astros, Todos os signos

A viola e o arpão

Giorgio de Chirico |Enigma da chegada da noite (c. 1970)

Mulher de Porto Pim é o nome de um livro e de um conto do escritor italiano Antonio Tabucchi. No conto, um velho cantor açoriano conta sua história para um turista num fim de noite em um bar melancólico. Em determinado momento da narrativa, ele, ainda jovem, abandona seu pai, um pescador de baleias com quem crescera após a morte da mãe; o motivo desse abandono é a tal mulher de Porto Pim, por quem ele sente um fascínio súbito e apaixonado. Ao descrever a cena na qual passa em casa para pegar suas coisas antes de ir viver com ela – sob o olhar do pai, que o vê deixando o arpão e levando uma viola –, o narrador diz: “Você sabe o que é a traição? A traição, a verdadeira, é quando você sente vergonha e quer ser um outro. Eu quis ser um outro quando fui me despedir de meu pai”.

O detalhe do arpão é importante. Antes, ele fala sobre como os dois costumavam sair juntos para pescar baleias, e fica implícita a expectativa do pai de que o filho seguisse no mesmo ofício. Daí a traição a que se refere: não se trata apenas do abandono do lar e do velho taciturno, mas de toda uma ideia do tipo de vida ao qual o filho devia sua fidelidade. O gesto de carregar a viola indicava, por sua vez, que um cenário completamente diverso se descortinava para o restante da sua vida. Que a história seja contada num bar e por um cantor de bar diz muito sobre o que se seguiu. O filho do pescador se tornou o artista boêmio que narra a história. Seu destino teve um episódio trágico, mas ele não parece arrependido de ter seguido esse percurso, exceto, talvez, quando destaca a ambivalência dos sentimentos na cena que descrevi.

É o tipo de experiência que remete aos pares de opostos complementares do zodíaco, e às mil maneiras como manejamos seus atributos conflitantes no decorrer da vida, quando, por algum motivo, a dinâmica de um desses pares se torna relevante para nós. Mais especificamente, em termos astrológicos, seria legítimo dizer que foi naquele instante de pegar a viola que o narrador se decidiu por um salto à Cabeça do Dragão. Estou me referindo ao Nodo Norte da Lua, também conhecido por Rahu na tradição védica. Trata-se de um ponto calculado de acordo com o desenho da elipse lunar, e que, como os planetas, transita pelos 12 signos do zodíaco, com a diferença de carregar sempre consigo o ponto exatamente oposto, isto é, a Cauda do Dragão (ou o Nodo Sul, Ketu para a astrologia indiana). Se você gerar seu mapa no site astro.com, o Nodo Norte vai aparecer como “True Node” na versão em inglês, e como “Nodo Verdadeiro” em português (caso seja alterada a configuração da língua no canto superior direito da tela), com o Nodo Sul situando-se por consequência no mesmo grau do signo oposto complementar de onde ele se encontra.

Daria para ficar aqui enfileirando detalhes técnicos e nomes exóticos indefinidamente. Mas, quando se trata da posição desses pontos no mapa natal de um indivíduo, a ideia costuma ser mais ou menos a mesma: o Nodo Sul é a experiência já acumulada por sucessivas gerações, é aquilo que se repetiu à exaustão, é aquele conjunto de qualidades ou hábitos que parecem um lugar natural para a pessoa. É também onde encontramos traços de identidade mais imediatamente disponíveis para nós, os papeis sociais que tendemos a ocupar com mais facilidade, ou que acreditamos ter o dever de cumprir. O Nodo Norte são as experiências novas que teremos a oportunidade de viver, talentos imprevistos que serão desenvolvidos e papeis que podem ser ocupados – se assim o quisermos – mesmo que a princípio a gente não se veja de maneira alguma naquele lugar.

Como, invariavelmente, esses pontos se localizam em signo opostos do zodíaco, a posição de um sempre implica a do outro. No caso do narrador do conto de Tabucchi, por exemplo, eu apostaria que ele tem o Nodo Norte em Leão, por ter ganhado a vida tocando um instrumento, se apresentando em botequins, sentindo por esses ambientes uma atração e uma vinculação que estavam em aberto desacordo com seu passado e sua herança familiar. Desse modo, ele teria o Nodo Sul em Aquário, o que pode muito bem estar relacionado às exigências de fidelidade a uma corporação de iguais, no caso a dos pescadores, além de presumir uma capacidade de dedicação a esforços coletivos bastante característica de algumas expressões aquarianas, um signo tradicionalmente regido por Saturno. Essa posição – Nodo Sul em Aquário, Nodo Norte em Leão – é uma das que trazem com maior evidência uma possível contraposição entre o trabalho e o prazer no mapa de um indivíduo. Daí o instante da escolha entre o arpão e a viola; daí o salto a que me referi.

Analisar a posição da cauda e da cabeça do dragão em um mapa é desdobrar esse tipo de raciocínio de acordo com as variações dos arquétipos zodiacais e algumas outras variáveis (as casas onde se encontram, os planetas com que realizam aspectos etc.). Às vezes, a identificação dessa dinâmica é mais imediata, e até mesmo anedótica (sobretudo com as expressões do Nodo Sul); às vezes, se dá com qualidades mais singulares e atributos bastante originais (sobretudo no Nodo Norte). Tudo isso pode se tornar mais evidente em determinadas idades e trânsitos regulares (com frequência por volta dos 36, 37 anos, às vezes já aos 18 ou 19). De todo modo, eles criam um eixo que nunca deixa de funcionar como uma espécie de balança na vida de cada um. Sendo assim, haverá sempre momentos em que ela poderá pender mais para o passado, para o já conhecido, para as gerações que nos antecederam, as encarnações em que já percorremos a história de um arquétipo sucessivas vezes. Foi o que aconteceu comigo ultimamente.

O que vivi nas últimas semanas foi uma das experiências mais estranhas da minha vida psíquica. Netuno esteve praticamente estacionado durante um tempo incomum na região de meu Nodo Sul em Peixes, enquanto eu era atravessado por sensações e lembranças de um passado que parece ultrapassar minha vida pessoal, embora com frequência seja também representado por episódios dela. Houve ao mesmo tempo notícias concretas e difíceis que tornaram presentes algumas questões relacionadas ao tema, e cujas demandas contribuíram para que eu tenha deixado essa página de férias por uns tempos. Netuno sempre exige uma pausa em alguma coisa na vida. Mas é sobretudo sobre o sentimento impreciso e netuniano de uma súbita imersão nas águas de meus ancestrais piscianos que eu gostaria de falar, pois sinto também que esse é um momento de honrar meus antepassados de uma maneira que nunca fiz antes – para então, talvez, traí-los mais uma vez, quiçá definitivamente.

Uma maneira de exemplificar esse fenômeno é falando um pouco do meu gosto musical. Pois fui precocemente apresentado e cativado por toda uma tradição do desespero e da derrota cantada em vozes anglófonas roucas e embriagadas. Era capaz de virar noites inteiras sozinho ouvindo Tom Waits e enxugando garrafas de conhaque barato, depois de ter rodado os bares do centro de Belo Horizonte como que em busca do coração roto de uma noite de sábado, que eu nunca encontrava. Aquilo para mim era um lugar natural, de certa forma espontâneo, mas só de certa forma mesmo: pois eu estava também espontaneamente encenando aquele personagem. Ou melhor, eu estava representando, também no sentido de que, ao agir daquele jeito, eu sentia ser o representante de toda uma congregação de gente fodida e fracassada que formava um clube secreto que já existia antes de mim.

Reparem, não estou falando que Peixes tem uma relação direta com o fracasso. O que está em jogo aqui os “personagens” piscianos, que muitas vezes podem parecer losers arquetípicos, mas exatamente porque nesse signo as réguas que costumamos usar para medir sucessos mundanos perdem toda a validade. E, de modo bastante concreto em alguns aspectos – figuradamente em outros –, sempre soube que venho de uma linhagem de gente que por algum motivo viveu às margens do mundo social regular, por terem renunciado a ele ou por terem se tornado incapazes de existir funcionalmente em seus limites. Estamos falando de monges, loucos, doentes e bêbados. No meu caso, sobretudo bêbados. Em resumo: venho de uma linhagem de desajustados, e o fato de ter me encaixado nas estruturas desse mundo – ao encontrar trabalhos que me deram satisfação, ao executar serviços que me deram alegria, e ao adotar rotinas que me restituíram a saúde, através do Nodo Norte em Virgem, signo oposto a Peixes -, é o que tem feito com que eu me sinta um verdadeiro traidor dos meus ancestrais que vieram do mar.

Não se trata apenas de maturidade, ou de uma adoção compulsória de hábitos saudáveis por motivo de comprometimento do fígado. Bom, deve ter um pouco disso também. Mas o Nodo Norte se manifesta com um frescor que não tem muito a ver com os constrangimentos da idade. Agora, vamos supor que fosse o contrário. Um Nodo Norte em Peixes dificilmente vai se manifestar de modo tão anedótico quanto meu Nodo Sul pisciano; ele provavelmente vai aparecer para a pessoa em uma versão mais individualizada (mesmo que seja com uma relação frequente, porém mais saudável, com os entorpecentes), ou no mínimo menos atolada nas sarjetas da vida. Nesse caso, o que se apresentaria com maior evidência na primeira etapa de uma biografia seria a Cauda do Dragão em Virgem, talvez com as famosas manias de limpeza e paranoias de organização que criam ambientes imaculados, exatamente opostos aos quartos atulhados de cinzeiros sujos onde que costumava acordar na minha adolescência. Mas o ponto principal aqui não é que a pessoa tenha as características de determinado signo, e sim a maneira como ela se sente devedora de sua fidelidade a um determinado grupo ancestral, vinculada a ele de modo atávico, mesmo quando esse grupo é um bando de doidos e tontos.

Uma pessoa com o Nodo Sul em Virgem, portanto, pode vir de uma linhagem de funcionários públicos ou auxiliares da área de saúde para os quais a humildade na prestação de serviços regulares é um valor fundamental. Essa pessoa vai encontrar o lado pisciano da vida através de um convite para o ócio e para o descanso, uma libertação da roda cármica de tarefas e burocracias e pacientes – mas dificilmente vai perder a sensação de estar em débito com as gerações anteriores de sua estirpe, que tanto trabalharam em favor do bom funcionamento da sociedade e do cosmos. Já uma pessoa com o Nodo Sul em Touro pode muito bem se sentir rebento de um ambiente camponês ou proletário, e valorizar a simplicidade das sensações vitais, dos frutos da terra e do trabalho manual. Mas ela pode também vir a ter uma oportunidade de lidar com o lado mais obscuro e intrincado da vida psíquica (Nodo Norte em Escorpião), demonstrando habilidades que não esperava ter para desatar esses nós.

Tenho uma amiga, com Nodo Sul em Sagitário, que agora – aos 35, 36 anos – está percebendo que não precisa de contar com o respeito do mundo acadêmico para cumprir seu destino. Está descobrindo uma existência independente do reconhecimento universitário já recebido em sua família, porque ela própria é capaz de valorizar outras coisas, e pode muito bem viver sem isso. Com essa posição, algo semelhante acaba acontecendo com alguém que se sinta vinculado a uma religião ou grupo religioso: o Nodo Norte em Gêmeos vai trazer uma leveza lúdica que raramente encontramos nas esferas da intelectualidade ou do sacerdócio, mas que podemos muito bem identificar nos comediantes e artistas de circo. O engraçado aí é que a pessoa se prepara durante anos para se tornar um brâmane ou coisa parecida – e acaba se tornando a grande atração da feira, e acaba se realizando assim.   

Ou seja: todo mundo tem uma corporação, ou estirpe, ou bando, ou alcateia, ou casta, à qual tem que prestar contas durante uma parte da vida. Só não precisamos ficar comprometidos eternamente com a identidade que nos foi legada através de nosso vínculo com os ciclos lunares, pois esses mesmos ciclos trazem um convite ao desbravamento de territórios inexplorados. Usando uma metáfora que uma vez encontrei na internet, é como se você fosse um ator ou atriz já escalado sucessivas vezes para um mesmo tipo de papel – aquilo que na indústria do entretenimento chamam de type casting -, até por conta de sua capacidade de representá-los, o que criou uma associação de sua própria pessoa com um determinado personagem recorrente. Aí de repente aparece um convite para um papel totalmente distinto e até oposto ao que você se acostumou a representar. Minha dica: aceite.

