aquário, câncer

O livro de segredos de vovó Alice

Em outubro de 2013, quando recebeu o Prêmio Nobel, a escritora canadense Alice Munro deu uma entrevista sobre seus hábitos e preferências literárias. Ao ser perguntada sobre o que considerava importante na hora de escrever um conto, ela disse que, no começo de sua carreira, o importante era que suas heroínas tivessem um final feliz. Havia inclusive começado a escrever histórias com uma versão própria da narrativa da Pequena Sereia, em que a protagonista recebia uma recompensa à altura de seus esforços para se adaptar à vida fora d’água. No entanto, Munro diz ainda que, ao amadurecer e entrar em contato com outros textos, suas inclinações mudaram: “Aí eu fui para o trágico. E eu gostei”.

O sorriso em seu rosto quando faz essa afirmação é uma imagem ao mesmo tempo esclarecedora e desconcertante. O leitor de seus livros sabe o que está por trás dele: uma infinita e extremamente complexa rede de acontecimentos que se afetam mutuamente, de maneiras nem sempre compreensíveis, mas em relações nítidas o bastante para intuirmos a estranha coerência do destino de suas personagens, por mais difíceis ou trágicos que eles possam ser. “Destino”, aliás, é uma palavra que provavelmente sequer aparece em toda sua obra – assim como, em uma charada cuja resposta seja “vermelho”, essa palavra não aparecerá nem uma única vez.

Não vou arriscar nenhuma explicação desse sorriso. Não vou oferecer uma análise da síntese que ele nos proporciona. Só queria aproveitar a oportunidade do aniversário recente da escritora para mencionar que o nome desse blog teve sua origem em um livro dela, e que uma das primeiras postagens era uma anotação breve sobre a relação entre Câncer e a tragédia. Desenvolvi um pouco mais esse ponto em um pequeno ensaio posterior, mas sempre achei que o momento de concluir minha tarefa com o assunto seria ao escrever algo mais elaborado sobre os contos de Alice Munro.

Cheguei à conclusão de que esse momento chegou. Ou melhor, entendi agora que ele nunca vai chegar. Não é que eu me recuse a reduzir uma obra à expressão do signo solar de quem a escreveu; já fiz essa brincadeira algumas vezes, com Kafka, com García Márquez, com Shakespeare. A questão é que, no caso de Alice, especificamente, a tarefa me parece de antemão fadada às mais elevadas escalas de um tipo específico de insucesso – aquele em que eu ficaria páginas e páginas de debatendo com as palavras, inutilmente, para tentar encontrar um modo de dizer algo que desde o começo eu sabia ser impossível de explicar.

Nada muito diferente do cotidiano de muitos escritores e ensaístas. Mas é algo que de vez em quando a gente prefere evitar. Até porque, nesse caso, sinto que estou diante de uma força que vai defender com unhas e dentes seu direito de me causar assombro e perplexidade (com unhas, dentes e um sorriso tão aberto quanto impenetrável).  Há, talvez, um mistério central na obra de Alice, e há certamente uma infinidade de segredos particulares em cada um de seus contos. Mas sinto que eles não estão aguardando nenhuma interpretação, nenhum desvelamento, e muito menos uma especulação hermenêutica baseada no signo da pessoa.  

De modo que este texto é basicamente uma recomendação de leitura, além de uma homenagem. Leiam o livro de segredos de vovó Alice: uma obra com mais de uma centena de contos nunca gratuitamente complicados, mas sempre incrivelmente complexos, em que as reverberações de cada gesto se entrecruzam numa figura ao mesmo tempo robusta e delicada, desenhando-se por trás de toda dor e todo o sofrimento das personagens. Vidas inteiras são despedaçadas, mas parece que isso nos revela uma forma mais profunda de integridade. Trata-se de um anteparo sempre incomum, mas nem por isso menos verdadeiro: o fato de essa rede ser indescritível em sua singularidade não implica que ela não esteja lá.

Enfim, cá estou tentando compreender o que eu disse que não ia tentar explicar. Mas me ocorreu agora que a questão da tragédia na obra de Alice Munro requer a visualização de três camadas para ser assimilada. Na primeira estão os títulos de livros como O Progresso do Amor, O Amor de uma Boa Mulher e Vida Querida, que repercutem aquela fase inicial de sua trajetória como contista, quando o importante era o final feliz. Esses títulos podem ser atribuídos à irônica permanência de uma capa de otimismo e ingenuidade em alguns de seus contos mais dilacerantes.

Na segunda camada, está o que todo mundo percebe quando abre um desse livros e começa a efetivamente ler as histórias: uma imensa sensibilidade para os aspectos mais frágeis da condição humana, nossas inevitáveis experiências com a perda, a morte, a violência e a crueldade, nossas eventuais alegrias em meio a essa confusão toda, e nossa possível conciliação com todo o conjunto desses fatores (nunca com apenas uma parte deles). Eu poderia dizer que esta sensibilidade em particular é tipicamente canceriana, acrescentando algo do ascendente em Aquário para dar conta da complexidade. Mas o que eu queria dizer é que minha compreensão da própria astrologia começou com a leitura da obra de Alice Munro.

Pois, na terceira camada, o que eu sentia ao ler os contos dela é algo muito semelhante ao que sinto ao ler mapas astrológicos. Há um destino ali: suas razões podem não ser compreensíveis, seu desenho não está totalmente claro, mas há elementos suficientes para entender que os acontecimentos de uma vida, inclusive os mais sofridos, não são fatos isolados, e fazem parte de uma trama cuja urdidura se dá a conhecer por estes meios (a literatura, os astros). Então, o trágico que se manifesta inevitavelmente na trajetória de cada um tem como pano de fundo uma trama. Essa trama é uma imagem, uma textura, um jogo de oposições e ressonâncias. Então, eu comecei a aprender a ler mapas lendo Alice Munro.

Depois, é claro, vieram as técnicas, a bibliografia específica, a experiência prática. Mas foi a experiência de leitura dos contos dela que preparou esse terreno, criando o hábito da convivência com sensações que atravessaram de um lugar para o outro. Com a astrologia, há sempre a sensação de que cada mapa é infinitamente complexo, mas nunca gratuitamente complicado; de que é possível encontrar a trama que está por trás da dor e do sofrimento de cada personagem, mesmo que isso nunca deixe de causar assombro e perplexidade; e de que essa trama tem sua coerência, sua força e sua presença, revelando uma forma mais profunda de integridade.

Agradeço aos céus pelo dia em que entrei numa livraria e saí de lá com aquele livro verde com uma folha na capa de uma senhorinha canadense que eu nunca tinha ouvido falar. A partir dali, mergulhei na obra dela como só mergulharia em algo novamente ao estudar os astros e os signos. Que essas coisas estejam interligadas é um dado a mais na percepção da infinita rede de relações de que se compõem nossas vidas. No entanto, o que está por trás (mas por trás mesmo) de tudo isso é algo que eu não sei dizer, e provavelmente nunca saberei, a não ser que venha um dia a descobrir o que está por trás do sorriso no rosto de Alice.  

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