astros

Prepare seu coração

Uma vez um amigo me disse que o mais desesperador de discutir assuntos filosóficos comigo era que, se me pediam para definir um conceito, eu respondia descrevendo a cena de um filme. Nunca perdi essa mania de me expressar por metáforas; só perdi as esperanças de conseguir elaborar sínteses objetivas e transparentes. Daí meu interesse por linguagens simbólicas, como a astrologia, por exemplo: porque aí estamos tratando de signos que por definição escapam à mortificante ação dos verbetes enciclopédicos, convidando sempre ao acréscimo de novas camadas de significado, sem nunca alcançar a pretensa estabilidade das linguagens conceituais.

Estive pensando nisso por causa da temporada que se aproxima de Vênus em retrogradação. Pois, por mais que eu pense em uma definição possível desse trânsito, só me ocorre a possibilidade descrevê-lo com canções. Tudo bem que (ao menos em parte) esse recurso se deve à preguiça do blogueiro na hora de redigir um texto de antemão fadado ao insucesso, fato que de resto não deveria legitimar a preguiça, uma vez que todos os textos dedicados à compreensão desses assuntos estão em alguma medida destinados ao fracasso. A verdade é que, por um lado, nós nunca chegamos a nenhuma conclusão satisfatória nesses casos; por outro, isso nunca nos impediu de tentar.

Mas, no caso de Vênus, o discurso em prosa me parece particularmente inepto para tratar de suas nuances e sutilezas. No caso de Vênus retrógrada, então, é enorme o risco dessa prosa assumir um aspecto errático e desajeitado, mimetizando o que há de desencontrado no próprio símbolo, e fazendo um esforço tolo para tentar dizer algo que está mais que satisfatoriamente expresso em dois ou três versos populares. Por isso, para tentar escrever sobre o tema – que será predominante no céu até o fim de janeiro de 2022 –, acabei montando uma playlist dedicada à deusa em seu momento retrô. Duas ou três canções da lista fazem referência aos afetos nostálgicos que podem emergir dessa configuração, mas as outras parecem tratar de algo ao mesmo tempo mais básico e mais complicado.

Como as faixas foram selecionadas um tanto intuitivamente, para mim mesmo faz sentido agora recorrer a elas para entender algo a mais sobre do que estamos falando quando falamos em Vênus Rx. Uma recorrência é o tema da traição, mas o que está em jogo não é a traição em si mesma, e sim os sentimentos ambíguos e intrincados que antecedem e sobretudo se seguem ao fato, incluindo as imensas complicações do manejo de uma relação que se pretende manter após o leite derramado. Vênus retrógrada lança luz sobre o que há de mais complexo nos relacionamentos, e, com alguma frequência, isso se reverte ou se expressa na participação de uma terceira pessoa. O caso novelesco nem precisa ser recente para ganhar atenções nesse tipo de trânsito; há um sabor de “vale a pena ver de novo” na história, ou então um eco de pontas soltas do passado.

Outra constante é o tema dos términos e separações. Às vezes, ele se articula com a atmosfera lamentosa em que surge a vaga noção de que as coisas poderiam ter assumido outro rumo, não fosse aquela palavra fora de hora, aquele gesto fora de contexto, aquela faca fora do lugar. Às vezes, a tudo isso se soma o desejo e até mesmo a ação no sentido de recuperar o que foi perdido, e ao tema do término se soma o do reencontro, talvez para uma despedida mais apropriada, para uma separação mais definitiva, uma estocada mais contundente. O fato é que Vênus retrógrada pode literalmente dar longos passos em direção ao passado – sobretudo em algum aspecto do a lua, sobretudo se tiver relação com Câncer – para tentar restituir os laços desfeitos. Se vai conseguir é outra história, e pode ser que ela acabe dando uma volta a mais no parafuso dos corações solitários, mas ela precisa tentar.

Por outro lado, existe também a percepção de que o que está quebrado não tem mais conserto. Ela pode tanto surgir da voz transtornada de quem recapitula a cena da injúria (“Uns dias”), do fastio de quem estava carregando o piano da relação e não está dando conta mais do peso (“It’s not you, it’s me”), do reconhecimento tranquilo de que simplesmente já não há o que possa ser feito (“Don´t think twice, it’s alright”), ou mesmo da declaração peremptória de que eu não tenho conserto (“You know I’m no good”). Quando Vênus estaciona no céu, sobretudo, nos momentos que antecedem e sucedem a volta (e em particular nessa conjunção com Plutão de agora), é possível lançar um longo e penetrante olhar para aquilo que parece capenga, ou defeituoso, ou destruído, em um relacionamento. Se há alguma chance de restauro, ela vai aparecer aí. Se não, a possibilidade de passar o pano e seguir adiante cede diante da própria profundidade da fissura, e a verdade aparece, doa a quem doer.

Percebe-se, ainda, que no conjunto das canções há um componente de tristeza e um componente de malícia, um traço de luxúria e boas doses de carência, uma força de atração e inclinações ao distanciamento, decisões irrevogáveis e as mais hesitantes súplicas. Não saberia explicar direito como esses fatores se articulam em torno de um só trânsito e um só símbolo, mas acho que as canções conseguem, e elas estão aí para isso. Vênus, de saída, já proporciona a convivência diplomática entre opostos, ou certo equilíbrio na balança dos paradoxos com que todos nós precisamos conviver – então não é de se estranhar que, quando sua manifestação se torna mais perceptível, essa capacidade se mostre mais aguda. Embora isso aconteça também nos instantes em que ela surge através de uma falha, de um erro, de um imprevisto – o que é sempre uma oportunidade para renovar seus dons por meio de um improviso certeiro.

Enfim, se me pedirem para explicar Vênus retrógrada, eu acho que recorreria também a um romance. Seria o Passagem para a Índia do britânico E. M. Forster, especialmente através da leitura que Kenneth Burke fez do livro em um ensaio intitulado “Social Comedy and Cosmic Mistery”. Para o crítico, nas falhas de comunicação que atravessam a trama, e também nos equívocos que atravessam todas as relações do romance, se revela a possibilidade de que algo mais – um mistério – possa estar por atrás de toda a parafernália dos códigos e ritos que povoam sua superfície, e são frequentemente desrespeitados, por falta de tato ou de atenção com os sentimentos em jogo. Mas esse mistério requer esses erros para aparecer, e os improvisos que são capazes de revertê-los não existiriam de outro modo, ou seja: o gesto retificador carregado de verdadeiro afeto depende de alguma forma de rompimento para fazer valer sua força e sua sempre inédita vitalidade.

Essa é a mensagem que tenho para todo mundo que vai meter os pés pelas mãos nos relacionamentos durante os próximos dois meses mais ou menos. Lembrem-se de que poucas coisas nesse mundo são ao mesmo tempo tão sagradas e tão profanas quanto o amor – aliás, não conheço nada que seja capaz de acolher expressões tão extremas de opostos eventualmente inconciliáveis. Deve ser por isso que nos permitimos ser tão ridículos em nossas paixões, deve ser por isso que as cartas de amor são inerentemente patéticas – porque está garantido que neste movimento elas serão, igualmente, o exato oposto. Talvez no fundo a gente sinta até que essa relação é inversamente proporcional, e que, quanto mais risíveis forem as paixões, quanto mais abobalhadas forem as cartas, mais elas terão de mistério cósmico e profundidade ontológica. Mas eu não sei expressar essa ambivalência sem recair numa linguagem truncada, que mutuamente exclui esses vetores, o do mais terreno e o do mais elevado. Quem sabe fazer isso é Bruno & Marrone.

Enfim, se nossos relacionamentos são o ponto onde o cósmico e o mundano mais claramente se encontram, às vezes essas duas coisas virão juntas, mas com frequência serão também separadas para que a gente perceba sua interdependência. Existe algo de infinitamente engraçado nessa dinâmica, onde a solidão carente de um indivíduo adormecido no banco da praça é também uma ameaça de esgarçamento a todo o tecido do universo; e existe algo de sublime também, pois aí está a chance de sua reconstituição. Mas só mesmo um bom refrão é capaz de expressar a capacidade venusiana de sintetizar contraposições, porque um bom refrão é sempre falta e preenchimento, convicção e dúvida, esperança e lamento. Preparem-se para viver tudo isso ao mesmo tempo nas próximas semanas. E façam suas playlists. A minha está aqui.

Serviços

Atendimentos astrológicos – agenda aberta

Estou agendando atendimentos astrológicos online para o fim de 2021 e início de 2022. As sessões costumam durar cerca de 90 minutos e são dedicadas à leitura do mapa natal do/a consulente (incluindo trânsitos e progressões). Brinco muito com a astrologia nos textos do blog, mas levo esse outro serviço bastante a sério, pois ele me permite compartilhar um sentimento de feliz perplexidade diante das sincronias entre nossas vidas e os movimentos dos astros, o que ajuda bastante na navegação de momentos difíceis, reforça a convicção para aproveitarmos condições favoráveis e estimula o desenvolvimento de potencialidades latentes. Quem já fez uma boa leitura e de seus trânsitos sabe: ao nos reconhecermos na representação que o cosmos oferece para tanta coisa que parece aleatória e arbitrária, tem uma chavinha que vira dentro de nós. Ganhamos então toda uma nova linguagem para narrar episódios passados, presentes e futuros, e identificamos símbolos que se adequam maravilhosamente à descrição de nossos traços de comportamento. Minha linha de trabalho se baseia na astrologia moderna, mas recorro a todas as técnicas que já se mostraram efetivas na minha prática, e tento encaminhar a leitura ou consulta de acordo com os interesses e preocupações de quem me procurou. Vou deixar aqui embaixo uma listinha de postagens em que falo algo a mais sobre assuntos que eventualmente surgem nas leituras, embora elas seja sempre muito individualizadas. Agendamento pelo gnavesfranco@gmail.com ou via DM no @gusnaves. Custo de R$300.


