no século XIX fizeram com que ele estivesse, por assim dizer, doze dias atrás do nosso, de modo que Tchekhov teria nascido quando o Sol estava em Aquário: os doodles do Google estão aí sempre no dia 29 de janeiro para não me deixar mentir.

Mas queria dar ênfase a outro ponto, no que se refere ao zodíaco. Pois, até aqui, estivemos o tempo todo tratando de uma fase da vida do escritor russo em que podemos reconhecer semelhanças com uma fase de nossas vidas quando, depois de 28 ou 29 primaveras, o inverno de uma experiência de autoquestionamento, bastante incisiva, costuma pedir ajustes e revisões em nosso comportamento. Nesse caso, o signo de Saturno no mapa de Tchekhov assume grande importância, assim como acontece com o signo de Saturno nos nossos mapas, uma vez que a Saturno (incluindo o signo e a casa onde está situado) relacionamos esse tipo de crise e seu desenlace. Pois bem: Tchekhov tinha Saturno em Leão.

Leão é o signo oposto complementar de Aquário. Nessa balança, se de um lado estão o impulso reformador, um comportamento mais cerebral e científico, e uma grande capacidade dedicação à coletividade e ao mesmo à humanidade como um todo, do outro estão o prazer com a vida, um espírito criativo e artístico, e a busca da autossatisfação, que se reverte em uma generosa capacidade de satisfazer. Ou seja: onde Aquário é trabalho, Leão é brinquedo, e onde Leão é desejo, Aquário é propósito. Nós todos temos ambos os signos em nossos mapas pessoais; a questão é onde, e como.

Então, podemos presumir que o aspecto leonino da personalidade de Tchekhov estava atravessado pela presença de Saturno na região de sua psique mais diretamente vinculada a atender suas vontades individuais. Funciona assim: onde nosso senhor dos anéis se situa, haverá normalmente uma espécie de atrofia das qualidades daquele arquétipo, que vai durar pelo menos até por volta dos 30 anos, quando a execução de um ciclo saturnino completo na vida do indivíduo torna possível (ou demanda) que essas qualidades sejam despertadas. Existe uma alternativa a esse padrão, que é o exagero ostensivo e forçado dos comportamentos associados ao signo de Saturno (o Saturno em Libra com uma vida amorosa agitada e vazia, o Saturno em Capricórnio com conquistas profissionais precoces até demais, por exemplo). No entanto, o mais comum é as coisas se passarem como se passaram com Tchekhov: as qualidades e comportamentos do signo oposto ganham destaque na primeira parte da vida, e o retorno de Saturno se torna um intenso puxão do outro lado da balança, chamando a pessoa a viver algo que ela negligenciou ou negou antes.

Nesse sentido, a posição do Saturno tchekhoviano é particularmente incômoda. Pois se, por um lado, Saturno se sente em casa em Aquário, signo do que é o regente tradicional (e onde se encontra no momento), por outro lado, sua força restritiva será mais desconfortável no signo de Leão. E, no entanto, será aceita, com a desculpa ou a justificativa de que o prazer e a alegria são sentimentos egoístas, que não correspondem às necessidades mais imediatas da sociedade, ou argumento parecido. Saturno em Leão (ou Saturno na casa 5) pode muito bem abrir mão de viver a própria vida amorosa em favor de algum ideal, de algum projeto, de algum bem maior coletivo, e pode também repetir esse gesto quando sentir uma íntima ameaça a essa persona trabalhosamente criada. Ou seja: ele pode até mesmo fazer uma viagem a uma ilha na Sibéria, se for para negar a si mesmo o que mais profundamente deseja e precisa.  

NO entanto, isso não quer dizer que Saturno seja mais fácil de lidar quando está em outra posição no mapa. Saturno é sempre Saturno. Reparem, por exemplo, em como o caso de Anton Tchekhov se parece com o de Franz Kafka, que, no momento exato da completude de um ciclo de Saturno em sua vida, encontrava-se massacrado por obrigações prosaicas e tarefas rotineiras de seu emprego burocrático. Mais de uma vez, expressou seu fastio com essa condição, que o impedia de escrever (Saturno em Gêmeos); mas, na hora de fazer uma mudança, escolheu acumular obrigações ainda mais fastidiosas ao seu cotidiano, tornando-se sócio de uma fábrica de amianto, dobrando a aposta nos flagelos que o oprimiam, e, por consequência, se vendo ainda mais enredado em tudo em que o impedia de avançar na vida (o que, no caso de Kafka, se confundia com fazer literatura).

Nada com que a gente não consiga se identificar, em pelo menos uma área da vida, em pelo menos uma época da existência: esse apego insistente no sofrimento, essa estranha luxúria da infelicidade. Todos temos Saturno no mapa, e com ele essa capacidade de tomar decisões que reforçam padrões de conduta, mesmo quando sua rigidez se torna um risco iminente ao próprio fluxo vital que nos alimenta.  Como disse o Felipe Charbel em uma resenha recente sobre os diários de Kafka, todo mundo tem sua versão da fábrica de amianto, “uma situação de desconforto que era melhor ter evitado, mas na qual nos envolvemos como resultado de uma escolha absurda, a pior decisão possível em um momento crucial da vida”. Acrescento: todos nós temos uma viagem a Sacalina.

Mas talvez a gente precise mesmo dobrar a aposta em algo que não faz mais sentido para descobrir o que faz. Talvez a gente só se disponha a realmente romper as amarras quando elas ficam apertadas no nível do irrespirável. Talvez o sapo proverbial, que se deixa morrer na água fervida lentamente, só consiga encontrar as forças necessárias para se libertar da fervura se for colocado numa panela de pressão. É justamente isso que o retorno de Saturno é: uma panela de pressão, na qual a fervura já não pode ser ignorada, e cujo chiado permanecerá em nossa cabeça enquanto não encontrarmos uma verdadeira saída para nossos dilemas, ao invés de simplesmente aumentar o fogo, como se isso fosse resolver alguma coisa (no caso do sapo astrológico, posso adiantar que ele encontra força e inteligência para isso em Urano; escrevi sobre isso em mais detalhes aqui).

Em outras palavras. Talvez a fábrica de amianto tenha sido indispensável para que, pouco tempo depois de se meter nessa enrascada (que lhe tomava ainda mais tempo e energia), Kafka virasse uma noite escrevendo O Veredito, que viria a ser conhecido o primeiro texto importante de sua obra. A propósito, esse é um ponto importante em que a astrologia e a psicologia de C. G. Jung (com sua atenção a narrativas e processos arquetípicos) se encontram: em ambos os casos, as coisas acontecem “em direção a”, com uma finalidade, que pode ser deduzida da natureza dos arquétipos e astros em questão, mesmo quando tratamos de movimentos aparentemente contrários ao desenlace da história. No final das contas, percebemos que eles fazem parte essencial da narrativa, que cumpriram um papel importante nela.

Nessa perspectiva, Kafka não seria Kafka sem sua fábrica de amianto, Tchekhov não seria Tchekhov sem a viagem a Sacalina. Em seu caso, o absurdo da escolha e o desconforto da situação foram bem descritas em suas reações à realidade da ilha siberiana – de cheiros desagradáveis e oficiais corruptos, de barracos insalubres e crianças maltrapilhas, onde as eventuais festividades eram tristes e até mesmo as cartas de amor eram “repulsivas”. É verdade que, com o relato onde estão estes registros, a viagem cumpriu o objetivo de revelar uma realidade ignorada em Moscou e São Petersburgo, e assim a dimensão mais aquariana e política do gesto não foi totalmente desperdiçada, por mais que o mero desgosto domine algumas passagens do livro. É também verdade que essa era apenas a intenção mais visível do ato, sendo que próprio Tchekhov o atribuiu à relação nascente com Lydia, em uma carta a Helen Lintrayov: “Eu simplesmente tinha que fugir a todo custo. Fugi de sensações muito fortes como um covarde foge do campo de batalha”.

