áries

Arianas de pijamas

Resolvi tentar distrair aqui e fazer uma brincadeira sobre os signos que mais sofrem com essa história de confinamento. Mas foi só começar o zodíaco que já senti logo o baque: putz, Áries. Não é nem que arianos sejam particularmente sensíveis à reclusão; eles são capazes de fazer o que quer que seja, inclusive passar semanas enfurnados sozinhos em casa sem contato com ninguém, desde que isso tenha sido uma decisão deles. O que afeta Áries logo de cara nessa história toda é a perda de controle sobre as ações mais imediatas da vida, a necessidade de delegar decisões para outras instâncias e a imprevisibilidade do enfrentamento a um inimigo invisível e imponderável.

É claro que nem todos estão forçados a ficar em casa. Eu conheço pelo menos uma médica ariana que deve estar na linha de frente, talvez transtornada com as condições de trabalho e o direcionamento que o governo está dando assunto, mas talvez também aliviada pela sensação de que pelo menos ela está fazendo alguma coisa. O calor da batalha é o ambiente próprio desse signo. Por mais que isso implique acatar ordens que vêm de cima, na prática não é assim que a situação é encarada, pois Áries sente que está com destino nas próprias mãos desde que lhe seja outorgado o manejo de uma espada ou de um bisturi. E está.

Hércules é um herói ariano. Muita gente nem sabe por que exatamente ele teve que executar os tais doze trabalhos, mas sabe que ele conseguiu realizá-los com excelência e precisão. Que ele os tenha enfrentado para expiar a culpa por ter matado os próprios filhos parece ter menos relevância do que o simples gosto pelo desafio. É isso que motiva Áries: as tarefas de difícil conclusão, as metas de alcance improvável. Que sejam tarefas designadas por terceiros, e metas que não se justifiquem a não ser por um capricho dos deuses, importa menos que os movimentos para executá-las a partir do momento em que são aceitas.  

Os esportes competitivos acontecem no âmbito do arquétipo de Áries. Exatamente porque estabelecem objetivos que podem parecer absurdos ou engraçados quando a gente os vê de uma perspectiva externa, mas cujo questionamento seria absurdo para quem vê de dentro. Se eu contar para vocês que as pessoas se reúnem aos montes em construções gigantescas para ver quem de um punhado de jovens consegue pular mais alto usando uma vara entortada fincada no chão, talvez isso pareça meio grotesco. E, no entanto, as pessoas fazem isso o tempo inteiro, apesar do risco de arrebentarem as costas com essas brincadeiras desnecessárias.

Havia uma passagem sobre isso em uma cena que escrevi para o teatro. A personagem era tipo uma pisciana com ascendente em Gêmeos. Aí uma hora ela falava assim: “Você já viu aquele jogo de bola que eles praticam aos domingos? O das jogadas ensaiadas? É assim: eles ficam a semana inteira ensaiando. É o treino. No treino, cada um cumpre uma função muito bem específica, principalmente quando ensaiam as jogadas, e dá tudo certo. Então, no domingo, quando chega a hora da jogada, eles ficam cheios de segredos, se entreolham, e ocupam seus postos. Aí é aquele silêncio. É. Feito este. Um silêncio que parece que não vai acabar nunca. Até que alguém resolve bater na bola. E aí, pronto: acontece tudo diferente. Tudo errado, quase sempre. Então eles ficam desesperados, começam a correr atrás da bola que nem doidos, que é o jeito normal deles de ser, e sabe o que eles dizem pra explicar o erro? Eles dizem assim: treino é treino, e jogo é jogo. Você percebe a diferença? Treino é treino, e jogo é jogo. Porque no jogo tem outros que não estavam no treino. Outros onze. Para atrapalhar. É uma bagunça”.

Então: esse é o ponto de vista externo de que falei. O olhar de quem percebe a comédia humana transcorrendo por aí em suas deliciosas patetices. Áries, porém, não é um signo cômico nesse sentido. Áries está envolvido no jogo. Pode ser um signo engraçado pela maneira como vive metendo os pés pelas mãos, seja por impaciência ou por ingenuidade, mas vai ser sempre antes um jogador atrapalhado do que um espectador cínico. E os equívocos que eventualmente comete implicam uma vontade de acertar que não encontra rival em nenhum outro signo do zodíaco. Talvez Virgem. Mas a busca pela perfeição virginiana está a serviço do bom funcionamento do cosmos, ou, no mínimo, do bom funcionamento do Estado, do Lar ou do Corpo. A busca ariana pela excelência é em um certo sentido mais pura e intocada. É simplesmente a necessidade de fazer acontecer mesmo.

Por isso, existe algo de extremamente lúcido da parte de quem participa dos jogos. Na ponta da prancha, enquanto prepara o pulo, o atleta de saltos ornamentais não vai nunca pensar “e agora, salto ou não salto?”, ou que tipo de benefício seu salto pode trazer para a sociedade (assim como o artilheiro na cara do gol não vai se perguntar se chuta ou não chuta, às vezes mesmo que esteja na cara do gol errado). O saltador, então, vai apenas dedicar-se de corpo inteiro à execução mais completa do ato, para assombro daqueles que o assistem sabendo que tal e tal giro duplo mortal carpado era até outro dia impossível. É dessa lucidez do corpo que estou falando – da maneira como ele á capaz de se concentrar em uma proeza com total esquecimento de todas as outras questões.

De modo que a dedicação a um feito inédito é algo capaz de mobilizar esse signo. O difícil vai ser encontrar feitos inéditos para realizar no caminho do quarto para a sala e da sala para a cozinha por esses dias. É verdade que o atual esforço coletivo em “achatar a curva” pode motivar alguns arianos a ficar em casa: isso tem lá seu desafio, com a vantagem de ser possível acompanhar os gráficos como quem acompanha as estatísticas de um campeonato. Mas, convenhamos, o que Áries queria mesmo é estar por aí trucidando uns vírus. Dá para imaginá-lo sonhando com cenas em que abre caminho no meio de um exército de coronas com machadadas certeiras e sanguinárias, decepando suas cápsulas proteicas em glorioso furor implacável.

O que não dá para imaginar é Áries tomando cuidados extremos para esfregar com álcool gel aquela partezinha atrás da unha, a não ser que isso seja entendido como uma espécie de batalha. Tudo nesse mundo tem limite; a paciência de Áries nem se fala. A recomendação que fica é a de encararem tudo como uma guerra mesmo. Ou talvez como as Olimpíadas. Lembrando que Áries é velocista de provas curtas, e um ótimo candidato à medalha de ouro em provas como o Declathlon (que, aliás, tem toda a pinta de ter sido inspirado nos doze trabalhos de Hércules), porém não vai tão bem em testes de resistência e de esforço continuado, nos quais se sobressaem Escorpião e Capricórnio.

Maratonar séries no Netflix, portanto, pode não ser a melhor alternativa. Mas basta um pouco de criatividade para encontrar formas de livre exercício do espírito atlético de Áries entre quatro paredes. Recomendo, por exemplo, os Três Metros Rasos na Pista do Corredor, ou o Arremesso Artístico de Papel no Cesto do Lixo, ou, para quem tem filhos, a Corrida de Obstáculos Pulando os Brinquedos Espalhados na Sala. Para quem não tem, um joguinho de dardos bem afiados pode ser interessante. Para acertar bem no centro do alvo, ajuda se você tiver um retrato do presidente.

Outro caminho, enfim, é entender a ressonância mítica de que estão investidos alguns de nossos atos mais cotidianos. A propósito, um dos doze trabalhos de Hércules foi limpar os estábulos de Áugias, rei de Élida, cujo gado produzia uma assombrosa quantidade de esterco. Daí a sugestão: na próxima vez que estiver diante daquela pia de pratos acumulados durante dias, você que é de Áries pode muito bem encarar a tarefa como uma missão heroica. Não se engane com a aparente banalidade da função, pois nosso amigo Hércules também achou o fim aquela história de estábulos. Mas não sabendo que era impossível foi lá e fez – saiba, então, que por trás daquela pilha de louça suja podem estar lhe aguardando a glória e a imortalidade.

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A pílula certa

Leonard Cohen

Tem um poema do Leonard Cohen que começa assim: “Talvez você seja uma pessoa que gosta de discutir com a Eternidade”. Acho que já falei desse poema aqui. Para mim, ele trata da nossa luta constante contra aquilo que não podemos dominar, aceitar, compreender, e que se manifesta em nossas vidas individuais através daquelas contrariedades e frustrações que basta ser adulto para conhecer bem. Esse verso sempre me vem à cabeça quando me vejo submetido a condições que rejeito, mas que são de algum modo inescapáveis. Outra lembrança que surge nessas horas é a de uma fala do The Wire (a série de TV) que inclusive já virou meme: “Você quer que as coisas sejam do seu jeito. Mas elas vão ser de outro jeito [You want things to be your way. But it’s the other way]”.

Nesse momento, em que estamos vivendo a experiência coletiva do incontrolável, e algumas pessoas buscam na astrologia respostas e explicações, confesso que minha percepção das coisas não vai muito além do que está dito aí. Sim, gostaríamos que as coisas fossem de um jeito (sem Coronavírus) mas elas vão ser de outro jeito (com Coronavírus). Por mais que siga todas as instruções mais restritivas em termos de confinamento e contato social (ainda que nosso perverso presidente insista em negar os fatos de acordo com o que lhe parece conveniente, da forma mais mesquinha), de certo modo estou ainda na fase de aceitar. Se a Eternidade tem algum tipo de plano que tornou esse episódio necessário na trajetória dos humanos sobre a Terra é algo que me escapa, enquanto me ocupo com o exaustivo cotidiano de uma quarentena em que por ora não cabe qualquer tipo de rotina. Isso, é claro, considerando ainda que minhas circunstâncias estão longe de ser as mais difíceis.

Essa, então, é somente uma mensagem que eu não queria deixar de oferecer a pessoas que estão em situações complicadas ou desesperadoras no momento. O que eu queria dizer é: procure ajuda especializada. Ninguém está entendendo direito o que está acontecendo, mas algumas pessoas são qualificadas para dar auxílio em situações como essa. É verdade que algumas pessoas são particularmente talentosas ou sensíveis para fazer isso, e há astrólogo/as nessa lista. Mas, se puder, se tiver condições, e um bom contato, recomendo que procure um/a psicólogo/a, ou um/a psiquiatra.