Mercúrio e os símbolos (sobre o uso dos símbolos astrológicos na construção de narrativas pessoais)

O Sol e a Sombra (sobre o signo solar)

O ascendente (sobre o papel do ascendente na compreensão do mapa natal)

A viola e o arpão (sobre os nodos lunares no mapa natal)

O retorno de Saturno (sobre um importante trânsito regular que acontece por volta dos 29 anos)

A quadratura de Plutão (sobre um importante trânsito regular que acontece por volta dos 38 anos)

A época das transformações (sobre os trânsitos regulares que ocorrem entre os 36 e 44 anos)


Imagem: Saturno, de Margaret Nazon

arquétipos, livros

A Vida Simbólica na Literatura Contemporânea

Aos navegantes: estão disponíveis agora no Youtube as aulas que dei no curso “A Vida Simbólica na Literatura Contemporânea”, propondo um percurso de leitura da obra do médico e psicólogo suíço Carl Gustav Jung a partir da questão do simbólico e de sua expressão em textos ficcionais contemporâneos, com destaque para as obras de Alice Munro, Cormac McCarthy, Dennis Lehane, Elena Ferrante, Jhumpa Lahiri, Margaret Atwood, Olga Tokárczuk e Ted Chiang. Tratamos de um romance a cada aula, com exceção da primeira, dedicada à concepção junguiana do inconsciente e ao papel dos símbolos em sua teoria dos arquétipos. Falamos muito de sonhos, mitos, contos de fadas, tarô, astrologia, e aproveitamos para percorrer também alguns ensaios de teóricos da psicologia analítica ou arquetípica (Maria-Louise Von Franz, James Hillman, Patricia Berry, Murray Stein). Para mim foi uma ótima experiência, pois me fez dar voz a alguns estudos que vinha acumulando sem saber muito bem o que fazer com eles até que descobri – que era pra dar esse curso. Estive na companhia de uma turma que me deixou muito à vontade e permitiu que as inseguranças do início dessem espaço à eventual digressão despropositada (“ih gente sobre o que é que eu estava falando mesmo?”), além dos já esperados chistes sobre os signos das pessoas, que sem esse recurso pedagógico nem sei dar aula mais. A playlist com as nove aulas está no link abaixo.

astros

Como sobreviver a Mercúrio Retrógrado

Sabe-se que Mercúrio Retrógrado tem entre suas funções fazer a gente se lembrar de algo que a gente esqueceu. Sabe-se também que Mercúrio Retrógrado tem a ver com imprevistos e falhas de planejamento. Pois bem: é só juntar as duas coisas para concluir que Mercúrio Retrógrado está aí para nos lembrar da imprevisibilidade da vida, da qual a gente meio que se esquece sempre que faz nossos planos e previsões, enquanto, como igualmente se sabe, Hermes ri. E um dos sinais mais claros de como a gente tenta domar esse lado meio imponderável da coisa toda é, bem – toda essa atenção que volta e meia ganham as artimanhas de Mercúrio Retrógrado.

Por um lado, parece bom que esta força traquinas da natureza esteja retomando seus direitos e a reverência que merece através da circulação de informações astrológicas. Por outro, é cada vez mais comum vermos por aí manuais sobre como sobreviver a uma temporada de Mercúrio Retrógrado, com dicas tais como “evite assinar contratos”, “mantenha a calma e siga adiante”, ou “não esqueça de fazer o backup e de revisar o carburador”. O curioso disso é que se refaz um caminho comum a todo tipo de linguagem simbólica ou religiosa no ocidente: a um momento de verdadeiro respeito pela força do mito e do inconsciente, segue-se a transformação de suas imagens em alegorias, com seus respectivos ensinamentos de códigos de conduta.

Aconteceu com Jesus Cristo, uma força disruptiva e pisciana que mais confundiu do que esclareceu com suas parábolas e gestos ambivalentes, e acabou dogmatizada pela instituição que em tese falava em seu nome; aconteceu com as divindades pagãs absorvidas no sincretismo popular medieval, depois convertidas nas figuras alegóricas das peças didáticas conhecidas como “moralidades”, povoadas por personagens como a Justiça, a Pureza e a Parcimônia; e acontece hoje no comércio dos arcanos do tarô, com seus breves manuais explicativos, em que o Hierofante se reduz a palavras-chave como Casamento e Sabedoria, sem que esteja nada claro o que o Casamento tem a ver com Sabedoria e vice-versa (com tantos argumentos válidos em contrário).  

Aconteceu com os sonhos também. Freud e Jung captaram a vida própria das imagens oníricas e seu poder de questionar todas as nossas convicções conscientes; depois, vieram os dicionários de imagens e símbolos psíquicos para garantir à consciência que nem tudo está fora do controle, que um objeto longilíneo representa o falo e uma voz feminina representa a anima, então podemos dormir tranquilos, pois nenhum súcubo não catalogado virá nos visitar no meio da noite. De modo que a história da psique aparece como uma história da retomada de controle territorial do ego sobre os significados de significantes que ele não produz, mas dos quais toma conta assim que assumem o aspecto de uma ameaça: e assim chegamos às previsões sobre o imprevisível e impagável Mercúrio Retrógrado.

Acontece que a astrologia não é uma ciência explicativa do comportamento dos astros; é antes um espaço de escuta do que eles têm a dizer, o que presume que eles sempre terão algo novo a dizer, e não que repetem a mesma ladainha de três em três meses. Saber que Mercúrio está ou estará retrógrado ajuda, é claro, mas ajuda sobretudo se você souber entender que assim estão criadas as condições para que ele te surpreenda, e que, portanto, de nada vai adiantar se você não esquecer de fazer o backup dos arquivos nem de revisar o carburador, mas permanecer surdo para as mensagens que estão chegando através de outros utensílios até então silenciosos.  

Mercúrio rege a linguagem, afinal, então faz sentido que seus movimentos mais irreverentes causem pequenos curtos-circuitos na maneira como costumamos manejar signos e símbolos. Mercúrio Retrógrado torna-se assim uma pequena Saturnália, um carnaval em versão de bolso, quando as classificações usuais mostram suas insuficiências e as checklists da semana se revelam comicamente incapazes de dar conta de suas emergências.  “Espere o inesperado” parece ser a única dica em última instância apropriada para este movimento – mas mesmo ela pode acabar tendo o mesmo destino das outras. Chega uma hora em que de tanto ouvir as mesmas frases e recomendações elas perdem o sentido para nós, e então o que precisamos não é de mais frases feitas, e sim de um renovado respeito pelas potências desconhecidas que nossa linguagem nunca conseguirá delimitar.

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Sob o signo da distração

Talvez você não saiba, mas os doze trabalhos de Hércules podem ser associados aos doze signos do zodíaco. Eu mesmo só descobri isso agora, quando tinha coisa mais importante para fazer e inventei de ficar fuçando a internet ao invés disso. Áries, por exemplo, é associado à lição aprendida durante a captura das éguas furiosas de Diomedes: após reunir algumas delas, e na pressa para terminar logo o trabalho, o herói deixa as éguas capturadas aos cuidados do amigo Abderis, que nem de longe tem as mesmas qualidades hercúleas, e acaba devorado impiedosamente. Hércules não chega a se abalar muito com o episódio, mas está claro que o trabalho não é um completo sucesso. Nota mental para arianes: não deixar bestas famintas aos cuidados do amigo.

Mas a história que realmente chamou minha atenção e me fez parar para contar o caso foi a de Gêmeos. Trata-se do trabalho em que Hércules precisa colher umas tais famosas maçãs de ouro das Hespérides. Não me perguntem o que é Hespéride, porque não faço ideia, e pra mim já deu de catar conhecimentos aleatórios por hoje; o fato é que, comparado às demais tarefas, essa parece bem mais fácil, a tal ponto de Hércules (de hábito eficaz e intransigente em seus esforços) acaba parando no caminho, voltando-se para as distrações que aparecem. Numa dessas, ele encontra Atlas, que já não aguenta mais segurar o mundo nas costas e lhe pede uma forcinha. Hércules presta socorro, e no final das contas é Atlas que vai colher as maçãs para ele, num trabalho que se revela mais complicado do que ele tinha previsto. Sozinho ele não teria conseguido.

Moral da história: a procrastinação compensa. Se você tem algo de importante para fazer pela frente, pode ser fundamental que você se deixe distrair com outros assuntos, para descobrir – ainda que sem querer – os instrumentos e informações necessárias à realização do trabalho. Notem, aliás, que Gêmeos é o signo oposto complementar de Sagitário (a flecha que vai direto ao ponto), e vive meio que arquetipicamente às turras com Capricórnio (que quer ver as coisas todas feitas de uma vez). Porém – e isso vale especialmente para capricorninianes – a procrastinação é uma arte, e, como tal, deve ser praticada por amor e com autêntico desinteresse. Não vale adiar as tarefas e ficar procurando aqui e ali as distrações que serão mais úteis; só aquelas praticadas com genuína negligência pelos resultados serão recompensadas.

Tem também o fato, é claro, de que, se você parou para ajudar o amigo, aumentam as chances de retribuição. Mas, se não me engano – e, em se tratando de Gêmeos, aumentam as possibilidades –, o Hércules da lenda parou para ver o que estava acontecendo e saiu do seu caminho mais por curiosidade mesmo. Foi isso que teve efeito, e não a disposição piedosa, o cuidado solidário, a preocupação com o destino do mundo. Existe um valor intrínseco na dispersão, um atributo característico da multiplicação de objetivos secundários, assim como  existe uma virtude própria em todas essas abas abertas no navegador da internet. Como diz a canção: navegar é preciso, viver nem é.