No próprio relato da viagem, por outro lado, surge já uma nova faceta do escritor. Há trechos em que Tchekhov abandona o olhar moralista e científico, ou meramente desaprovador, em favor de uma visão mais compadecida e compreensiva da condição humana, a partir do que viu na ilha. Nesse ponto, ele percebe como seria despropositada seria a ideia de converter os condenados de Sacalina a uma doutrina absolutamente distante de seu cotidiano. Nesse momento, ele, através de suas palavras, concede aos seus ‘personagens’ um pouco do calor humano que lhes era negado tanto por seus carrascos quanto por seus supostos redentores, e abandona o posto do missionário que levava a palavra de Tolstói para as criaturas perdidas naquele rincão nos escanteios do mundo, começando então a falar com a voz de Anton Tchekhov, na qual sobressaía uma visão mais empática, que não deixa de ser uma expressão de Aquário, porém mais amadurecida e calejada pelas maldades deste mundo.

De modo que, em retrospectiva, a viagem a Sacalina veio a ocupar um lugar importante na trajetória pessoal de Tchekhov, embora no sentido contrário ao de suas motivações iniciais. Um forte indício disso é o fato de que, logo após o retorno da ilha, seu primeiro movimento foi ir atrás de Lydia em São Petersburgo, declarando-se então pela primeira vez para ela, que já havia demonstrado antes disposição para renunciar a tudo para ficar com ele. Mas a essa altura era ela que já não sentia ter forças para tanto, e começaram aí os muitos anos de desencontros e hesitações, incluindo uma ocasião na qual conseguiram ficar juntos e sozinhos, mas foram surpreendidos pela visita inesperada de dois amigos, bem como o episódio em que, tomada por uma onda de paixão em confiança, Lydia enviou a Tchekhov um exemplar dos Contos Reunidos dele, com um bilhete: “Página 267, linhas 6 e 7”. A referência era a um trecho onde se lia: “Se quiser a minha vida, venha e leve-a”.

Porém, quando essa mensagem o alcançou, Tchekhov estava já acometido por uma enfermidade que, a longo prazo, viria a ser fatal, e não podia ir buscar a vida que ela lhe oferecera. Mas a transformou em ótima literatura. É importante então notar que nenhum dos tristes desdobramentos dessa história elimina a importância criativa e vital da mudança ocorrida em 1890, quando Tchekhov retorna da viagem. Podem reparar: a partir daí, as parábolas moralizantes passam a ser substituídas por narrativas em que a percepção da fragilidade da condição humana ocupa um papel central, em momento algum ultrapassado pelo julgamento sumário. As infinitas e ao mesmo tampo tão precisas nuances entre o trágico e o cômico de que talvez ele foi capaz surgiram aí. O Tchekhov que a gente mais conhece e mais estima como escritor aparece nesse momento, após o encontro com Lydia, após a viagem a Sacalina, após o retorno de Saturno.

Ou, como afirma David Magarschack, para encerrar: “A viagem em si mesma, que desconcerta seus biógrafos como desconcertou sua família e amigos, permanece um completo mistério a não ser que, como observa um recente estudioso russo, ela tenha se dado ‘por uma profunda razão pessoal’. E esta razão apenas poderia ser seu amor por uma mulher jovem e casada, que ele escondeu de todos como sempre escondia seus sentimentos íntimos do resto do mundo; pois, durante a fase tolstoiniana de sua vida, Tchekhov apenas poderia encarar uma situação como aquela com desgosto e repulsa. Como seu amor por Lydia era muito forte para ser controlado, ele resolveu fazer uma longa e árdua viagem para curá-lo. Mas o grande paradoxo é que a viagem a Sacalina produziu o efeito oposto: ela não o curou de seu amor – ela o curou de suas obsessões tolstoinianas”.

Ou, traduzindo para termos zodiacais: ela não matou o Leão que ele descobriu existir dentro de si, e sim deu a ele o alimento que vinha sendo negado. O covarde que fugiu do campo de batalha voltou cavalgando a fera selvagem da paixão que o afugentara. Nascia assim o autor de algumas das mais belas – e tristes, e difíceis – histórias de amor que conhecemos. O Saturno de Tchekhov nunca deixou de estar lá, em Leão, e haveria sempre uma espécie de sombra (realista, resignada) em sua visão do destino dos apaixonados. Porém, para que as histórias de amor simplesmente comecem, é preciso uma boa dose de otimismo e entusiasmo leonino na história. Acho que foi isso que Tchekhov sentiu ao voltar da ilha e procurar Lydia naquele ano. Por um momento ele foi puro gosto pela aventura amorosa, desejo de conquista, afirmação da vida, brilho no olhar. Se terminasse aqui (e por que não terminá-la?) essa história teria sem dúvida um final feliz. Ou, pelo menos, um final aberto, no qual pudéssemos intuir uma chance de felicidade.

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O lugar bom

Essa postagem é para quem assistiu ou está assistindo The Good Place, a série da NBC que estreou em 2016 e terminou em 2020 (tem na Netflix). Vi o último episódio esses dias, e série tem esse negócio de a gente ficar com saudade dos personagens. Então – prometo não estragar o final para ninguém, pelo menos não para quem já passou da primeira temporada – me deu vontade de explorar um pouco mais a brincadeira dos signos com eles. A propósito, já mencionei o Michael (Ted Danson) em um texto sobre Capricórnio, e indiquei a Eleonor (Kristen Bell) para o Oscar do zodíaco que propus uma vez aqui, na categoria Personagem de Áries. A essa altura, estou convencido de que ela merece o prêmio.

Isso porque ela é uma ariana que vai ficando mais suave no decorrer da série, menos tensionada no confronto com o mundo, e, por mais que esse seja um caminho esperado em uma narrativa cômica convencional, ela nos convence de que isso é possível. Não é só porque aprende a falar palavrões com certa civilidade (tipo “holy fork!”, eventualmente traduzido por “fruta que caiu!”); ela faz com que seja verossímil uma heroína de Áries do bem, na medida do possível, é claro. De todas as transformações que vemos no decorrer das temporadas, para mim a dela é a mais notável. Não quer dizer que fique menos ariana, pois conheço muita gente desse signo que já parte desse lugar em que o restante da humanidade não é visto apenas como uma ameaça, e sabe que dá até para conviver com gente, às vezes até gosta. Em se tratando de Áries, já é bastante coisa.

Chidi (William Harper), por sua vez, é o clássico libriano que precisa aprender a tomar decisões. Não por acaso é o par oposto-complementar de Eleonor. Mas acho interessante que seja um filósofo. É comum as pessoas acharem Libra um signo romântico, mas a gente sabe como eles conseguem ser incrivelmente frios e cerebrais. Falta-lhes o fogo das paixões leoninas, o poço dos sentimentos escorpiônicos, a sensibilidade ao ambiente de Touro ou Virgem. É lógico que nessa perspectiva falta um traço de Libra também todos os outros arquétipos, e falta mesmo. Sobretudo quando a gente conhece um libriano que, não obstante sua librianice, e inclusive por causa dela, sabe decidir que sobremesa escolher depois de colocar todas as opções na balança.

Jason Mendoza (Manny Jacinto) é um caso singular. Peixes, sem dúvida. O interessante é que ele é pisciano tanto em sua versão de mentirinha quanto depois que ficamos sabendo quem ele realmente é após os episódios iniciais da série. Nesse caso acho que não conta como spoiler porque a coisa se revela logo ali no segundo ou terceiro capítulo: ele passa de um monge tibetano de olhos puxados que vive à base de meditação e água fresca para um morador da Flórida de origem filipina de olhos puxados que vive à base de todo tipo de porcaria e pequenos roubos de gasolina. Embora o monge seja um personagem típico do arquétipo de Peixes, a versão verdadeira de Jason é até mais pisciana que a outra.

O legal é que ele não deixa nunca de ser um personagem ingênuo e encantador. Avoado, iludido, totalmente incapaz para os assuntos práticos da vida, mas nunca menos “espiritualizado” que sua versão monástica, mesmo quando se lembra do dia que passou atirando em ratos no lixão de Jacksonville com um primo de Blake Bortles. Porque ele espera ser aceito pelo mundo da mesma maneira como o aceita, e representa o papel do bobo em tudo o que tem de plena receptividade e espelhamento do mundo ao redor. Além de ser engraçado, é claro. Tem uma cena, por exemplo, em que está todo mundo dando opinião ao mesmo tempo sobre algum problema, aí ele entra e dispara a falar um monte de coisas nada a ver. Quando perguntam o que deu nele, responde: “Sei lá, estava todo mundo falando junto achei que era para eu falar também”. Tipicamente pisciano.

