arcanos

Todas as histórias do mundo

O Tempo e a Raposa Girando a Roda da Fortuna (c. 1526) | Albrecht Dürer

Uma vez eu fiz uma viagem acreditando que era para nunca mais voltar. Estava com vinte e poucos anos, andava me sentindo estagnado e sem perspectivas na vida; um amigo vinha dando boas notícias de oportunidades de trabalho na Espanha, e consegui o dinheiro da passagem, mais alguma coisa para me manter no começo. A ideia era entrar em contato com conhecidos que moravam em Barcelona e eventualmente me estabelecer por lá mesmo, embora todas as possibilidades estivessem em aberto. Menos a de retornar ao Brasil; eu não havia me despedido de praticamente ninguém, é verdade, mas sentia que esse silêncio deliberado só reforçava minhas intenções; Capricórnio, claro, e com ascendente em Escorpião, como se não bastasse.

O detalhe é que o amigo que ia me receber em seu apartamento acabou tendo que voltar a Belo Horizonte, por causa de um imprevisto. Foi assim que fui parar em um albergue onde convivia sobretudo com latino-americanos em busca de trabalho no país. Evitei os hostals de mochileiros porque pretendia gastar menos, e porque não estava no clima de festa que ia encontrar neles. Durante dias, dividi um quarto de quatro camas apenas com um rapaz da Andaluzia (sul da Espanha), chamado Max, que estava também procurando um emprego em Barcelona.

O problema aí era que ele já vinha perdendo as esperanças de conseguir trabalho, e parecia cada vez mais transtornado com a situação.  Por isso, as noites naquele quarto eram muito ruins: eram agitadas, tensas, barulhentas, apesar da ocupação apenas parcial. Max era franzino, mas irritadiço, e dispersava muita energia no ambiente, com gestos curtos e nervosos, que nunca pareciam completar a ação que começavam. Às vezes ele saía do quarto no meio da madrugada, como que por um impulso ou uma urgência, e depois voltava aparentando uma saciedade somente provisória. Estava implícito em seu semblante que um novo impulso surgiria em breve, e que ele precisaria sair novamente.

Max estava viciado em crack. Em determinado momento, passou a usar no quarto mesmo, durante a noite. De dia, às vezes, ainda era possível conversar com ele sobre oportunidades de trabalho, sobre as garotas de Barcelona, sobre os gols do Ronaldinho Gaúcho, mas aos poucos aquelas trocas se tornavam meras concessões que ele fazia a uma existência cotidiana já quase esquecida, quase dispensável entre uma pedra e outra. Sua personalidade e sua psique eram territórios cada mais ocupados pela droga e sua devastação. Aqui e ali, vegetações esparsas ainda resistiam, porém sem esperanças de sobreviver por muito tempo.

Isso é o que eu digo agora, claro. Na época, durante aquele par de semanas em que convivemos, eu mesmo estava cansado e transtornado demais para ter uma visão de conjunto do problema. Não sabia o que fazer para ajudá-lo e não sabia o que fazer para ajudar a mim mesmo. Tinha perdido a noção dos motivos que me fizeram estar ali, naquele quarto, naquela cidade, naquele país, e tampouco conseguia reunir forças para ir embora. Algo viscoso parecia me prender, e eu não tinha amigos por perto para me ajudar.

Só viria tomar uma decisão diante de um episódio tão tenso que, frágil como eu estava, não me sobrou alternativa a não ser uma saída covarde (pelo menos é o que eu digo para mim hoje). Na noite em que as outras camas foram ocupadas por dois jovens equatorianos, quietos e simpáticos, Max teve um surto de xingamentos xenófobos, acusando-os de serem os responsáveis por ele não conseguir emprego em Barcelona. Na sequência, ele começou a ter espasmos semelhantes aos de um ataque epiléptico, e foi socorrido por uma garota que surgiu no quarto. Eu não consegui ajudá-lo, nem oferecer auxílio para os equatorianos aterrorizados. Literalmente fugi do albergue, sem saber para onde ir.