Portanto, se você parou o que estava fazendo para ler esse texto, isso não quer dizer que o universo vai te recompensar com uma ajudinha a mais nos serviços que deixou para depois. Mas quer dizer, sim, que você está exercendo uma qualidade humana cuja importância não podemos quantificar. Vai saber: quem garante que Hamlet não teria sido poupado daquela desgraça toda se tivesse adiado só um pouquinho mais sua vingança, descobrindo que Fortimbrás estava com suas tropas às portas no reino da Dinamarca? E Romeu e Julieta, então – não é certo que um pouquinho menos de foco naquele negócio de se matar poderia ter encaminhado a história para outro desfecho?

Mas reconheçamos que, com isso, a humanidade teria sido privada de algumas de suas mais belas tragédias. E, se entendemos que Gêmeos poderia evitá-las, é porque Gêmeos, de fato, não é um signo trágico. Mas isso não quer dizer que não seja épico. Vale lembrar algo que o crítico literário Georg Lukács afirmou sobre os heróis das epopeias: para eles, o problema não é decidir o quê fazer, mas descobrir se terão força, coragem e habilidades necessárias para realizar suas tarefas. De modo que podemos agora acrescentar: se terão as capacidades hesitantes, o caráter meio desatento, o gosto pela cultura inútil e a inclinação a dar trela para distrações no meio da tarde que só os grandes heróis possuem nos momentos decisivos. Na hora H, é válido dar aquela olhadinha nas redes sociais ao invés de enfrentar o próximo serviço que temos pela frente. No que se refere aos doze trabalhos de Hércules, pelo menos, podemos afirmar com somente contando com essas virtudes eles vieram a ser concluídos.

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Todas as histórias do mundo

O Tempo e a Raposa Girando a Roda da Fortuna (c. 1526) | Albrecht Dürer

Uma vez eu fiz uma viagem acreditando que era para nunca mais voltar. Estava com vinte e poucos anos, andava me sentindo estagnado e sem perspectivas na vida; um amigo vinha dando boas notícias de oportunidades de trabalho na Espanha, e consegui o dinheiro da passagem, mais alguma coisa para me manter no começo. A ideia era entrar em contato com conhecidos que moravam em Barcelona e eventualmente me estabelecer por lá mesmo, embora todas as possibilidades estivessem em aberto. Menos a de retornar ao Brasil; eu não havia me despedido de praticamente ninguém, é verdade, mas sentia que esse silêncio deliberado só reforçava minhas intenções; Capricórnio, claro, e com ascendente em Escorpião, como se não bastasse.

O detalhe é que o amigo que ia me receber em seu apartamento acabou tendo que voltar a Belo Horizonte, por causa de um imprevisto. Foi assim que fui parar em um albergue onde convivia sobretudo com latino-americanos em busca de trabalho no país. Evitei os hostals de mochileiros porque pretendia gastar menos, e porque não estava no clima de festa que ia encontrar neles. Durante dias, dividi um quarto de quatro camas apenas com um rapaz da Andaluzia (sul da Espanha), chamado Max, que estava também procurando um emprego em Barcelona.

O problema aí era que ele já vinha perdendo as esperanças de conseguir trabalho, e parecia cada vez mais transtornado com a situação.  Por isso, as noites naquele quarto eram muito ruins: eram agitadas, tensas, barulhentas, apesar da ocupação apenas parcial. Max era franzino, mas irritadiço, e dispersava muita energia no ambiente, com gestos curtos e nervosos, que nunca pareciam completar a ação que começavam. Às vezes ele saía do quarto no meio da madrugada, como que por um impulso ou uma urgência, e depois voltava aparentando uma saciedade somente provisória. Estava implícito em seu semblante que um novo impulso surgiria em breve, e que ele precisaria sair novamente.

Max estava viciado em crack. Em determinado momento, passou a usar no quarto mesmo, durante a noite. De dia, às vezes, ainda era possível conversar com ele sobre oportunidades de trabalho, sobre as garotas de Barcelona, sobre os gols do Ronaldinho Gaúcho, mas aos poucos aquelas trocas se tornavam meras concessões que ele fazia a uma existência cotidiana já quase esquecida, quase dispensável entre uma pedra e outra. Sua personalidade e sua psique eram territórios cada mais ocupados pela droga e sua devastação. Aqui e ali, vegetações esparsas ainda resistiam, porém sem esperanças de sobreviver por muito tempo.

Isso é o que eu digo agora, claro. Na época, durante aquele par de semanas em que convivemos, eu mesmo estava cansado e transtornado demais para ter uma visão de conjunto do problema. Não sabia o que fazer para ajudá-lo e não sabia o que fazer para ajudar a mim mesmo. Tinha perdido a noção dos motivos que me fizeram estar ali, naquele quarto, naquela cidade, naquele país, e tampouco conseguia reunir forças para ir embora. Algo viscoso parecia me prender, e eu não tinha amigos por perto para me ajudar.

Só viria tomar uma decisão diante de um episódio tão tenso que, frágil como eu estava, não me sobrou alternativa a não ser uma saída covarde (pelo menos é o que eu digo para mim hoje). Na noite em que as outras camas foram ocupadas por dois jovens equatorianos, quietos e simpáticos, Max teve um surto de xingamentos xenófobos, acusando-os de serem os responsáveis por ele não conseguir emprego em Barcelona. Na sequência, ele começou a ter espasmos semelhantes aos de um ataque epiléptico, e foi socorrido por uma garota que surgiu no quarto. Eu não consegui ajudá-lo, nem oferecer auxílio para os equatorianos aterrorizados. Literalmente fugi do albergue, sem saber para onde ir.

Vaguei pela cidade noite adentro, deprimido, me achando o indivíduo mais estúpido do mundo. Minhas pretensões de autossuficiência e meu obstinado desprendimento agora me pareciam apenas a expressão de um caráter deficiente. Com o propósito de conhecer o mundo, eu o havia abandonado, e não podia reclamar agora de estar sozinho numa terra estranha, exausto, com medo e sem lugar para passar a noite. Eu podia procurar outro albergue, é claro, mas já estava tarde e não fazia mais sentido gastar o dinheiro de uma diária inteira. Fui para uma estação de trem. Como havia sido idiota, aliás, a ideia de evitar os albergues de mochileiros para buscar paz e silêncio.

Nisso me lembrei de um grupo de ingleses com quem tivera os poucos minutos de diversão que me ocorreram até ali na viagem. Eles haviam ido para Amsterdam, e inclusive deixaram comigo o nome do albergue onde iam se hospedar. Decidi ir encontrá-los lá, o que era uma atitude ao mesmo tempo normal e esquisita. Tudo que a gente faz nessa época da vida é ao mesmo tempo normal e esquisito. No meu caso, hoje acho particularmente estranha a inclinação que eu tinha para viajar sozinho, fazendo amizades em pousadas e botequins, e decidindo meu itinerário de acordo com sugestões e oportunidades que iam aparecendo. Não era a primeira vez que eu fazia aquilo; mas seria a última.

Nunca encontrei os ingleses mochileiros e beberrões no albergue holandês. Mas, já na entrada, conheci duas meninas brasileiras que vinham tendo problemas com a calefação do quarto. Elas eram do Rio de Janeiro, já tinham passado um tempo em Paris, e iriam para a Espanha depois. Uma delas me perguntou se era verdade que mineiro bebe muito, e eu disse que não, a verdade é que mineiro passa muito tempo bebendo e conversando, mas a quantidade de bebida no final das contas nem é tanta. Ela buscou uma cerveja para a gente ficar bebendo e conversando.

Continuamos conversando até tarde da noite. Na manhã seguinte, continuamos conversando. E nos dias que vieram depois. Fomos para a Espanha juntos. Acabei voltando para o Brasil, acabei me mudando para o Rio: tudo o que eu queria na vida era continuar conversando com ela. Ficamos casados por cerca de oito anos. Temos um filho, capricorniano com ascendente em Gêmeos, que está com dezenove anos. Quase a idade de quando eu fiz uma viagem achando que era para nunca mais voltar.


Watch out / for a simple twist of fate, diz a canção de Bob Dylan que eu estava escutando agora há pouco. Estive assistindo também uma série irlandesa chamada Normal People. Trata do relacionamento de dois jovens entre o fim do ensino médio em sua cidade no interior e o início da vida universitária em Dublin. Dito assim parece até um recorte breve, para uma série tão atravessada por transformações na vida e na personalidade dos protagonistas, e em certo sentido é mesmo – no total não devem ser passar dois anos entre o início e o fim da primeira temporada. Mas é mesmo impressionante a quantidade de coisas que acontecem nessa época: a intensidade das mudanças, o inesperado das reviravoltas. Não dá tempo nem de respirar.

Acho que foi por isso que me lembrei ontem da minha viagem para a Espanha. Outra coisa que chama a atenção – na série como na vida – é, além da sucessão de situações emocionalmente tensas e dilacerantes que vivenciamos nessa parte da juventude, a maneira como nós parecemos procurar essas situações, de modo aparentemente inadvertido, mas talvez guiados por uma necessidade que só nossos mais silenciosos instintos conhecem. Não é simplesmente inexperiência, não é apenas ingenuidade: talvez exista uma inteligência própria no modo como nos colocamos nas piores encrencas, e que nos leva a fazer as maiores tolices, talvez porque encrencas e tolices são muitas vezes o caminho mais rápido entre o ponto A e o ponto B. E nessa época da vida é preciso ir rápido do ponto A para o ponto B. Não dá para esperar dez anos de terapia.