Quanto à Tahani (Jameela Jamil), aí já fico na dúvida. Ela tem a rivalidade geminiana pela atenção dos pais com a irmã, mas não tem agilidade de raciocínio de Gêmeos; participa do encanto leonino com o universo das celebridades, mas falta-lhe magnetismo e confiança para ser ela própria uma Leoa. No final das contas, fico achando que é de um signo de Terra. Mas nesse caso estou disposto a aceitar ajuda, então se alguém aí tiver um opinião a respeito pode falar. Vejam só que coisa bizarra estou me tornando: uma capricorniano que admite que não sabe uma coisa e até pede conselho pros outros. Tipo o Michael.

Voltando então rapidamente ao Michael: o engraçado é que, além de ser uma figura evidentemente capricorniana em sua função de gerenciar a coisa toda e saber tudo a respeito de tudo, ele a princípio tem ainda aquele traço de Capricórnio que não aceita a necessidade de ajuda. Precisa estar sempre no controle, sem precisar nem do palpite de mais ninguém. É lógico que isso já vai mudando a partir da segunda temporada, vai ficando mais claro como na verdade tudo o que ele precisa (e no fundo quer) é assumir a forma falível e imperfeita dos humanos. É muito exaustivo isso de se responsabilizar pelo universo o tempo inteiro. Algo semelhante poderia ser dito de muitos capricornianos. 

E tem a Janet (D’Arcy Carden), é claro. A Janet é um caso à parte. Aí eu perguntei pro pessoal da internet qual é o signo da Janet, e a resposta que mais me apareceu foi Virgem. Eu respeito essa posição e até entendo. Ela tem um gestual contido e um jeito de se vestir que são bem virginianos. Ela presta um serviço inestimável, aparece sempre que alguém precisa de alguma coisa, é uma funcionária exemplar do cosmos e e nem humana ela é. Pra muita gente, isso é mais que suficiente para cravar: virginiana.

Mas eu sou Capricórnio com ascendente em Escorpião, então quando peço conselho ou palpite pros outros vocês podem suspeitar que é só jogo de cena. Já formei minha opinião há tempos e nada me fará arredar dela. Acho que os gestos controlados e aparentemente metódicos da Janet têm mais a ver com fato de que ela não tem muita familiaridade com a forma humana que assumiu. Aí vocês precisam que considerar que, quando a gente fala que Virgem não é muito humano, isso é mais num nível metafórico; é lógico que não é literal. Tem só um signo que corresponde a essa característica sem precisar de licença poética. Tem só um signo de gente que veio de outras galáxias e está ainda se acostumando a viver entre nós.

Pois então: Aquário. Em primeiro lugar, exatamente por isso, porque nem humana ela é. Digo isso na certeza de que os aquarianos queridos do meu coração vão entender como um elogio: tipo, você nem é humano, você é uma Janet. E, como se não bastasse, ela é capaz de prover os humanos com aquilo que normalmente é reservado aos deuses, como fez Prometeu, protagonista do mito mais significativamente aquariano. O fato de que vai acabar se apaixonando por uma pessoa de carne e osso, e conhecer um pouco mais os desejos do corpo que a princípio lhe é estranho – isso também acontece com frequência no âmbito do arquétipo de Aquário. E a maneira como a mente dela se conecta como uma espécie de supercomputador a tudo o que acontece no universo só me faz ter mais certeza do meu ponto.

Para terminar, ufa, tem a série como um todo. Estreou em 19 de setembro de 2016. Essa sim é, portanto, virginiana. Para mim faz sentido: a narrativa costuma ser até bem metódica em sua sobreposição de universos como se fossem bonecas russas, mesmo quando flerta com o caos. Agora, eu apostaria que existe alguma coisa ali que articula muito bem Sagitário e Touro. Talvez a Lua no primeiro, o ascendente no outro. Pois o pano de fundo é sagitariano, de modo que toda a brincadeira é organizada em torno de uma indagação sobre o sentido da vida e a finalidade da existência. Ela pode não alcançar muita profundidade nesse sentido; mas isso, pelo menos para mim, não é necessariamente uma falha ou deficiência. É aí que entra a perspectiva taurina.

Pois, no final das contas, após as milhões de referências a Kant e Heidegger e Pascal, a série acaba recorrendo ao pensamento oriental para dar uma última resposta provisória ao enigma do existir. Sobre esse aspecto dos últimos episódios, sem entregar o enredo, vou me permitir uma pincelada, até porque o recurso é mais que previsível, e não apenas pelo andamento da série, mas pela própria linguagem seriada de que ela é um bom exemplo. A ideia de que o “fim” pode ser infinitamente postergado para uma outra temporada – e de que podem existir mundos infinitos dentro de infinitos mundos – faz, curiosamente, com que o momento presente seja mais valorizado. Se a própria morte não é conclusão de um processo, mas faz parte de um conjunto incessante de ciclos, não tem porque você se afligir com uma finitude ilusória, e você pode muito bem encontrar o infinito que existe contido no agora.

Buda, como já disse aqui vez ou outra, para todos os efeitos era taurino. Seu aniversário é comemorado no dia 07 de maio. Isso para mim está relacionado não apenas à paciência e à perseverança, mas também à capacidade que Touro tem de aproveitar as coisas boas da vida. Digo, aquelas coisas materiais e momentâneas mesmo, como uma boa refeição, um bom vinho, uma boa companhia ou a simples possibilidade de respirar fundo um ar puro e tranquilo. É por isso que para mim a série termina onde começa a grande lição de Touro para nós. Que é um pouco a lição de Buda também. Não saia daí. Respire. Aproveite a vida. Aproveite o momento. O lugar bom é onde você está.

aquário

Os enigmas aquarianos

Ilustração: John Tenniel

Li por aí que os físicos chamam de entanglement a propriedade que determinadas partículas têm de continuar afetando umas às outras (com alterações simultâneas em suas características) mesmo quando estão apartadas por enormes distâncias, e a relação entre elas torna-se tão intangível quanto inexplicável. Fiquei pensando em como traduziria isso para o português; acho que “emaranhamento” foi a opção da comunidade científica lusófona, mas isso para mim enfatiza a sensação de uma armadilha, de um nó complicado de desfazer, enquanto se perde algo da ideia de envolvimento, ressonância, vinculação. Por outro lado, e pensando bem, acho também que não seria bom diminuir o aspecto desconcertante do fenômeno, com sua imagem de um universo de relações inexplicáveis entre partículas que um dia estiveram unidas e hoje praticamente se desconhecem, mas ainda assim de alguma maneira se comunicam através de amplos espaços, sem que se entenda exatamente o que estão dizendo umas às outras. Está no dicionário, to entangle: confundir, desconcertar, perplexar.

Eu fico assim, emaranhado, quando leio Virginia Woolf. Mrs. Dalloway, por exemplo. Mas é uma confusão boa, uma perplexidade maravilhada. Gosto de sentir que não estou entendendo direito o que está acontecendo ali, enquanto a pontinha do iceberg que aparece já basta para tornar tudo muito interessante. Aliás, nesse ponto o efeito da escrita de Woolf se assemelha muito ao do estilo de James Joyce, com quem ela compartilhou o proscênio do modernismo britânico, enquanto a complexidade lógica e lúdica que encontramos em Joyce remete à de Lewis Carrol, inglês também, autor de Alice in Wonderland. Em todos esses casos, as complicações na superfície do texto, os jogos de palavras e os fluxos interligados de consciência criam uma espécie de teia esgarçada de conexões provisórias, que vai se tecendo e destecendo durante a leitura, enquanto juntamos os pontos em busca de que algo mais profundo se apresente, ou então de que uma estrutura nítida enfim se revele. Mas fazemos isso sabendo que pode não haver uma resposta clara e organizada para os enigmas que o texto nos propõe.

