aquário, astros, leão

O retorno de Tchekhov

“Se quiser a minha vida, venha e leve-a”. Esta é a frase que Nina faz chegar a Trigórin no terceiro ato de A Gaivota. Trata-se de uma peça do escritor russo Anton Tchekhov, que teve uma importante reestreia em 17 de dezembro de 1898, após uma primeira temporada de pouco êxito em São Petersburgo; de modo que o autor, então morador de uma área rural, ficou feliz em fazer uma viagem curta para ter a oportunidade de assisti-la em sua versão moscovita e mais bem-sucedida. A passagem de Anton pela cidade, no entanto, foi marcada por um outro evento menos comentado dos registros da história literária. No mesmo dia em que assistiu a peça, ele se encontrou, em uma estação de trem, pela última vez, com Lydia Avilova. Anos antes, ela lhe enviara uma mensagem de conteúdo idêntico e por meio parecido ao utilizado por Nina no espetáculo. Agora, eles despediam-se um do outro em uma plataforma enevoada e gélida, enquanto ele via se afastar para sempre aquela que havia sido o grande amor da sua vida.

A cena traz toda a melancolia que podemos esperar do encerramento de uma relação intensa e intermitente, feita de momentos apaixonados e longos intervalos de distanciamento. Segundo o biógrafo David Magarshack, Tchekhov chegou ainda a cogitar que aquela história tivesse um final semelhante ao de “Sobre o amor” (um dos tantos contos que escreveu inspirado, ao menos em parte, por sua relação com Avilova), no qual há um beijo no desfecho. Mas Lydia permanecia casada, e além disso estava acompanhada de dois de seus três filhos na estação de trem. Ela sabia bem que o tempo deles tinha passado, que suas chances de ficarem juntos – se é que existiram – tinham sido desperdiçadas, quando ela se arriscou-se ao enviar para ele aquela mensagem, por exemplo, e ficou aguardando uma resposta que não veio. Ou seja: um beijo, àquela altura, seria um motivo de embaraço e desgosto, talvez até mesmo um gesto de desespero.

Ainda assim, é um pouco triste imaginá-los renunciando definitivamente às possibilidades que uma sentiram existir para ambos. Tchekhov e Avilova haviam se conhecido dez anos antes, na casa de um irmão do marido dela. Ela faria o seguinte relato sobre essa ocasião, no livro Tchekhov em Minha Vida (ela viria a ser também uma escritora conhecida no âmbito russo): “Como é difícil às vezes explicar ou mesmo perceber o significado de um acontecimento… Na verdade, nada aconteceu. Nós simplesmente olhamos um nos olhos do outro. E, ao mesmo tempo, quantas coisas havia naquele olhar que trocamos! Eu senti como se algo estivesse explodindo dentro de mim, como se um foguete tivesse sido lançado naquele momento, triunfante e cheio de energia. Tenho certeza de que Tchekhov sentia o mesmo, e nós olhamos um para o outro, surpresos e felizes”.

Sim, de fato: como é difícil explicar ou mesmo perceber o significado de um acontecimento. E quantas coisas pode haver em um só olhar. No caso dos dois, quando a gente acompanha os movimentos seguintes, a impressão é de que naquele instante – naquele foguete – em que “nada aconteceu”, já estavam implícitos os dez anos seguintes, em que eles não teriam um segundo de sossego na vida, porque se amavam, porque queriam estar juntos, porque precisavam ficar juntos, e quando, no entanto, não podiam ficar juntos, porque não havia como, não havia onde, não havia com que desculpa, não havia com que dinheiro; só havia o porquê.

É mesmo impossível não pensar nos finais alternativos que essa história poderia ter tido. A obra de Tchekhov, como comentei, está cheia deles. O próprio “A Dama do Cachorrinho”, um dos mais belos e conhecidos contos de todos os tempos, oferece algo nesse sentido, quando os protagonistas, ambos casados com outras pessoas, e ambos apaixonados um pelo outro, após muitos desencontros e hesitações, se veem afinal recusando qualquer outro caminho que não fosse sua parceria, mas ao mesmo tempo não conseguem se desvencilhar das amarras matrimoniais e sociais que lhe estão impostas (pelos costumes, pela moral, pela igreja, pelas circunstâncias financeiras).