O curioso é que, olhando de fora, os movimentos da juventude talvez pareçam até mais aleatórios do que os de qualquer outra parte da vida. Com certeza são mais impensados: às vezes a gente se mete em certos buracos por mera curiosidade, e consegue sair deles (quando consegue) só para encontrar outras armadilhas logo à frente. Em retrospecto, portanto, dá para supor que a alma jovem vai em direção a essas armadilhas porque elas fazem parte de uma história que está construindo, e que precisa delas em seu roteiro. Em retrospecto. Durante o turbilhão dos acontecimentos, tudo pode parecer meio sem sentido mesmo.

Aprendi recentemente que os arcanos do tarô expressam essa aparente aleatoriedade das mudanças na carta da Roda da Fortuna. Ela simplesmente indica uma mudança de rumo súbita: o que está em cima estará em baixo, e vice-versa. Eis que a roda gira (e gira rápido) quando temos dezoito, dezenove anos. Numa semana você não sabe o que quer fazer da vida; na outra, começou a faculdade e encontrou a carreira dos seus sonhos; na seguinte, percebe que não há vagas na carreira dos seus sonhos. Talvez seja esse o caminho para você descobrir o que realmente quer fazer da vida, e cada volta dessa roda seja um pequeno ajuste numa composição cujo conjunto só será visto mais para frente. Mas a gente fica zonzo só de pensar.

Na mitologia grega, a roda é representada como o tear das filhas da Nyx, a deusa da Noite. Elas representam as três fases da Lua, e, portanto, os altos e baixos das marés. Outra filha da noite é Nêmesis, que distribui os destinos, e teoricamente garante certo equilíbrio nessa distribuição – embora possa parecer muito pouco claro quais são os critérios que ela usa, tanto no que se refere às variações da fortuna no decurso de uma existência, quanto na maneira como sortes e revezes são distribuídos entre os humanos. Quando penso em Max, por exemplo, fica muito difícil entender quais são os critérios.

Mas “critério” é uma palavra muito logocêntrica para tratar daquilo que está por trás das maquinações da roda, aquilo que se põe em movimento na mais profunda escuridão da noite. Moira, o destino, governa as províncias do insondável, e, mesmo que nos fosse concedida uma audiência, descobriríamos estar diante de uma senhora que não vê a menor necessidade de expor seus motivos. Nossa razão é insuficiente, e, para dar conta de suas limitações, temos símbolos cujo significado está além do âmbito do racional. A Roda da Fortuna é um deles, e qualquer tentativa de desvendar seus padrões será, na melhor das hipóteses, sujeita a um silencioso escárnio.

Ou, talvez, e mais exatamente: indiferença. As criaturas envolvidas no funcionamento da roda podem muito bem ser entidades burocráticas, que já viram de tudo, inclusive todas as teorias que já inventamos a seu respeito. E elas sabem que nenhuma hipótese dá conta do aspecto meramente mecânico do seu trabalho, do atendimento a índices de produtividade que é delas exigido, porque a proliferação de destinos humanos não para de aumentar – e elas não param de ter que inventar novas histórias e reviravoltas, novos roteiros com twists carpados triplos, que sejam ao mesmo tempo minimamente verossímeis, para um público cada vez mais desconfiado das convenções do gênero.


Por outro lado, e para terminar: assim como os arquétipos zodiacais, os arcanos têm a maravilhosa qualidade de permitirem uma constante amplificação de seus sentidos através da acumulação de imagens, narrativas e ideias relacionadas, sem sacrifício do poder de síntese de suas ideias centrais. A pesquisadora Yoshi Yoshitani, por exemplo, associa a Roda da Fortuna à figura de Anansi, um trickster da mitologia ganesa, apresentado sob a forma de uma aranha e que faz e desfaz encrencas para se divertir e passar o tempo, até que um dia se rebela contra o Senhor do Céu e sua mania de guardar Todas as Histórias do Mundo para si.

Anansi desafia o Senhor do Céu a uma contenda da qual acaba saindo vencedora, e se torna ela própria a Senhora de Todas as Histórias. O mito parece de fato adequado à Roda, e acrescenta a ela um componente significativo. Yoshitani nos faz lembrar que o que é tecido pela roda são todas as histórias do mundo, todos os destinos possíveis, e assim não surpreende que seja impossível reconhecer um padrão em suas mudanças. O que ela traz são todas as mudanças – inclusive as mais imprevistas, as mais improváveis, capazes de virar o jogo do dia para a noite.

Em seu conto A Biblioteca de Babel, o escritor argentino Jorge Luis Borges imaginou uma interminável sucessão de prateleiras nas quais estariam todas as narrativas da humanidade, sem nenhuma exceção, posto que estariam naqueles livros todas as combinações possíveis entre as letras do alfabeto. Assim, em meio a ao caos fragmentário e sem sentido de fileiras e fileiras de livros com combinações esdrúxulas e ilegíveis, estaria o caos fragmentário e sem sentido do conjunto de combinações que conseguiríamos ler.  Elas incluiriam a história da vida de cada um de nós, assim como a totalidade de suas variações. A história que contei na primeira parte desse texto está lá, assim como as inúmeras varações dela que podemos imaginar, se cada volta da roda da fortuna tivesse chegado a um ponto um pouquinho diferente. Sim, estão lá todas as histórias, com todas as suas versões. O nome disso vertigem.

Já me perguntei o que teria acontecido se não tivesse aleatoriamente conhecido aqueles ingleses aleatórios que por falta de opção me fizerem pegar aquele trem para Amsterdam que acabou me levando para o resto da minha vida. Pelo menos na Biblioteca de Babel de Borges, essa história está contada; mas para ser sincero, não sei se gostaria de saber o que está escrito nela. Conhecer essa versão da história retiraria da que já conheço sua necessidade intrínseca: a inevitabilidade que, em retrospecto, parece acompanhar a narrativa dos fatos. A não ser que sejam ambas necessárias. A não ser que sejam todas necessárias.

Nesse caso, se a oficina de produção de destinos da Roda da Fortuna funciona madrugada adentro, é porque de lá que saem cada uma dessas histórias. O arcano foi associado ao inesperado e ao surpreendente porque são essas reviravoltas que chamam mais atenção, mas ele é responsável por todas as reviravoltas. Isso explica o que há de aparentemente aleatório e arbitrário em suas deliberações; o fato é que a Roda não delibera, não decide nada; ela simplesmente realiza absolutamente todas as versões da fortuna, indiferente às classificações humanas do bom e do ruim, do desejável e do indesejável, do certo e do errado. Ela é uma força cega de criação de histórias.  

Assim, quando você se depara com a roda na vida, pode saber que a mudança a que ela diz respeito não obedece a nenhuma necessidade de fundo ou padrão ordenador. Ou seja: não pode ser compreendida em termos de carma e nem simplificada por meio da ideia de um eterno retorno. Não é a mesma história que está sendo contada de novo e de novo; são as múltiplas histórias em suas singularidades que precisam acontecer. Mas isso não deixa de ser uma necessidade, e cabe então a cada um de nós vivermos nossas histórias, com suas tramas específicas, épocas intensas, detalhes circunstanciais e momentos decisivos. Só de fazer isso você já está participando do segredo que a roda guarda em suas engrenagens.

Porque “arcano” significa segredo, mistério, enigma. Portanto, se cada carta do tarô é considerada a chave para um mistério nunca totalmente revelado, e sua imagem remete a algo que podemos conhecer de modo apenas provisório e aproximado. Exatamente o que C. G. Jung chamava de símbolo: a melhor enunciação disponível para algo que não sabemos dizer completamente. De modo que algo da Roda da Fortuna ficará por ser dito mesmo que a gente chegue a algum tipo de conclusão especulando sobre seu significado; algo que permita a conciliação entre opostos tão extremos como o aleatório e o necessário, a arbitrariedade e a fatalidade.

Mas prevejo que, se um dia eu tiver a oportunidade de exigir de Deus uma explicação para o caos estapafúrdio que é a vida humana sobre a Terra, vou aceitar como plausível apenas uma possibilidade de resposta. E, se isso acontecer como imagino, descobrirei então que tudo estava explicado desde sempre pela imagem da Roda da Fortuna. Lá do além, lá de onde se supõe que Ele ri quando a gente faz nossos planos para a vida, imagino uma figura talvez menos sarcástica, de um tom mais oscilante entre o entretido e o resignado. Um senhor obediente diante das ordens de Moira, e que me dirá de maneira simples e direta: “Todas as histórias precisam existir”.

Todos os signos

A técnica do escritor em doze signos

Passei uma atividade para meus alunes de Oficina de Produção de Texto na faculdade e acabei fazendo o dever de casa também. O desafio é criar dicas de escrita inspiradas no texto “A Técnica do Escritor em Treze Teses” do Walter Benjamin. Adoro essas sugestões do Benjamin no que elas têm de oscilação entre o geral, o específico e o idiossincrático, ao abordar temas como a qualidade dos materiais da escrita, ruído ambiente, pausas e acelerações, quando passar a limpo um texto, por que virar pelo menos uma noite trabalhando em um projeto é importante. As minhas dicas, é claro, acabaram sendo divididas por signos do zodíaco. Ficou assim:

Áries: cuide com carinho das passagens mais difíceis e delicadas do texto. As outras você pode despachar como quem decepa cabeças no campo de batalha.

Touro: evite deixar o trabalho pesado para as segundas-feiras. Se possível, evite deixar o trabalho leve para as segundas-feiras. Se possível, evite as segundas-feiras.

Gêmeos: perder o amigo para não perder a piada é aceitável, dependendo da piada. Mas cuidado para não ficar sem amigos.

Câncer: desconfie quando você chora lendo o que escreveu. Talvez seja mesmo comovente, mas de preferência faça um teste com leitores capricornianos.