E vocês sabem o que mais Virginia Woolf, James Joyce e Lewis Carrol tiveram em comum? Os três eram aquarianos. Daí já podemos deduzir que: pode não haver uma resposta clara e organizada para os enigmas que Aquário nos propõe. Mas não custa nada especular a respeito. Às vezes me pergunto, por exemplo, se existe de algo de substancial por trás da imensa sofisticação estilística de Ulisses ou Finnegans Wake (ambos romances de Joyce), ou se tudo não passa de um jogo complicado e feito para confundir e perplexar a nossa mente. Algo semelhante acontece naquelas charadas com que Alice se depara em sua aventura no país das maravilhas, que às vezes parecem remeter aos grandes mistérios do universo, mas talvez sejam apenas brincadeiras interessantíssimas e ordinárias, sem outra função que não seja a de fornecer um passatempo intelectual com ares de segredo cósmico coberto por um véu matemático.

Ou seja: Aquário parece nos induzir a altas suposições sobre aquilo que enuncia, mas isso pede sempre a gente tenha certo cuidado em discernir o realmente complexo do meramente complicado. Ambos podem coexistir no mesmo arquétipo. A inovação científica é arquetipicamente aquariana, porque é em Aquário que se aloja o mito de Prometeu, que entregou aos humanos a luz e as técnicas para fazer o fogo; mas as complicações usuais da linguagem dos cientistas são com frequência apenas uma exigência da especialização, e não um indício de que algo de oculto está em jogo, como é o caso na maior parte das utilíssimas e também aquarianas pesquisas realizadas com fins práticos imediatos de inovação e melhorias na sociedade. Por outro lado, os escritores aquarianos que selecionei talvez não tenham sido contemporâneos dos primeiros teóricos da física quântica por acaso. Então, acho sim que, tanto no caso do modernismo inglês quanto no da astrofísica contemporânea e adjacências, as complexidades da linguagem remetem a verdadeiros mistérios da existência.  

A ideia de emaranhamento, portanto, não me parece ser meramente complicada de entender; ela é realmente complexa, na medida em que desafia os padrões usuais de entendimento da realidade com possibilidades totalmente impensadas até outro dia. Poderíamos dizer algo muito semelhante do estilo de Virginia Woolf; suas sinuosidades e piruetas não acontecem só para nos confundir e deslumbrar; existe algo de diferente mesmo acontecendo ali. Em seus romances, fatos distantes no tempo e no espaço relacionam-se como as partículas emaranhadas de nosso universo em expansão. A questão, mais uma vez, é saber se será possível desemaranhar o universo e o texto, isto é, se conseguiremos um dia chegar a uma solução para o mistério que ambos propõem, como quem interpreta uma frase difícil e alcança o significado que está por trás de suas sutilezas e meandros.

Acho ainda que, se a gente um dia conseguir realmente entender o que está acontecendo nos romances de Virginia Woolf, a gente vai conseguir entender o que está acontecendo no universo. Mas não vejo muita chance de isso acontecer mesmo. Pois, tanto em um caso como no outro, nós estamos tão envolvidos na história que não temos como observá-la com objetividade; nós participamos da narrativa, estamos emaranhados nela, e as conexões que conseguimos perceber estão sempre condicionadas pelo nosso posicionamento momentâneo em relação a todo o resto. Qualquer semelhança dessa percepção com implicações da Teoria da Relatividade para nossos hábitos epistemológicos não é casual.  Em suma, o estilo de Woolf é daqueles que nos faz submergir em suas palavras, assim como o estilo do universo é daqueles que nos submerge em suas estrelas.  

Quem falou algo de muito interessante a esse respeito dessa nossa posição no cosmos foi o filósofo inglês (e aquariano) Alfred North Whitehead – justamente o pensador ocidental que acompanhou mais de perto os primeiros desdobramentos da Teoria da Relatividade e da Física Quântica, elaborando a partir daí uma obra que encontra muita ressonância entre pensadores orientais também. Para Whitehead, nosso cosmos é um processo criativo que está em curso, e no qual o próprio cosmos está criando a si mesmo; nós participamos dessa criação, mas não a controlamos nem podemos entendê-la completamente. É mais ou menos como se fosse uma narrativa, mas não exatamente um romance, e sim uma série, que se desdobra a partir de uma necessidade interna do enredo, e cujo fim permanece sempre em aberto porque não existe exatamente um autor externo a ela controlando seus desdobramentos (escrevi mais sobre isso no capítulo que fiz para este livro de ensaios; e qualquer semelhança desse raciocínio com a maneira como a astrologia é tratada nesse espaço tampouco é mera coincidência).  

Nada disso – muito menos a astrologia – equivale a uma explicação do cosmos. “Nós vivenciamos muito mais do que podemos analisar, porque vivenciamos o universo”, Whitehead afirmou em Modes of Thought. Algo muito semelhante poderia ser dito dos personagens de Virginia Woolf. Eles vivenciam muito mais do que podem analisar, porque estão sujeitos a um conjunto enormemente complexo de influxos, sensações, pensamentos; suas decisões não podem nunca ser atribuídas a um raciocínio ou intuição em particular, e parecem ser antes decisões de todo o universo do livro do que de um indivíduo em particular. “Mrs. Dalloway disse que ela mesma iria comprar as flores”: já a partir dessa despretensiosa sentença nada parece ser tão simples assim, por mais que ela ironicamente funcione como uma mera enunciação com sujeito-verbo-predicado. Dá até a sensação de que haverá um ponto de partida estável, mas logo em seguida os limites desse sujeito se desfazem, o ponto de vista narrativo muda, e percebemos que ele já estava em movimento desde o começo.

Até mesmo na obra muito mais convencional de Charles Dickens, outro autor inglês e aquariano (essa relação entre o inglesismo e o aquarianismo precisa ser estudada), são os personagens excêntricos que realmente ganham a nossa atenção e carinho, ao mesmo tempo em que desestabilizam as convenções textuais. Dickens é daqueles autores que parecem adotar um modelo narrativo fixo e previsível em linhas gerais, só para poder brincar com ele à vera nos detalhes. O universo de Dickens tem um centro, é verdade, e esse centro é Deus, mas às vezes o texto se distrai tanto com as criaturas desgarradas que povoam as margens desse cosmos, que já dá para imaginá-lo destituído das certezas e seguranças que governam seus finais felizes. Dickens foi um dos últimos autores a conseguir reunir em uma unidade de enredo todos os fragmentos espalhados no universo de portentosos romances como Bleak House; depois dele, ninguém mais segurou o Big Bang da narrativa.

Mas Aquário, no final das contas, de fato não diz respeito a um centro, à concentração de energia ou poder em um só ponto, à ideia da realeza que espontaneamente atrai para si todos os olhares; tudo isso acontece no arquétipo leonino, seu oposto complementar no zodíaco, e muito bem representado pelo regente solar. Enquanto Leão é o Sol, Aquário é o Céu: é esse o significado mitológico de seu regente, Urano, por onde se espalham e se dispersam as energias solares em um amplo sistema de distribuição. Pelo mesmo raciocínio, quando pensamos no corpo humano, Leão governa os assuntos do coração, e o Aquário os do sistema circulatório. E, assim como se associa ao mito prometeico do portador da luz, o signo está naturalmente vinculado também à imagem do “portador da água”, que a leva para quem tem sede, mesmo que isso implique uma viagem aos confins do cosmos – lá onde a água não chega porque os reis leoninos jamais se ocupariam com um movimento tão excêntrico, que os afastassem tanto do palco onde são o centro das atenções.

Com isso acho que dá para voltar enfim à questão do emaranhamento, com uma nova perspectiva. Sim, há nessa ideia algo que causa perplexidade e confusão, assim como acontece no estilo de Virginia Woolf e de James Joyce. Porém, da mesma forma como o universo de Joyce é um chaosmos (tal como Umberto Eco o definiu), no qual as eventuais epifanias sugerem uma presença pulverizada do sagrado no cotidiano, e do mesmo modo como o universo esgarçado de Woolf é feito de ressonâncias e vinculações que se fazem e desfazem a todo tempo na superfície do texto, o entanglement das partículas não deixa nunca de indicar algo dessa unidade que está possivelmente por trás dos fenômenos mais apartados. Dessa forma, o desafio de Aquário é o de dispersar-se em uma complexa rede de relações, que é como um arquipélago cujas ilhas estão conectadas não através do solo subaquático, mas através de invisíveis correntes de ar.