Não é todo mundo que vai precisar. Mas alguns vão. Se você estiver sentindo que vai, deixe marcada uma consulta remota desde já, isso pode fazer a diferença. Antidepressivos, por exemplo, costumam levar cerca de duas semanas para começar a fazer efeito. Com frequência a dose ou a própria medicação acaba sendo alterada nesse intervalo. Não são remédios baratos, mas, em tempos de escolher a dedo os gastos essenciais e os supérfluos, é possível que você os inclua na primeira categoria. O preço das consultas varia, mas um bom psiquiatra não precisa de mais que uma conversa de uma hora tentar uma primeira prescrição.

Sei que para muita gente isso não é novidade, mas nos círculos esotéricos pode haver desinformação sobre isso e o eventual preconceito com a psiquiatria. Não que ela não tenha culpa no cartório. Há estados depressivos que são antes mascarados do que tratados com os remédios prescritos, e não creio que sejam recomendados, por exemplo, para situações de luto ou tristeza dos quais nos recuperamos em um tempo mais ou menos previsível. No entanto, parece-me que a situação de agora tende a torná-los bastante úteis, uma vez que funcionam melhor no médio prazo do que os ansiolíticos, e, até onde entendo, causam menos dependência.

Por outro lado, tanto para o curto quanto para o longo prazo, a prática da meditação é sempre recomendada. Inclusive para quem estiver se medicando, ou sobretudo nesses casos, pois ela pode se tornar o substituto ideal para o efeito do remédio quando a dose for diminuída ou suspensa. Um pouco como nesse outro poeminha do Cohen que deixei aí na imagem. Eu poderia perfilar nomes de livros e links para quem quiser começar, mas costumo perceber que isso acaba tendo o efeito inverso em muita gente: com tantos livros para ler e vídeos para assistir com técnicas e fundamentos tão diferentes, o indivíduo acaba chegando à conclusão de que se trata de um negócio infinitamente complicado, e que não existe nenhuma chance de ele fazer aquilo do jeito certo. Então a única coisa que você precisa saber é: não existe jeito errado de meditar.

Isso não é modo de dizer. Não é frase de efeito. Simplesmente é assim. Você cruzou suas pernas, puxou o ar, soltou o ar, sentiu uma espécie de leveza ao perceber como é bom soltá-lo, pensou “gente que bom meditar mas pera esqueci de ligar pra mamãe e a compra do supermercado disseram que tá levando três semanas pra entregar não deve ter gente suficiente aquela moça do caixa da padaria coitada o filho dela é asmático a gente devia ajudar mas e a nossa conta da farmácia é fralda todo dia tem comprar fralda aliás vou ligar pra farmácia agora logo de uma vez”. Você se levanta, vai ligar para a farmácia. Parabéns, você meditou.

Da próxima vez é só fazer a mesma coisa por um pouco mais de tempo, se tiver um tempinho pra isso. E perceber como toda vez que você solta o ar há durante um nanosegundo o mais absoluto alívio dessas preocupações todas. Por esse instante é como se nada disse existisse. Trata-se então de valorizar esse alívio, reconhecer que ele é tão verdadeiro quanto a outra parte. Mas já estou me estendendo além da conta, e a coisa já pode ter começado a parecer mais misteriosa e sobrenatural do que é. Meditação, em resumo, é respiração. Você medita o dia inteiro enquanto faz um monte de outras coisas. O dia inteiro você passa se lembrando e se esquecendo das coisas. O que você pode fazer além disso é separar um momento do dia para ficar só meditando mesmo.

Quanto à astrologia, nada impede que uma consulta ou uma boa conversa sobre o assunto venha a ter um papel benéfico agora. Sobretudo por seu caráter lúdico, e sobretudo para quem tiver a sorte de estar sofrendo de tédio, ou quem quiser inserir na história da seu confinamento um diálogo a respeito de nosso lugar no cosmos e os movimentos planetários do momento (em contraste com nosso lugar na casa e nossos movimentos entre a sala, o quarto e o banheiro).  Só acho que esperar dela explicações ou soluções nas atuais circunstâncias é muito mais do que tem a oferecer. O que ela pode fazer, além de dar outras formas simbólicas de narrar a experiência histórica ou cotidiana, é reforçar a percepção de que determinadas decisões foram mesmo acertadas. Como, por exemplo, ao identificar que aquela psiquiatra que você procurou e que te receitou um remédio tem tudo para ser uma personificação de Quíron em sua vida.

Isso dá para a gente fazer (sobre Quíron, a propósito, já escrevi algumas vezes, mas, nesse contexto da discussão sobre práticas terapêuticas, especificamente aqui). De minha parte, ainda não consigo inserir atendimentos na agenda, mas, dependendo de como andarem as coisas, vou abri-la pelo menos para os sábados. De todo modo fico feliz que um ou outro amigo tenha me escrito perguntando qual era minha perspectiva sobre os acontecimentos atuais. Repito: acho que não estamos na parte de entender (não no sentido existencial, metafísico, astrológico, ou mesmo sociológico do processo), mas no momento de aceitar, agir para minimizar os danos, e tentar reorganizar um pouco o que saiu demais dos eixos. Ao mesmo tempo, antes de tentar retomar o controle da situação pela via do entendimento, acho que é o caso de permitir que ela nos transforme por meio dos sentimentos que podem surgir no caminho.

Por isso, qualquer leitura no sentido de “isso está acontecendo porque” ou “isso está acontecendo para que” tira um pouco a voz do isso que está acontecendo e tem força própria e seu jeito de fazer as coisas. Qualquer uma dessas frases faz parte daquela velha discussão com a Eternidade, que inclui as ultrajadas perguntas a respeito da mania que ela tem de contrariar nossos planos e desejos. Talvez por aí se justifique também uma certa reticência na busca por tratamentos imediatos. Naquele mesmo poema, porém, Cohen considera que “após muito tempo, as respostas para essas questões tendo gotejado de baixo para cima a partir do fundo do seu estômago, ou para baixo a partir do topo do seu chapéu, ou depois que te prescreveram, afinal, a pílula certa”, algo de substancial mudará em sua postura. E talvez você até pare de se envolver em discussões sem sentido com quem quer que seja.

Leonard Cohen, enfim, além de músico e poeta, foi monge budista por uns tempos, foi sempre aficionado por práticas esotéricas e místicas, mas nunca deixou de tentar medicamentos para atenuar a depressão de que sofria desde a juventude. Essa é uma história interessante que contei nesse post aqui. Agora, queria apenas lembrar esse detalhe da pílula no poema, na esperança de cada um de vocês encontre a pílula certa agora – seja ela um remédio mesmo, uma rotina de meditação, ou uma consulta astrológica, ou a leitura de poemas e romances, ou convívio fraterno com as pessoas próximas, ou contato solidário com as distantes.

Infelizmente, ainda assim haverá muita gente para quem nada disso será suficiente ou sequer razoável, por razões econômicas, políticas ou psíquicas mesmo. Mas, no geral, e individualmente (cada um sabe onde o calo lhe dói), recomendo que não excluam nenhuma possibilidade de tratamento ou ajuda. É só considerar que cada uma delas é recomendada para casos diferentes, e que situações de maior emergência podem exigir intervenções profissionais competentes e provisórias. De todo modo, sempre que puder ajudar em alguma coisa, contem comigo. Estarei aqui.

peixes

Cem anos de piscianos (e os peixinhos do Aureliano)

[Ilustração: Luisa Rivera]

Algumas semanas atrás fiz aqui uma enquete literária. Escolhi dois autores de cada signo e pedi para votarem na dupla que merecia um texto. Ganhou Peixes, com Gabriel García Márquez e Philip Roth. Foi aí que decidi reler Cem Anos de Solidão (é verdade que a releitura teve também outro motivo, mais inusual ainda; é que, no ano passado, como alguns de vocês sabem, minha mulher e eu tivemos um filho chamado Gabriel; o autor colombiano – e não o artilheiro do Flamengo, como em outros casos da mesma geração – foi um dos argumentos que tive para emplacar esse nome; ela a princípio queria Francisco, mas tive que alertá-la que um filho chamado Francisco Franco não ficaria bem, por causa do ditador espanhol; e eu queria que ele tivesse o mesmo sobrenome do irmão mais velho – do meu primeiro casamento –, não fosse isso ficaria feliz em usar o sobrenome da minha família materna, Naves, como ela fez com o dela; daí ele acabou se chamando Gabriel Siman Franco, mas nascendo geminiano e no dia do aniversário do Francisco Buarque de Hollanda, o Chico, o que funcionou como uma espécie de compensação).

Pois bem. Cá estava eu aqui relendo o livro do Gabriel pisciano quando começaram a chegar as notícias mais impactantes a respeito do Coronavírus, e pouco depois iniciou-se o período de reclusão daqueles que podem permanecer em casa. Antes de continuar devo dizer que estou no mínimo tão preocupado com a situação quanto a maioria de meus conhecidos. Até mesmo em pânico dependendo da hora do dia e das notícias que chegam, e exausto com as exigências das circunstâncias extraordinárias. Por isso mesmo esse blog, que completou um ano de vida essa semana, tornou-se mais do que nunca um passatempo valioso e uma distração conveniente. Enquanto escrevo essas linhas o número de casos deve ter aumentado em números amedrontadores, mas não vai dar para passar as próximas semanas acompanhando em tempo real o número de casos.

De modo que, para além das funções compartilhadas de cuidar da casa e cuidar do bebê, das horas dedicadas ao trabalho remoto e a manter contato com amigos e familiares, vou tentar continuar postando enquanto/se tiver condições. E devo continuar relendo Cem Anos de Solidão. Quem conhece o livro pode imaginar os sentimentos ambíguos que venho tendo com a narrativa nos últimos dias, nos poucos momentos em que foi possível continuar a leitura: por um lado, o mais puro prazer da experiência de um estilo que nos permite mergulhar em um mundo à parte em sua luxúria poética e imaginativa; por outro, a eventual sensação de que há algo de distópico no realismo fantástico de García Márquez, assim como há algo de realismo fantástico na distopia que estamos vivendo.  