“Tornava-se evidente para ambos que o fim ainda estava distante e que o mais difícil e complexo apenas se iniciava”, assim termina o conto. Anton e Lydia provavelmente sentiram isso em algum momento de seu relacionamento, essa solidariedade imiscuída na paixão (“amavam-se como gente próxima e querida, como dois termos amigos, como marido e mulher”, diz ainda o narrador do conto), porém, no mais das vezes, se desentenderam e desencontraram. Quando ela estava disposta a romper seu casamento e arriscar tudo com ele, ele normalmente dava para trás. Quando era ele que a procurava, ela não sentia confiança suficiente, ou já tinha se desiludido demais para deixar-se levar pelo entusiasmo.

As coisas para ele eram mais simples, certamente. Não era ele quem tinha toda uma vida pela frente para ser visto como a mulher divorciada e que largou o pai de seus filhos para viver uma aventura com um escritor. Em se tratando de adultério, aliás, cabe lembrar que havia então na Rússia uma elevadíssima autoridade literária, intelectual e religiosa, que já havia proferido uma sentença bastante clara a respeito de mulheres inconstantes que viviam casos extraconjugais. Estou me referindo a Leon Tolstói, estou me referindo a Anna Karenina. Não vou dar spoiler, mas vai lá ler o livro para ver como é que a história acaba.

O detalhe interessante, aí, é que não apenas Lydia estava condicionada em suas decisões e hesitações por esse tipo de ambiente, em que a figura de Tolstói sobressaía em toda sua magnitude e imponência. A psique de Tchekhov, em certo sentido, era inclusive mais vulnerável às suas pregações, pois, quando conheceu Lydia, ele próprio era um seguidor do tolstoísmo. Sim, isso existia na época: uma doutrina que defendia a retomada de valores camponeses e de uma vida comunitária simples, em contraste com a decadência dos sentimentos citadinos e suas sofisticadas tramas amorosas. No caso de Tchekhov, a pregação acontecia inclusive no âmbito doméstico, onde sua posição de arrimo de família, no convívio com irmãos alcóolatras e um pai cronicamente desempregado, lhe dava o crédito moral de que precisava para lançar os mais rígidos julgamentos no mundo ao redor.

Justiça seja feita, contudo: Tolstói era um escritor tão incrível que conseguia intercalar em suas imensas parábolas alguns dos mais perfeitos parágrafos da literatura, e as construía como quem ergue o que hoje são para nós algumas esplêndidas catedrais góticas (já não importa para que elas foram erguidas, o importante é que foram, e agora podem ser admiradas). Apenas com o tempo ele se restringiu ao papel do profeta e do patriarca que recebia os discípulos em sua célebre fazenda. Mas foi já quando as coisas estavam avançando nesse sentido que Tchekhov entrou em contato com suas ideias, de modo que, quando estava com vinte e poucos anos, passou por uma espécie de conversão religiosa, cujos traços são bastante perceptíveis em sua obra de juventude.

A obra precoce de Tchekhov, aquela que ele escreveu até os 30 anos, tem, portanto, duas facetas principais. A primeira são os contos brevíssimos e de natureza humorística que ele escrevia para ganhar dinheiro em publicações semanais, e que lhe rendiam o suficiente não apenas para seu sustento, mas também para o da família, acrescidos aos ganhos com a carreira médica. Na segunda categoria, estão as narrativas pedagógicas com que ele ilustrava o pensamento de seu mestre ilustre, Leon Tolstói, tal como em “O sapateiro e força maligna”, publicado em 1888, ou seja, quando ele estava com 28 anos.

