astros

Uma cartografia da alma

Outro dia um amigo me disse que já teve vontade de fazer uma leitura de seu mapa astrológico natal, mas que acabou desistindo, porque pagar alguém para ficar uma ou duas horas falando sobre ele lhe parecia uma atitude muito narcisista. Esta postagem é só para dizer justamente o contrário: uma boa leitura muitas vezes te atinge justamente onde seu narcisismo emerge e mutila sua personalidade, contrariando a expectativa de consumação de algumas de suas pequenas vontades, mas oferecendo em troca um outro arranjo das coisas, que apesar da impressão inicial está totalmente a seu favor.

Narcisistas somos todos, é bom ressaltar, com base nas reflexões de Freud e Kohut. Temos guardado em algum lugar da memória aquele momento da infância em que éramos considerados o presente dos deuses para a espécie humana, e concedíamos nossa graça aos adultos simplesmente ao escolher no colo de quem sentar. De vez em quando vamos querer reviver este reconhecimento, punindo com chiliques e beicinhos quem não se submeter à nossa sublime perfeição. Ou – mais comumente em casos patológicos –, pode ser que a pessoa nunca tenha vivido nada semelhante, por falta de quem estivesse ali para admirá-la deste modo na hora certa, e aí ela passa a buscar eternamente o que não teve. De um jeito ou de outro, a tendência é de que o narcisismo se expresse por meio de algum ponto cego onde a gente não aceita nada aquém de devoção.

O narcisismo, portanto, tem de hábito certo apego a expressões de individualidade que um dia foram objeto de uma aprovação irrestrita, e demostraram o potencial de angariar adeptos e manipular os sentimentos dos outros (pode ser a aparência, pode ser um talento, pode ser até a humildade). A desordem narcísica decorre de uma identificação completa do indivíduo com esse aspecto, que acaba sendo justamente o mais pobre de sua vida, destituído das verdadeiras conquistas e de genuína complexidade. Onde ser o melhor é uma premissa (ainda que fundada em uma profunda insegurança), não há movimento, não há desenvolvimento, não há uma história. Há apenas uma necessidade infinita de alimentar essa certeza, e de defendê-la de todas as abundantes evidências contrárias, para não escancarar o vazio que ela encobre.

Por isso o transtorno narcisista é tão exaustivo para o próprio indivíduo que o carrega, e por isso o narcisista patológico tende a estar cada vez mais sempre cansado: o alimento que a pessoa consome é de péssima qualidade. A visão extremamente limitada de si mesmo cria uma especialização monstruosa, que exige sempre mais e mais: mais sucesso, mais reconhecimento, mais respeito. Elogios, promoções e curtidas são sua junkie food. Enquanto acumula essas supostas riquezas, a pessoa na verdade definha, como uma criatura esquelética em uma lenda nórdica.

Essa ação monomaníaca é justamente o inverso da viva plenamente vivida, cujas flutuações, incertezas e insucessos fazem parte de uma dança que é única para cada um de nós, mas que pode ser vislumbrada na leitura de um mapa natal. É assim que a astrologia pode ser um antídoto para o narcisismo. Jung escreveu em seus seminários sobre Nietzsche: “A mente degenerada que diz ‘tudo para mim’ é o destino não consumado, alguém que não viveu sua própria vida, que não deu de si mesmo o que precisava, que não se esforçou para consumar aquele padrão que lhe foi dado quando nasceu. Como essa coisa é o genus da pessoa, cumpre consumá-la, e, quando isso não acontece, surge a fome que diz ‘tudo para mim’.”

Em contraste com essa visão limitada e autolimitante, Jung prescrevia uma concepção ampliada do que somos, em que nosso ego emerge com seus direitos e vontades, mas onde ele terá que negociar com diversas forças em oposição e conflito, incluindo aquelas que – muitas vezes para nossa sorte – se opõem aos impulsos egóicos. Uma leitura de mapa trata disso. É verdade que para transtorno de personalidade narcisista isso está longe de ser o suficiente, nem para o próprio indivíduo e muito menos para as pessoas por ele afetadas, e nesses casos é preciso um tratamento terapêutico especializado. Mas, para o comum de nossas frustrações e ilusões de grandiosidade, a astrologia tem muito a oferecer em termos de contexto e perspectiva.

Não se trata, portanto, de repreender ou sufocar o ego, nem mesmo de corrigir seu caminho, mas de aumentar seu campo de atuação, mesmo que a princípio isso o faça sentir pequeno diante da enormidade da paisagem. Faz sentido pensar nessa concepção ampliada como um mapa: uma cartografia da alma, em que vemos não somente um caminho a ser vencido em busca de aplausos, mas todo um terreno desconhecido, tão irregular quanto rico em variações topográficas, com seus lindos planaltos, seus vales sombreados, suas cavernas misteriosas, seus “picos e vales” como diria James Hillman. A proposta é de renunciar ao percurso heroico retilíneo em favor de novas possibilidades. Pois há reentrâncias onde o sol nunca entra, porém guardam pequenos tesouros; e há montanhas tão altas onde o ar até falta, mas nas quais vale a pena subir, mesmo sabendo que não haverá ninguém para ver, porque é incrível a vista lá de cima.

Peter Brook, o diretor de teatro, dizia que Deus é o desconcerto das consciências humanas. De forma semelhante, podemos dizer que o cosmos é um constrangimento para o ego. Mas também pode ser sua salvação. A astrologia é assim uma linguagem privilegiada de acesso a todo o universo que somos, e que requer nossa atenção para se expressar em nós, mesmo que às custas de nossos delírios de grandeza, tão minúsculos quando comparados com tudo o que também somos, e que está em nós, assim como está ao nosso redor.

Foto: Ansel Adams

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