A propósito (e fazendo a ponte entre Hollywood e Bollywood), a menção anterior aos brâmanes – a casta sacerdotal hindu – faz lembrar que Nodo Norte e Nodo Sul são pontos bem conhecidos na astrologia védica, ou indiana, como mencionei lá atrás. Na origem da concepção e cálculo desses pontos, portanto, pode haver uma relação com a sociedade de castas, mas eu não saberia dizer ao certo como são mobilizados nessa moldura. De todo modo, a astrologia se renova também através desses trânsitos e trocas, fazendo com que, por exemplo, a posição do Sol em um mapa natal – tão importante em nossa prática, mas com sentidos e significados já desgastados – possa eventualmente ter sua leitura modificada de maneira positiva em outros contextos culturais. Assim como nós temos a chance de ressignificar as leituras das posições da cauda e da cabeça do dragão, dando ênfase às mudanças que podem representar na vida de um indivíduo, mas sem desconsiderar o que falam sobre nossa inserção em grupos sociais, históricos ou arquetípicos mais amplos.

Mas, para esse movimento estar completo, entendo hoje que a gente precisa ter alguma chance na vida de se reconciliar com nosso antepassados metafóricos e reais, depois de termos simplesmente abandonar o arpão no chão da sala, sob o olhar imensamente decepcionado de nossos pais. Vou contar então a vocês o que acontece quando Netuno estaciona sobre seu Nodo Sul durante o tempo que ficou estacionado no meu. Você passa a viver uma espécie de segunda vida paralela e meio delirante junto a toda aquela multidão de ancestrais que em algum momento acreditou ter deixado no caminho. No começo, parece que eles ressurgiram para tirar satisfação por terem sido traídos; mas depois você percebe que eles simplesmente querem ter você por perto mais um pouquinho, antes de deixá-lo ir. É uma espécie de despedida, que não deu tempo de fazer quando as novidades e desafios do Nodo Norte estavam tomando todo seu tempo. É também um de trabalho de luto, porque você sente que alguma coisa em você está definitivamente deixando de existir.

Não tenho exatamente passado minhas noites bebendo e ouvindo música e procurando por corações rotos que se solidarizem com minha tristeza. Mas tenho ficado parado, quieto, e desperto, às vezes por horas durante a madrugada, enquanto um outro eu (cujo nome é legião) perambula por aí refazendo caminhos tortos já bem conhecidos. Um pouco como se o narrador do conto de Tabucchi de repente passasse a imaginar-se pescando baleias, junto ao pai e outros pescadores, sendo feliz com eles, sem nunca ter optado por outra vida. Chego a pensar que foi só isso mesmo que o pai dele queria: que estivessem juntos mais uma vez, em forma de devaneio, e que fizessem juntos desse modo a última pescaria. Enfim, que seu filho retornasse nem que fosse em sonho para se despedir corretamente, e então ir embora de vez, sem “querer ser um outro” é já sendo, enfim livre da sensação de que precisava escolher entre o arpão entre a viola, porque a viola o havia escolhido, e sabendo que, para ser quem ele era, já não precisava trair ninguém.

enquetes

VOTE DJÁ!

Olá pessoal. Tirei umas férias do blog nas últimas semanas, mas como minha cabeça é a própria oficina do diabo quando se trata de pensar relações entre signos, mitos, personagens de ficção e outras coisas que não existem (mas que parecem tão reais, em contraste com outras coisas comprovadamente existentes), acumulei um punhado de ideias para os próximos textos.

Essa enquete é então para vocês me ajudarem a decidir por onde começo, com as seguintes regras: librianes podem votar em duas opções, geminianes podem votar em quantas quiserem, sagitarianes podem votar em TODAS as alternativas, e virginianes podem achar tudo uma bobagem e votar escondido assim mesmo. Ah, e os resultados aparecem depois que você deixa seu voto: para Áries saber se está ganhando, para Peixes ficar com dó dos últimos colocados, para Capricórnio ficar puto porque as outras pessoas votaram errado etc.. Está valendo. Vote djá!

câncer

O signo de Kafka

Foto de arquivo | wikipedia.org

Este blog nasceu sob o signo de Peixes, e precisa de um descanso de vez em quando para dar liberdade às suas fantasias. Mas estavam em Câncer as luas do título, inspirado por um livro da escritora canadense e canceriana Alice Munro. Talvez por isso o signo do caranguejo seja um dos recordistas de postagens aqui da casa, embora eu nunca tenha escrito nenhum texto mais elaborado sobre o cancerianismo aliciano em si mesmo (pretendo fazer isso ainda, mas é uma tarefa delicada, não é algo que que dê pra fazer ainda pegando no tranco, depois de ficar em modo pisciano-soneca por uns tempos). Tampouco cheguei a falar do arquétipo de Câncer a partir dos escritos de outro autor célebre que já frequentou essa página por muitos outros motivos. Pensei nisso anteontem, quando se celebrou a data de aniversário de Franz Kafka.

A princípio, essa seria uma missão igualmente espinhosa, sobretudo se comparada com a de identificar aspectos cancerianos mais óbvios da obra de Marcel Proust, por exemplo (o memorialismo nostálgico, a floração de sentimentos, o estilo fluvial). Há pouca coisa e quase nada em Kafka que a gente associe ao signo solar do autor, à primeira vista pelo menos. Acontece até o contrário: a objetividade de sua prosa, o desconforto de seus personagens, a estranheza de seu mundo, tudo isso é o oposto daquilo de que normalmente estamos falando quando falamos em Câncer. Inversamente, a familiaridade, o conforto e o calor humano podem ser tudo, menos atributos kafkianos.

Por outro lado, e por isso mesmo, acredito que a tarefa de associar Kafka ao signo de Kafka é simples (confesso que o blogueiro não estaria suspendendo suas férias se não pensasse assim). Basta repetir um movimento que os intérpretes do autor realizaram tanto em comentários sobre a questão religiosa em sua obra, quanto na abordagem de sua ressonância política. Os conceitos de teologia negativa e utopia negativa – presentes nas análises dos críticos Erich Heller e Michel Löwy, respectivamente – se equivalem. O que ambos estão querendo dizer ao mobilizar esses conceitos é basicamente a mesma coisa. Quando lemos Kafka, o que importa é tudo aquilo que evidentemente não está lá.

Acho que o lado teológico nos ajuda mais a entender o argumento de maneira geral. Ele remete a uma longa tradição segundo a qual “a ausência de Deus é prova da existência de Deus”, exatamente porque a percebemos como uma ausência, isto é, o polo negativo de uma presença. Pelo mesmo raciocínio, não concebemos o vazio a não ser como o contrário do cheio, e, portanto, como indício de um preenchimento que um dia existiu ou está por vir. Todo fenômeno presume e implica seu inverso, e, portanto, o Deus absconditus (deus escondido) da lenda se faz sentir precisamente através de seu ocultamento.

“Ausência implica presença, ausência não é não-existência, e assim nós temos o direito de repetir: vem, vem, vem, vem…”, diz um personagem de Uma Passagem para a Índia, romance do escritor E. M. Forster. Nesse sentido, na obra de Kafka, tudo aquilo que não está lá se torna o que mais ostensivamente se mostra através deste sumiço; é a existência dessas coisas que podemos e devemos invocar. E, de fato, o conforto com a vida familiar, a aceitação e o acolhimento pelos pais, a sensação de pertencer a um lar ou uma terra natal são ausências mais do que notáveis em seus escritos, incluindo aí os diários e as cartas. Sobre os romances de Kafka, a propósito, o escritor argentino Jorge Luis Borges afirmou em 1936 o seguinte: “Homens, não há mais do que um em sua obra. O homo domesticus, que anseia por um lugar, mesmo que humilíssimo, em uma Ordem qualquer; no universo, em um ministério, em um asilo de lunáticos, ou no cárcere”. A simplificação pode parecer apressada quando a olhamos em perspectiva; mas, acredito, não deixa ser extremamente certeira se fizermos uma correção.

O ponto central é a palavra Ordem. Não acredito que os personagens de Kafka quisessem necessariamente pertencer a uma ordem. É verdade que com Joseph K., de O Processo, esse pode muito bem ser o caso, e algo semelhante se dá com o K. de O Castelo. Aí estaríamos tratando de temas capricornianos, com algumas incursões pelos arquétipos de Aquário e de Peixes. Porém, até com maior frequência, o que os protagonistas kafkianos parecem sentir de modo mais doloroso é a falta de qualquer vinculação a um Lar, no sentido mais caloroso e acolhedor da palavra, com suas raízes orgânicas e sentimentais, com suas conotações afetivas e interpessoais. Não que eles expressem isso abertamente, é claro. Na verdade, é isso que sempre falta nas narrativas kafkianas; é isso que mais claramente elas excluem e ignoram e ocultam, em todas as suas manifestações.

Há, sim, portanto, algo do homo domesticus nessas figuras a que se refere Borges; e, bom, a domesticidade é tipicamente canceriana. Por outro lado, nem sempre os heróis de Kafka – e muito menos os heróis de Câncer – são exatamente domesticáveis, no sentido de acatar ordens que não lhes falem ao coração. Por isso também a solução de uma ordem impessoal me parece insuficiente. De novo, o calor humano e os genuínos vínculos afetivos de que estão destituídos os heróis kafkianos não são coisas que eles sejam capazes de reclamar para si com todas as palavras – eles parecem nem chegar a ter consciência de que isso existe -, mas, precisamente por esse motivo, a carência se torna mais radical e pungente. Ainda assim, o calor e o acolhimento que buscariam, se soubessem que é disso que mais sentem falta, nada teria de vulgar, pois dizem respeito a uma forma de pertencimento que de maneira alguma se resume a um lugar numa ordenação burocrática ou mesmo num esquema familiar padronizado. Se Kafka parece tão radical em sua exibição do polo negativo desse espectro da experiência, é porque não estaria disposto a transigir em nenhum ponto com aquilo que lhe era mais caro.

De modo que desconsiderou o retorno proustiano ao passado como alternativa para um presente seco, estéril e deprimente, por exemplo. Não, a sensação de pertencimento que ele valorizava e queria não estava num mundo perdido que a narrativa poderia de algum modo recuperar. E, ainda mais notavelmente, não há praticamente nenhuma lembrança de conforto nas narrativas kafkianas, que parece desconfortável inclusive nas fotos de sua infância, como notou o filósofo Walter Benjamin. Não encontramos na história de seus protagonistas quase nenhuma menção a uma antiga de paz e felicidade, o que só torna mais perturbadora sua carência de qualquer esperança. “Há esperança sim, esperança suficiente, esperança infinita – só que não para nós”, ele teria dito, aliás, como também lembrou Benjamin. Esperança negativa talvez seja outro conceito adequado para descrever o sentimento que nos atravessa com a leitura da obra de Kafka.

Mas ele afirmou também que, se vivemos no exílio, se a nossa condição humana é da culpa e da falta, isso acontece “não apenas porque comemos da Árvore do Conhecimento, mas também porque ainda não experimentamos da Árvore da Vida”. Pois bem: suspeito que essa Árvore da Vida, com seus frutos e sua sombra, com suas raízes e suas folhas, é uma árvore canceriana. É ela, e não a pacífica domesticidade burguesa, que representa a verdadeira presença de Câncer na obra de Kafka. O fato de que não a tenhamos provado ainda talvez seja indício de uma esperança, assim com a ausência de qualquer outra menção a esse respeito, no restante da obra, além dessa passagem, pode muito bem ser a prova definitiva de sua existência.

E uma última observação. É possível que a crítica literária acadêmica séria fique um tanto escandalizada com esse tipo de interpretação da obra de autores tão complexos a partir de seu signo do zodíaco. Se ela já estremece diante de qualquer análise de uma obra que a reduza a reflexos de elementos da vida do artista, que se dirá da análise de uma obra a partir da data de aniversário do autor. Paciência: nesse espaço levamos a astrologia a sério, mas literatura é só na brincadeira mesmo. A crítica literária acadêmica séria, então, é algo que nunca deixa de ter lá sua graça.

De todo modo, no caso desse texto em particular, tenho o álibi de ter defendido que atributos do signo solar de Kafka estão absolutamente ausentes de seus textos. Isso, claro, para mim mostra mais uma vez a pertinência do viés astrológico. Mas ninguém pode garantir que não esteja fazendo algum tipo de volteio retórico para confirmar o cancerianismo kafkiano, pela via negativa, que já se tornou tradicional na leitura de seus escritos. Que seja. Ainda assim recomendo: quando for ler Kafka da próxima vez, repare bem, Câncer está lá, o acolhimento está lá, a Árvore da Vida está lá. Exatamente porque não está.

