escorpião, touro

Emoções complicadas

Foto: Ieda Magri

Esqueçam a onisciência, a onipotência, a onipresença: nenhum atributo é tão característico do Deus dos testamentos quanto sua solidão. Enquanto isso, nas mitologias politeístas os deuses são apresentados sempre em relações uns com os outros, vivem aos gritos entre si, e o próprio isolamento de Hades no mundo dos mortos o leva causar uma crise cósmica envolvendo várias outras potências durante o rapto de Perséfone. Os mitos são constelações, e não há estrela que brilhe solitária em seu centro, mas um desenho feito do conjunto de contatos e contágios entre elas. Tampouco, de um ponto de vista narrativo, encontramos neles uma causa dominante para os efeitos subsequentes, mas sim uma simultânea aparição de forças contraditórias.

Pensei nisso depois de ler Uma Exposição, romance de minha amiga Ieda Magri recentemente publicado pela Relicário, e do qual ouvi de outra amiga na ocasião do lançamento: “Esse é o livro mais taurino que você vai ler na vida”. E é; nem era de se esperar outra coisa. A Ieda tem Sol em Touro, Ascendente em Touro, e isso falando só de memória: vendo mapa deve ser possível encontrar tanta coisa em Touro que a redução determinista e astrológica estaria mais que justificada. O livro chega a ser literalmente sobre um boi, em algumas passagens importantes e memoráveis; há no estilo uma materialidade capaz de nos fazer sentir nossos próprios dedos nas entranhas do animal; a narradora se define como uma “camponesa” logo nas primeiras frases; como se não bastasse, fala-se de comida o tempo inteiro. Mais taurino que isso, impossível. Mas, como nos mitos antigos, na astrologia nenhum deus aparece sozinho. Nenhum arquétipo também.

Ou, para retomar a imagem: em se tratando do cosmos multipolar do zodíaco, toda aparição de uma força constela outras que lhe são contrastantes, ou mesmo opostas. Touro, para começo de conversa, não existe sem Escorpião. E, para começar a explorar o livro da Ieda por outras perspectivas, esse início de diálogo é mais que suficiente. Pois é Escorpião que nos aguarda no centro da trama de retorno ao lar: o embate emocional intenso com a figura materna, a crise transformadora e irreversível, o amadurecimento a fórceps da alma que, não sem um momento de revolta, reconhece sua parcela de dor e acolhe seu quinhão de sofrimento neste mundo. Todos nós vamos nos deparar em um momento ou outro da vida com certas condições da existência diante das quais não há negociação possível. Todos nós jogamos algum tipo de jogo em que colocamos todas as nossas fichas no fundo sabendo que é para perder.

O texto fala muito em sacrifício, aliás. São muitas as mortes que o atravessam. Este é um tema de Escorpião. No entanto, há um pano de fundo taurino que não nos deixa nunca esquecer como a morte é um assunto corriqueiro, e como qualquer visita ao açougue ou ao supermercado envolve a aceitação tácita do morrer como parte da vida, por mais que nossos olhos estejam resguardados dessa verdade. Tal perspectiva pode tanto alterar por um momento nossa relação com o açougue e com o supermercado, tornando-a mais solene ou reflexiva, quanto pode trazer a um plano mais prosaico e cotidiano algumas mortes que a princípio nos parecem grandiosas. De um jeito ou de outro, é o eixo Touro-Escorpião que demonstra sua capacidade de contaminação mútua e seus trânsitos internos.

