Mensagem de despedida

Políticas da imaginação e do desencantamento

Antes de tudo, esta é uma mensagem de despedida, mas também de celebração. O primeiro texto deste blog foi postado em março de 2019. Retrospectivamente, percebo agora que escrever aqui foi uma estratégia para manter a lucidez nestes últimos quase quatro anos. Teve pandemia, teve o pandemônio, então felizmente encontrei um espaço para distrair nos momentos de maior desespero com as circunstâncias. Às vezes, foi escrevendo sobre Saturno e Plutão que encontrei um jeito de lidar com a canseira e o mau-cheiro dos esgotos; noutras, falar sobre Gêmeos me trouxe a leveza que estava faltando no dia a dia.

Mas queria qualificar essa “distração” que é o refletir e escrever sobre símbolos astrológicos; queria falar um pouco mais sobre isso antes de me despedir. Pois há quem entenda que tratar de astrologia não seria o meio mais adequado para a gente manter a sanidade mental, e que no máximo funciona como uma fuga da realidade. Mas acontece justamente o contrário, na minha opinião: a realidade é preservada, em sua riqueza e ambivalência, quando temos símbolos ricos e ambivalentes para produzir um discurso a seu respeito. Creio também que isso tem a ver com questões bem importantes do nosso mundo político e social.

Podemos partir de uma frase de G. K. Chesterton sobre Leon Tolstoi. Ao final de um ensaio sobre o colega russo, em que o elogia efusivamente, mas alerta para grupos fanatizados que estariam surgindo em torno do seu nome e de sua doutrina, escritor inglês disse: “O problema é que ele não é um místico – e, portanto, ele tende a enlouquecer”.  Segundo Chesterton, o ponto era que Tolstoi, apesar de seu imenso gênio, apesar de seu talento incomparável, e – em certa medida – até por causa de sua capacidade de pensamento lógico, estava então se deixando tomar por uma inclinação ao fundamentalismo religioso que o afastava de algumas tradições populares e espirituais associadas ao misticismo. Ou, em termos mais simples, ao mistério.

Mistério, poesia, imaginação, portanto: precisamos disso para não enlouquecer. Por outro lado, é verdade que imaginação (ou algo parecido, mais próximo da psicose coletiva) não está faltando na nossa vida política e social de caráter mais reacionário hoje. No entanto, o que vemos são delírios que tomam o lugar da realidade, ao invés de conviver com ela em paralelo. Nenhum mistério aqui, muito pelo contrário. Essa é uma tendência dos monoteísmos fundamentalistas, quando a crença em um Todo Poderoso torna o mundo desencantado de outras forças, e com isso ele fica vulnerável a leituras esquemáticas. No máximo, sobra espaço para o Diabo – uma vez que, se o Senhor é fonte de todo o Bem, de algum lugar deve vir todo o Mal.

A mesma dinâmica pode ser observada na ideia de um mundo totalmente iluminado pela razão humana: se toda luz produz uma sombra, há uma escuridão absoluta no resultado desse processo. Comparativamente, as culturas politeístas ou animistas são imaginativas de uma forma mais abrangente, matizada e complexa. Conhecem uma multidão de personagens e arquétipos que vivem em conflito entre si, mas são também capazes de realizar acordos e transitar nos espaços intermediários que habitam. Nesse sentido, são culturas verdadeiramente políticas. O próprio catolicismo, com sua proliferação de anjos, santos e sacramentos, conhece alguns desses matizes, na medida que dispõe de emissários capazes de negociar os interesses humanos com os divinos. Começou com Jesus Cristo, essa figura tão polêmica e ambivalente.

Trata-se de um exemplo entre outros para representar a ideia de que Deus não está acima de todos, e sim entre nós. A partir daí já estamos falando em uma trindade, e, um passo a mais, de vários deuses, todos aqui misturados conosco. Por isso, os cosmos politeístas jamais podem ser explicados de um modo maniqueísta, e são imunes a quaisquer teorias da conspiração, já que estas dependem de algo ou alguém que esteja no controle de tudo por trás dos panos (ou sobre nossas cabeças, ou sob nossos radares). Nos cosmos politeístas, ninguém está sozinho no controle. Por isso existe a interrogação divinatória do futuro, por isso há a atenta observação dos presságios: o eu e o mundo estão em constante interação, e um sempre responde ao outro, mas um nunca domina o outro. Os monoteísmos fundamentalistas criam um humano que pretende conquistar o mundo e submeter os demais humanos à Sua vontade – enquanto, em um mundo encantado por outras entidades, essa relação é mais interessante e respeitosa.