Recentemente, enfim, passei a discutir a leitura de romances de Virginia Woolf com alunos de primeiro período do curso de Letras onde leciono. Minha dica para eles é sempre essa: deixem-se levar, não tentem entender. Pode não haver uma resposta clara e organizada para os enigmas do texto, assim como pode não haver uma resposta clara e organizada para os enigmas do universo. Mas nossa tarefa quando estamos diante de um ou de outro não é necessariamente a de compreender, e pode muito bem ser a de maravilhar-nos, confundir-nos, emaranhar-nos, desde que isso também seja uma forma de encontrarmos pontos de contato entre nós no meio a essa confusão toda. Assim, quem sabe, participaremos do texto como participamos do cosmos, não como sujeitos estranhos a ele e que buscam dominá-lo pelo entendimento, mas como mentes que surgiram de suas partículas e nunca deixaram de estar conectadas entre si e com todo o espaço ao redor.

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De Aquário e outros demônios

Embora frequentemente confundida com o sarcasmo, a ironia pode ser explicada como a convivência de dois significados aparentemente contraditórios e igualmente verdadeiros num mesmo discurso: uma ambivalência que põe em cheque a própria contradição, por mostrar como os contrários coexistem de maneira muito mais íntima que supomos. Todos os símbolos oníricos e imagens arquetípicas têm esta natureza, pois carregam consigo discordâncias que nossa linguagem usual mal poderia suportar, mas que neles alcançam uma espécie de síntese misteriosa, na qual intuímos as limitações de nossa consciência. O signos do zodíaco são assim – irônicos repositórios de antagonismos que neles se mostram como verso e reverso de uma mesma figura, ainda que permaneça difícil para nós observar ambos os lados ao mesmo tempo.

Um dos casos mais notáveis é o de Aquário, que é anjo e demônio ao mesmo tempo. É verdade que todos os signos são, mas Aquário talvez o seja de forma mais específica e instigante. Trata-se, por um lado, do mais aéreo e desencarnado dos arquétipos zodiacais, com frequência oscilando entre a curiosidade, a excitação e a indiferença diante dos assuntos humanos, o que muitas vezes se estende à relação de Aquário com o próprio corpo, que ele vê com certo distanciamento e estranheza. Aliás, da última vez que escrevi sobre aquarianos, citei uma fala de uma personagem humana d’A Tempestade de Shakespeare, mas agora me ocorre que Aquário aparece na peça sob a forma de Ariel, criatura espiritual que contrasta com os baixios de Calibã, sem nenhum verdadeiro compromisso com os perrengues desse mundo.

Por outro lado (ironicamente), Aquário aparece também como o signo mais comprometido e até mesmo entusiasmado com assuntos bastante mundanos e concretos: esforços de reforma social, impulsos de evolução científica, festivais de comunhão carnavalesca. Isso tem tudo a ver com ironia central do arquétipo: o comum é ser diferente, e ser diferente é buscar o comum. Aquário tem uma imensa disposição para participar de qualquer obra ou celebração coletiva que encontre pelo caminho, exatamente porque, de largada, está excluído desse tipo de fenômeno. É uma criatura à parte, cuja excentricidade convive justamente com um desejo pelo ordinário, o que pode muito bem resultar em saltos revolucionários e enormes conquistas no campo da técnica, desde que realizados coletivamente pelo conjunto da galera.

Mas até aqui estamos basicamente no plano angelical. Resta saber o que afinal Aquário tem de especificamente demoníaco. Entendo assim: para Aquário, todos os outros signos se manifestam em criaturas corpóreas de traços distorcidos e presas ao solo pela força da gravidade, enquanto ele flutua entre nós. Isso, porém, o coloca em uma posição de permanente deslocamento, de tal modo que o inadequado parece ser ele. É justamente sua leveza que o torna suscetível de incorrer em algumas das mais terríveis manifestações de vilania, por causa da complexa dinâmica que gera no que se refere aos temas da adequação e do pertencimento. Seus desequilíbrios nessa balança são a grande ameaça: o senso de inadequação cria o impulso para participar de grupos e coletividades, mas requer o contraponto de uma reserva e de uma distância essenciais para Aquário (e para a sociedade como um todo) preservarem sua sanidade.

Esta é ironia e a ambivalência que Aquário precisa encarnar, sem abrir mão de nenhuma de suas facetas. Por mais engajado e participativo que venha ser, deve manter sempre algo de sua excentricidade e de seu desinteressado interesse nos dramas que nos ocupam tanto aqui nesse planeta. A indiferença distanciada que eventualmente lhe é atribuída como uma falha de caráter é, na verdade, sua e nossa salvação. Pois o aquariano que busca uma total adequação à forma humanoide, envolvendo-se demais em nossos dramas e mimetizando nossos padrões mais ordinários de conduta, está condenado a sofrer um tipo de rejeição cujo resultado é um ressentimento incurável e destrutivo. Reparem em como essa dinâmica está bem representada em algumas de suas nuances no mais aquariano dos vilões: o Coringa.

Refiro-me aqui especificamente à maneira como ele foi representado na última produção cinematográfica que protagonizou. Pois existe, naturalmente, uma dimensão geminiana no joker como comediante e piadista, capaz de fazer malabarismos com a linguagem e dar piruetas nos nossos padrões morais; e existe também nele um aspecto escorpiônico, intensamente destrutivo e cheio de profundas reentrâncias psicológicas. Mas o Coringa de Joaquin Phoenix se notabilizou por ser um sujeito excêntrico e um espírito delicado que se alça à condição de ídolo das massas em condições extraordinárias, após sofrer uma série de humilhações em seus esforços por integrar-se de maneira regular à sociedade. Embora não destituído de questões psicológicas (e psiquiátricas), é na dinâmica da exclusão e do pertencimento que se situam os aspectos mais significativos da trama de sua ascensão.

Ou, melhor dizendo, a trama de sua descida ao inferno. Pois as imagens da imersão no subsolo são decisivas na composição cênica do filme. É de lá que Arthur Fleck vai ressurgir como um barão da ralé, um atiçador de ânimos, um rabble rouser luciferino que lidera quase involuntariamente a insurreição das massas contra as estruturas do sistema. Refiro-me a Lúcifer não por acaso. Pois Aquário, por um lado, tem no mito grego de Prometeu uma de suas narrativas decisivas, vinculando-se à ideia do “portador da luz”, aquele que roubou o fogo dos deuses para entregá-lo aos homens (isso explica muito do impulso aquariano de tornar-se um agente de desenvolvimento das ciências e tecnologias). Por outro lado, Lúcifer também significa, exatamente, “portador da luz”, e não por acaso é um anjo decaído. Aquário, em resumo, é um signo do capeta, literalmente falando, e isso parece ter uma relação justamente com o lado mais iluminista e luminoso de sua personalidade.

Voltando então ao Coringa, onde as duas coisas também se encontram e se confundem. Notem que há um ressentimento demoníaco por todas as humilhações e derrotas sofridas durante a descida ao inferno, porém, em sua figura arquetípica, nunca deixa de existir o potencial de iluminar com o riso os aspectos mais patéticos de nossa sociedade. O jogo social precisa do Coringa – ou de alguma de suas variações aquarianas – para não se perder por completo na aparência de seriedade de suas brincadeiras. Nós precisamos que Aquário permaneça sempre uma espécie de lembrança da bobagem que são nossos trâmites cotidianos, uma vez que tudo o que se passa na sociedade é de certo modo brincadeira, convenção, jogo. O problema é que a gente se esquece muito facilmente disso.

Nesse sentido, o Coringa tem o potencial de cumprir um papel semelhante ao do bobo da corte nos seus primórdios, isto é: lembrar ao rei o que há de ridículo em toda sua pompa e circunstância, assim como em todo o aparato que rodeia as câmaras e decisões reais. O bobo tem uma função política e terapêutica, que representa bem a importância de instalar uma figura tão anômala no âmago das instâncias de poder. Ele tem algo da ambivalência tipicamente aquariana, porque participa e não participa do jogo ao mesmo tempo. Agora, quando o idiota se torna ele próprio o rei, quando as decisões passam a ser atribuições dele, e quando você passa a perceber um componente de perfídia e de vingança em cada um de seus atos, pode saber que está diante de um pandemônio sem remédio – que começou no dia em que ele foi enxotado de algum grupo ou organização da qual queria participar.

