capricórnio

A alma e as formas

A viagem dos Reis Magos (c. 1435) | Sasseta

“Não acredito nesse negócio de astrologia. Como, aliás, todo bom capricorniano”. A frase, se bem me lembro, está em um conto do Luís Fernando Veríssimo, mas é de uma ironia tão fácil e irresistível que podemos considerá-la de domínio público. Lembrei dela ao revisar esse texto que escrevi ano passado; relendo agora, e fazendo alguns ajustes, parece ter sido um esforço no sentido de justificar minha condição não apenas de capricorniano que acredita na astrologia, como também de capricorniano astrólogo. Porém, pensando agora, trata-se de algo que existe aos montes por aí, por mais que o senso comum insista em nos estranhar, e por mais que eu mesmo me sinta instado a explicar a aparente contradição entre o pragmatismo caprino e as viagens astrais. Para ficar em apenas mais dois exemplos, tem o Simon Vorster, responsável pelo Raising Vibrations, um dos mais interessantes e (claro) consistentes canais sobre astrologia no Youtube (eu apostaria num ascendente em Gêmeos, ou Libra), e a Júlia de Carvalho Hansen, que além de astróloga capricorniana é poeta com ascendente em Peixes. Ainda assim, em todos esses casos, posso garantir que se trata de gente capri até os ossos (principalmente os ossos), o que aliás não deveria surpreender o observador mais atento. Raparem: coincidência ou não, o dia do astrólogo é capricorniano.

Sim, o dia do astrólogo acontece sob o mesmo sol em que nós, os incompreendidos, fazemos aniversário. O que certamente não é uma casualidade é o fato de esse dia acontecer na mesma data da Noite de Reis, 06 de janeiro. Pois eram astrólogos persas, ou magi, os “três homens sábios” que leram os sinais dos céus para encontrar o local de nascimento do menino Jesus, segundo o Evangelho de Mateus. O império persa, vale lembrar, foi um dos que conferiu à prática da astrologia um amplo papel social, depois do babilônico e do egípcio. Seus magos eram reconhecidos no oriente como sábios não apenas pelos conhecimentos técnicos e científicos que acumularam, como também pela participação em momentos chave da vida política da região. É possível inclusive que o evangelista os tenha incluído na história de Cristo para conferir maior legitimidade à sua narrativa – sobretudo se considerarmos a possibilidade de Mateus ter sido capricorniano também, uma vez que a gente costuma mesmo fazer referência à tradição para sustentar nossos pontos de vista. No mínimo, temos o hábito de salpicar aqui e ali em nossos textos uns nomes e obras já reconhecidos, ou então de desconhecidos supostamente veneráveis, para passar a impressão de que a gente sabe do que está falando, ou pelo menos conhece quem sabe.

A propósito, e já que mencionei os astrólogos persas e tal: Criação, de Gore Vidal, é um belo romance histórico sobre a Pérsia e arredores alguns séculos antes do nascimento de Cristo. Ele se passa durante o reinado de Xerxes, portanto no século V a.c., e é narrado por um embaixador do império nas terras do oriente e do ocidente, que durante suas viagens entra em contato com personagens como Sócrates, Buda e Confúcio. Pois esse foi o período em que foram concebidas as transformações filosóficas, espirituais e políticas que mudaram o curso do mundo antigo e criaram os fundamentos de muito do que veio a seguir (falei com mais detalhe sobre isso na postagem sobre o fim da Era de Peixes e o início da Era de Aquário, que deixei aqui outro dia). Com a astrologia não poderia ser diferente, de modo que, nesse intervalo, até a queda do Império Romano, estabeleceram-se não apenas uma, mas diversas e antinômicas bases possíveis – éticas, científicas, espirituais – pelas quais podemos hoje nos guiar no estudo dos astros.