Leão: acolha as críticas com humildade e preste atenção nas deficiências que elas iluminam. Suas qualidades são menos interessantes que seus defeitos.

Virgem: aquele erro de tipografia que saiu na versão impressa do seu texto no jornal dez anos atrás continua lá e nunca será possível consertá-lo. Lide com isso.

Libra: deixe para definir o título no final. Com o trabalho já terminado, fica mais difícil capitular diante da necessidade de uma escolha como esta.

Escorpião: sim, o processo criativo pode ser intenso, sofrido, esmagador, dilacerante. Mas o estilo do seu texto, não.  

Sagitário: se você se sentir léguas à frente do seu público leitor, dê a meia-volta para buscá-lo. Nessa viagem, você é o guia, não um desbravador solitário.

Capricórnio: literatura serve pra quê? Escritor é profissão? De que os escritores vivem? Tente não ficar se fazendo essas perguntas. Se for impossível, escreva um livro com as respostas.  

Aquário: aposte em inovações, mas sempre com uma camada de temperança. Uma convencionalidade bem treinada é o melhor disfarce para o relâmpago da revolução.

Peixes: aceite que no final não vai dar para passar pro papel tudo que você imaginou. E que isso não é desculpa para nem começar.

astros, touro

Botando a Culpa no Signo

É óbvio que a astrologia ajuda e ajuda muito e ajuda muita gente em muita coisa nessa vida, mas por via das dúvidas ainda vou escrever um livro intitulado Botando a Culpa no Signo: um Guia Prático e Rápido para mostrar como e por quê. Agora, astrologia demais às vezes atrapalha, e vou dar um exemplo agorinha mesmo de como isso acontece para vocês. Semanas atrás, eu vinha querendo juntar com mais três casais de amigos na parte aberta da garagem aqui do prédio para cantar os parabéns para o Gabriel, meu filho geminiano e entusiasmado, que aos dois anos de idade praticamente nunca viu esse time de tios do tipo pandêmico mais recluso e cuidadoso; pensei que eu e o Tiago (meu filho capricorniano e gastronômico) podíamos fazer umas comidinhas de festa junina e uma panela de carne cozida que ia ficar de bom tamanho, o importante mesmo era a gente se encontrar. Mas aí fui ver meus trânsitos astrológicos para o dia em que ia acontecer o convescote, e tinha uma quadratura de Urano em Touro em trânsito com minha Ceres em Aquário, sendo que Urano tem a ver com amigos, Ceres tem a ver com comida (para quem quiser saber mais sobre ela tem um texto aqui), quadratura é um aspecto difícil, então Urano em quadratura com Ceres = Situação Difícil Envolvendo Amigos e Comida. Decidi não fazer nada na cozinha para evitar esse desgaste a mais, afinal a vida já anda complicada que chega sem a gente ter uma pilha extra de louça para lavar na segunda-feira. Acontece que marcamos um vinho na pracinha, e depois começou a ventar muito na pracinha, aí viemos aqui para a garagem, depois de mais de ano sem se ver ao vivo, imaginem se alguém queria ir embora. Mas comida? Zero, fora uns queijinhos que depois das sete já não enganavam mais ninguém. Fiquei incomodado, claro, tenho Ceres em Aquário na casa 4, sendo que Aquário é regido por Urano e tem a ver com amigos também, enquanto a casa 4 é literalmente a casa da gente mesmo, então Ceres em Aquário na casa 4 = Um Sujeito Que Gosta de Alimentar os Amigos Quando Eles Vão Na Casa Dele (como se não bastasse, sou mineiro, faço questão). Pois bem. De repente, lá estávamos nós, com conversa animada, vinho sobrando, garagem liberada, mas sem nadinha para comer nem a expectativa de um jantar, quando alguém deu a ideia de que a gente podia pedir uma pizza. Nada mais natural e prático: houve comentários de aprovação, certo clamor de expectativa, íntimas especulações sobre estabelecimentos e sabores, até que todas atenções se voltaram para mim, que na condição de anfitrião deveria referendar o pedido com uma protocolar palavra de estímulo. Acontece que aí eu lembrei que esse negócio de amigos e comida podia muito bem dar ruim nesse dia, e que eu já tinha decidido cancelar todo planejamento anterior com o propósito de evitar esse problema, e imaginei que uma simples pizza encomendada na melhor das intenções podia muito bem vir acompanhada dos transtornos mais imprevistos (a literatura está cheia desses casos), e lembrei também que eu já estava conciliado com a ideia de simplesmente driblar a tal quadratura matando meus amigos de fome, então de um jeito não tão ostensivo, mas não menos desajeitado e certamente não menos convicto que esse, disse algo como NADA DISSO VOCÊS ESTÃO DOIDOS NINGUÉM VAI PEDIR PIZZA AQUI HOJE NÃO. Segue-se certo silêncio constrangido, eles talvez imaginando que eu devo ter lá meus motivos, eu muito convicto que de tinha que barrar aquela iniciativa ensandecida, resultando que todo mundo meio que resolveu pedir sua pizza em separado no caminho de volta para casa, e o encontro foi encerrado logo em seguida em um clima de desânimo e afobamento. Agora vejam bem: acordei hoje sem pilha de louça extra para lavar, sem conta extra na mercearia para pagar, sem desgaste com os vizinhos por causa da ocupação da garagem até mais tarde, porém ao mesmo tempo acordei me sentindo mal e provavelmente muito pior do que se tivesse pilha de louça conta vizinhos e tudo o mais, e sabe por quê? Porque eu me tornei O AMIGO QUE NÂO DEIXOU OS AMIGOS PEDIREM UMA PIZZA, sim, eu fiz isso, e basicamente porque não-sei-o-quê estava fazendo sabe-se-lá-qual-aspecto com o-esse-nunca-ouvi-falar em algum lugar a milhões de quilômetros de nosso planetinha azul. Sim, eu me tornei essa pessoa, e como se não bastasse havia dois taurinos entre os amigos esfomeados, cuja amizade me parece agora perdida para sempre e com justa causa. Então estou escrevendo esse texto em parte para me justificar com eles, explicando, se aceitarem me escutar, que eu posso até ser O MALUCO DOS SIGNOS, e posso ser inclusive O MALUCO QUE FAZ OU DEIXA DE FAZER AS COISAS POR CAUSA DO MAPA ASTRAL, mas que eu não sou nem quero nunca ser O AMIGO QUE NÃO DEIXA AS PESSOAS PEDIREM UMA PIZZA, porque isso é uma coisa horrível e imperdoável e crime de prescrição não prevista no código penal. Estou escrevendo também para me redimir de ter dado um mau exemplo de uso dos saberes astrológicos, porque sempre digo que quando você vê um aspecto difícil no seu mapa a melhor coisa que você tem a fazer a aceitar os impulsos e vontades com que você vai criar condições para a referida encrenca se manifestar (esses impulsos e vontades vão acontecer, acredite, como quando você meio que do nada decide fazer uma refeição para os amigos e servi-la na garagem do seu prédio). Então, se aparece uma oposição de Plutão com sua Vênus e você sente aquela atração inexplicável por uma criatura misteriosa que muito provavelmente vai te colocar em encrenca, vai com cuidado, mas vai sim, porque essas coisas têm o hábito de nos dar uma rasteira pelos flancos quando a você tenta se esquivar delas fingindo que não está nem aí. Eu por exemplo, que fiz o que pude para afugentar os maus espíritos que assombravam a questão dos amigos e comidas ontem, acabei exatamente por isso perdendo para sempre amizades muito estimadas, ao tentar escapar das armadilhas que ameaçavam meu bem-estar dominical. Tudo o que fiz para evitar a catástrofe acabou me enredando mais na armadilha onde acabei me afundando de um jeito ou de outro. Sabem Édipo Rei? Então, mais ou menos por aí, com a diferença que no caso Édipo não se tem notícia na história de amigos taurinos querendo pedir uma pizza, de modo que minha tragédia é muito maior. Mas eu não devia reclamar, porque vivo repetindo que é melhor você viver o sofrimento de uma situação do que viver o sofrimento de tentar evitá-la e não conseguir, sendo que uma situação necessária vai encontrar um jeito de se fazer acontecer (acho que foi o Jung que disse isso, se não disse devia ter dito, é o tipo de coisa que o Jung diria). Então, se eu tivesse feito as comidinhas e a carne cozida talvez tivesse sim me metido em algum tipo de enrascada cansativa e estressante, mas seria agora um ser exausto e estressado com muito mais respeito por mim mesmo. É aquela história, casa de ferreiro espeto de pau, no caso um espetinho nu sem nem uma tira de alcatra ou um pedaço de abobrinha para enganar a fome. Por outro lado, espero que esse texto seja o suficiente para explicar meu comportamento mórbido e errático de ontem, fazendo de um jeito enviesado já agora o que eu disse que ia fazer depois, já que querendo ou não acabei usando o negócio dos signos para mostrar meu arrependimento e pelo menos tentar conquistar de volta a estima perdida. Sigam-me para mais dicas de como colocar a culpa nos astros, aliás estou pensando inclusive em montar um serviço de atendimento particular nessa área, não é pouca coisa o que tenho a oferecer. Fez bobagem? Converse com a gente que temos uma desculpa. Traiu? Só pode ser o ingresso de Marte na sua casa 3. Atraso na entrega no trabalho? Mercúrio retrógrado, professor, aqui o parecer de uma firma especializada. Magoou? Pode deixar que a gente explica.