A astrologia é uma linguagem politeísta em sua origem, e que sobreviveu ao racionalismo monoteísta da era moderna (pois nosso racionalismo teve sua origem no desencantamento decorrente da ideia de um Deus único e afastado do mundo, como demonstrou Max Weber; e, hoje podemos acrescentar, muito de nossa angústia e ansiedade decorre desta perda de intimidade com o sagrado, desta separação, que nos deixou no controle, mas nos deixou solitários). Ela não é uma religião nem uma crença, mas tem afinidades evidentes com a vida espiritual complexa e imaginativa dos povos ameríndios e africanos, por exemplo. Tem também um vínculo com as narrativas mitológicas da antiguidade e com as artes em geral, em sua capacidade de produzir novos significantes e significados. É o que precisamos resgatar agora: uma vida espiritual complexa, imaginativa e significativa, que corresponda a uma vida política complexa, imaginativa e significativa. Assim por diante.

Precisamos também fomentar todas as linguagens capazes de exercitar a imaginação sem tomá-la de assalto pelo medo. Porque a imaginação humana é um instrumento muito poderoso e ativo, que, se deixada de lado ou menosprezada por um grupo político, será manipulada por outro. Uma vez, um estrategista político estadunidense, interrogado sobre o resultado de uma eleição, deu uma resposta que ficou famosa: “É a economia, estúpido”. Houve diversos momentos na recente campanha presidencial em que pensei: é a imaginação, estúpido. Precisamos encontrar maneiras de ativar a imaginação das pessoas de maneira saudável, porque o contraste que está colocado não é entre o racionalismo e religiosidade. É entre culturas da imaginação e culturas da paranoia.

Precisamos, enfim, de alimentar uma cultura da imaginação. É isso que arte faz, é isso que a astrologia faz, e é isso que muitas práticas religiosas e espirituais fazem: fornecem narrativas que se intercalam com nosso cotidiano sem substitui-lo, enriquecendo a vida, ao invés de afundá-la na miséria da literalidade. É dessa imaginação que precisamos, como precisamos dos sonhos para viver nossa vida desperta, porque senão adoecemos, como muitos estão doentes agora. Espero que os textos que publiquei aqui tenham funcionado um pouco assim para os leitores, e agradeço a todo mundo que leu, comentou, deu ideias, participou das enquetes etc.. Foi divertido, e para mim foi algo que me manteve vivo de diferentes maneiras, então foi até mais do que isso.


Três informações adicionais (incluindo um convite):

I. Dentro de uma semana mais ou menos vou desativar esta página para abrir espaço a outros projetos. Pretendo ainda publicar em livro uma seleção de textos publicados aqui. Se alguém tiver algum texto do coração que faz questão que esteja no livro, pode me falar. Para quem quiser ter notícias da publicação, acho que o melhor lugar é meu perfil no Instagram. Se alguém tiver ideia de uma editora que possa se interessar, me diga, que estou só começando a revisar e escolher os textos mesmo.

II. Além de leitores, o blog me trouxe amigos e me colocou em contato com pessoas incríveis com interesses em comum. Para comemorar, vou promover um encontro, no formato de perguntas e respostas sobre astrologia e temas afins, via Zoom, no dia 15 ou no dia 19 de novembro. Quem topar pode me dizer no formulário que data prefere. Quem quiser já pode fazer uma pergunta no formulário, mas não é obrigatório para participar (é só preencher os outros dados). Vou preparar algo a partir das questões que surgirem, mas espero ter amigos que me ajudem a responder também. Vocês receberão o link por email até um dia antes.

III. Continuo fazendo leituras de mapa natal e trânsitos, mas de modo um tanto limitado e intermitente, quando a agenda permite. Geralmente abro no final do ano, às vezes em outras temporadas. Quem quiser notícias a respeito pode me mandar um email para o gnavesfranco@gmail.com, pedindo para ter notícias quando eu tiver notícias. Abraços e até!

Imagem: Xul Solar, Árvore da Vida, 1954

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