Touro, afinal, trata dos ciclos naturais, das mortes previsíveis, das mudanças cíclicas entendidas como eventos necessários da natureza. Touro é simples. Escorpião governa as transformações dolorosas, os fins abruptos, os expurgos devastadores e necessários para os recomeços a partir do nada. Escorpião é complicado. Agora, vai tentar estabelecer limites nítidos entre um e outro para você ver no que dá. E é bom que seja assim, porque estamos falando de signos opostos complementares: a alma taurina e pacata, por exemplo, que se mantiver em estado de defesa contra as intrincadas tramas emocionais que ameaçam a sua tranquilidade, vai vê-las surgir disfarçadas, inadvertidamente, em hábitos compulsivos e comportamentos sintomáticos, que atuarão de um modo mais insidioso e prolongado nas bases de suas alegrias cotidianas (quem explicou essa dinâmica em detalhes foi um taurino com ascendente em Escorpião, chamado Sigmund Freud). Já a alma beligerante de Escorpião que, por sua vez, permanecer para sempre chafurdada nas intensidades de seus infernos particulares, talvez se esqueça de há também algo de comum e regular nesses processos, e que ficar futucando as feridas pode acabar impedindo formas de cura que precisam apenas do tempo certo para acontecer em paz.

E foi desse jeito, na oscilação entre estes polos, que senti as coisas se complicando no livro. Foi assim que eventualmente elas se simplificaram também. O tempo todo, percebi algo de extraordinário implícito no ritmo regular dos trabalhos e dos dias, enquanto, mesmo nos eventos menos previsíveis, nota-se um tom de lúcida aceitação dos ciclos naturais, ainda que essa clareza possa surgir a posteriori. Fica então a pergunta: nossas grandes perdas, nossas derrotas mais significativas, nossas limitações mais peremptórias, serão elas tão clamorosas e imprevistas assim, ou, em retrospectiva, poderão ser vistas como parte de um ciclo que se esgotou por si mesmo, que morreu quando tinha de ser, que acabou de morte morrida, por mais que na hora a tenhamos sentido como uma agressão sem aviso e sem justificativa?

A pergunta, aqui, é se devemos considerar as profundidades da nossa vida psíquica como expressões (um pouco mais estranhas, é verdade) das superfícies corpóreas e dos ritmos regulares do mundo da natureza, ou se até as superfícies corpóreas mais simples e constantes podem ser apreendidas como algo mais profundo e mais intrincado do que parecem à primeira vista. Sinto que a resposta está em Touro e Escorpião, mas que talvez a polivalência dessa fonte nos impeça de ter uma formulação clara e simples a respeito. Ou melhor, ela existe. Li outro dia na internet. Diz assim: “Você é uma plantinha com emoções complicadas”. Não que resolva o assunto para um lado ou para outro, mas acho que nenhuma frase explica tão bem do que estamos falando quando falamos em Touro e Escorpião.

Agora, outra singularidade que me chamou atenção, no romance, é algo que ele compartilha com passagens da prosa de Alice Munro, de Jhumpa Lahiri, de Elena Ferrante, de Marilynne Robinson, de Lygia Fagundes Telles. Parece que o tema do confronto – e dos cuidados, e do estranhamento – entre e mãe e filha está agora se dando a conhecer com mais frequência na literatura, e a cena da asma tal como descrita no livro já mereceria fazer parte de qualquer antologia nesse sentido. “O pai não há, ele não significa nada na hora da asma”, afirma, por sinal, a narradora. Assim, se há uma relação evidente do livro com o Lavoura Arcaica de Raduan Nassar, há uma diferença que chama tanto a atenção quanto a semelhança.

Pois já não temos aqui uma figura masculina que impõe sua centralidade pela mera disposição dos lugares à mesa. No lugar do pai autoritário e sozinho em seu trono, contra o qual se voltavam os instintos edipianos e as hordas primitivas, surgem as variações daquilo que já foi conhecido pelos nomes de Gaia, Deméter, Perséfone, Hera, Ártemis, Atena. A primeira dessas, em particular, parece deixar suas pegadas arquetípicas no livro, em se tratando de um princípio cosmogônico – em grande medida impessoal – que dá e tira a vida segundo uma necessidade que só ela conhece. É Gaia quem abre uma fenda na terra para que Perséfone seja raptada para o Hades. Ela não se identifica nem com um lado nem com outro da contenda, ela é basicamente o cenário da disputa, mas um cenário ativo, cujas portas se abrem e fecham de acordo com as necessidades internas do drama. Porque certas coisas precisam acontecer.