Proibiu de pedir uma pizza? Eu prometo: trago o amigo taurino de volta em três dias!

aquário, astros, leão

O retorno de Tchekhov

“Se quiser a minha vida, venha e leve-a”. Esta é a frase que Nina faz chegar a Trigórin no terceiro ato de A Gaivota. Trata-se de uma peça do escritor russo Anton Tchekhov, que teve uma importante reestreia em 17 de dezembro de 1898, após uma primeira temporada de pouco êxito em São Petersburgo; de modo que o autor, então morador de uma área rural, ficou feliz em fazer uma viagem curta para ter a oportunidade de assisti-la em sua versão moscovita e mais bem-sucedida. A passagem de Anton pela cidade, no entanto, foi marcada por um outro evento menos comentado dos registros da história literária. No mesmo dia em que assistiu a peça, ele se encontrou, em uma estação de trem, pela última vez, com Lydia Avilova. Anos antes, ela lhe enviara uma mensagem de conteúdo idêntico e por meio parecido ao utilizado por Nina no espetáculo. Agora, eles despediam-se um do outro em uma plataforma enevoada e gélida, enquanto ele via se afastar para sempre aquela que havia sido o grande amor da sua vida.

A cena traz toda a melancolia que podemos esperar do encerramento de uma relação intensa e intermitente, feita de momentos apaixonados e longos intervalos de distanciamento. Segundo o biógrafo David Magarshack, Tchekhov chegou ainda a cogitar que aquela história tivesse um final semelhante ao de “Sobre o amor” (um dos tantos contos que escreveu inspirado, ao menos em parte, por sua relação com Avilova), no qual há um beijo no desfecho. Mas Lydia permanecia casada, e além disso estava acompanhada de dois de seus três filhos na estação de trem. Ela sabia bem que o tempo deles tinha passado, que suas chances de ficarem juntos – se é que existiram – tinham sido desperdiçadas, quando ela se arriscou ao enviar para ele aquela mensagem, por exemplo, e ficou aguardando uma resposta que não veio. Ou seja: um beijo, àquela altura, seria um motivo de embaraço e desgosto, talvez até mesmo um gesto de desespero.

Ainda assim, é um pouco triste imaginá-los renunciando definitivamente às possibilidades que uma sentiram existir para ambos. Tchekhov e Avilova haviam se conhecido dez anos antes, na casa de um irmão do marido dela. Ela faria o seguinte relato sobre essa ocasião, no livro Tchekhov em Minha Vida (ela viria a ser também uma escritora conhecida no âmbito russo): “Como é difícil às vezes explicar ou mesmo perceber o significado de um acontecimento… Na verdade, nada aconteceu. Nós simplesmente olhamos um nos olhos do outro. E, ao mesmo tempo, quantas coisas havia naquele olhar que trocamos! Eu senti como se algo estivesse explodindo dentro de mim, como se um foguete tivesse sido lançado naquele momento, triunfante e cheio de energia. Tenho certeza de que Tchekhov sentia o mesmo, e nós olhamos um para o outro, surpresos e felizes”.

Sim, de fato: como é difícil explicar ou mesmo perceber o significado de um acontecimento. E quantas coisas pode haver em um só olhar. No caso dos dois, quando a gente acompanha os movimentos seguintes, a impressão é de que naquele instante – naquele foguete – em que “nada aconteceu”, já estavam implícitos os dez anos seguintes, em que eles não teriam um segundo de sossego na vida, porque se amavam, porque queriam estar juntos, porque precisavam ficar juntos, e quando, no entanto, não podiam ficar juntos, porque não havia como, não havia onde, não havia com que desculpa, não havia com que dinheiro; só havia o porquê.

É mesmo impossível não pensar nos finais alternativos que essa história poderia ter tido. A obra de Tchekhov, como comentei, está cheia deles. O próprio “A Dama do Cachorrinho”, um dos mais belos e conhecidos contos de todos os tempos, oferece algo nesse sentido, quando os protagonistas, ambos casados com outras pessoas, e ambos apaixonados um pelo outro, após muitos desencontros e hesitações, se veem afinal recusando qualquer outro caminho que não fosse sua parceria, mas ao mesmo tempo não conseguem se desvencilhar das amarras matrimoniais e sociais que lhe estão impostas (pelos costumes, pela moral, pela igreja, pelas circunstâncias financeiras).

“Tornava-se evidente para ambos que o fim ainda estava distante e que o mais difícil e complexo apenas se iniciava”, assim termina o conto. Anton e Lydia provavelmente sentiram isso em algum momento de seu relacionamento, essa solidariedade imiscuída na paixão (“amavam-se como gente próxima e querida, como dois termos amigos, como marido e mulher”, diz ainda o narrador do conto), porém, no mais das vezes, se desentenderam e desencontraram. Quando ela estava disposta a romper seu casamento e arriscar tudo com ele, ele normalmente dava para trás. Quando era ele que a procurava, ela não sentia confiança suficiente, ou já tinha se desiludido demais para deixar-se levar pelo entusiasmo.

As coisas para ele eram mais simples, certamente. Não era ele quem tinha toda uma vida pela frente para ser visto como a mulher divorciada e que largou o pai de seus filhos para viver uma aventura com um escritor. Em se tratando de adultério, aliás, cabe lembrar que havia então na Rússia uma elevadíssima autoridade literária, intelectual e religiosa, que já havia proferido uma sentença bastante clara a respeito de mulheres inconstantes que viviam casos extraconjugais. Estou me referindo a Leon Tolstói, estou me referindo a Anna Karenina. Não vou dar spoiler, mas vai lá ler o livro para ver como é que a história acaba.

O detalhe interessante, aí, é que não apenas Lydia estava condicionada em suas decisões e hesitações por esse tipo de ambiente, em que a figura de Tolstói sobressaía em toda sua magnitude e imponência. A psique de Tchekhov, em certo sentido, era inclusive mais vulnerável às suas pregações, pois, quando conheceu Lydia, ele próprio era um seguidor do tolstoísmo. Sim, isso existia na época: uma doutrina que defendia a retomada de valores camponeses e de uma vida comunitária simples, em contraste com a decadência dos sentimentos citadinos e suas sofisticadas tramas amorosas. No caso de Tchekhov, a pregação acontecia inclusive no âmbito doméstico, onde sua posição de arrimo de família, no convívio com irmãos alcóolatras e um pai cronicamente desempregado, lhe dava o crédito moral de que precisava para lançar os mais rígidos julgamentos no mundo ao redor.

Justiça seja feita, contudo: Tolstói era um escritor tão incrível que conseguia intercalar em suas imensas parábolas alguns dos mais perfeitos parágrafos da literatura, e as construía como quem ergue o que hoje são para nós algumas esplêndidas catedrais góticas (já não importa para que elas foram erguidas, o importante é que foram, e agora podem ser admiradas). Apenas com o tempo ele se restringiu ao papel do profeta e do patriarca que recebia os discípulos em sua célebre fazenda. Mas foi já quando as coisas estavam avançando nesse sentido que Tchekhov entrou em contato com suas ideias, de modo que, quando estava com vinte e poucos anos, passou por uma espécie de conversão religiosa, cujos traços são bastante perceptíveis em sua obra de juventude.

A obra precoce de Tchekhov, aquela que ele escreveu até os 30 anos, tem, portanto, duas facetas principais. A primeira são os contos brevíssimos e de natureza humorística que ele escrevia para ganhar dinheiro em publicações semanais, e que lhe rendiam o suficiente não apenas para seu sustento, mas também para o da família, acrescidos aos ganhos com a carreira médica. Na segunda categoria, estão as narrativas pedagógicas com que ele ilustrava o pensamento de seu mestre ilustre, Leon Tolstói, tal como em “O sapateiro e força maligna”, publicado em 1888, ou seja, quando ele estava com 28 anos.

Esse é o contexto que precisamos ter em mente para tentar entender a primeira reação de Anton ao encontro com Lydia. Permitir-se aquela paixão significaria para ele perder não somente o controle de si, mas também abandonar um terreno duramente conquistado durante os anos anteriores, tanto no que se refere à conduta ética que costumava ostentar, tanto no que trata da trajetória profissional e intelectual que vinha seguindo. Não que esse caminho e essa conduta estivessem lhe proporcionando muitas alegrias; muito pelo contrário, ele reclamava bastante de tudo o que sentia estar em desacordo com seus ideais. Mas era um lugar que ele já conhecia, que havia construído para si com esforço, e onde ele podia se sentir um adulto sério em com um propósito definido na vida.

Voltando então à ocasião do primeiro encontro. De imediato, tomado por sensações que não se encaixavam bem no papel de um tolstoísta digno e respeitável (a atração por uma mulher casada), ele recusou os próprios sentimentos. Porém, entrou em um período de enorme inquietude. Por um lado, não conseguia simplesmente fazer a vida voltar a um estado anterior; por outro, não conseguia dar nenhum passo adiante. Foi uma crise de proporções inéditas em sua personalidade e valores, até porque havia fracassado na escrita de um romance, gênero no qual ele precisaria ter sucesso para que suas conquistas literárias correspondessem à estatura ética que almejava. “Tudo o que escrevi até agora é apenas lixo em comparação com o que gostaria de ter escrito”, ele afirmou a seu editor em 1888. Bom, ele estava chegando aos trinta anos nessa época. Quem conhece Saturno e seus retornos sabe bem do que ele está falando.