A antiguidade astrológica deixou então como legado vários livros e nomes importantes, nos quais o ramo capricorniano da astrologia pode se ancorar com confiança para estabelecer os alicerces de sua prática. Mas gostaria de mencionar agora particularmente um deles, hoje menos conhecido, talvez até obscuro, mas venerável o suficiente para dar crédito ao meu argumento da relação entre a astrologia e o capricornianismo. Estou me referindo a Jâmblico, ou Iamblichus, um filósofo e astrólogo de origem síria que veio a ser também biógrafo de Pitágoras, e que, até determinado ponto, seguiu filósofos neoplatônicos como Plotino e Porfírio em suas reflexões sobre os possíveis caminhos e saídas para que a alma encarcerada no mundo físico pudesse dele escapar. Mas, no decorrer de seus estudos – e esse é o ponto a ser ressaltado -, Jâmblico concluiu que a vinculação da alma à matéria não era de todo indesejável, possuindo potencialidades que estavam ainda por ser exploradas, o que justificava o aprimoramento dos instrumentos de orientação adequados para essas paragens sublunares.

Ele assim sugeriu que o instante do nascimento de indivíduo era de enorme importância, pois nele as potencialidades de desenvolvimento da alma em um determinado corpo ficavam estabelecidas de acordo como retrato do movimento dos planetas. Esse retrato, por sua vez, representava um ideal ao qual a experiência humana podia apenas almejar – mas não devia deixar de almejar. O estudo da astrologia serviria para que a alma encontrasse a melhor maneira de expressar-se e aprimorar-se, dadas as condições de uma configuração planetária ao mesmo tempo eterna e momentânea. Desse modo, a composição alma/corpo individual não estava exatamente submetida à dinâmica celeste como uma fatalidade imposta desde cima: ela era essa dinâmica, e ao mesmo tempo uma manifestação parcial dela aqui nesse mundo, que contava com as pistas deixadas lá em cima para reencontrar-se consigo mesma.

Hoje em dia, há quem pense que os adeptos da astrologia buscam uma espécie de fuga dos sofrimentos e das dificuldades da vida terrena, recorrendo a superstições para não ter que encarar a falta de sentido em um mundo desencantado. Essa caricatura escapista corresponde a um determinado estereótipo do jovem místico. Outros entendem que a astrologia até funciona, e pode funcionar muito bem, mas não tem dimensão ética alguma, e é somente uma técnica que pode estar a serviço dos objetivos menos nobres; nesse âmbito ela pode até ser associada à proverbiais ambições mais pragmáticas e capricornianas. Nesse contexto, a posição Jâmblico representa uma alternativa interessante, uma vez que reafirma o valor do mundo físico tal como o conhecemos, e ao mesmo tempo indica que ele pode sim orientar-se eticamente de acordo com coordenadas astrológicas. Robert Hand desenvolveu o ponto com o caloroso brilhantismo de um sagitariano com ascendente em Câncer, na conferência intitulada Astrology, Morality, and Ethics, proferida em 2007. Mas creio que aqui se torna possível pensar novamente em Capricórnio, não como um estereótipo, mas como uma experiência arquetípica na qual todos nós em algum momento da vida podemos nos reconhecer.

De um modo geral, e ao mesmo tempo bastante específico, estou falando da experiência deste mundo e da experiência neste mundo. Poucas coisas são mais diretamente associadas ao signo de Saturno do que tal concepção da vida mundana como algo que tem valor em si mesmo, incluindo aí aquilo que manifestamos em termos de aprimoramento e evolução nos limites dessa existência. Nessa perspectiva, faz sentido que a astrologia seja comemorada em uma data capricorniana, pois Capricórnio é sobre honrar o mundo físico, desenvolver suas potencialidades, aproveitar seus recursos com inteligência, e entender que suas limitações são a única maneira pela qual a alma passa a existir nas formas. Disso tudo se deduz a possibilidade de um determinado comportamento moral, sem que precise ser moralista; a ética capricorniana passa pelo real e não deixa nunca de utilizá-lo como ponto de partida, mas tem como ponto de chegada uma versão diferente e melhor da realidade; assim, longe de conferir à matéria um aspecto vil e decaído, Capricórnio mostra como ela é justamente o veículo pelo qual conhecemos o espírito.