O que tem me chamado a atenção é sobretudo como os eventos que afetam os personagens do romance têm um caráter coletivo e inescapável para as gerações que os enfrentam. As pestes, as inovações científicas, as transformações políticas, os eventos econômicos: tudo isso é relatado de tal forma que nos deslumbramos com a invenção do gelo, por exemplo, tal como foi experimentada por um Buendía, mas os Buendía não deixam nunca de ser uma metonímia de todo o universo do romance, que é não apenas Macondo, mas também a nação onde acontecem as insurreições armadas lideradas pelo primeiro Aureliano, a região caribenha para onde fogem os insurretos perseguidos pelo governos conservador, o grande mundo de onde veem os árabes da Rua dos Turcos e do qual afinal chegam os funcionários gringos da companhia bananeira.

Há algo de ambivalente na maneira como esses episódios têm algo de histórico e de mítico. O crítico Roberto González Echevarría matou a charada em um dos mais respeitados livros sobre a literatura latino-americana: Cem Anos de Solidão é mito e arquivo, é invenção e memória, é um delírio exuberante de um cigano louco e também a realidade dura de um exército sanguinário que atira sobre a multidão grevista na praça central da cidade. É pleno de vida embora seja o tempo inteiro atravessado por incontáveis mortes; trata de dores infinitas e sofrimentos dilacerantes, mas com uma beleza que encanta e inebria; é um romance populoso sobre uma casa onde as pessoas vivem amontoadas e aos berros – e nem pode isso deixa de ser um romance de ásperos silêncios, nem por isso deixa de ser um romance sobre a solidão.

Há lutos que se emendam com outros lutos. Há uma chuva que dura quatro anos, onze meses e dois dias, e que deixa a cidade em ruínas, “desmantelada”, com “esqueletos de animais cobertos de lírios colorados”. Há a epidemia da insônia, há toques de recolher, há fuzilamentos na calada da noite. A viúva Rebeca Buendía passa décadas sozinha esquecida dentro da casa onde vão morrer os pássaros. Reclusão, confinamento e quarentena são palavras que aparecem no romance o tempo inteiro. Por isso, e um tanto curiosamente, minha experiência de reler o livro agora acabou sendo não exatamente de fuga da realidade imediata em direção a um mundo fantástico, e sim de encontro com uma realidade que estava desde sempre na Macondo de García Márquez, e que agora me parece muito mais palpável e factível.

No entanto, embora não seja uma experiência escapista, não deixa de ser uma experiência de (re)leitura com características piscianas. Mesmo considerando tudo isso, continuo me deixando levar pelas imagens oníricas que perpassam a narrativa, como que submergindo em um oceano de adjetivos tão exatos quanto abundantes, na deliciosa tradução de Eric Nepomuceno. Tem também a questão dos nomes: chega uma hora em que a gente não sabe mais exatamente de qual Aureliano ou de qual José Arcádio o narrador está falando, mas aí isso já nem importa muito, pois o estilo de García Márquez nos convida à vertigem dos nomes como se nos envolvesse em um sonho onde os detalhes sobre quem é quem já não fazem tanta diferença. E essa lânguida entrega à leitura, àquilo de Coleridge chamou de “suspensão da descrença”, acontece em Cem Anos de Solidão tal como acontece no âmbito do arquétipo de Peixes, pois é nele que habitamos universos paralelos onde os limites entre a realidade e ficção ficam totalmente borrados.

Acho que é aí que Gabriel García Márquez e Philip Roth se encontram. Roth é também um autor envolvente, que se espalha em extensas frases perfeitamente arrematadas com um engate exato na frase seguinte. Lembro do prazer que senti ao ler Pastoral Americana ou A Marca Humana, por exemplo. Muitas vezes os fatos narrados eram terríveis, ou ultrajantes, ou repulsivos, porém isso era feito de tal maneira quo o terrível e o ultrajante e o repulsivo podiam prosseguir indefinidamente, no que dependesse da vontade do leitor, tal seu poder de entretenimento. Difícil encontrar dois autores tão grandiosos nesse sentido. Aliás, uma coisa que me chamou a atenção qu ando escolhi esses dois para Peixes na enquete é que somente esse signo estava representado por escritores tão enormemente reconhecidos por público e crítica, em função das imensas obras que construíram.

Em tempos como estes, portanto, mergulhar de cabeça em um romance de Roth ou de García Márquez é recomendável. Eu pelo menos recomendo. Mas saiba que ao explorar esses oceanos você pode dar de cara com passagens que vão te trazer de volta para tempos como esses. Peixes é também sobre essas passagens, esses limiares, além de ser especificamente o arquétipo que trata da questão da reclusão e do confinamento (os personagens arquetípicos de Peixes – o monge, o doente, o louco, o viciado – com frequência vivem em estado de afastamento voluntário ou forçado de todo contato social). Além disso, Peixes, como já devo ter dito aqui algumas vezes, é sobre estar sujeito a forças que não podemos controlar.

Agora, se eu fosse me ater a um detalhe de Cem Anos de Solidão, sem dúvida seriam os peixinhos de ouro do coronel Aureliano Buendía. Refrescando a memória: antes e depois de ter promovido “trinta e duas rebeliões armadas, escapado de catorze atentados, setenta e três emboscadas e um pelotão de fuzilamento”, o coronel permaneceu longos anos trancado na oficina que foi de seu pai e depois do cigano Melquíades, produzindo peixinhos de ouro que trocava por moedas de ouro, para então fundir as moedas e vender os peixinhos forjados a partir delas. O aspecto cíclico da atividade é ressaltado a princípio como um indício dos vãos esforços que marcam a trajetória dos Buendía, enquanto Úrsula, a matriarca da família, volta e meia se vê diante do comportamento de algum Aureliano ou algum José Arcádio que parece reproduzir padrões de conduta dos antepassados. “É como se o mundo estivesse dando voltas”, ela repete mais de uma vez no livro.  

No entanto, essas recorrências guardam um segredo e um mistério. Peixes é também sobre como não somos tão diferentes de nossos antepassados como acreditamos ser. Somos novas manifestações do mesmo material a partir do qual se proliferam infinitamente as vidas humanas, como as ondas que quebram ininterruptas e abundantes na praia são sempre novas manifestações do mar, que não se desprendem nunca da matriz a ponto de estarem completamente separadas dela. Os peixinhos de Aureliano são um símbolo disso. E não são peixinhos por acaso.

Para terminar, lembro que em Aion: estudos sobre o simbolismo do si-mesmo, C. G. Jung investigou as múltiplas reiterações e ressonâncias de imagens piscianas no inconsciente coletivo durante os últimos dois mil anos, isto é, durante a Era de Peixes. Se fôssemos complementar esse estudo hoje, ele não estaria completo sem os peixinhos de ouro que encontramos na obra de García Márquez. Afinal, o símbolo trata da maneira como as vidas individuais se veem mergulhadas nos mares da história e da memória, sujeitas às marés dos tempos e às intempéries das correntes subaquáticas.

De todo modo, espero que a gente passe por essa de agora sem ter que enfrentar as infindáveis dores e os permanentes lutos de que se ocupam os personagens do autor colombiano. Que tenhamos constância dos Aurelianos, a força das Úrsulas, a pertinácia dos Josés Arcádios, a tenacidade das Amarantas. Que sejam alguns meses apenas, que tenhamos uma segunda chance sobre a Terra. E que esse período, se possível, não seja atravessado por ninguém na mais completa solidão.

Todos os signos

Organização Zodiacal da Saúde: arquivos confidenciais

Em um incrível furo de reportagem, LUAS DE JÚPITER obteve acesso exclusivo a um dos documentos mais sigilosos envolvendo o novo Coronavírus. Optamos por reproduzi-lo na íntegra. Te cuida, Glenn Greenwald.


ATA DA QUINQUAGÉSIMA NONAGÉSIMA TERCEIRA REUNIÃO EXTRAORDINÁRIA DA ORGANIZAÇÃO ZODIACAL DA SAÚDE, REALIZADA NO DIA CATORZE DE MARÇO DE DOIS MIL E VINTE.