Esse é o contexto que precisamos ter em mente para tentar entender a primeira reação de Anton ao encontro com Lydia. Permitir-se aquela paixão significaria para ele perder não somente o controle de si, mas também abandonar um terreno duramente conquistado durante os anos anteriores, tanto no que se refere à conduta ética que costumava ostentar, tanto no que trata da trajetória profissional e intelectual que vinha seguindo. Não que esse caminho e essa conduta estivessem lhe proporcionando muitas alegrias; muito pelo contrário, ele reclamava bastante de tudo o que sentia estar em desacordo com seus ideais. Mas era um lugar que ele já conhecia, que havia construído para si com esforço, e onde ele podia se sentir um adulto sério em com um propósito definido na vida.

Voltando então à ocasião do primeiro encontro. De imediato, tomado por sensações que não se encaixavam bem no papel de um tolstoísta digno e respeitável (a atração por uma mulher casada), ele recusou os próprios sentimentos. Porém, entrou em um período de enorme inquietude. Por um lado, não conseguia simplesmente fazer a vida voltar a um estado anterior; por outro, não conseguia dar nenhum passo adiante. Foi uma crise de proporções inéditas em sua personalidade e valores, até porque havia fracassado na escrita de um romance, gênero no qual ele precisaria ter sucesso para que suas conquistas literárias correspondessem à estatura ética que almejava. “Tudo o que escrevi até agora é apenas lixo em comparação com o que gostaria de ter escrito”, ele afirmou a seu editor em 1888. Bom, ele estava chegando aos trinta anos nessa época. Quem conhece Saturno e seus retornos sabe bem do que ele está falando.

No entanto, em meio à turbulência, ele acabou, sim, tomando uma decisão. Não exatamente uma decisão apaixonada, e é aqui que eu queria chegar, desde o começo: ele optou por renovar seu compromisso com ideais de transformação social, ao fazer uma viagem de longo prazo a Sacalina, uma ilha na Sibéria usada para o exílio de condenados pela justiça russa. O pretexto era de estudar as condições de vida na ilha (o livro resultante da viagem saiu no Brasil pela Todavia, recentemente). E, se é verdade que o gesto estava de acordo com a atitude científica e reformadora que Tchekhov vinha adotando diante das mazelas sociais da Rússia, parece-me que estava de acordo até demais. Não dá para descartar um componente saturnino enviesado, de sacrifício e repressão de qualquer possibilidade de alegria. Sacalina e Lydia eram os polos opostos de um eixo em que de um lado estava o moralismo de Tolstói, e de outro estava seu desejo e seu afeto individual. Tchekhov dobrou a aposta no primeiro.

Sei que tem gente aí agora perguntando: ok, Gustavo, até agora tudo certo, mas e o signo? E o signo, Gustavo? Primeiramente, vale ressaltar que estamos falando de um aquariano, o que, por questões técnicas, costuma ser motivo de disputa. Sim, Tchekhov nasceu no dia 16 de janeiro de 1860, e sim, é fácil relacionar seu realismo eventualmente resignado ao arquétipo de Capricórnio. Porém, singularidades do calendário russo no século XIX fizeram com que ele estivesse, por assim dizer, doze dias atrás do nosso, de modo que Tchekhov teria nascido quando o Sol estava em Aquário: os doodles do Google estão aí sempre no dia 29 de janeiro para não me deixar mentir.

Mas queria dar ênfase a outro ponto, no que se refere ao zodíaco. Pois, até aqui, estivemos o tempo todo tratando de uma fase da vida do escritor russo em que podemos reconhecer semelhanças com uma fase de nossas vidas quando, depois de 28 ou 29 primaveras, o inverno de uma experiência de autoquestionamento, bastante incisiva, costuma pedir ajustes e revisões em nosso comportamento. Nesse caso, o signo de Saturno no mapa de Tchekhov assume grande importância, assim como acontece com o signo de Saturno nos nossos mapas, uma vez que a Saturno (incluindo o signo e a casa onde está situado) relacionamos esse tipo de crise e seu desenlace. Pois bem: Tchekhov tinha Saturno em Leão.