Isso acontece quando abandonamos a ambivalência e a ironia: a frustração do desejo unilateral pela realização de um dos potenciais inscritos no arquétipo resulta em uma ênfase desequilibrada no outro. A rejeição pela sociedade em que se quis ingressar torna-se ódio destrutivo e ressentido contra a sociedade. Reparem, porém, como o bobo é por natureza ambivalente: sua figura é dispensável para a sociedade como um todo, ou pelo menos, digamos assim, para seu funcionamento regular, e, por isso mesmo, a sociedade depende dela para existir com um mínimo de consciência do seu modo de funcionamento. Curiosamente, portanto, interessa-nos que alguns aquarianos mantenham um ar de indiferença e distância em relação a essas rotinas, pois é desse ponto de vista que se tornam capazes de corrigir nossas esquisitices e evitar que a gente se enrede em círculos infernais.

Sim, o inferno somos nós. E Aquário pode se tornar o signo mais endiabrado do zodíaco só porque, de saída, não está equipado para lidar com as baixezas de nosso comportamento. Sua disposição para integrar a sociedade, mesmo estando de antemão separado dela, é a própria origem das rasteiras que vai levar de modo desavisado no percurso. De modo que, aos aquarianos que decidiram participar do jogo com gosto, o que a gente recomenda é precaução, porque o ser humano é um bicho vil, ingrato e imprevisível, e nunca se sabe o que é capaz de fazer para se dar bem contra quem resolve se envolve na luta corpórea que travamos aqui com tantos golpes abaixo da cintura.

Agora, na medida em que algo em Aquário permaneça em certo grau à parte, diferente, distante, à salvo da humanidade, o arquétipo permanecerá sendo o próprio meio pelo qual a luz se propaga entre nós. Trata-se, é verdade, de uma luz eventualmente irônica, talvez um tanto satânica, muitas vezes anárquica, que com frequência expressa através de um riso malicioso e desconcertante, porém que, com sua aérea leveza, fica para sempre marcada em nossas retinas  – como a meia-lua do sorriso do gato aquariano da Alice, pairando por um momento no céu escuro, antes de desaparecer.

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Dr. Sigmund de sapatos novos

Em suas memórias, o médico suíço e leonino Carl Gustav Jung trata da ruptura de sua amizade com o neurologista austríaco e taurino Sigmund Freud como uma experiência muito difícil e dolorosa. Jung e Freud entraram mais abertamente em conflito em torno de 1910, por causa de divergências na evolução do pensamento de ambos, inclusive por aquilo que Freud considerava uma excessiva inclinação para o “ocultismo” nos estudos de seu discípulo. Tauríneamente, Freud não arredou um dedo da convicção nos sólidos postulados científicos sobre os quais procurava erigir a psicanálise; Jung, por sua vez, afirmou que, na época do desentendimento, sentiu-se tão perdido que não encontrou alternativa a não ser buscar nas imagens de seu próprio inconsciente alguma saída para a crise.

Então teria se fixado em uma memória de sua infância, de quando estava com 11 ou 12 anos, e se dedicava apaixonadamente a brinquedos de construção. O impulso criativo reanimaria seu espírito adulto, na medida em que ele retomou a atividade lúdica, saindo para catar conchas e outros materiais de manhã e separando um tempo para utilizá-los nos intervalos do trabalho no hospital. “Mal terminado o almoço, ‘brincava’ até o momento em que os doentes começavam a chegar; à tarde, se meu trabalho estivesse terminado a tempo, voltava às construções. Com isso meus pensamentos se tornavam claros e conseguia apreender de modo mais preciso fantasias das quais até então tivera apenas um vago pressentimento”.

Esse recurso ao potencial terapêutico da brincadeira, da criatividade, do jogo e do ócio não é apenas uma característica de Leão; é também uma marca daquele tempo. Roger Caillois, em Os Jogos e os Homens, observa que as primeiras miniaturas de carros foram produzidas por operários de fábricas automotivas em que a divisão do trabalho não lhes permitia acompanhar o processo de produção do começo ao fim. Assim, chegando em casa, eles podiam reassumir o controle de todas as fases da composição de um artefato, nem que fosse como um hobby compensatório, e conseguindo com isso restituir a si mesmos uma relação artesanal com a inteireza do objeto.

Mas o arquétipo de Leão de fato atualizou esse impulso de formas diferentes através dos séculos. Cada texto que começo e termino para esse blog, por exemplo, é uma espécie de jogo em que me envolvo com prazer e incerteza, sem saber ao certo de onde estou partindo nem onde vou chegar, mas sentindo que algo de esclarecedor – para mim pelo menos, espero que para vocês também – se realiza no percurso. Nunca sei exatamente de onde vai surgir a peça com que começarei a montar cada texto. Nessa semana, por exemplo, ela apareceu na leitura desse trecho autobiográfico de Jung. Aí me ocorreu que é meio engraçado que ele e Freud tenham sido ambos de signos fixos (Touro e Leão), os quais existem em uma relação tensa e produtiva. Mas reparei em seguida que a coisa não para por aí: Freud tinha o ascendente em Escorpião, e Jung em Aquário, ambos no signo oposto complementar de seus signos solares. Isso quer dizer, basicamente, que a cruz dos quatro signos fixos esteve envolvida nas aproximações e afastamentos entre os dois grandes pensadores da psicologia no século XX. Opa, pensei: tem jogo aí.

Acho que em ambos os casos o signo solar aparece como a base da personalidade, e o ascendente refere-se à contribuição que ofereceram em suas obras. No caso de Freud, o vínculo com Escorpião é mais que evidente: de Totem e Tabu a Moisés e o Monoteísmo, desenvolve-se um concentrado esforço arqueológico em que são desenterrados os ossos de crimes antigos (o assassinato do pai pela horda primitiva, o assassinato de Moisés pelas tribos do êxodo), que teriam correlações exatas em episódios de cada trajetória individual, habitando os subterrâneos do inconsciente. Os sentimentos de inadequação, culpa, remorso ou angústia que surgem da repressão dessas memórias podem então ter sua origem identificada. Com isso, torna-se possível e necessário encarar os demônios ocultos na psique, para alcançar a lucidez após um intenso mergulho nas profundezas do passado.

Tudo converge para o Complexo de Édipo, também um assassino de seu pai, ao mesmo tempo detetive e criminoso, cujo expurgo de Tebas revela-se necessário para a regeneração da cidade. Aqui uma importante diferença entre as obras de Freud e Jung pode ser notada, pois no segundo caso há uma profusão de arquétipos, narrativas e símbolos que nunca se deixam reduzir a uma única história. Assim, enquanto Escorpião tende à obsessiva e quase paranoica busca de vestígios capazes de reafirmar o ponto central de suas investigações, Aquário abre mão do “uno” em favor do “múltiplo”, observando e afirmando diferenças ex-cêntricas onde outros vêm similaridades.

A ênfase no caráter sexual da libido, a propósito, não deixa de ser um componente escorpiônico das lições de Freud. Também aqui ele e Jung divergiram frontalmente da maneira como Escorpião e Aquário divergem no zodíaco. Pois o primeiro é uma força corporal, intensa, concentrada, enquanto o segundo é um arquétipo que se dispersa no ar em uma complexíssima profusão de relações em rede. Jung considerava a ênfase de Freud nas pulsões sexuais uma inclinação “reducionista”, na medida em que designava uma só fonte como energia motriz de todos os esforços e humanos. Ele acreditava que o impulso criativo, por exemplo, existia por si mesmo, e não como um excedente de desejos reprimidos.

Curiosamente, portanto, embora Jung fosse o ”ocultista” da relação, havia algo na ciência de Freud em que ele detectava uma obsessão compulsiva com o tema do sexo e da autoridade paterna. Não é incomum que Aquário veja Escorpião por esse prisma, no qual se ressalta sua perspectiva desencarnada, indiferente em relação aos instintos primitivos que lhe parecem vis ou demasiadamente humanos. Mas isso envolve também a dimensão iluminista e prometeica do arquétipo aquariano, na medida em que busca alçar o humano para além de seus limites usuais. Desse modo, e mais uma vez curiosamente, as Luzes estão do lado de Jung, embora Freud fosse o cientista da relação.