Às quinze horas do dia catorze de março de dois mil e vinte reuniram-se na sala 502 do edifício-sede da Organização Zodiacal da Saúde em Genebra, Suíça, os doze delegados de cada signo do zodíaco convocados em caráter de urgência para tratar de pauta única referente à pandemia do Novo Caronavírus. O delegado do signo de Capricórnio, sr. Augusto Cabreiro, pediu a palavra: “Caríssimos senhores, caríssimas senhoras. Encontramo-nos hoje reunidos nesses imponentes recintos em função da iminente crise que se avizinha. Desde tempos imemoriais dos quais bem me lembro a humanidade tem sido vítima dos mais diversos tipos de pestilências, mas tudo indica que em questão de dias estaremos diante de um inédito desafio para nossos recursos e capacidades enquanto coletivo anônimo de cidadãos historicamente imbricados na projeção de um futuro de águas turbulentas…”. O representante do signo de Áries, sr. Fikannu Sensaku, interveio: “Ele tá dizendo que vai dar merda”. O sr. Cabreiro retomou a palavra: “Sim. Estou me referindo à possível catástrofe que com alguma relutância classificaria de acordo com a síntese do colega Sensaku, porém creio que não devemos nos deter em dissonâncias, para encontrar possíveis pontos em comum no enfrentamento da doença”. Os presentes assentiram. A delegada do signo de Libra, sra. Justine Labelledejour, ponderou que justamente por isso em sua opinião mas em sua opinião e só em sua opinião mesmo o Novo Coronavírus poderia talvez quem sabe ser convidado para um encontro diplomático com autoridades mundiais em que lhe seriam apresentados argumentos matizados e convincentes para que se detivesse em sua sanha contaminante, recebendo em contrapartida honrarias antes só outorgadas a chefes de estado, de modo que tudo pudesse ser enfim resolvido em um elegante jantar de confraternização no Palácio de Versailles. Ao ouvir a palavra jantar, o delegado do signo de Touro, sr. Couves do Azeitão, que até então dava sinais de sonolência, despertou. O sr. Sensaku interveio mais uma vez: “Pessoal, é só a gente começar incorporar o hábito de lavar as mãos antes e depois das refeições. Pronto. Resolvido? Já pode ir embora?”. O sr. Azeitão ponderou que isso implicaria eventualmente um gasto insustentável de recursos hídricos, uma vez que era só fazer as contas para perceber que lavar as mãos antes e depois das refeições levaria à necessidade de que cada indivíduo lavasse as mãos cerca de vinte e duas vezes por dia. Enquanto isso, a delegada do signo de Virgem, sra. Imaculatta Condoisttê, se levantou com o semblante escandalizado e dirigiu-se aos presentes em tom de indignação: “Como assim, incorporar o hábito de lavar as mãos? Qual era o procedimento adotado antes?”. Seguiu-se um longo e constrangido silêncio, enquanto a sra. Condoisttê lentamente se afastava dos demais representantes e retirava da bolsa um frasco de álcool gel. Diante do risco de dissenção aberta e dissolução da câmara deliberativa, o sr. Cabreiro enfatizou que não era hora de questionar ações passadas, nem de perder tempo com detalhes inexpressivos, e sim de realizar ações efetivas que contribuíssem para interromper o fluxo do contágio. Em resposta, a delegada do signo de Câncer, sra. Tadi Nhaa Dimin, afirmou com meiguice: “Estou plenamente de acordo no que se refere às ações afetivas”. O sr. Cabreiro corrigiu: “Eu disse efetivas”. A sra. Nhaa Dimin prosseguiu, dessa vez com certa rispidez: “Que seja. Ainda assim queria registrar meu desalento com o fato de que, diante dessa epidemia do Novo Coronavírus, o Velho Coronavírus foi esquecido, abandonado, negligenciado, não se fala mais nele, não se reverencia mais sua memória.” O sr. Sensaku interveio irritado: “Puta que pariu, haja paciência, reverenciar vírus, era o que faltava. Se o problema é esse é só chamar de Covid-19. Já podemos ir embora?”. A sra. Labelledejour se mostrou desconfortável com a admoestação brusca e o linguajar baixo, enquanto a sra. Nhaa Dimin respondia: “A que ponto chegamos, já não existe respeito nem pelo nome da família da pobre criatura virótica!”. O sr. Cabreiro sentiu-se na obrigação de encaminhar o debate novamente em um sentido responsável e produtivo: “Senhores, senhoras, acalmem-se. Reitero a necessidade de definirmos as ações que podem ser executadas para alcançar nossos objetivos, como, por exemplo, a suspensão de jogos, espetáculos teatrais, shows musicais e performances públicas de qualquer natureza.” A sra. Luz del Fuego, delegada do signo de Leão, que se encontrava entretida com a postagem de selfies através do celular, riu e disse peremptoriamente, sem tirar os olhos do aparelho: “Nem morta, fofo. Nem morta”.  Ninguém ousou replicar. O sr. Cabreiro conteve o desespero que começava a se revelar em sua face, e retomou a palavra com tenaz perseverança: “Bom, acho que devemos ao menos recomendar que certa distância entre os corpos seja mantida. Que o contato humano mais direto seja evitado a partir de agora”. A sra. Condoisttê, que a essa altura acompanhava a reunião remotamente, dirigiu-se aos presentes com um semblante aterrorizado através da tela de videoconferência: “Como assim, evitar o contato humano mais direto a partir de agora? Qual era o procedimento adotado antes?”. No entanto, a delegada do signo de Escorpião, sra. Indhira Khama Sutra, que até então encontrava-se perscrutando o ambiente com um penetrante silêncio, pontuou de modo ambíguo e misterioso, enquanto mantinha o olhar fixo na sra. Luz del Fuego: “Ah, sim, claro. Evitar o contato humano. Contato. Humano. Acho que devemos continuar essa discussão depois que a reunião terminar”. A sra. Condoisttê apagou a tela da videoconferência após exibir uma última expressão de pânico. O encontro parecia ter chegado a um carregado impasse. Até que o delegado do signo de Aquário, sr. Ezqzwit Ezqzwitsson, se manifestou na bem intencionada tentativa de salvar a empreitada: “Bom, não sei se entendi direito a proposta da sra. Sutra, mas sou a favor de continuarmos a reunião. Aliás acho que devemos fazer outras reuniões, muitas reuniões, o destino da humanidade está em nossas mãos. De mãos dadas podemos fazer mais! Ninguém solta a mão de ninguém!”. E deu as mãos para os colegas de ambos os lados, o sr. Cabreiro e o sr. Tokantanus Nachuvas, delegado do signo de Peixes. Nenhum dos dois correspondeu ao gesto. O sr. Sensaku resumiu o sentimento geral: “Pegar na mão não pode. Ninguém pega na mão de ninguém. Aliás não devia poder nem ter esse tanto de gente junta na mesma sala. Essa reunião era pra ser um email. Já pode ir embora?”. Houve uma espécie de assentimento geral, que pareceu mais devido ao cansaço do que à satisfação com os resultados obtidos. Até mesmo o sr. Cabreiro parecia disposto a capitular. Porém, enquanto isso, foi observado que o sr. Nachuvas permanecia com um ar de divagante dispersão desde o início do encontro, e que no seu caso a falta de ressonância em relação ao gesto do colega aquariano teria acontecido mais por desatenção do que por razões sanitárias. “Sr. Nachuvas”, disse o sr. Cabreiro, demonstrando uma última esperança, “o sr. não teria por acaso alguma espécie de sugestão criativa e inusual sobre como procedermos nesse caso do Coronavírus?”. “Coronavírus?”, respondeu o sr. Nachuvas. “Ai, desculpa, gente, achei que essa era a reunião do G-20”. Na sequência soltou um espirro. Enquanto o sr. Nachuvas assoava o nariz com um lencinho ao deixar a sala, houve grande azáfama entre os delegados. Alguns recolhiam seus pertences sem que a reunião tivesse sido oficialmente encerrada, o que motivou um último esforço do sr. Cabreiro no sentido de determinar alguma medida concreta: “Enfim, vocês não acham que devemos recomendar às pessoas que fiquem em casa?”. A sra. Nhaa Dimin respondeu: “Sim, claro! Ficar em casa! Apoiado!”. O sr. Cabreiro se empolgou: “Vocês não acham que certo isolamento é necessário?” O sr. Sensaku repercutiu: “Sem dúvida! Isolamento total! Apoiado!”. O sr. Cabreiro não se conteve: “Podemos então divulgar um comunicado dizendo que está tudo sob controle? De que foram estabelecidos limites para a disseminação da doença?”. Nisso foi ouvida a risada do sr. Massimo Destempero, delegado do signo de Sagitário, que geralmente tem essa reação sempre que ouve falar sobre controle e limites. Como o regimento da organização prevê que a gargalhada do sr. Destempero invalida quaisquer decisões previamente tomadas em uma reunião, mais uma vez terminamos sem nenhuma definição, como aliás costuma acontecer em nossas reuniões, para frustração do sr. Cabreiro. Em tom de derrota, antes de ir embora ele me instruiu a emitir para a população vagas orientações gerais sobre os riscos do contágio através de fluidos salivares, instruções essas que, a julgar pelos sons que chegam da sala ao lado, já não estão sendo cumpridas pelas próprias sras. Sutra e del Fuego. O sr. Azeitão parece também participar da brincadeira cumprindo um papel que eu não saberia definir a partir dos barulhos. Sem mais assuntos a tratar, foi lavrada essa ata, assinada por mim, Billy Bo Bagen, delegado do signo de Gêmeos, e só por mim mesmo, porque a essa altura os demais delegados foram embora com pressa e sem cerimônias. Sei que de minha parte deveria levar mais a sério o risco de contágio, até porque agora há pouco o sr. Nachuvas retornou espirrando e perguntando se é aqui a reunião do G-20, mas no dia que eu conseguir levar realmente a sério alguma coisa vocês podem saber que me trocaram de corpo com o sr. Cabreiro. Aliás o próprio me ordenou que eu mantenha esse documento do mais absoluto sigilo. Afirmei que ia obedecê-lo com rigor, só para me livrar dele mesmo, porque sem dúvida vou acabar contando tudo para o primeiro jornalista que me aparecer quando sair daqui. É a vida.

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O lugar bom

Essa postagem é para quem assistiu ou está assistindo The Good Place, a série da NBC que estreou em 2016 e terminou em 2020 (tem na Netflix). Vi o último episódio esses dias, e série tem esse negócio de a gente ficar com saudade dos personagens. Então – prometo não estragar o final para ninguém, pelo menos não para quem já passou da primeira temporada – me deu vontade de explorar um pouco mais a brincadeira dos signos com eles. A propósito, já mencionei o Michael (Ted Danson) em um texto sobre Capricórnio, e indiquei a Eleonor (Kristen Bell) para o Oscar do zodíaco que propus uma vez aqui, na categoria Personagem de Áries. A essa altura, estou convencido de que ela merece o prêmio.

Isso porque ela é uma ariana que vai ficando mais suave no decorrer da série, menos tensionada no confronto com o mundo, e, por mais que esse seja um caminho esperado em uma narrativa cômica convencional, ela nos convence de que isso é possível. Não é só porque aprende a falar palavrões com certa civilidade (tipo “holy fork!”, eventualmente traduzido por “fruta que caiu!”); ela faz com que seja verossímil uma heroína de Áries do bem, na medida do possível, é claro. De todas as transformações que vemos no decorrer das temporadas, para mim a dela é a mais notável. Não quer dizer que fique menos ariana, pois conheço muita gente desse signo que já parte desse lugar em que o restante da humanidade não é visto apenas como uma ameaça, e sabe que dá até para conviver com gente, às vezes até gosta. Em se tratando de Áries, já é bastante coisa.

Chidi (William Harper), por sua vez, é o clássico libriano que precisa aprender a tomar decisões. Não por acaso é o par oposto-complementar de Eleonor. Mas acho interessante que seja um filósofo. É comum as pessoas acharem Libra um signo romântico, mas a gente sabe como eles conseguem ser incrivelmente frios e cerebrais. Falta-lhes o fogo das paixões leoninas, o poço dos sentimentos escorpiônicos, a sensibilidade ao ambiente de Touro ou Virgem. É lógico que nessa perspectiva falta um traço de Libra também todos os outros arquétipos, e falta mesmo. Sobretudo quando a gente conhece um libriano que, não obstante sua librianice, e inclusive por causa dela, sabe decidir que sobremesa escolher depois de colocar todas as opções na balança.