Enfim, pensando aqui agora, acho que vou passar a usar esse argumento agora todas as vezes que alguém me disser: “olha, meu signo é tal, mas nunca me identifiquei com ele, não pareço nada com o que dizem, acho esse negócio de signo a maior furada”. Quem diria, parei aqui para escrever uma postagem rápida e rasteira sobre Kafka e o signo de Kafka e de quebra acabei criando um todo novo caminho para a disseminação do saber astrológico, capaz de provar definitivamente mesmo aos mais incrédulos que esse negócio de signo existe sim e faz todo sentido. Grande dia. Está fundada a Astrologia Negativa.

astros

Pausa para Netuno

Foto: Abbas Kiarostami

Quem acompanha esse blog com alguma regularidade pode ter percebido que ele não teve novas postagens durante as últimas semanas, depois de um ano e pouco em que honrei de modo fervoroso e capricorniano o compromisso de escrever sempre aos domingos pelo menos. O motivo da pausa é simples, exato, geométrico, e ao mesmo tempo um tanto nebuloso e impreciso: Netuno em trânsito em quadratura com meu Netuno natal, e agora praticamente estacionado sobre a minha cauda do dragão (o Nodo Lunar Sul) em Peixes.

O que isso quer dizer, eu não tenho como explicar com clareza, daqui de onde estou agora – inundado por todas essas águas, e vivendo em meio a sonhos e lembranças e notícias e demandas que me transportam para os passados que vivi e para outros que não tenho muita certeza de me terem acontecido, a não ser em viagens de ácido. É complicado atravessar esses trânsitos enquanto a gente tem que continuar seguindo com a vida, cuidando das crianças, agendando reuniões, discutindo pedagogias, fazendo a janta. Caiu então a obrigação que dependia só mesmo de mim para cair, e parei de escrever para o blog.

De todo modo, posso garantir que tais sensações e eventos correspondem com precisão absoluta àquilo que podia ser previsto para uma quadratura de Netuno em conjunção com o Nodo Sul (em Peixes). A astrologia consegue ser incrivelmente literal em suas sincronicidades, sem deixar de ser surpreendente. É claro que eu sabia de antemão que esses movimentos estavam chegando. Mas foi só mesmo quando recebi uma mensagem na semana passada (durante um conjunto de trânsitos menores na mesma região dos signos mutáveis) que entendi o que estava em jogo, e de que maneira mais direta o inespecífico Netuno iria se manifestar.

Por quanto tempo o blog ficará sem atualizações, não tenho como prever (embora seja de se esperar que daqui a umas três semanas Netuno vai me dar um descanso, o que, no caso dele, significa me deixar trabalhar). Enquanto isso, continuarei revisando os textos anteriores e quem sabe fazendo uma seleção para publicar em livro (alô, editores, alguém?). Porém, o mais importante é que – vocês podem estar certos – continuarei recolhendo material para a obra que planejo escrever nos estertores da vida, e que deverei deixar como testemunho de uma existência dedicada à observação dos planetas e seus ciclos.

Nela, após admitir que, por uma questão de princípio, não acredito nem nunca acreditei na astrologia, vou elencar as minuciosas conexões que identifiquei durante a vida inteira entre os acontecimentos celestes e os episódios da minha existência. Após afirmar que toda suposição de uma influência dos astros nos fatos terrenos só pode decorrer da mais tola crendice supersticiosa, vou reconhecer as multiplíssimas maneiras pelas quais assisti os astros e seus movimentos realizando as mais perfeitas traduções das experiências pessoais de inúmeros amigos e conhecidos. Declarar-me-ei então abobadado com essas contradições, e sem condições de oferecer a elas uma solução que não seja a de acatar seu mistério.

Porque, enfim, o legal de você no fundo não levar a astrologia totalmente a sério, mesmo quando você já se tornou um astrólogo e tudo, é que você nunca deixa de se assombrar com as maravilhas que ela é capaz de oferecer.

Permanecerei cético, portanto, isso está decidido. Astrólogo e cético. A astrologia seguirá sendo para mim algo totalmente destituído de qualquer base ou justificativa pertinente. Dito isso, agora com licença que eu tenho que ir ali me ocupar com Netuno e minha cauda do dragão.

astros, peixes

Aprendendo a nadar

David Hockney | A Bigger Splash (1967)

Marte ingressa em Peixes por agora, no começo dessa quarta-feira, onde vai seguir seu curso por seis semanas. É o último signo em que deve permanecer por um tempo regular antes dos muitos meses de suas idas e vindas em Áries, a partir do final de junho. Trata-se do planeta cujas mudanças no elíptico zodiacal são mais perceptíveis para nós à flor da pele, porém seu ingresso em um determinado signo geralmente é acompanhado de efeitos muito diferentes no ânimo de cada um de nós. Os piscianos, por exemplo, com Marte em Peixes podem ter um influxo de energia de tirar o sono. Já o pessoal de Áries tem maiores chances de sentir um sono de tirar as energias.

Isso, por um lado, reforça o fato de que, mesmo em épocas de condicionamentos tão restritivos como os atuais, até mesmo indivíduos que estejam vivendo as mesmas rotinas e repetições diárias sob o mesmo teto podem ter enormes diferenças de comportamento, que independem das circunstâncias externas mais aparentes, mas não deixam de estar vinculadas a influxos mais sutis do ambiente. Nós somos “de Marte” do mesmo jeito que somos “de Lua”.  Por outro lado, é das interações, conflitos e negociações entre esses vetores que se faz a vida em comum, de modo que o Marte em Peixes aqui em mim saúda o Marte em Peixes aí em você. Espero que de alguma forma eles se entendam.

Mas nada impede que a gente aproveite o momento para compartilhar um exercício de entendimento do que significa “Marte em Peixes” em um plano mais estritamente simbólico e arquetípico. A primeira expressão que me vem à cabeça é “Guerra Santa”. Por razões óbvias: Marte é planeta guerreiro, e Peixes é a região do zodíaco associada ao sacrifício. A combinação parece propícia ao martírio, bem como à luta obstinada em defesa de ilusões, justamente quando elas se mostram mais insustentáveis. Há algo em Peixes que torna Marte um agente das mais fantasiosas batalhas. No entanto, há algo também capaz de dar um fim a toda luta e sofrimento.

Nesse último sentido, Marte ingressando em Peixes é como uma flecha que cai na água. Ou como um caçador que não quer mais apenas lutar pela sobrevivência, e decide sair em busca do cálice sagrado. Se a gente parar para pensar, o que há de sagrado no cálice? O espaço em seu interior. Acontece que o espaço no interior do cálice é o mesmo espaço ao redor do caçador. Não é preciso sair para buscá-lo. É só respirar. Marte, portanto, em circunstâncias normais, trata de garantir sua sobrevivência. Mas o signo de Peixes é tudo menos “circunstâncias normais”; em Peixes, a existência se basta. Marte em Peixes se parece então com uma flecha que cai na água, aprende a ser peixe, e de repente começa a nadar.

livros

Kafka contra o “e daí?”

Imagem: Peter Kuper

Tenho a alegria breve, mas recorrente, de todo início de semestre poder discutir com a turma de ingressantes do curso de Letras onde leciono alguns clássicos da literatura mundial. Um deles é A Metamorfose, do escritor tcheco Franz Kafka. Esse livro quase nunca sai do programa da disciplina, porque há sempre interpretações que me surpreendem, experiências de leitura que me comovem, ênfases em que nunca prestei atenção antes. A maneira como cada aluno entende a história varia de forma surpreendente. Isso, é claro, deve-se ao fato de que a narrativa não trata apenas da transformação de um homem em um gigantesco inseto, mas também das metamorfoses da família de Gregor Samsa, o protagonista, a partir do momento em que o vê em sua forma monstruosa.

O elemento fantástico poderia até ser retirado do texto, que ele manteria suas linhas gerais. A situação de Gregor no quarto onde fica isolado com frequência se parece com a de alguém sofrendo de um mal súbito e ao mesmo tempo lentamente degenerativo, sob os cuidados (e a repulsa) de parentes que não sabem como lidar com a catastrófica mudança. No mais das vezes, aliás, o comportamento da família está longe de ser exemplarmente compadecido, e eles o rejeitam (o que ele se tornou) de maneira peremptória e escandalizada. Porém não chegam a expulsar o inseto de casa, de modo que ele sobrevive por um período, contando com a ajuda eventual da irmã ou de uma faxineira.

Essa situação se alastra por mais tempo que o leitor imagina a princípio. Talvez por mais tempo que ele estaria se preparado para aguentar. Nesse sentido, o relato integra uma tradição narrativa que vai de Rei Lear, a tragédia de William Shakespeare, a Breaking Bad, a série criada por Vince Gilligan, nas quais uma situação intolerável ou destrutiva prossegue por tempo demais deixando um rastro de caos e sofrimento. Em resumo, são experiências trágicas em que o pior está no começo, e o que vem a partir daí é o pior do pior, o pior mais pior ainda, o pior em sua versão piorada ao quadrado – de modo que a corda da insensatez e crueldade humanas estica e estica e estica, e parece que não vai nunca arrebentar.   

Uma das características mais marcantes do ritmo de A Metamorfose é, então, o quanto o livro exige do leitor em termos de estômago para tolerar o sofrimento de Gregor. Mas uma hora a corda arrebenta, e, em tais circunstâncias, isso não deixa de ser motivo de alívio. Acho que não conta como spoiler dizer que Gregor terminará morto e descartado. Por mais melancólico que seja, esse desenlace é esperado e previsível, dentro do universo de relações construído no texto. O que de certa forma nos surpreende é a maneira como a narrativa em seguida se desloca para o lado de fora do apartamento, quando o pai, a mãe e a irmã de Gregor saem para dar um passeio.

Só então nos damos conta da extensão do período em que permaneceram confinados lá, e nós leitores com eles. O narrador afirma que eles teriam ficado meses sem sair de casa, e descreve como aproveitam a luz do sol durante um passeio de bonde. Em seguida, os três falam entre si dos novos empregos que conseguiram; comentam como a situação da família não parece de maneira alguma má, vista daquele ângulo; e os pais sentem como que uma confirmação de seus bons prospectos, quando Grete Samsa, a irmã de Gregor, se põe de pé diante deles ao saltarem do bonde, espreguiçando-se e estendendo o corpo jovem.

Gosto dessa cena, da sugestão de uma metamorfose orgânica concluída, após uma etapa de intensa e dolorosa reclusão – o movimento de Grete como o de uma borboleta saindo do casulo à luz do sol. Gosto particularmente da transformação que Grete sofre no decorrer da trama. Gosto do final do conto, portanto – embora o próprio Kafka não gostasse. Ele afirmou em uma carta que o teria escrito quase a contragosto. Foi o que deu para fazer, é como se dissesse, pelo que me lembro; foi o que saiu na hora.

O fenômeno não é incomum em sua obra. Mas não quero me dispersar aqui, por mais que ache o tópico interessante. Vamos voltar ao encerramento de A Metamorfose, portanto: à família que sai para a rua depois de meses de confinamento, vivendo o luto pela perda de um parente, e ao mesmo tempo tendo, enfim, um descanso de um longo e inimaginável esforço, exigido por circunstâncias imprevistas, que de súbito se tornaram absolutamente determinantes em suas vidas. Qualquer semelhança com nossa realidade de agora só reforça aquela observação anterior: não se trata, necessariamente, de um conto fantástico.

E, nem por isso, deixam de ser incríveis as variações da reação de quem lê. É sobre isso que eu queria falar. Essas reações podem variar inclusive para uma mesma pessoa. Na primeira vez que li, por exemplo, lembro de como a atitude da família me pareceu abominável. Na segunda vez, percebi que eu mesmo talvez não agisse de modo muito distinto nas mesmas circunstâncias. Na terceira, achei bonito o final, em que os três integrantes da família recuperam sua autoestima ao contornar a crise financeira que os ameaçou (há indícios de que antes dela os três viviam meramente à sombra do primogênito). Depois, acho que consegui conciliar um pouco essas perspectivas.

E olha que estamos falando apenas das minhas impressões. Agora imaginem acrescentar a esse caleidoscópio as leituras de vários alunos por semestre. É verdade que nem todos comentam o texto, nem todos leem, mas ainda assim são muitas perspectivas, que decorrem de diferentes campos de experiência, situações sociais, hábitos mentais, bagagens familiares, lembranças, temores, expectativas. Às vezes, o que a pessoa comeu no café da manhã interfere no jeito como ela lê o texto. Às vezes – vamos supor uma relação mais direta – a pessoa tem pânico de baratas.

E, no entanto, faz parte do nosso trabalho (sobretudo do meu, no caso) tentar entender como essas variações se articulam com sistemas mais amplos de valores. Não cabe a mim, do modo como entendo minhas tarefas docentes, oferecer uma interpretação correta do texto, mas tampouco devo me deixar levar por um relativismo preguiçoso, que ignore as potencialidades de um trabalho crítico mais atento. Ou seja: interpretações, percepções e julgamentos referentes à leitura têm implicações e consequências, carregam uma adesão natural a determinados valores, e isso deve ficar claro para eles, para os alunos. Do mesmo modo, algumas escolhas implicam a rejeição de outros valores, ou pelo menos uma escala de prioridades.  