No entanto, em meio à turbulência, ele acabou, sim, tomando uma decisão. Não exatamente uma decisão apaixonada, e é aqui que eu queria chegar, desde o começo: ele optou por renovar seu compromisso com ideais de transformação social, ao fazer uma viagem de longo prazo a Sacalina, uma ilha na Sibéria usada para o exílio de condenados pela justiça russa. O pretexto era de estudar as condições de vida na ilha (o livro resultante da viagem saiu no Brasil pela Todavia, recentemente). E, se é verdade que o gesto estava de acordo com a atitude científica e reformadora que Tchekhov vinha adotando diante das mazelas sociais da Rússia, parece-me que estava de acordo até demais. Não dá para descartar um componente saturnino enviesado, de sacrifício e repressão de qualquer possibilidade de alegria. Sacalina e Lydia eram os polos opostos de um eixo em que de um lado estava o moralismo de Tolstói, e de outro estava seu desejo e seu afeto individual. Tchekhov dobrou a aposta no primeiro.

Sei que tem gente aí agora perguntando: ok, Gustavo, até agora tudo certo, mas e o signo? E o signo, Gustavo? Primeiramente, vale ressaltar que estamos falando de um aquariano, o que, por questões técnicas, costuma ser motivo de disputa. Sim, Tchekhov nasceu no dia 16 de janeiro de 1860, e sim, é fácil relacionar seu realismo eventualmente resignado ao arquétipo de Capricórnio. Porém, singularidades do calendário russo no século XIX fizeram com que ele estivesse, por assim dizer, doze dias atrás do nosso, de modo que Tchekhov teria nascido quando o Sol estava em Aquário: os doodles do Google estão aí sempre no dia 29 de janeiro para não me deixar mentir.

Mas queria dar ênfase a outro ponto, no que se refere ao zodíaco. Pois, até aqui, estivemos o tempo todo tratando de uma fase da vida do escritor russo em que podemos reconhecer semelhanças com uma fase de nossas vidas quando, depois de 28 ou 29 primaveras, o inverno de uma experiência de autoquestionamento, bastante incisiva, costuma pedir ajustes e revisões em nosso comportamento. Nesse caso, o signo de Saturno no mapa de Tchekhov assume grande importância, assim como acontece com o signo de Saturno nos nossos mapas, uma vez que a Saturno (incluindo o signo e a casa onde está situado) relacionamos esse tipo de crise e seu desenlace. Pois bem: Tchekhov tinha Saturno em Leão.

Leão é o signo oposto complementar de Aquário. Nessa balança, se de um lado estão o impulso reformador, um comportamento mais cerebral e científico, e uma grande capacidade dedicação à coletividade e ao mesmo à humanidade como um todo, do outro estão o prazer com a vida, um espírito criativo e artístico, e a busca da autossatisfação, que se reverte em uma generosa capacidade de satisfazer. Ou seja: onde Aquário é trabalho, Leão é brinquedo, e onde Leão é desejo, Aquário é propósito. Nós todos temos ambos os signos em nossos mapas pessoais; a questão é onde, e como.

Então, podemos presumir que o aspecto leonino da personalidade de Tchekhov estava atravessado pela presença de Saturno na região de sua psique mais diretamente vinculada a atender suas vontades individuais. Funciona assim: onde nosso senhor dos anéis se situa, haverá normalmente uma espécie de atrofia das qualidades daquele arquétipo, que vai durar pelo menos até por volta dos 30 anos, quando a execução de um ciclo saturnino completo na vida do indivíduo torna possível (ou demanda) que essas qualidades sejam despertadas. Existe uma alternativa a esse padrão, que é o exagero ostensivo e forçado dos comportamentos associados ao signo de Saturno (o Saturno em Libra com uma vida amorosa agitada e vazia, o Saturno em Capricórnio com conquistas profissionais precoces até demais, por exemplo). No entanto, o mais comum é as coisas se passarem como se passaram com Tchekhov: as qualidades e comportamentos do signo oposto ganham destaque na primeira parte da vida, e o retorno de Saturno se torna um intenso puxão do outro lado da balança, chamando a pessoa a viver algo que ela negligenciou ou negou antes.

Nesse sentido, a posição do Saturno tchekhoviano é particularmente incômoda. Pois se, por um lado, Saturno se sente em casa em Aquário, signo do que é o regente tradicional (e onde se encontra no momento), por outro lado, sua força restritiva será mais desconfortável no signo de Leão. E, no entanto, será aceita, com a desculpa ou a justificativa de que o prazer e a alegria são sentimentos egoístas, que não correspondem às necessidades mais imediatas da sociedade, ou argumento parecido. Saturno em Leão (ou Saturno na casa 5) pode muito bem abrir mão de viver a própria vida amorosa em favor de algum ideal, de algum projeto, de algum bem maior coletivo, e pode também repetir esse gesto quando sentir uma íntima ameaça a essa persona trabalhosamente criada. Ou seja: ele pode até mesmo fazer uma viagem a uma ilha na Sibéria, se for para negar a si mesmo o que mais profundamente deseja e precisa.  

NO entanto, isso não quer dizer que Saturno seja mais fácil de lidar quando está em outra posição no mapa. Saturno é sempre Saturno. Reparem, por exemplo, em como o caso de Anton Tchekhov se parece com o de Franz Kafka, que, no momento exato da completude de um ciclo de Saturno em sua vida, encontrava-se massacrado por obrigações prosaicas e tarefas rotineiras de seu emprego burocrático. Mais de uma vez, expressou seu fastio com essa condição, que o impedia de escrever (Saturno em Gêmeos); mas, na hora de fazer uma mudança, escolheu acumular obrigações ainda mais fastidiosas ao seu cotidiano, tornando-se sócio de uma fábrica de amianto, dobrando a aposta nos flagelos que o oprimiam, e, por consequência, se vendo ainda mais enredado em tudo em que o impedia de avançar na vida (o que, no caso de Kafka, se confundia com fazer literatura).

Nada com que a gente não consiga se identificar, em pelo menos uma área da vida, em pelo menos uma época da existência: esse apego insistente no sofrimento, essa estranha luxúria da infelicidade. Todos temos Saturno no mapa, e com ele essa capacidade de tomar decisões que reforçam padrões de conduta, mesmo quando sua rigidez se torna um risco iminente ao próprio fluxo vital que nos alimenta.  Como disse o Felipe Charbel em uma resenha recente sobre os diários de Kafka, todo mundo tem sua versão da fábrica de amianto, “uma situação de desconforto que era melhor ter evitado, mas na qual nos envolvemos como resultado de uma escolha absurda, a pior decisão possível em um momento crucial da vida”. Acrescento: todos nós temos uma viagem a Sacalina.

Mas talvez a gente precise mesmo dobrar a aposta em algo que não faz mais sentido para descobrir o que faz. Talvez a gente só se disponha a realmente romper as amarras quando elas ficam apertadas no nível do irrespirável. Talvez o sapo proverbial, que se deixa morrer na água fervida lentamente, só consiga encontrar as forças necessárias para se libertar da fervura se for colocado numa panela de pressão. É justamente isso que o retorno de Saturno é: uma panela de pressão, na qual a fervura já não pode ser ignorada, e cujo chiado permanecerá em nossa cabeça enquanto não encontrarmos uma verdadeira saída para nossos dilemas, ao invés de simplesmente aumentar o fogo, como se isso fosse resolver alguma coisa (no caso do sapo astrológico, posso adiantar que ele encontra força e inteligência para isso em Urano; escrevi sobre isso em mais detalhes aqui).

Em outras palavras. Talvez a fábrica de amianto tenha sido indispensável para que, pouco tempo depois de se meter nessa enrascada (que lhe tomava ainda mais tempo e energia), Kafka virasse uma noite escrevendo O Veredito, que viria a ser conhecido o primeiro texto importante de sua obra. A propósito, esse é um ponto importante em que a astrologia e a psicologia de C. G. Jung (com sua atenção a narrativas e processos arquetípicos) se encontram: em ambos os casos, as coisas acontecem “em direção a”, com uma finalidade, que pode ser deduzida da natureza dos arquétipos e astros em questão, mesmo quando tratamos de movimentos aparentemente contrários ao desenlace da história. No final das contas, percebemos que eles fazem parte essencial da narrativa, que cumpriram um papel importante nela.

Nessa perspectiva, Kafka não seria Kafka sem sua fábrica de amianto, Tchekhov não seria Tchekhov sem a viagem a Sacalina. Em seu caso, o absurdo da escolha e o desconforto da situação foram bem descritas em suas reações à realidade da ilha siberiana – de cheiros desagradáveis e oficiais corruptos, de barracos insalubres e crianças maltrapilhas, onde as eventuais festividades eram tristes e até mesmo as cartas de amor eram “repulsivas”. É verdade que, com o relato onde estão estes registros, a viagem cumpriu o objetivo de revelar uma realidade ignorada em Moscou e São Petersburgo, e assim a dimensão mais aquariana e política do gesto não foi totalmente desperdiçada, por mais que o mero desgosto domine algumas passagens do livro. É também verdade que essa era apenas a intenção mais visível do ato, sendo que próprio Tchekhov o atribuiu à relação nascente com Lydia, em uma carta a Helen Lintrayov: “Eu simplesmente tinha que fugir a todo custo. Fugi de sensações muito fortes como um covarde foge do campo de batalha”.

No próprio relato da viagem, por outro lado, surge já uma nova faceta do escritor. Há trechos em que Tchekhov abandona o olhar moralista e científico, ou meramente desaprovador, em favor de uma visão mais compadecida e compreensiva da condição humana, a partir do que viu na ilha. Nesse ponto, ele percebe como seria despropositada seria a ideia de converter os condenados de Sacalina a uma doutrina absolutamente distante de seu cotidiano. Nesse momento, ele, através de suas palavras, concede aos seus ‘personagens’ um pouco do calor humano que lhes era negado tanto por seus carrascos quanto por seus supostos redentores, e abandona o posto do missionário que levava a palavra de Tolstói para as criaturas perdidas naquele rincão nos escanteios do mundo, começando então a falar com a voz de Anton Tchekhov, na qual sobressaía uma visão mais empática, que não deixa de ser uma expressão de Aquário, porém mais amadurecida e calejada pelas maldades deste mundo.