Gaia se confunde com a própria Terra. E a Terra, como alguns defendem, é um dos corpos celestes que podem um dia substituir Vênus no ofício da regência de Touro. O outro é Ceres, ou seja, Deméter segundo os romanos. Eu ficaria com essa alternativa, considerando que o casal Hades/Perséfone tem por sua vez uma associação intrínseca com Escorpião. Deste modo, Gaia participa da história de maneira mais abrangente, tendo sob seus domínios o conjunto do eixo Touro-Escorpião, na medida em que nela se encontram não apenas a terra cultivada e a nutritiva das planícies taurinas, mas também os subsolos ocultos e complexos das energias escorpiônicas. Gaia é a ligação e a passagem entre esses mundos, e é ela que restabelece o equilíbrio eventualmente ameaçado entre eles, porque ambos estão sob sua jurisdição.

Curiosamente, porém, desde que conhecemos a maneira traumática como se desenrola a história de Perséfone, sabemos que este restabelecimento de uma harmonia possível entre os deuses da lenda pode ser dar das formas mais perturbadoras. Sabemos, também, que perdas e limitações serão tão bem distribuídas quanto ganhos e conquistas no decorrer dessa história. No final, há de fato o restabelecimento de uma espécie de equilíbrio, as coisas retomam certo prumo, torna-se possível falar novamente de comida, e do trabalho, e da chuva, e de como os dias de inverno desse ano estão até menos frios que os do ano passado. Mas sabemos o custo que foi para que as coisas chegassem a este ponto novamente.

Logo no início do livro, a narradora afirma para justificara a viagem: “Me vi às voltas com a necessidade de compreender meu passado camponês, antes que ele me engolisse”. Pois bem. Não havia escapatória. Isso de engolir é da natureza de Gaia. Mas, no final das contas, há algo indicando que esta foi uma refeição como muitas outras na longa história da terra, o que de maneira alguma torna menos importante: é exatamente a capacidade de operar esse pêndulo que torna o livro especial. Ou seja, a maneira como ele não se detém nem no lado simples nem no complicado das coisas, mas transita entre eles como quem precisa fazer uma visita de rotina aos próprios demônios, sendo que “rotina” aqui é algo mais complexo do que parece – e “demônios”, por outro lado, menos.

Mas não é tarefa fácil, essa de não fazer uma opção clara por um lado ou por outro em um embate de diferenças tão marcantes. Vejam Tolstoi, por exemplo. Anna Karennina pode ser um romance de uma meticulosa arquitetura, mas no desfecho há uma oposição evidente entre o casamento camponês de Levin e Kitty e as sofisticadas confabulações afetivas de Anna e Vronski. A simpatia do autor estava claramente com a simplicidade. Mas é bom notar que, já a essa altura da vida, Tolstoi estava encaminhando seus textos para a defesa de uma doutrina, e que essa doutrina seria ao mesmo tempo tão grandiosa em seus propósitos e tão básica em suas premissas que não deixa dúvidas quanto a pelo menos um ponto: não se deixem enganar pelas simplificações que correm por aí esses dias. Os russos têm emoções complicadas.

De emoções complicadas é feito também o livro da Ieda, que, de certo modo, passa a integrar igualmente o cânon da “Rússia americana” a que se referiu o Ricardo Benzaquen de Araújo comentando a obra de Gilberto Freyre. Mas nem por isso ele deixa de ser simples, como uma plantinha. E essas variações surgem de onde menos se espera. Isso porque, em momento algum, o texto se deixa pender para o predomínio de um único deus na tecitura de seus embates: quando muito, há um protagonismo da terra, há a presença de Gaia, mas mesmo essa não pode ser definida senão através de um conjunto de atributos ambivalentes e contraditórios. Vai saber, talvez a vida emocional de nosso planeta esteja longe de ser simples. A das plantas não é. A dos animais não-humanos, então, nem se fala. Enquanto de nós mesmos, e de nossos semblantes tão preocupados, talvez eles tenham a impressão de que somos apenas um episódio simples e breve do cosmos – e que logo simplesmente passaremos, como as estações do ano, ficando de nossas angústias apenas uma vaga lembrança de um aroma de outono quando as folhas já estão todas caídas no chão.   

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