Trata-se, assim, de uma questão pessoal e política. A maneira como respondemos a uma narrativa, por um lado, tende a estar de acordo com nossos sentimentos morais, e por outro apresenta certa coerência com nossas posições e ações práticas. O conhece-te a ti mesmo do oráculo de Delfos se aplica, então, ao trabalho do professor na leitura e interpretação de textos em sala de aula. Meus esforços nesse caso estão voltados para que meus alunos se conheçam um pouco melhor, compreendendo o que valorizam e o que repudiam a partir dessas leituras, conferindo algum grau de abstração às reações mais imediatas e concretas que elas proporcionam.

Nesse trabalho, é sempre possível identificar afirmações parecidas e recorrentes sobre um texto e seus personagens, ainda que opostas ou conflitantes, integrando sistema de valores em disputa. O interessante, e um pouco triste, no caso de A Metamorfose, é como as duas principais tendências verificadas – a que compreende a atitude da família de Gregor ao falar de alegrias e bons prospectos no final, após enfim sair de um confinamento de muitos meses, e a que condena a pressa com que ela se recupera da perda, sem nenhuma menção a Gregor durante o passeio – podem vir a ser bastante reais e conflitantes para muitos de nós, num futuro até bem próximo.

Aliás, muitos dos debates que já fizemos sobre o texto de Kafka partiram de um conflito entre alunos que entendiam as preocupações mais pragmáticas, de caráter material ou financeiro, da família de Gregor, e outros que demonstravam maior sensibilidade à fragilidade existencial e ao sofrimento psíquico prolongado de que trata o conto. Mas o relato serve também para que a gente perceba como essas não são tendências que se excluem mutuamente. Em situações extremas como as de A Metamorfose, e em circunstâncias extremas como as atuais, mais do que nunca é necessário o exercício de uma sensibilidade que ultrapasse o âmbito das primeiras reações instintivas.

Costumo ver meus alunos fazendo isso também: presumindo que, por mais que se identifiquem com maior naturalidade a um dos personagens ou perrengues do texto, é sempre preciso ter certa dose de atenção para o lugar de onde o outro está partindo. Ou seja, vejo-os assumir posições distintas, mas com cuidado para alcançar uma espécie de solidariedade mútua, diante de um caso tão singular. Em situações como a do conto de Kafka, portanto, e em situações como a de agora, isso não é mais do que reconhecer o elemento humano que está em jogo, e tal como está em jogo, em suas diversas facetas, envolvendo-se nessas contradições e nuances.

Por isso, de tudo o que já ouvi sobre A Metamorfose de Kafka, e já ouvi muita coisa (inclusive muitos “não deu pra ler, professor”, ou então, “ih, achei meio chato, só consegui chegar na terceira página”), a única coisa que teria realmente me tirado do sério, a única coisa que acharia inadmissível, a única que eu não teria tentado compreender como expressão de uma posição moral ou política legítima e coerente, seria um “e daí”. Tipo: “Pô, professor o cara virou uma barata e morreu, que que você quer que eu faça? E daí?”. Ou: “Foda-se que o sujeito morreu, que é que eu tenho a ver com isso?”, o que seria praticamente a mesma coisa.

Eu ficaria perplexo se um aluno dissesse algo assim sobre um personagem de ficção. Agora imaginem isso vindo alguém ocupando um cargo público importante, e respondendo a uma pergunta sobre 5.000 mortos entre a população que governa. Não vou me estender nesse comentário, porque ninguém merece (aliás na semana que vem voltaremos a nossa programação regular, de reflexões e brincadeiras astrológicas). Só queria deixar o registro que esse “e daí” que escutamos nessa última semana não diz respeito a nenhuma prioridade política ou econômica, não se articula com nenhum conjunto de valores, não compõe nenhum sistema de pensamento, por mais básico que pudesse ser. É apenas uma afirmação a mais da crueldade narcísica que não conhece nada além do próprio vazio.

Não escrevo para mudar a opinião de quem é capaz de consentir com essa atitude; esses, infelizmente, estão irremediavelmente perdidos. Esse “e daí” – e as aprovações que recebeu, em sua suposta “autenticidade” – é mais um tapa na cara de quem insiste em discutir com os partidários do foda-se institucionalizado. “Nós não vamos mudar, nem diante de 5.000 mil mortes, e nem diante de uma morte próxima, nem diante de ameaças à nossas próprias mortes”, é o que acredito que estão implicitamente dizendo. “Vocês ainda não entenderam: a vida para nós deixou de ter qualquer significado”.

Em tempo: quando alguém fala “e daí”, quando alguém declara que não tem nada a ver com algum assunto, não estamos mais no âmbito da política. Viver politicamente é ter a ver com os assuntos. Por isso, é mais inacreditável ainda que a declaração tenha partido de onde partiu. Não falo da pessoa, mas do cargo. Mas queria terminar lembrando dos meus alunos, cujos comentários sobre o texto do Kafka costumam ir no sentido oposto, não por estarem no outro polo do espectro político, mas por estarem inseridos nele, envolvidos com a questão humana que ele presume, e que requer tomadas de posição difíceis, jamais solucionáveis na base de um simples dane-se. Acho que foi também a falta que sinto deles, e desses debates, que me estimulou a tratar do texto de Kafka aqui.

Aquilo que vivemos presencialmente, nos cursos de humanas e artes das universidades, é, com bastante frequência, justamente o extremo oposto desse “e daí” inacreditavelmente presidencial. Talvez seja por isso que queiram sufocar – e em última instância extinguir – aquilo que somos e fazemos. Não se trata de combater uma postura política específica a partir de outra; para fazer isso todos serão muito bem-vindos em minhas aulas, só para dar um mínimo exemplo, onde talvez eu possa ajudar também a compreender melhor os valores implicados em cada posicionamento. Trata-se de eliminar a própria política do debate, uma vez que ela presume o respeito a posições contrárias às nossas, e um mínimo de sensibilidade ao sofrimento do outro.

Enfim, são muitas as metamorfoses possíveis e provavelmente em curso no período que estamos vivendo agora. Não sei exatamente quais, mas imagino que requeiram energia e dedicação do nossos corpos, mentes e almas. Infelizmente, cá estamos nós perdendo tempo com quem é imune a qualquer tipo de transformação ou mudança. Mas isso há de passar. E a literatura continuará aí, sendo não apenas um ponto de encontro para visões de mundo semelhantes, como também uma forma de elaborar visões de mundo distintas. Ela serve pra muita coisa; só não serve para a negação do mundo humano, com seus desejos, conflitos e conciliações. Para isso realmente bastam duas palavrinhas. Para isso ninguém precisa ler ou escrever livros. Para isso, de fato, basta dizer “e eu com isso?”. Para isso basta o “e daí”.

capricórnio, gêmeos, peixes

O potencial, o real e o ideal

Lamentação de Cristo (c. 1305) | Giotto

Outro dia escrevi aqui sobre Gêmeos e Capricórnio, mas deixei passar um dos temas mais importantes dessa relação: a maneira como ambos personificam as figuras do puer e do senex, ou da Criança Divina e do Velho Sábio (prefiro os termos em latim porque não carregam uma conotação positiva ou negativa). Acho que o assunto tem a capacidade de mostrar como todos nós todos temos “Gêmeos” e “Capricórnio” operando em nossa dinâmica psíquica – em alguns casos mais acentuadamente, em outros menos –, o mesmo valendo para todos os outros arquétipos do zodíaco, de modo que a interação e as negociações entre eles é que configuram de fato um mapa astral.

Por outro lado, o puer e o senex são figuras arquetípicas da psicologia analítica junguiana cuja associação com apenas um signo ou par de signos seria equivocada: há traços da criança que encontramos em Leão, por exemplo, assim como há traços do velho que podemos encontrar em Aquário. Por aí vai. E, assim como ambos podem funcionar como polaridades nos conflitos de uma mesma pessoa, eles podem funcionar como polaridades nos conflitos internos de um só signo, pela maneira como um muitas vezes presume e implica o outro. Mais à frente veremos como isso funciona em Peixes, signo no qual a criança e o velho coexistem em uma unidade problemática e rica em imagens significativas.

Voltando a Gêmeos, porém. Aqui o puer aparece em sua versão 1.0: é Hermes, ou Mercúrio, filho de Zeus, irmão mais novo de Apolo, em quem ele pregou uma peça pouco depois de nascer. Isso nos faz lembrar que existe algo de malandro e travesso na “criança divina”, mas também que existe algo de divino na malandragem geminiana. E isso é algo que a gente pode facilmente deixar passar nas descrições mais caricatas ou maliciosas de Gêmeos, um signo que, por sua própria natureza, convida a esse tipo de descrição. Fica o registro, portanto: haverá sempre algo em Gêmeos que partilha do código genético dos deuses – e haverá sempre algo nos deuses que parece proteger a alma geminiana.

Em um plano arquetípico, aliás, entendo que Gêmeos pode fazer o que quiser a vida. Veio ao mundo para brincar nos campos do Senhor, em parte por contar com a condescendência dos velhos, em parte por saber entretê-los e encantá-los (o que o aproxima do pícaro, do bufão, do bobo, do comediante). Isso é até certo ponto válido para quem tem o ascendente em Gêmeos, e algo semelhante pode ser dito do ascendente em Leão (mais informações sobre essa interpretação do papel do ascendente no horóscopo, aqui). Agora, se você é geminiano, ou tem a Lua em Gêmeos, pode ir tirando seu cavalinho da chuva, porque isso já complica um pouco mais as coisas.

A puerilidade geminiana pode até ser divina, mas nem mesmo o deus Hermes esteve à salvo de tomar uns tombos na vida. Muitas vezes, para grande surpresa dele próprio. O puer tem o impulso de transitar por aí como se fosse destinado a ser bem recebido em todos os lugares – afinal, ele é tão inocente, tão despreocupado, tão engenhoso, tão engraçadinho – até se ver diante de uma porta que bate na sua cara como se dissesse: te saquei, malandro, aqui não. Deste modo, seja sob a forma de pessoas, acontecimentos ou obstáculos, o senex vai aparecer ao puer como uma força restritiva ou limitadora, da qual ele depende para conferir as virtudes da consistência e da profundidade aos resultados de seus diversos talentos.

Então, quando digo que o puer-senex é um par que existe como tal em nossa dinâmica psíquica, é porque um depende do outro para se desenvolver. Mas nada impede que um indivíduo se identifique com o puer e projete o senex em um mundo que lhe parece limitador e restritivo, ou em figuras de autoridade que considera moralistas e enrijecidas, na tentativa de preservar um estado de eterna inocência infantil, e de preservar-se das frustrações da vida. A gente vê o tempo inteiro pessoas alegando que, se não fossem as estruturas externas limitadoras, elas teriam realizado as obras geniais que existem em latência no seu espírito. O que muitas vezes está implicado aí é que essas pessoas optaram por não internalizar a estrutura restritiva – o senex, agente do esforço, da paciência e da forma, fundamental na realização de qualquer trabalho de fôlego – de modo a não ver seus ideais reduzidos ao que a realidade seria capaz de fazer deles.

Quem já se arriscou em um trabalho criativo sabe: todo tipo de realização artística implica uma dose de resignação. O senex em nós existe para que este processo seja levado até o fim. O puer existe em nós existe para que ele comece. Por outro lado, há quem se identifique unilateralmente com a figura do senex, e alega que, se não fossem os irresponsáveis, os inconsequentes, os preguiçosos – em uma palavra, os “artistas” –, nossa sociedade estaria em um estado menos deplorável. Em toda pessoa que afirma isso, existe um puer reprimido, que quer ganhar asas e voar, ou simplesmente permitir-se algumas tardes de ócio criativo. Mas, infelizmente, o ódio destrutivo se torna o substrato alquímico de quem nega a si mesmo esses prazeres.

Ou seja, um se compromete com uma linha de ação, e não vai alterá-la nem sob a mais forte inspiração divina. Outro não se compromete com nada nem ninguém, pois nada nem ninguém parece merecer o compromisso que ele guarda para quando a hora certa chegar. No campo dos relacionamentos, então, o puer estará sempre postergando a consagração de laços estáveis, quando não está simplesmente saltando de um relacionamento para o outro, e não só por imaturidade. Às vezes, ele carrega o sentimento de estar destinado a algo especial, e o rompimento precoce das relações é uma forma de evitar que se desdobrem da maneira ordinária e tão ameaçadora para o ideal.