Acontece que Jung também se outorgava esse título, tinha apreço por ele, porém entendendo a ciência de um modo mais heterodoxo. De ambos, se não me engano, foi quem acompanhou mais de perto as inovações da Teoria da Relatividade e e Física Quântica, sem deixar escapar as relações da cosmovisão que essas novidades ofereciam com elementos das religiões orientais. Freud, enquanto isso, manteve-se centrado na tradição judaico-cristã, ferozmente dedicado ao problema de Deus, ou ao problema do Pai.

Enfim, Jung roubou o fogo de seu próprio Sol leonino para levá-lo aos homens através de seu ascendente aquariano; Freud manteve-se até o fim da vida irremovível do caminho em que Touro o havia situado, porém correndo riscos e desencavando desejos que apenas são aceitos e reconhecidos quando acionamos o tipo de coragem que reside no arquétipo de Escorpião. Da tensão produtiva desses cruzamentos, ambos descobriram razões que reforçaram suas crenças e os mantiveram em suas trajetórias, que, antinômicas como são, não deixam de se complementar (caberia ainda mencionara os aspectos complementares das noções de inconsciente individual e inconsciente coletivo, que estão mais propriamente atreladas aos arquétipos de Escorpião e de Peixes, tal como já comentei aqui).

Resta saber como Freud terá reagido à ruptura que levou Jung aos brinquedos de construção. Algo pode ser deduzido da correspondência entre ambos – ele alegou ter sido “despojado da autoridade paterna” de que o próprio jovem Jung o investira anos antes –, mas acho que nesse caso ele deve também ter buscado no seu Sol taurino algum tipo de conforto. No mínimo, deve ter se recostado em uma poltrona aconchegante, procurando quem sabe um bom lugar pra ler um livro, sem outro propósito além dar maciez à sua tristeza. Freud, é bom lembrar, fez o caminho de volta de Escorpião a Touro (dos mistérios ocultos à verdades elementares) quando lhe perguntaram insidiosamente a respeito de seu prazer com o fumo: “Às vezes, um charuto é apenas um charuto”.

O que então me vem à mente é uma tela do pintor Konstatin Christoff que vi em uma exposição no Palácio das Artes de Belo Horizonte muitos anos atrás. Ela se chamava “Dr. Sigmund de sapatos novos” – e mostrava um Freud felizão e sorridente com um novo par de sapatos brilhosos que teria comprado. O efeito da pintura estava na associação de uma figura tão imponente e misteriosa como a de Freud com alegria de ter comprado um par de sapatos novos. É como imaginar Escorpião contente diante de um belo prato de macarronada.

Ou seja, talvez tenha sido assim que ele lidou com a perda da amizade do discípulo: como um bom e velho taurino. Talvez a materialidade das coisas e as sensações que elas provocam não tenham deixado nunca de ser para ele uma espécie de refúgio em tempos de crise, a base de sua existência e sua personalidade, o ponto central e solar a partir do qual irradiou seu brilho para as regiões sombrias da alma humana. Assim como a criatividade e os jogos foram para Jung.

Só queria ainda acrescentar que Konstantin Christoff foi um artista búlgaro que, aos nove anos de idade, foi parar com a família em Montes Claros, no norte de Minas Gerais. Formado em Medicina pela UFMG, trabalhou como cirurgião-geral a vida inteira, mas nunca abandonou a pintura, além de ter publicado várias ilustrações na imprensa brasileira. Mais um médico artista, portanto. Descobri isso agora, ao fazer a pesquisa para tentar descobrir a imagem do quadro de Freud com sapatos novos. É engraçado o tipo de coisa que descubro e que encontro ao juntar as peças para esses jogos que vou montando aqui.

Mas infelizmente não encontrei a imagem, então terei que pedir um esforço da imaginação de vocês para terminar. Visualizem aí, com candura, sem maldade: Dr. Sigmund. Uma poltrona confortável. Pernas cruzadas. Sorrisão na cara. Charutão na mão. Sapatos novos.

aquário, câncer

Inventar de novo o amor


Eu estava ouvindo esses dias a versão que meu amigo André Gardel gravou em seu último álbum para “Me and Bobby McGee”, canção que ficou famosa na voz de Janis Joplin. O Gardel é um desses librianos cariocas e descolados que a gente que é capiau do mato lá de Minas gosta de chamar de “meu amigo” em público – porque, né, dá uma incrementada na imagem. Ele costumava escrever crônicas literárias sobre futebol em que havia um personagem recorrente identificado como “o atleticano melancólico”, inspirado em minha humilíssima pessoa. Ele poderia me chamar também de “capricorniano melancólico”, ou de “capricorniano mineiro melancólico”, ou de “capricorniano mineiro atleticano melancólico”, dá mais ou menos no mesmo. Mas eu gostava do título, então nada mais justo que retribua a gentileza. 

A gravação da faixa é elegante, alto-astral, cheia de gingado (libriana, carioca, descolada). Tem a participação de uma vocalista, Samantha Jones, que também nos oferece um bem dosado tom de malemolência. Mas, talvez por isso mesmo, fiquei pensando em como a situação descrita na letra é dolorosa, e em como ela tem a ver com o par Câncer/Aquário no zodíaco. É difícil encontrar um motivo para falar desses dois num mesmo texto: Câncer diz respeito ao passado, ao apego, ao aconchego, às sensações de proximidade e pertencimento, e Aquário projeta-se para o futuro, é desapegado, livre, distante. A princípio as duas coisas andam separadas, ou pelo menos em descompasso. Mas quando a gente encontra uma canção que diz, “eu daria meu futuro / por um dia no passado [and I’d give all my tomorrows / for a single yesterday]”, a gente sabe que se deparou com as dimensões canceriana e aquariana da vida nos mesmos versos.

O fato de estarem juntos não quer dizer que estejam em sintonia. Há uma dissonância na ideia de que possamos ser apegados à liberdade. Faltou dizer que liberdade é o tema da faixa, que narra uma viagem musical de dois amantes para arremeter com o famoso refrão: “Freedom is just another word for nothing left to lose…”, a liberdade é só outra palavra para não ter nada a perder, e por aí vai. O detalhe é que canção inteira é também sobre perda, o sentimento da perda, e portanto sobre o apego àquilo que foi perdido. Todos os eventos que ela menciona estão situados em um passado distante, e não há fórmula invocatória capaz de trazê-los para o presente, a não ser sob a forma de ausências em geral e de uma pungente saudade em particular. Nenhuma barganha, e nem todos os amanhãs do mundo, vão trazer aquele momento com o Bobby de volta.

Mas é interessante como essa balada pungente e carente fez sucesso na forma de um blues roqueiro, no timbre singular de Janis Joplin. O ascendente de Janis era em Aquário, e isso deve ter alguma coisa a ver com o fato de que vamos sempre lembrar da imagem de hippie diferentona que a consagrou, com aquele jeitão meio destrambelhado de quem está na estrada sem lar e sem banho faz tempo (deve ter alguma coisa a ver também com o fato de ter se tornado um dos mais sintéticos ícones de Woodstock – segundo o cartaz, “an aquarian exposition”). Mas a Lua de Janis era em Câncer. Então, também não deve ser por acaso que sentimos lá no fundo de sua voz um blues inconsolável, de quem foi arrancado do lugar a que pertencia para ter que se virar no grande mundo.

Aliás, conheço uma outra gravação da faixa em que um de seus compositores, Kris Kristofferson, a anuncia em um show assim: “Essa é uma canção country, e é assim que ela deve ser tocada, como uma canção country”. Segue-se uma execução convencional, bonita e previsível, mais próxima do que aguardamos de uma balada sertaneja. Não conheço o histórico da polêmica ou desavença que isso parece indicar, mas esse modo meio autoritário ditar as regras para a execução de uma obra tem não apenas um sabor virginiano como também um elemento de Câncer, em seu apego à tradição de um gênero musical. Sei lá, talvez Kristofferson fosse canceriano – e a música sertaneja decididamente é, não apenas pelos temas da vida na terra natal e no campo (nesse sentido é igualmente taurina), como também pelos chororôs e pelos Xororós que a povoam, pelos chamegos que reclama, pelas dores que lamenta.