Leão é o signo oposto complementar de Aquário. Nessa balança, se de um lado estão o impulso reformador, um comportamento mais cerebral e científico, e uma grande capacidade dedicação à coletividade e ao mesmo à humanidade como um todo, do outro estão o prazer com a vida, um espírito criativo e artístico, e a busca da autossatisfação, que se reverte em uma generosa capacidade de satisfazer. Ou seja: onde Aquário é trabalho, Leão é brinquedo, e onde Leão é desejo, Aquário é propósito. Nós todos temos ambos os signos em nossos mapas pessoais; a questão é onde, e como.

Então, podemos presumir que o aspecto leonino da personalidade de Tchekhov estava atravessado pela presença de Saturno na região de sua psique mais diretamente vinculada a atender suas vontades individuais. Funciona assim: onde nosso senhor dos anéis se situa, haverá normalmente uma espécie de atrofia das qualidades daquele arquétipo, que vai durar pelo menos até por volta dos 30 anos, quando a execução de um ciclo saturnino completo na vida do indivíduo torna possível (ou demanda) que essas qualidades sejam despertadas. Existe uma alternativa a esse padrão, que é o exagero ostensivo e forçado dos comportamentos associados ao signo de Saturno (o Saturno em Libra com uma vida amorosa agitada e vazia, o Saturno em Capricórnio com conquistas profissionais precoces até demais, por exemplo). No entanto, o mais comum é as coisas se passarem como se passaram com Tchekhov: as qualidades e comportamentos do signo oposto ganham destaque na primeira parte da vida, e o retorno de Saturno se torna um intenso puxão do outro lado da balança, chamando a pessoa a viver algo que ela negligenciou ou negou antes.

Nesse sentido, a posição do Saturno tchekhoviano é particularmente incômoda. Pois se, por um lado, Saturno se sente em casa em Aquário, signo do que é o regente tradicional (e onde se encontra no momento), por outro lado, sua força restritiva será mais desconfortável no signo de Leão. E, no entanto, será aceita, com a desculpa ou a justificativa de que o prazer e a alegria são sentimentos egoístas, que não correspondem às necessidades mais imediatas da sociedade, ou argumento parecido. Saturno em Leão (ou Saturno na casa 5) pode muito bem abrir mão de viver a própria vida amorosa em favor de algum ideal, de algum projeto, de algum bem maior coletivo, e pode também repetir esse gesto quando sentir uma íntima ameaça a essa persona trabalhosamente criada. Ou seja: ele pode até mesmo fazer uma viagem a uma ilha na Sibéria, se for para negar a si mesmo o que mais profundamente deseja e precisa.  

NO entanto, isso não quer dizer que Saturno seja mais fácil de lidar quando está em outra posição no mapa. Saturno é sempre Saturno. Reparem, por exemplo, em como o caso de Anton Tchekhov se parece com o de Franz Kafka, que, no momento exato da completude de um ciclo de Saturno em sua vida, encontrava-se massacrado por obrigações prosaicas e tarefas rotineiras de seu emprego burocrático. Mais de uma vez, expressou seu fastio com essa condição, que o impedia de escrever (Saturno em Gêmeos); mas, na hora de fazer uma mudança, escolheu acumular obrigações ainda mais fastidiosas ao seu cotidiano, tornando-se sócio de uma fábrica de amianto, dobrando a aposta nos flagelos que o oprimiam, e, por consequência, se vendo ainda mais enredado em tudo em que o impedia de avançar na vida (o que, no caso de Kafka, se confundia com fazer literatura).

Nada com que a gente não consiga se identificar, em pelo menos uma área da vida, em pelo menos uma época da existência: esse apego insistente no sofrimento, essa estranha luxúria da infelicidade. Todos temos Saturno no mapa, e com ele essa capacidade de tomar decisões que reforçam padrões de conduta, mesmo quando sua rigidez se torna um risco iminente ao próprio fluxo vital que nos alimenta.  Como disse o Felipe Charbel em uma resenha recente sobre os diários de Kafka, todo mundo tem sua versão da fábrica de amianto, “uma situação de desconforto que era melhor ter evitado, mas na qual nos envolvemos como resultado de uma escolha absurda, a pior decisão possível em um momento crucial da vida”. Acrescento: todos nós temos uma viagem a Sacalina.