Quanto ao padrão de comportamento do senex nessa área, vou precisar de fazer ainda um texto à parte com um estudo de caso, o do escritor russo e aquariano Anton Tchekhov, que só descobriu o puer que existia nele após seu retorno de Saturno, aos trinta anos. A história é intrincada e merece ser bem descrita. Farei isso em breve. Dá para antecipar que, enquanto a volatilidade é o traço mais marcante do puer enquanto amante, o senex ocupa com sua rigidez um polo oposto, fixo e encastelado. “Encastelada”, porém, é, curiosamente, a situação arquetípica em que encontramos a puella, a versão feminina do puer.

Ela é a princesa que, nos contos de fadas, encontra-se à espera de um milagre. Mas o comportamento ativo e volátil do puer mercurial e a atitude aparentemente passiva e fixa da puella sonhadora são iguais em sua rejeição do compromisso e do engajamento em uma história verdadeira. A propósito: que a puella se queixe da falta de seriedade ou bravura de seus pretendentes pode muito bem ser o motivo pelo qual ela escolhe pretendentes pouco sérios, ou pouco corajosos, para ter de quem se queixar. Até certo ponto, o puer e a puella vivem muito bem e despreocupadamente no plano das potencialidades abertas e imaginadas. Na medida em que o tempo passa, porém, eles podem precisar mais e mais de ter a quem culpar pelo fato de nada ter sido realizado.

Aliás, uma boa maneira de identificarmos uma possível adesão unilateral nossa a um desses arquétipos é um excesso de reclamações gratuitas a respeito do outro. Quando a gente começa a distribuir sem critério lamentos e acusações sobre a natureza pueril ou inconsequente de pessoas com quem nos relacionamos, no presente ou no passado (pessoas que talvez até possuam essas características, mas não a ponto de merecer tanto de nossas atenções e memória), é provável que exista algo em nós precisando de descanso, liberdade e ânimo criativo. Por outro lado, quando a gente começa a denunciar o moralismo ou o materialismo do resto mundo ao redor, sem que ninguém tenha pedido nossa opinião, é possível que nossa opinião esteja enviesada pelo desejo inconsciente de receber um pouco de admiração e de respeito bem mundanos (ou seja, a admiração e o respeito que as realizações mundanas outorgam ao senex).

Podemos ter uma afinidade maior com um desses arquétipos sem converter isso em uma neurose mais grave, é claro. Assim como podemos alternar entre um e outro no tempo e no espaço. Um equilíbrio absoluto entre esse tipo de polaridades é por definição impossível – tudo o que podemos tentar obter é uma espécie de equilíbrio dinâmico. Nem por isso análises pouco equilibradas do fenômeno são menos enriquecedoras, e as mais famosas se notabilizaram exatamente por tomarem partido de um ou de outro.

Recomendo, em primeiro lugar, um estudo que é notavelmente anti-puer, não necessariamente tomando o partido do senex, mas vendo-o da perspectiva do arquétipo materno feminino (que seria em parte responsável pelo menino mimado que ele se tornou, mas também capaz de lhe impor limites de uma origem mais atávica e profunda). Falo do livro de Marie-Louise Von Fraz, Puer Aeternus: a luta do adulto contra o paraíso da infância, que começa por uma análise da dimensão pueril de O Pequeno Príncipe e da personalidade de seu autor, Antoine de Saint-Exupéry. A autora, cabe lembrar, foi colaboradora de Carl Jung, e se tornou conhecida por suas análises da psicologia dos contos de fadas.

Outro livro importante, este mais abertamente favorável aos talentos e inspirações do puer (justamente no confronto com as limitações e rabugices do senex) é The Puer Papers, de James Hillman. E, para quem quiser ter uma visão mais ironicamente balanceada, indico o último ensaio de Liz Greene do primeiro volume dos Seminars on Psychological Astrology, que que já mencionei nas indicações bibliográficas dessa postagem aqui. Este tem a vantagem de ver o assunto na perspectiva da astrologia e do zodíaco. Mas a primeira parte do ensaio não presume nenhum conhecimento prévio nessa área, e pode ser útil mesmo para quem quiser ver as coisas de um ponto de vista estritamente psicológico.

Agora, para terminar, temos o puer e o senex em Peixes, como mencionei lá no começo. E aqui as coisas ficam bem interessantes. Porque, por mais que a gente queira matizar os raciocínios e os estereótipos, dá para ver como Gêmeos e Capricórnio costumam representar bem os comportamentos polarizados do puer e do senex, respectivamente. Quando falamos de Peixes, no entanto, a infantilidade e a senioridade coexistem no arquétipo de modo mais intrincado e sutil; em Peixes habitam uma criança e um ancião que são uma mesma pessoa, e isso gera alguma confusão, como era de se esperar, mas pode também criar uma nova espécie de beleza, através justamente do resultado do confronto entre o potencial e o real. Dá para a gente ver isso no comportamento de alguns piscianos. Mas, antes, para termos um caminho para a aproximação a esse fenômeno, dá também para gente ver como isso aparece na história de Jesus Cristo.

Pois Cristo, além de ser um inaugurador apropriado da Era de Peixes que se encerra agora, integrou também a linhagem da criança divina. Aliás, Liz Greene observa como o puer arquetípico muitas vezes aparece com as mãos ou os membros machucados ou mutilados, o que parece ser uma consequência de seu contato com o mundo, com a matéria, com a realidade. Um primeiro exemplo é Ícaro, herói tipicamente juvenil, que recebeu suas asas de Dédalo, sob advertências para que não se deixasse levar pelo entusiasmo, sendo que nem isso impediu que ele as queimasse ao ir de encontro ao sol. Jesus, por sua vez, partilha desse destino de um modo ao mesmo tempo mais trágico e menos catastrófico: sua derrocada no plano terreno é um fracasso que não deixa nunca de prometer futuros sucessos.

Notem: a humanidade a princípio não recebe muito bem sua palavra, com seus ideais elevados e pouco práticos, meio piscianos mesmo, e pelo menos parte dela, a que se encontra em posições de autoridade estabelecidas e imperiais, se mostra bem convicta de que cravá-lo em uma cruz e expor sua corporeidade humana sangrando é a melhor coisa a fazer. Dostoievski explorou esse argumento em “O Grande Inquisidor”, um conto enxertado no romance Os Irmãos Karamazov, que pode ser lido separadamente; nele, Cristo retorna e é mais uma vez crucificado por ordem de um senex da igreja inquisitorial que está plenamente consciente de sua filiação.

Mas, por mais doloroso que seja seu fim, ele depende dessa morte para permanecer como uma espécie de ideia, fomentando o sonho de que um dia o reino que prometeu chegará, será realizado, está por vir. Existe então certa cumplicidade entre a dimensão espiritual, a que se eleva para além do raso das ambições terrenas, e a material, que a traz para o chão de modo que possa alçar outro tipo de voo. O mito não diz respeito apenas ao personagem, mas está inevitavelmente ligado à sua história, a tal ponto que suas escolhas e o que lhe é imposto desde fora se entrelaçam e se confundem. Em um certo sentido, Cristo se oferece em sacrifício no plano material para manter vivo o sonho do que prometeu.

Nesse sentido, para quem já chegou aos 40, como eu, é interessante perceber que Jesus Cristo nunca chegou a ser exatamente um adulto. Ele mal superou seu retorno de Saturno e já foi correndo caçar encrenca que interromperia sua vida pouco depois. Carregou sua cruz, é verdade, mas só por um caminho bem curtinho; esse caminho pode muito bem ser sum símbolo do que todos nós temos que suportar em nossas trajetórias individuais, mas não deixa de ter sido para ele relativamente breve, levando-o a uma morte precoce. Ou seja, o Jesus histórico nunca deixou de ser um puer. Mas o Jesus simbólico é também a cruz, a matéria, e realidade que o nega e o rechaça, e, portanto, é a promessa que ainda assim sobrevive à crucificação, é o reino impalpável e imune a qualquer teste do real que nasce junto com ela.

Por isso, o tipo de sonho e de idealismo que encontramos em Peixes pode ser tão resistente à realidade dos fatos. Porque não aponta para algo que se imagine realizável nesse mundo, não se trata de um potencial a ser testado aqui. Muito pelo contrário: esse mundo pode refutar a aspiração pisciana de todos os modos possíveis, pode até mesmo pregá-la numa cruz e fazê-la sofrer humilhações e derrotas, que ainda assim ela sobreviverá, será inclusive alimentada pela frustração e pela violência. É claro que isso pode ter consequências complicadas no plano individual, e com frequência tem. Mas nem por isso deixo de ver no plano arquetípico uma bem-vinda síntese, ainda que aberta para o futuro e para o porvir, na história dos confrontos e dos encontros entre puer e senex.

aquário, câncer, leão, sagitário

Eu e meu irmão

Foto: Ramon Lisboa | EM | D.A. PRESS

Estava aqui pensando em estratégias para lidar com o isolamento, em como há práticas simples que podem ser valiosas nessas horas. Coisas que rendem assunto, tomam o tempo e abrem insólitas janelas em espaços confinados. Aí me lembrei de uma época em que eu e meu irmão costumávamos contar um para o outro pelo telefone de manhã os roteiros dos filmes que víamos de madrugada. Bom, a gente ainda não era irmão nessa época. Quer dizer, nós éramos, já havíamos decidido ser irmãos gêmeos inclusive, mas por outro lado éramos menos irmãos do que a gente ia ser. Complicou né? Essa história é meio tortuosa mesmo, e ao mesmo tempo é simples. Não vai dar para seguir adiante sem contá-la. Vamos deixar o confinamento e suas aflições de lado por enquanto. A partir daqui esse fica sendo um texto sobre meu irmão e eu.

O começo é fácil de entender. No papel, nós somos primos. Meu pai e a mãe dele são irmãos. Meu pai se casou com minha mãe mais ou menos na mesma época que a mãe e o pai dele se casaram, e logo em seguida ambos casais tiveram filhos, de modo que nós dois nascemos com alguns meses de diferença (ele é o mais velho). Creio que ambos os casais se separaram mais ou menos na mesma época também – ficaram juntos uns poucos anos – de modo que nós permanecemos filhos únicos durante um tempo. Os outros primos de nossas famílias tinham irmãos. Nós não. Esse foi um dos motivos pelos quais decidimos ser irmãos um do outro. E, para ganhar dos outros primos em termos de irmandade, já que gente saiu perdendo, decidimos ser mais do que isso, decidimos ser irmãos gêmeos.

Os outros motivos dessa definição – talvez os mais importantes – foram: um, a convivência, graças à proximidade física (fomos vizinhos durante um tempo, os casais do parágrafo anterior compraram apartamentos um de frente pro outro), e, dois: o imponderável, porque não dá para medir ou explicar a afinidade que sentimos desde o começo. Na minha lembrança aliás a gente nunca não-foi-irmão; preciso fazer um esforço para recordar os detalhes de antes de a gente ser. Mas, como eu disse, a gente ia ficar mais irmão ainda depois. É aqui que o enredo se complica.

Aconteceu que, cerca de uma década após as separações de nossos pais, a minha mãe e o pai dele se casaram. Não se confundam, nem se preocupem, não há nada de incestuosamente trágico nessa história; lembrem-se que os irmãos eram o meu pai e a mãe dele. A minha mãe e o pai dele então foram concunhados durante um tempo, perderam o contato (pelo menos é o que consta nos autos) durante muitos anos, reencontraram-se e se apaixonaram um pelo outro depois. Resultado: nós continuamos primos para todos os efeitos legais, mas passamos a morar juntos, com nossos pais que eram casados entre si. Já não éramos irmãos apenas por opção. Havia uma boa dose de destino também.

Esse casamento é uma história à parte, com amizades rompidas, novas suspeitas e antigas ilações. Foi um baque na tradicional família mineira (embora não comportar esse tipo de arranjo seja o menor dos problemas da tradicional família mineira, que em suas boas versões até os comporta; enquanto nas outras as perversões são tão mais sutis, que elas se tornam imunes a esse tipo de golpe). Porém, de nossa parte, minha e do meu irmão, não havia preocupação com o escândalo nem gosto em fomentá-lo. Nós estávamos ocupados demais curtindo adoidados a vida adolescente em uma Belo Horizonte que cujas ruas conquistávamos junto com um bando de amigos adolescentes também, e que tínhamos conhecido não na família, nem no colégio, nem no clube, mas na rua mesmo. E nós estávamos curtindo adoidados a vida de irmãos.