De modo que, em retrospectiva, a viagem a Sacalina veio a ocupar um lugar importante na trajetória pessoal de Tchekhov, embora no sentido contrário ao de suas motivações iniciais. Um forte indício disso é o fato de que, logo após o retorno da ilha, seu primeiro movimento foi ir atrás de Lydia em São Petersburgo, declarando-se então pela primeira vez para ela, que já havia demonstrado antes disposição para renunciar a tudo para ficar com ele. Mas a essa altura era ela que já não sentia ter forças para tanto, e começaram aí os muitos anos de desencontros e hesitações, incluindo uma ocasião na qual conseguiram ficar juntos e sozinhos, mas foram surpreendidos pela visita inesperada de dois amigos, bem como o episódio em que, tomada por uma onda de paixão em confiança, Lydia enviou a Tchekhov um exemplar dos Contos Reunidos dele, com um bilhete: “Página 267, linhas 6 e 7”. A referência era a um trecho onde se lia: “Se quiser a minha vida, venha e leve-a”.

Porém, quando essa mensagem o alcançou, Tchekhov estava já acometido por uma enfermidade que, a longo prazo, viria a ser fatal, e não podia ir buscar a vida que ela lhe oferecera. Mas a transformou em ótima literatura. É importante então notar que nenhum dos tristes desdobramentos dessa história elimina a importância criativa e vital da mudança ocorrida em 1890, quando Tchekhov retorna da viagem. Podem reparar: a partir daí, as parábolas moralizantes passam a ser substituídas por narrativas em que a percepção da fragilidade da condição humana ocupa um papel central, em momento algum ultrapassado pelo julgamento sumário. As infinitas e ao mesmo tampo tão precisas nuances entre o trágico e o cômico de que talvez ele foi capaz surgiram aí. O Tchekhov que a gente mais conhece e mais estima como escritor aparece nesse momento, após o encontro com Lydia, após a viagem a Sacalina, após o retorno de Saturno.

Ou, como afirma David Magarschack, para encerrar: “A viagem em si mesma, que desconcerta seus biógrafos como desconcertou sua família e amigos, permanece um completo mistério a não ser que, como observa um recente estudioso russo, ela tenha se dado ‘por uma profunda razão pessoal’. E esta razão apenas poderia ser seu amor por uma mulher jovem e casada, que ele escondeu de todos como sempre escondia seus sentimentos íntimos do resto do mundo; pois, durante a fase tolstoiniana de sua vida, Tchekhov apenas poderia encarar uma situação como aquela com desgosto e repulsa. Como seu amor por Lydia era muito forte para ser controlado, ele resolveu fazer uma longa e árdua viagem para curá-lo. Mas o grande paradoxo é que a viagem a Sacalina produziu o efeito oposto: ela não o curou de seu amor – ela o curou de suas obsessões tolstoinianas”.

Ou, traduzindo para termos zodiacais: ela não matou o Leão que ele descobriu existir dentro de si, e sim deu a ele o alimento que vinha sendo negado. O covarde que fugiu do campo de batalha voltou cavalgando a fera selvagem da paixão que o afugentara. Nascia assim o autor de algumas das mais belas – e tristes, e difíceis – histórias de amor que conhecemos. O Saturno de Tchekhov nunca deixou de estar lá, em Leão, e haveria sempre uma espécie de sombra (realista, resignada) em sua visão do destino dos apaixonados. Porém, para que as histórias de amor simplesmente comecem, é preciso uma boa dose de otimismo e entusiasmo leonino na história. Acho que foi isso que Tchekhov sentiu ao voltar da ilha e procurar Lydia naquele ano. Por um momento ele foi puro gosto pela aventura amorosa, desejo de conquista, afirmação da vida, brilho no olhar. Se terminasse aqui (e por que não terminá-la?) essa história teria sem dúvida um final feliz. Ou, pelo menos, um final aberto, no qual pudéssemos intuir uma chance de felicidade.

astros, peixes

Sonhos de Cassandra

Troia em chamas (c.1759) | Johann Georg Trautmann

Diz-se que, no local da Grécia Arcaica onde seria situado o templo de Delfos (consagrado a Apolo), havia outrora uma profunda fenda no chão de um terreno onde ovelhas costumavam pastar. Se alguma delas se aproximasse demais da fenda e olhasse para dentro, começaria a “pular de maneira espantosa e balir num tom aflito, anormal”, segundo Diodoro Sículo. Os humanos que investigassem o mistério também entravam em estado de transe, e um deles, em seu delírio, passou a predizer o futuro. Por isso o local veio a ser considerado miraculoso: o povo acreditava que o oráculo havia sido uma dádiva de Gaia, a deusa da Terra.

Como muitas pessoas se perdiam e desapareciam dentro da fenda, pareceu adequado aos habitantes dos arredores designar uma única profetisa, que seria encarregada de receber seus espíritos, sob a proteção da serpente Píton. Este foi o “dragão-fêmea, monstro enorme e horrendo” que Apolo derrotaria para assumir o posto de oráculo de Delfos, na narrativa dos hinos homéricos. Esta luta e sua vitória coincidem com uma substituição de aspectos arcaicos da antiga religião por uma visão mais ordenadora e racional do mundo. Foi também nessa época que Apolo se diferenciou de seu irmão Dionísio, um deus da natureza, passando a representar a objetividade, a índole científica e a clareza lógica que caracterizou a Grécia
Clássica.

A oposição e complementação entre Apolo e Dionísio ficou conhecida através da obra de Nietzsche sobre o nascimento da tragédia. No entanto, conhecemos menos a história de Cassandra, a filha de Príamo que sonhou com a derrocada de sua família e da cidade de Troia, mas não encontrou quem acreditasse em sua profecia. Anos antes, ao frequentar o templo de Delfos, ela havia recusado um pedido de Apolo, e foi amaldiçoada pelo deus com o descrédito de todas as suas visões. Desesperada por prever um futuro terrível e não ter como prevenir os seus familiares, Cassandra passou a chamar a atenção para seus vaticínios de formas incomuns ou mesmo exageradas, sem nunca obter sucesso. Pode-se dizer que começou a balir como as ovelhas da lenda, no que viria a ser descrito no século XIX como o típico comportamento de uma mulher histérica.

A analista junguiana Laurie L. Schapira estudou a maneira como o diagnóstico da histeria esteve vinculado ao descrédito da intuição feminina nesse período. Pois se, por um lado, o poder premonitório de Cassandra se manteve na experiência de inúmeras mulheres, Apolo seguiu fazendo seu trabalho de desqualificá-las como criaturas descontroladas. O próprio Freud pode ser acusado de ter reduzido poderes verdadeiramente estranhos de feiticeiras medievais ao “meramente histérico”, acompanhando Edward Jorden, autor da primeira obra em língua inglesa sobre o assunto. O estado de transe ou de possessão fica assim compreendido como um sintoma, com a simulação de desmaios e tremores para realizar algum tipo de chantagem ou manipulação emocional.

Mas as duas coisas não são excludentes. Podemos presumir que Cassandra de fato tenha o dom de prever o futuro, e que, ao perceber-se incapaz de persuadir os outros do que vê, passa a utilizar formas mais insidiosas de convencimento, que podem acabar distorcendo sua própria visão. Ou então, diante da crueldade da barreira imposta pelo ressentimento de Apolo, ela simplesmente recai no desespero e começa a berrar feito uma louca. De um jeito ou de outro, possui motivos suficientes para sentir-se vitimizada durante boa parte de sua história, pois tem sua imagem pública e seu ego massacrados não apenas por Apolo, como também por Príamo, Agamenon, Hécuba e Clitemnestra, a tal ponto que ela mesma já não crê suas visões. O trabalho clínico que Schapiro narra diz respeito a longas trajetórias de mulheres tentando recuperar a crença em si mesmas.

Quanto à astrologia, não me parece casual que o mito de Cassandra tenha reaparecido através da questão da histeria justamente quando Netuno passou a integrar nosso mapa do cosmos, na segunda metade do XIX. Netuno é o regente de Peixes, e Peixes é sem dúvida o arquétipo mais intimamente ligado à história de Cassandra. É verdade que geralmente o associamos ao aspecto vago e delirante dos cultos dionisíacos, assumindo por esse viés o contraste com as formas e a lógica apolíneas. Mas Peixes merece mitos femininos para ser explicado e compreendido, até porque suas águas são a origem de tudo, e quando damos um nome à origem de tudo a chamamos de Grande Mãe.

Sabemos que Peixes está em contato com os mananciais intuitivos e premonitórios que corriam no fundo da fenda de Delfos. Esse poder está de acordo com a natureza psiquicamente permeável do signo. Sabemos também como esse aspecto da personalidade pode ser diminuído e desacreditado na sociedade contemporânea, ou isolado como sinal de debilidade e loucura. Com isso, cria-se sempre o risco de que Peixes reincida permanentemente no papel de vítima, ou crie relações de dependência que o tornam um chantagista do zodíaco em potencial, como tentei descrever em outra postagem. 

Assim, o desejo que têm de fazer com que os outros vejam o que surge em suas visões, o descrédito que suas estranhas percepções encontram no mundo social, e a maneira como a realidade dos sonhos é destituída de valor à luz do dia – tudo isso pode tornar a história de Cassandra bastante real para alguns piscianos. O caminho para se lidar com esse impasse é um fortalecimento do ego que não signifique a supressão da alma; basicamente, é o de descobrir-se na posição da pitonisa protegida pela serpente, uma personificação de forças naturais que assume face humana, mas não se identifica exclusivamente com a vítima ou com o algoz do mito.