Em resumo, se me permitem a esquematização: o rock é aquariano, o country é de Câncer. Mas o rock poucas vezes se desprendeu de suas raízes no blues (os Rolling Stones, essas pedras desapegadas porém às vezes tão lamentosas, estão aí para nos mostrar isso), assim como o country e o sertanejo encontraram o futuro não somente através da guitarra elétrica, como também na frequente liberdade em relação a convenções musicais desgastadas, na experimentação com outros gêneros, no contraste entre seus fundamentos e a inserção de algum elemento totalmente particular – como a voz de Janis Joplin.

De modo que Aquário e Câncer podem sim conviver, e serão sempre mutuamente enriquecidos pela experiência de sua intersecção. Aquário, quando consegue introduzir o afeto no seu comportamento, torna-se irresistível; Câncer, quando se arrisca na inovação, é capaz de inventar de novo o amor.  Claro que não é fácil, claro que há conflito nessa relação, mas nem sempre como a gente imagina. Conheço mães que, se não são de Câncer, são do tipo canceriano, e se desesperam com a liberdade que beira a indiferença de seus filhos aquarianos. Mas conheço também mães do tipo aquariano, que estão longe de estimular o apego em seus filhos, e querem mais é que eles criem asas, ou então deixem o cabelo crescer, montem uma banda de rock e saiam mutcholokos por aí.

Há, por último, a questão dos vínculos humanos a que ambos dizem respeito. Câncer rege a família, e Aquário as relações em rede, os grupos impessoais, em última análise nosso vínculo com a Humanidade. Aqui mais uma vez dá pra ver como as relações Câncer/Aquário podem sobrepor-se e variar. O indivíduo pode tanto entender que a Humanidade é sua família, quanto sentir-se diferente e deslocado onde deveria ter um senso de pertencimento. Interessante notar também que a Era de Aquário foi saudada pela geração hippie como um momento de libertação em que os indivíduos humanos iriam reencontrar uma conexão entre si, independente dos vínculos familiares e sociais. Muitos previram que a essa altura estaríamos interconectados pela telepatia. Em certo sentido acertaram, porque em linhas gerais estavam prevendo a internet.

Foi um revertério inesperado que a internet tenha afinal servido para reforçar preconceitos e bairrismos, através – por exemplo – do grupo da família no Whatsapp. Mas Câncer não é o único arquétipo responsável pelo mau uso da rede: Gêmeos contribui com a mentira, Leão com a vaidade, Escorpião com a deep web, e o próprio arquétipo aquariano não é tão neutro quanto gostaria de parecer. Do mesmo modo, sabemos hoje como a transmissão de carinho e cuidado através de frios sinais digitais é totalmente possível. Mais uma vez, Câncer e Aquário se mostram capazes de trabalhar bem juntos, porque representam não exatamente o passado e futuro, mas duas formas de presença em que se conciliam o afeto e a liberdade.

Enfim, não será preciso reinventar o amor, porque há bastante amor circulando por aí em todos os meios e mensagens – basta sintonizar nossas antenas para recebê-lo e compartilhá-lo. A gente espera que também não seja necessário redescobrir a liberdade, mas felizmente teremos sempre Janis para nos lembrar de que um dia ela foi possível e valeu a pena. “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”, o Gardel deu um jeito genial de colocar lá em sua versão, citando livremente Pessoa. Talvez o Kristofferson não gostasse muito desse tipo de folga. Paciência. “Me and Bobby McGee” foi inventada de novo, para que a gente sinta com frescor e alegria a falta que o Bobby faz.

aquário

O povo de Aquária

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Sobre Aquário e os Aquarianos: acho que nenhum outro grupo do zodíaco justifica mais essa maiúscula, esse título de um povo à parte, diferente, que veio de outro lugar. Não porque sejam coesos e tenham características comuns marcantes, muito pelo contrário, são até bem diversos entre si. Mas pensem: se um destacamento de terráqueos fosse designado para cumprir uma missão em outra galáxia, e constituísse uma boa amostragem da vida humana na Terra, iriam para lá pessoas das mais diferentes personalidades, comportamentos, ofícios. Elas teriam só uma coisa em comum: seriam os Terráqueos.

O povo de Aquária, portanto, talvez tenha vindo com algum propósito. O problema é que eles mesmos não se lembram claramente qual é. Os motivos pelos quais se alistaram para a viagem podem ser os mais distintos também, assim como as reações de cada um diante do que encontram aqui. Dispersos entre nós, sem sequer recordar de onde vieram, por que vieram, quem veio junto, e apenas intuindo a razão de sua estada neste planeta, encenam as mais variadas formas de articulação de alguns dos principais temas de seu arquétipo: a identidade e a diferença, o pertencimento e a dissociação, a relação do indivíduo com grupos e com a humanidade em geral.

Não surpreende que muitos se envolvam com causas humanitárias, por sinal. São os que vieram aqui para ajudar. Lá de onde estavam perceberam que nossa bagunça requer novas ideias, técnicas e conhecimentos para começar a ter algum tipo de conserto. Não por acaso, o mito de Prometeu, que roubou o fogo dos deuses para entregá-lo à humanidade – e também nos introduziu em diferentes ciências e saberes – é associado ao arquétipo de Aquário. Mas Prometeu criou assim para si a difícil situação em que seu amparo aos humanos o afastou de sua condição titânica, sem que ele próprio pudesse jamais se tornar um humano, dando-lhe a condição única de um ‘freak’, de um excêntrico.

Outras expressões do arquétipo aquariano são variações dessa posição ambígua. Há aquelas em que a motivação inicial, de auxílio na evolução social e científica dos humanos, se desenvolve em um obstinado e irrestrito impulso de reforma (ou revolução) da sociedade. Mas há também uma expressão radicalmente oposta, em que, chegando à Terra, a alma aquariana se depara com uma tal confusão e um comportamento tão errático dos humanos que recai no mais absoluto desconcerto. Isso pode levá-la tanto a uma atitude de evidente perplexidade como à postura distanciada ou blasé de quem não tem nada a ver com isso. Aliás, às vezes, sob a aparência de superioridade ou excentricidade, está a mais completa falta de jeito para lidar com as coisas nessa dimensão. Os Aquarianos podem inclusive se tornar os Bartlebys do zodíaco: simplesmente preferem não fazer.

Outra possibilidade é que se identifiquem totalmente com alguma organização ou símbolo coletivos (desde corporações até times de futebol, passando por comunidades alternativas e organizações não-governamentais), seja por prazer neste tipo vinculação, seja por medo de ficarem sozinhos e sem amigos. Neste caso, há o risco de fazerem concessões envolvendo traços preciosos de sua individualidade. Mas o dilema aquariano pode ser resolvido de formas criativas e inusitadas também. O carnaval de blocos de rua, por exemplo, é uma solução magnífica: todo mundo junto, mas cada um na sua; todo mundo misturado na galera, mas cada um incorporando um personagem único e completamente diferente.

O termo central aqui é participação. Tanto melhor que seja com alegria. Pois o povo de Aquária está aqui para participar: de nossas festas, de nossos esforços, de nossos perrengues. Talvez nunca venham a se sentir indivíduos deste mundo, mas podem muito bem ser indivíduos neste mundo, tomando parte em grupos variados sem abrir mão de suas idiossincrasias intergalácticas. Tanto melhor também que encontrem uma forma de nos transmitir seus conhecimentos e ciências e melhorias sociais – nós só temos a agradecer.

Portanto, Aquarianos, aqui falo em nome de toda a humanidade: obrigado. A gente sabe como vocês foram corajosos, desprevenidos até. Isso aqui é a confusão que vocês estão vendo, é essa bagunça aí mesmo, se der pra dar uma força em uma coisa ou outra já está ótimo. Com alguma sorte, porém, vocês poderão eventualmente repetir as famosas frases de uma personagem chamada Miranda no final da peça A Tempestade, de um dramaturgo nosso chamado William Shakespeare: “O wonder! How many goodly creatures are there here! How beauteous mankind is! O brave new world, that has such people in it! [Que maravilha! Como há boas criaturas nesse mundo! Como a humanidade é bela! Oh admirável mundo novo, que tem pessoas assim!”]

E, para os bebezinhos aquarianos que vierem a nascer ainda, deixo uma paráfrase de outro momento célebre de um clássico da dramaturgia terrena, uma série chamada Friends, que encerrou seu primeiro episódio mais ou menos desse jeito: “Welcome to Earth. It sucks. You’re gonna love it.”