É verdade que nesse meio tempo eu e ele havíamos já ganhado irmãos de outros casamentos de nossos pais (a propósito, acho meio-irmão um termo horroroso). Até peguei para mim, de forma ainda mais ilícita e sorrateira, os irmãos que ele ganhou no segundo casamento do pai dele (essa é também toda uma outra história, que merece ser contada à parte, assim como a dos irmãos que ganhei dos outras casamentos do meu pai, mas aí a trama se enreda de maneira mais estranha e meticulosa, remetendo a segredos familiares muito bem guardados – acreditem, estou contando a parte descomplicada). Vamos então voltar àquilo que já consegui esclarecer: estamos eu, ele, minha mãe e o pai dele vivendo juntos como uma família feliz e serena e saudável. Ou melhor, talvez não tão serena, nem não tão saudável assim.

Acontece que nessa época a gente bebia muito, fumava muito, e topávamos experimentar quaisquer produtos orgânicos ou químicos que apareciam na nossa frente com a promessa de alterar nossos estados de consciência. Muitas vezes nós quatro juntos, em família. As compras de supermercado incluíam garrafas de conhaque e pacotes de cigarro que constavam no orçamento doméstico, em uma categoria prioritária, junto com o arroz e o feijão. O outro componente importante de nossa convivência era a música. Chico Buarque, Legião Urbana, The Doors, Velvet Underground, Tom Waits e Joni Mitchell viviam uma daquelas bandejas em que cabiam um seis CDs, e que ficava rodando lá em casa o dia inteiro.

Talvez, por razões óbvias, eu não me lembre de alguns detalhes dessa época. Sei que minhas notas na escola caíram muito e que terminei o ensino médio no sufoco. Meu irmão se enrolou ainda mais nesse aspecto. Mas tampouco isso era motivo de preocupação. A adolescência é uma etapa leonina e autocentrada da vida, que, dadas as condições certas, pode ser dedicada ao prazer como nenhuma outra que vem antes ou depois. Aliás, ela põe em cena os temas do eixo de opostos complementares Leão e Aquário – a sensação de ser especial e o desejo de integrar um grupo – de tal modo a criar conflitos intrincadíssimos. Mas pode também encontrar uma espécie de solução provisória para a conciliação desse eixo, e acredito que foi isso que nós vivemos.

Sim, foi isso: porque nós estávamos brincando. E a brincadeira, pela maneira como nos envolve em um entusiasmo inconsequente, é justamente o tipo de experiência capaz de articular essa negociação entre o atípico e o ordinário. Havia brincadeiras perigosas, é claro. Mas normalmente não deixavam de ser brincadeiras, sobretudo aquelas tardes conversando e compondo as canções da banda que nunca existiu, aquelas reuniões ao mesmo tempo sérias e hilárias de planejamento dos zines que nunca rodaram, aquela nossa capacidade de passar uma noite inteira dançando e pulando e gritando em um galpão mal ajambrado de Santa Tereza, para depois ver a manhã nascer com deslumbrado encanto, ou com indisfarçável exaustão, enquanto fazíamos a pé o caminho de volta pra casa, ou comíamos pasteis em uma lanchonete do centro da cidade.

Até mesmo o lugar que viria a ser um de nosso preferidos na cidade, uma boate chamada A Obra, era uma espécie de canteiro de obras de mentirinha, ainda que fosse um inferninho de verdade. Ainda é, por sinal, e a gente espera que ela sobreviva a esse perrengue do vírus. Outros lugares importantes eram o canteiro central da avenida Getúlio Vargas na Savassi, o edifício Maletta no centro, a Bródei em Santa Tereza: éramos capazes de percorrer esses lugares numa só noite como quem salta as casas de um jogo de tabuleiros, depois de tirar uma carta como “tome três flamejantes de uma vez na Casa da Vovó”, ou, “salte três casas para chegar logo ao Prado porque tem um amigo lá que está salvando”, ou, “você chegou no fim da linha, vá tomar a saideira no Mercadão”.

É aqui que eu queria chegar. Porque foi aqui que, mais do nunca, eu e o Érico nos tornamos irmãos: brincando juntos na cidade à noite. Rindo muito. Viajando um tanto. Cantando às vezes. É verdade que a gente já havia brincado muito antes na infância, mas acho que não com a mesma intensidade e a dedicação exigidas por uma adolescência movimentada e festeira. Pelo menos de minha parte, posso dizer que foi ali que ganhei para o resto da vida uma força e uma confiança que de modo algum possuía antes. Acho que vi isso acontecendo com outros amigos também. Tem gente que se ferra muito quando é criança, por conta das estruturas familiares ou da falta delas, mas que com sorte encontra depois nos amigos “da rua” uma fonte genuína de segurança e fraternidade, mesmo que depois essa configuração se disperse. Freud que não nos ouça, mas acho que mesmo quem sai dos primeiros anos de vida como o ego estraçalhado pode acabar tendo uma segunda chance. E, se me permitirem critérios um pouco mais relaxados, eu diria que ganhei não um, mas muitos irmãos nessa época.

Por outro lado, tive sorte incrível de que meu irmão mais próximo na rua era também meu irmão em casa, e que na adolescência minhas circunstâncias familiares eram também uma bem-vinda bagunça, parecida com a da rua, de tal modo que a vida em casa se confundia com a vida fora dela. Era tudo uma festa só. Naturalmente, quem tiver um pouco de familiaridade com roteiros de filmes de bandas de rock como The Commitments ou Quase Famosos (que mencionei outro dia nesse post aqui), ou ainda do tipo de Boogie Nights, já percebeu que, uma vez alcançado o ápice desses prazeres irresponsáveis, as coisas tendem a ir ladeira abaixo. Foi o que aconteceu.

O casamento da minha mãe e do pai do meu irmão durou poucos anos. Uns dois ou três. Parece que foi mais. Deu tempo de fazer muita besteira. Vou poupar vocês dos pormenores do final, e quem sabe como termina esse tipo de filme pode imaginar. Eu e meu irmão, porém, fugimos ao princípio entrópico por uns tempos, e conseguimos prolongar um pouco nosso clímax, embora com um pouco mais de bagagem sobre os revertérios da vida. Não nos separamos; fomos morar juntos num apartamento no centro, onde nos tornamos mais e mais irmãos, por força de uma convivência em que, aos porres homéricos e delírios idílicos, foi acrescentada a solidariedade nos períodos de grana curta, a atenção nos momentos de ansiedade extrema, o cuidado nos momentos de saúde instável. Aí já não dependíamos de ter pais casados para reforçar nosso vínculo. Não dependíamos nem de ter pais irmãos para nos sentirmos familiares. A essa altura acho que a gente nem lembrava mais que um dia havíamos sido primos.

Isso durou mais ou menos até eu vir para o Rio, quando me casei pela primeira vez. Mas ainda cheguei a voltar para lá, para o mesmo apartamento, depois da separação, uns sete anos depois, na sequência do meu retorno de Saturno; ele recebeu o tinha sobrado de mim para revivermos um pouco a adolescência perdida. Pouco depois foi ele que se casou. Hoje ele mora com a mulher e um filhinho lindo – meu afilhado – que não precisa ficar sabendo de nada desses maus exemplos do pai que estou registrando aqui (fica combinado assim: essa postagem se autodestruirá em cinco minutos).

Agora, rumando já para uma conclusão, por que é que eu resolvi contar essa história para vocês mesmo? Bom, em primeiro lugar teve o pretexto de explicar o motivo pelo qual meu irmão não era ainda totalmente meu irmão, ainda que já fosse meu irmão gêmeo, quando a gente costumava contar um para o outro os filmes que a gente via de madrugada. Isso começou quando tínhamos uns dez anos, eu morava na casa da minha mãe e ele na dele, e passamos a ficar acordados até mais tarde nas férias para assistir o Corujão. Era falando disso que eu ia começar o texto dessa semana.

O outro motivo pelo qual acabei pegando esse desvio está implicado aí. Eu gosto de contar histórias. Podem ser histórias da minha vida, roteiros de filmes que assisti, causos inventados ou acontecidos. Já tive problemas com isso quando me mudei para o Rio, e demorei a perceber que “contar histórias” não é uma prática incorporada à sociabilidade daqui como é lá em Minas Gerais. Lá em Minas, você pode muito bem estar em uma conversa animada em um bar que, se você de repente disser, “nó até lembrei de uma história aqui”, as pessoas vão parar e te escutar, o tempo que for. A história nem precisa ter um final grandioso. Você pode fazer as digressões que quiser. Basta manter os copos de cerveja cheios e ter uma tarde relativamente vazia.

Aqui no Rio, por outro lado, se você for reter a atenção das pessoas em uma mesa de bar por mais de dois minutos, elas vão entender que tudo aquilo só pode ser uma preparação para o desvelamento do significado último do universo. Ninguém fala tanto tempo de uma vez só se não tiver algo de inédito e assombroso para revelar. Em suma, demorei um tempo para perceber que eu vivia decepcionando as pessoas, até mesmo quando contava histórias interessantíssimas do meu ponto de vista como essa minha e do meu irmão. Hoje sei que, quando eu falava“nó até lembrei de uma história aqui”, as pessoas ao redor se entreolhavam

com um misto de enfado e desespero que dizia: “Putz. Lá vem. No mínimo meia hora”.

Costumo dizer que me tornei professor em parte por isso: se eu me lembrar de uma história durante uma aula e resolver contá-la, meus alunos vão ter que ouvir, alguns vão até fingir que estão interessados. Em termos de público, não preciso de mais do que isso. Talvez, pensando agora, eu tenha criado esse blog no mesmo espírito, com vantagem adicional que aqui eu nem preciso ensinar os conteúdos do semestre, e se quiser posso enxertar as narrativas que quiser em um texto sobre Gêmeos ou Netuno, assim como posso enxertar uma coisa ou outra sobre Escorpião ou Mercúrio num texto que não tenha nada a ver com isso.

Esse texto, aliás, ia ser sobre Câncer e Sagitário, ia ser sobre O Beijo da Mulher-Aranha do Manuel Puig, ia ser sobre o confinamento e a arte de contar histórias no confinamento (o romance do Puig se passa quase todo dentro de uma cela, mas um personagem está sempre contando enredos de filmes para o outro, de tal modo que o horizonte se abre de forma infinitamente vasta para quem está lendo). Acabou não sendo um texto sobre signo nenhum em particular, acabou sendo um texto sobre meu irmão. Para quem está se perguntando: ele é pisciano. Mas tampouco estou falando da relação especial que acredito existir entre Peixes e Capricórnio, e que nossos signos solares bem representam. Isso também vai ficar para outra hora.

Acho, enfim, que a verdadeira motivação do dessa semana é um tanto quanto óbvia, e ao mesmo tempo ficou encoberta por tudo que veio antes. Vou pedir a vocês mais cinco minutinhos para desenvolver esse ponto (aprendi esse tipo de polidez aqui no Rio; se fosse lá em Minas, eu dizia que o texto termina logo ali). O fato é que, como provavelmente é o caso com muita gente, a quarentena me pegou num momento em que estou perto de algumas das pessoas que mais amo, mas longe de outras. Já está bom demais que seja assim, de todo modo a situação proporciona sentimentos contraditórios. Por um lado, sou grato pelas circunstâncias da minha vida atual, pois já passei por períodos na vida em que ser surpreendido por uma pandemia significaria estar sozinho por longos meses sem ninguém para me ouvir ao vivo contar histórias. Nas atuais circunstâncias, portanto, sou feliz por estar casado com uma mineira que não só escuta minhas histórias, como conta as dela também.

Nossa relação é aliás em parte construída sobre isso: as histórias da infância dela no Canadá, as histórias da minha adolescência em Belo Horizonte. Entre tantas outras. Mesmo ficando só nesses recortes, é incrível como não param de brotar histórias. Mas agora, mais do nunca, isso tem acontecido, e acho que não só aqui em casa, pois o confinamento parece favorecer as dinâmicas da memória, abrindo janelas dentro de janelas em direção ao passado, uma vez que as voltadas para o futuro estão tão bloqueadas e sujas. Mas é interessante como as boas lembranças de épocas felizes têm o poder de renovar o ânimo para as que virão, e o fato de que algo foi um dia possível parece indicar que pode ser possível novamente. Não estamos precisando de muito mais do que isso para plantar umas sementinhas de otimismo, e é por aí que ia ser o argumento sobre Sagitário e Câncer.

No entanto, acabei escrevendo um texto sobre meu irmão, e aproveitei para contar uma história só pelo prazer de contá-la mesmo. Mas também porque a vida inteira tive a imensa sorte de ter uma resposta fácil para uma pergunta difícil e hoje tão imediata, que até outra dia não fazíamos a nós mesmos, por falta de motivos para que sequer a pensássemos, e que agora parece ser tão definidora na vida de cada um. Enfim, não me lembro de um instante sequer na vida em que eu não responderia rápido a questão sobre como quem gostaria de passar uma quarentena. Lógico que hoje outras pessoas estariam na lista, e que, havendo a possibilidade, eu ia querer é levar um mundão de gente para uma sitiozinho no interior de Minas, onde a gente pudesse passar o tempo contando causos um para os outros, à salvo da pestilência, em uma espécie de Decameron roceiro e capiau com cachaça, tropeiro, risos, fogueiras e serenatas.