Jason Mendoza (Manny Jacinto) é um caso singular. Peixes, sem dúvida. O interessante é que ele é pisciano tanto em sua versão de mentirinha quanto depois que ficamos sabendo quem ele realmente é após os episódios iniciais da série. Nesse caso acho que não conta como spoiler porque a coisa se revela logo ali no segundo ou terceiro capítulo: ele passa de um monge tibetano de olhos puxados que vive à base de meditação e água fresca para um morador da Flórida de origem filipina de olhos puxados que vive à base de todo tipo de porcaria e pequenos roubos de gasolina. Embora o monge seja um personagem típico do arquétipo de Peixes, a versão verdadeira de Jason é até mais pisciana que a outra.

O legal é que ele não deixa nunca de ser um personagem ingênuo e encantador. Avoado, iludido, totalmente incapaz para os assuntos práticos da vida, mas nunca menos “espiritualizado” que sua versão monástica, mesmo quando se lembra do dia que passou atirando em ratos no lixão de Jacksonville com um primo de Blake Bortles. Porque ele espera ser aceito pelo mundo da mesma maneira como o aceita, e representa o papel do bobo em tudo o que tem de plena receptividade e espelhamento do mundo ao redor. Além de ser engraçado, é claro. Tem uma cena, por exemplo, em que está todo mundo dando opinião ao mesmo tempo sobre algum problema, aí ele entra e dispara a falar um monte de coisas nada a ver. Quando perguntam o que deu nele, responde: “Sei lá, estava todo mundo falando junto achei que era para eu falar também”. Tipicamente pisciano.

Quanto à Tahani (Jameela Jamil), aí já fico na dúvida. Ela tem a rivalidade geminiana pela atenção dos pais com a irmã, mas não tem agilidade de raciocínio de Gêmeos; participa do encanto leonino com o universo das celebridades, mas falta-lhe magnetismo e confiança para ser ela própria uma Leoa. No final das contas, fico achando que é de um signo de Terra. Mas nesse caso estou disposto a aceitar ajuda, então se alguém aí tiver um opinião a respeito pode falar. Vejam só que coisa bizarra estou me tornando: uma capricorniano que admite que não sabe uma coisa e até pede conselho pros outros. Tipo o Michael.

Voltando então rapidamente ao Michael: o engraçado é que, além de ser uma figura evidentemente capricorniana em sua função de gerenciar a coisa toda e saber tudo a respeito de tudo, ele a princípio tem ainda aquele traço de Capricórnio que não aceita a necessidade de ajuda. Precisa estar sempre no controle, sem precisar nem do palpite de mais ninguém. É lógico que isso já vai mudando a partir da segunda temporada, vai ficando mais claro como na verdade tudo o que ele precisa (e no fundo quer) é assumir a forma falível e imperfeita dos humanos. É muito exaustivo isso de se responsabilizar pelo universo o tempo inteiro. Algo semelhante poderia ser dito de muitos capricornianos. 

E tem a Janet (D’Arcy Carden), é claro. A Janet é um caso à parte. Aí eu perguntei pro pessoal da internet qual é o signo da Janet, e a resposta que mais me apareceu foi Virgem. Eu respeito essa posição e até entendo. Ela tem um gestual contido e um jeito de se vestir que são bem virginianos. Ela presta um serviço inestimável, aparece sempre que alguém precisa de alguma coisa, é uma funcionária exemplar do cosmos e e nem humana ela é. Pra muita gente, isso é mais que suficiente para cravar: virginiana.

Mas eu sou Capricórnio com ascendente em Escorpião, então quando peço conselho ou palpite pros outros vocês podem suspeitar que é só jogo de cena. Já formei minha opinião há tempos e nada me fará arredar dela. Acho que os gestos controlados e aparentemente metódicos da Janet têm mais a ver com fato de que ela não tem muita familiaridade com a forma humana que assumiu. Aí vocês precisam que considerar que, quando a gente fala que Virgem não é muito humano, isso é mais num nível metafórico; é lógico que não é literal. Tem só um signo que corresponde a essa característica sem precisar de licença poética. Tem só um signo de gente que veio de outras galáxias e está ainda se acostumando a viver entre nós.

Pois então: Aquário. Em primeiro lugar, exatamente por isso, porque nem humana ela é. Digo isso na certeza de que os aquarianos queridos do meu coração vão entender como um elogio: tipo, você nem é humano, você é uma Janet. E, como se não bastasse, ela é capaz de prover os humanos com aquilo que normalmente é reservado aos deuses, como fez Prometeu, protagonista do mito mais significativamente aquariano. O fato de que vai acabar se apaixonando por uma pessoa de carne e osso, e conhecer um pouco mais os desejos do corpo que a princípio lhe é estranho – isso também acontece com frequência no âmbito do arquétipo de Aquário. E a maneira como a mente dela se conecta como uma espécie de supercomputador a tudo o que acontece no universo só me faz ter mais certeza do meu ponto.

Para terminar, ufa, tem a série como um todo. Estreou em 19 de setembro de 2016. Essa sim é, portanto, virginiana. Para mim faz sentido: a narrativa costuma ser até bem metódica em sua sobreposição de universos como se fossem bonecas russas, mesmo quando flerta com o caos. Agora, eu apostaria que existe alguma coisa ali que articula muito bem Sagitário e Touro. Talvez a Lua no primeiro, o ascendente no outro. Pois o pano de fundo é sagitariano, de modo que toda a brincadeira é organizada em torno de uma indagação sobre o sentido da vida e a finalidade da existência. Ela pode não alcançar muita profundidade nesse sentido; mas isso, pelo menos para mim, não é necessariamente uma falha ou deficiência. É aí que entra a perspectiva taurina.

Pois, no final das contas, após as milhões de referências a Kant e Heidegger e Pascal, a série acaba recorrendo ao pensamento oriental para dar uma última resposta provisória ao enigma do existir. Sobre esse aspecto dos últimos episódios, sem entregar o enredo, vou me permitir uma pincelada, até porque o recurso é mais que previsível, e não apenas pelo andamento da série, mas pela própria linguagem seriada de que ela é um bom exemplo. A ideia de que o “fim” pode ser infinitamente postergado para uma outra temporada – e de que podem existir mundos infinitos dentro de infinitos mundos – faz, curiosamente, com que o momento presente seja mais valorizado. Se a própria morte não é conclusão de um processo, mas faz parte de um conjunto incessante de ciclos, não tem porque você se afligir com uma finitude ilusória, e você pode muito bem encontrar o infinito que existe contido no agora.

Buda, como já disse aqui vez ou outra, para todos os efeitos era taurino. Seu aniversário é comemorado no dia 07 de maio. Isso para mim está relacionado não apenas à paciência e à perseverança, mas também à capacidade que Touro tem de aproveitar as coisas boas da vida. Digo, aquelas coisas materiais e momentâneas mesmo, como uma boa refeição, um bom vinho, uma boa companhia ou a simples possibilidade de respirar fundo um ar puro e tranquilo. É por isso que para mim a série termina onde começa a grande lição de Touro para nós. Que é um pouco a lição de Buda também. Não saia daí. Respire. Aproveite a vida. Aproveite o momento. O lugar bom é onde você está.

cosmológicas

A graça de ser humano

Uma dica para os detratores da astrologia que gostam de questionar as bases científicas do zodíaco. É comum vê-los dizendo que, com a mudança de posição das constelações em relação à Terra, o zodíaco tal como foi definido há milênios já não faz nenhum sentido. Acontece que nessa perspectiva ele não fez nenhum sentido de largada. Já desde a Grécia Antiga a definição dos signos teve como critério uma divisão do firmamento em doze faixas equivalentes a partir do equinócio de primavera no hemisfério norte, onde estaria o grau zero de Áries; de maneira alguma essas casas estiveram fisicamente vinculadas às constelações; a associação era apenas simbólica e por proximidade. Não é preciso ser um Stephen Hawking para perceber que isso tem zero de chance de ter qualquer efeito no paradigma científico moderno, segundo o causalismo newtoniano por exemplo, ou mesmo considerando a Teoria da Relatividade.

Uma dica para os defensores da astrologia que gostariam de vê-la legitimada com argumentos científicos: vocês perderam essa, mas não desanimem. Esse é o ponto de partida, e não o ponto de chegada, de qualquer discussão mais consistente sobre os fundamentos da astrologia. Porque ela é assunto que diz respeito à consciência humana, e quanto às explicações para a emergência e desenvolvimento da consciência humana no cosmos o paradigma científico moderno não tem nada a oferecer. Nem Newton nem Einstein nem Hawking sequer esbarraram com qualquer demonstração de seu modo de funcionamento: como surge, como evolui, se é restrita ao indivíduo, se é compartilhada pela espécie, se nasce e morre como cada um de nós ou se estabelece relações em rede no espaço e no tempo. O que temos quanto a isso por parte da ciência institucionalizada é por vezes uma declarada perplexidade, às vezes um embaraçoso silêncio.

Assim, a maneira como a humanidade decidiu separar o firmamento em doze casas iguais associadas às constelações que lhe eram próximas e o comportamento de um indivíduo em seu cotidiano milênios depois podem estar, sim, o relacionados. O fenômeno, é claro, ocorre em um âmbito onde nossos instrumentos de medição estatística não operam, e talvez não devam operar mesmo, eles têm mais o que fazer. Os recursos coletivos de pesquisa precisam mesmo estar destinados para a vacina do Coronavírus ou o desenvolvimento de fontes renováveis de energia; quanto a isso estamos de acordo, e não vejo astrólogos requisitando financiamentos para as investigações que continuam sendo feitas à margem dos trâmites regulares da sociedade. Porém daí a reacender as fogueiras para nos queimar em uma inquisição esclarecida e escandalizada contra o “obscurantismo” da astrologia vai um longo caminho.

Gente, tem certas coisas nesse mundo que são meio obscuras mesmo. Ou talvez sejam claras, não sei. A questão é que ninguém consegue explicá-las. Faz parte da graça de ser humano.

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Um trem aqui no meu coração

Tsunami | Katsushika Hokusai

Uma coisa que não comentei quando fiz a enquete do grande vilão do zodíaco foi o resultado por equipes. O lapso é imperdoável, mas está em tempo de corrigir. Vamos lá então: somados, os signos de Água ficaram com 52 votos, os de Ar, 44, Fogo, 23, e Terra, 15. É um resultado até surpreendente se você pensar que o temido Capricórnio está entre esses últimos, que o próprio Satanás não contribuiu para uma melhor posição do time liderado por Áries, que nem Libra conseguiu aliviar a barra de Gêmeos e Aquário, e sobretudo que entre os grandes e incontestáveis líderes estão os chuchuzinhos cancerianos e os piscianos distraídos.

