astros, peixes

Sonhos de Cassandra

Troia em chamas (c.1759) | Johann Georg Trautmann

Diz-se que, no local da Grécia Arcaica onde seria situado o templo de Delfos (consagrado a Apolo), havia outrora uma profunda fenda no chão de um terreno onde ovelhas costumavam pastar. Se alguma delas se aproximasse demais da fenda e olhasse para dentro, começaria a “pular de maneira espantosa e balir num tom aflito, anormal”, segundo Diodoro Sículo. Os humanos que investigassem o mistério também entravam em estado de transe, e um deles, em seu delírio, passou a predizer o futuro. Por isso o local veio a ser considerado miraculoso: o povo acreditava que o oráculo havia sido uma dádiva de Gaia, a deusa da Terra.

Como muitas pessoas se perdiam e desapareciam dentro da fenda, pareceu adequado aos habitantes dos arredores designar uma única profetisa, que seria encarregada de receber seus espíritos, sob a proteção da serpente Píton. Este foi o “dragão-fêmea, monstro enorme e horrendo” que Apolo derrotaria para assumir o posto de oráculo de Delfos, na narrativa dos hinos homéricos. Esta luta e sua vitória coincidem com uma substituição de aspectos arcaicos da antiga religião por uma visão mais ordenadora e racional do mundo. Foi também nessa época que Apolo se diferenciou de seu irmão Dionísio, um deus da natureza, passando a representar a objetividade, a índole científica e a clareza lógica que caracterizou a Grécia
Clássica.

A oposição e complementação entre Apolo e Dionísio ficou conhecida através da obra de Nietzsche sobre o nascimento da tragédia. No entanto, conhecemos menos a história de Cassandra, a filha de Príamo que sonhou com a derrocada de sua família e da cidade de Troia, mas não encontrou quem acreditasse em sua profecia. Anos antes, ao frequentar o templo de Delfos, ela havia recusado um pedido de Apolo, e foi amaldiçoada pelo deus com o descrédito de todas as suas visões. Desesperada por prever um futuro terrível e não ter como prevenir os seus familiares, Cassandra passou a chamar a atenção para seus vaticínios de formas incomuns ou mesmo exageradas, sem nunca obter sucesso. Pode-se dizer que começou a balir como as ovelhas da lenda, no que viria a ser descrito no século XIX como o típico comportamento de uma mulher histérica.

A analista junguiana Laurie L. Schapira estudou a maneira como o diagnóstico da histeria esteve vinculado ao descrédito da intuição feminina nesse período. Pois se, por um lado, o poder premonitório de Cassandra se manteve na experiência de inúmeras mulheres, Apolo seguiu fazendo seu trabalho de desqualificá-las como criaturas descontroladas. O próprio Freud pode ser acusado de ter reduzido poderes verdadeiramente estranhos de feiticeiras medievais ao “meramente histérico”, acompanhando Edward Jorden, autor da primeira obra em língua inglesa sobre o assunto. O estado de transe ou de possessão fica assim compreendido como um sintoma, com a simulação de desmaios e tremores para realizar algum tipo de chantagem ou manipulação emocional.

Mas as duas coisas não são excludentes. Podemos presumir que Cassandra de fato tenha o dom de prever o futuro, e que, ao perceber-se incapaz de persuadir os outros do que vê, passa a utilizar formas mais insidiosas de convencimento, que podem acabar distorcendo sua própria visão. Ou então, diante da crueldade da barreira imposta pelo ressentimento de Apolo, ela simplesmente recai no desespero e começa a berrar feito uma louca. De um jeito ou de outro, possui motivos suficientes para sentir-se vitimizada durante boa parte de sua história, pois tem sua imagem pública e seu ego massacrados não apenas por Apolo, como também por Príamo, Agamenon, Hécuba e Clitemnestra, a tal ponto que ela mesma já não crê suas visões. O trabalho clínico que Schapiro narra diz respeito a longas trajetórias de mulheres tentando recuperar a crença em si mesmas.

Quanto à astrologia, não me parece casual que o mito de Cassandra tenha reaparecido através da questão da histeria justamente quando Netuno passou a integrar nosso mapa do cosmos, na segunda metade do XIX. Netuno é o regente de Peixes, e Peixes é sem dúvida o arquétipo mais intimamente ligado à história de Cassandra. É verdade que geralmente o associamos ao aspecto vago e delirante dos cultos dionisíacos, assumindo por esse viés o contraste com as formas e a lógica apolíneas. Mas Peixes merece mitos femininos para ser explicado e compreendido, até porque suas águas são a origem de tudo, e quando damos um nome à origem de tudo a chamamos de Grande Mãe.

Sabemos que Peixes está em contato com os mananciais intuitivos e premonitórios que corriam no fundo da fenda de Delfos. Esse poder está de acordo com a natureza psiquicamente permeável do signo. Sabemos também como esse aspecto da personalidade pode ser diminuído e desacreditado na sociedade contemporânea, ou isolado como sinal de debilidade e loucura. Com isso, cria-se sempre o risco de que Peixes reincida permanentemente no papel de vítima, ou crie relações de dependência que o tornam um chantagista do zodíaco em potencial, como tentei descrever em outra postagem. 

Assim, o desejo que têm de fazer com que os outros vejam o que surge em suas visões, o descrédito que suas estranhas percepções encontram no mundo social, e a maneira como a realidade dos sonhos é destituída de valor à luz do dia – tudo isso pode tornar a história de Cassandra bastante real para alguns piscianos. O caminho para se lidar com esse impasse é um fortalecimento do ego que não signifique a supressão da alma; basicamente, é o de descobrir-se na posição da pitonisa protegida pela serpente, uma personificação de forças naturais que assume face humana, mas não se identifica exclusivamente com a vítima ou com o algoz do mito.

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