Mas, mesmo nas épocas em que estive mais sozinho, mesmo nas épocas em que estive mais arredio ao contato humano, mesmo na época em que deliberadamente afastei as pessoas de mim ou elas se afastaram mesmo sem querer, eu não pensaria duas vezes em responder à pergunta hipotética que um hipotético interrogador me faria, sobre a remota possibilidade de um dia termos que nos manter isolados por causa de um vírus, e com quem escolheríamos passar esse tempo se nos fosse dada a oportunidade: “Meu irmão. Quer dizer, ele é meu primo. É uma longa história. Quer que eu conte? Não? Juro que é rapidinho. Ah, tudo bem. Correria né. Entendo. Mas anota aí. Se eu pudesse escolher, nesse negócio de quarentena eu ia querer estar com meu irmão.”

áries, libra

O Zen e a arte de descascar batatas

A costureira (1665) | Jan Veermer

Tem aquela história de um sujeito que chegou para trabalhar em uma fazenda e deram para ele a tarefa de remendar todas as cercas do terreno. Em questão de horas elas estavam remendadas. Aí perceberam como ele era eficaz, e deram para ele um monte de lenha para partir com um machado. Em minutos já não tinha lenha nenhuma para partir. As coisas foram seguindo nessa toada até que já não havia quase mais nada para fazer, além de descascar as batatas do almoço; deram para ele mais essa missão, com a certeza de que não ia durar mais que um piscar de olhos. A única diferença era que nesse caso ele ia precisar escolher as batatas boas e dispensar as que estavam ruins. De modo que anoiteceu e ele ainda estava lá, diante da primeira batata, sem ter decidido ainda se ela entraria no primeiro ou no segundo grupo.

A anedota é simples, a moral da história é clara: algumas pessoas, por mais competentes que sejam, simplesmente não conseguem tomar decisões. Não é da natureza delas, assim como não é da natureza do vento escolher qual caminho tomar. Agora, querem ver como as coisas de repente se complicam? Eu pergunto, invocando a dúvida que me parece realmente relevante diante dos fatos narrados: esse nosso personagem simplório e hesitante, o pau-pra-toda-obra-menos-aquelas-que-envolvem-escolhas, o exímio cortador de lenha e fracassado descascador de batatas, ele é de Áries ou de Libra? Porque de um ou outro desses signos ele é, isso fica evidente de imediato. Daí a decidir qual já é outra história.

E olha que nem libriano eu sou para ficar me entretendo demais com esses dilemas. O problema é que justamente esse estereótipo do libriano indeciso me parece insuficiente para chegar à resposta. Consigo facilmente ver o protagonista da anedota como um ariano também. Quem me garante que a velocidade dele para remendar cercas não se deve a um espírito impaciente, que não se deixa demorar em segundos pensamentos antes de partir para ação? E quem me garante que a imagem dele diante das batatas a descascar não é a de um ser exasperado com a tarefa impossível de ficar tomando decisões criteriosas e fundamentadas, quando tudo o que ele queria era sair descascando geral para ir embora logo dali?

Porém, todavia, entretanto, contudo: quem me garante que essa pessoa não era um libriano inconsciente de suas mais autênticas faculdades mentais até o momento em que se encontrou, justamente, diante da necessidade de tomar uma decisão? Quem assegura que ele não conseguiu de fato ver na questão das batatas uma série de nuances, variáveis, influxos, interferências, modulações, nodos, protuberâncias, capazes de ocupar a mente por uma tarde inteira, de maneira que, a partir de um simples to peel or not to peel, brotaram algumas possíveis respostas para as mais antigas encrencas filosóficas da humanidade? Em resumo, quem me garante que nosso protagonista na verdade não era uma Hannah Arendt dos tubérculos?

Pois é. A Hannah Arendt era libriana. E era botar duas batatas na frente dela para sair um tratado de batatologia capaz de mudar completamente nossa visão do assunto. Curiosamente, trata-se de uma autora que teve na ação um dos temas fundamentais de suas reflexões. Ou melhor, curiosamente não, coerentemente: pensar sobre a ação é, basicamente, o que Libra faz da vida. Independe se isso se dá no âmbito do não-sei-se-caso-ou-compro-uma-bicicleta ou da crítica da Crítica da Razão Prática.  

Isso tampouco quer dizer que Libra é incapaz de agir; Libra é capaz de agir sim, mas no caso libriano o problema não é a precipitação, e sim a demora mesmo. Pois entre o pensamento e o ato existe uma distância que nunca será simples de transpor. Enquanto em Áries acontece o contrário: o ato vem antes do pensamento, e a distância entre eles persiste, só que no sentido oposto. O que nos dá uma boa base para explorarmos um mesmo tópico em ambos os signos. Ele diz respeito à temporalidade de nossos gestos – ou, em bom português, o problema do timimg.

As coisas vão fazer mais sentido se a gente lembrar que Libra é um signo cardinal, dos que estão de fato voltados para a ação, a iniciativa e para a resolução de problemas (os demais são Áries, Câncer e Capricórnio). O fato de associarmos a resolução de conflitos ao arquétipo libriano faz parte desse jogo. Acontece que o conflito é um tema do eixo de opostos complementares Áries-Libra do mesmo modo como a ação é: aparece em ambos os lados da figura. Em Áries, o conflito com o mundo externo é parte natural da existência imediata, e a ação rápida decorre da defesa do eu diante do outro. Em Libra, por outro lado, o conflito é internalizado, o eu e o outro coexistem na mente individual, e a ação demora porque antes eles precisam se entender.

Com frequência, então, Áries age como se estivesse sozinho no mundo, porque em sua experiência arquetípica ele está – é o caçador solitário na floresta, atento a cada movimento ao redor, capaz de aniquilar uma ameaça em um gesto, porém despreparado para lidar com o componente imprevisível do comportamento humano. Áries não lida bem com a ambiguidade, e prefere ter uma relação direta com as coisas – mesmo que seja uma relação de luta – o que implica também uma dificuldade em conviver com o conflito.  Para Áries, conviver com um conflito é como ouvir constantemente e noite após noite o barulho de um animal rondando o acampamento no escuro da floresta, e não poder fazer nada a respeito. Uma tortura.

Libra, por outro lado, vai noite após noite juntando informações, pensando a respeito do que fazer para lidar com a ameaça, pensando em se será bicho ou será gente, até o momento em que a ameaça – qualquer que seja – avança sem que nada de efetivo tenha sido feito para enfrentá-la. Nessa situação, o libriano estaria em desvantagem. Agora vamos supor que ao invés de estarmos em uma floresta estamos em um tribunal de júri. Recolher informações a partir dos semblantes dos jurados, aguardar o momento certo para apresentar uma evidência, esperar a hora de fazer um discurso decisivo – tudo isso são virtudes que Libra pode exercer muito bem nesse domínio.

Mas ainda assim Libra só vai tomar uma decisão realmente certeira se tiver Áries em seu mapa ajudando de alguma forma. E vice-versa: se Áries simplesmente partir para cima do bicho por puro desespero, vai acabar sendo comido também. O interessante é que tanto em um caso como no outro o ideal não é exatamente que a reflexão venha antes da ação; o ideal é que as duas coisas aconteçam juntas. É verdade que a vida ia ser muito menos divertida se Áries e Libra não tivessem seus descompassos, que sem o erro não existiria a comédia, e que sem a comédia não existiria Charles Chaplin. Mas, quando o eixo Áries-Libra funciona bem, o gesto é perfeito, e não apenas acontece no timing correto como subverte nossas concepções usuais de tempo e espaço.

Quem entendeu isso bem foram os orientais. A gente é que com frequência não entende os orientais direito. O Tao Te Ching, de Lao-Tsé, é muitas vezes confundido como um elogio da inércia e de um deixar-se levar pela vida de traços piscianos e zeca-pagodísticos; nada mais distante da realidade (nada contra Peixes, e muito menos contra Zeca Pagodinho, muito pelo contrário; estou dizendo apenas que o pensamento pagodiniano não é aplicável aqui). O livro, em diversos momentos, se pretende inclusive como uma espécie de instrução para o governante nos moldes do que viria a ser o Príncipe de Maquiavel, e, portanto, oferece dicas e aforismos voltados para a tomada de decisões bem concretas e mundanas. Mas, sim, Lao-Tsé acredita que uma determinada atitude do espírito é mais favorável para que as decisões certas aconteçam.

Nós perderíamos muito do seu ensinamento se caracterizarmos essa atitude como particularmente ativa ou particularmente reflexiva. O desafio é justamente não decidir agir, mas criar condições para que a ação se dê por força própria em nosso corpo, no tempo exato, e ao mesmo tempo não a deter por conta da desconfiança que sentimos diante de sua espontaneidade. Quem deu um exemplo de como isso pode acontecer foi o acadêmico alemão Eugen Herrigel em O Zen e a Arte do Arco-e-Flecha, livro em que relata sua experiência como professor visitante na Universidade de Tóquio.

Lá, ele foi convidado a cursar disciplinas como Cerimônia do Chá, Arranjo de Flores, Esgrima e Arquearia, optando pela última e descrevendo depois no relato a longa experiência aí iniciada. Desculpem o spoiler, mas preciso dizer que ele vai acabar  acertando uma flecha atrás da outra bem no meio do alvo. No final da história, ele entende que sua longa série de fracassos decorreu do fato de que ele sempre decidia soltar a corda do arco e só depois a soltava; ou então ele, ao tentar evitar esse mecanismo, decidia soltar antes de decidir, aí soltava mais rápido, antes da hora, precipitadamente, por pura ansiedade.

O livro é um clássico que vale a leitura integral, mas gostaria sobretudo de lembrar uma passagem de sua conclusão. Nela, Herrigel menciona o método empregado por um mestre esgrimista com alunos que chegam a residir com ele para alcançar melhores resultados. No início da convivência doméstica, ao aluno são atribuídas tarefas rotineiras como cortar a lenha e lavar a louça. Nenhuma palavra ou lição a respeito da esgrima. Porém, para maior espanto do discípulo, ele passa a levar fortes golpes do mestre com um bastão enquanto está realizando estas atividades, sempre de maneira imprevista e intermitente. De modo que desenvolve uma tensionada prontidão para defender-se dos golpes, mas ainda assim nunca consegue antecipá-los. E pior: sempre que ele se coloca em guarda para receber uma estocada de um lado do corpo, ela acaba vindo no outro, e, sempre que se prepara para conter um golpe em determinado momento, ele acaba chegando só instantes depois.

O aluno vai então percebendo instintivamente que é inútil manter aquele estado de alerta. Não porque esteja a salvo do perigo, mas porque não há como prever qual será a ameaça e quando ela se lançará contra ele. Além disso, as energias para manter o corpo e a mente predispostos à defesa contra um possível ataque são sempre gastas inutilmente, e podem ser valiosas para a defesa contra um ataque real. Se ele aguarda o golpe vindo do lado esquerdo, por exemplo, e o recebe do lado direito, o tempo necessário para redirecionar sua força de proteção é motivo de uma demora significativa. Incapaz de solucionar o problema, incapaz de defender-se dos golpes, o aluno aceita sua sujeição à imprevisibilidade do mestre.

Até que um dia, enquanto está lavando a louça ou cortando a lenha, sem se ocupar mais que o mínimo com sua proteção, ele de repente se vê interrompendo um golpe desferido como todos os outros – em um momento inesperado, de um flanco desguarnecido. Não é nada que ele estivesse aguardando. Ele não decide se defender. Ele tampouco decide não decidir. Ele simplesmente se defende. Suas energias e talentos estão totalmente disponíveis para reter o golpe do bastão espontaneamente, no instante em que ele é percebido. A partir daí, o mestre o considera apto a iniciar a prática da esgrima.

Moral da história: há em nossa ansiedade um forte elemento de preparação para golpes que nunca chegam. Há, por outro lado, golpes que efetivamente chegam quando tudo parece indicar que estamos a salvo de seus riscos. Mas podemos nos defender deles assim como o vento decide qual caminho tomar: sem pensar duas vezes. O que não implica tomar atitudes impensadas, mas encontrar um modo de ação no qual o pensamento não aconteça nem antes nem depois do gesto, mas simultaneamente, de tal maneira que um não se diferencie do outro. Pode parecer difícil. Mas veja bem: não é nada muito diferente do que faz um bom jogador de futebol quando decide fazer um lançamento e faz. A questão aí é como a gente pode aprender com eles a fazer lançamentos na vida.