Mas talvez a gente precise mesmo dobrar a aposta em algo que não faz mais sentido para descobrir o que faz. Talvez a gente só se disponha a realmente romper as amarras quando elas ficam apertadas no nível do irrespirável. Talvez o sapo proverbial, que se deixa morrer na água fervida lentamente, só consiga encontrar as forças necessárias para se libertar da fervura se for colocado numa panela de pressão. É justamente isso que o retorno de Saturno é: uma panela de pressão, na qual a fervura já não pode ser ignorada, e cujo chiado permanecerá em nossa cabeça enquanto não encontrarmos uma verdadeira saída para nossos dilemas, ao invés de simplesmente aumentar o fogo, como se isso fosse resolver alguma coisa (no caso do sapo astrológico, posso adiantar que ele encontra força e inteligência para isso em Urano; escrevi sobre isso em mais detalhes aqui).

Em outras palavras. Talvez a fábrica de amianto tenha sido indispensável para que, pouco tempo depois de se meter nessa enrascada (que lhe tomava ainda mais tempo e energia), Kafka virasse uma noite escrevendo O Veredito, que viria a ser conhecido o primeiro texto importante de sua obra. A propósito, esse é um ponto importante em que a astrologia e a psicologia de C. G. Jung (com sua atenção a narrativas e processos arquetípicos) se encontram: em ambos os casos, as coisas acontecem “em direção a”, com uma finalidade, que pode ser deduzida da natureza dos arquétipos e astros em questão, mesmo quando tratamos de movimentos aparentemente contrários ao desenlace da história. No final das contas, percebemos que eles fazem parte essencial da narrativa, que cumpriram um papel importante nela.

Nessa perspectiva, Kafka não seria Kafka sem sua fábrica de amianto, Tchekhov não seria Tchekhov sem a viagem a Sacalina. Em seu caso, o absurdo da escolha e o desconforto da situação foram bem descritas em suas reações à realidade da ilha siberiana – de cheiros desagradáveis e oficiais corruptos, de barracos insalubres e crianças maltrapilhas, onde as eventuais festividades eram tristes e até mesmo as cartas de amor eram “repulsivas”. É verdade que, com o relato onde estão estes registros, a viagem cumpriu o objetivo de revelar uma realidade ignorada em Moscou e São Petersburgo, e assim a dimensão mais aquariana e política do gesto não foi totalmente desperdiçada, por mais que o mero desgosto domine algumas passagens do livro. É também verdade que essa era apenas a intenção mais visível do ato, sendo que próprio Tchekhov o atribuiu à relação nascente com Lydia, em uma carta a Helen Lintrayov: “Eu simplesmente tinha que fugir a todo custo. Fugi de sensações muito fortes como um covarde foge do campo de batalha”.

No próprio relato da viagem, por outro lado, surge já uma nova faceta do escritor. Há trechos em que Tchekhov abandona o olhar moralista e científico, ou meramente desaprovador, em favor de uma visão mais compadecida e compreensiva da condição humana, a partir do que viu na ilha. Nesse ponto, ele percebe como seria despropositada seria a ideia de converter os condenados de Sacalina a uma doutrina absolutamente distante de seu cotidiano. Nesse momento, ele, através de suas palavras, concede aos seus ‘personagens’ um pouco do calor humano que lhes era negado tanto por seus carrascos quanto por seus supostos redentores, e abandona o posto do missionário que levava a palavra de Tolstói para as criaturas perdidas naquele rincão nos escanteios do mundo, começando então a falar com a voz de Anton Tchekhov, na qual sobressaía uma visão mais empática, que não deixa de ser uma expressão de Aquário, porém mais amadurecida e calejada pelas maldades deste mundo.