Vaguei pela cidade noite adentro, deprimido, me achando o indivíduo mais estúpido do mundo. Minhas pretensões de autossuficiência e meu obstinado desprendimento agora me pareciam apenas a expressão de um caráter deficiente. Com o propósito de conhecer o mundo, eu o havia abandonado, e não podia reclamar agora de estar sozinho numa terra estranha, exausto, com medo e sem lugar para passar a noite. Eu podia procurar outro albergue, é claro, mas já estava tarde e não fazia mais sentido gastar o dinheiro de uma diária inteira. Fui para uma estação de trem. Como havia sido idiota, aliás, a ideia de evitar os albergues de mochileiros para buscar paz e silêncio.

Nisso me lembrei de um grupo de ingleses com quem tivera os poucos minutos de diversão que me ocorreram até ali na viagem. Eles haviam ido para Amsterdam, e inclusive deixaram comigo o nome do albergue onde iam se hospedar. Decidi ir encontrá-los lá, o que era uma atitude ao mesmo tempo normal e esquisita. Tudo que a gente faz nessa época da vida é ao mesmo tempo normal e esquisito. No meu caso, hoje acho particularmente estranha a inclinação que eu tinha para viajar sozinho, fazendo amizades em pousadas e botequins, e decidindo meu itinerário de acordo com sugestões e oportunidades que iam aparecendo. Não era a primeira vez que eu fazia aquilo; mas seria a última.

Nunca encontrei os ingleses mochileiros e beberrões no albergue holandês. Mas, já na entrada, conheci duas meninas brasileiras que vinham tendo problemas com a calefação do quarto. Elas eram do Rio de Janeiro, já tinham passado um tempo em Paris, e iriam para a Espanha depois. Uma delas me perguntou se era verdade que mineiro bebe muito, e eu disse que não, a verdade é que mineiro passa muito tempo bebendo e conversando, mas a quantidade de bebida no final das contas nem é tanta. Ela buscou uma cerveja para a gente ficar bebendo e conversando.

Continuamos conversando até tarde da noite. Na manhã seguinte, continuamos conversando. E nos dias que vieram depois. Fomos para a Espanha juntos. Acabei voltando para o Brasil, acabei me mudando para o Rio: tudo o que eu queria na vida era continuar conversando com ela. Ficamos casados por cerca de oito anos. Temos um filho, capricorniano com ascendente em Gêmeos, que está com dezenove anos. Quase a idade de quando eu fiz uma viagem achando que era para nunca mais voltar.


Watch out / for a simple twist of fate, diz a canção de Bob Dylan que eu estava escutando agora há pouco. Estive assistindo também uma série irlandesa chamada Normal People. Trata do relacionamento de dois jovens entre o fim do ensino médio em sua cidade no interior e o início da vida universitária em Dublin. Dito assim parece até um recorte breve, para uma série tão atravessada por transformações na vida e na personalidade dos protagonistas, e em certo sentido é mesmo – no total não devem ser passar dois anos entre o início e o fim da primeira temporada. Mas é mesmo impressionante a quantidade de coisas que acontecem nessa época: a intensidade das mudanças, o inesperado das reviravoltas. Não dá tempo nem de respirar.

Acho que foi por isso que me lembrei ontem da minha viagem para a Espanha. Outra coisa que chama a atenção – na série como na vida – é, além da sucessão de situações emocionalmente tensas e dilacerantes que vivenciamos nessa parte da juventude, a maneira como nós parecemos procurar essas situações, de modo aparentemente inadvertido, mas talvez guiados por uma necessidade que só nossos mais silenciosos instintos conhecem. Não é simplesmente inexperiência, não é apenas ingenuidade: talvez exista uma inteligência própria no modo como nos colocamos nas piores encrencas, e que nos leva a fazer as maiores tolices, talvez porque encrencas e tolices são muitas vezes o caminho mais rápido entre o ponto A e o ponto B. E nessa época da vida é preciso ir rápido do ponto A para o ponto B. Não dá para esperar dez anos de terapia.