Ah, que saudade dos lançamentos do Ronaldinho Gaúcho, por falar nisso. Pena que na vida hoje em dia ele parece não pensar nem meia vez antes de fazer o que faz. Olhei aqui agora, o Ronaldinho é de Áries. Isso explica muita coisa: o poder de explosão, a intuição corporal, a decisão rápida. Aquele gol contra o São Paulo em 2013. Enfim, um jogador completo. Inteligente. Deve ter algo acentuando Libra no mapa também. E ao mesmo tempo, deve ter algo capaz de avacalhar a relação Áries-Libra em proporções ronaldescas. Enfim, há dessas pessoas no mundo, capazes de feitos olímpicos inimagináveis – mas vai saber o que acontece quando a gente pede que descasquem umas batatas.

astros

A curva do medo

Quillebouf, Foz do Sena (1833) | J. M. W. Turner

Essa semana comecei um grupo de estudos online sobre o papel de imagens e narrativas arquetípicas na psique humana de acordo com o pensamento de C. G. Jung. Há algo de voluntarioso e desajeitado nessas inciativas que nós professores universitários temos tomado agora para manter uma dinâmica interpessoal e intelectual; há algo de reconfortante, também. O contato que fiz com meus alunos foi breve, pontuado por falhas técnicas e ruídos estranhos, mas foi efetivo e teve seus bons momentos. Escolhi o tema deliberadamente para o período de confinamento, pois ele me parece abrir uma janela para vastos horizontes subjetivos inexplorados, expandindo nosso cosmos interior num momento em que a vida objetiva está tão confinada e empobrecida.

Por alguns instantes, foi possível esquecermos das limitações que a distância impõe, para encontrarmos pontos de contato e de encontro, talvez inclusive pontos de contato e encontro que não teriam sido identificados em uma aula presencial. Pois essas sessões virtuais de maneira alguma se equivalem à rotina acadêmica dos encontros reais. Por um lado, são incapazes de substituir o vínculo e a relação de confiança que são criados entre professores e alunos em sala de aula (de minha parte, não vejo a hora de poder voltar para o trabalho no campus). Por outro lado, as sessões virtuais talvez ofereçam algo de diferente em relação àquilo que estamos acostumados em nossas interações, então é hora de descobrirmos o quê.

A propósito, uma das coisas que os smartphones e a internet banda larga me trouxeram – e pelas quais sou imensamente grato – são os longos áudios de palestras do Alan Watts que estão disponíveis no Youtube. Watts, vale mencionar, foi um pesquisador de escolas filosóficas orientais como o Zen e o Taoísmo. Durante os anos 1960 e 70, era convidado com frequência para dar conferências a partir de suas experiências e leituras, e teve também programas dedicados ao assunto no rádio e na televisão. Ele se definia como um spiritual entertainer, o que de forma alguma soava como um epíteto depreciativo. Suas falas têm um embalo de raro poder hipnótico; elas podem ser tão tranquilizadoras, tanto no conteúdo quanto na forma, que eventualmente lembram algumas peças para piano de Eric Satie. Fica a recomendação para quem está buscando distrações para a quarentena. Vou deixar uns links no final do texto.

A título de curiosidade: Watts é mencionado no final do filme Her, de Spike Jonze (aquele em que o Joaquin Phoenix se apaixona pela voz de sua assistente virtual) como um filósofo que habita o mesmo universo paralelo de onde surge Samantha, a personagem de Scarlett Johansson. Através de sua voz, ele realmente se tornou uma presença na internet como poucas outros filósofos conseguem ser, e ganhou uma espécie de sobrevida que seus livros provavelmente não lhe teriam outorgado.   

Então: Alan Watts e C. G. Jung foram amigos, além de compartilharem o interesse pela história das religiões e pelas mitologias de diferentes povos. Aí, durante o encontro virtual do grupo de estudos – é sobre isso que quero falar, é sobre isso que é esse texto –,  me lembrei da bela palestra em que Watts descreve seu amigo Jung como uma pessoa que se sentia “à vontade consigo mesma”, inclusive com seus defeitos, inseguranças e falhas de caráter, o que fazia com que outras pessoas se sentissem à vontade em sua presença. O ato de não julgar a si mesmo de maneira rigorosa se refletia no modo como seus visitantes tampouco se sentiam julgados dessa forma.

Percebam: trata-se da dinâmica da projeção, porém nesse caso com um viés positivo. Ao invés de projetar no outro o que sentia existir de indesejável ou vil em sua personalidade, convertendo isso em motivo de desprezo ou denúncia, Jung reconhecia esses traços como seus, e os incorporava ao próprio comportamento até com certa malícia, com uma espécie de sorriso maroto por saber-se tão errado e lascivo como qualquer outra pessoa nesse mundo, por mais que fosse considerado um indivíduo extraordinário. Essa objetividade na aceitação dos próprios defeitos, por sua vez, tornava seus visitantes e pacientes confortáveis mesmo diante de um homem que respeitavam tanto, e cujo julgamento teriam temido até se verem em sua presença. De maneira mais ou menos consciente, eles percebiam como e por que esse temor havia sido infundado. Então, permitiam-se a mesma autoaceitação que Jung se permitia e inclusive exibia com certa graça.

Acho que estamos sentindo falta desse tipo de troca. Acho que algo assim pode ser possível agora, em que estamos todos tão igualmente desorientados e surpreendidos pelas circunstâncias. Infelizmente, parece que as redes sociais tendem a favorecer justamente o inverso, com a acusação rápida e o juízo sumário sobre as vilezas e deslizes dos outros ganhando proeminência, enquanto só aumenta o nossa desconforto na presença (ainda que virtual) de pessoas que sequer respeitamos, mas que ainda assim tememos,  porque parecem dotadas de convicções capazes de destruir reputações e carreiras, na mesma medida em que parecem cem por cento convictas da própria perfeição e santidade (parecem; é justamente o contrário).

Por outro lado, o fenômeno tem um componente sócio-histórico já conhecido que não passou desapercebido por Jung. Segundo o médico suíço, as condições de emergência do nazifascismo incluíram uma sociedade insegura e totalmente desconfortável na própria pele, que precisou encontrar um bode expiatório no qual seria projetado todo o mal existente no mundo, de tal maneira que sua eliminação fizesse restar somente as “pessoas de bem”. Assim, um vago mal-estar ganhava forma na figura de supostos monstros criados pela necessidade extirpar a incerteza que brotava em cada indivíduo. Estes então se aferravam desesperadamente aos simulacros de virtudes que exibiam, de modo que a percepção do diferente o reduzia à expressão de tudo o que é impuro, defeituoso e indigno de existir.

Há diferenças, evidentemente, na situação daquela época e na de agora. Mas há semelhanças também. E creio que elas estão menos nos acontecimentos em si do que nos sentimentos que fazem emergir. Em uma palavra: medo. As grandes crises econômicas e as pandemias, bem como as crises decorrentes de pandemias e as pandemias disseminadas em meio às crises, terão sempre como fatores comuns as emoções muito primárias que estimulam, com destaque para a incerteza e a insegurança que disseminam. Falo isso de uma posição relativamente confortável, de maneira alguma imune às consequências econômicas e ao risco de perder familiares queridos para a doença, porém com alguma possibilidade de atravessar o pior sem me ver totalmente destituído de recursos para enfrentá-lo.

E, ainda assim, estou com medo, medo suficiente para que tenha se tornado uma companhia constante, e uma companhia que preciso aceitar não apenas em seus aspectos inocentes, mas também no comportamento egoísta de autoproteção que é capaz de gerar. Porque a alternativa a reconhecer meu próprio egoísmo é projetá-lo outros, acusando-os de estarem ocupados somente com a própria segurança e bem-estar (como às vezes devem estar mesmo, como eu às vezes estou), adicionando injúria ao desespero, e fazendo com se sintam duplamente mal consigo mesmos. Dá para ver então como isso facilmente se reverte numa espécie de batata quente, pela maneira como essas acusações serão passadas adiante, ou retornadas para mim em dobro.

É verdade que épocas assim favorecem também comportamentos solidários e compreensivos. Mas, infelizmente, sabemos que momentos de grande ansiedade podem reverter-se nos períodos mais sombrios da história. Isso pode estar relacionado não apenas ao medo em si, e às reações mais ostensivas que favorece, mas também à dinâmica mais sutil pela qual ele se transforma em perseguição de um outro que passa a encarnar os sentimentos brutos rejeitados pela sociedade. Além disso, com a parte de nós mesmos que abriga aquelas virtudes (a solidariedade e a compreensão), temos certa facilidade de conviver, para não dizer certo gosto, na medida em que favorecem a autoestima e a aprovação das pessoas próximas. O difícil é encarar a outra parte (a que é covarde, insegura, medrosa), e não apenas aceitá-la, como também acolhê-la.

A situação me lembra um personagem de Hilda Hilst, Isaiah o matemático, que precisa acolher um porco que do nada lhe aparece em meio à limpidez do laboratório, desajeitado, gordo, temeroso, carente, parecendo enfermo inclusive. “Não é doença, Karl, é medo”, Isaiah então se lembra de sua mãe falando dele próprio, com ternura, com o pai. “Sempre de alguma coisa temos medo”.

Sempre de alguma coisa temos medo. Nosso corpo em particular está sempre atento para um conjunto enorme de ameaças com que a espécie humana não se acostumou muito bem a conviver. A analogia do porco com o corpo me parece imediata, e a relação porco-corpo-medo também; creio que Jung a teria aprovado a ideia do porco como imagem arquetípica, que remete aos instintos corporais mais básicos, mais inclinados a reações que consideramos vis e pouco iluminadas. Diante de um vírus então, essa ameaça tão poderosamente invisível, mais do nunca de alguma coisa temos medo. E temos medo de nós mesmos também, das nossas reações e sentimentos diante de uma catástrofe humanitária, temos medo de não sermos suficientemente humanos para enfrentá-la, temos medo da nossa mesquinhez e de nosso egoísmo. A parte suja que existe em nós parece prestes a vir à tona. Pois bem: se vier, aceite-a.

Aceite-a, porque aceitá-la significa interromper o mecanismo que a reproduz exponencialmente. Aceitá-la significa mantê-la dentro dos limites bastante razoáveis em que ela existe dentro de você, que deve ser uma pessoa bem capaz de egoísmos e generosidades, como a maioria das outras também é. Nada impede que a virtude e o vício coexistam e se alternem no comportamento de uma pessoa. Agora, caso você vire o rosto para o próprio egoísmo, fatalmente ele será projetado nos outros, que vão reagir acusando-o de ser o verdadeiro culpado, o verdadeiro mesquinho, ou buscando outros bodes expiatórios para a extirpar o medo que sentem, que assim vai só crescendo a cada indivíduo que dá sua contribuição para  afastá-lo de si. Em resumo, aceite seus sentimentos, porque aceitá-los é achatar a curva do medo.

Achatar a curva do medo é, basicamente, sentir medo, e buscar algum tipo de conciliação com a parte de nós que preferimos nem ver. Tudo isso traz à tona mais uma vez a figura de Quíron, o xamã ferido, o hierofante do tarô mitológico, o centauro ao mesmo sábio e vil que foi o tutor de Aquiles na mitologia grega. Quíron era vítima de um profundo senso de inadequação com o qual precisou aprender a conviver; era capaz das mais torpes baixezas, por sentir-se excluído da sociedade humana, e também das mais altas bondades. Não vou me estender nesse ponto porque já me estendi bastante nos outros, e já tratei de Quíron com mais detalhes em outras postagens (aqui, e também aqui, por exemplo).

Enfim, me lembrei dele novamente sobretudo porque a descrição que Alan Watts oferece de Jung é bastante quironiana, como acréscimo do sorriso suavemente perverso com que ele demonstrava conviver com as próprias perversões. Acredito que toda época encontra em alguns arquétipos de chance de ganhar consciência simbólica de certas virtudes e de certas falhas que a atravessam. A figura de Quíron tem a vantagem de que não apenas certas virtudes e falhas, como também essa ambivalência. Talvez tê-la mais uma vez à mão nos ajude a perceber que é possível sentir a ferida sem revertê-la em motivo de perseguição e ódio. Muito do que teremos com que lidar agora diz respeito a esses sentimentos. Ou, como diria a mãe de Isaiah: não é doença, Carl. É medo.  


PS: neste canal aqui você encontra uma boa coleção de gravações das palestras de Alan Watts; estão em inglês, mas pelo menos a dicção dele é clara e pausada o suficiente para permitir a compreensão de um ouvinte pouco adaptado. A palestra que mencionei sobre C. G. Jung é essa aqui.