Ao mesmo tempo, existe uma resignação tipicamente capricorniana, na linha do “foi o que deu pra fazer no pé em que as coisas estão”, que não deixa de ter sua dose de leveza e libertação dos imperativos categóricos de aprimoramento do mundo. Pese um pouco mais a mão nesse sentido, porém, e a resignação se torna nosso famoso baixo astral – Capricórnio pode ser, sim, um signo pesado. Isso acontece sempre que faz o caminho inverso do mencionado, e, no lugar do esforço de transformação da matéria com suas próprias mãos, traz para o chão, por força de sua gravidade, tudo aquilo que lhe parece de um idealismo sem bases no mundo concreto. Aqui reencontramos o capricorniano cético e melancólico da frase lá do começo, agora sem o bem humorado reconhecimento de sua ambivalência. Mas algum grau de melancolia sempre vai fazer parte de nosso repertório, junto com a ironia e o esforço em tornar a experiência mundana mais digna e, quem sabe, sagrada. Curiosamente, talvez isso nos diga algo também sobre a história de um deus que encarna em um corpo humano, e termina por ter a data de seu nascimento associada a esse arquétipo. Sua história termina com uma pesadíssima cruz na qual ele está preso como uma alma estaria presa ao corpo humano, segundo os neoplatônicos; mas ela começa com a infusão de uma alma divina em um corpo humano, de tal modo que sua carne e pele e ossos não são um obstáculo a ser recusado ou um pecado merecedor de flagelos. São justamente um instrumento que a Alma encontrou para se movimentar entre nós.

Por último, queria enfatizar que o ethos do aconselhamento astrológico não prevê nunca uma recomendação de renúncia ao mundo e seus desejos, ambições e disputas. Mas acredito ser papel do astrólogo (inclusive do astrólogo capricorniano) identificar quais desejos, ambições e disputas recebem o suporte do retrato tirado do cosmos no instante do nascimento de um indivíduo, e quais atendem a impulsos que talvez não tenham o mesmo estímulo. É como se os ciclos planetários formassem uma intrincada rede de fluxos para a qual buscamos uma espécie de adaptação do corpo, embora o corpo neles esteja imerso o tempo inteiro, e esteja ativamente engajado nessa adaptação, não tendo como escapar das contradições do mundo nem querendo – o que torna tão mais significativa a possibilidade de acompanhá-los como quem participa de uma espécie de dança. É claro que há sempre algum grau de conflito e a possibilidade de tropeços, o que torna tudo mais difícil, interessante e divertido, no que diz respeito à imensa riqueza dos passos que somos convidados a dar.

Uma coisa é certa: o fatalismo que a astrologia antiga ou medieval conheceu tem um papel restrito nos atendimentos hoje em dia, pelo menos nos meus (mais informações sobre leituras e consultas, aqui). Por outro lado, existe certa tendência em consentir com o uso da astrologia para finalidades desprovidas de qualquer justificativa moral, como se fosse apenas uma técnica isenta de premissas e implicações nesse campo, o que tampouco me parece apropriado, dada a premissa de que é possível conciliar interesses pessoais com os interesses do cosmos, o que aliás é um boa definição do resultado de uma boa leitura. Mas atenção: do ponto de vista do indivíduo, esse resultado não se traduz nem entusiasmo, nem em uma triste aceitação das coisas como elas são, mas em uma relação mais pacificada com o real e o possível, que seja também revigorante na mobilização das energias disponíveis para a mudança e para as conquistas que almejamos. Eu pelo menos entendo assim.

Por fim, o fato de poder verificar, diariamente, algumas confirmações exatas da interação entre assuntos humanos e símbolos cósmicos (inclusive e talvez sobretudo quando se trata de temas bem concretos e imediatos), é para mim motivo mais do que suficiente o mergulho nesse mundo da linguagem astrológica como meio para encontrarmos as mais perenes verdades. Por ora, entretanto, bastam-me as verdades provisórias com que me deparei para suspeitar de que um astrólogo sírio que viveu há mais de dois mil anos tem algo de muito certeiro para dizer sobre nossa prática hoje. Talvez eu não saiba ainda expressar com total exatidão o que vejo de tão correto em sua perspectiva, mas vou continuar tentando, por isso peguei esse texto para revisar e acabei praticamente o reescrevendo, com o propósito de tentar me aproximar um pouco mais do espírito que o animou, através da carne da palavra. Acho que consegui melhorar um pouco o texto, e estou meio feliz e meio resignado com o que deu pra fazer. Vida que segue. Feliz dia do astrólogo capricorniano.

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