De modo que, em retrospectiva, a viagem a Sacalina veio a ocupar um lugar importante na trajetória pessoal de Tchekhov, embora no sentido contrário ao de suas motivações iniciais. Um forte indício disso é o fato de que, logo após o retorno da ilha, seu primeiro movimento foi ir atrás de Lydia em São Petersburgo, declarando-se então pela primeira vez para ela, que já havia demonstrado antes disposição para renunciar a tudo para ficar com ele. Mas a essa altura era ela que já não sentia ter forças para tanto, e começaram aí os muitos anos de desencontros e hesitações, incluindo uma ocasião na qual conseguiram ficar juntos e sozinhos, mas foram surpreendidos pela visita inesperada de dois amigos, bem como o episódio em que, tomada por uma onda de paixão em confiança, Lydia enviou a Tchekhov um exemplar dos Contos Reunidos dele, com um bilhete: “Página 267, linhas 6 e 7”. A referência era a um trecho onde se lia: “Se quiser a minha vida, venha e leve-a”.

Porém, quando essa mensagem o alcançou, Tchekhov estava já acometido por uma enfermidade que, a longo prazo, viria a ser fatal, e não podia ir buscar a vida que ela lhe oferecera. Mas a transformou em ótima literatura. É importante então notar que nenhum dos tristes desdobramentos dessa história elimina a importância criativa e vital da mudança ocorrida em 1890, quando Tchekhov retorna da viagem. Podem reparar: a partir daí, as parábolas moralizantes passam a ser substituídas por narrativas em que a percepção da fragilidade da condição humana ocupa um papel central, em momento algum ultrapassado pelo julgamento sumário. As infinitas e ao mesmo tampo tão precisas nuances entre o trágico e o cômico de que talvez ele foi capaz surgiram aí. O Tchekhov que a gente mais conhece e mais estima como escritor aparece nesse momento, após o encontro com Lydia, após a viagem a Sacalina, após o retorno de Saturno.

Ou, como afirma David Magarschack, para encerrar: “A viagem em si mesma, que desconcerta seus biógrafos como desconcertou sua família e amigos, permanece um completo mistério a não ser que, como observa um recente estudioso russo, ela tenha se dado ‘por uma profunda razão pessoal’. E esta razão apenas poderia ser seu amor por uma mulher jovem e casada, que ele escondeu de todos como sempre escondia seus sentimentos íntimos do resto do mundo; pois, durante a fase tolstoiniana de sua vida, Tchekhov apenas poderia encarar uma situação como aquela com desgosto e repulsa. Como seu amor por Lydia era muito forte para ser controlado, ele resolveu fazer uma longa e árdua viagem para curá-lo. Mas o grande paradoxo é que a viagem a Sacalina produziu o efeito oposto: ela não o curou de seu amor – ela o curou de suas obsessões tolstoinianas”.

Ou, traduzindo para termos zodiacais: ela não matou o Leão que ele descobriu existir dentro de si, e sim deu a ele o alimento que vinha sendo negado. O covarde que fugiu do campo de batalha voltou cavalgando a fera selvagem da paixão que o afugentara. Nascia assim o autor de algumas das mais belas – e tristes, e difíceis – histórias de amor que conhecemos. O Saturno de Tchekhov nunca deixou de estar lá, em Leão, e haveria sempre uma espécie de sombra (realista, resignada) em sua visão do destino dos apaixonados. Porém, para que as histórias de amor simplesmente comecem, é preciso uma boa dose de otimismo e entusiasmo leonino na história. Acho que foi isso que Tchekhov sentiu ao voltar da ilha e procurar Lydia naquele ano. Por um momento ele foi puro gosto pela aventura amorosa, desejo de conquista, afirmação da vida, brilho no olhar. Se terminasse aqui (e por que não terminá-la?) essa história teria sem dúvida um final feliz. Ou, pelo menos, um final aberto, no qual pudéssemos intuir uma chance de felicidade.

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