O curioso é que, olhando de fora, os movimentos da juventude talvez pareçam até mais aleatórios do que os de qualquer outra parte da vida. Com certeza são mais impensados: às vezes a gente se mete em certos buracos por mera curiosidade, e consegue sair deles (quando consegue) só para encontrar outras armadilhas logo à frente. Em retrospecto, portanto, dá para supor que a alma jovem vai em direção a essas armadilhas porque elas fazem parte de uma história que está construindo, e que precisa delas em seu roteiro. Em retrospecto. Durante o turbilhão dos acontecimentos, tudo pode parecer meio sem sentido mesmo.

Aprendi recentemente que os arcanos do tarô expressam essa aparente aleatoriedade das mudanças na carta da Roda da Fortuna. Ela simplesmente indica uma mudança de rumo súbita: o que está em cima estará em baixo, e vice-versa. Eis que a roda gira (e gira rápido) quando temos dezoito, dezenove anos. Numa semana você não sabe o que quer fazer da vida; na outra, começou a faculdade e encontrou a carreira dos seus sonhos; na seguinte, percebe que não há vagas na carreira dos seus sonhos. Talvez seja esse o caminho para você descobrir o que realmente quer fazer da vida, e cada volta dessa roda seja um pequeno ajuste numa composição cujo conjunto só será visto mais para frente. Mas a gente fica zonzo só de pensar.

Na mitologia grega, a roda é representada como o tear das filhas da Nyx, a deusa da Noite. Elas representam as três fases da Lua, e, portanto, os altos e baixos das marés. Outra filha da noite é Nêmesis, que distribui os destinos, e teoricamente garante certo equilíbrio nessa distribuição – embora possa parecer muito pouco claro quais são os critérios que ela usa, tanto no que se refere às variações da fortuna no decurso de uma existência, quanto na maneira como sortes e revezes são distribuídos entre os humanos. Quando penso em Max, por exemplo, fica muito difícil entender quais são os critérios.

Mas “critério” é uma palavra muito logocêntrica para tratar daquilo que está por trás das maquinações da roda, aquilo que se põe em movimento na mais profunda escuridão da noite. Moira, o destino, governa as províncias do insondável, e, mesmo que nos fosse concedida uma audiência, descobriríamos estar diante de uma senhora que não vê a menor necessidade de expor seus motivos. Nossa razão é insuficiente, e, para dar conta de suas limitações, temos símbolos cujo significado está além do âmbito do racional. A Roda da Fortuna é um deles, e qualquer tentativa de desvendar seus padrões será, na melhor das hipóteses, sujeita a um silencioso escárnio.

Ou, talvez, e mais exatamente: indiferença. As criaturas envolvidas no funcionamento da roda podem muito bem ser entidades burocráticas, que já viram de tudo, inclusive todas as teorias que já inventamos a seu respeito. E elas sabem que nenhuma hipótese dá conta do aspecto meramente mecânico do seu trabalho, do atendimento a índices de produtividade que é delas exigido, porque a proliferação de destinos humanos não para de aumentar – e elas não param de ter que inventar novas histórias e reviravoltas, novos roteiros com twists carpados triplos, que sejam ao mesmo tempo minimamente verossímeis, para um público cada vez mais desconfiado das convenções do gênero.


Por outro lado, e para terminar: assim como os arquétipos zodiacais, os arcanos têm a maravilhosa qualidade de permitirem uma constante amplificação de seus sentidos através da acumulação de imagens, narrativas e ideias relacionadas, sem sacrifício do poder de síntese de suas ideias centrais. O pesquisador Yoshi Yoshitani, por exemplo, associa a Roda da Fortuna à figura de Anansi, um trickster da mitologia ganesa, apresentado sob a forma de uma aranha e que faz e desfaz encrencas para se divertir e passar o tempo, até que um dia se rebela contra o Senhor do Céu e sua mania de guardar Todas as Histórias do Mundo para si.

Anansi desafia o Senhor do Céu a uma contenda da qual acaba saindo vencedora, e se torna ela própria a Senhora de Todas as Histórias. O mito parece de fato adequado à Roda, e acrescenta a ela um componente significativo. Yoshitani nos faz lembrar que o que é tecido pela roda são todas as histórias do mundo, todos os destinos possíveis, e assim não surpreende que seja impossível reconhecer um padrão em suas mudanças. O que ela traz são todas as mudanças – inclusive as mais imprevistas, as mais improváveis, capazes de virar o jogo do dia para a noite.