Mas o resultado faz sentido se a gente considerar que a gente tem sempre medo do que não conhece. E os signos de água são exatamente aqueles que preservam sempre algo de oculto – inclusive de si mesmos – de tal forma que o mistério é inerente a esses arquétipos. Peixes é um caso extremo de vai-saber-o-que-tem-ali-dentro; mas Escorpião é também um arquétipo onde se aloja uma série de ameaças subterrâneas, e mesmo Câncer é capaz de transformar um ambiente “familiar” – como o da própria família – em algo perpassado por estranhos segredos. Além disso, quando dizemos que uma pessoa é “de lua” – a regente canceriana –, de certo modo estamos afirmando que essa pessoa é volúvel e pouco confiável.

É claro que esse resultado diz muito pouco sobre os signos de água propriamente, mas talvez diga algo sobre nós mesmos. Ele diz que o que a gente mais teme no mundo são as nossas emoções, sobretudo quando entendemos que elas estiveram ocultas ou reprimidas até o momento em que resolveram aparecer com toda força. A linguagem que usamos nesses casos com frequência é indicação disso: nós nos sentimos “tomados” por nossas emoções, como se fossem bandidos armados que nos fizeram reféns; “inundados” por sentimentos, como se não tivéssemos conseguido represá-los; e “traídos” por nossos próprios afetos, como não diríamos que somos pelos nossos pensamentos, por exemplo.

É interessante então lembrar que, para a humanidade primitiva, pensamentos não eram algo que um indivíduo “tinha” – eram simplesmente algo que ocorria a ele, um pouco como entendemos as emoções hoje. Pelo menos é assim que Jung descreve o fenômeno do pensar nos primórdios da humanidade, parecido com a perspectiva adotada por uma pessoa em estado de meditação, que vê os pensamentos lhe ocorreram e se dissiparem, como se tivessem vindo do nada e voltassem para lugar nenhum. Mas talvez para os primitivos isso de pensar tenha sido uma experiência realmente atemorizante, tipo, “gente-que-que-isso-apareceu-um-trem-aqui-na-minha-cabeça”. Ih, pensei.

Hoje, porém, estamos mais na linha do “gente-que-que-isso-apareceu-um-trem-aqui-no-meu-coração”. Ih, senti. Nesse caso não estamos falando do coração leonino, centro pulsante de onde jorra o entusiasmo vital, mas de um órgão mais abstrato, que confundimos de maneira geral com aquilo que chamamos de alma. É verdade que no caso de Escorpião acontece também de a gente de repente sentir um trem em outras partes do corpo. Mas isso é só uma das tantas maneiras como podemos perder o controle da situação, de tal modo que os signos de Água estão todos associados a alguma forma de desatino.  

Seja como for, seja como acontecer, o que a gente percebe é que esse descontrole tem sempre um papel nos desdobramentos não só da nossa vida psíquica, mas também dos fatos da existência. Trânsitos de Plutão e Netuno, por exemplo – os regentes de Escorpião e Peixes – são famosos pelas intensas transformações e desenganos que trazem, mas são também geralmente seguidos por atitudes até outro dia impensáveis, e que só se tornaram pensáveis nas novas condições.  Algo semelhante pode acontecer com uma Lua Cheia carregada de desafios e possibilidades, por conta de seus aspectos com outros planetas ou com o mapa natal de um indivíduo.

Ou seja: muita coisa que consideramos ser nossas ‘decisões’ só nos ocorrem em meio às crises causadas por esses dúbios sentimentos ocultos que súbito assomam e tomam conta do cenário. Dizer que essas decisões foram tomadas a partir de uma central de controle operações e gerenciamento de crises que existe dentro da gente, enquanto as crises e o descontrole são fenômenos que atribuímos a algo que não somos nós, é o que me parece problemático nesse caso. Tudo acontece fora e dentro ao mesmo tempo; é tudo uma coisa só.

Há, por exemplo, quadros depressivos em que o que a gente sente na alma é só um vazio mesmo. Mas mesmo esse vazio é um lugar escuro e oculto onde uma nova luz pode vir a brilhar.  O normal aí é entendermos que ‘reagimos’ a uma depressão, como se ela nos tivesse tomado de assalto, e nós no final das contas tenhamos conseguido reassumir o ânimo necessário para enfrentá-la. Acontece que esse ânimo – que pode muito bem ser um fogo sagitariano, a propósito – está totalmente vinculado ao escuro e ao vazio de onde surgiu.  

Além disso, essas ‘decisões’ que tomamos para sair de uma situação emocionalmente complicada, ou a vitalidade que pode ressurgir após um longo processo de luto, talvez sejam igualmente algo que nos ocorre, algo que nos ‘toma’, algo que nos ‘assalta’. Os antigos sabiam disso: nós somos possuídos pelo entusiasmo da mesma forma como somos afogados em lembranças. Acho essa percepção importante, para que a gente não fique achando que precisa encontrar uma solução para uma crise, forçar um reerguimento inábil, quando na verdade ela virá na hora que deve.

Trata-se de confiar na capacidade do corpo de voltar a funcionar a pleno vapor, mas quando o combustível para isso estiver disponível. Às vezes, o que está tendo para o momento é um convite ao descanso mesmo (e ao cuidado, ao resguardo, à intimidade). Novamente, portanto: que a gente precise atribuir esse convite ou exigência a forças externas e ocultas, torná-las objeto de desconfiança e suspeita, e inclusive conferir-lhes os atributos da vilania, é algo que talvez diga mais sobre nossa sociedade do que sobre os signos de água mesmo.

Acho até que muita coisa do que a gente entende hoje como doença faz parte de processos naturais de regeneração da alma. O problema é que a gente separa a enfermidade da cura como se fossem duas coisas distintas, enquanto não têm como deixar de ser uma coisa só. Queremos nos associar àquilo que apresentamos de saudável e animado e produtivo ao mundo, e tratar como um inconveniente alheio à nossa vontade a parte da vida que saímos de cena para cuidar de um trauma, ou lamber as feridas.

Outro dia escrevi, meio que à brinca, meio que à sério, na postagem sobre os hipocondríacos do zodíaco, que Escorpião convive bem com estados febris que duram longos períodos, e que Peixes sabe inclusive curtir uma febrinha como ninguém. É sobre isso que estou falando. Ou seja: são capazes de deixar-se tomar por sensações inusuais, improdutivas de um determinado ponto de vista, mas indispensáveis para o processo de cura de outro. Deixam-se inundar até mesmo por delírios, sonhos e outras alucinações que podem muito bem revelar-se os melhores guias para sair de um labirinto ou de um pântano.

Enfim: talvez, se a gente exercitar um pouco mais esse aprendizado, ao invés de tratar os arquétipos de água como vilões, vamos enfim vê-los como aliados. Ou melhor, vamos vê-los como uma parte de nós mesmos que não se deixa controlar por nossa vontade, para nossa salvação, pois é assim que eles lavam a nossa alma de um monte de tralhas que vão se acumulando em seus recantos. Por isso, se as águas da alma lhe parecem misteriosas e ocultas, incontroláveis e delirantes, volúveis e imprevisíveis, trate-as com a mesma deferência com que gostaria de ser tratado. Pois é a si mesmo que você estará tratando, exatamente, e,  quando vier a próxima enchente de sentimentos, saiba que você não será inundado: você será a inundação.

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Hipocondríacos do zodíaco

O doente imaginário (1862) | Honoré Daumier

Nem sei se devia estar brincando com isso, mas apesar de astrólogo não sou supersticioso, então vamos lá: quando começaram as notícias do novo-coronavírus-chega-ao-Brasil, vocês sabem quem é que em questão de horas já estava sentido todos os sintomas? Acertou em cheio quem disse os piscianos. Pelo menos no meu painel foi assim; começaram a pipocar postagens do tipo “gente to sentindo aqui febre coriza dor de cabeça tudo junto é coronavírus né?”; quando você ia ver o aniversário da pessoa, ou ele tinha acabado de passar, ou estava chegando a data (sim, eu olho a data de aniversário das pessoas no Facebook para saber o signo delas; é para isso que pago a internet).

É bem verdade que Virgem também não demorou a suspeitar daquela tosse esquisita dos últimos dias. Mas, nesse caso, eles já foram logo para o hospital, fizeram um exame, descobriram o que era, tomaram um remédio e voltaram ao trabalho. O problema de Virgem é que logo eles percebem que estão também com uma dorzinha nas costas, e que também ela pode melhorar se for tratada com atenção, então eles voltam suas atenções para dorzinha, e não sossegam enquanto não tiverem resolvido o problema. Eles então resolvem o problema, e logo percebem uma outra fonte de desconforto que não tinham percebido antes – que precisa ser igualmente averiguada de maneira pragmática e objetiva.

Enquanto isso, o pisciano, já resignado por ter sido a segunda vítima registrada da pandemia no Brasil, pesquisa na rede um artigo sobre formas de tratamento que envolvem a aceitação plena do papel do vírus na ordem natural das coisas e a meditação transcendental como eixo de integração corpo-alma-mente-vírus. O fato é que, de um jeito ou de outro, com suas diferentes antenas, ambos os signos estiveram totalmente antenados com as notícias do dia no âmbito da saúde pública. Afinal, os maiores hipocondríacos do zodíaco encontram-se nesse eixo de opostos complementares Virgem-Peixes. Mas não somente aí. Acho que Gêmeos e Escorpião também entram no time, por motivos distintos.

O caso de Gêmeos é interessante, porque o mesmo Mercúrio que em Virgem funciona bem (obsessivamente bem) na hora de buscar diagnósticos objetivos e remédios certeiros, aqui se perde na infinita multiplicação de números e siglas que acompanham os exames. Gêmeos adora um exame, não pela chateação de realizar o exame em si, mas pelo resultado, que lhe oferece uma representação algébrica daquilo que está se passando em seu corpo, em um formato que facilita transformar tudo em assunto de conversa. Gêmeos adora ser assunto de conversa; daí a realmente seguir a prescrição médica é outra história. Além disso, Gêmeos no fundo tem medo da morte, embora pense pouco a respeito, e quando fale no assunto é para fazer troça ou piada. Não que seja supersticioso, mas, se depois de contar uma anedota de funeral, ou compartilhar um meme meio mórbido, Gêmeos começa a sentir uma pontada no ombro, acha melhor fazer logo um exame.