Em seu conto A Biblioteca de Babel, o escritor argentino Jorge Luis Borges imaginou uma interminável sucessão de prateleiras nas quais estariam todas as narrativas da humanidade, sem nenhuma exceção, posto que estariam naqueles livros todas as combinações possíveis entre as letras do alfabeto. Assim, em meio a ao caos fragmentário e sem sentido de fileiras e fileiras de livros com combinações esdrúxulas e ilegíveis, estaria o caos fragmentário e sem sentido do conjunto de combinações que conseguiríamos ler.  Elas incluiriam a história da vida de cada um de nós, assim como a totalidade de suas variações. A história que contei na primeira parte desse texto está lá, assim como as inúmeras varações dela que podemos imaginar, se cada volta da roda da fortuna tivesse chegado a um ponto um pouquinho diferente. Sim, estão lá todas as histórias, com todas as suas versões. O nome disso vertigem.

Já me perguntei o que teria acontecido se não tivesse aleatoriamente conhecido aqueles ingleses aleatórios que por falta de opção me fizerem pegar aquele trem para Amsterdam que acabou me levando para o resto da minha vida. Pelo menos na Biblioteca de Babel de Borges, essa história está contada; mas para ser sincero, não sei se gostaria de saber o que está escrito nela. Conhecer essa versão da história retiraria da que já conheço sua necessidade intrínseca: a inevitabilidade que, em retrospecto, parece acompanhar a narrativa dos fatos. A não ser que sejam ambas necessárias. A não ser que sejam todas necessárias.

Nesse caso, se a oficina de produção de destinos da Roda da Fortuna funciona madrugada adentro, é porque de lá que saem cada uma dessas histórias. O arcano foi associado ao inesperado e ao surpreendente porque são essas reviravoltas que chamam mais atenção, mas ele é responsável por todas as reviravoltas. Isso explica o que há de aparentemente aleatório e arbitrário em suas deliberações; o fato é que a Roda não delibera, não decide nada; ela simplesmente realiza absolutamente todas as versões da fortuna, indiferente às classificações humanas do bom e do ruim, do desejável e do indesejável, do certo e do errado. Ela é uma força cega de criação de histórias.  

Assim, quando você se depara com a roda na vida, pode saber que a mudança a que ela diz respeito não obedece a nenhuma necessidade de fundo ou padrão ordenador. Ou seja: não pode ser compreendida em termos de carma e nem simplificada por meio da ideia de um eterno retorno. Não é a mesma história que está sendo contada de novo e de novo; são as múltiplas histórias em suas singularidades que precisam acontecer. Mas isso não deixa de ser uma necessidade, e cabe então a cada um de nós vivermos nossas histórias, com suas tramas específicas, épocas intensas, detalhes circunstanciais e momentos decisivos. Só de fazer isso você já está participando do segredo que a roda guarda em suas engrenagens.

Porque “arcano” significa segredo, mistério, enigma. Portanto, se cada carta do tarô é considerada a chave para um mistério nunca totalmente revelado, e sua imagem remete a algo que podemos conhecer de modo apenas provisório e aproximado. Exatamente o que C. G. Jung chamava de símbolo: a melhor enunciação disponível para algo que não sabemos dizer completamente. De modo que algo da Roda da Fortuna ficará por ser dito mesmo que a gente chegue a algum tipo de conclusão especulando sobre seu significado; algo que permita a conciliação entre opostos tão extremos como o aleatório e o necessário, a arbitrariedade e a fatalidade.

Mas prevejo que, se um dia eu tiver a oportunidade de exigir de Deus uma explicação para o caos estapafúrdio que é a vida humana sobre a Terra, vou aceitar como plausível apenas uma possibilidade de resposta. E, se isso acontecer como imagino, descobrirei então que tudo estava explicado desde sempre pela imagem da Roda da Fortuna. Lá do além, lá de onde se supõe que Ele ri quando a gente faz nossos planos para a vida, imagino uma figura talvez menos sarcástica, de um tom mais oscilante entre o entretido e o resignado. Um senhor obediente diante das ordens de Moira, e que me dirá de maneira simples e direta: “Todas as histórias precisam existir”.

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