Com Escorpião ocorre o inverso: a morte frequenta seus pensamentos, e Escorpião tem até intimidade com a morte. As diferentes formas de morrer são assunto de sua predileção. Não que goste de exames, não que goste de hospitais: tudo isso lhe parece asséptico e impessoal demais para se associar a um tema tão nobre quanto as doenças e suas eventuais complicações. Escorpião trata a própria saúde com solenidade, fala sobre o assunto em um tom grave, e mantém sobre o corpo uma atenção concentrada que por si só é capaz de criar um estado febril no qual o indivíduo pode permanecer por longos períodos investigativos. Por isso sua hipocondria é a menos divertida, embora possa alcançar patamares existenciais e filosóficos: “a vida é uma doença incurável” é o tipo de frase que você pode ouvir de Escorpião.

Mas Peixes, ah, com Peixes o negócio fica mesmo engraçado. É alguém espirrar na China que Peixes já pega uma pneumonia. Por outro lado, fico então pensando se isso não tem algo a ver com o lado empático do signo, a capacidade que ele tem de sentir e carregar as dores da humanidade inteira; se alguém espirrar na China é bem capaz de Peixes sentir que esse espirro é um pouco seu também. Então, se todo mundo começar a ficar doente, Peixes é bem capaz de ficar culpado se ele não ficar junto, e talvez por isso se apresse tanto em ser o primeirão a sentir os efeitos do novo vírus. A vantagem é que Peixes sabe ficar doente melhor do ninguém. Nenhum outro signo é mais capaz de se entregar ao delírio na hora de curtir uma febrinha.

O contraste é enorme quando a gente pensa em Áries, por exemplo. É um signo que tem orgulho de sua força, odeia ficar doente e não quer nunca perder o controle. Agora, vai ver que por isso mesmo acabem sendo responsáveis pela proliferação de vírus variados pelo mundo. Enfim, quem sou eu para ficar estimulando preconceitos astrológicos, mas se fosse o pessoal dos aeroportos perguntava o signo de todo mundo que chegasse no país. Os hipocondríacos eu deixava passar fácil, porque esses eu sei que vão se cuidar ou procurar cuidados ao menor sinal dos sintomas. Agora, os outros, com essa história de deixa-isso-pra-lá-é-só-uma-febrinha-de-nada, esses eu deixava em quarentena mesmo. Montava um cercadinho só pros capricornianos.

astros

Folia dos asteroides

Gosto da ideia de que a palavra folia remete etimologicamente à festa, à tolice e à loucura. Resulta daí que carnaval é um feriado que cada um deve mesmo passar dedicando-se aos pagodes que mais lhe apetecem. De minha parte, resolvi aproveitar para estudar uns asteroides. A brincadeira é apropriada porque, por mais que eventualmente use asteroides em interpretações de mapas e horóscopos, acho divertidíssimo pesquisá-los e conhecê-los por prazer mesmo, sem uma finalidade imediata, e inclusive por conta algumas bobagens saborosas a respeito deles que a gente encontra no caminho. São tão instigantes em seus nomes e características; são tão específicos em seus significados e relações.

Um tempo atrás descobri, por exemplo, que o asteroide 1566 ganhou o nome de Ícaro em função da órbita muito peculiar que realiza em torno do Sol. Vou deixar a imagem da órbita aí embaixo, entre um parágrafo e outro; a figura aí de cima é a do quadro de Marc Chagall para o Ícaro mitológico. Lembrando: ele foi o rapaz que ganhou asas construídas por seu pai, Dédalo, para que pudesse escapar do labirinto de Creta. Como deixou-se voar alto demais, acabou se queimando sem querer, e sofreu uma queda abrupta e veloz.

Essa é a parte astronômica e lendária. Mas, com isso, já dá para imaginar com facilidade as situações em que Ícaro participa de nossas vidas. São aquelas em que alguma forma de apoio ou incentivo nos fornece soluções para uma situação difícil, ou surgem condições para alçar maiores voos em alguma área onde estamos nos esforçando sem sair do lugar. Por outro lado, são também circunstâncias nas quais o entusiasmo ou o orgulho decorrente desse impulso requerem certas precauções, para que a gente não acabe se espatifando no chão.

No momento, Ícaro se encontra no terceiro grau de Aquário, portanto em quadratura com Urano em Touro, o que, dependendo do mapa natal da pessoa, pode de fato inspirar esse tipo de cuidado. Para quem tiver interesse nas efemérides, vou deixar aqui o link para a lista mais completa que conheço, embora goste também da lista do site da Jessica Adams, mais enxuta e visualmente mais agradável de acompanhar (nesse link aqui).

A propósito, o livro sobre o assunto que mais recomendo é o Mechanics of the Future, de Martha Lang-Wescott. Falei um pouco mais desse livro no final dessa postagem, onde menciono também o bom livro de Demetra George sobre Ceres, Vesta, Juno e Pallas, asteroides que entre 1808 e 1845 foram tidos como planetas (Ceres hoje é mais exatamente reconhecida como um planeta anão), são associados a arquétipos femininos, e estão em vias em vias de incorporação ampla à prática astrológica. É da Martha Lang-Wescott também a página mais incrivelmente bem alimentada de informações sobre o assunto que conheço; desconcertantemente bem alimentada, eu diria até.

Quem percorrê-la vai perceber que a quantidade de asteroides que já ganharam um nome e foram investigados astrologicamente é enorme. Nesse mesmo estágio em que está nosso conhecimento sobre Ícaro, por exemplo, são centenas. Uma vantagem disso é que muitos deles passaram a ser denominados a partir da mitologia e do folclore de povos diversos, e também que, quando permanecemos no âmbito da Europa, a coisa não se restringe mais a narrativas mitológicas. Há, por exemplo, um asteroide chamado Dom Quixote (número 3552), que no momento está retrógrado em 26 graus de Gêmeos. Pelo nome, não é difícil imaginar alguns de seus significados e implicações, e, portanto, não se assuste se você encontrar por aí geminianos reencenando lutas contra moinhos de vento.

Outra coisa que chama a atenção, em casos assim, é o mistério da complementaridade entre a denominação desses astros pelos astrônomos e seus significados simbólicos-astrológicos. Pelos nossos padrões usuais de relação causa e efeito, não faz muito sentido que os nomes ‘certos’ sejam os escolhidos pelos cientistas. Mas nada na astrologia faz muito sentido pelos nossos padrões usuais de causa e efeito; além disso, é difícil imaginar que a opção dos astrônomos por esse ou aquele nome seja totalmente aleatória. Então é possível também que isso seja feito a partir de alguma orientação bem pouco óbvia – uma dica intuitiva do inconsciente coletivo, por assim dizer.

O certo é que, por serem quase anedóticos em suas singularidades – embora não deixem de ter um enorme potencial para um uso sério e pragmático –, os asteroides são capazes de tornar o estudo da astrologia algo ainda mais envolvente do que normalmente é. A linguagem astrológica só tem a ganhar com este tipo de enriquecimento. Algo semelhante acontece com as partes árabes e pontos mais frequentemente usados na astrologia védica, como os já recorrentes nodos lunares, também conhecidos como cauda e cabeça do dragão.

No mais, para mim pelo menos, isso tudo ainda funciona do mesmo modo como funcionava de acordo com essa notinha a seguir, que escrevi uns anos atrás, quando não existia ainda esse blog, eu estava começando a estudar a astrologia com maior profundidade, e ao mesmo tempo comecei a me entreter com esses encantadores detalhes cósmicos:

Há um asteroide para as facas. Há um asteroide para as estratégias. Há um asteroide para determinados tipos de drogas. Há um asteroide para soluções práticas que vêm acompanhadas de dilemas morais.

Há um asteroide para paixões breves. Há um asteroide para momentos eternos. Há um asteroide para a medicina preventiva. Há um asteroide para as dores que não se pode curar.

Há uma posição do Nodo Norte que transforma zumbis em diplomatas. Há uma posição do Nodo Sul que transforma vigaristas em profetas. Há um ponto no mapa para relações inevitáveis e fatais. Há um ponto no mapa para decisões em que os astros não podem ajudar.

Há um ângulo entre a lua e o ascendente que, dependendo da posição de Netuno, pode muito bem fazer com que o Papa reencarne para tornar-se um Buda. Há outro em que um Buda reencarna para ser um general e entender melhor as artes da guerra. Isso se ele quiser, é claro. Ele pode muito bem continuar sendo só um Buda mesmo. Mas é possível que vá ficando cada vez mais cansado e rabugento.

Há posições de Saturno que indicam partos demorados. Há posições de Plutão que favorecem mortes gloriosas. De tempos em tempos, Vênus e Mercúrio estão de tal maneira relacionados que apontam uma forte possibilidade de encontrarmos um gato perdido miando baixinho no quintal de nossa casa. Isso vai mudar as nossas vidas. Ou então a lembrança desse dia vai mudar as nossas vidas, quando chegarmos aos 49 anos de idade.

Aprender astrologia é como estudar uma língua estrangeira: a melhor parte são as palavras e expressões que existem para coisas que sua própria língua não consegue nomear.

aquário

Os enigmas aquarianos

Ilustração: John Tenniel

Li por aí que os físicos chamam de entanglement a propriedade que determinadas partículas têm de continuar afetando umas às outras (com alterações simultâneas em suas características) mesmo quando estão apartadas por enormes distâncias, e a relação entre elas torna-se tão intangível quanto inexplicável. Fiquei pensando em como traduziria isso para o português; acho que “emaranhamento” foi a opção da comunidade científica lusófona, mas isso para mim enfatiza a sensação de uma armadilha, de um nó complicado de desfazer, enquanto se perde algo da ideia de envolvimento, ressonância, vinculação. Por outro lado, e pensando bem, acho também que não seria bom diminuir o aspecto desconcertante do fenômeno, com sua imagem de um universo de relações inexplicáveis entre partículas que um dia estiveram unidas e hoje praticamente se desconhecem, mas ainda assim de alguma maneira se comunicam através de amplos espaços, sem que se entenda exatamente o que estão dizendo umas às outras. Está no dicionário, to entangle: confundir, desconcertar, perplexar.

Eu fico assim, emaranhado, quando leio Virginia Woolf. Mrs. Dalloway, por exemplo. Mas é uma confusão boa, uma perplexidade maravilhada. Gosto de sentir que não estou entendendo direito o que está acontecendo ali, enquanto a pontinha do iceberg que aparece já basta para tornar tudo muito interessante. Aliás, nesse ponto o efeito da escrita de Woolf se assemelha muito ao do estilo de James Joyce, com quem ela compartilhou o proscênio do modernismo britânico, enquanto a complexidade lógica e lúdica que encontramos em Joyce remete à de Lewis Carrol, inglês também, autor de Alice in Wonderland. Em todos esses casos, as complicações na superfície do texto, os jogos de palavras e os fluxos interligados de consciência criam uma espécie de teia esgarçada de conexões provisórias, que vai se tecendo e destecendo durante a leitura, enquanto juntamos os pontos em busca de que algo mais profundo se apresente, ou então de que uma estrutura nítida enfim se revele. Mas fazemos isso sabendo que pode não haver uma resposta clara e organizada para os enigmas que o texto nos propõe.

E vocês sabem o que mais Virginia Woolf, James Joyce e Lewis Carrol tiveram em comum? Os três eram aquarianos. Daí já podemos deduzir que: pode não haver uma resposta clara e organizada para os enigmas que Aquário nos propõe. Mas não custa nada especular a respeito. Às vezes me pergunto, por exemplo, se existe de algo de substancial por trás da imensa sofisticação estilística de Ulisses ou Finnegans Wake (ambos romances de Joyce), ou se tudo não passa de um jogo complicado e feito para confundir e perplexar a nossa mente. Algo semelhante acontece naquelas charadas com que Alice se depara em sua aventura no país das maravilhas, que às vezes parecem remeter aos grandes mistérios do universo, mas talvez sejam apenas brincadeiras interessantíssimas e ordinárias, sem outra função que não seja a de fornecer um passatempo intelectual com ares de segredo cósmico coberto por um véu matemático.

Ou seja: Aquário parece nos induzir a altas suposições sobre aquilo que enuncia, mas isso pede sempre a gente tenha certo cuidado em discernir o realmente complexo do meramente complicado. Ambos podem coexistir no mesmo arquétipo. A inovação científica é arquetipicamente aquariana, porque é em Aquário que se aloja o mito de Prometeu, que entregou aos humanos a luz e as técnicas para fazer o fogo; mas as complicações usuais da linguagem dos cientistas são com frequência apenas uma exigência da especialização, e não um indício de que algo de oculto está em jogo, como é o caso na maior parte das utilíssimas e também aquarianas pesquisas realizadas com fins práticos imediatos de inovação e melhorias na sociedade. Por outro lado, os escritores aquarianos que selecionei talvez não tenham sido contemporâneos dos primeiros teóricos da física quântica por acaso. Então, acho sim que, tanto no caso do modernismo inglês quanto no da astrofísica contemporânea e adjacências, as complexidades da linguagem remetem a verdadeiros mistérios da existência.  

A ideia de emaranhamento, portanto, não me parece ser meramente complicada de entender; ela é realmente complexa, na medida em que desafia os padrões usuais de entendimento da realidade com possibilidades totalmente impensadas até outro dia. Poderíamos dizer algo muito semelhante do estilo de Virginia Woolf; suas sinuosidades e piruetas não acontecem só para nos confundir e deslumbrar; existe algo de diferente mesmo acontecendo ali. Em seus romances, fatos distantes no tempo e no espaço relacionam-se como as partículas emaranhadas de nosso universo em expansão. A questão, mais uma vez, é saber se será possível desemaranhar o universo e o texto, isto é, se conseguiremos um dia chegar a uma solução para o mistério que ambos propõem, como quem interpreta uma frase difícil e alcança o significado que está por trás de suas sutilezas e meandros.

Acho ainda que, se a gente um dia conseguir realmente entender o que está acontecendo nos romances de Virginia Woolf, a gente vai conseguir entender o que está acontecendo no universo. Mas não vejo muita chance de isso acontecer mesmo. Pois, tanto em um caso como no outro, nós estamos tão envolvidos na história que não temos como observá-la com objetividade; nós participamos da narrativa, estamos emaranhados nela, e as conexões que conseguimos perceber estão sempre condicionadas pelo nosso posicionamento momentâneo em relação a todo o resto. Qualquer semelhança dessa percepção com implicações da Teoria da Relatividade para nossos hábitos epistemológicos não é casual.  Em suma, o estilo de Woolf é daqueles que nos faz submergir em suas palavras, assim como o estilo do universo é daqueles que nos submerge em suas estrelas.  

Quem falou algo de muito interessante a esse respeito dessa nossa posição no cosmos foi o filósofo inglês (e aquariano) Alfred North Whitehead – justamente o pensador ocidental que acompanhou mais de perto os primeiros desdobramentos da Teoria da Relatividade e da Física Quântica, elaborando a partir daí uma obra que encontra muita ressonância entre pensadores orientais também. Para Whitehead, nosso cosmos é um processo criativo que está em curso, e no qual o próprio cosmos está criando a si mesmo; nós participamos dessa criação, mas não a controlamos nem podemos entendê-la completamente. É mais ou menos como se fosse uma narrativa, mas não exatamente um romance, e sim uma série, que se desdobra a partir de uma necessidade interna do enredo, e cujo fim permanece sempre em aberto porque não existe exatamente um autor externo a ela controlando seus desdobramentos (escrevi mais sobre isso no capítulo que fiz para este livro de ensaios; e qualquer semelhança desse raciocínio com a maneira como a astrologia é tratada nesse espaço tampouco é mera coincidência).  

Nada disso – muito menos a astrologia – equivale a uma explicação do cosmos. “Nós vivenciamos muito mais do que podemos analisar, porque vivenciamos o universo”, Whitehead afirmou em Modes of Thought. Algo muito semelhante poderia ser dito dos personagens de Virginia Woolf. Eles vivenciam muito mais do que podem analisar, porque estão sujeitos a um conjunto enormemente complexo de influxos, sensações, pensamentos; suas decisões não podem nunca ser atribuídas a um raciocínio ou intuição em particular, e parecem ser antes decisões de todo o universo do livro do que de um indivíduo em particular. “Mrs. Dalloway disse que ela mesma iria comprar as flores”: já a partir dessa despretensiosa sentença nada parece ser tão simples assim, por mais que ela ironicamente funcione como uma mera enunciação com sujeito-verbo-predicado. Dá até a sensação de que haverá um ponto de partida estável, mas logo em seguida os limites desse sujeito se desfazem, o ponto de vista narrativo muda, e percebemos que ele já estava em movimento desde o começo.

Até mesmo na obra muito mais convencional de Charles Dickens, outro autor inglês e aquariano (essa relação entre o inglesismo e o aquarianismo precisa ser estudada), são os personagens excêntricos que realmente ganham a nossa atenção e carinho, ao mesmo tempo em que desestabilizam as convenções textuais. Dickens é daqueles autores que parecem adotar um modelo narrativo fixo e previsível em linhas gerais, só para poder brincar com ele à vera nos detalhes. O universo de Dickens tem um centro, é verdade, e esse centro é Deus, mas às vezes o texto se distrai tanto com as criaturas desgarradas que povoam as margens desse cosmos, que já dá para imaginá-lo destituído das certezas e seguranças que governam seus finais felizes. Dickens foi um dos últimos autores a conseguir reunir em uma unidade de enredo todos os fragmentos espalhados no universo de portentosos romances como Bleak House; depois dele, ninguém mais segurou o Big Bang da narrativa.

Mas Aquário, no final das contas, de fato não diz respeito a um centro, à concentração de energia ou poder em um só ponto, à ideia da realeza que espontaneamente atrai para si todos os olhares; tudo isso acontece no arquétipo leonino, seu oposto complementar no zodíaco, e muito bem representado pelo regente solar. Enquanto Leão é o Sol, Aquário é o Céu: é esse o significado mitológico de seu regente, Urano, por onde se espalham e se dispersam as energias solares em um amplo sistema de distribuição. Pelo mesmo raciocínio, quando pensamos no corpo humano, Leão governa os assuntos do coração, e o Aquário os do sistema circulatório. E, assim como se associa ao mito prometeico do portador da luz, o signo está naturalmente vinculado também à imagem do “portador da água”, que a leva para quem tem sede, mesmo que isso implique uma viagem aos confins do cosmos – lá onde a água não chega porque os reis leoninos jamais se ocupariam com um movimento tão excêntrico, que os afastassem tanto do palco onde são o centro das atenções.

Com isso acho que dá para voltar enfim à questão do emaranhamento, com uma nova perspectiva. Sim, há nessa ideia algo que causa perplexidade e confusão, assim como acontece no estilo de Virginia Woolf e de James Joyce. Porém, da mesma forma como o universo de Joyce é um chaosmos (tal como Umberto Eco o definiu), no qual as eventuais epifanias sugerem uma presença pulverizada do sagrado no cotidiano, e do mesmo modo como o universo esgarçado de Woolf é feito de ressonâncias e vinculações que se fazem e desfazem a todo tempo na superfície do texto, o entanglement das partículas não deixa nunca de indicar algo dessa unidade que está possivelmente por trás dos fenômenos mais apartados. Dessa forma, o desafio de Aquário é o de dispersar-se em uma complexa rede de relações, que é como um arquipélago cujas ilhas estão conectadas não através do solo subaquático, mas através de invisíveis correntes de ar.

Recentemente, enfim, passei a discutir a leitura de romances de Virginia Woolf com alunos de primeiro período do curso de Letras onde leciono. Minha dica para eles é sempre essa: deixem-se levar, não tentem entender. Pode não haver uma resposta clara e organizada para os enigmas do texto, assim como pode não haver uma resposta clara e organizada para os enigmas do universo. Mas nossa tarefa quando estamos diante de um ou de outro não é necessariamente a de compreender, e pode muito bem ser a de maravilhar-nos, confundir-nos, emaranhar-nos, desde que isso também seja uma forma de encontrarmos pontos de contato entre nós no meio a essa confusão toda. Assim, quem sabe, participaremos do texto como participamos do cosmos, não como sujeitos estranhos a ele e que buscam dominá-lo pelo entendimento, mas como mentes que surgiram de suas partículas e nunca deixaram de estar conectadas entre si e com todo o espaço ao redor.